Transcrito para uso do projeto Dicionário Histórico de Termos da Biologia (https://dicbio.fflch.usp.br/), coordenado pelo Prof. Dr. Bruno Oliveira Maroneze.
BROTERO, Felix Avellar . Compendio de Botanica . Tomo primeiro . Paris : Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros, 1788 . Disponível em: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/index.html.A ortografia original da obra foi mantida sempre que possível. Procurou-se manter as letras ligadas œ e æ nas transcrições dos nomes em latim.
As quebras de página foram inseridas apenas no texto principal, não nas notas de rodapé. Quando a quebra de página ocorre no meio de uma palavra, o elemento pb foi incluído antes da palavra, de modo a não quebrá-la.
A numeração das páginas no original impresso contém erros. Após a página 368, a página que deveria ser 369 está numerada como 399, e assim por diante, até a página 400. As páginas erradas estão marcadas com o atributo ana e a indicação "PaginacaoErronea" nos elementos pb .
As imagens (fac-símiles) das páginas da obra estão hospedadas no repositório digital da Universidade de Coimbra. O URL de cada imagem segue o padrão: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/UCFCTBt-B-78-1-15/UCFCTBt-B-78-1-15_item1/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG_24-C-R0120/UCFCTBt-B-78-1-15_XXXX_PAGE_t24-C-R0120.jpg , onde XXXX é um número sequencial e PAGE é o número da página, seja em romanos, seja em arábicos. Neste arquivo transcrito, cada elemento pb , bem como o elemento titlePage , contém o atributo facs com o endereço URL do arquivo da imagem correspondente à página em questão.
Este arquivo foi produzido para uso no projeto "Dicionário Histórico de Termos da Biologia", acessível pelo site https://dicbio.fflch.usp.br/.
COMPENDIO DE BOTANICA , ou Noções elementares d'esta sciencia, segundo os melhores escriptores modernos, expostas na Lingua Portugueza Por FELIX AVELLAR BROTERO . TOMO PRIMEIRO.Perfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor.
PARIS . Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros. M,DCC,LXXXVIII. [Página iii]AO ILLUSTRISSIMO E EXCELLENTISSIMO SENHOR D. VICENTE DE SOUSA COUTINHO, Do Conselho de S. Magestade Fidelissima, Seu Embaxador na Côrte de Versalhes, Senhor de Alva, etc. etc.
EXC.mo SENHOR,
Aindaque nam concorressem em V. Exc. o esplendor do emprego, a consumada pericia nos negocios politicos, e a gloria de illustres Ascendentes, bastara à grande humanidade para com os desgraçados, o agradavel acolhimento que costuma fazer â todos os seus Compatriotas, os generosos sentimentos com que se digna favorecer os homens de Lettras, às quaes V. Exc. faz tanta honra, bastaram muitas outras admiraveis virtudes, que ornam o espirito de V. Exc. para dar-lhe hum nome preclaro, recommendavel à [Página iv] posteridade, e digno das homenagens de todos os sabios. Dezejara ser assaz feliz para achar em meus talentos hum obsequio adequado a tam bellas qualidades: mas sendo V. Exc. servido de acceitar o que présentemente lhe faço na dedicaçam dos fructos do meu trabalho sobre a Sciencia dos Vegetaes, permittirà hum fraco testemunho à minha gratidam, augmentarà o numero das demonstraçoens de benevolencia, com que costuma acolher tudo o que o zelo e amor do bem publico fazem emprehender, e protegerà ao mesmo tempo huma Sciencia, cuja utilidade he bem reconhecida pela frequencia com que he applicada à Medecina, Agricultura, e Artes.
DE V. EXC. O mais affectuoso e reverente servo, Felix Avellar Brotero.
[Página v]Quæso, ne hæc legentes, quoniam ex his spernunt multa, etiam relata fastidio damnent, cum in contemplatione naturæ nihil possit videri supervacuum, Plin.
A Botanica como todas as mais partes de Historia natural sam hoje em toda a Europa summamente cultivadas pelo muito que sam uteis ao progresso dos conhecimentos humanos, e às commodidades da vida social. O estudo botanico reune à sua utilidade hum superior grao de agradavel, a immensidade dos entes vegetativos, que de contino renovam a face da Terra, sendo hum dos mais bellos e amenos expectaculos, que nos prezenta a natureza, hum vastissimo campo, em que os olhos de hum attento observador encontram a cada passo maravilhas sem numero variadas, objectos de profundas meditaçoens, que engrandecem o espirito, e o elevam athé à firme persuasam de hum Deos, Autor do Universo. Grandes homens tem cultivado este campo com cuidado, e os seus trabalhos fizeram que os conhecimentos botanicos, algum dia tam limitados e confusos, tem adquirido huma nam pequena extensam e clareza. Conhecemos hoje mais da metade das plantas do globo terrestre, e temos prezentemente muitos methodos ou systemas, e muitas obras elementares de Botanica tanto em latim, como em quasi todas as linguas modernas da Europa.
Entre nòs contudo os principios desta Sciencia tem sido athe agora somente conhecidos em latim, e daqui resulta que todos os que ignoram esta lingua, ou tem fracas luzes della, ficam privados de adquirir as noçoens de huma Sciencia, que [Página vi] muitas vezes em razam do seu estado lhes sam absolutamente necessarias.
Dezejando pois obviar este obstaculo, e facilitar geralmente o estudo dos vegetaes entre nos, cuidei de escrever o prezente Compendio fundado nos tractados dos melhores Botanicos modernos e nas minhas proprias observacoens, o qual, segundo me parece, poderà ser util nam so aos que ignoram a lingua latina, mas ainda aos que a sabem e tem ja alguns conhecimentos em Botanica .
No principio do primeiro Volume tracto da origem, progresso, e estado actual da Botanica , e dou humas breves noçoens da physiologia e anatomia dos vegetaes. Explico depois os termos technicos mais usados na descripçam das partes relativas ao seu habito externo e fructificaçam, sem desprezar contudo os que dizem respeito à sua habitaçam. Passo na parte seguinte a fazer mençam do que me pareceo ser sufficiente para entender qualquer systema botanico e suas partes, como tambem da theoria critica, que devem saber os que se proposerem de formar esta sorte de destribuiçoens methodicas. Ajuntei a esta parte alguns exemplos de practica sobre a descripçam das especies, por querer facilitar hum trabalho, que considero como base dos Methodos, e o mais digno dos principaes cuidados de todo o Naturalista Botanico. Termino o volume com algumas reflexoens sobre as virtudes, propriedades, e usos dos vegetaes em geral, e com hum capitulo sobre o modo de fazer hum hervario.
No Segundo Tomo exponho o systema de Linneo, e dou huma idea geral da sua praxe, por ser hoje o mais seguido na Europa, e o que se adoptou na nossa Universidade. Esta exposiçam em alguns lugares he muito mais ampla do que ordinariamente se costuma dar; porquanto tive o cuidado de nada omittir do que as minhas proprias observaçoens e as de [Página vii] outros botanicos modernos me subministraram de mais interessante para illuminala. Ajuntei depois os sentimenots de muitos celebres Botanicos a respeito do mesmo systema para que o Leitor tendo conhecido as suas engenhosas vantagens nam ignorasse os seus defeitos, e podesse estima-lo segundo o seu justo valor.
As difficuldades, que encontram os que começam a cultivar a Sciencia botanica, seram diminuidas por meyo do Diccionario immediatamente adjuncto; e a fim de que o prezente tractado fosse ainda mais proveitoso, ajuntei tambem no fim deste segundo Tomo hum catalogo dos principaes autores botanicos, hum sufficiente numero de Estampas tiradas das obras de Linneo e outros modernos para clara intelligencia de muitos termos, hum index dos nomes usuaes Portuguezes de plantas, os quaes se acham nos livros escritos na lingua nacional, e em Grisley, Pisam, Marcgrave, Rheede, Rumphio, etc, com os nomes latinos genericos e triviaes, a que correspondem segundo o systema de Linneo; outro em fim dos termos technicos Portuguezes.
Cuidei de distribuir todas as partes do primeiro Tomo o mais methodicamente que me foy possivel, nam me querendo por ora desviar muito do plano que costuma seguirse hoje nas escolas de Botanica. Nam posso contudo deixar de confessar que este plano nam he o que mais me agrada, e espero algum dia de o mudar, se poder chegar a publicar os Elementos de Phytologia , que preparo em latim.
Na traducçam dos termos latinos segui os nossos Diccionarios, e me aproveitei de algumas palavras dispersas pelas nossas Provincias, que senam acham ainda em Diccionario algum; muitas vezes fui obrigado a formar novas do latim, como faziam os antigos Romanos do Grego, e como fez Barnades em Hespanhol, Lée em Inglez, Dalibard e La Mark [Página viii] em Francez, etc. Talvez serei em algumas notado pelo vulgo; mas pouco importa; todos os termos que formei tem o cunho Portuguez, e foram innovados segundo o genio da Lingua; demais disso as linguas das Sciencias sam hum puro effeito da convençam dos sabios, e nam poderam jamais ser a linguagem do vulgo, que nam as estuda e so as conhece athe hum certo ponto: a necessidade de explicar com clareza, concisam, e propriodade huma infinidade de ideas, que elle nam tem, farà sempre em todas as Sciencias termos barbaros aos seus ouvidos, e indespensaveis aos sabios ou aos que sam nellas iniciados.
Depois de ter vendido o Manuscripto da prezente Obra, achei acertado acerescentarlhe algumas notas para lhe dar o complemento necessario, e nam receyo actualmente de assegurar que sem embargo de ser hum Compendio, o Leitor nam acharà tractado algum elementar de Botanica mais completo de quantos se tem athe agora publicado.
[Página ix] O Estudo dos vegetaes he tam antigo como a especie humana, ella parece ter
sido obrigada a adquirir ideas particulares destes entes antes de todos os
mais conhecimentos da natureza. Se consultamos a Sagrada Historia, ella nos presenta o primeiro homem no meyo
de hum delicioso jardim, nutrindo-se de hervas As folhas da bananeira
(Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e
Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ
figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o
sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez
e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura
proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ
facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ
foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil,
visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e
tres de largo. Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super
terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem
generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes
herbas terræ, (Genes. Cap. 3.). Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens
usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta
permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca,
quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit
vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ
menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta
estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ
podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e
d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar
das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros. Nota
Nota
Nota
Nota
Panis erant primis virides mortalibus herbæ. Ovid Fast. L. 4. Cum
hontines pastoriciam vitam agerent, neque scirent etiam arare terram....
ut ex arboribus, ac virguliis decerpendo glandem, arbutum, mora, pomaque
colligerent ad usum. Varro de Re rust. L. 1. 2. Alguns philosophos da
antiguidade naõ se contentaraõ meramente de seguir esta opiniaõ,
elles foraõ de parecer que o homem tinha sido formado para se nutrir
somente de vegetaes, e que elle devia respeitar a vida de todos os
animaes; estes sentimentos passaraõ mesmo a ser hum artigo de
Religiaõ entre algumas naçoens, e delles vemos ainda hoje alguns
restos na India.
Mas os alimentos nam foram o unico motivo, que obrigou os primeiros homens a
familiarizar-se com os vegetaes; as suas enfermidades deram ainda novas
razoens para isso, e nam menos forçosas. He verdade que a historia e antigos Poetas Nota
Vej. Entre outros Hesiodo e
Ovidio.Nota
Naõ consta que tenha havido athe agora povo algum civilizado, ou
selvagem, em que deixassem mais ou menos de haver contendas sanguinarias
ou entre si ou contra seus vizinhos: nos vemos ainda dissensoẽs mais ou
menos fortes entre irmaõs, e familias que vivem nas cidades policiadas,
e apezar dos innocentes costumes attribuidos às familias primitivas, naõ
deixamos de ver na primeira hum dos mais funestos exemplos das paxoẽs
humanas.Nota
Naõ so quanto ao moral, mas ainda quanto ao physico, sendo assaz
conhecido pela experiencia que a colera, medo, tristeza ou alegria
demasiadas, e outras paxoẽs podem causar na economia animal
desordens consideraveis, e ainda mesmo funestas.
Nos seculos antediluvianos o pequeno progresso, que o espirito humano fez nas
artes, foy sempre a par com o conhecimento dos vegetaes. Se consideramos as primeiras famílias na vida pastoril ou errando em bandos,
nam se pode negar que esse estado fosse favoravel a hum semelhante
conhecimento; ellas eram entam obrigadas a converter differentes plantas em
cabanas, para se reparar das chuvas e injurias da atmosphera, e à proporçam
que mudavam de lugares se viam precisadas a fazer tentativas de novas
producçoens vegetaes para nutrirse e curarse, guiadas ora pela semelhança
das que jà conheciam, ora pelo instincto Nota
O instincto dos animaes,
aindaque limitado a suas absolutas precisoẽs e susceptivel de pouco
progresso, parece às vezes ser superior ao juizo dos homens; estes se
serviraõ delle com felicidade em algumas occasioẽs naõ so para fazer
escolha de alimentos, mas ainda para reconhecer as virtudes de alguns
vegetaes. Plinio foy de parecer que o caõ tinha ensinado a vomitar o
homem. Nota
O primeiro
Lavrador, segundo lemos no Genesis - foy Cain: Cain fuit agricola &
terrem etiam arare primus excogitavit. Os Egypicos, que se jactavaõ
de ser os mais antigos povos da terra, e descender de Entes Divinos,
veneraraõ a Isis como inventora da cultura do trigo e cevada, e ao
Arabe Osiris por lhes ter primeiro ensinado o uso do arado e
agricultura. Os antigos Gregos e Romanos pertendiaõ que a agricultura succedera a
vida pastoril, em que as primitivas geraçoẽs se occuparaõ durante
muitos seculos; e criaõ que fora Ceres quem a ensinara na Grecia
depois de ter vindo do Egypto; outros contudo seguiraõ que Buzyges
ou Triptolemo fora o que a estabeceo entre os Gregos. Nota
As mesmas plantas
venenosas podiaõ ainda nesse tempo ser aproveitadas para hervar as
settas e outros usos vingativos, da mesma sorte que as vemos hoje
empregadas entre as naçoens selvagens.
Depois da grande e lastimosa catastrophe dos povos do antigo Globo vemos Noé plantar huma vinha, e na tentativa com que descobrio o vinho, mostra ter conservado o espirito investigador dos usos dos vegetaes e seus productos, que tinha havido nos seculos antediluvianos. Nem se pode duvidar que na sua familia se salvasse huma grande parte das antigas tradiçoens botanicas, e que estas passassem depois igualmente aos seus vindoiros. O grande empenho de Rachel por obter huma [Página xiv] das mandràgoras, que Reuben tinha trazido do campo, provavelmente procedeo da persuasam em que ella estava da efficacia desta planta contra a esterilidade, o que suppoem por conseguinte noçoens estabelecidas das virtudes de alguns vegetaes. Os Egypcios, huma das mais antigas naçoens civilizadas, sam representados na historia como tendo vivido do Lotus (de que faziam huma especie de pam), e dos talos do Papyrus. A agricultura, a arte de embalsamar os cadaveres com substancias resinosas e aromaticas usada por este povo desde hum tempo immemorial, ocustume de expor os seus doentes à vista publica, a fim de que as pessoas que junto delles passassem lhes subministrassem os soccorros que para suas enfermidades reconheciam nos vegetaes, indicam claramente que as tradiçoens botanicas se tinham conservado no Egypto, e adiantado. Estas tradiçoens poderiam ter diminuido entre as naçoens menos cultas e entre os povos de vida errante, mas ellas nam podiam ser de todo extinctas, visto serem sumamente interessantes à sua subsistencia e à sua saude.
A historia nam nos assegura de que as tradiçoens sobre os usos tanto
economicos como medicinaes das plantas passassem a ser escriptos nos primeiros seculos depois da horrivel
catastrophe do diluvio. Parece contudo que a Botanica medicinal traditiva nam tardou muitos seculos
depois da dispersam das gentes em ser escripta entre as naçoens civilizadas,
principalmente no Egypto. Neste paiz as plantas efficazes sendo ja conhecidas em grande numero, os
sacerdotes tractaram de redigir os seus nomes a huma certa ordem ou
catalogo, e o depositaram nos templos. Os doentes começaram entam a recorrer a elles, como depositarios dos remedios
proprios para suas enfermidades, e pouco a pouco a arte de curar com os
vegetaes, a que todo o curativo das doenças estava entam limitado, veyo a
ficar somente aos sacerdotes, e a fazer parte do seu sistema [Página xv] religioso. Elles tractaram quanto lhes foy possivel de adiantar os seus conhecimentos na
Botanica medicinal; e com effeito ella foy entre os antigos Egypcios huma
das artes mais cultivadas e honrosas. Hermes, a quem os Gregos chamaram Mercurio, e de quem a mercurial deriva o
nome, foy hum dos mais antigos e famosos sabios nesta arte. A rainha Isis foy nella tam instruida e por meyo della fez curas tam
admiraveis, que os povos depois da sua morte lhe erigiram templos,
adorando-a como a melhor advogada nas suas enfermidades. Ella foy a que instruio a Horo ou o Apollo dos Gregos, ao qual elles
attribuiram a invençam da Medicina. Esculapio Nota
Este Esculapio viveo dois mil annos antes de Hjppocrates, e naõ deve
ser confundido com o Esculapio dos Gregos, que dizem fora discipulo
de Chiron o Centauro, e ter servido na expediçaõ Argonautica. Nota
Esta
persuasaõ foy depois bem geral em todo o antigo paganismo, e Celso a
idica claramente, quando diz: morbos vero iram
deorum immortalium relatos & ab eisdem opem posci
solitam.
Os Magos na Persia, os Gymnosophistas na India, e os Caldeos na Assyria e
Babylonia applicados no principio a observar puramente o que lhes offerecia
a candida natureza nos vegetaes introduziram tambem, como os Egypcios, em
botanica hum grande número de superstiçoens. As colonias, que emigraram destes paizes nam podiam deixar de levar comsigo
mais ou menos noçoens de hum semelhante abuso. Estas noçoens com effeito passaram athe à extremidade gelada do antigo
continente oriental e de là a America com o nome de superstiçam de Chemis,
Orchis, e outras divindades. Do Egypto nam so passaram a toda a Africa, mas caminhando ao longo das costas
do Mediterrâneo entraram na Phenicia e depois na Grecia, aonde augmentando
pouco a pouco tomaram emfim o nome de superstiçam de Esculapio. Ellas se espalharam igualmente nas Gallias, e dellas correram athe ao norte
da Europa com o titulo de Druidismo Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes
muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio
hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ
ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca,
mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e
passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se
fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava
vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses
huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era
taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e
extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de
colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido
lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em
razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as
ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que
pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex.
contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa
contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra
toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque
consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de
visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os
destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa
estrea. Nota
Lemos na historia destes obscuros, e supersticiosos tempos que hum certo
numero de plantas fora entam consagrado aos
Deoses por motivos religiosos Felices gentes, queis dî nascuntur in
hortis! Nota
Como foraõ por ex. a artemisia,
consagrada a Artemis ou Diana (porque naõ derivou o nome de Artemisia
mulher de Mausolo, rey de Caria, como Plinio e outros disseraõ); a hera
a Osiris e a Bacho; o pinheiro a Neptuno; o loireiro a Apollo, a sua
baga a Bacho, donde lhe veyo o nome de bacca; a videira ao mesmo deos
Bacho; a oliveira e matricaria a Pallas; o trigo a Ceres,
&c.Nota
Como foraõ por ex. os alhos e cebolas entre os Egypcios cujas
divindades eraõ ainda adoradas no tempo de Iuvenal, como - se collige do
satyrico verso, com que as ridicularizou e aos seus adoradores:
Portanto a botanica supersticiosa, cuja origem pode em [Página xviii] geral ser attribuida à ignorancia, temor, e embuste, parece ter-se
introduzido progressivamente entre todas as antigas naçoens, e nos
observamos ainda hoje hum resto della nos pòvos selvagens, e na plebe de
alguns paizes civilizados Nota
Tal e por ex. o uso de passar por entre hum vime fendido as creanças
com enfermidades herniaes [ou quebradas, segundo a expressaõ vulgar]
de ligar depois o dicto vime om as tiras da sua camizinha a fim de
as curar; como taõbem o uso de colher plantas medicinaes, em certas noytes de Junho, noytes
famosas na antiguidade antechristaã pelas fogueiras que nellas se
faziaõ a Ceres, deosa das searas, com palha de faveiras, ervilhas,
&c, e pelo costume de saltar por cima das dictas fogueiras para
assim expiar os peccados sobre o fogo, como diz expressamente
Plutarcho. Nota
Como foy taõbem a das Druidezas nas ilhas das
Gallias, e a das Cuthites em alguns lugares da costa do
Mediterraneo.Nota
Do ministerio supersticioso, que estas personagens exerciaõ com os
vegetaes, principalmente os que obraõ com força sobre o systema
nervoso, se originou provavelmente o grande numero de metamorphoses
e muitas fabulas, e prestigios, que a Poesia nos transmittio. Quem bem reflectir no que a credulidade de muitas pessoas attribue
ainda hoje as ànacardinas, e attender aos effeitos dos aromas, do
vinho, opio e outros narcoticos, á singularidade de huma especie de
Arum, que segundo Sloane faz emmudecer, &c., naõ acharà estranho
este meu parecer.
Perto da famosa epoca da guerra de Troya, Chiron o Centauro, do qual a planta
Centaurea obteve o nome, parece ter practicado sem superstiçam a botanica
curativa, em que tinha grandes conhecimentos. Elle formou muitos illustres alumnos, entre os quaes se contam alguns
Princepes; porquanto naquelles heroicos tempos a Botanica curativa tinha
parte na educaçam dos soberanos, e todos os grandes homens cuidavam entam
summamente de grangear a estima a amor dos- povos buscando meyos de os
aliviar nas suas enfermidades Nota
Naõ so nesta epoca, mas ainda antes
della, e em outros seculos seguintes, muitos principes e grandes
personagens cultivarão o estudo dos vegetaes, descobriraõ e poseraõ em
uso as virtudes de alguns, como foraõ, por ex. Teucro Rey de Troya,
Helena raynha de Lacedemonia, Ptolomeo Philadelpho Rey do Egypto,
Telepho Rey de Misia, Eupator Rey do Ponto, Lysimacho Rey de Thracia,
Gencio Rey de Esclavonia, Pharnaces Rey do Ponto, &c., dos quaes
tomaraõ o nome as plantas Teucrium, Helenium, Philadelphus Telephium,
Eupatorium, Lysimachia, Gentiana, e Pharnaceum. Cyro Rey dos Persas teve
hum jardim de toda a sorte de plantas, que cultivava por sua propria
maõ, Attalo Rey dos Pergamenos mandou plantar no seu jardim toda a casta
de plantas medicinaes e venenosas para as apprender a destinguir.
Mithridates, Rey do Ponto, cultivou muito este estudo, e Cratevas lhe
dedicou a planta Mithridatia. Evax, Rey dos Árabes, escreveo sobre as
plantas medicinaes. Iuba, Rey da Mauritania, escreveo da Euphorbia
contra os venenos, e lhe deo o nome do seu medico Euphorbo, que a tinha
descoberto, no tempo em que Augusto Cesar tinha mandado erigir huma
estatua a Antonio Musa, irmaõ do dicto Euphorbo, pelo ter curado huma
perigosa enfermidade.
Durante a guerra de Troya Nota
Esta famosa guerra succedeo quasi doze seculos antes da Era
Christaã. Nota
Foy o Esculapio dos Gregos, cuja sciencia na arte de curar lhe
grangeou honras divinas, como ella tinha grangeado ao dos
Egypcios.
No espaço entre a guerra de Troya e de Peloponeso, que envolve hum periodo de
mais de sette centos annos, Thales e Pythagoras trazendo a philosophia à
Grecia, a Botanica começou a ser melhor cultivada, como o foram as demais
artes; e as substancias vegetaes, como medicamentos internos Nota
Alguns autores saõ de parecer que as subftancias vegetaes começaraõ a
ser empregadas no uso interno somente neste periodo, e que ainda
mesmo no tempo da guerra de Troya se practicasse somente a botanica
cirurgica, e naõ a medicinal; que a bebida de Machaon devia ser
considerada como nutritiva e naõ como medicinal; que os doentes
estavaõ taõ fora de confiarem entaõ em remedios internos, que nos
cazos em que estes deviaõ ser tomados, so tinhaõ fé em amuletos, e
prestigios ou na articulaçaõ de certas palavras proferidas por seus
sacerdotesve sacerdotizas, as quaes às vezes eraõ acompanhadas de
remedios externos vegetaes; que todas as feridas dos heroes Gregos
na guerra Troyana foraõ curadas com remedios applicados
exteriormente, a saber, succos, resinas, e oleos vegetaes, e que por
conseguinte todo o curativo fora meramente cirurgico; que o vinho
que Agamemnaõ bebia em jejum naõ era no intuito de se preserva da peste [sem embargo de que vemos
este uso nos Gregos modernos] porquanto a peste do exercito Grego
fora considerada como hum flagello celeste, e naõ pôde ainda nesta
epoca ser curada por meyos physicos, recorrendo-se somente a
propiciar o Deos irado. Outros pelo contrario pertendem que junto da guerra de Troya a
Medicina do Egypto começara a ser cultivada entre os Gregos; que
fora entaõ que o acazo fizera descobrir ao pastor Melampo a virtude
do helleboro negro, notando que as cabras tendo comido desta planta
eraõ purgadas, o que o moveo a dar o leite dellas às filhas de Rey
Proeto, que eraõ hystericas e se julgavaõ mudadas em vaccas; que a
preparaçaõ, que Hellena fazia da herva entaõ denominada Nepenthes,
era o ópio, &c. Sem embargo de que estas opinioẽs tenhaõ sido seguidas por pessoas de
grande merecimento, as razoẽs em que ellas saõ fundadas naõ me
parecem sufficientes para persuadirme que a Medicina entre os Gregos
naõ date de mais alta antiguidade, ou que fosse filha da
Cirurgia. Eu penso que estas artes foraõ contemporaneas entre todas as nações,
e tiveraõ taõ alta origem como a Botanica, que na infancia das
dictas naçoẽs e durante numerosos seculos naõ foy outra coiza senaõ
hum conhecimento dos vegetaes applicado às artes. A intemperie do ar, mudança das estaçoẽs, venenos, maos fructos,
&c. em todas as epocas da existencia humana, e em todos os
paizes deviaõ causar aos seus habitantes molestias internas que
exigissem medicamentos internos ou da Medicina assim como as
contusoẽs, feridas, &c. exigiaõ os da Cirurgia, e naõ he
verosimil que o homem taõ familiarizado com o uso dos vegetaes naõ
cuidasse de buscar nelles remedios internos nos cazos desesperados,
tentando de tomar cozimentos, gomas, sumos de hervas, &c., assim
como os tentara nas molestias denominadas externas. Eu naõ duvido que as primitivas geraçoẽs usassem primeiramente como
medicamentos internos so das partes daquellas mesmas plantas, de que
se serviaõ como alimentos, e que elles muitas vezes fossem
inefficazes; mas basta que elles as tomassem como medicamentos para
considerarmos a Medicina contemporanea da Cirurgia ou como sendo a
mesma arte entaõ reunida. No descobrimento que fez Noé do vinho vemos huma clara prova das
tentativas que os homens faziaõ por descobrir novos usos nutritivos
nos vegetaes; e porque naõ fariaõ elles em todo o tempo as mesmas
por descobrir os seus usos curativos internos por escapar à dor, e á
morte? O uso dos medicamentos internos, que se tem observado nalgumas naçoẽs
selvagens, naõ nos indica o contrario. Nota
Nos perdemos nam so os escritos deste philosopho, mas ainda os de
muitos outros que tinham tractado dos vegetaes, como foram Lino e
Orpheo seu discipulo, Museo, Zoroastres, Euriphantes, Solon,
Dieuches, Praxagoras, Diocles, Herophilo, Metrodoro, Diagoras,
Epimenides que pela paxam pelo estudo das plantas viveo muitos annos
retirado nas montanhas, os de Archigenes, Androcides, Philippe,
Chrisippo, Callimacho, Asclepiades, Archilocho, Evax rey dos Arabes,
Temison, Dionysio, Glauco, Glaucias, Erasiatrato, Plistonico,
Sosimenes, Androcio, &c. como lemos em Theophrasto, Celso,
Herodoto, Plinio, e Galeno.
Quatro centos e tantos annos antes da Era Christaan appareceo o illustre
Hippocrates Nota
Hippocrates nasceo 459 annos antes de Christo.Nota
Este botanico, a que alguns chamaram tambem Cratevas, nam deve ser
confundido com oCratevas, de que falla Plinio que denominara huma
planta Liliacea (Erythronium dens canis Lin.) com o nome de
Methridates. Os escritos tanto de hum como de outro foram perdidos. Nota
Theophrasto escreveo no terceiro seculo antes da era Christaan. Os Gregos nam foram rigorosamente os fundadores da Botanica escrita
applicada as artes, como se pode colligir do que tenho dicto; mas
elles foram reconhecidos como taes pela razam dos seus escritos
nesta arte serem os mais antigos que chegaram athe nossos dias,
tendo-se perdido os dos Egypcios e Asiaticos por differentes
circumstancias.
Com effeito Theophrasto servindo-se dos trabalhos de Aristoteles Nota
Aristoteles cita em muitos lugares das suas obras os seus dois livros
sobre as Plantas; mas delles apenas temos alguns pedaços
deslustrados pela inepta falsificaçam de hum Arabe pouco versado em
Botanica. Nota
O que Hesiodo, Nicandro, Xenophonte, Basso e outros antigos Gregos
mencionaram dos vegetaes nam he comparavel com os escritos de
Theophrasto. Nota
Theophrasto parece ter seguido nisto os sentimentos de seu mestre,
cuja destinçam a respeito dos sexos vegetaes era muito vaga em
geral, e consistia em julgar que o individuo masculino era mais
forte e mais amplo do que o feminino, posto que esse fosse mais
fructifero. Nota
"Se o pò das flores de hum ramo de palmeira masculina, diz
Aristóteles, for sacudido sobre as da feminina, os fructos desta
amadureceram promptamente; e se o pò das masculinas for conduzido de
longe pelos ventos às femininas, seguir-se ha o mesmo effeito, como
se o ramo da masculina se tivesse dependurado sobre a feminina". Theophrasto diz, que se o pò da palmeira masculina nam for sacudido
sobre o fructo da feminina, este nam amadurecerà jamais, mas cahirà;
porem como depois diz que senam pode assignar razam deste facto de
apolvilhaçam ou aspersam do pò, parece que nam teve ideas de que os
ovarios vegetaes eram fecundados como os dos animaes. Talvez tanto elle como seu mestre nam referiram mais do que as
observaçoens dos Egypcios e Babilonios, entre os quaes a
apolvilhaçam das palmeiras era practicada desde hum tempo
immemoravel, segundo Herodoto.
O botanico de reputaçam, de que temos noticia, depois de Theophrasto foy
Dioscorides Nota
Dioscorides escreveo no tempo do Imperador Nero.
No tempo dos antigos Romanos, à Botanica fez
muito pouco progresso. A traducçam dos escritos de Methridates sobre as
plantas, os quaes Pompeo tinha trazido da Asia, excitaram na verdade alguma
curiosidade em Roma, mas passou-se muito tempo sem que sabio algum se occupasse
de adiantar os conhecimentos que haviam entam na Grecia sobre os vegetaes. He
verdade que delles escreveo Catam, Virgilio, Varro, Collumella, e Palladio, mas
os seus tractados postoque nam deixem de ser estimaveis quanto a agricultura e
usos economicos parecem so ter sido meras copias dos escritos Gregos. Plinio foy
somente o que entre os Romanos adiantou hum pouco a Botanica, tractando-a como
historiador naturalista, a pezar do uso do seu tempo. A sua grande liçam dos
autores coétaneos e da antiguidade, e o caracter observador, de que era dotado
nam exigiam menos. Elle augmentou o catalogo das plantas dos antigos com quasi
duzentas, e nos deixou a sua [Página xxvi] historia; mas he justamente arguido de ter equivocado muitos dos seus nomes,
adulterado varias passagens dos originaes que copiara, e de ter misturado
algumas vezes o verdadeiro com o fabuloso. Fazendo mençam dos figuras de algumas
plantas, que Cratevas, Deniz e Metrodoro tinham feito, parece ter menos estimado
semelhantes retractos do que boas descripçoens; mas as que elle nos deixou ainda
mesmo sobre a estructura das plantas, que tinha observado, rarissimas vezes sam
mais circumstanciadas do que as dos seus predecessores; elle foy ainda muito
menos methodico do que elles, e como dizem alguns Methodistas de hoje, tudo
nelle he huma bella desordem. As noçoens dos Gregos e Romanos naturalistas a
respeito dos sexos vegetaes nam lhe foram desconhecidas; elle nos diz com
effeito que alguns admittiam os dois sexos nas arvores e plantas herbaceas Nota
Arboribus, imo potius omnibus quae terra gignit herbisque etiam
utrumque sexum esse diligentissimi naturae tradunt. Plin. Hist. Nat.
lib. 13. Cap. 4.Nota
Ibid. et alibi.
Depois de Plinio athe à ruina do Imperio do Occidente, a Botanica nam deo passo algum, e muito menos ainda depois della athe ao seculo XV, postoque muitos celebres medicos se occupassem deste estudo. Galeno parece ter-se nelle destinguido mais do que Rufo, Apuleio e outros, e foy o primeiro que invectivou contra a inutilidade das descripçoens dos autores Gregos e Romanos. Confiando mais nos seus olhos cuidou de estudar os vegetaes a seu modo, fazendo muitas viagens nos paizes do Levante, afim de conhecer os que eram de uso medicinal, e nos deixou nos seus livros os nomes de quinhentas especies; mas nam emendou contudo os defeitos que tinha notado nas [Página xxvii] descripçoens dos outros. Ecio, Egineta, Tralliano, e Oribasio nam foram mais felizes.
Invadido e desmembrado o Imperio do Occidente, o destino da Botanica foy quasi
semelhante ao das bellas artes da Italia. He verdade que alguns seculos
depois, os Arabes tendo estendido as suas conquistas pela costa
septentrional da Africa athe às Hespanhas tentaram de acolher as sciencias
deste Imperio, e que os seus medicos Nota
Mesué, Serapiaõ, Raxis, Avicenna,
Averrhoes, Avenzoar, Abenguefit, Albenbeithar, Abul Fadl, &c.Nota
Myrepso,
Quiricio, Bosco, Hildegarde, Sylvatico, Dondis, Suardo, Villanova,
Plateario, &c.
Tomada a capital do Imperio do Oriente por Mahumet II, quasi no meyo do seculo XV, muitos sabios Gregos, que entam se expatriaram fugindo do barbaro jugo mahometano, sendo bem acolhidos na Italia deram principio ao restabelecimento das lettras no Occidente. A invençam da arte de imprimir, que succedeo quasi no mesmo tempo, e as grandes investigaçoens que entam se fizeram em toda a sorte de manuscriptos da antiguidade contribuiram para completar esta feliz revoluçam da litteratura. [Página xxviii] Ella veyo a redundar em proveito das artes e sciencias, e a Botanica nam podia por conseguinte deixar tambem de ter nella alguma parte. O primeiro ardor de trabalho entam, assim como nas mais sciencias, foy a liçam e explicaçam dos antigos escriptores. Theodoro Gaza, e Hermolao Barbaro sam considerados como os primeiros que começaram a restauraçam da Botanica, traduzindo em latim as obras de Theophrasto e Dioscorides. Muitos outros seguiram o seu exemplo, e todos os Tractados da antiguidade sobre os vegetaes, que se poderam achar nas bibliothecas, foram pouco a pouco interpretados.
A necessidade, que a Medicina tinha da Botanica, requeria absolutamente, que se
continuasse o seu estudo e se aper feiçoasse; mas elle nam pode obter perfeiçam
nestes primeiros tempos, nam consistindo entam mais do que na grande liçam dos
monumentos Gregos e Romanos, e de alguns da idade media. Demais disso, nam menos
pela razam do espirito de disputa, que entam dominava, do que por causa das
vagas e obscuras descripçoens, que os antigos tinham dado dos vegetaes, os
commentadores nam so se contrariavam em suas opinioens, mas pelo menor pretexto
davam às plantas dos paizes em que viviam os nomes das mencionadas pelos
escriptores que commentavam, sem reflectir na grande diversidade que havia entre
os terrenos e climas frios do norte da Europa, aonde escreviam, e os da Grecia e
Italia patria dos antigos Autores. Ainda mesmo os que viviam, nos paizes
quentes e meridionaes da Europa nam deixaram de cahir em muitos enganos Nota
Esta erronea applicaçam dos nomes e igualmente dos usos das plantas
foy a principal causa, porque a Materia Medica daquelles tempos se
acha tam carregada de um farrago de substancias inuteis, e ainda
mesmo nocivas; porquanto succedeo que os commentadores algumas vezes
tiveram por saudaveis as plantas venenosas, intendendo mal os nomes
mencionados nos antigos escritos. Nota
Devemos com effeito confessar ingenuamente que nam sabemos qual era o
verdadeiro helleboro, a verdadeira cegude, nem a maior parte das
plantas de que tractaram os antigos Gregos e Romanos. Ainda mesmo depois das sabias investigaçoens, que fez Tournefort por
todo o Levante, e patria dos antigos Gregos, apenas consta que se
ache bem verificada a decima parte dos 600 nomes de plantas, de que
elles fizeraõ mençaõ. Eu nam tractarei jamais o nosso Amato de ignorante de Botanica, como
fez Mathiolo, porisso que nam soube decifrar as verdadeiras plantas
indicadas pelos nomes, e incompletas descripçoens, que se acham nos
livros de Dioscorides, nem censurarei taõbem Mathiolo de nam as ter
decifrado muito melhor, notando-o, como alguns fizeram, de nam ter
comparado as plantas que a natureza produz com as descripçoens de
Dioscorides, mas de ter sobre ellas imaginado as que a natureza
devera produzir, ou tinha mal feito de nam produzir; nem igualmente
cuidarei de o desculpar, como outros fizeram, dizendo, que as
plantas descriptas por Dioscorides tinham mudado hum tanto de figura
desde o seu tempo athe ao do dicto commentador; porquanto attribuo
unicamente toda a difficuldade de reconhecer as plantas dos antigos
às suas màs descripçoens, e esta he a melhor desculpa que se pode
dar a Mathiolo e outros commentadores dos antigos Gregos e
Romanos.
Portanto o modo ordinario de estudar os vegetaes nestes primeiros tempos
differia muito pouco do que tinham usado os antigos fundado na tradiçam Nota
Os que conhecem huma planta meramente de vista, ou porque tendo
ouvido o seu nome de alguma pessoa, que lha mostrasse, ficaraõ
somente com certas noçoẽs do seu habito externo, que elles naõ sabem
explicar, aindaque contudo bastem às vezes para lha fazer destinguir
de qualquer outra, so a conhecem por tradiçaõ ou impiricamente; tal
he por ex. o conhecimento que os nossos hervolarios tem de algumas
plantas. Os Antigos suppunhaõ as plantas conhecidas por este modo, e porisso
cuidaraõ muito pouco de dar boas descripçoẽs dellas, nem na verdade
o sabiaõ como nos.
Este impirico e fastidioso modo de apprender a conhecer os vegetaes nam podia subsistir por muito tempo, e sem duvida poucas reflexoens bastavam aos botanicos para julgar entam que [Página xxx] era indispensavel começar quasi tudo de novo, e estabelecer a botanica, estudando as plantas nam nos livros dos antigos, como era costume, mas sim no grande livro da natureza, que ante elles estava aberto e pedindo a sua attençam. A liçam dos antigos, e o dezejo de reconhecer as plantas, de que elles tinham tractado, requerendo absolutamente a comparaçam das descripçoens com as partes dos vegetaes, a que ellas se suppunham pertencer, necessariamente deviam conduzir a fazer pouco a pouco descobrir novos, e foy com effeito o que succedeo no seculo XVI.
O descobrimento de hum grande numero de plantas, que succedeo nesse seculo, estava exigindo huma destribuiçam methodica capaz de auxiliar a memoria e facilitar o estudo tanto dos antigos vegetaes como dos que novamente se tinham descoberto e se hiam descobrindo. As descripçoens começaram a parecer insufficientes, e o deviam ser na verdade pela razam de serem pouco circumstanciadas, nam obstante todo o trabalho que alguns tiveram de melhor as traçar do que os antigos. Cuidou-se pois de ajuntar as descripçoens estampas semelhantes às que Corbichon e Cuba tinham publicado no seculo XV, e fizeram-se tentativas de destribuiçoens methodicas.
Trago ou Bock foy dos modernos o primeiro, que emprehendeo de dispor os vegetaes
em Methodo; mas o seu plano differe muito pouco do modo destributivo que tinham
seguido Dioscorides e Theophrasto, e se pode dizer que elle somente renovou as
ideas destes antigos Botanicos. Lonicero, Dodoneo, Lobel, Clusio, Dalechampio,
Zaluziano, e muitos outros seguiram igualmente quasi o mesmo plano methodico dos
antigos. A grandeza, duraçam, lugar de nascimento, qualidades, virtudes Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em
que diz: existimandum est autem nullas
propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in
duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci
describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ;
2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo
considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os
generos: - Ex his enim (flore, fructu et
semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes
apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel
Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde
ego cognationes stirpium indicare soleo, figura
differt. Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos
relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657,
seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos
vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde
Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio
Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome
generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem
determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar.
Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo
fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas
todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente
incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos
caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de
Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as
especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados
em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.Nota
Os antigos nam tractaram senam das plantas, em que conheciam alguma
utilidade na Medicina e artes, e porisso os seus conhecimentos
botanicos foram limitados a hum pequeno numero de plantas; elles
cuidaram mais de indagar os seus usos e virtudes, do que os seus
verdadeiros caracteres fundados na estructura e fructificaçam, por
cujo motivo as suas destribuiçoens nam merecem rigorosamente o nome
de Methodo ou Systema, na accepçam em que se tomam hoje estas
palavras entre os Botanicos. As virtudes, e qualidades das plantas sam na verdade ainda hoje
adoptadas pelos autores de Materia Medica, como fundamento das suas
destribuiçoens; mas estas destribuiçoens por mais toleraveis que
sejam em Materia Medica, pela razam do seu differente fim, e por
supporem as plantas ja conhecidas seram sempre improprias em
Botanica, e faram nella confundir o que merece de ser
destinguido. A mesma planta succede as vezes ter differentes virtudes, segundo as
suas differentes partes, de maneira que se os botanicos seguissem os
Autores de Materia Medica, a raiz de huma planta
muitas vezes deveria ser posta em huma classe, a sua flor em outra,
as suas folhas e tronco em
outra, em fim ainda algumas vezes o mesmo fructo, como v. g. a
laranja, mereceria de ser posto em differentes Classes. Nota
O Dr. Porta na sua Phytognomica publicada em Napoles no anno de 1588
dividio os vegetaes em sette classes, considerando-os segundo o seu
lugar de nascimento, segundo as relaçoens que elles tem com os
homens e animaes tanto na figura de suas partes como nos costumes, e
em fim pela relaçaõ que elles tem com os astros. No seu parecer, as plantas em que ha alguma parte que representa o
figado, sam boas para as doenças do figado; as que representam
olhos, sam boas para os olhos; as que representam dedos sam boas
para a gotta; as que tem a forma de testiculos saõ boas para as
doenças dos testiculos, &c. &c. He bem facil de perceber quanto este denominado Methodo he improprio,
cheio de falsidades, e ridiculo, a pezar de todos os elogios que lhe
fizeram de engenhoso. Nota
Nota
Gaspar Bauhino publicou no anno de 1596, no seu Pinax, os nomes e
synonymia de seis mil plantas conhecidas athe ao seu tempo, e as
destribuio em 12 Classes pelas suas qualidades e algumas partes do
habito externo indeterminadamente. Seu irmaõ Joaõ Bauhino na sua
Historia geral das plantas publicada e m três Vol. in-fol. no anno de
1650 deo as figuras de 3428 plantas, e descreveo 5266, destribuindo-as
em 40 livros ou classes segundo as suas qualidades, duraçam, grandeza, e
algumas das suas partes. Estas duas Obras, apezar da sua mà ordem
methodica, mereceram sempre pela vasta erudiçam, que contem, huma
especial estima de todos os Botanicos. As Obras de Guilherme Lauremberg,
Hernandes, Jonston, Rheede, Rumphio, Burman e muitos outros, que
seguiram falsos planos methodicos, semelhantes aos dos antigos, ou pouco
differentes, nam deixam tambem de ter hum particular merecimento quanto
à descripçam historica das plantas; mas os curtos limites deste discurso
nam me dam lugar de mencionar todos os tractados uteis que se tem
publicado em Botanica: demais disso este objecto so me parece ter
proprio dos que escreverem a Historia geral e chronologica da Botanica,
ou Catalogos geraes dos Autores Botanicos.
André Cesalpino, celebre professor de Piza, foy o primeiro que imaginou huma
destribuiçam toleravel quanto à propriedade das partes fundamentaes das suas
divisoens, e porisso mereceo o titulo de primeiro Systematico entre os
Botanicos. Valendo-se do seu descanço e da facilidade de comparar e observar, que lhe
offereciam os jardins botanicos da Italia fundados no seu seculo Nota
Em
Padua, Piza, e Bolonha; o primeiro, que he o mais antigo da Europa, foy
fundado em 1540 pela illustre caza de Medicis; os outros dois foram
estabelecidos em 1547. Depois destes fundaraõ-se muitos outros, como o
de Mompelher em 1598; o de Paris em 1626; o de Edimburgo em 1675; o de
Upsal em 1657; o de Oxeford em 1683; o de Leyde em 1677; os de Berlim e
Leipsique em 1680; o de Amsterdam em 1688; o de Petresburgo no tempo de
Pedro I; o de Madrid em 1756; os de Lisboa e Coimbra no glorioso reynado
do Senhor D. Jozé I; em fim nam ha hoje Estado algum na Europa, por
pequeno que seja, que deixe de ter jardins botanicos, e em alguns elles
sam bastantemente multiplicados, pertencendo nam so às Universidades e
Academias, como também a particulares ricos. Elles foram no principio
instituidos somente para serviço da Medicina; mas os seus Inspectores
vendo que os estreitos limites das plantas medicinaes lhes nam davam
lugar de fazer extensas observaçoens, nem de tirar grande proveito,
introduziram nelles pouco a pouco toda a sorte de plantas, o que deo
occasiam de bem examinar as suas affinidades e de fundar o grande numero
de Methodos que tem havido. A sua utilidade fez tambem que algumas
naçoens Européas os estabeleceram ainda mesmo nos seus dominios
ultramarinos, como fizeram os Hollandezes no Cabo da Boa Esperança, os
Francezes nas Ilhas Mauricias &c. e se nos os tivessemos tambem
estabelecido nas nossas colonias, como nas Cortes de Thomar se havia
proposto, a agricultura, commercio, e artes certamente disso teriam
tirado nam pequenos enteresses.Nota
Cesalpino he na verdade desculpavel neste respeito por ter sido o
primeiro que fundou hum systema na fructificaçam, e o seria com effeito
ainda mais se elle tivesse nas suas divisoens escolhido os destinctivos
tirados do habito externo por attender as affinidades naturaes; mas em
todas as suas divisoens apenas vemos huma sò familia natural, que he a
das Umbrelladas posta na sexta Classe do seu systema.
Joaquim Jungio, Allemam, foy dos primeiros que adoptaram as ideas de
Cesalpino; mas os calamitozos tempos da Allemanha, em que viveo, nam lhe
permittiram de publicar hum melhor Methodo, postoque merecesse de ser
reconhecido pelo primeiro Botanico dogmatico em razam dos muitos sabios
aphorismos, que estabeleceo em Botanica Nota
Jungio faleceo no anno de
1657; a sua Izagoge Phytoscopica, que foy publicada 22 annos depois da
sua morte, contem hum grande numero dos principios criticos, que Ray e
Linneo seguiram. Haller parece ter feito hum grande cazo desta Obra,
como se collige da passagem seguinte. (Praef. Helv. S. pag. 21.): habentur hoc Libro (Jungii) de Plantis
fragmenta satis luculenta, ubi passim leges sancit Linnaeanis
simillimas, deinde stirpes ad genera naturalia revocat, & a
consuetis familiis separat, suas etiam observationes interponit....
incredibile est, quàm profunde in minutias staminum, tubarum,
florumque introspexerit, quantâ etiam perspicacitate, et ingenii
methodica indole definitiones primus fixerit.
Em 1680 Roberto Morisono, Escossez, sendo professor de Botanica em Oxeford publicou huma Historia geral de plantas com pequenas figuras gravadas em cobre, na qual seguio as ideas de Cesalpino debaxo de huma nova forma, dividindo o seu Methodo em 18 Classes fundadas no fructo, corolla, e partes do habito externo. Este Methodo foy com razam censurado de ter mao nexo, e a clave mal feita, e nam sei que fosse seguido mais do que por Bobart, que o completou publicando o seu terceiro volume depois da morte de Morisono.
Em 1682, Joam Rai, theologo Inglez de grande engenho e erudiçam, publicou a mais
extensa Historia do reyno vegetal que se tinha visto, comprehendendo 18655
plantas entre especies e variedades. Os trabalhos desta vasta Obra nam [Página xxxvi] foram dirigidos sò à Medicina, como era costume, mas a tudo o que podesse
ser util à vida humana, e Rai foy com effeito o primeiro depois de Plinio,
que se esforçou paraque a Botanica fosse estudada, como huma parte da
Historia natural Nota
Boerhaave, e Linneo foram do mesmo parecer, e este ultimo tornou a
pôr a Botanica na Historia natural; mas o prejuizo de a considerar
meramente como huma parte da Medicina tem prevalecido de sorte, que
ainda hoje por toda a parte os Medicos e Boticarios sam
privativamente os professores de Phytologia , como senaõ houvesse outra Phytologia mais do que a applicada a
usos medicinaes, nem outras pessoas capazes de a ensinar senam
Medicos e Boticarios. Nota
Rai publicou huma segunda ediçaõ do seu Methodo em 1700, com hum
grande numero de emendas, que elle se vio obrigado a fazer depois de
ter visto o Methodo de Tournefort, seu digno rival.
Christovam Knaut no seu Tractado geral das plantas de Halla na Saxonia, publicado em 1687, tentou de seguir hum novo plano destribuindo as dictas plantas em 17 classes fundadas principalmente na corolla, e fructo, e subdivididas em 62 secçoens pela fructificaçam e habito externo, mas o seu Methodo foy com razam notado de ser summamente composto e difficil.
Pedro Magnol, professor da Universidade de Mompelher, imaginou tambem hum novo
plano de destribuiçam, que alguns consideram como a primeira tentativa do
Methodo natural. Porem o seu intuito nam foy de investigar o Methodo natural,
mas tam somente mostrar que haviam familias nam menos nos animaes do que nos
vegetaes, e que ellas se deviam caracterizar nam puramente pela
fructificaçam, mas por todas as demais partes, porque nenhuma dellas era
accidental, e que em todas se deviam [Página xxxvii] indagar as affinidades ou relaçoens possiveis de semelhança Nota
O Conde
de Buffon foy do mesmo parecer; Linneo, Royen, Haller, Wachendorf,
Adanson, Jussieu, e muitos outros celebres Botanicos do nosso seculo
todos reconheceram, que haviam familias naturaes fundadas em affinidades
naturaes, como Magnol tinha indicado; alguns delles, como Adanson e
Jussieu, admittiram demais disso huma serie ou gradaçoens entre as
differentes familias começando pelas plantas mais
imperfeitas.Nota
Este segundo Methodo de Magnol foy
impresso depois da sua morte em 1720: consta de 15 Classes fundadas nos
caracteres do calys combinados com os corolla, e subdivididas em 55
secçoens relativamente ao lugar de nascimento, disposiçam das flores,
sexo, calys, corolla, e fructo. M. Adanson estranha com razam que Magnol
depois de ter imaginado hum Methodo razoavel composesse este, que lhe he
na verdade inferior e no qual parece querer evitar as familias ou
Classes naturaes, buscando por toda a parte hum calys athe chegar a dar
este nome aos tegumentos das sementes, quando lhe era precizo hum calys
para satisfazer às suas ideas systematicas
Paulo Herman, professor de Botanica em Leyde, seguio as ideas do Cesalpino debaxo de huma nova forma, e dividio as 5600 plantas, de que tractou em 2J Classes fundadas principalmente nas differentes sortes de fructos ou sementes cobertas e descobertas, subdividindo as dictas Classes em 82 secçoens pela disposiçam das flores, e pela corolla e fructo. O seu Methodo he complicado; elle foy seguido de Rudbeck e Zumbach que o aperfeiçoou e imprimio no anno de 1690.
Augusto Quirino Rivino, professor de Botanica em Leipsik, tractou de descobrir
hum Methodo mais facil e mais conforme aos principios systematicos do que nenhum
dos seus predecessores. Elle dividio o pequeno numero de plantas, que conhecia,
em 18 classes fundadas principalmente nas relaçoens da corolla, e subdivididas
em 91 secçoens relativamente ao fructo, figura do calys e corolla, situaçam, e
disposiçam ou falta das flores. Este Methodo publicado pouco a pouco desde o
anno de 1690 athe 1696, nam he tam regular, como alguns pensaram; porquanto
vemos que o seu Autor considerou na clave das suas Classes nam so a regularidade
e irregularidade da corolla e numero das suas petalas, mas ainda a perfeiçam das
flores, e a sua disposiçam. Elle foy contudo durante alguns annos o mais
seguido em Allemanha; Koenig, Welsch, Heucher, Gemeinhart, Hebenstreit, e
Hecher o adoptaram nos seus tractados de plantas; Kramer, Christiano Knaut Nota
Ludwig no anno de 1737 ajuntou duas classes demais ao Methodo de
Rivino, deduzidas da presença ou falta da corolla, e Wedel e Boehmer o
seguiram neste estado de reforma; no anno de 1747 aperfeiçoou segunda
vez o dicto Methodo, reunindolhe demais a relaçam dos sexos das flores,
e foy a melhor emenda que delle se publicou.Nota
Christiano Knaut foy hum dos Botanicos, cujos paradoxos tem
impedido o progresso da Botanica; elle seguio que havia tantos generos
como especies, que a corolla era a parte essensial da flor, e que nam
haviam sementes nuas.
José Pitton Tournefort, que tam destinctamente orna o numero dos grandes
Botanicos da França, foy de todos os seus contemporaneos e predecessores o que
mais aperfeiçoou a [Página xxix] Botanica systematica. Persuadido de que todos os Methodos seriam sempre
demasiadamente imperfeitos em quanto as suas infimas divisoens, ou generos, nam
fossem melhor determinadas, cuidou de lhes dar huma nova forma e fez para este
fim hum grande numero de observaçoens tanto em França como em diversos paizes
estrangeiros, ajudado da munificencia do seu Soberano e pessoas ricas. Concluio
esta difficil empreza no anno de 1694, no qual introduzio em Botanica muitos
principios sábios, e sobre elles fundou hum Methodo que foy reconhecido por
claro, conciso, e facil. Destribuio neste Methodo 10146 plantas (especies ou
variedades) em 22 classes, dividio estas em 122 secçoens, e subdividio as dictas
secçoens em 696 generos. As suas classes foram deduzidas, 1°. da grandeza e
duraçam, ou da consideraçam das plantas como hervas ou arvores ; 2° da presença ou nullidade
da corolla e da flor; 3°. da disposiçam das flores, ou das relaçoens de
simplices e compostas; 4°. do numero das petalas da corolla; 5°. da figura
regular ou irregular da corolla Nota
M. Adanson reconheceo nas Classes de Tournefort seis familias
naturaes, e 48 nas suas secçoens, e assegura com razam que de todos
os Methodos artificiaes o de Tournefort foy o que menos turbou as
affinidades, ou melhor se conformou com a marcha da natureza. Nota
Gouan, Adanson, Jussieu, e outros modernos adoptaraõ esta
doutrina. Nota
Rai tinha sido do mesmo parecer: Notae (dizia elle) obviae sint,
manifestae & cuilibet facile observabiles; nam cùm Methodi usus
praecipuus sit rudes et tyrones in stirpium cognitionem compendio
absque taedio & difficultate inducere, non oportet ejusmodi
notas proponere, quae attentum & sollicitum requirunt
expectatorem, cuique ut microscopium secum ferat necesse est. Rai, Tournefort parecem ter reservado o uso do microscopio somente
para a Botanica physica, persuadidos de que elle se oppunha a
facilidade dos Methodos da Botanica pura. Alguns modernos contudo pensam que o uso do microscopio he
indespensavel a todo o botanico, visto ter a experiencia mostrado
que ha nos vegetaes da mesma sorte que nos animaes quasi tantas
partes imperceptiveis (ou talvez mais) como ha de volumosas ou
perceptiveis sem microscopio, e que os nectarios, partes da
fructificaçam, e muitas notas caracteristicas de algumas plantas
jamais se poderaõ bem reconhecer senaõ usarmos do microscopio ou ao
menos de huma boa lente.
Aindaque Tournefort nam tivesse pensado em traçar hum plano, capaz de classar
adequadamente todas as plantas do globo terrestre, o que elle julgava
impossivel em qualquer destribuiçam systematica, contudo o seu systema tanto
pela novidade dos generos como pela sua facilidade obteve huma grande
acceitaçam, e nelle se alistaram durante alguns annos todas as especies e
generos, que se descobriram Nota
Principalmente as novas plantas da
America, que o douto religioso Carlos Plumier havia descoberto e
descripto por ordem de Luiz XIV., que lhe tinha dado tença e o titulo de
seu Botanico.Nota
Ponho Seguier entre os que seguiram Tournefort, porque o seu Methodo
relativo às plantas de Verona differe muito pouco do Methodo deste
Botanico, e o mesmo se deve entender do de Durande, que hoje se
ensina na Universidade de Dijon. Nota
Todos os Botanicos depois de Linneo tem evitado essa falsa divisaõ; e
Bergen sem embargo de ter seguido Tournefort no seu Tractado das
plantas de Francfort, publicado em 1750, naõ deixou de diminuir as
suas Classes reunindo as arboreas com as herbaceas.
Passados alguns annos depois da publicacam do systema de Tournefort appareceram
alguns outros, que nam sendo nem mais faceis nem mais perfeitos nam lhe poderam
usurpar a maior acceitaçam. Boerhaave, celebre professor de Botanica, Chimica, e
Medicina, publicou em Leyde no anno de 1710 huma divisam de seis mil plantas em
84 Classes, considerando-as relativamente à sua grandeza, duraçam,
fructificaçam, e habito externo: subdividio as dictas classes em 104 secçoens ou
ordens fundadas na substancia e figura das folhas, do calys, corolla, sementes,
e tronco, no numero das petalas, capsulas e sementes; na situaçam das flores e
germe; e em fim nos organos sexuaes das flores, que elle empregou tambem algumas
vezes para caracterizar os generos. O seu Methodo foy huma combinaçam dos
systemas de Cesalpino, Rai, Herman, e Tournefort, e por ser muito difficil e
complicado foy apenas seguido na sua escola e por Emsting e Morandi Nota
Morandi no seu Tractado das plantas medicinaes, publicado em 1744,
reunio as arvores com as hervas, e em quasi tudo o mais seguio o
Methodo de Boerhaave.
Em 1720, Pontedera nas suas dissertaçoens, em que descreveo 272 especies novas de plantas, negando os seus sexos [Página xliii] em geral, imaginou de emendar às imperfeiçoens do Methodo de Tournefort, e augmentou as suas 22 classes athe 37, considerando-as debaxo das mesmas relaçoens, e alem disso segundo a presença ou nullidade dos gomos; mas elle nam chegou a pôr em execuçam o seu plano systematico, nem o applicou aos diversos generos de plantas.
Trinta e tantos annos depois da ediçam do Methodo de Tournefort, Carlos
Linneo, sabio Naturalista Sueco Nota
Carlos Linneo foy filho de hum pobre
Ecclesiastico de Smolandia na Suecia. Tendo-se applicado ao estudo de
Historia natural fez nesta sciencia tam rapidos progressos, que na idade
de 22 annos se achava ja capaz de ajudar e substituir Rudbeck, que entaõ
a professava em Upsal. Huma das suas primeiras tentativas em Historia
natural foy de fazer hum systema Botanico, que podesse prevalecer ao de
Tournefort, e o qual dizem que elle chegara a introduzir no jardim
botanico de Upsal no anno de 1731. Depois disto foy empregado pela
Sociedade da dicta cidade para fazer huma viagem na Lapponia, Noruega e
outros paizes do Norte por objectos de Historia natural. Em 1735, e
annos seguintes protegido por Amigos viajou pela Dinamarca, Suecia,
Allemanha, Inglaterra, e Hollanda, aonde publicou o seu Systema Naturae.
Tendo tornado à Suecia, sua patria, a reputaçam que por fora tinha
grangeado lhe suscitou a inveja de Rozen e outros Membros da
Universidade de Upsal de maneira, que tendo aberto hum curso de Liçoens
de Historia natural, foy por decreto da dicta Universidade suspendido de
o continuar, debaxo do pretexto de que somente os doutores aggregados a
ella podiaõ ensinar. Mas vencida esta dificuldade no anno de 1741, em
que foy nomeado professor de Medicina e Botanica, continuou durante
muitos annos as suas liçoens com grande celebridade athe que em fim
victima da sua applicaçam demasiadamente sostida veyo a ficar privado
quasi de todas as suas faculdades intellectuaes no ultimo anno da sua
vida, e a morrer de huma hydropisia de peito. Elle contribuio tanto
pelos seus extensos trabalhos como pelos sabios Alumnos, que formou,
para adiantar todas as partes de Historia natural mais ou menos, e se
lhe deve com effeito esta justiça, a pezar das suas opinioens.
A noticia dos sexos das plantas nam tinha sido inteiramente desconhecida aos antigos Gregos e Romanos; nos escritos de [Página xliv] Herodoto, Aristoteles, Theophrasto, Dioscorides, e Plinio achamos provas disso, como ja disse fazendo mençam destes Autores; mas as suas ideas a este respeito foram obscuras, conjecturaes, e nam fundadas em conhecimentos anatomicos das flores. Demais disso, ainda estas mesmas ideas parecem ter sido limitadas às palmeiras e de alguma sorte às figueiras; porquanto se bem que attribuiram sexos a muitas outras plantas, isso nam foy mais do que por hum mero motivo de destinçam estabelecida humas vezes na força ou fraqueza dos individuos, outras vezes na maior ou menor perfeiçam dos seus fructos, na maior ou menor efficacia das suas virtudes.
Em toda a idade media athe quasi ao seculo passado, a doutrina dos sexos das
plantas foy muito incerta e indeterminada, nam tendo os botanicos outras
noçoens della mais do que as dos antigos, donde procederam muitas falsas
destinçoens, que lemos nas obras dos autores desses tempos Nota
Como saõ as de Feto macho, Feto femea; Peonia macha, Peonia femea;
Cornus mas, Cornus. faemina, &c. &c. Elles chamavaõ em algumas especies herbaceas dioicas, taes como o
Canamo e Mercurial, plantas machas as que eraõ femeas, e vice versâ,
so pela razam da sua grandeza ou virtudes medicinaes; (Mercurialis
testiculata, sive mas; & spicata, sive faemina. G. Bauh.) Nota
Gesnero, Grew, Malpighi, e Feldmand foram os que principalmente
restauraram a Botanica physica, e a adiantaram; este agradavel
estudo foy continuado por Hales, Ludwig, Leuvenhoek, Hill, Linne ,
Duhamel, Guettard, Bonnet, Saussure e muitos outros. Nota
J. Bauhino citou em 1650 as principaes passagens de Zaluzianski a
respeito dos sexos, mas nam parece ter feito maiores
investigaçoens.
A frequencia de ver das sementes de hum so individuo nascer masculinos e
femininos, isto he, hum esteril outro fructifero, devia necessariamente conduzir
a comparar os vegetaes com os animaes no modo de produzirse, e a investigar cada
vez mais este curioso objecto. Com effeito nam tardou muito tempo que o Dr.
Nehemias Grew Nota
Idea of a Philological History of Plants, &c. Lond.
1682, fol.
A opiniam de Grew foy adoptada por hum grande numero de Botanicos. Malpighi
seu contemporaneo nam contribuio pouco para a confirmar Nota
Anatome
plantarum. Lond. 1686, fol.Nota
"Em todos os flosculos das Compostas, dia este celebre
physiologista (na sua Epistola de Sexu Plantar. Tubingia, 1694), em que
falta o estigma ao pistillo, ha abortamento nas sementes; se no milho,
na amoreira, e muitas outras plantas cortamos as antheras das flores
masculinas, e os estyletes das femininas, naõ ha fecundaçaõ, nem por
conseguinte geraçaõ, e se pomos o individuo masculino da mercurial
distante do feminino, este naõ dará fructo, ou se o der, as suas
sementes naõ germinarão" Elle confessou contudo que as suas experiencias
tinhaõ falhado no canamo. Camerario naõ so foy o que melhor estabeleceo
o sexualismo dos vegetaes, mas o que ensinou a substituir por analogia
as plantas indigenas às exoticas, ideas, que Petiver e outros depois
seguiraõ. Elle foy taõbem o primeiro que fez mençaõ do numero dos
estames, e parece ter suggerido a Linneo os principios do seu systema:
Magnol tinha taõbem ja antes de Linneo empregado os organos sexuaes das
plantas em algumas das divisoẽs do seu Methodo Calylino, e Boerhaave nos
generos: Burchard medico de Brunswick tinha imaginado de fundar nelles
hum Methodo, como se collige da sua carta escrita a Leibnitz em 1702, e
reimpressa em 1758 por Heister em Helmstad: "Hic disserere constitui an
ex partibus istis, quas ab officio genitales dicturus sum, Plantarum
comparationes institui possint".Nota
Wolfio, Burchard, Logan, Blair, Bradley, Ludwig, Royen, Jussieu,
Needham, Monro, &c., &c.. Esta investigaçaõ passou athe à
plantas menos perfeitas e Jussieu descobrio estames no Fetos,
Micheli nos Fungos, Reaumur nas Algas e Hedwig nos Musgos. Sem embargo disto, a doutrina dos sexos naõ tem sido athe ao presente
universalmente recebida. Tournefort considerou as partes sexuaes das flores meramente, como
vasos excretorios destinados a separar a redundantia dos succos
nutritivos do novo fructo, e naõ lhes deo lugar no seu systema. Pontedera, Siegesbeck, Bénneman, e Moeller seguiraõ, que o pò das
antheras era somente huma materia proveitosa ao novo fructo. Alguns naõ admittiraõ sexos nas plantas Cryptogamicas (Vej. a Expos.
da Cl. Cryptog. vol. 2.) O Padre Spalanzani assegura com muitas experiencias, que no canamo e
muitas outras plantas perfeitas podem haver fructos perfeitos ou
sementes capazes de propagar a sua especie sem o concurso das
antheras. O Dr. Alston, professor de Edimburgo, o Conde de Buffon, e outros
Epigenesistas naõ admittem o sexualismo em todo o reyno vegetal. Vej. a Palavra Sexus no Diccionario Botanico, Vol. 2.
Linneo completou em fim a doutrina dos sexos, e lhe deo toda a extensam, de que
ella era susceptivel, compilando a seu favor todos os argumentos de que se
tinham servido os seus predecessores, ajuntando algumas novas observaçoens, e
fundando nella hum novo Systema, que em razam disso denominou sexual. Publicou este Systema no anno de 1787 e o dividio em 24 Classes
estabelecidas relativamente ao numero, ponto de apego, proporçam, adunaçam,
situaçam, e occultaçam dos estames; subdividio cada huma destas Classes em
differentes Ordens deduzidas do numero dos pistillos, do numero, adunaçam e
situaçam dos estames, e da figura do fructo Nota
As Ordens do Systema sexual sam algumas vezes subdivididas em
secçoens entremedias, fundadas em diversas relaçoens do calys,
corolla e outras partes da fructificaçam. M. Adanson diz (Pref. p. XX.) que as subdivisoens das classes deste
systema sam algumas vezes fundadas tambem em notas do habito
externo; eu penso que elle falla das Ordens da Classe Cryptogamia,
porque todas as mais subdivisoens sam puramente estabelecidas em
notas da fructificaçam. Nota
Tournefort tinha feito
mençam de 698 generos; depois delle athe Linneo muitos outros Botanicos
ajuntaram quasi mil, e Linneo athe o anno de 1759 descreveo 1174
generos. O Dr. Murray, na ultima ediçam do Systema Vegetabilium de
Linneo publicada em 1784, fez mençam de 1436 generos; mas o numero dos
generos conhecidos, e classados no systema de Linneo he mais
consideravel, como se pode ver nas Obras de Jacquin, Forster, Aublet,
&c.
Este systema teve no principio pouco séguito Nota
Milne (Dict. Bot.) diz que
Linneo estando em Londres proposera o seu systema a Sloane, entam
presidente da Sociedade Real da dicta cidade, e que este nam fizera cazo
delle.Nota
Vej. a Exposiçam
deste Systema, e o Cap. V. do Tom. II. desta Obra.Nota
Boerhaave tinha na verdade fundado antes de Linneo caracteres
genericos nas partes da fructificaçaõ; mas por hum modo abbreviado,
e bem differente do plano de Linneo. Nota
Heister pensava que as
folhas podiaõ algumas vezes servir como parte essensial para
caracterisar os generos. Gouan na maior parte dos generos do seu Hortus
Monspeliensis ajuntou aos caracteres da fructificaçaõ (adoptados de
Linneo) outros a que elle chama secundarios, e que saõ tirados de
diversas partes do habito externo. Jussieu servio-se das cores, e das
notas do habito externo mixtas com as da fructificaçaõ em muitos
caracteres dos generos do seu Methodo. Adanson nas suas familias de
plantas naõ estabeleceo caracter algum generico puramente na
fructificaçaõ, e advertio que o mesmo, que Linneo tinha dicto de
Tournefort "Tournefortianis nihil detraho meritis optimis, nego tamen
ejus characteres perfectos esse, nego ex iis destingui posse genera" se
lhe podia adequadamente applicar relativamente a huma grande parte dos
seus generos; porquanto os caracteres de muitos delles, principalmente
dos exoticos, eraõ muito defeituosos, de maneira que os viajantes naõ
podiaõ nelles confiar, e que elles algumas vezes o teriaõ conduzido na
sua viagem do Senegal a tomar humas plantas por outras, se naõ se
tivesse servido dos destinctivos das folhas, disposiçaõ das flores,
&c. Haller taõbem admittio entre as notas genericas as do habito
externo, e chegou ainda mesmo a dizer, que Linneo as tinha seguido na
praxe, a pezar dos principios que tinha estabelecido: Id tamen
fundamentum jeci, cui soli Methodus naturalis potest superstrui, ut
vicinae sint stirpes, quae notis plurimis sibi similes sunt, etiam si
aliquâ quam longissime differant, eae plantae sint dissimiles, quae
plurimis notis diversae sunt, etiam si unâ notâ quam vicinissimae
fuerint. Neglectus hujus axiomatis Methodos non naturales genuit. Inter
notas habitum posui, quem excludit quidem ex legibus Linnaeus in praxi
vero ubique revocat, suisque legibus praefert, exemplo Convalartae,
Tussilaginis, &c. (Hal. Stirp. Helv. praef. p. 14.Nota
Os
generos (diz o Dr. Oeder Elem. Botan.) naõ saõ definidos pela natureza;
elles ficaraõ ao arbitrio dos homens, os seus limites saõ ambiguos, e
dependem das relaçoẽs arbitrarias, que cada hum adoptou por definiçaõ,
ou se propoz de seguir com preferencia rejeitando outras. Naõ me parece
que haja Autor algum, que tenha fundado generos invariaveis, por mais
disputas e por mais defensores que tivesse de que seguio as affinidades
naturaes. Que Botanico ha que deixe de conhecer a grande diversidade que
existe entre os generos da maior parte dos Methodistas, sem embargo de
todos terem pertendido seguir a natureza? Daqui tem procedido a
differença e multiplicidade de nomes, que daõ motivos de queixas aos que
estaõ acostumados a hum systema, e que fazem perder o gosto de cultivar
a Sciencia, oppondo-se por conseguinte ao seu progresso. As innovaçoẽs,
que Linneo fez na nomenclatura, a pezar de muitas queixas, foraô
adoptadas, e saõ hoje seguidas; mas talvez nos seculos seguintes,
crescendo o numero dos generos, e apparecendo outro famoso e ousado
systematico, se queixaraõ outros de que lhes mudaraõ os nomes de Linneo.
Alguns tem sido de parecer que deviaõ haver poucos generos por evitar o
incommodo do grande numero de nomes genericos, outros pelo contrario
seguiraõ que deviaõ haver muitos a fim de que os nomes das especies
fossem menos variaveis, e mais facil a practica methodica; mas nenhum
destes pareceres se dirige a arrancar a raiz do mal, que procede de naõ
haver em Botanica huma nomenclatura fixa, como ha em Astronomia.
No parecer de Adanson os generos de Linneo sam mais proprios dos systemas artificiaes fundados na fructificaçam, do que dos que sam estabelecidos em outras partes, e do que do Methodo natural, em cujos generos os caracteres devem ser tirados de todas as partes das plantas; outros contudo tem pensado que elles sam mais proprios do Methodo natural do que dos artificiaes ou ao menos do que systema do Sexual, porquanto dizem, que todos os Autores, que athe agora tem feito tentativas do Methodo natural, desuniram incomparavelmente muito menos dos generos de Linneo, do que seria precizo desmembrar, se todas as especies citadas no Systema [Página lii] sexual fossem destribuidas nas Classes e Ordens, a que rigorosamente pertencem conforme as leys do dicto systema.
Nam obstante todos os defeitos, que se censuraram nas differentes divisoens
desta destribuiçam systematica, ella nam deixou contudo de ser adoptada por
hum grande numero de Autores Botanicos, e de vir a ser hoje a mais seguida
na Europa Nota
A França he de todos os paizes da Europa aonde os systemas
de Linneo saõ menos seguidos. No jardim Real de Paris ensina-se o
Methodo de Jussieu, e em Dijon e muitas outras Universidades segue-se o
Methodo de Tournefort reformado.
No anno de 1738 Linneo publicou outro plano systematico, ao qual deo o nome de Methodo Calycino, por ser destribuido em 18 Classes deduzidas principalmente das relaçoens do calys; mas elle nam completou a execuçam deste Methodo por lhe ter preferido o primeiro fundado nos organos sexuaes.
No mesmo anno publicou huma terceira destribuiçam dos vegetaes, com o titulo de Fragmentos do Methodo natural.
Esta destribuiçam continha entam 746 generos em 65 divisoens, que elle
denominou Ordens naturaes sem lhes dar titulos alguns; mas em 1751 na ediçam
da sua Philosophia Botanica augmentou os dictos generos athe ao numero de
1026, e as suas Ordens a 68, dando-lhes differentes nomes tirados das obras
dos seus predecessores, ou imaginados por [Página liii] elle algumas vezes com bem pouca propriedade Nota
Segundo Royen, os
titulos das familias dos vegetaes devem ser tirados de hum genero, que
nellas he o mais conhecido; Adanson e Jussieu seguiraõ esta maxima, e
ella me parece na verdade ser a mais razoavel.Nota
Primum & ultimum in parte systematicâ Botanices quaesitum est
Methodus naturalis. Clas. Plantar. Methodus naturalis ultimus finis
Botanices est et erit. Philos. Botan. pag. 137.Nota
Isto naõ parecerà
estranho aos que conhecem a grande dificuldade que ha de vencer os
obstaculos, que se oppoem ao descobrimento do Methodo natural. Estes
obstaculos no parecer de Linneo (Phil. Bot. p. 137) saõ, 1.º o desprezo,
que se havia feito do habito externo das plantas, depois que se tinha
começado a cultivar a doutrina da fructificaçaõ; 2.º a falta de generos
exoticos, que restavaõ para defcobrir; 3.º a affinidade que tinhaõ os
generos com os que lhes ficavaõ lateralmente contiguos; 4.º (Gener.
Plant.) a difficuldade ou quasi impossibildade de estabelecer a clave do
Methodo natural, sem a qual as familias naturaes naõ podem constituir
Methodo. Estas difficuldades foraõ a causa porque elle deo o nome de
Pedaços do Methodo natural às Ordens que publicou, confessando que ellas
eraõ dirigidas a fazer conhecer a natureza das plantas, e naõ a sua
nomenclatura; porquanto pensava que so os Methodos artificiaes podiaõ
servir para bem fazer conhecer os seus nomes, e que todos os que para
este fim destribuiaõ as plantas em Fragmentos do Methodo natural,
rejeitando o artificial, lhe pareciaõ ser semelhantes aos que deitaõ
abaxo humas cazas de abobada e de bons commodos, para em seu lugar
reedificar outras, de que naõ podem fechar a abobada.Nota
Em vaõ, diz o Dr. Oeder (Elem. Bot.), se tentara de
explicar ou indagar o caracter de huma familia natural, em quanto houver
a preoccupaçam de que sò das partes da fructificaçaõ se devem tirar
caracteres geraes: examinemos toda a estructura, ou habito das especies,
todas as affinidades em qualquer parte que as poz a natureza, e podemos
estar certos de que descobriremos bons caracteres. ... . Sem embargo de
que Linneo fosse hum dos maiores defensores da doutrina da
fructificacam, nam me persuado que os caracteres das Ordens, que nos
deixou nos seus Fragmentos do Methodo natural, fossem puramente nella
estabelecidos.
Os trabalhos de Linneo em Botanica nam se limitaram somente a fazer huma
revolucam nos generos, e a formar com elles novas destribuiçoens; elle
publicou hum grande numero de novas observaçoens e de tractados de plantas
de muitos paizes, simplificou a nomenclatura dos vegetaes, inventou alguns
termos technicos, emendou e fixou os antigos, e estendeo os dogmas de
Botanica Nota
Estes dogmas estaõ reunidos na sua Philosophia Botanica:
muitos delles sam compilados de Jungio, Paulo Hamman e Tournefort:
alguns saõ demasiadamente generalizados ou applicados sem destinçam
tanto aos Methodos artificiaes como ao natural; em fim alguns foram
tractados de paradoxos, de principios contradictos pela practica do seu
mesmo autor, e rejeitados por Siegesbeck, Heister, Hebenstreit, Alstoa,
Ludwig, Haller, Adanson, Jussieu, &c.
Adriano Royen, professor de Botanica na Universidade de Leyde, deo no anno de
1740 hum plano de destribuiçam de 2700 plantas com o nome de Preludio do
Methodo [Página lv] natural, dividido em 20 classes relativamente ao numero das cotyledones,
partes da fructificaçam, disposiçam das flores, e substancia herbacea ou
pétrea (porque no seu tempo ainda se nam tinham excluido de Botanica Nota
As esponjas, coraes, corallinas, madreporas, e outras producçoens
marinhas denominadas lythophytos foram classadas no Reyno vegetal quasi
athe o meyo do nosso seculo. Imperati em 1599 teve algumas leves ideas
da animalidade destes entes; Peyssonel renovou as mesmas ideas em 1727,
mas sem provas convincentes; o Dr. Bernardo de Jussieu em huma Memoria
presentada a Academia de Sciencias de Paris em 1741 foy o primeiro que
provou com razoens decisivas, que elles deviam ser classados no reyno
animal por serem relativos aos polypos, cujos corpos se ramificaõ e tem
grande analogia com os vegetaes. Depois deste tempo os lithophytos foram
inteiramente excluidos do reyno vegetal.Nota
Hinc patet,
cur nullis a quocunque demum autore datis principiis adhaserim, sed
solis naturae legibus adstrictus.... Unde factum est, ut classes, quas
ante me pauci dederant, naturales servaverim, plures introduxerim, et
reliquas seorsim exhibuerim. Pr. Florae Leid.
Alberto Hailer, na sua Enumeraçam das plantas da Suissa impressa em 1742, e
das de Gottinga publicada em 1753 fez tambem huma nova tentativa do Methodo
natural, destribuindo duas mil especies, que descreveo, em 13 Classes Nota
Linneo reconheceo 15 Classes neste Methodo; Adanson confessa
contudo nam ter podido descobrir nelle mais do que 13; eu nam pude
taõbem decifrar hum maior numero; ellas sam com effeito difficeis de bem
se destinguirem, por se encadearem de ordinario estreitamente com as
subdivisoens subalternas, segundo o plano, que o seu Autor se tinha
proposto, e que elle seguio o mais que lhe foy possivel. Ego, qui non
universalem stirpium Historiam molior, non tenebar perfectam dare
generum distributionem. Sufficere credidi, si quamlibet familiam inter
duas familias disponerem, à quibus proximè distat et difficiliùs
distinguitur. Detegent fortè hoc meum studium gnari, in graminibus, in
transitionibus, quibus classes conjunguntur &c... id ubique non
obtinui, neque fortè licet, cùm affinitates naturales mihi non simplices
esse videantur, sed ab uno genere ad alia muita ex diversis notis
perinde possit legitimè transire. (Hall. Pr. Stirp. Helvet.
Francisco Sauvages, Medico de Mompelher, deo em 1743 o projecto de hum Methodo fundado nas differentes relaçoens das folhas, o qual, a pezar da reforma que o dicto botanico nelle fez em 1751, he muito defeituoso, principalmente pela razam das suas divisoens conterem de ordinario plantas que lhes nam convem com propriedade.
Everardo Wachendorf imprimio no anno de 1747 hum catalogo, das plantas do jardim botanico de Utrech, no qual citou quasi quatro mil especies simplesmente com as phrases de Linneo, e destribuidas em 16 Classes principalmente pela fructificaçam. Este botanico he contado no numero dos que fizeram tentativas sobre o Methodo natural; mas as divisoens do Methodo, que elle imaginou, pela maior parte nam sam [Página lvii] naturaes, e os seus titulos de ordinario sam viciosos pela sua demasiada extensam.
O Methodo geral publicado pur Lourenço Heister em 1748 contem 35 Classes fundadas na fructificaçam, habito externo e grandeza arborea ou hebracea; subdivididas em 93 Ordens relativamente ao sexo das flores, à sua disposiçam e das folhas, numero das petalas e sementes. Este Methodo parece ter sido trabalhado sobre o de Rai, e he mais facil do que elle.
Joam Gleditsch deo no anno de 1749 Nota
Vej. a Histor. da Acad. Real de
Scienc. de Berlim. in 4.º, pag. 109, e seg.
M. Duhamel no seu Tractado das arvores e arbustos, que se cultivam em França sem estufas, impresso em 1755, cuidou de combinar o Systema de Linneo com o de Tournefort, e destribuio as mil especies, de que fez mençam, em tres Classes relativamente aos sexos, e ao numero das petalas. Elle deo ainda na mesma Obra mais dois outros Methodos, hum composto de sette Classes estabelecidas na substancia e figura do pericarpo, e na substancia, figura, e nudez das sementes; outro de quatro Classes fundadas na figura, situaçam, e duraçam das folhas. O intuito de M. Duhamel foy de facilitar, o mais que lhe foy possivel, o conhecimento das plantas de que tractou, considerando-as nestes tres Methodos relativamente ao estado da florecencia, da frutescencia, e do [Página lviii] periodo em que ellas se acham sem, flor nem fructo, e so com folhas: elle conhecia muito bem, que todos os Methodos artificiaes sendo mais ou menos defeituosos, o seu primeiro Methodo nam podia ser livre de defeitos, e lhe ajuntou por esse motivo os dois outros para supprir às suas imperfeiçoens. Hum semelhante plano he digno de ser imitado, e o seria ainda muito mais, se M . Duhamel lhe tivesse ajuntado hum quarto Methodo ou Catalogo, no qual as plantas, que citou, se achassem dispostas em familias naturaes.
M. Adanson, sabio Botanico da Academia de Sciencias de Paris, no seu Tractado das
Familias de Plantas publicado em 1763 seguiu hum plano do Methodo natural
inteiramente diverso dos que tinham imaginado os seus predecessores. Elle
destribuio as 18 mil plantas (especies e variedades) conhecidas athe ao dicto
anno, em 1615 generos, a que chamou linhas de separaçam primarias e bem
assignaladas pela natureza. Assignou a cada huma destas Familias e generos o
seu caracter particular deduzido da fructificaçam e habito externo, porque
no seu parecer os verdadeiros caractéres genericos naturaes, ou proprios das
divisoens do Methodo natural devem ser tirados de todas as partes dos
vegetaes, vistoque ha algumas, que sam mais essensiaes para este fim em
certas Familias do que as da fructificaçam, como por ex. sam as folhas na
familia das Estrelladas e Leguminosas, e a disposiçam das flores nas
Labiadas. Nam estabeleceo clave alguma às 58 familias, a que limitou o
reyno vegetal conhecido, pensando que era muito difficil, e mesmo impracticavel,
reduzir as familias naturaes a huma boa clave classica, por falta da
generalidade competente de notas caracteristicas. Em lugar de clave dispoz as
dictas familias por huma serie gradativa, começando pelas dos vegetaes menos
perfeitos, e encadeando-as [Página lix] humas com outras conforme as affinidades, com que ellas lhe pareceram ter
sido approximadas pela natureza. Este Methodo nam deixa de ter bastantes
imperfeiçoens, como o seu mesmo Autor confessa; muitos dos caracteres dos seus
generos e familias sam incompletos, e precisam de ser correctos (este defeito
contudo nem sempre deve ser attribuido ao Autor, elle procede muitas vezes das
omissoens dos seus predecessores ou das estampas e descripçoens incompletas, que
elles publicaram, e que M. Adanson seguio, sendo-lhe impossivel de tudo
verificar); algumas plantas referidas às familias das dicotyledones sam
monocotyledones; algumas familias parecem desligadas, outras tem transiçoens
muito arbitrarias e mesmo improprias, como he por ex., a dos Pinheiros aos
Musgos, que o Autor poz no fim de todas as suas gradaçoens methodicas; outras
nam tem a sufficiente uniformidade de caracteres nos seus generos para merecerem
o nome de naturaes; em fim algumas plantas podem referir-se a duas familas
vizinhas, sem que nota alguma caracteristica decida mais a favor de huma do que
de outra. A pezar destes e outros defeitos, o Methodo de M. Adanson nam deixa de
ser muito mais bem trabalhado nas familias naturaes do que os dos seus
predecessores; elle chegua-se muito mais ao Methodo natural, e pode servir de
grande soccorro aos que se occupam na sua investigaçam. M. Adanson publicou alem
disso na mesma obra hum grande numero de reflexoens sabias sobre a Botanica
dogmatica e methodica, que o dam bem a conhecer pur hum botanico erudito e
profundo. Eu adoptei neste Tractado muitas das suas ideas, todas as vezes que as
achei conformes ao que me tem ensinado o estudo de muitos annos subre os
vegetaes, porque nem sempre me pareceram bem fundadas. Algumas das suas
assersoens relativas às partes da [Página lx] fructificaçam das plantas denominadas Cryptogamicas discordam muito das
minhas observaçoens e das do Dr. Hedwig de Leipsik Nota
O Dr. Kedwig he de
todos os modernos o que me parece ter melhor indagado as plantas
Cryptogamicas. A Academia de Petresburgo coroou huma das suas obras, na
qual elle demonstrou com huma grande sagacidade as miudas partes da
fructificaçaõ naõ so dos Musgos, mas ainda dos Fetos, Algas e Fungos.
Elle referio a Cavallinha a Tetandria monogynia: os organos masculinos
do Agarico, segundo as suas observaçoens, estam na parte interna da
volva, que cobre as laminas, e que vem depois a formar o annel a roda do
espique; os pistillos da mesma planta estam situados nas laminas. Elle
pensa que os escudilhos dos Lichens sam capsulas, que enserram sementes,
e que os tuberculos dos Lichens tuberculosos foraõ escudilhos antes de
tomar a forma tuberculosa. Julga que as celhas do Lichen ciliaris sam
raizes, assim como outras partes analogas em muitas outras espécies de
Lichen. O seu prezado axioma he que — omnis planta ex semine — assim
como o de Harvey era, omne animal ex ovo —. Segue que os fluidos
circulaõ, nos vazos dos vegetaes, assim como nos dos animaes, e que os
Reynos Vegetal e Animal se podem bem distinguir hum do outro pelos
organos masculos, os quaes em todos os vegetaes perecem depois de ter
operado a fecundaçaõ, e pelo contrario subsistem nos animaes depois
desta operaçaõ, e podem repetila muitas vezes.
O Dr. Antonio Luiz de Jussieu, celebre Botanico da Academia de Sciencias de
Paris, em duas Memorias prezentadas à dicta Academia nos annos de 1773 e de
1774, indicou hum novo plano methodico universal, e nelle adoptou a nomenclatura
de Linneo, e quasi geralmente os seus generos, reduzindo-os a 92 Familias
estabelecidas em differentes relaçoens collectivamente tiradas de todas as
partes das plantas, e dispondo as dictas familias conforme as suas affinidades
em huma serie methodica, começando pelas dos vegetaes menos perfeitos, como
tinha feito M. Adanson. Elle nam seguio contudo as ideas deste Botanico nem as
de Linneo a respeito da clave [Página lxi] classica das familias naturaes; porquanto persuadido de que nellas haviam
algumas relaçoens geraes e invariaveis capazes de servir de base para
estabelecela, reduzio as do seu Methodo (que considerou como naturaes) a huma
clave de 14 Classes fundadas principalmente na privaçam ou numero das
cotyledones das sementes, e no mediato ou immediato apego dos estames ao calys,
receptaculo, ou pistillo. Mas esta clave tem algumas imperfeiçoens e he muito
diffcil na practica: o titulo de acotylédones (ou sem cotyledones) dado a
todas as Cryptogamicas, às Nayades e Parasitas he improprio e desmentido
pela natureza; nestas duas ultimas familias ha algumas plantas Nota
Como
saõ por ex. o Myriophyllum, e Ceratophyllum.Nota
Como por ex. no Cactus, no qual algumas especies saõ
monocotyledones e outras dicotyledones.Nota
O Methodo sobredicto foy imaginado pelo Dr.
Bernardo de Jussieu, e estabelecido primeiramente no Real Jardim de
Trianon, sito no Parque de Versalhes; depois da sua morte o Dr. Antonio
Luiz de Jussieu cuidou de lhe dar huma melhor forma, e o introduzio no
jardim Real de Paris, aonde hoje he ensinado publicamente aos nacionaes
e estrangeiros.Nota
O Real Jardim Botanico de Paris contem quasi cinco mil
differentes especies de plantas de diversos climas do globo terrestre, e
este numero he todos os dias augmentado pelas novas remessas, que o
douto Thouin, Jardineiro mòr do dicto Jardim, recebe de paizes
estrangeiros.
Por evitar de ser prolixo, nam faço aqui mençam de alguns outros Methodos modernos, relativos às plantas de differentes paizes do Globo, como o do Dr. Allioni sobre as plantas do Piemonte, o de Oeder sobre as de Dinamarca, o do Cavalheiro de la Mark sobre as da França, o do Lord Bute sobre as da Gr. Bretanha, o de Thunbergio sobre as do Japam, nem os de outros, que se [Página lxiii] acham indicados no nosso Catalogo dos Autores Botanicos: todos estes Methodos nam sam outra coiza mais, do que combinaçoens ou correcçoens dos precedentes, de que tenho summariamente tractado.
Alem dos Methodos universaes, e geraes, tem havido ainda alguns outros
denominados parciaes, e relativos a huma so Classe ou Familia de plantas; taes
sam por ex. os de Dillenio, Michelli, Gledits, Batarra, e Bladts sobre os
Fungos; os de Dillenio, Michelli e Hedwig sobre os Musgos; os de Monti,
Michelli, e Schenzer sobre as Gramas; os de Morison, e Artedi sobre as
Umbrelladas; e os de Vaillant, e Pontedera sobre as Compostas. Alguns publicaram
Tractados particulares de hum genero infimo, que pelas numerosas especies, que
contem, parece constituir huma Familia, como por ex. Klein, Donati, e Gmelin do
Fucus ou Alga, Burman do Geranto, e Haller do Alho. Muitos emprehenderam
viagens nam so pela Europa, mas por todos os lugares do Globo, aonde ha
colonias de Europeos, e,aonde o commercio e navegaçam lhes franquea a
entrada Nota
As viagens, que desde o seculo passado athe ao presente se tem
emprehendido por differentes sabios a fim de augmentar os conhecimentos
em Botanica e outras partes de Historia natural, saõ summamente
numerosas; as principaes entre as modernas saõ: a de Gmelin pela Siberia
athe aos confins da China: a de Shaw na Africa; Colden na Virginia;
Brown na Jamaica; Adanson no Senegal; Kalmio e Jacquin na America; Osbek
na India; Hasselquist na Palestina; Loeffling e Alstroemer na Hespanha;
Amman na Russia; Burman em Ceilaõ e Cabo da Boa Esperança; Bergio taõbem
no Cabo da Boa Esperança; Forskoll no Egypto e Arabia; Pallas nos
Estados da Russia; Sparman na Africa austral; Sonerato na nova Guiné e
India; Aublet na Ilha de França e Guianna; Thunbergio na Africa austral,
Ceilaõ, Java e Japaõ; Solander com o celebre cavalheiro Banks, e os dois
Forsteros no mar austral, &c.Nota
Como a Sociedade de Allemanha estabelecida em 1670, a de
Londres em 16S2, a Academia de Sciencias de Paris em 1699, a de Upsal em
1720, a Imperial de Petresburgo em 1728, a de Noremberg em 1731, a de
Stokolmo em 1739, e muitas outras que foraõ fundadas no seculo actual
para servirem de Archivos às Sciencias, e contribuirem para o seu
progresso.
Das destribuiçoens dos entes do reyno vegetal, que athe agora se tem
publicado quer sejam denominadas Systemas ou Methodos artificiaes Nota
Os
Systemas artificiaes saõ fundados em huma so parte ou em poucas: o
Methodo natural pelo contrario he fundado em muitas, e considerado como
hum composto de muitas familias, nas quaes cada especie se acha por taõ
intimas affinidades ligada com outras, que nenhuma dellas se pode
separar sem fazer violencia à natureza.Nota
Como
foraõ Morison, Ray, Tournefort, Magnol, Boerhaave, Ludwig, Adanson,
Jussieu, &c.
" A Botanica, diz hum celebre Naturalista moderno Nota
M. Adanson, cujas ideas transcrevo aqui por me parecerem ser as mais
exactas, e adequadas para instruir o Leytor sobre o estado actual da
Botanica. Nota
Segundo o mesmo sabio Naturalista, a Botanica he susceptivel de
muitos problemas sobre as linhas de separaçaõ entre as Familias e
generos, sobre as relaçoẽs que os encadeaõ, sobre as affinidades que
fazem que hum vegetal pertença mais a hum genero, ou familia, do que
a outros &c. O Dr. Ant. L. de Jussieu he do mesmo sentimento, accrescentando que
ella preciza às vezes de huma especulaçaõ, que equivale à das
Sciencias mais abstractas. Nota
Naturalem
et perfectissimam Methodum, in quá nullæ anomaliæ occurrunt deprehendi
vix, posse opinamur, cum varietas characterum nimia sit, & ex
consensu omnium signorum characteres veró naturales exurgant, hinc uno
signo variante vera dispositionis ratio turbatur. Ludwig. Instit. Botan.
§. 190.Nota
Ray, que no fim do seculo passado fez mençaõ de 18655 plantas,
ontando especies e variedades, dizia que a metade dos vegetaes do
globo terrestre não estava ainda conhecida. Oeder em 1753
julgava que haviaõ 7320 especies conhecidas sem contar as variedades, e
que na Europa, aonde haviaõ tres mil e tantas especies, eraõ poucas as
que naõ se conheciaõ, mas que isto era bem differente a respeito das
outras partes do Globo. M. Adanson pensa que ha 16 mil especies
conhecidas, e que restaõ ao menos 25 mil para descobrir. M. Le Monier,
Professor de Botanica em Paris pertende que ha hoje 25 mil plantas
conhecidas entre especies e variedades, e que cohecemos mais da metade
das plantas do globo terrestre. Linneo dizia que o numero das plantas de
todo o Globo era menos do que se pensava, e que segundo o seu calculo
ellas montavaõ quando muito a dez mil [numerum plantarum totius Orbis
longé pauciorem esse, quam vulgó creditur, satis certo calculo
intellexi, utpote qui vix ac ne vix 10,000 attingat] [Spec. Plant. ad.
Præf. edit 1754]: mas o seu calculo naõ tem a certeza que elle
pertendia; os Hervarios de Adanson, Jussieu, e Sloane contem 8 mil
especies, o de Vaillant nove mil, o de Sherard dez mil, e quantas mil
alem destas naõ contem os sertoẽs de Africa, Asia, e America, e outros
paizes da Terra aonde nenhum Botanico tem ainda penetrado?Nota
Em todos os tres reinos de natureza ha formas tao particulares a
certos paizes, que se naõ achaõ fora delles: no reino vegetal a
experiencia tem mostrado que ha muitas especies e generos, que saõ
proprios huns da Asia, outros da Africa, e outros da America
exclusivamente; que na Europa ha hum grande numero de generos de
Cruciferas e Umbrelladas, muito poucos de Malvaceas, e apenas duas
especies de Palmeiras (as quaes segundo alguns conjecturaõ foraõ
nella naturalizadas por transplantaçaõ) que na Zona torrida ha muito
poucas Umbrelladas, e rarissimas Cruciferas. Portanto assim como ha Familias quasi inteiras na Europa, outras
quasi inteiras fora della, he muito provavel que hajaõ taõbem fora
della algumas Familias, das quaes naõ conhecemos ainda planta alguma
ou apenas conhecemos hum ou poucos generos, que os viajantes nos tem
descripto. Nota
Porquanto ha, segundo o mesmo Botanico, algumas plantas, que tendo
variedades saõ consideradas como especies, e outras vice versá, que
sendo especies saõ reputadas por variedades. Nota
Diz-se ordinariamente, que ha muitas coizas
minuciosas, que se devem omittir e désprezar nas descripçoẽs dos
vegetaes; que as descripçoẽs longas naõ se lêm, e que nellas se naõ
percebe com facilidade e brevidade as differenças caracteristicas; em
fim que as abbreviadas saõ as melhores, e o que nellas falta deve ser
supprido pelas Estampas. Pelo contrario vejo ainda mesmo alguns
daquelles, que tem seguido este parecer, queixarem-se de que naõ poderaõ
aperfeiçoar seus Methodos pela razaõ de naõ terem achado nos Autores
descripçoẽs mais extensas e completas. Plinio dizia, que nada podia
parecer superfluo nos olhos de hum attento observador da natureza; com
effeito naõ me parece que haja coiza alguma em huma especie vegetal, que
deixe de merecer de ser observada, e descripta na sua Historia Natural;
o que em hum seculo he reputado por superfluo e minucioso, naõ o he em
outro, e nos temos varios exemplos disto nas estipulas, nectarios,
glandulas, situaçaõ do corculo, ponto de apego dos estames, figura do
pollen das antheras, &c. As Estampas saõ na verdade de grande
soccorro, mas he rarissimo de encontrar alguma em que naõ hajaõ defeitos
e descuidos; demais disso ha muitas circumstancias que naõ se podem
nellas bem exprimir, as quaes se podem pelo contrario bem expor nas
descripçoẽs. Huma descripçaõ, na qual se mencionasse completissimamente
a forma exterior, estado organico, e toda a natureza de huma planta,
dando-se della huma boa estampa, seria hum fixo monumento da dicta
planta, e naõ deixaria para observar a respeito della o que huma
descripçaõ abbreviada, aindaque reunida a numa boa Estampa, costuma
deixar. As descripçoẽs abbreviadas prezentaõ com effeito os finaes
caracteristicos com facilidade; mas como os sinaes caracteristicos
differem segundo os differentes Methodos, a facilidade, he igualmente
sujeita a differir, succedendo muitas vezes que a mesma descripçaõ, que
he facil a respeito, de huns, fica sendo difficil a respeito de outros,
ou pelo dizer de outro modo, a descripçaõ abbreviada, que he boa
conforme as ideas deste ou daquelle Botanico, he mà para a Botanica,
como a sua historia desde a restauraçaõ das lettras athe ao presente
nolo attesta. Em summa, a perfeiçaõ da Botanica depende da comparaçaõ de
todas as partes e sinaes quaesquer que se podem divisar na forma e
estructura dos individuos vegetaes, e para este fim so as descripçoẽs
vastamente circumstanciadas podem ser de hum adequado soccorro.Nota
Rai foi de parecer, que naõ era necessario nos Methodos indicar parte
alguma, que exigisse o uso do microscopio, como ja notei (pag. XL,
not. b.). Alguns Methodistas seguem ainda hoje este parecer; outros
rarissimamente assignaõ caracteres fundados no uso do microscopio;
outros em fim estabelecem Familias inteiras em notas
caracteristicas, que dependem absolutamente do uso delle. M. Adanson pensa que ha nos animaes e vegetaes quasi tantas partes
insensiveis ou microscopicas, como ha de bem apparentes á vista
simples, e que todas ellas saõ igualmente dignas da attençaõ de hum
Naturalista, julgando por erronea a opiniaõ de Rai. Nota
Seria acertado que huma Academia protegida por algum Soberano ou
pessoas ricas e com artistas tencionados emprehendesse de dar todos
os annos hum certo numero de Estampas completas dos vegetaes
conhecidos athe chegar a publicar todas as suas especies e
principaes variedades: este trabalho daria a Historia Natural hum
precioso Archivo, e contribuiria summamente para o seu
progresso. M. Adanson, e outtos modernos criticaraõ com justo
motivo a Linneo de ter dicto (Gener. Piantar. 1743) icones pro
determinandis generibus non commendo, sed absolute rejicio, licet fateor
has magis gratas esse pueris, iisque, qui plus habent capitis quam
cerebri... ab iconibus enim quis potest unquam aliquid argumentum fixum
desumere; sed ab scriptis facillime; sendo notorio que o mesmo celebre
Botanico Sueco se servio das Estampas de Rheede, de Tournefort, Plumier,
Dillenio, Micheli & outros para caracterizar alguns generos e
especies, nao deixou de ajuntar sempre huma Estampa às descripçoes das
plantas novas, que descobrio. He verdade, diz M. Adanson, que ha muitas
coizas nosentes organicos, que nao se podem exprimir nas Estampas, e saõ
so proprias das descripçoẽs; mas naõ se pode duvidar taõbem que ha
algumas nos dictos entes, e hum nao sei que nas suas physionomias, que
sò he privativo à pintura ou desenho de exprimir e de que nenhuma
descripçaõ pode dar noçoẽs claras. He por esta razaõ que sera sempre
necessario reunir as figuras as descripçoẽs, e as descripçoẽs ás
figuras, como servindo humas às outras de hum reciproco
soccorro.
Taes sam os passos, que tem dado a Botanica, e o seu estado actual nos
differentes paizes da Europa. O seu progresso entre nos tem sido ora
proporcionado e em parte superior ao das outras Naçoens Européas, ora mais
lento. No tempo, em que a Lusitania esteve debaxo do dominio dos Romanos,
lemos nos antigos Autores Nota
Segundo Plinio, Strabo, Justino, Athenco, Columela, e outros, as
plantas frumentaceas e hortaliças eraõ copiosamente cultivadas entre
os Lusitanos; elles extrahiaõ muito azeite naõ so das azeitonas, mas
ainda das bagas de loiro e fructos de outros vegetaes, e os Romanos
exportavaõ delles trigo, azeite, vinhos, cardos hortenses, tuberas
da terra, linhos, esparto, bettonica, &c. &c. Nota
A Bettonica ou Vettonica diz-se ser assim denominada pela razaõ dos
seus usos medicinaes terem sido descobertos pelos povos Vettones ou
Vetones. Estes povos habitavaõ huma parte das provincias orientaes do Portugal
moderno e a provincia da Extremadura da Hespanha moderna; a sua
Capital segundo Prudencio, era Merida (Emerita), a qual fazia parte
do Portugal antigo ou Lusitania. André de Rezende seguindo a opiniaõ de Plinio extende a habitaçaõ dos
Vettoens athe ao Doiro.
A restauraçam das lettras tendo feito mudar em Portugal o plano de estudos,
Theophrasto, Dioscorides e outros antigos, que tinham tractado dos vegetaes,
começaram a ser melhor interpretados do que o tinham feito os Arabes e os que
athe esta famosa epoca haviam adoptado as suas ideas; a nossa Universidade tinha
na Botanica (que entam se ensinava) professores tam instruidos como as melhores
da Europa. Com intuitos de commercio e de engrandecimento do Estado,
acompanhados da paxam de investigar, descobrimos novos paizes navegando
pelos mares meridionaes da Africa e India athe à China, e fomos à proporçam
que os conhecemos dando à Europa tanto em Geographia como em differentes
partes de Historia natural Nota
Garcia de Horta, celebre Professor da nossa Universidade de Coimbra,
tendo deixado a sua cadeira de Medicina em 1534, e passado à India e
China publicou em Goa o seu Tractado das Especierias do Oriente, o
qual foy depois tradurido do Portuguez em varias linguas pela sua
novidade e exactidaõ. Thomé Péres e Joaõ Fragoso tractaraõ taõbem das drogas e plantas do
Oriente; Fernaõ Mendes Pinto, Barros e outros fizeraõ mençaõ de
muitas arvores e producçoẽs da India, China, Moluccas e outras ilhas
do mar da India. Pero Magalhaẽs, amigo do nosso Camoẽs, na sua Historia de S. Cruz ou
Brasil tractou da herva sancta (depois chamada herva do tabacco ou
da ilha Tabago, e herva de M. Nicot), da mandioca, da arvore do
balsamo de copaïva e algumas outras produccoẽs da America
Meridional.
Se o mesmo plano de estudos, e a mesma instrucçam se houvesse sustentado e
promovido entre nos, a Botanica e outras Sciencias e artes deveram certamente
aos Portuguezes hum explendor progressivo; mas differentes circumstancias assaz
expressas na nossa Historia se opposeram a isso. Cahimos debaxo do poder de
Hespanha, e fomos durante muitos annos com pezados grilhoens sopeados e
enfraquecidos; fomos, depois de os ter felizmente espedaçado, obrigados a
soster longas guerras; e em quanto as artes e Sciencias floreciam entre os
estrangeiros, e estes se serviam ainda mesmo de nossas terras Nota
Tournefort adiantou a Botanica com algumas plantas, que descobrio em
Portugal; Grisley no seu Viridarium Lusitanum fez taõbem mençaõ de
algumas, de que nenhum autor Portuguez tinha tractado. Rheede e Rumphio enriqueceraõ a Botanica com a noticia de novas
plantas de muitos lugares da India e ilhas adiacentes, que os
Hollandezes nos tinhaõ conquistado em quanto estivemos debaxo da
dominaçaõ dos Reys Philippes. Marcgrave e Pisam tractaraõ da Historia Natural do Brasil mais ampla
e circumstanciadamente do que nenhum dos nossos Autores.
Os primeiros tempos pacificos foram empregados em reparar os danos, que
principalmente a Politica e armas de Hespanha nos tinham causado; mas nam se
pode remediar a todos; a degenerada situaçam das lettras prevaleceo, e as
Sciencias nam poderam ser ainda geralmente reformadas. O Ceo tinha destinado
esta gloriosa empreza a hum dos mais illuminados Soberanos que tem occupado o
throno Portuguez, o Senhor D. Joseph I.: no seu reynado a reforma do bom [Página lxxiv] gosto em Litteratura foy seguida pela das Sciencias. Inclytos sabios
estrangeiros foram chamados para professar algumas dellas entre nos, e elles nos
introduziram subitamente aos mais essenciaes conhecimentos, que a Europa,
durante a nossa decadencia, tinha nellas alcançado. A Botanica nam podia
deixar de merecer a attençam de hum Princepe Nota
O estudo dos vegetaes tem
sido promovido por muitos Soberanos. Alexandre Magno mandou remetter a
seu Mestre Aristoteles (ao qual tinha incumbido o cuidado das Sciencias
naturaes na Grecia) as mais singulares produicçoẽs vegetaes, que haviaõ
nos paizes que tinha conquistado, e se diz que mandara a Socotorà huma
colonia Grega para ter cuidado de colher e enviar ao Egypto o albe desta
ilha. Os Imperadores Romanos mantiveraõ sabios em varias partes dos seus
vastos dominios para conservar os conhecimentos botanicos e os
adiantarem. Maximiliano II. e Rodolpho seu filho, Imperadores de
Allemanha, honraraõ e ennobreceraõ a Clusio pela sua grande erudiçaõ em
Botanica. Philippe II. mandou Hernandes à America investigar as suas
producçoẽs vegetaes e outros objectos de Historia Natural, e despendeo
nisso mais de trezentos mil ducados. Luiz XIV. manteve muitos annos o
douto P. Plumier na America para descrever as suas plantas, e mandou
Tournefort viajar por todo o Levante principalmente no intuito de
reconhecer os vegetaes, de que os antigos Gregos e Romanos tinhaõ feito
mençaõ. Pedro I, Czar da Russia, e seus successores fizeraõ indagar as
plantas dos seus grandes estados athe à China. Fernando VI. mandou vir a
Hespanha o sabio Loefling, e estabecer por elle em 1756 o jardim
Botanico de Madrid. Elrey de Dinamarca em 1761 enviou a Arabia nove
sabios, e entre elles Forskohl para se occupar de observaçoẽs botanicas.
O Imperador actual mandou o celebre Jacquin as Antilhas para observar e
descrever as suas producçoẽs vegetaes. A protecçaõ com que hoje todos os
Soberanos e muitas pessoas ricas promovem por toda a Europa a Botanica
he he assaz conhecida.Nota
O Real Jardim botanico sito junto do Pallacio Real de N. Senhora da
Ajuda, e o Jardim da Universidade de Coimbra. Nota
O Dr. Domingos Vandelli, cujo merecimento he bem conhecido nas
principaes Academias da Europa. Este sabio restabeleceo naõ so a Botanica em Portugal, mas ainda a Zoologia , Mineralogia, e Chimica de que foy
igualmente nomeado professor pelo Senhor D. Joseph I.
Por terminar este Epitome historico da Botanica ajuntarei somente as reflexoens
seguintes. O reyno vegetal he huma fonte inexhaurivel de novos conhecimentos,
hum thesoiro copiosissimo de preciosidades. A estructura infinitamente variada
dos entes deste reyno, as combinaçoens de differentes principios, que constituem
a sua natureza, sam huma das mais bellas maravilhas da composiçam do Globo, que
habitamos. Nam ha vegetal algum, que nam mereça de occupar a attençam de hum
verdadeiro sabio; nenhum ha, por mais desprezivel que pareça, de que se nam
possa esperur alguma utilidade Nota
Na supposiçaõ de que somente hum certo numero de vegetaes fosse util,
o seu estudo seria recommendavel a fim de que se naõ confundissem os
uteis com os inuteis; mas a experiencia desmente todos os dias esta
supposiçaõ, mostrando que huma planta tida por inutil em huma arte
he util em outra, e bastarà citar a este respeito o Recueil
d'Expériences sur les teintures, que les végétaux indigènes de
France communiquent aux laines, por. M. Dambourney. Nota
Nos antigos tempos os que practicavaõ a arte de curar costumavaõ
subministrar aos seus doentes os medicamentos, e como estes eraõ quasi
todos tirados dos vegetaes, a Botanica medicinal era hum dos seus
principaes estudos. Este costume tem ainda hoje lugar entre os Asiaticos
e Africanos. Entre os Europeos os Medicos e Cirurgioẽs foraõ
determinados por diversas circumstancias a occupar-se puramente do
curativo clinico dos enfermos, e deixaraõ o cuidado de preparar e
distribuir os medicamentos a differentes sortes de pessoas, como
Boticarios, Hervolarios, Droguistas, e Especieiros. Mas deste abandôno
ou tranfacçaõ naõ se pode tirar fundamento de que elles naõ devaõ
apprender a conhecer os medicamentos, tanto relativamente à sua
preparaçaõ e composiçaõ, instruindo-se na Chimica e Pharmacia, como no
seu estado simples e taes como sahem do seyo da natureza, instruindo-se
em Botanica e outras partes de Historia Natural. Hum Medico ou Cirurgiaõ
que sabe Botanica esta habil para descobrir nas plantas indigenas do
lugar, em que practica, virtudes identicas ou semelhantes às das
exoticas; para fazer hum grande bem aos pobres habitantes das aldeas
(quando nellas practica) mostrando lhes medicamentos frescos e sem
despeza; para poder destinguir o Boticario ignorante do que he instruido
no conhecimento das plantas medicinaes, e decernir (sendo perguntado na
caza do seu enfermo) se o Boticario ou Hervolario, vendeo ou naõ à
verdadeira planta, que elle tinha ordenado; para poder julgar, se huma
planta subministrada por hum Boticario ou qualquer outra pessoa, à qual
se attribue hum homicidio, era ou naõ venenosa; em fim està habilitado
para poder descrever huma planta nova, de que observou as virtudes, e
poder seguramente verificar as que se assignaõ às antigas. Os que
ignoraõ a Botanica, pelo contrario, ficaõ privados de todas estas
vantagens; elles confiaõ nos Boticarios ou Hervolarios, que muitas vezes
saõ pouco instruidos no seu estado, e daõ hum simples por outro, e dahi
resulta huma das razoẽs porque ha tantos enfermos mal tractados, e
tantas falsas observaçoẽs em Medicina.
Todos os corpos compostos, que existem no globo terreste, podem ser reduzidos
a tres grandes classes primarias, a que os Naturalistas chamam os tres
reynos da Natureza, a saber, o reyno mineral, vegetal, e animal. No primeiro consideraõ-se as terras, pedras, e metaes, que se distinguem dos
entes dos outros dois reinos, pela rasaõ de naõ viverem, ou nam terem huma
organizaçaõ e contextura destinada às funçoẽs da vida, segundo o modo com
que fisicamente se entende esta palavra; as pedras e metaes naõ deixaõ sem
embargo disso de ter crescimento. O segundo comprehende os vegetais (vegetabilia) ou entes organizados que
crescem e vivem, sem contudo serem dotados de sensibilidade, nem de potencia
locomotiva. O terceiro contem os animais ou entes que crecem, vivem, sentem, e tem
potencia locomotiva; ainda que nas suas extremas gradaçoẽs (começando no
homem e quadrpedes) se achem alguns que parecem ter a sua sensibilidade e
faculdade [Página 2] locomotiva em hum grande embotamento e inatividade Nota
Muitos Naturalistas achaõ grande difficuldade em declarar com
evidencia onde termina o ser vegetal e começa o animal: eu tractarei
mais extensamente desta materia nos meus Elementos de Botanica.
A sciencia que tracta dos entes destes tres reynos he chamada Historia Natural. Quando so se emprega na consideraçaõ dos mineraes tem o nome de Mineralogia; se so tracta dos vegetaes he chamada Phytologia ou Botanica ( Phytologia, seu Botanica ), mas este segundo nome he o mais usado. Em fim quando somente tracta dos animaes he chamada Zoologia .
A Botanica segundo o diverso modo com que tracta dos vegetaes pode ser dividida em Botanica applicada, physiologica, e pura ou fundamental. A applicada tracta do uso dos vegetaes tanto medicinal como economico, isto he, de todas as utilidades que o homem pode tirar dos vegetaes; donde resulta que todos os tractados de materia medica, de agricultura, das differentes madeiras, das tintas vegetaes, &c. naõ saõ outra coiza mais do que huma Botanica applicada. A Botanica physiologica tracta das funçoẽs vitaes e estructura organica dos entes do reyno vegetal, e para este fim se vale da anatomia, chymica, e physica; a patologia dos vegetaes, ou tractado das suas doenças, ainda que devera ser separada, he comprehendida ordinariamente tanto na Botanica physiologica como na pura, e ainda mesmo nos tractados de agricultura. A Botanica pura ou fundamental tracta do modo de destinguir hum vegetal de todos os mais, por meyo dos seus caracteres, ou sinaes externos, com certeza, facilidade, e brevidade. Ella he [Página 3] a que deve fazer o objecto deste tractado e della dependem as duas precedentes.
Ainda que o meu fim naõ he tractar neste epitome senaõ dos principios relativos á Botanica pura, naõ me parece contudo desacertado dar aqui algumas breves noçoẽs sobre a organizaçaõ ou estructura interna dos vegetaes por facilitar a intelligencia de alguns termos a ella respectivos, que se achaõ nas obras de Linneo e de muitos outros Botanicos.
Os vegetaes tanto pela sua organizaçaõ como pelas suas funçoẽs vitaes tem
huma grande analogia com os entes do reino animal; nascem, perecem,
reproduzem por sementes ou ovos vegetaes a sua mesma especie; continuaõ-na
taõbem por gomos, ramos cortados, e enxertias, circumstancias que se achaõ
igualmente em alguns animaes Nota
Nos polypos.
O corpo dos vegetaes em geral consta de epiderme (epidermis) ou cuticula
exterior apegada á casca (cortex) produççoẽs assaz conhecidas; a ultima
lamina interna da casca, hum tanto mais compacta do que ella, [Página 4] he chamada livrilho ou alburno (liber, alburnum Nota
Alguns Botanicos fazem differença entre estas duas palavras,
relativamente a algumas arvores , dizendo que o alburno medea entre
o lenho e livrilho, e tem huma consistencia diversa de ambos,
constituindo as primeiras camadas concentricas do corpo
ordinariamente chamado lenho.
O systema vascular dos vegetaes he menos conhecido que o dos animaes; a anatomia e observaçoẽs microscopicas tem contudo descoberto quatro sortes de vasos, a saber, os seivosos, proprios, aereos, e os utriculos . Os vasos seivosos (vasa sapacea) chamados taõbem fibras lenhosas e vasos lymphaticos contem a seiva, chamada vulgarmente agoadilha ou chorume (sapa, humor plantarum) que he hum fluido aquoso, sem cor, sem cheiro nem sabor. Ella passa por ser o succo nutritivo dos vegetaes, que se aperfeiçoa nos utriculos e alguns outros vasos delgados; ella se observa bem destinctamente nos ramos das videiras cortados na primavera; estes vasos correm longitudinalmente ao lado das tracheas, saõ fasciculados, cruzaõ-se algumas veses, outras veses desviaõ-se mutuamente, deixando entre si espaços cheyos de utriculos : podem-se observar bem destinctamente nas raizes das caneiras e lirios. Os vasos proprios (vasa propria) saõ taõbem fibras lenhosas e succosas como os precedentes, mas saõ em menos numero, contem Succos mais espessos, còrados, lacteos, vermelhos, amarellos, saborosos, cheirosos, &c. e delles dependem [Página 5] as qualidades proprias de cada vegetal; alguns physiologistas pensaõ que elles saõ analogos ao chilo e sangue dos animaes; elles estaõ dispostos circularmente á roda do axe do tronco, mas achaõ-se em maior numero na casca, e se podem observar nas euphorbias, celidonia, çarthamus lunatus, &c. Os vasos aereos, chamados ordinariamente tracheas (tracheœ) saõ tubos formados de huma lamina elastica, espiral, ou semelhante a hum arame enroscado á roda de hum vime. Achaõ-se em todo o corpo do vegetal, correm ordinariamente parallelas aos vasos seivosos, e parecem ter maior diametro ou calibre do que os outros vasos. Saõ destinados a conter o ar, ou pelo assim dizer, servem á respiraçaõ dos vegetas, e se observaõ rasgando com brandura transversalmente em duas partes as folhas da vide, roseira e escabiosa. Os utriculos (utriculi) chamados taõbem tecido cellular, ou parenchyma, (parenchyma) saõ huma espécie de saccos ovaes, esponjozos, de varia grandeza, situados transversalmente e occupando as malhas ou entrevallos que deixaõ entre si os vasos longitudinaes. Saõ destinados á elaboraçaõ dos succos nutritivos, achaõ-se em maior numero na casca do que no lenho; a medulla contem os maiores e naõ parece ser outra coiza mais do que hum montaõ desta substancia vesicular ou vesiculas membranosas que communicaõ entre si. Podem observar-se no sabugueiro, choupo, carvalho, &c, por meyo de hum microscopio. Os rayos medullares, muitas raizes , frutos, e algumas plantas marinhas parecem ser quasi inteiramente utriculos , segundo as observaçoẽs repetidas vezes feitas por muitos sabios physiologistas. Alem destes vazos ha taõbem nos vegetaes muitos outros [Página 6] destinados a secreçoẽs, e as differentes sortes de glandulas os indicaõ.
Nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem circulaçaõ; o movimento dos seus succos he
chamado propulsaõ (propulsio), o calor, frio ou frescura alternados, ou a
acçaõ do ar ambiente sobre a lamina das tracheas parece ser a causa da
propulsaõ dos succos, ao menos ha grande probabilidade que a sua dilataçaõ e
condensaçaõ ajuda muito o jogo dos vasos. Nestes naõ ha valvulas algumas; o que hoje he raiz em hum
bacelo por ex., se arrancamos e reviramos a planta, dentro de pouco tempo
virá a ser cume, tendo pelo contrario o antigo sido convertido em raiz . Os succos passaõ da raiz ao tronco pelas fibras internas do
lenho, vaõ athe às ultimas ramificaçoẽs vasculares das folhas e descem para a raiz pelos
vasos da casca, de modo que a raiz tira succos do tronco e este
da raiz ; alem disto os ramos tiraõ taobem a sua nutriçaõ pelas folhas , e as raizes pelas radiculas fibrosas ou capillares. As folhas absorbem como a pelle dos
animaes, e em muitas plantas a maior parte da
substancia nutritiva lhes entra pelas folhas ; segundo alguns physiologistas os vegetaes em geral
nutremse de dia pela via das folhas e de noyte pelas raizes , e no inverno
aquellas plantas que nelle perdem inteiramente
as suas folhas so se nutrem pela raiz . O movimento da seiva e dos succos proprios tem lugar em todas as estaçoẽs do
anno, mas no inverno he mais lento. Este movimento como ja indiquei he ascendente e descendente como se prova
pelas enxertias. Se na primavera cortamos hum ramo das videiras ou hervas maleitas, o ramo
separado lança menos succos, e a sua effusaõ cessa e se esgota muito tempo [Página 7] antes que a do ramo ou tronco cortado que communica com a raiz ; isto parece provar alem dos dois movimentos, que ha huma
especie de communicaçaõ da seiva descendente, e ascendente na raiz , mas isso naõ obstante naõ merece o nome de
circulaçaõ, porquanto nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem primeiro motor
intrinseco dos succos, nem valvulas em quaesquer dos seus vazos Nota
Alguns physiologistas, que admittem a circulaçaõ nos vegetaes, dizem
que ella he assaz analoga á circulaçaõ que existe nos polypos.
As tracheas achaõ-se em grande numero nas folhas , ás quaes por isso mesmo alguns Botanicos chamaraõ bofes dos vegetaes. Os orificios destes vazos aindaque se reconheçaõ em ambas as duas faces das folhas , numa dellas sempre saõ em menor numero do que na outra. A observaçaõ tem mostrado que a substancia aeriforme, que dellas exhala durante a noyte, he muito nociva, ao mesmo tempo que de dia exhalaõ outra, com que se purifica a atmosphera: nellas parece residir a irritabilidade da sensitiva, e de outros vegetaes, cujas folhas e flores se contrahem por estimulos externos.
Nas enxertias quaesquer que sejaõ, tanto de garfo como de escudo, flauta, entalhe, &c. os succos passaõ do enxerto ao enxertado, e do enxertado ao enxerto alternativamente em rasaõ da anastomose, ou reuniaõ dos vazos de hum e outro. Esta reuniaõ he [Página 8] tanto mais duravel quanto mais perfeita; a sua perfeiçaõ consiste na grande analogia do garfo com o tronco enxertado, ou na grande affinidade de organizaçaõ e dos succos. O garfo deve vir a ser hum tronco do enxertado, e porisso quanto maior for a dicta affinidade tanto mais depressa, e firmemente se encorporará com elle, e tanto mais tempo viverá.
Os vegetaes, assim como os animaes, tendem todos naturalmente a reproduzir-se.
Toda a sua vegetaçaõ se dirige a este fim, chamado ordinariamente fructificaçaõ,
que tem principio nas flores e acaba no fructo. O grande numero de vegetaes
relativamente á sua fructificaçaõ he reduzido a duas grandes classes, a saber, a
plantas perfeitas, e plantas imperfeitas, (plantae perfectae aut imperfectae.)
As perfeitas saõ aquellas em cujas flores se observaõ estames, ou pistillos, ou
ambos estes dois organos; as imperfeitas saõ aquellas que rigorosamente fallando
naõ tem estes organos, ou se os tem naõ saõ bem apparentes á vista nuã, de sorte
que a sua fructificaçaõ tem lugar por hum modo differente do das plantas
perfeitas; saõ as que Linneo classou na sua Cryptogamia, e as que os
physiologistas chamaõ plantas microscopicas. No tempo da florecencia das plantas
perfeitas, as observãçoẽs dos modernos descobriraõ em suas flores hum coito
summamente analogo ao dos animaes, e reconheceraõ que nellas haviaõ genitaes de
dois sexos, envoltos em certos tegumentos, a que daõ ordinariamente o nome de
calyz ou corolla segundo as circumstancias. Os genitaes masculinos saõ chamados
estames, e os femininos pistillo, o qual se acha ordinariamente no centro da
flor, como se observa bem destinctamente [Página 9] em huma açucena. Cada estame he composto de duas partes inferior e
superior, a primeira tem o nome de filete, e a segunda ou superior que
termina o filete he chamada anthéra . O pistillo consta, em hum grande numero de flores, de tres partes, a saber,
germe, estylete, e estigma; o germe he a parte inferior do pistillo, ou o
fructo recêm nascido e nelle se achaõ ja as sementes Nota
Vej. no §.
Sementes a nota quarta (d).Nota
Elle constitue a cera
bruta, que as abelhas tiraõ das flores.Nota
Adanson naõ quer que
seja o po seminal dos globulos o que entra no estylete, mas sim hum
espirito volatil, envolto nelle (bem comparavel á materia electrica que
se acha envolta nos corpos electricos) e proprio para penetrar pelas
tracheas do estylete. Com effeito he raro ver estyletes que sejaõ
tubulosos, e a Anatomia naõ tem mostrado athe agora nos estyletes, e
germes cortados na florecencia, o menor indicio do po dos globulos. Eu
fallarei mais extensamente nesta materia nos meus Elementos de
Botanica.
Nas plantas imperfeitas naõ se conhecem a olhos nûs os organos sexuaes; o microscopio os tem feito descobrir em algumas, mas ha outras em que nenhum observador ainda mesmo com este instrumento os tem podido devisar athe agora, nem me parece que existaõ. He certo contudo que todas daõ sementes; os cogumelos, e o bolor podem, segundo a experiencia, ser semeados como as plantas perfeitas; quanto aos fetos e musgos as sementes saõ ainda mais bem conhecidas, e senaõ podem negar ainda mesmo aos limos, fucos, e outros generos de Algas, se bem que pareçaõ ser de huma forma exquisita em algumas especies.
Taes saõ em summa as principaes noções relativas á physiologia dos vegetaes. A
Botanica pura tractando, como disse, do modo de destinguir com certeza os
vegetaes huns dos outros, he o fundamento de todos os tractados de plantas de
qualquer sorte que sejaõ considerados. Ella se serve para este fim dos sinaes
caracteristicos que se achaõ em cada individuo do [Página 11] reyno vegetal, ajuntando, semelhantes com semelhantes, e separando os
dessemelhantes. Desta reuniaõ de plantas ou especies conformes em caracteres
resultaõ os generos infimos, que reunidos de novo, do modo que depois
exporei em seu lugar Nota
Vej. A Quarta Parte deste Compendio.
Os systemas saõ com justo motivo considerados, como hum fio de Ariadnes no
immenso labyrintho vegetal; elles saõ hum grande soccorro da memoria, conduzem
ao conhecimento do nome da planta, e nos mostraõ se ella tem ou naõ sido
conhecida dos Botanicos que nos tem precedido. Os sinaes caracteristicos, que se
achaõ nas especies do reyno vegetal, saõ os meyos de que nelles se vale a
Botanica, como disse, para nos encaminhar a este conhecimento. Todos estes
sinaes saõ exprimidos por termos technicos, que reunidos formaõ o idioma
Botanico, cuja exposiçaõ he o principal objecto deste tractado. Antes de
Linneo os termos facultativos de Botanica, naõ tinhaõ huma accepçaõ taõ
determinada como hoje tem, elle a fixou em hum grande numero; e se bem que
alguns delles parecem ter ainda huma significaçaõ vaga e ambigua Nota
Eu
demonstrarei em outro tractado estas ambiguidades, e proporei as
definiçoẽs com que semelhantes termos se podem fixar.
A raiz he hum organo nutritivo apegado a terra Nota
As lentilhas d'agoa (lemna) naõ costumaõ estar apegadas a terra;
saõ fluctuantes, e as suas raizes encravadas n'agoa mudaõ a cada instante de
lugar. Em hum grande numero de algas naõ se sabe o que deve ter o nome
de raiz , nem pela forma nem pela estructura
interna, e semelhantes plantas tiraõ igual nutriçaõ por toda a
sua superficie. Algumas plantas parasitas (plantae parasiticae), taes como a
cuscuta, viscum, &c. naõ saõ apegadas a terra, ellas estaõ
aferradas a outros vegetaes, delles tiraõ a sua nutriçaõ, e ás
vezes os fazem morrer de marasmo. Em fim ha plantas que passaõ por ser destituidas inteiramente de raiz , sem embargo de estarem todas cobertas de
terra como a maçan de porco: a lemna arhira, que esta encostada
ao lume d'agoa, taõbem naõ tem raiz alguma. Nota
Nas raizes lenhosas ha
alburno da mesma sorte que no tronco, mas nas plantas herbaceas
annuaes, em que naõ ha aros concentricos, naõ se devisa alburno
algum, e o nome de lenho naõ me parece proprio das raizes que se corrompem
annualmente, em algumas o denominado lenho he verdadeiramente
huma substancia medullar.
As raizes em geral constaõ de
cuticula, casca, lenho, e medulla. Ordinariamente humas saõ mais
delgadas do que o tronco, outras saõ consideravelmente mais grossas. Humas e
outras podem ser consideradas, ou como simplices ou como compostas. Toda
a raiz simples (simplex), he indivisa e naõ lança
ramificaçoẽs algumas nos lados do seu troço; pelo contrario a composta
(composita) lança muitos ramos ao longo do seu troço: para disto se
poder formar clara idea, he precizo reconhecer no commum das plantas
duas sortes de troços continuados hum com outro, a saber, o troço
descendente e ascendente. O troço descendente das plantas (caudex descendens), em huma accepçaõ
extensa he qualquer raiz ; em hum sentido estricto, he a
parte mais grossa [Página 14] da raiz , a que alguns chamaõ taõbem o troço materno, do
qual nascem lateralmente ramos, que lançaõ varias radiculas Nota
Fibrillae, radiculae, taõbem se dá o nome de radicula á parte
inferior da plantula seminal, ou corculo quando começa a
germinar.
1º. A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:
Horizontal (horizontalis), quando se estende transversalmente ou corre quasi parallela com a superficie da terra (como a dos lirios e escalracho.)
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.
Perpendicular ou aprumada (perpendicularis), quando se encrava a prumo pela terra abaxo (a cenoira, e rabaõ.)
Obliqua (obliqua, inclinata), quando tem huma direcçaõ esguelhada, ou se encrava obliquamente ao horizonte ou superficie da terra (o cravo romano.)
[Página 15]2º. Quanto á sua divisaõ, e forma diz-se:
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.
Fibrosa (fibrosa, fibrata), quando consta somente de radiculas delgadas, e se diz capillar (capillacea, capillata, schirrata, comosa), se as radiculas saõ finissimas e bastas, como nas lentilhas d'agoa e alguns gramineos; filiforme (filamentosa, filiformis), se as dictas radiculas saõ como fios hum tanto grossos, como as da violetta e quejadilho. Alguns lhes daõ o nome de retiformes (retiformes), se ellas se enredaõ a maneira de rede.
Fusiforme (fusiformis), se he polposa, perpendicular, oblonga, adelgaçando pouco a pouco para a sua extremidade inferior, de modo que se assemelha a hum fuso (a cenoira e rabaõ). Turbinada (turbinata) quando he conica verticalmente, ou se assemelha a hum piaõ bailando (como alguns nabos).
Globosa (globosa), quando tem huma forma quasi espherica (ranunculus bulbosus). Pode ser tanto bolbosa como tuberosa.
Troncada (truncata, praemorsa), quando he simplez, e naõ termina em ponta, mas antes parece como retraçada ou cortada transversalmente (scabiosa succisa.)
Fasciculada (fascicularis, fasciculata), quando consta de partes carnudas, bolbosas, ou tuberosas approximadas, e adunadas na extremidade superior [Página 16] junto da base do tronco (orchis abortiva, ranunculus ficaria, paeonia). Alguns lhe chamaõ taõbem grumosa (grumosa), como sendo disposta por grumos quer sejaõ rentes quer dependurados, como nos ranunculos, anemones, e abrotea.
Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia). Todas estas raizes saõ bolbos bastardos.
Articulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata). Nodosa (nodosa), quando he carnuda e tem varias protuberancias (scrophularia nodosa). Alguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.
Escamosa (squamosa), quando he guarnecida de tunicas ou producções
escamosas quer estas sejaõ obtusas quer pontudas, ou imbricadas, ou
distantes, ou finas e membranosas , ou cascos da consistencia da raiz , e hum tanto succulentos (dentaria pentaphyllos). Nota
A raiz denteada (dentata), que se diz ordinariamente
ter producçoẽs pontudas, direitas, curtas, da consistencia da raiz , laxas e distantes, he huma verdadeira raiz escamosa, e a Oxalis acetosella que se dà
por exemplo, o demostra evidentemente: assim como as escamas
pontudas dos caules senaõ chamaõ dentes, do mesmo modo devem ser
as das raizes , e este he
o meyo de evitar termos desnecessarios.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata). Estes graõs saõ pequenos bolbos bastardos.
Entre as raizes herbaceas
ordinariamente mais grossas do que o tronco ha humas a que se deo o nome
de tuberosas, e a outras o de bolbosas. A raiz tuberosa (tuberosa) he a que consta de huma ou mais
tuberas (tubera); as tuberas saõ corpos carnudos, farinhosos, de varia
figura Nota
Ordinariamente saõ hum tanto globosas.
A raiz bolbosa (bulbosa) he a que Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao
lado dos antigos. Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ
dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum
tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos,
patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos,
aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto
fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so
merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da
natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos
nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de
muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas
bolbosas. Nota
Vej. as palayras bulbus e bulbosus no nosso Diccion. Nota
Nota
O termo caput significa taõbem nos escritos de alguns Botanicos a
cabeça ou golla da raiz , que he a parte extrema
superior que se acha hum pouco fora da terra, donde nascem as folhas radicaes, e
comeca o tronco; esta golla he assaz bem distincta no rabaõ, e
algumas outras raizes ;
porem em hum grande numero dellas naõ se distingue golla alguma,
e o ponto de separaçaõ entre o tronco e a raiz he
muito arbitrario.
3º. Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:
Annual (annua), quando perece com o seu tronco annualmente, devendo-se tanto ella como a sua especie propagar por meyo de sementes, tal he a do trigo, feijoeiro, &c. Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎. Biennal (biennis) quando vegeta no primeiro anno, no segundo o seu tronco fructifica, e ambos nelle [Página 20] perecem (tragopogon), ella he indicada com o sinal ♂. Vivace ou perennal (perennis), quando dura viva na terra mais de dois annos, lançando ou brotando de seus gomos troncos novos, como he a da hera terreste, a da violetta, &c.: he indicada pelo sinal ♃. Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .
O tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.
Os antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.
Em hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla. Quando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.
As especies de tronco saõ: caule, hastea, colmo, espique, e surculo Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os
peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ
para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ
flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus),
e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a
que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos
radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das
hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco;
so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou
especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser
inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda,
se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como
senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do
Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que
tem com o espique do bolor (mucor mucedo). Nota
O caule (caulis) he huma especie de tronco ordinariamente guarnecido de folhas Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo
postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas
nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da
definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de
Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta. Nota
A hastea (scapus) he huma especie de tronco herbaceo ou levantado ou
obliquo, e inteiramente [Página 22] desguarnecido de folhas Nota
A hastea pode terminar em huma ou muitas flores, em espigas,
racimos e paniculas, e por conseguinte ser ramosa. Lê-se nalgumas descripçoẽs de plantas herbaceas e levantadas:
caule sem folhas , ou nu
de folhas (caulis
aphyllus, s. nudus) hastea bifolia, hastea folhosa; mas estes
termos saõ ambiguos e improprios, porque no primeiro cazo o
tronco he huma hastea, e no segundo he hum caule. Pela mesma razaõ me parece taõbem ser desnecessario dizer: hastea
sem folhas (scapus
aphyllus). Ha plantas que podem ter duas sortes de troncos, isto he, caule e
hastea como a pilosella e morangueiro. Algumas especies de Osmunda tem hastea e espique ao mesmo tempo,
segundo alguns autores, mas como neste cazo a folha naõ fructifica, parece que se deve conservar o nome de peciolo
ao seu pé, dar o nome de hasteas aos pedunculos radicaes, e
chamar simplesmente pedunculos aos que nascem do espique muito
acima da superficie da terra.
O colmo (culmus) he huma especie de tronco proprio dos gramineos, e
plantas analogas a elles, como he o do trigo, caneira, junco, &c. em
humas plantas he occo, em outras esponjoso, ou geniculado ou sem nos,
com folhas ou sem ellas,
ramoso, ou simplicissimo, herbaceo ou arbustivo; em huma palavra, he
huma hastea ou caule a que os Botanicos quizeraõ dar o nome de colmo por
ser hum tronco dos grames, e plantas que lhes saõ naturalmente analogas Nota
Donde resulta que para naõ errarmos nas descripçoẽs que fizermos,
dando o nome de caule ou hastea a huma planta que tem colmo, he
precizo termos ideas claras dos caracteres principaes que
constituem a familia natural dos gramineos; ainda que naõ he
este o proprio lugar de fallar nesta materia, direi contudo de
passagem que os principaes caractéres desta familia consistem
nas folhas planas,
lineares, pontudas, flexiveis, em forma de fitta, compostas de
fibras parallelas, e ordinariamente envaginantes; os tegumentos
dos organos sexuaes, chamados casulos, saõ certas escamas
paleaceas denominadas valvulas, o calyx tem duas ordinariamente,
e raras vezes huma, tres ou mais; a corolla tem ordinariamente
duas valvulas, das quas a interior he menor, e raras vezes tem
huma so; o fructo he huma semente sem pericarpo
(excepto o esparto, segundo Linneo), e a sua substancia he
farinhosa.
O espique (stipes) he huma especie de tronco proprio dos fetos e fungos;
nos primeiros he semelhante a hum peciolo, e nos segundos a hum
pedunculo radical ou hastea Nota
Linneo da taõbem o nome de espique aos peciolos das folhas das palmeiras, mas
como ellos naõ elevaõ de modo algum a fructificaçaõ destes
vegetaes, alguns modernos naõ admittem nellas esta especie de
tronco, e conservaraõ o nome de peciolo aos seus pés, dando o
nome de caule simplez ao troço, que se eleva sobre a terra,
terminado no cume por folhas e fructificaçaõ em espadice.
O surculo (surculus) he huma especie de tronco proprio dos musgos, o seu troço he filiforme, guarnecido sempre de foliolos, ou de escamas persistentes e de varia forma; ás vezes he simplez, outras vezes ramoso, ora he reptante ou estirado ora levantado. Ha algumas especies de jungermannia, nas quaes o tronço he hum surculo, e nisto saõ verdadeiramente analogas aos musgos.
Toda a planta que tem tronco he denominada entronquecida (caulescens), e destronquecida (acaulis) senaõ tem tronco algum (carlina acaulis). Muitas [Página 24] vezes se da taõbem este ultimo nome às que tem hum tronco curtissimo, e quasi cozido com a terra
1º. O tronco em geral pode ser considerado segundo differentes relaçoẽs; quanto à sua duraçaõ e substancia diz-se ser:
Herbaceo (herbaceus), se naõ he lenhoso e perece annualmente (a chicoria, e o ranunculo).
Subarbusteo (suffruticosus), quando os seus ramos annualmente se seccaõ, e naõ tem gomos alguns athe a base, ou so a sua parte inferior junto della persiste viva, donde brota na primavera (a dulcamára, tomilho, gilbarbeira, salva, e alfazema). Este tronco he quasi lenhoso.
Arbusteo ou arbustivo (fruticosus), quando pertence a huma raiz lenhosa, da qual todos os annos brotaõ muitos
troncos, que senaõ secçaõ nem morrem annualmente nem se elevaõ a altura
das arvores ordinarias Nota
He difficil de dar huma boa definicaõ dos arbustos e arvores ,
nascendo isto de que a divisaõ das plantas lenhosas em arbustos
e arvores naõ he natural porquanto a naturera naõ poz limites entre elles,
mas taõ somente a opiniaõ do vulgo. Linneo diz que a unica destinçaõ que pode haver he de dar o nome
de arvores ás que tem gomos, e o de arbustos ás que os
naõ tem; a seguir este parecer, muitas arvores ficariaõ sendo
arbustos, e muitos arbustos seriaõ arvores , o que naõ tem
sido athe agora adoptado nas descripçoẽs botanicas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c. Quando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.
Compacto ou mociço (solidus), que naõ he tubuloso, nem consta de huma substancia porosa, encortiçada, e balofa, nem tem huma medulla esponjosa, mas antes mal se lhe pode divisar a medulla (o acipreste, e oliveira).
Esponjoso (inanis, s. spongiosus), quando consta de huma substancia balofa e esponjosa, ou tem huma larga medulla esponjosa (o milho e o sabugueiro).
Repleto (farctus), quando he compacto, ou esponjoso, de modo que se lhe naõ divisa tubo algum (o acipreste e sabugueiro).
Tubuloso (fistulosus, s. tubulosus), quando he occo como hum canudo (o phellandrium aquaticum, conium maculatum, e a cebola.)
2º Considerado quanto à sua medida diz-se ser:
De meya pollegada de alto (unguicularis, semiuncialis, s. unguem longus); de
huma pollegada de alto (uncialis, s. pollicaris); de pollegada e meya de
alto (sesquiuncialis); de maõ travessa de alto (palmaris, palmum longus); de
hum palmo (dodrantalis, dodrantem longus); de sette pollegadas (spithameus);
de hum pé (pedalis); de desasette pollegadas, ou de hum covado natural
(cubitalis); do comprimento de hum braço, ou de vinte o quatro [Página 26] pollegadas (brachialis); de huma braça, ou de seis pés (orgyalis). Quanto
á sua grossura diz-se ser: da grossura de hum cabello ou da duodecima parte
de huma linha (capillaris); de huma linha de diametro ou da duodecima parte
de huma pollegada (linearis); de duas, tres linhas, &c. de largo; de
meya pollegada, de huma pollegada de largo, &c. Todas estas medidas se
podem augmentar á proporçaõ da altura e grossura do tronco, dizendo-se por
ex. ser de trez, oito, vinte braças de alto, &c. Todas ellas se devem
entender na razaõ de pouco mais ou menos, vistoque as plantas
relativamente a ellas variaõ muito, segundo o terreno, clima, lugares
mais ou menos abrigados, &c. Nota
Alguns o denominaõ grosso, delgado, curto, muito alto, grande,
pequeno, comparando-o idealmente com as folhas e outras partes da planta; mas
estas ideas saõ vagas, a naõ declararmos juntamente a parte com
que o comparamos.
3º Quanto á direcçaõ he denominado:
Levantado (erectus, arrectus), quando he quasi perpendicular ao plano da terra, ou forma com elle quasi hum angulo recto (o verbasco): he o contrario de obliquo, postrado, e voluvel.
Direito (rectus, strictus), quando he impertigado, sem tortuosidades algumas, e forma com o plano da terra hum angulo recto (o junco, e o helianthus altissimus). He hum tronco perfeitamente levantado, e alem disso he opposto ao caule tortuoso, fraco, e a quaesquer outros que tem curvaturas.
Fraco (laxus, flaccidus, debilis), quando por ser delgado ou de flexivel contextura bambolea, e abana facilmente em varias direcçoẽs.
[Página 27]Rijo (rigidus), he firme, naõ bambolea facilmente, e tem huma tezidaõ hum tanto elastica de maneira que se o curvamos, se levanta immediatamente (algumas junças).
Obliquo ou esguelhado (obliquus), quando esta posto de esguelha, apartando-se quasi tanto do plano da terra, como da linha perpendicular ao dicto plano (lathyrus aphaca).
Remontante ou realçado (ascendens), quando sendo primeiramente obliquo, postrado, ou parallelo á terra se revira para cima em arco (vicia cracca, viola canina).
Reclinado (reclinatus, declinatus, inclinatus), quando levantando-se primeiramente hum tanto de es guelha começa a descahir para a terra, prolongando-se em arco, ou formando huma curva assaz aberta; mas a sua ponta fica levantada de maneira que figura quasi hum postrado 𝆗 (convolvulus tricolor, potentilla aurea).
Incurvado (incurvatus, inflexus), quando se levanta direito e arquea na parte superior (juncus inflexus).
Acenoso (nutans), quando tem a ponta dobrada para baxo, ou dependurada perpendicularmente (juncus filiformis).
Postrado ou estirado (procumbens), quando em rasaõ da sua fraqueza jaz deitado horizontalmente sobre a terra, sem contudo nella lançar raizes (o murriaõ, a parietaria lusitanica, a semprenoiva.)
Descahido (decumbens), quando primeiramente se eleva hum pouco, e depois cahe sobre a terra, onde alastra mais ou menos (o serpaõ).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).
Sarmentoso (sarmentosus), quando lança muitas varas nodosas (chamadas sarmentos), as quaes tocando na terra, ou corpos vizinhos, nelles arraigaõ pelas suas juntas (a videira, legacam, e clematis vitalba).
Reptante ou serpentante (reptans, repens) quando he postrado, longo, mais ou menos ramoso, e lança amiudo sobre a terra varias radiculas (a potentilla, e a lysimachia nummularia). Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c. A hera humas vezes he reptante, outras raigotosa; donde resulta que estes dois termos indicaõ a mesma coiza em differentes lugares.
Articulado (articulatus), quando tem juntas destribuidas de distancia em
distancia Nota
Este termo toma-se ás vezes taõbem por geniculado, mas o
melhor he applicalo somente aos caules que tem juntas sem serem
nodosas, e taõbem quando so dependem do tacto para se reconhecerem,
(como as do juncus articulatus, e cyperus articulatus). As juntas
saõ chamadas articulationes, articuli, juncturae, e quando, saõ
nodosas genicula, nodi. Linneo da ordinariamente o nome de articulus
ás entrejuntas, mas hum grande numero de Botanicos antigos e
modernos daõ a este termo a significaçaõ de junta.
Tortuoso (flexuosus), quando he ondeado ou como colombrino, formando nas juntas ou lugar dos gomos pontas angulosas, e alternadas ora para hum ora para outro lado (o legacam, e dulcamára).
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba). Quando elle chupa a substancia da planta em que se segura ou por meyo de suas radiculas, ou de qualquer modo que seja, daõ-lhe o nome de parasito (parasiticus) como he o da hera e cuscuta. Se elle se enrosca á roda dos corpos vizinhos, prolongando-se sempre espiralmente, daõ-lhe o nome de voluvel ou encaracolado (volubilis), e o dizem ser encaracollado á direita, (dextrorsum, s. contra motum solis) se a primeira rosca inferior começa pela banda direita, da direita para á esquerda ou do poente para o nascente (o feijoeiro, e a verdeselha); encaracollado à esquerda (sinistrorsum, s. secundum motum solis), se a sua primeira rosca segue huma direcçaõ contraria á precedente (o luparo, madresylva, e norça preta). Para podermos determinar estas direcçoẽs he precizo suppormo-nos estar dentro das roscas com a cara para o sul.
4º Quanto á figura diz-se ser:
Cylindrico ou roliço (teres, cylindricus), quando [Página 30] se assemelha a hum rolo, naõ tendo angulos alguns (a tulipa, e pinheiro); quasi cylindrico (subcylindricus), quando se approxima quasi á figura de hum rolo (allium molly); semicylindrico (semiteres) se he plano de huma banda e convexo da outra, ou como a metade de hum rolo partido longitudinalmente (allium ursinum).
Comprimido (compressus), se he hum tanto chato de duas bandas em todo o seu comprimento, ou parece como esmagado nos dois lados oppostos (poa compressa, potamogetum compressum).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).
Anguloso (angulatus), se tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos
angulos, diz-se ser triangular, quadrangular, de cinco, seis, ou muitos
angulos (tri- quadr- quinq- sex- mult- angularis Nota
Os termos de
trigonus - polygonus tem ordinariamente huma accepçaõ synonyma de
triangularis - multangularis; mas alguns botanicos usaõ dos
primeiros para significar angulos hum tanto embotados.
Segundo o numero dos lados planos que tem, diz-se ser: de tres, quatro, cinco lados, &c. [Página 31] (tri-quadri-quinqueter, &c. ou taõbem tri-quadri-quinquelaterus, &c.)
5º. Considerado quanto á sua superficie diz-se ser:
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.
Esfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.
Nû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias. Este termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem. Diz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .
Envaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).
Escamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).
Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).
Encortiçado (suberosus), quando a sua casca he branda, elastica, toda cortiça ou semelhante a ella na qualidade (o sobereiro, e passiflora suberosa).
Gretado (rimosus), quando tem no exterior da sua casca muitas gretas abertas irregularmente.
Entunicado (tunicatus), quando a sua casca he [Página 32] coberta de differentes membranas applicadas humas sobre outras.
Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).
Estriado ou riscado (striatus), quando tem longitudinalmente muitos riscos na superficie da sua casca; estas estrias saõ superfiçiaes, e mais ou menos distantes (genista tinctoria).
Regoado (sulcatus), quando tem longitudinalmente regos, ou riscos largos e profundos na sua casca (a milfolha, e aipo).
Glabro (glaber), quando a sua superficie naõ tem escabrosidades nem pelos
alguns, mas he liza ou polida (a abrotea, e cebolla alvarran) Nota
He a
mesma coiza que lizo, e nû de pelos e excrescencias.
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).
Echinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).
Cotanoso ou cotanilhoso (tomentosus) se a sua superficie esta coberta de hum cotaõ ordinariamente branco, finissimo, curtissimo, e de tal sorte tecido que os seus pelos mal se podem separadamente distinguir sem lente (a cineraria maritima).
Lanudo (lanatus), quando a sua superficie esta [Página 33] coberta de pelos longos, bastos, curvados, e tecidos huns com outros á maneira de huma tea de aranha, como visivelmente se conhece sem lente (na ballota lanata, e onopordum acanthium).
Peludo ou hirsuto (pilosus, hirsutus, s. hirtus) Nota
As differenças, que
se fazem ordinariamente destes tres termos, so servem de embarassar
os principiantes, e porisso os naõ distingui aqui.
Felpudo ou aveludado (villosus), quando tem pelos bastos, approximados, macios ao tacto, naõ entrelaçados, e assaz bem visiveis sem lente (o çumagre.)
Hispido (hispidus), quando he salpicado de sedas finas, hum tanto rijas, rectas, distantes mais ou menos entre si, e mui quebradiças (echium vulgare).
Ardentoso (urens), he hispido, mas as suas sedas saõ venenosas, e chamadas ferroẽs, em razaõ de que penetrando a pelle nua causaõ nella ardor e inflammaçaõ (a urtiga.)
Aculeado (aculeatus), quando tem aculeos, ou espinhos, bastardos, na sua casca (a sylva, e roseira).
Espinhoso ou abrolhoso (spinosus), quando lança do seu lenho abrolhos ou espinhos proprios (o pirliteiro, e o abrunheiro bravo).
[Página 34]Estipuloso (stipulatus), quando he guarnecido de estipulas (o martyrio, todas as especies de polygonum, e a maior parte das leguminosas.)
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).
Bolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).
6º. Quanto á sua composiçaõ ou divisaõ diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se prolonga athe á ponta quasi sem ramos, ou tem ramos rarissimos quer na parte superior quer nos lados (a açucena, e scabiosa succisa): simplicissimo (simplicissimus, integer), quando he inteiramente indiviso, prolongando-se sem ter absolutamente ramo algum (o alho, e paris quadrifolia).
O tronco he composto todas as vezes que merece de ter o nome de subramoso ou ramoso. O subramoso (subramosus), he hum tronco quasi simplez em razaõ de ter poucos ramos lateraes (as esporas, e aquilegia); o ramoso (ramosus), tem muitos ramos lateraes (a beccabunga, e sherardia arvensis). Diz-se ramosissimo (ramosissimus), quando tem ramos numerosissimos, subdivididos, e amontoados sem ordem (gallium saxatile, e thalictrum faetidum); se todo elle naõ parece outra coiza mais do que huma panicula, ou que todos os seus ramos formaõ huma [Página 35] panicula, daõ-lhe o nome de paniculado (paniculatus), como he o da saxifraga cotyledon.
Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).
Patente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto. (Este termo he muitas vezes usado em lugar do seguinte). Derramado ou diffuso (diffusus), quando se divide em muitos ramos que formaõ entre si angulos quasi rectos (a fumaria, e hesperis tristis.)
Copado (fastigiatus), quando os seus ramos saõ approximados ou empilhados, chegaõ a igual altura, e formaõ huma copa anivelada, e fechada como huma moita (santolina chamaeciparissus).
Açarilhado (brachiatus), quando tem ramos oppostos, e o par superior cruza o inferior, como os braços de hum çarilho (a mercurial).
Forquilhoso ou forqueado (dichotomus), quando se divide sempre em dois ramos, em forma de forcado (valeriana locusta). Alguns o denominaõ triramoso (trechotomus), quando se divide sempre em tres ramos (o cardo penteador, e a verbena mexicana). A divisura ou ponta angular das divisoẽs do tronco forquilhoso he chamada bifurcaçaõ ou forqueadura (bifurcatio, s. dichotomia).
Vergonteado (virgatus), quando he delgado, fraco, flexivel, e se prolonga lançando muitas varinhas [Página 36] bastas, desiguaes, e da sua mesma qualidade ou fraqueza (artemisia campestris).
Prolifero (prolifer), quando he, pelo assim dizer, pontaramudo, lançando
ramos verticillados so na ponta, os quaes
saõ taõbem proliferos (como o pinheiro, e scabiosa prolifera Nota
Nestes dois exemplos se vê que o tronco prolifero pode ser ou
lenhoso ou herbaceo; mas ordinariamente o termo prolifero sò se
applica aos troncos lenhosos que daõ muitos gomos nas
pontas.
Diz-se em fim ser disticado (distichus), se tem ramos disticados; e esteiado (fulcratus), quando se esteia em seus ramos ou tem ramos esteiados: estes termos seraõ melhor explicados no artigo seguinte.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Levantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos. Nascem da casca, e della lhes provêm os muitos vazos de que saõ compostas. Estes vazos saõ sufficientemente visiveis, e [Página 39] estaõ cobertos da epiderme, que he a continuaçaõ da epiderme da casca. As suas ramificacoẽs formaõ huma especie de rede, a que chamaõ tecido reticular (rete s. opus reticulare), cujas malhas saõ occupadas pelo tecido cellular ou parenchyma. Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.
As folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes. A parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex). Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus). E sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco. Os vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente. O mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro. Os veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes.
As folhas saõ consideradas naõ so
relativamente a estas circumstancias, mas ainda quanto à sua duraçaõ,
grandeza, situaçaõ, inserçaõ, direcçaõ, circumscripçaõ, sinuosidades,
angulos, lados, substancia, simplicidade, e compoziçaõ. A duraçaõ he o tempo em que ellas subsistem apegadas á planta. A grandeza consiste nas dimensoẽs de comprimento e largura, e he ou
absoluta ou relativa; a primeira consiste em huma medida determinada de
linhas, pollegadas, palmos, &c. e a segunda na extensaõ da sua
superficie comparada, com o comprimento dos seus peciolos, do tronco ou
das articulaçoẽs deste. Na insersaõ naõ so se considera o ponto de apego da folha ,
mas ainda o modo com que he apegada. A situaçaõ he o modo com que as folhas so achaõ dispostas no tronco da planta. A direcçaõ he a posiçaõ particular, em que se achaõ as folhas no tempo diurno
relativamente ao tronco, aos differentes polos da terra e sua
superficie, ou em fim, respectivamente á superficie d'agoa. Na circumscripçaõ considera-se a figura da folha circumscripta no disco, e he supposta inteira, precidindo-se dos
angulos, sinuosidades, margens e ponta. Nas sinuosidades suppoem-se a folha dividida no seu disco, e [Página 41] como tendo, partes nelle cortadas, ou na base, ou no topo, ou nos
lados, ou em qualquer parte que for. Os angulos saõ partes da folha mais ou menos prolongadas ou
prominentes, e se suppoem a folha inteira e em huma posiçaõ
horizontal. Os lados do modo com que os consideraõ os botanicos saõ os angulos
longitudinaes da folha , ou as esquinas que ella tem ao
comprido. Na substancia entende-se a polpa entre as superficies. A simplicidade da folha consiste em ser huma so em hum so
peciolo; considerada lateralmente as suas lacinias (laciniae) naõ chegaõ
a ser rasgadas athe á nervura dorsal do meyo para cima, e
ordinariamente o naõ saõ mesmo athe á base; naõ he articutada, e
considerando-a verticalmente, as suas lacinias naõ formaõ foliolos
perfeitos, nem he rasgada inteiramente athe ao cume do peciolo, mas taõ
somente athe certa distancia acima delle. Pelo contrario a composiçaõ da folha consiste em ter muitas
em hum so peciolo commum; he rasgada por conseguinte inteiramente athe
ao topo do peciolo, ou lateralmente athe á nervura dorsal ,
que nesta sorte de folhas he o
peciolo commum Nota
Nas folhas , a que Linneo
chama decursive-pinnata, a base da ala decursiva diminue, e se
estreita de tal modo, que deixa ver o peciolo commum descarnado,
ou quasi sem ala no porsto onde começaõ os foliolos inferiores,
no que se distinguem das pinnatifidas (a aroeira.)
Os antigos davaõ o nome de folhas ainda mesmo ás petalas das flores. Linneo fez huma destinçaõ entre folhas e frondes, e deo o nome de frondes (frondes) ás folhas dos fetos e plantas da
mesma ordem, ás folhas das
palmeiras, ás folhas aggregadas
de alguns aciprestes, e a algumas producçoẽs semelhantes a folhas , que se achaõ na ordem das
algas; mas naõ nos deixou huma definicaõ exacta em que se funde esta
differença Nota
Daqui procede que muitos Botanicos ainda hoje lhes chamaõ
geralmente folhas ; eu
penso que a querer fazer destinçaõ, o nome de fronde so compete
propriamente a huma folha , ou producçaõ anologa a
ella, que dá flores ou fructifica. O ruscus, muitos fetos, e
muitas algas nesta circumstancia teriaõ frondes bem caracterizadas.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Caulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
Innatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
Dispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Levantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Huma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Angulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Rhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Fendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Apalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Sinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Celheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Laceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
Obtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Troncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Nuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Viscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Cotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Concavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Bojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Aquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Dolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
[Página 73]1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Binadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
Bigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Trigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
O peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.
Algumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).
Contudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas . Peciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha. Peciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas. Peciolo commum (communis) he o que tem no topo ou nos lados muitos foliolos, ou muitos peciolos parciaes. Peciolo parcial (partialis) he o que nasce do peciolo commum; os peciolos parciaes às vezes saõ immediatos ao peciolo commum, outras vezes ramificaõse mais ou menos variamente; nesta circumstancia os ultimos saõ chamados immediatos, e os que medeaõ entre elles, e o peciolo commum tem o nome de mediatos.
O peciolo distingue-se facilmente do pedunculo Nota
He rarissimo que esta distinçaõ falhe, contudo na turnera, e
nalgumas especies de hibiscus, o pé da folha achase
confundido com o da flor. Elle eleva às vezes folhas que daõ flores, como se vê nas especies de
ruscus.
1º. Quanto á sua figura, diz-se ser:
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .
Alado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).
Aclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).
Roliço (teres) he cylindrico, ou semelhante a hum rolo: semiroliço (semiteres) he semicylindrico, ou semelhante à metade de hum rolo partido longitudinalmente.
Adelgaçado (attenuatus), quando se adelgaça ou he comprimido junto da ponta (populus tremula)
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.
Trigumeo (triquete) tem tres angulos ou gumes, e tres faces planas.
[Página 82]Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).
2º. Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:
Curto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.
Mediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.
Comprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .
Quanto á grandeza absoluta (vej. pag. 23, art. 2º)
3º. Considerado relativamente ao seu apego, diz-se ser:
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).
Innato (adnatus), tem a base larga, e se apega taõ fortemente ao tronco ou ramos, que parece confundir-se com a sua substancia; naõ se pode arrancar sem se espedaçar a casca do tronco, o que naõ succede nos peciolos inseridos.
Decursivo ou decurrente (decurrens), quando a sua base se prolonga sobre o tronco ou ramos, e corre por elles abaxo.
[Página 83]Amplexicaule ou abarcantes (amplexicaulis), quando abarca com a sua base o tronco ou ramos.
Appendiculado (appendiculatus), quando tem na base alguns appendiculos, orelhas, ou producçoẽs folheaceas (dipsacus pilosus).
Envaginante (vaginans), quando com a sua base reveste e cerca o tronco ou ramos a modo de bainha.
4º. Quanto á direcçaõ, diz-se ser:
Levantado (erectus, s. arrectus), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, chegando-se muito à poziçaõ perpendicular.
Patente (patens), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto.
Remontante (assurgens), quando ao sahir do tronco ou ramos he horizontal ou abaxa hum tanto, mas levanta-se depois com a ponta para cima, vindo assim a formar huma especie de arco.
Recurvado (recurvatus) he o contrario do precedente; ergue-se hum tanto em arco ao sahir do tronco, e se curva depois para baxo.
5º. Quanto á superficie, diz-se ser:
Nu (nudus) quando naõ tem pelos, nem glandulas, excrescencias, espinhos, nem sorte alguma de armas.
Glabro (glaber) se he nu, e a sua superficie he liza. Aculeado (aculeatus),
quando tem aculeos (a sylva, e roseiras). Espinescido (spinescens), se
tem espinhos muito raros e fracos, ou taõbem quando he rijo, endurecido,
e picante na ponta Nota
Nesta circumstancia so pode ter lugar nas folhas pinnuladas.
Articulado (articulatus), se tem huma ou mais articulaçoẽs.
As partes accessivas das plantas a que Linneo dá Nota
Sigo nesta divisaõ a sua Phil. Bot. n. 84, porque o mesmo Autor
no seu tractado dos termos Botanicos estendeo taõbem o nome de
esteios aos peciolos e pedunculos.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Nullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Intrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Rentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
Fêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Pelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Quando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
[Página 95]As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
Dizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
O pedunculo (pedunculus) he a parte do tronco ou ramos que serve de esteio á flor, e a que chamaõ vulgarmente o pé da flor. Elle tem huma intima analogia com os ramos, e lhe daõ por esse motivo muitas das suas denominaçoẽs.
Diz-se ser: commum (communis), quando sostem muitas flores ou se divide em pedunculos parciaes.
Parcial (partialis), quando nasce do pedunculo commum ramificado; subdivide-se as vezes ainda em outros menores, a que chamaõ pedicellos ou pedunculos immediatos (pedicelli).
1º. Os pedunculos considerados, quanto ao lugar a que estaõ apegados na planta, dizem-se ser:
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco). Estes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.
Caulinos (caulini), quando nascem do caule.
Rameos (ramei), se nascem dos ramos.
Peciolares (petiolares), se nascem dos peciolos (o hibiscus moscheutos, e algumas especies de turnera). [Página 97] Alguns daõ-lhes taõbem o nome de folheares (foliares) nesta mesma accepçaõ.
Gavinhosos (cirrhiferi, s. cirrhosi), quando lançaõ huma gavinha na ponta (vitis indica, cardiospermum). Alguns daõ-lhes taõbem este nome e o de voluveis, ou enroscados (volubiles), se elles se enroscaõ como huma gavinha.
Terminaes (terminales), quando se achaõ na ponta do tronco ou ramos (a tulipa, e o alfeneiro).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).
Contrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).
Lateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem). Alguns daõ contudo o nome de lateraes aos que nascem nos lados do tronco ou dos ramos, e os oppoem aos terminaes.
Unilateraes (unilaterales), se tem todos o seu ponto de apego em hum mesmo lado, seja qual for a sua direcçaõ: segundinos (secundi), quando estaõ todos inclinados para a mesma banda, ainda que o seu ponto de apego naõ seja exactamente no mesmo lado.
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).
Sobrefolheaceos (suprafoliacei, seu supini) Nota
O termo supinus usa-se taõbem em lugar de resupinatus.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.
2º Quanto á sua situaçaõ, dizem-se ser:
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas. Oppostos (oppositi), quando na mesma altura se acha hum defronte do outro.
Dispersos (sparsi), saõ raleados, copiosos, postos em distancias desiguaes nos lados do tronco ou ra mos, sem guardar ordem alguma.
Conglomerados (conglomerati), quando pertencem a huma panicula apertada; saõ dispostos sem ordem, mas approximados estreitamente (os amaranthos).
Conglobados (conglobati), quando formaõ huma especie de globo; as umbrellas da angelica e algumas flores capitozas tem pedunculos bem visivelmente conglobados. Alguns botanicos usaõ contudo deste termo em lugar de conglomerados.
Capitosos (capitati), se sostêm flores dispostas em cabeça, como os de alguns trevos.
Espigosos (spicati), se saõ dispostos em espiga.
Paniculados (panniculati), se saõ dispostos em panicula: thyrsosos (thyrsiflori), se saõ dispostos em thyrso.
Corymbosos (corymbosi), se saõ dispostos em corymbo.
[Página 99]Fasciculados ou copados (fasciculati, s. fastigiati), se saõ dispostos em fasciculo.
Racimosos (racemosi), se saõ dispostos em racimo.
Umbrellados (umbellati), se saõ dispostos em umbrella.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.
3º Quanto ao numero, o pedunculo diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se divide em rarissimos pedicellos; simplicissimo (simplicissimus) se he unifloro, naõ se dividindo em pedunculos alguns. Multifloro (multiflorus), se sostem muitas flores; unifloro, bifloro, trifloro, quadrifloro, &c se sostem huma, duas, tres, quatro flores, &c.
Composto ou ramoso (compositus, s. ramosus), quando se ramifica em muitos pedunculos parciaes.
Solitario (solitarius), se naõ tem outro ao seu lado no mesmo ponto de apego.
Dois a dois (gemini, geminati, bini), quando se achaõ dois no mesmo ponto de apego ou quasi ao lado hum de outro, e deste modo continuaõ nas mais partes do tronco ou ramos: neste mesmo sentido se dizem ser taõbem: tres a tres, quatro a quatro, &c. (terni, quaterni, &c.)
Numerosos (numerosi, multiplices), quando saõ em grande numero, ou sejaõ situados nas umbrellas e verticillos, ou ao longo dos ramos, receptaculos communs, &c.
4º Quanto a direcçaõ, dizem-se ser:
Encostados (appressi), quando em quasi todo o [Página 100] seu comprimento jazem encostados ao tronco ou ramos.
Levantados (erecti), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, estando muito pouco desviados delles.
Patentes (patentes), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto: horizontaes (horizontales), se formaõ hum angulo recto com o tronco ou ramos.
Coarctados (coarctati), quando se achaõ muitos juntos, approximados, e quasi parallelos.
Resupinados (resupinati), quando sostem flores, que tem corollas resupinadas.
Acenosos (cernui, nutantes), quando em razaõ da sua debilidade, e pezo da sua flor se survaõ na ponta virando esta ou para a terra ou para a ilharga (o gyrasol, o geum rivale, e carduus nutans).
Fracos (flaccidi), quando saõ taõ debeis que basta o pezo da sua flor para os fazer curvar ou ficar pendentes.
Pendentes ou verticaes (penduli, s. verticales), quando estaõ dependurados perpendicularmente para a terra (convallaria polygonatum).
Recurvados (recurvati), quando se elevaõ hum pouco, e depois se curvaõ para baxo.
Remontantes (ascendentes), saõ hum tanto arqueados perto da base, e depois se indireitaõ levantando a ponta para cima.
Irtos ou rectos (stricti), quando naõ tem tortuosidades nem curvatura alguma.
Tortuosos ou ondeados (flexuosi, s. undulati), [Página 101] quando tem tortuosidades ou dobras alternativas, á maneira de huma espada columbrina (aira flexuosa).
Requebrados (retrofracti), quando saõ quasi pendentes, e tem articulaçoẽs angulozas, parecendo como quebrados.
5º Quanto á sua medida relativa, saõ comparados com a flor, e se dizem: curtos, curtissimos, mediocres, compridos e compridissimos. Quanto à sua medida absoluta, veja-se pag. 25, art. 2º.
6º. Quanto á sua superficie e estructura, dizem-se:
Roliços (teretes), se saõ semelhantes na forma a hum rolo: trigumeos (triquetri), se tem tres gumes agudos: trigònos (trigoni), se tem tres gumes hum tanto embotados: quadrigumeos (quadriquetri), se tem quatro gumes afiados: tetragonos (tetragoni), se tem quatro gumes embotados.
Filiformes (filiformes), saõ delgados e de igual grossura, semelhantes a hum fio de linhas ordinario.
Adelgaçados (attenuati, s. acuminati), quando se adelgaçaõ, para a ponta.
Engrossados (incrassati), quando engrossaõ para a ponta ou junto do caliz da flor: se junto da flor engrossaõ á maneira de huma massa, dizem-se: aclavados (clavati).
Articulados (articulati), se tem huma junta ou ainda mais geniculados ou nodosos (geniculati), se as juntas saõ tumidas á maneira de nòs.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.
Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.
Nûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.
Alguns os denominaõ ainda: estereis (steriles); se sostem flores abortivas, que naõ daõ fructo: ferteis ou fecundos (fertiles), se estas daõ fructo.
A disposiçaõ das flores chamada por Linneo inflorescencia (inflorescencia), he o modo com que ellas saõ apegadas aos pedunculos ou a qualquer parte do tronco.
As flores em geral ou saõ rentes ou pedunculadas; as rentes (sessiles), saõ as que estaõ apegadas ao tronco ou a qualquer parte da planta, sem terem pedunculo algum; as pedunculadas (pedunculati), saõ estejadas em hum pedunculo.
A disposiçaõ das flores sendo analoga á dos pedunculos, conhece-se claramente que ellas devem [Página 103] participar de hum grande numero de denominaçoẽs em tudo semelhantes, como por ex. saõ as de terminaes, lateraes, unilateraes, segundinas, dispersas, solitarias, duas a duas, tres a tres, levantadas, patentes, horizontaes, verticaes, acenosas, &c. termos que ficão explicados no capitulo precedente. As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.
A flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c). Eu fallarei mais circumstanciadamente desta sorte de flores em outro lugar.
Aggregada Nota
Linneo estende o nome de flor aggregada ainda a muitas
outras, mas rigorosamente a flor aggregada he a sobredicta.
Espadicea ou enrocada (spadiceus), consta de muitos flosculos rentes ou pedunculados, nascidos de hum receptaculo commum oblongo, contido em huma espatha. Este receptaculo he chamado roca ou espadice (spadix); elle diz-se simplez (simplex) no pe de bezerro, em razaõ de se naõ ramificar, e ramoso [Página 104] (ramosus) nas palmeiras, por se dividir em alguns ramos.
Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan. O verticillo diz-se: rente (sessilis), se as flores que o formaõ naõ tem pedunculo; pedunculado (pedunculatus), se ellas saõ pedunculadas: involucrado (involucratus), se tem hum involucro: bracteado (bracteatus), se he acompanhado de alguma bractea: nu (nudas), se naõ tem involucro nem bractea alguma: basto (confertus), se os flosculos que o compoem estaõ, approximados densamente: raleado (distans), se os seus flosculos estaõ hum tanto distantes entre si: semicircular (dimidiatus), quando, os seus flosculos naõ formaõ á roda do tronco hum annel completo, mas somente metade delle.
Flor capitosa (capitatus), he a que representa huma especie de cabeça, ou que se acha conglomerada em cabeça (capitulum); esta consta de muitos flosculos densamente conchegados em huma forma mais ou menos globular. A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.
[Página 105]Flor espigosa (spicatus), consta de muitos flosculos dispostos em espiga. A
espiga (spica) he huma flor congregada, que consta de muitos flosculos
alternos rentes ou com curtissimos pedicellos levantados. Os seus flosculos
saõ apegados a hum receptaculo commum oblongo, chamado carolim ou carolo
(rachis), como se vê na tanchagem, cevada, trigo, milho, e muitos outros
grames. A flor casulosa (flos glumosus), he verdadeiramente huma especie de
flor espigosa propria das gramineas, e he assim denominado pela razaõ de ser
hum casulo o caliz commum ou particular dos seus flosculos. A espiga-diz se
ser: simplez (simplex), quando consta de flores solitarias, e o seu
receptaculo commum naõ se divide em pedunculos nem receptaculos menores, que
formem pequenas espigas, (a tanchagem). Composta (composita), quando o
receptaculo commum se divide e lança pequenas espiguettas (spiculae, s.
spicillae), como se vê no joyo. Conglomerada (glomerata), quando he composta
ou recomposta, e que as suas espiguettas estaõ muito apertadas e variamente
amontoadas (a alpista, e dactylis glomerata). Disticada (disticha), se os
seus flosculos ou espiguettas estaõ em dois renques oppostos (o bolebole).
Segundina (secunda), quando os seus flosculos estaõ apegados, e virados
todos para shuma so e mesma banda (nardus stricta). Ovada (ovata), se tem
huma figura ovada (o bolebole). Bojuda (ventricosa), se he tumida no meyo, e
estreita nas duas extremidades superior e inferior. Cylindrica (cylindrica),
se tem a forma roliça em todo o seu comprimento. Interrompida (interrupta),
quando o pedunculo commum ou receptaculo commum tem [Página 106] alternativamente alguns intervallos calvos de flosculos ou espiguettas (a
alfazema). Imbricada (imbricata), se os seus flosculos saõ imbricados
longitudinalmente Nota
Estes flosculos saõ ordinariamente segundinos ou unilateraes. Nota
As vezes o tronco naõ da mais do que huma so espiga e lhe chamaõ
por isso unispigado (monostachyus), quando porem produz muitas
espigas daõlhe o nome do multispigado (polystachyus).
Flor amentilhosa ou caudilhosa (flos amentaceus), consta de muitos flosculos dispostos em amentilho ou caudilho (amentum) o qual he huma particular especie de espiga simplez, que consta de flores rentes, [Página 107] ordinariamente unisexuaes, acompanhadas de escamas, e pegadas a hum carolim ou axe commum que lhes serve de receptaculo; taes saõ por ex. os que se observaõ na nogueira, ortiga romana, junça, tabûa, choupo, salgueiro, sabina, pinheiro, acypreste, castanheiro, aveleira, &c. Os amentilhos nascem ordinariamente de gomos e o seu carolim he filiforme; quando elles tem hum carolim grosso e escamas lenhosas, huma forma conica, e produzem somente flores femininas, daõ-lhes o nome de pinhas (coni, s. stobili), como no pinheiro e acypreste. O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.
Flor corymbosa (flos corymbosus), he diaposta em corymbo. O corymbo (corymbus), he huma disposiçaõ de flores aniveladas, os seus pedunculos tem differentes pontos de apego, elevaõ-se gradualmente quasi todos a mesma altura, formando angulos agudos entre si (a milfolha, achillea aggeratum, e chrysanthemum corymbosum). O corymbo he simplez (simplex), se os pedunculos naõ se dividem; composto (compositus), se elles se dividem em muitos outros menores.
Flores paniculadas (flores paniculati), saõ dispostas em panicula. A panicula (panicula), he huma ramificaçaõ vaga e dispersa, na qual os pedunculos [Página 108] communs, e parciaes saõ notavelmente mais compridos do que as flores e fructos (a caneira, o milho painço, e gypsophylla paniculata). A panicula diz-se: diffusa (diffusa), quando os seus pedunculos parciaes saõ esparralhados e divergem entre si; contrahida ou coarctada (coarctata), se os dictos pedunculos estaõ muito conchegados e quasi parallelos. Ella tem ainda muitas outras denominaçoõs, que se entendem facilmente e ficaõ ja explicadas principalmente no capitulo do tronco, e ramos.
Flores thyrsosas (flores thyrsosi, s. thyrsoidei), saõ dispostas em thyrso. O thyrso, ou ramilhete (thyrsus), he huma especie de panicula contrahida, de forma ovada e conica, que se assemelha muito bem aos nossos ramilhetes compridos (syringa vulgarìs, aesculus hippocastanum, tussilago petasites). O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.
Flores racimosas (flores racemosi), saõ disposta em racimo. O racimo ou cacho
(racemus), he huma disposiçaõ de flores com pedunculos curtos, penden tes, e
ordinariamente apegados a hum axe ou pedunculo commum (a videira, azereiro,
uva espim, sylva, groselheira, &c. O racimo diz-se ser: simplez
(simplex), se o ramo ou pedunculo commum sò tem pedunculos indivisos (o
azereiro, e phytolacca); composto (compositus), se os seus pedunculos,
parciaes saõ divididos (a videira, e sylva) Nota
Nos damos o nome de engaço a qualquer cacho depois de despojado
do seu fruto, e o de escadea a huma pequena porçaõ dos seus
pedunculos parciaes guarnecidos de frutos. Nota
O mesmo racimo pode ser levantado no tempo da
florecencia, e pendente no da frutescencia em razaõ do pezo dos seus
fructos como e vê v. g. no ribes petræum.
Flores fasciculadas (flores fasciculati), saõ dispostas em fasciculo. O fasciculo (fasciculus); he huma pilha de flores longas, levantadas, parallelas, approximadas, copadas ou elevadas á mesma altura, e de curtos pedunculos (dianthus barbatus, silene armeria).
[Página 110]Flores umbrelladas (flores umbellati), saõ dispostas em umbrella Nota
Fallo das flores umbrelladas em geral, e em toda a extensaõ do
termo; porquanto particularmente, as flores umbrelladas saõ as
das plantas que formaõ huma familia natural, que saõ dispostas
em umbrella, e tem huma coralla de cinco petalas, cinco estames,
o germe sottoposto á corolla, dois estyletes, e duas sementes
reunidas, como saõ as do coentro, e salsa. Nota
Os seus pedunculos saõ taõbem algumas vezes chamados rayos
(radii). Nota
Diz-se taõbem difforme, se nella se observaõ bolbos entre as
flores, como no allium pallasii.
Flores cymosas (flores cymosi), saõ dispostas em cymeira. A cymeira ou
umbrella bastarda (cyma, s. umbella spuria), he huma disposiçaõ de
flores, cujos pedunculos primarios nascem do mesmo centro, e depois se
ramificaõ irregularmente e sem ordem Nota
As ramificaçoẽs da cymeira, saõ quasi sempre dirigidas para à
banda do dicco, ou da parte interior.
A natureza segundo as leys, que lhe foraõ dadas, prezenta-nos todos os annos
nas flores hum extenso quadro summamente variado e agradavel. Se
exceptuamos os polos sempre gelados, os seus proximos [Página 113] climas, e os profundos mares Nota
No fundo do mar naõ ha planta
alguma perfeita, e só se achaõ algumas especies de fucus, e ulva que
saõ do numero dos mais imperfeitos vegetaes, que se
conhecem.Nota
Vej. Lin. Phil. Bot. art. 335.Nota
Horologium Florae.Nota
Vigiliæ
florum.
Daqui procedeo a origem de hum certo numero [Página 114] de termos, que se achaõ em suas obras dados ás flores, e igualmente às plantas, a que saõ relativas, os quaes se podem reduzir principalmente aos seguintes.
Flores de inverno (flores hybernales, s. brumales), saõ as que desabotoaõ ordinariamente durante o inverno. Algumas plantas cryptogamicas, e a rosa, de todos os mezes saõ deste numero, algumas dos paizes meridionaes da America, e Africa transplantadas na Europa taõbem florecem durante o inverno nas estufas.
Flores da primavera (vernales, s. verni), saõ as que desabotoaõ nos mezes desta estaçaõ; taes saõ por ex. as dos salgueiros, quejadilho, amendoeira, pereira, damasqueiro, narcizo, &c. As plantas, exoticas dos climas frios, e das montanhas transplantadas em nossos pardins ordinariamente taõbem florecem na primavera.
Flores do estio ou veraõ (aestivales, s. aestivi), saõ as que desabotoaõ durante o veraõ, como saõ por ex. as da althéa, malva, feijoeiro, saudade, milfolha, meloeiro, &c.
Flores do outono (autumnales), saõ as que desabotoaõ durante o outono, como v. g. o colchico. As plantas da America septemptrional, principalmente as que saõ vivazes transplantadas em nossos jardins taõbem florecem nesta estaçaõ.
As vigilias ou tempo de vela das flores contem o espaço que medea entre o seu
abrimento e a reclusaõ, quer seja durante o dia, quer de noyte; pelo
contrario o somno das flores (somnus florum), he o espaço que medea desde a
sua reclusaõ athe ao seu abrimento. O abrimento de huma flor (apertio
floris), [Página 115] he o ponto de tempo em que ella se abre Nota
Este termo tem huma significaçaõ mais extensa do que o de
desabotoamento (exgemmatio floris), porquanto todo o
desabotoamento he abrimento, mas nem todo o abrimento de huma
flor he desabotoamento; a primeira vez que huma flor abre do seu
botaõ, diz-se desabotoar ou ter desabotoamento, mas na segunda
vez, no segundo dias e mais vezes diz-se ter abrimento e naõ
desabotoamento.
Quanto ao tempo de vela ou de somno, as flores saõ denominadas diurnas ou
golares (diurni, s. solares) Nota
Alguns Botanicos comprehendem taõbem debaxo do termo solares as
flores nocturnas.
Flores meteoricas (meteorici), saõ as que naõ tem hora determinada de abrir-se, e de se fechar, porquanto o abrimento e reclusaõ saõ desordenados em razaõ da sombra, humidade, seccura, e maior ou menor pressaõ da atmosphera; o martyrio por ex que costuma abrir-se ao meyo dia em tempo claro, naõ se abre senaõ às tres horas quando o ceo està espessamente nublado.
Flores tropicas (tropici), saõ as que se abrem todos os dias constantemente de manhaan, e se fechaõ quasi [Página 116] ao sol posto, mas o tempo de vela he maior, ou menor á proporçaõ que os dias augmentaõ ou diminuem.
Flores equinoxiaes (aequinoctiales), saõ as que se abrem todos os dias em huma hora certa e determinada, e se fechaõ taõbem em huma hora certa, de modo que o seu tempo de vela he todos os dias igual ou quasi igual.
[Página 117]ASSIM como todos os animaes tendem naturalmente à sua reproducçaõ, da mesma sorte
os vegetaes á proporçaõ que crescem se encaminhaõ ao estado de fructificaçaõ, e
tanto que fructificaraõ, ou perecem dentro de breve tempo ou cessaõ de crescer
no lugar que deraõ o fructo, sendo-lhes precisos novos gomos para poderem
lateralmente prolongar-se. Donde se collige que a fructificaçaõ (fructificatio)
he huma parte transitoria em que termina o vegetal dentro de hum certo periodo
de tempo, destinada a dar principio a novos entes da sua espécie. Ella
consiste essensialmente na flor e fructo: a flor he hum a parte da
fructificaçaõ, que no seu estado completo e perfeito consta de organos
sexuaes envoltos em tegumentos; a sua essensia consiste em ter anthera ou estigma Nota
Em razaõ de comprehender ainda as flores cryptogamicas geralmente se
poderia melhor dizer: consiste em ter anthera , ou estigma, ou hum principio de semente .
O CALYZ e corolla saõ os tegumentos dos organos sexuaes, ou para me explicar segundo o modo de alguns sexualistas, o calyz he o thalamo nupcial das flores, e a corolla a rica armaçaõ delle. Cesalpino pensava que o calyz era hum prolongamento da casca e a corlla huma prodcçaõ do livrilho ou alburno.
As flores nem sempre saõ acompanhadas destes tegumentos; quando huma flor
tem calyz e corolla hé chamada completa (flos completus) e incompleta
(incompletus) se lhe falta algum dos dictos Nota
Alguns daõ taõbem o nome de perfeita (perfectus) á completa e o
de imperfeita (imperfectus) á incompleta; porem o melhor sera
reservar o nome de flor imperfeita para as cryptogamicas, e o de
perfeita para as das outras classes.
A natureza naõ poz limites certos entre o calyz e corolla, e daqui procede
que os Botanicos tem differentes opinioes relativamente á denominaçaõ destes
tegumentos; huns querem que o tegumento immediato aos organos sexuaes deva
ser chamado corolla em todas as circumstancias, e por conseguinte todas as
vezes que a flor tem hum so tegumento [Página 119] daõ-lhe o nome de corolla; outros seguem em parte este parecer, e em
parte a cor, á qual daõ a preferencia. Linneo vendo que algumas corollas
se tornaõ verdes, e alguns calyces saõ bastantemente corados,
estabeleceo a differença entre o calyz, e corolla na posiçaõ dos
estames, dizendo que estes nas flores descalycinas e muitas completas
saõ alternos com as petalas ou lacinias da corolla ficando situados
entre as suas aberturas, que nas descorolladas pelo contrario saõ
fronteiros aos foliolos ou segmentos do calyz, ficando encostados ou
postos defronte delles, como se pode observar no cardo penteador,
cerejeira brava, coentro, sabugueiro, consolda maior, alchemilla,
potamogeton, e muitas outras plantas das classes Terandria e Pentrandria Nota
Sem embargo destas condiçoẽs naõ deixa as vezes de haver
difficuldade na decisaõ do nome destes tegumentos, e Linneo o dà
a entender quando diz: calyz a naõ chamar-lhe corolla; corolla a
naõ charmar lhe calyz; corolla calycina; calyz acorollado: cujos
exemplos se vem no loireiro, garidella, commelina, monotropa,
tetragonia, &c.
O CALYZ (calyx), no maior numero de flores heo tegumento externo dos organos sexuaes, de cor verde ou menos corado do que a corolla (o jasmim, cravo, e goivo). Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.
Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva. Antigamente so o primeiro tinha o nome de calyz, e com effeito os mais mereciaõ antes ser chamados calyces bastardos (calyces spurii).
O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.) O perianthio pode ser taõbem contiguo a outro (como na malva), a huma corolla ou a muitas, como no gyrasol; quando elle recobre muitos flosculos, estes ou saõ rentes ou quasi rentes, Nas flores casulosas e amentilhosas o calyz ordinariamente naõ he circular; a estructura escamosa, paleacea e outras circumstancias relativas à sua forma poderaõ contribuir a destinguilo do perianthio. Os foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas . Nas flores compostas os foliolos saõ ordinariamente chamados escamas (squamae), principalmente se saõ imbricados, como nas perpetuas. Se na flor naõ ha perianthio, como na tulipa e açucena, daõ lhe o nome de nullo (nullum).
Diz-se: perianthio da fructificaçaõ (perianthium fructificationis), quando
contem ou enserra os estames e o germe; nesta circumstancia sempre esta
immediatamente sottoposto ao germe (a sylva, peonia, morangueiro, masva,
jasmineiro craveiro, faveira, &e.) Perianthio da flor (perianthium
floris), se em si contem os estames sem germe Nota
Este calyz tem o seu ponto de apego sobre o germe ou fructo
tenrinho, no cazo que o haja; os calyces das flores masculas
aindaque naõ saõ apegados ao topo do germe (porque o naõ ha),
devem contudo ser considerados como perianthios da flor, por
conterem estames e naõ germe algum, como saõ os da amoreira,
mercurial, amaranthos, &c. Nota
O calyz neste cazo esta sottoposto ao germe; às vezes ha huma
corolla sobreposta ou outro calyz sobreposto ao germe, o que naõ
tem lugar no cazo do perianthio da fructificaçaõ, em que o germe
naõ fica situado immediatamente debaxo da corolla, nem entre o
calyz e corolla, como succede no prezente; no perianthio da
fructificaçaõ os estames naõ estaõ apegados ao germe, mas sim ao
receptaculo que Sostem a base do germe, ou ao dicto perianthio,
ou a huma corolla ou nectario que naõ tem o ponto de apego no
germe. Ha flores que tem o periantio do fructo diverso do da flor como a
Linnæa e Morina, ha outras que tem perianthio do fructo e naõ da
flor, como as femininas da aveleira, poterium, &c, outras
tem perianthio da flor e naõ do fructo, como a murta, romeira,
pereira, sorveira, &c, ha outras emfim que naõ tem
perianthio algum, aindaque tenhaõ hum receptaculo da flor, como
v.g. a hippuris, orchideas, valeriana, aristolochia, &c. Vej. Linn. Meth, Calyc.
Perianthio superior ou sobreposto (superum), he o que se acha posto sobre o germe ou tenrinho fructo, como o da romeira, pereira, e outros muitos perianthios da flor.
Perianthio inferior ou sottoposto (inferum), he o que cinge a base do germe ou tenrinho fructo, como saõ os perianthios da fructificaçaõ e do fructo.
Commum (commune) Nota
As vezes das lhe taõbem o nome de composto ou universal
(compositum, s. universale). Segundo Linneo este calyz pode ser dobrado como se vê no
micropus.
Parcial ou particular (proprium, S. partiale), he [Página 122] relativo a hum flosculo contido em hum perianthio, commum, ou a
qualquer flosculo congregado, rente ou quasi rente (a saudade, e
gyrasol) Nota
Ordinariamente este termo so se applica aos calyculos das
flores compostas e aggregadas. O perianthio parcial pode segundo
Linneo conter mais de huma flor, como se vẽ no sphaerantus, e
elephanthopus.
Calyculado (auctum, s. calyculatum), quando tem na sua base huma serie de
escamas ou foliolos curtos, differentes delle, e que constituem quasi
hum segundo calyz menor ou calyculo (calyculus) Nota
Da-se taõbem o
nome de calyculos a alguns perianthios parciaes, como aos da
saudade, pela razaõ de serem pequenos ou menores do que o
commum.
Unico (unicum), quando a flor tem hum so, como v. g. o alecrim: simplez (simplex) he unico, naõ calyculado, nem dobrado nem triplicado (sida). Este termo parece ser synonymo do precedente; Linneo contudo deo-lhe mais extensa significaçaõ, e o applicou ainda para denotar hum calyz quasi inteiro, de foliolos naõ imbricados, quasi do mesmo comprimento, ou adunados na base, como o da tagetes, bellis, e o calyz interior da crepis.
Dobrado ou triplicado (duplex, geminum, triplex), quando Nota
Estes
calyces saõ ordinariamente differentes no numero, e forma de suas
partes; encontraõ se tanto nas flores simplez, como nas compostas e
aggregadas; as vezes estaõ dois approximados, ou apegados hum ao
outro debaxo do germe, ou no topo outras vezes saõ remotos, estando
hum na base outro no topo do germe, outras vezes emfim hum commum na
base, e dois no topo do germe, como se podem observar na malva,
althaea, craniolaria, morina, linnaea, scabiosa, caryophyllus,
&c.
Caduco (caducum), se cahe logo que a flor desabotoa, como o da papoila, e epimedium.
Decadente ou simulcadente (deciduum), se cahe juntamente com a corolla, como o da uva espim, mostarda, e outras flores da Tetradynamia.
Persistente (persistens) se persiste athe à madureza do fructo, como o da salva, alecrim, e outras flores da Didynamia.
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitas escamas ou foliolos destinetos na base (a alface). Monophyllo (monophyllum), quando he de huma so peça ou inteiriço na base, ainda que seja partido ou fendido (a salva, romeira, pereira, pimentaõ, &c.); de dois foliolos (diphyllum) na papoila, celidonia e fumaria; de tres foliolos (triphyllum), na tradescantia e ranunculus ficaria; de quatro foliolos (tetraphylhum) na couve, e goiveiro; de cinco (pentaphyllum), no linho; elle diz-se ser ainda de seis, sette, oito, nove, dez foliolos, &c. (hexa- hepta- octo- ennea- decaphyllum, &c.)
Fendido (fissum), se he monophyllo, e rasgado athe ao meyo pouco mais ou menos, e as sinuosi dades entre os segmentos saõ lineares ou de igual largura; segundo o numero das lacinas diz-se ser: multifendido (multifidum), fendido em duas, tres, quatro, cinco lacinias, &c. (bi-tri-quadri-quinquefidum, &c.); se as lacinias saõ curtas ou marginaes, daõ-lhes. o nome de dentes, e se diz por conseguinte denteado (dentatum s. ferratum); segundo o numero destas curtas lacinias diz-se ser: denteado de muitos dentes (multidentatum), de dois, tres, quatro, cinco dentes, &c. (bi-tri-quadri-quinquedentatum, &c.)
[Página 124]Partido (partitum), he monophyllo e dividido athe abaxo do meyo ou quasi athe à base; segundo o numero das lacinias diz-se ser; multipartido (multipartitum), bipartido (bipartitum), tripartido (tripartitum), quadripartido (quadripartitum), partido em cinco, seis lacinias, &c. (quinque-sexpartitum, &c.)
Inteiro (integrum), he monophyllo sem ser fendido, nem partido em lacinias algumas.
Celheado (ciliatum), se os seus foliolos ou lacinias saõ celheadas Nota
As celhas rigorosamente saõ os pelos ou sedas que se achaõ no
fio marginal; mas aqui os botanicos comprehendem taõbem o
disco.
Tubuloso (tubulosum), se he roliço e occo (a neveda e hortelaan).
Infunado (inflatum), quando he concavo, e parece soprado como huma bexiga (a herva traqueira).
Levantado (erectum), se os seus foliolos ou lacinias saõ levantadas (jasmim).
Patente (patens), quando as suas lacinias ou foliolos saõ abertos largamente, ou formaõ com o pedunculo hum angulo obtuso pouco desviado do angulo recto.
Reflexo (reflexum), quando a extremidade dos seus foliolos ou lacinias se curvaõ hum tanto para traz, ou para baxo.
Igual (aequale), quando os seus foliolos, lacinias ou dentes saõ iguaes: desigual (inaequale); se elles saõ desiguaes (cistus).
Curto (abbreviatum), se he mais curto do que a corolla, ou do que o seu tubo, ou unhas das petalas: comprido (longum), se he mais comprido do que ella.
[Página 125]Globoso (globosum), se tem a forma globosa (a perpetua e bardana); aclavado (clavatum), quando se prolonga engrossando pouco a pouco, e reprezenta a forma de huma massa (silene).
Troncado (truncatum), se ne sua parte superior parece como decotado: obtuso (obtusum), se os seus foliosos ou segmentos saõ obtusos; agudo (acutum), se elles saõ agudos; as vezes diz-se taõbem agudo ou obtuso na base.
Espinhoso (spinosum), se tem espinhos (a calcitrapa, e cardo sancto); aculeado (aculeatum), se tem aculeos (a bringela).
Imbricado (imbricatum), se consta de foliolos ou escamas imbricadas (o gyrasol, milfolha, e alface).
Esquarroso (sguarrosum), se tem foliolos ou escamas imbricadas, desviadas, e abertas entre si principalmente nas pontas (conyza squarrosa)
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).
Turbinado (turbinatum), se he verticalmente conico tendo a forma de hum piaõ bailando (moluccella)
Involucro (involucrum), he huma especie de calyz remoto da flor Nota
He
hum calyz bastardo, proprio naõ so das flores umbrelladas mas de
muitas outras; naõ se rasga ao alto como as espathas, e o estar mais
ou menos distante da flor contribue a fazelo distinguir das outras
especies de calyz; ordinariamente parece ser hum composto de
bracteas.
Diz-se ser; universal (universale), se esta situado na, base dos rayos de huma umbrella univeroal (a cenoira, bisnaga, e cardo, corredor): parcial (partiale), [Página 126] quando acompanha a base dos rayos de huma umbrella parcial (salsa, coentro, cerofolho); chamaõ-lhe: involucello (involucellum), ou pequeno involucro parcial, se tem poucos foliolos curtos, como nas euphorbias e buplevrum; proprio (proprium), se acompanha o pedunculo da flor de huma umbrella parcial, ou ainda o de huma so flor, como na pulsatilla.
Semicircular (dimidiatum), se acompanha somente metade do topo do pedunculo que sostem a umbrella, faltando na outra metade (o coentro, e aethusa).
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitos foliolos, como na canafrecha, e peucedarium; momophyllo (monophyllum), se consta de hum so foliolo, he inteiriço na base, e acompanha o pedunculo circularmente (a pulsatilla); de dois, tres, quatro, cinco, seis foliolos, &c. (di-tri-tetra-penta-hexaphyllum, etc.) como se ve nas euphorbias e umbrelladas.
Casulo (gluma), he huma especie de calyz Nota
O nome de casûlo he taõbem
dado a corolla das gramas; mas aqui so se deve entender o casulo
externo, porque do interno fallarei quando tractar da corolla.
Alguns para os distinguir chamaõ-lhes casulo calycino, casulo
corollino; talvez melhor fora dar somente ao calyz o nome de
casulo.
As escamas ou folhiços paleaceos, de que consta o casûlo, saõ chamados
valvulas (valvulae, s. valvae); ellas saõ de varia forma e estructura,
planas, concavas, aquilhadas, assoveladas, iguaes, desiguaes, &c. O
casûlo, em razaõ do numero das valvulas de que he composto, diz-se ser:
univalve (alvis), se [Página 127] consta de huma so (o joyo); bivalve,(bivalvis), se consta de duas (o
trigo e milho): trivalve (trivalvis), se consta de tres (o escalracho,
milhaan, e milho painço); multivalve (multivalvis), se consta, de muitas
valvulas ou mais de trez (a uniola, as maçarocas de milho Nota
Linneo chama folhas ás
valvulas destas maçarocas, mas a sua estructura, e modo de
envolver as fores me fazem decidir a consideralas como hum
casulo commum multivalve.
Unifloro (uniflora), se inclue somente hum flosculo como o milho painço, a alpista, e milho ordinario: biflora (biflora), se contem duas flores (a avea, e aira) trifloro (triflora), se contem tres flores (algumas especies de trago) multifloro (multiflora), se contem muitos flosculos, ou mais de tres (o joyo, e bolebole).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).
Glabro (glabra), se naõ tem pelos, nem celhas, nem sedas algumas: peludo, lanudo, felpudo, celheado e hispido, se as suas valvulas constaõ de producçoẽs proprias a merecer estas denominaçoẽs (vej. o § Do trichismo e hispidez).
Aristado (aristata), se as suas valvulas tem praganas (o trigo tremez): desaristado (mutica), se ellas saõ destituidas, de praganas (o escalracho, e milho).
A pragana (arista), he hum fio mais ou menos comprido, hum tanto rijo, e apegado a alguma das valvulas do casulo calycino ou corollino das gramas. Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).
Amentilho (amentum), segundo Linneo he hum calyz formado do receptaculo
commum ou carolim filiforme, guarnecido de escamas paleaceas, e originario
de hum gomo. Eu ja fallei do amentilho como huma especie de espiga Nota
O amentilho rigorosamente he huma especie de espiga simplez,
que consta de flores unisexuaes; o nome de calyz sò pode competir às
suas escamas, mas algumas vezes o amentilho he nu e sem escamas, e
neste cazo seremos obrigados a chamar calyz a hum receptaculo, o que
me parece assaz improprio, a naõ querer chamar amentilho somente às
escamas do gomo.
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).
He univalve ou monophylla (univalvis, s. monophylla), quando consta de huma so peça que se raaga de ilharga (o narcizo, e pe de bezerro): bivalve ou diphylla (bivalvis, s. diphylla), quando he rasgada em duas partes ou em dois foliolos (as palmeiras): Mediada (dimidiata), se he monophylla, aberta e concava, como a metade de hum ovo cortado ao [Página 129] alto, e guarnece a fructificaçaõ somente com a parte inferior: imbricada (imbricata), como nas bananeiras.
Trunfa (calyptra), he huma especie de calyz membranoso ,
acapellado, posto immediatamente sobre a fructificaçaõ dos musgos
chamada anthera, urna, ou capsula (o polytrichum, e bryum) Nota
Hedwigio e alguns outros Botanicos, que seguem que a corolla he o
tegumento immediato dos organos sexuaes, consideraõ a trunfa dos
musgos como huma corolla, e so daõ o nome de calyz ao
perichecio.
Volva (volva), he huma membrana que cobre os cogumelos e algumas outras plantas da familia dos fungos, susceptivel de ser lacerada. Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo. A volva incompleta he a que somente cobre parte do individuo; daõ-lhe taõbem o nome de veo (velum); observa-se na face superior e inferior do umbraculo dos cogumelos, e continua athe ao espique, ao qual humas vezes se afferra, outras vezes somente se encosta sem contudo se apegar a elle. Quando depois de rota fica rodeando o espique em forma de calça, daõ-lhe o nome [Página 130] de annel (annulus), como se ve no agaricus campestris). A volva incompleta e o annel parecem merecer mais propriamente o nome de casyz do que a completa, que tem ordinariamente huma grande analogia com as cascas das sementes.
A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe. O annel diz-se; remoto (remotus se fica distante do umbraculo no tempo que este abrio; approximado (approximatus), se no dicto tempo jaz conchegado ao umbrgeulo; caduco (caducas) se cahe logo que a volva incompleta se rompe; persistente (persistens), quando rota a volva persiste aferrado ao espique. Elle se diz ainda; amarello, alvadio, &c. segundo as suas differentes cores.
A corolla (corolla), he hum tegumento dos organos sexuaes da flor immediatamente contiguo a elles, e de ordinario mais corado e mais delicado [Página 131] do que o calyz; tal he por ex. a do jasmim, açucena, rosa, cravo, &c.
Quando a flor naõ tem corolla diz,se despetaleada ou descorollada, como já expuz, e nesta circumstancia a corolla he denominada nulla (nulla); como v. g. nas flores femininas dos carvalhos e aveleiras.
1º Quanto à divisaõ:
A corolla ou he de huma so pera e inteiriça na base, ou consta de duas ou
mais peças assaz destinctas na base; no primeiro cazo dizse: monopétala
(monopetala), e no pegundo petaleada ou polypétala (polypetala) Nota
Este
termo da-se taõbem ás corollas, que tem hum grande numero de petalas,
como as do golfaõ, cactus, &c.
Na corolla monopetala em geral podem se considerar duas partes, a superior chamada orla (limbus) e a inferior, pela qual ella se apega, denominada base (basis); esta parte inferior muitas vezes he cylindrica, e nesta circumstancia daõ-lhe o nome de tubo (tubus), como se vè no alecrim, jasmineiro e colchico. A orla humas vezes he inteira, outras vezes he fendida ou partida, e neste segundo cazo os segmentos saõ chamados lacinias (laciniae), como no jasmim, congossa, borragem, &c.
As peças ou foliolos còrados de que consta a corolla petaleada saõ chamados petalas (petala); em cada huma destas pode se em geral suppor duas partes, a superior larga, aberta e dilatada tem o nome de lamina (lamina), e a inferior estreita, e aguda [Página 132] na extremidade he chamada unha da petala (unguis) como saõ as que se vem nas petalas do cravo, goivo, &c.; as vezes a unha da petala he curtissima como nas rozas e rainunculos; outras vezes observa-selhes huma base larga, que mal merece o nome de unha, e porisso alguns lhes chamaõ petalas rentes (sessilia).
A corolla petaleada, segundo o numero das suas petalas, diz-se ser: de duas, trez, quatro, cinco, seis, sette, oito, nove, dez, ou muitas petalas (di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- octo- ennea- deca- polypetala.)
Na familia das gramineas a corolla, ou casulo corollino em lugar de petalas diz se ter valvulas (valvulae), que saõ certas escamas paleaceas, concavas, approximadas immediatamente ao germe, como se ve no trigo, e centeyo. Ordinariamente saõ duas, e as vezes persistem e ficaõ servindo de casca à semente, como se vè na cevada.
Fendida (fissa), quando he rasgada em lacinias athe ao meyo ou menos (o
quejadilho) Nota
Se he monopetala; na petaleada as petalas podem se
dizer fendidas ou partidas na mesma accepçaõ, que tem estes termos
relativamente as corollas monopetalas.
Partida (partita), quando he rasgada em lacinias athe abaxo do meyo ou quasi athe à base (a semprenoiva, e borragem); diz-se partida em muitas lacinias (multipartita), bipartida, tripartida, quadripartida, &c. (bi-tri-quadripartita, &c.).
[Página 133]2º. Quanto à direcaõ diz-se ser:
Levantada (erecta), quando tem as suas petalas, valvulas, ou lacinias levantadas, isto he, formando hum angulo agudissimo com o estylete supposto prosongado rectamente (o colchico, e cevada.)
Patente (patens), se as suas petalas, valvulas, ou lacinias formaõ hum angulo quasi recto com o estylete supposto prolongado no centro rectamente (a papoila); patentissima (patentissima), se ellas formaõ hum angulo recto com o estylete.
Plana (plana), quando as suas petalas ou lacinìas saõ planas, e nella naõ
ha tubo Nota
Quando ha tubo, este termo e o de patente devem ser applicados á
orla ou suas lacinias.
Concava (concava), quando tem a sua orla concava.
Recurvada (reflexa, recurva), as suas petalas ou lacinias tem a ponta curvada para traz ou para fora (o espargo); revolutosa (revoluta), he hum grao de mais, tem as petalas ou lacinias recurvadas, e quasi enroladas (algumas especies de lilium).
Incurvada (incurva, s. inflexa), as suas petalas ou lacinias tem as pontas curvadas para dentro, isto he, para a banda do centro da flor (o funcho).
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)
[Página 134]3º Quanto ao ponto de apego.
A corolla ou he apegada ao calyz (calyci inserta), como na roseira e romeira, ou ao receptaculo (recentaculo inserta), como na papoila, cravo e rainunculo.
Sottoposta ou inferior (infera), quando se acha posta debaxo do germe, como na açucena, e cebola: sobreposta ou superior (supera), se esta apegada á parte superior do germe, como no narcizo.
Innata ao calyz (calyci adnata), se està pela sua face inferior intimamente adunada ao calya (a abobara, pepino, e outras cucurbitaceas.)
4º. Quanto à superficie, e margem diz-se ser:
Lanuda (lanata), se tem lanugem (hyacinthus lanatus).
Felpuda (villosa), se tem felpa (menyanthes).
Barbuda ou hirsurta (barbata, s. hirsurta), como no, hypericum bacciferum.
Celheada (ciliata), na arruda, e chagueira.
Glabra (glabra), se naõ tem pelos alguns (narcizo).
Denticulada de dois, tres, quatro, cinco dentes, (bi-tri-quadri-quinquedentata), como saõ as corollulas das flores compostas, v. g. as da alface, bonina, macella, gyrasol, &c.
Crenada ou crenulada (crenata, s crenulata), se tem na margem crenas ou crenulas Nota
As crenas da corolla saõ
segundo a accepçaõ ordinaria as suas chanfraduras obtusas entre
as lacinulas marginaes; mas por evitar equivocaçoẽs he melhor
seguir o parecer de M. de la Mark, e de outros modernos que as
tomaõ por lacinias marginaes embotadas, para as destinguir dos
denticulos que saõ agudos.
4º Quanto à proporçaõ entre as suas partes, diz-se ser:
Igual (aequalis), quando as petalas, ou lacinias (se he monopetala), saõ todas de igual grandeza e tem todas a mesma figura, como saõ as cruciformes, roseira, pereira, jasmineiro, borragem, quepadilho, consolda maior, &c.
Desigual (inaequalis), quando as suas petalas ou lacinias (se he monopetala) tem todas a mesma figura, mas differem na grandeza, ou comprimento (o butomus, o epilobium angustifolium, e latifolium, e as corollas que se achaõ no rayo da umbrella do coentro.)
Regular (regularis), no sentido em que este termo se toma ordinariamente,
huma corolla regular he a mesma coiza que huma corolla igual Nota
Podéra-se contudo fazer huma distinçaõ entre a regular, e
igual, dizendo que na corolla regular as petalas ou lacinias tem
todas a mesma figura, quer sejaõ iguaes na grandeza quer desiguaes,
e deste modo huma corolla poderia ter petalas ou lacinias desiguaes,
e nem porisso deixar de ser regular, como o butomus, e epilobium
latifolium; todas as corollas iguaes seriaõ regulares mais nem todas
as regulares seriaõ iguaes; Alguns Botanicos admittem so duas sortes
de corollas, regulares e irregulares: elle suppoem hum axe ou arame
recto posto no centro, e prolongado desde a base ou apego da corolla
athe a extremidade das petalas, lacinias ou orla; se todos os cortes
transversaes, que se poderem fazer desde a base athe ao topo de
dicto axe, derem circularmente segmentos iguaes no comprimento ou se
a orla da corolla monopetala naõ for dimidiada nem claudicar de hum
lado, a corolla he regular e Irregular no sentido contrario;
partindo desta supposiçaõ poem no numero das corollas regulares a
afunilada, asalveada, cyathiforme campanulada, globosa, oval,
arrosetada, cravinosa, cruciforme, rosacea, e malvacea, e entre as
irregulares a labiada, borboleta, a das orchideas, as que tem
nectarios esporaûdos e acapellados, e as do Acanthus, Teucrium,
Ajuga, Echium, Aristolochia, &c.
Irregular (irregularis), se as suas petalas, labios, ou lacinias saõ de differente forma e juntamente de diversa grandeza (o geranium papilionaceum, o amor perfeito, aconito, salva, orchideas, labiadas, e leguminosas.
A corolla he taõbem comparada com o calyz, e na falta deste com o pistillo ou estames, e se diz ser: curta, mediocre, comprida, pequena, grande, &c; mas por evitar equivocaçoẽs, o melhor será declarar sempre as partes comparadas, e dizer v. g.: corolla mais comprida do que o calyz, igual ao calyz, mais curta do que o calyz, mais comprida do que os estames, &c.
5º. Quanto à forma a corolla diz-se ser:
Rodada ou arosettada (rotata), figura quasi huma roda ou rosetta de espora; he monopetala, sem tubo notavel, partida em lacinias planas, e muito abertas (a borragem, morriaõ, e verbasco).
Campanulada ou acampainhada (campanulata, seu campaniformis) he petaleada ou monopetala, bojuda, sem tubo, e assemelhada a huma campainha [Página 137] ou choca (a tulipa, verdeselha, campanula, e abobara.)
Afunilada (infundibuliformis), assemelha-se a hum funil; a sua orla tem huma forma turbinada, e termina em hum tubo (a ipomaea, a mirabilis, e herva sancta.)
Cyathiforme (cyathiformis), parece assemelharse a hum copo de calyz; tem hum tubo cylindrico, a orla concava e hum tanto dilatada; taes saõ segundo alguns Botanicos as corollas da buglossa, cerinthe consolda maior, cynoglossa, quejadilho, pulmonaria, &c; mas Linneo reduz estas sortes de corollas ào afuniladas, e às vezes às campanuladas.
Asalveada (hypocrateriformis), assemelha-se de algum modo às nossas antigas salvas de prata; he monopetala, tem hum tubo cylindrico, e a orla plana e muito aberta (o jasmim, e congossa).
Labiada (ringens,
rictiformis, labiata), he monopetala tubulosa, e tem a orla dividida em
dois labios Nota
As vezes tem hum sò labio, como no Acanthus, Teucrium
e Ajuga, e nesta circumstancia he chamada unilabiada
(unilabiata.)Nota
A fauce ou garganta da
corolla he taõbem propria do qualquer corolla tubulosa, ou he o
orificio de hum tubo mais ou menos longo. As vezes diz se ser:
aberta (nuda, aperta, pervia), se naõ tem escamas nem pelos (como na
pulmonaria); fechada (clausa, s. tecta), se he tapada com pelos ou
escamas (como na buglossa, e cynoglossa): coroada (coronata), se tem
alguns rayos, denticulos, ou corpusculos (como na borragem, e
symphytum.)Nota
O collo he proprio taõbem de muitas outras corollas, que naõ saõ labiadas ,
como por ex. da do quejadilho, congossa, &c. Nota
O palato parece sò ser
proprio das corollas mascarinas.Nota
O esporaõ acha se taõbem em outras especies de corollas
como se vè nas esporas, e ainda mesmo no calyz, como nas chagas:
algumas corollas em lugar de esporaõ tem huma especie de capello ou
sacco (cucullus, s. saccus), como a impatiens, e alguns generos das
orchideas.
Rosacea (rosacea), tem cinco petalas regulares concavas, com unhas curtissimas apegadas ao calyz (as roseiras bravas, pereira, e sylva).
Malvacea (malvacea), tem cinco petalas cordiformes com as unhas adunadas (a malva, althea, & outras malvaceas.)
Liliacea (liliacea), tem seis petalas regulares, como a tulipa, açucena, coroa imperial, e outras plantas liliaceas.
Cravinosa (carvophillata), tem cinco petalas regulares, unguiculadas, e as vezes apegadas junto da base (as cravinas, murujem, herva traqueira, &c.) O germe nas flores que tem esta corolla vem a ser huma capsula.
Cruciforme (cruciata, s. cruciformis), tem quatro petalas regulares, unguiculadas, com as laminas patentes, e dispostas em cruz (a couve, goiveiro, e nabo).
Papilionacea ou borboleta (papilionacea), foy assim chamada pela compararem a
huma borboleta voando, he irregular, e consta de quatro petalas
unguiculadas, a superior he chamada estendarte (vexillum e està mais ou
menos levantada, estendida, e encostada anteriormente às outras tres Nota
He raro que huma corolla borboleta tenha mais, ou menos de quatro
petalas; contudo na amorpha aeha,se somente o estendarde e na olaya a
navetta he de duas petalas, o que he rarissimo, porque quando muito em
outras leguminosas so he bifendida ou bipartida.
Gomilosa (urceolata), tem a forma oval ou quasi oval, de modo que se assemelha quasi a huma jarra ou gomil; he bojuda no meyo, e se estreita depois na parte superior e inferior (a basella, e hyacinthus muscari).
Globosa (globosa), tem huma forma quasi espherica (o lirio dos valles, e a escrophularia).
6º. Quanto à composiçaõ diz-se ser:
Simplez (simplea), se pertence a huma flor simplez. A flor simplez (flos simplex), he rigorosamente a que dentro de hum calyz naõ contem muitos flos culos (o meimendro, a salva, e o jasmim). Os floristas chamaõ flor simplez ou singella à que tem sò huma ordem de petalas, e a oppoem à dobrada e polypetala, mas os Botanicos so chamaõ flor simplez aquella, cujo calyz, corolla ou receptaculo naõ saõ communs a muitos flosculos, e Linneo a oppoem à flor composta, aggregada, umbrellada, cymosa, amentilhosa, casulosa, e espadicea.
Corolla composta (composita), he a totalidade das corolullas de muitos
flosculos contidos dentro, de hum perianthio commum, rentes, e com antheras adunadas Nota
Linneo assigna taõbem huma corolla composta às especies de
betula, aindaque os seus flosculos naõ tenhaõ antheras adunadas, mas o termo composta he pouco usado em botanica nesta
extensa accepçaõ.
Corolla universal (universalis), he a totalidade das corollulas de
muitos flosculos relativos a huma umbrella universal (o coentro, salsa,
canabraz, e canafrecha Nota
Linneo da taõbem adequadamente o nome de corolla universal à
totalidade de algumas flores aggregadas, como às da scabiosa,
globularia, &c.
Corolla propria ou parcial (propria, s. partialis), he a que merece propriamente o nome de corolla, e pertence a cada hum dos flosculos da corolla composta ou da universal: daõ-lhe taõbem o nome de corollula ou de pequena corolla (corollula), principalmente quando he relativa a huma corolla composta.
A corolla composta e a universal constaõ de disco e de rayo; o disco (discus), he todo o espaço que vay desde o rayo exclusivamente athe ao centro; o rayo (radius), na corolla composta, he a sua parte mais externa immediata aos foliolos, escamas, ou lacinias do perianthio commum; na corolla universal das umbrelladas o rayo he a ultima ordem dos flosculos, que se achaõ na circumferencia da umbrella universal (o gyrasol, bonina, perpetua, salsa, e coentro).
Corollula ligulosa, ou corolla propria aligulada (p. ligulata), he a que
pertence a hum flosculo da flor composta Nota
Tournefort chamava flosculo (flosculus) ao que Linneo chama
corollula tubulosa, e semiflosculo (semiflosculus) ao que elle
chama corollula ligulosa; a opiniaõ de Linneo parece me ser a
mais acertada, porquanto o nome de flosculo convem naõ so aos
semiflosculos de Tournefort, mais ainda a qualquer pequena flor
congregada em hum receptaculo commum.
Corollula tubulosa, ou corolla propria tubulosa (p. tubulata, s. tubulosa), tem na parte inferior hum tubo, e a sua orla he campanulada, e terminada em cinco denticulos ou cinco lacinulas; estas corollulas algumas vezes saõ afuniladas, e outras vezes as suas lacinulas saõ desiguaes. As corollulas tubulosas achaõ-se na maior parte das flores da classe Syngenesia, e se podem observar nas da macella gallega, losna, gyrasol e perpetua.
Corolla composta ligulosa (c. ligulata) Nota
Semiflosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta tubulosa (c. tubulosa, s. discoidea) Nota
Flosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta radiada (c. radiata), quando as corollulas do rayo saõ ligulosas, e as do disco tubulosas (o gyrasol e bonina). Esta sorte de corolla he irregular, ou difforme; o termo de difforme [Página 143] contudo da-se taõbem ás corollas compostas tubulosas da centaurea, por terem no rayo flosculos com corollulas de forma differente.
Corolla universal radiada (un. radiata), quando as petalas externas dos floculos do rayo da umbrella universal differem das internas, e das mais dos flosculos do disco, sendo mais alongadas (o coentro, e canabraz). Estas corollas saõ taõbem chamadas difformes (difformes).
Corolla composta uniforme (c. uniformis), os seus flosculos tem todos corollulas da mesma forma, e proporçaõ, sendo ou todas tubulosas, ou todas ligulosas (a macella gallega, e a alface).
Corolla universal uniforme (un. uniformis), todos os seus flosculos tanto do disco como do rayo tem petalas da mesma forma e proporçaõ (a salsa, e funcho).
7º Quanto à duraçaõ a corolla diz-se ser:
Murchosa (marcescens), quando se murcha, engilha, e fica depois da florecencia, durante algum tempo, apegada ao fructo (as campanulas, orchideas, e algumas cucurbitaceas.)
Caduca (cuduca), se cahe pouco tempo depois da flor ter desabotoado, ou antes dos estames cahirem e da fecundaçaõ estar completa (videira, actaea, thalictrum).
Decadente (decidua), se cahe juntamente com os organos sexuaes, ou logo depois da fecundaçaõ (a papoila, tulipa, e a maior parte das flores).
Persistente (persistens), se dura e acompanha o fructo athe à sua madureza (o golfam, e helleborus).
[Página 144]8º. Quanto à cor.
A cor das corollas he ordinariamente desprezada pelos Botanicos modernos Nota
O Lord Bute no seu tractado dos generos das plantas da Gr.
Bretanha, que hà pouco publicou, pertende que as flores saõ menos
sujeitas a variar do que Linneo pensava, e que na realidade ha
muitas que jamais variaõ, principalmente às brancas e amarellas de
certas especies. Com effeito alguns Botanicos sexualistas servem-se
destas duas cores para distribuirem as especies dos generos de
anthemis e achillea; e Linneo mesmo naõ põde evitar de empregar as
cores nos destinctivos especificos de algumas cryptogamicas, como
nos agaricos, lichens, &c.
N. B. As flores participaõ de hum grande numero de denominaçoẽs proprias
das corollas, sendo, ordinario achalas decriptas nos autores com os
nomes de flores Nota
As flores radiadas, ligulosas, e tubulosas saõ as
que tem a corolla composta radiada, ligulosa, tubulosa.Nota
Os nossos floristas daõ o nome de flores borboletas a algumas
especies de ranunculus, mas segundo os Botanicos este nome so
compete as que tem huma corolla papilionacea, como a fava, ervilha,
&c.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Pistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
O calyz e corolla de que tractei nos dois capitulos precedentes saõ meramente tegumentos, e ornato dosorganos essensiaes às flores, isto he, dos estames e pistillo. Os modernos persuadidos por experiencias repetidas de que estes delicados organos eraõ destinados aos amores das plantas consideraraõ huns como genitaes masculinos, e outros como femininos. Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido. Na situaçaõ mais natural os estames estaõ postos entre a corolla e o pistillo, como se observa bem claramente numa açucena. A sua origem he supposta em geral ser a mesma que a [Página 147] da corolla. Podem ser considerados ou como completos ou como incompletos; no maior numero de flores saõ completos, isto he, constaõ de duas partes differentes huma superior e outra inferior, a superior he chamada anthera e a inferior filête. O filete he ordinariamente semelhante a hum delgado fio, e serve de esteio à anthera, que he quasi sempre mais grossa do que elle. A anthera acha-se de ordinario na ponta do filete, às vezes contudo succede ser rente, (sessilis), e o filete nullo; nesta circumstancia o estame he incompleto, como se vè na aristolochia. Commumente os estames saõ ferteis (fertilia); mas nalgumas flores, os filetes naõ sostem anthera alguma, ou somente tem huma anthera enfezada, mal apparente, e que naõ medra; nesta circumstancia os estamẽs saõ denominados estereis ou castrados (sterilia, s. castrata), e saõ taõbem incompletos: semelhantes estames rarissimamente saõ contados pesos systematicos sexualistas na classificaçaõ das plantas, em que se observaõ.
Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
O pistillo (pistillum), he huma viscera na qual se acha o principio do novo fructo, e os organos destinados a receber a substancia que o deve fecundar. Os sexualistas suppoem nesta viscera os organos genitaes femininos, e a consideraõ composta de tres partes, a saber, de germe, estylete, e estigma, os quaes se podem ver bem claramente numa açucena. O germe (germen), he a parte inferior do pistillo ou o fructo recêm nascido antes de ser fecundado; contem o principio das sementes e os organos proprios para receber a sua fecundaçaõ e nutriçaõ; e na sua posiçaõ mais natural està situado no centro da flor, com à base apegada ao receptaculo da fructificaçaõ. O estylete (stylus), he a parte do pistillo que medea entre o estigma e o germe. O estigma (stigma), he a parte superior e extrema do pistillo. Os sexualistas reconhecendo huma grande analogia entre estas partes, e às dos animaes, compararaõ o estigma à tuba de Fallopio e vulva, o estylete a vagina, e o germe ao ovario; assegurando segundo as suas observaçoẽs que o estigma se acha sempre [Página 156] humido ou rociado em razaõ de huma lympha genital que nelle se separa.
O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Filiforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Concavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
[Página 163]O fructo (fructus), consiste em huma ou mais sementes fecundadas, e nutridas sobre o seu proprio receptaculo athe ao estado de plena madureza, quer sejaõ cobertas quer descobertas. Quando consta de sementes cobertas o fructo, e o vegetal que o dà saõ denominados angiospermos (angiospermi), e gymnospermos (gymnospermi) se as sementes saõ descobertas. No primeiro cazo o fructo tem alem das sementes hum pericarpo, e no segundo as sementes saõ nuas, e o pericarpo he nullo (pericarpium nallum). Mas definir o que he rigorosamente hum pericarpo, assignar regras para o reconhecer, e para o distinguir sempre dos tegumentos proprios das sementes, dizer quando elle he nullo, ou quando as sementes saõ nuas, naõ he taõ facil como ordinariamente o daõ a entender as obras elementares de Botanica. Todas estas circumstancias requerem hum grande numero de novas obserraçoẽs e talvez muitos seculos se passaraõ ainda sem que se conheca huma sabia theoria pela qual se reduzaõ todos os fructos a hum certo numero de classes bem caracterizadas, e com denominaçoẽs adequadas; tanto he difficil de reconhecer as leys da marcha variada, que a natureza segue por entre o immenso labyrintho dos entes!
Os antigos Gregos e Romanos, e depois delles as naçoẽs modernas deraõ ordinariamente aos fructos [Página 164] nomes differentes, ou o nome da planta que os produzia, sem cuidar de os reduzir a limites certos nem a generalidades, taes saõ por ex. os de azeitona, maçaan, pera, ameixa, marmello, pecego, amora, pepino, melaõ, milho, cevada, trigo, &c. &c. Este modo de nomear os fructos naõ podia agradar aos Botanicos pela razaõ de naõ ser definido nem generalizado, o por conseguinte improprio para poderem delle tirar notas fundamentaes de caracteres genericos; elles cuidaraõ pois de os reduzir a hum certo numero de nomes geraes, dividindo os primeiramente do modo que acima disse em fructos gymnospermos, e angiospermos, e subdividindo depois estes ultimos em hum pequeno numero de especies. Estas divisoẽs, e subdivisoẽs estaõ contudo ainda bem longe da perfeiçaõ que exige huma generalidade conforme à natureza dos fructos; ellas foraõ reformadas por Linneo, e na verdade de todas as theorias que temos a respeito dos fructos a deste sabio he a mais adequada às leys systematicas; como he hoje a mais geralmente seguida, cuidarei quanto me for possivel de me conformar com ella, e começarei pelos fructos angiospermos, ou que consistem em sementes cobertas.
O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Ha capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
Vagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
O numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
O receptaculo Nota
Al. Thalamus, s. placenta.
Diz-se receptaculo da fructificaçaõ (receptaculum fructificationis), quando o
germe e os tegumentos da flor estaõ apegados a elle, como na açucena, cravo,
&c. Receptaculo da flor (recept. floris), quando as partes da flor estaõ
apegadas a elle, e naõ o germe, ou quando ellas estaõ sobrepostas ao germe,
como na abobara, melaõ, murta, hippuris, &c. Receptaculo do fructo
(recept. fructûs), quando tem apegada a si a base do germe Nota
O
receptaculo neste cazo he a extremidade do pedunculo adunada à base
do germe ou do fructo.
Receptaculo proprio ou parcial (proprium, s. partiale), he o lugar, a que
estaõ apegadas somente as partes de hum flosculo relativo, a hum
receptaculo commum, como na saudade Nota
Segundo Linneo, o receptaculo parcial pode ser relativo naõ so a
huma, mas a muitas fructificaçoẽs parciaes, que se achaõ no
mesmo receptaculo commum, como o dos flosculos da oedera,
sphaeranthus, gundelia, straebe, &c.
Receptaculo commum (commune), he o lugar, a que estaõ apegados muitos flosculos, e seus fructos approximados, como o do gyrasol, saudade, echinops, &c.
O receptaculo quanto á sua superficie diz-se ser: ponteado (punctatum), quando esta salpicado de pontos ou cavidades minimas, e he ao mesmo tempo nû (o dente de leaõ, e chrysanthemum); alveolar (alveolatum, s. favosum), quando consta de cellulas ou grandes cavidades hum tanto semelhantes às dos favos de mel, e nellas tem encravadas as sementes (onorpordum); felpudo (villosum), quando he guarnecido de felpa (o absinthio); peludo (pilosum), se tem pelos (a açafroa); sedeûdo (setosum), se he guarnecido de sedas (a bardana e centaurea); palheaceo (paleaceum), se he guarnecido de palhiços (palea), estes saõ humas pequenas laminas lineares, que se achaõ postas entre os flosculos (como na milfolha, almeiraõ, macella, &c.); nû (nudum), quando nelle senaõ achaõ vellos, pelos, sedas nem palhiços alguns (como no dente de leaõ).
Quanto à figura o receptaculo diz-se ser: plano (planum), na milfolha; convexo (convexum), se he quasi semigloboso, como na chamomilla; conico, [Página 205] (conicum) (na bonina, e macella). Elle se diz taõbem ainda ser concavo, assovelado, &c. (concavum, subulatum, &c.)
A naturalidade ou estructura natural das flores (structura naturalis), he segundo Linneo a que se observa na maior parte dellas, e he opposta a estructura singularizada. As flores de huma estructura naturalissima tem o calyz, e corolla divididos em igual numero de lacinias (ordinariamente cinco); o seu calyz he menos aberto, exterior, menor do que a corolla, e involve o receptaculo, ao qual ella está innata; cada hum dos seus filetes he guarnecido na ponta de huma anthera, postos entre a corolla e o pistillo, levantados, e iguaes no comprimento ao pistillo, quando os tegumentos da flor saõ levantados. O pistillo está posto no centro, o germe tem no topo, hum ou mais estyletes levantados, e terminados por estigmas. Cahidos os organos sexuaes, o germe torna-se em hum pericarpo sostido pelo calyz. O receptaculo he acompanhado do calyz, e inferior ou sottoposto ao germe.
A estructura singularizada (structura singularis), he a que se observa em
muito poucos generos de flores, como he por ex. a do pé de bezerro, a da
salva, adoxa, eriocaulon, magnolia, &c. Nota
Taõbem se podem chamar
singularizadas as umbrellas bolbigeras de alguns alhos, as espigas do
polygonum viviparum, &c.
O sexo das flores he estabelecido nos organos da fructificaçaõ chamados
estames e pistillo. As flores, ou flosculos relativamente ao seu sexo, saõ
susceptiveis de quatro destinçoẽs principaes, a saber, de hermaphroditas,
masculas, femininas, e neutras. As flores hermaphroditas (hermaphroditi),
a que alguns chamaõ taõbem bissexuaes Nota
Por terem os dois sexos
dentro da corolla ou calyz, e saõ oppostas ás unisexuaes (ou
relativas) que dentro delles tem organos somente masculos, ou
somente femininos.Nota
Segundo os sexualistas o Autor da natureza
fez a maior parte das flores hermaphroditas por naõ poderem mudar de
lugar, e ir buscar o seu consorte; e se nas dioicas estaõ os sexos
separados, distaõ contudo muito pouco espaço.Nota
O Lord
Bute no seu excellente tractado dos Generos das plantas da Gr.
Bretanha, que imprimio para divertimento das Fidalgas de Inglaterra,
tractou de evitar como delicado cortezaõ os termos de
hermaphroditas, masculas e femininas, e em lugar delles substituio
os nomes de completadas, estaminosas e pistillosas.Nota
Em razaõ de terem este
principio de germe saõ chamados por Linneo flosculos femininos,
assim como o mesmo botanico deo o nome de mascula hermaphrodita á
huma flor hermaphrodita cujo pistillo he abortivo, e o de feminina,
hermaphrodita á for hermaphrodita, cujos estames abortaõ.
Alem das quatro denominaçoẽs mencionadas, Linneo deo ainda ás flores os
nomes das classes do seu systema sexual, e lhes chamou monandras,
diandras, triandras, tetrandras, pentandras, hexandras heptandras,
octandras, enneandras, decandras, dodecandras, icosandras, polyandras,
didynamicas, tetradynamicas, monadelphas, diadelphas, polyadelphas,
syngenésicas ou compostas, gynandras, monoicas ou androgynas, dioicas,
polygamas, e cryptogamicas Nota
Flores mon- di- tri- tetr- pent- hex-
hept- oct- enne- dec- dodec- icos- polyandii; di- tetradynamici;
mon-di- polyadelphi; syngenesii; gynandri; monoici, s. androgyni;
dioici; polygami, e cryptogamici. Taõbem ha flores endecandras
(endecandri) ou de onze estames, como as da brownea; todas estas
denominaçoẽs, como as da nota seguinte, saõ dadas naõ so as flores,
mas taõbem aos vegetaes que as produzem.Nota
Mono- di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- deca- dodeca-
polygyni.
Assim como entre os animaes nascem alguns com huma estructura differente em parte da ordinaria da sua especie, e que por isso lhes daõ o nome de monstros, do mesmo modo entre os vegetaes se encontraõ muitas vezes individuos, os quaes ainda que conservem parte da estructura, e habito externo da sua especie, se desviaõ contudo della em parte, principalmente na flor; e em razaõ disto os Botanicos lhes daõ igualmente o nome de monstros (monstra, seu plantae monstrosae).
Todas as flores viçadas e mutiladas (flores luxuriantes, et mutilati) saõ monstros. Nas primeiras os tegumentos dos organos sexuaes saõ de tal modo multiplicados, que as partes essensiaes da fructificaçaõ ficaõ mais ou menos destruidas; esta producçaõ por mais agradavel que pareça aos floristas, jardineiros, e a quaesquer pessoas em geral, he contudo considerada pelos botanicos como opposta a ordem natural, e como huma verdadeira degradaçaõ causada pela [Página 209] pela redundancia dos succos nutritivos. Nas mutiladas pelo contrario a falta de calor sufficiente e as doenças fazem faltar as partes, que alias costumaõ ter naturalmente sem que porisso outras augmentem.
Nas flores engrandecidas (flores grandificati, s. injuriantes) aindaque a corolla naõ degenera quanto ao numero das petalas ou lacinias, e postoque naõ falta, contudo como em razaõ dos succos abundantes vem a ser maior do que naturalmente devera ser, como se observa na galeopsis, prunella, Etc. semelhantes flores devem porisso ser contadas no numero das viçadas modicamente. No mesmo numero se devem taõbem contar as que tem hum calyz còrado fora do costume natural, como succede às vezes no quejadilho.
As flores, a que chamaõ verdadeiramente viçadas, saõ de tres sortes, a
saber, semidobradas, dobradas, e proliferas Nota
Os floristas dividem as flores somente em singellas e dobradas
desta ou daquella cor, e naõ ha para elles mais dvisoẽs em
Botanica.
A flor semidobrada (flos multiplicatus, s. semiplenus) he aquella, cuja
corolla tem mais ordens de petalas ou maior numero de lacinias do que
costuma ter naturalmente, conserva o pistillo e alguns estames, e dá algumas
sementes fecundas. O perianthio e involucro rarissimamente degeneraõ de
modo que cheguem a constituir huma flor semidobrada, e ainda que o calyz
contra o natural costume possa mudar de cor Nota
Nesta circumstancia o calyz pode fazer parecer a corolla
semidobrada, e porisso deve haver grande cuidado de o naõ
confundir com ella, nem por conseguinte dar erradamente à flor o
nome de emidobrada. Nota
Naõ deixaõ contudo de haver exemplos de calyces consideravelmente
viçados: as escamas do calyz dos cravos augmentaõ as vezes de
tal modo, que formaõ huma espiga de figura particular; na
festuca ovina, e algumas gramas das montanhas alpinas o casulo
das flores degenera em folhas ; na plantago maior a espiga degenera as vezes
em folhas floraes de tal
sorte que as flores ficaõ inteiramente suffocadas, o que succede
taõbem ás escamas do amentilho nalgumas especies de salgueiro,
quando os insectos estragaõ os organos sexuaes. Nota
Donde alguns lhe daõ o nome de flos duplicatus, triplicatus,
quadruplicatus, mas he melhor denominalas flores serie duplici,
triplici, quadruplici, multiplici, s. multiplicatâ. Nota
O viço das flores semidobradas he denominado semidobrêz, ou
multiplicaçaõ (multiplicatio, s. semimpletio); este viço pode ser
propagado por sementes, quando o terreno he cultivado ou
incompetente.
A flor dobrada (flos plenus) propriamente tal he aquella, cuja corolla dobra
de tal modo, que todos os estames ficaõ convertidos em petalas ou lacinias. O pistillo nestas flores ordinariamente ou he transformado assim como
os estames, ou apertado e suffocado de modo que fica esteril Nota
Quando o pistillo e os estames saõ transformados em petalas, a
flor he denominada eunucha (flos ennuchus); se o viço poupou o
pistillo, e hum ou dois estames, e se isso naõ obstante o fructo
fica inteiramente esteril, a flor deve ser contada no numero das
dobradas, e naõ das semidobradas.
A dobrêz (impletio), tem ordinariamente lugar nas flores petaleadas, como v. g. nas da maceira, pereira, pessegueiro, cerejeira, gingeira, amendoeira, romeira, murta, roseira, morangueiro, rainunculo, anemone, papoila, dormideira, craveiro, açucena peonia ou roza albardeira, tulipa, narcizo, jonquilho, violetta, chagas, goiveiro, malva, alcea ou malva da China, hesperis matronalis, hibiscus, caltha, anemone hepatica, aquilegia, nigella, agrostema coronaria, silene, lychnis, fritillaria, &c. Naõ deixaõ [Página 212] contudo de haver alguns exemplos de flores monopetalas sojeitas a dobrar como saõ por ex. as do jacintho, açafraõ, colchico, quejadilho, tuberosa, datura, &c.
As monopetalas dobraõ por meyo do augmento das lacinias, e as petaleadas pelo
augmento do numero das petalas, o qual se faz naõ so à custa dos organos
sexuaes mas ainda por meyo da transformaçaõ dos nectarios, como se vè nas
esporas, nigella, e aquilegia; a dobrez contudo desta ultima segundo se tem
observado pode ser de tres modos; 1º pela transformaçaõ total dos nectarios
em petalas; 2º pela transformaçaõ total das petalas em nectarios; 3º pela
dobrez dos nectarios, conservadas contudo as cinco petalas, e neste cazo os
espaços entre ellas ficaõ occupados cada hum por tres nectarios encravados
huns nos outros. No narcizo as vezes só os nectarios dobraõ, outras vezes
tanto dobraõ as petalas, como os nectarios. A saboeira de Inglaterra
(saponaria officinalis hybrida), os novelos ou rosa de Gueldres (viburnum
opulus globosum, s. roseum), e a peloria (antirrhinum linaria peloria),
subministraõ tres exemplos extraordinarios de dobrez. A primeira he huma
variedade da saboeira ordinaria com a corolla de cinco petalas
transformada em monopetala semelhante á da genciana Nota
Gerardo foy o primeiro que descobrio esta flor, Mortono contudo
assegura que ella ja senaõ acha em Inglaterra no lugar onde
Gerardo a encontrou; dizem que hoje so se da em alguns jardins
que naõ da sementes fecundas, e que so se conserva por meyo de
raizes. Nota
O Dr Gmelin observou contudo algumas cymeiras, em que os
flosculos do rayo naõ eraõ neutros, mas tinhaõ estames, e os
denominou por conseguinte masculos. Nota
Wiggers diz ter observado sementes fecundas nesta planta, e senaõ
houve engano, este facto favorece o parecer dos que pensaõ que
ella deve constituir hum genero á parte. Ha algumas flores femininas que muitas vezes naõ daõ sementes
fecundas, em razaõ de lhes faltar o individuo macho perto
dellas, como se observa nas palmeiras, figueiras, &c.;
semelhantes flores naõ devem porisso ser tidas por viçadas,
porque a sua esterilidade naõ provem de huma structura
viçada.
A semidobrez e a dobrez das flores pode ter lugar tanto nas que saõ simplez, como nas compostas. Huma flor simplez petaleada em estado de viço pode facilmente destinguir-se de huma polypetala natural pelo modo que ja expuz; ella se poderà taõbem destinguir de huma flor composta natural pela razaõ de ter somente o pistillo no centro ou naõ ter pistillo algum, como o rainunculo dobrado; nas flores compostas naturaes, como por ex. nas da alface e chicoria, cada flosculo tem o seu pistillo e estames.
As flores compostas, como ja expliquei fallando da corolla, ou saõ inteiramente ligulosas, ou inteiramente tubulosas, ou radiadas. Nas flores radiadas a dobrez pode ter lugar, 1º em razaõ dos flosculos tubulosos do disco tomarem a forma dos flosculos do rayo, como se ve nalgumas especies de gyrasol, cravo de defuncto, calendula, chrysanthemum, anthemis, matricaria, achillea ptarmica, centaurea cyanus, &c.; 2º quando conservados os flosculos do rayo, os do disco se alargaõ e alongaõ demasiadamente, e tem menos lacinias ou denticulos no seu orificio como se tem visto na serratula arvensis; 3º quando as coróllulas ligulosas do rayo se mudaõ em tubulosas, como se tem observado na bonina, matricaria, e cravo de defuncto. Nas flores compostas inteiramente tubulosas, como por ex. a macella gallega, he rarissimo haver dobrez, e quando existe, he semelhante á do 2º modo com que dobraõ as radiadas. Nas flores inteiramente ligulosas a dobrez so se conhece, e se distingue do estado natural pela razaõ de que os estigmas se alongaõ muito, os germes [Página 215] augmentaõ, saõ mais compridos do que o calyz e divergem, como se tem observado na escorcioneira, lapsana communis, e tragopogon pratense.
Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos. Tem se observado que se huma flor composta natural, como a bonina, cravo de defuncto, matricaria e chrysanthemum, tem no rayo flosculos com pistillos, os flosculos transformados do disco os conservaõ igualmente; mas se os do rayo naõ tem pistillos naõ os tem taõbem os flosculos viçados do disco, como acontece na dobrez do gyrasol, centaurea, e calendula.
Ha muitas familias de plantas que daõ constantemente flores sem dobrez
nem viço algum notavel, taes saõ por ex. as das ordens naturaes, a que
Linneo chama Inundadas e Holeraceas Nota
Inundatae, Holeraceae. Vej.
Lin. Meth. Nat. Fragm. Ord. 48. e 53.Nota
Verticillatae. Ibid. ord. nat. 58.Nota
Personatae. Ib. ord. nat. 59.
Deve-se contudo exceptuar a Linaria, na supposiçaõ de que a peloria
he huma variedade viçada desta planta.Nota
Asperifoliæ. Ib. ord. n. 43.Nota
Stellatæ. Ib. ord. n. 44.Nota
Umbellatae.
Ib. ord. nat. 22. Deve-se contudo exceptuar o viço das umbrellas
proliferas.Nota
Papilionacea. Ib. ord nat. 55.
A flor prolifera (flos prolifer), he a que lança de si outra flor ou
pequenas folhas ; ordinariamente
he dobrada; no primeiro cazo he denominada flor prolifera de flores
(prolifer floriferus), e no segundo flor prolifera de foliolos (prolifer
foliiferus). A prolificaçaõ de flores he de dois modos, ou
originaria do centro ou dos lados; na do centro o pistillo brota de si outra
flor para cima posta sobre hum pedunculo, e tem lugar algumas vezes nas
flores simplez, como nos cravos, ranunculus tuberosus, anemone hortensis,
geum urbanam, rosa gallica, &c; na dos lados, o calyz commum brota de si
muitas outras flores pedunculadas, e tem lugar nas flores compostas e
aggregadas, como na bonina, calendula officinalis, saudade, e no hieracium
falcatum proliferum de Gaspar Bauhino. As flores proliferas de foliolos
saõ raras, observaõ-se contudo algumas vezes nas rozeiras e anemones Nota
Na scrophularia aquatica algumas vezes os organos sexuaes saõ
transformados em fasciculos de foliolos e o mesmo se tem visto no
dipsacus sylvestris, &c. Ha fructos que taõbem saõ proliferos de
foliolos, como as peras, uvas, &c; elles ficaõ nesta
circumstancia sem sementes, por causa destas se terem convertido em
foliolos.
A prolificaçaõ (prolificatio) naõ so tem lugar nas flores, mas ainda nas umbrellas simplez e cymeiras, em razaõ destas brotarem de si outras contra o seu costume natural, do que temos exemplos no cornus suecica, selinum palustre, &c.
A flor mutilada (flos mutilatus), segundo Linneo Nota
Alguns estendem
a accepçaõ deste termo às flores, a que faltaõ quaesquer partes
que costumaõ ter naturalmente, sem porisso augmentarem em
outras; com effeito algumas vezes o numero dos estames e dos
estyletes diminue, e se tem visto flores aggregadas passarem a
ser simplez, quando o terreno he exsucco, e magro.
A Patria ou habitaçaõ das plantas (locus natalis, s. plantarum habitatio), he o lugar em que ellas costumaõ nascer sem soccorro algum de cultura, e he considerada pelos Botanicos debaxo das relaçoẽs de paiz, clima, sitio e terreno.
Pelo termo de paiz (regio) entendem imperios, reynos, provincias, e quaesquer destrictos proprios a certas especies de plantas.
Por clima (clima) os Botanicos entendem três sorte de dimensoẽs terrestres, a saber, latitude, longitude, e altura do lugar. A latitude he a distancia que vay desde o equador athe o polo artico ou antarctico, e comprehende noventa graos tanto da banda do norte como do Sul, o que faz a quarta parte do ambito da terra; e longitude he o ambito da terra, ou espaço de 360 graos, começando do meridiano da Ilha de Ferro athe ao mesmo ponto do dicto meridiano; a altura he a medida perpendicular que medea entre a superficie do mar e o cume de [Página 219] huma elevada montanha; ella se costuma calcular ordinariamente com o soccorro de hum barometro. A altura falha muito menos, do que a latitude e longitude, relativamente a reconhecer a semelhança das plantas, porquanto he bem notorio que muitos lugares que se achaõ na mesma latitude ou longitude daõ plantas inteiramente differentes, ao mesmo tempo que as das montanhas da Suissa, Lapponia, Brasil, Siberia, Pyreneos, Olympo, &c. saõ ordinariamente semelhantes.
Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.
1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs. Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .
2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.
3º. Austral (Australe), comprehende o espaço que vay desde a Ethyopia athe ao Cabo da Boa Esperança, e igualmente o reyno do Peru e grande parte do Brasil, aonde o calor he menos fervido do que no clima Indico. Como o estio deste clima tem lugar exactamente no tempo que corresponde ao nosso inverno, daqui procede que os vegetaes transplantados deste clima florecem na Europa ordinariamente perto do solsticio do inverno.
4º. Europeo meridional (Europaeum meridionale), comprehende Portugal, Hespanha, a França meridional, Italia, Hongria athe á Morêa, e o Archipe-lago. Alguns o dividem em clima do continente e insular, incluindo neste segundo as ilha Europeas do Mediterrano, nas quaes o calor he maior do que o da terra firme; outros ajuntaõ os climas da Syria, Media e Armenia, por acharem nelles as mesmas plantas que se daõ no clima meridional da Europa.
5º. Europeo septentrinal (Europaeum septentrionale), comprehende a Lapponia, Suecia, Dinamarca, Prussia, Allemanha, Suissa, Hollanda, Flandres, Inglaterra, e parte do norte da França.
6º Oriental (Orientale) comprehende o grande Continente da Asia septentrional, a Siberia e Tartaria desde os confins da Syria e Persia athe aos da China; as plantas deste clima florecem ordinariamente logo que a atmosphera começa a aquecer, como entre nos florecem as da primavera.
[Página 221]7º. Occidental (Occidentale) comprehende a America septentrional athe a Carolina, e igualmente o Iapaõ; as plantas deste clima florecem ordinariamente no outono.
8º. Alpino (Alpinum), he proprio das montanhas alpinas, que saõ as mais elevadas que ha no globo terrestre, cobertas de neve em varios lugares, aonde naõ ha primavera nem outono, mas sim hum longo inverno, e curto estio de dois mezes ou menos, como saõ os Alpes da Suissa, as Cordilheiras da America meridional, &c. As plantas deste clima nascem, florecem e fructificaõ dentro de pouco tempo.
O sitio (situs) he o lugar aonde costuma naturalmente nascer e nutrir-se qualquer planta, e he ou terrestre ou aquoso ou parasitico. As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.
1º Sitios aquosos.
O mar, ou agoa marina (mare, s. aqua marina) he hum fluido aquoso naturalmente impregnado de sal commum; as plantas que se dão n'agoa do mar ordinariamente saõ destituidas de raizes, nutrem-se pelas suas porosidades, e naõ supportaõ jamais frios rigorosos nem os gelos do inverno (como o fucus, e ulva); daõ-lhes o nome de plantas marinhas (pl. marinae).
[Página 222]As prayas, e costas maritimas (littora, littorale solum, loca maritima), saõ lugares immediatamente proximos ao mar, cobertos pelas marés, açoitados das ondas e dos ventos, mais ou menos arenosos e salgados. As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c. Estas plantas saõ por alguns botanicos denominadas maritimas (maritimae).
As fontes (fontes), saõ mananciaes de agoa doce Ha fontes de
agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas
que saõ de natureza semelhante á das
maritimas.Nota
Os rios (fluvii), saõ largas e prolongadas correntes de agoa doce e fresca; a terra banhada d'agoa dos rios (solum fluviale) dá taõbem algumas plantas particulares, como v. g. o potamogeton, ranunculus aquaticos, &c.
As ribeiras, margens dos rios e das lagoas (ripae), saõ lugares cobertos de agoa na estaçaõ do inverno, & descobertos no tempo do estio; nellas costumaõ dar-se a salicaria, o lycopus europaeus, a lysimachia vulgaris, &c.
Pégos, lagos limpos (lacus, lacustre solum), saõ lugares que contem agoa pura, e profunda; o seu fundo naõ he lodoso, mas tem huma certa firmeza ou solidez; daõ-se nelles a nymphaea, subularia, isoetes, &c.
[Página 223] Lagoas profundas, paûes, albofeiras Nota
Nos damos o nome de albofeiras (paludes maritimae), ás grandes
lagoas que saõ vizinhas do mar, e contem agoa salgada e doce
misturadas: em alguns lugares costumaõ abrir estas lagoas a fim
de desalagar os campos, e os aproveitar em pastos e searas.
Tanques, charcos, fossos (stagna, paludes, palustre solum), saõ pequenas lagoas baxas, limosas, lodosas, que se seccaõ inteiramente no estio; daõ-se nelles a tabûa, lirios, junças, &c.
Alagadiços (inuadata loca), saõ terrenos alagados pelas chuvas do inverno, & que se seccaõ no veraõ; daõ-se nelles o arroz, canna de assucar, tamargueira, &c.
Pantanos, bréjos, tremedaes (loca uliginosa), saõ terrenos balofos, ensopados d'agoa pôdre, que naõ daõ feno, nem saõ proprios para searas; daõ-se nelles a ulmaria, quejadilho, valeriana dioica, &c.
2º Sitios terrestres.
Montes, oiteiros (montes, colles, solum montanum, s. collinum), saõ lugares elevados, na parte superior lavados dos ventos, sabulosos, e seccos; daõ-se nelles a carlina, arnica, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.
Rochas, penhas (rupes, rupestre solum), saõ lugares alcantilados, pedregosos, e aridissimos; daõ-se nelles a cymbalaria, aloe, mesembryanthemum, sedum, &c.
Campos, campinas (campi, campestre solum), saõ lugares incultos descobertos, seccos, e hum tanto asperos; daõ-se nelles a bisnaga, bonina, e muitas outras plantas ordinariamente herbaceas.
Prados (prata, pratense solum), saõ terras baxas incultas, valles humidos cobertos de plantas herbaceas viçosas, e serrados para que nelles naõ entre o gado no estio; daõ-se nelles o ranunculus acris, o lotus corniculatus, scabiosa succisa, escorcioneiras, trevos, e outras muitas plantas, que constituem o copioso feno que nos paizes do norte da Europa cortaõ no estio, seccaõ, e recolhem para sustentar os gados no inverno.
Pastos (pascua), saõ campina abertas com plantas destinadas a nutrir os gados, hum tanto sabulosas, e menos ferteis do que os prados; daõ-se nelles a prunella, euphrasia, &c.
Searas (agri, segetes, agreste solum), saõ terras lavradas em que se semeão legumes e sementes, de que se costuma fazer paõ; daõ-se nellas as esporas, joyo, verdeselha, hervinha, &c.
Alqueives (arva, arvense solum), saõ terras lavradias, que se deixaõ descançar algum tempo; nas terras alqueivadas costumaõ dar-se o raphanus raphanistrum sinapis alba et arvensis, o murriaõ, algumas especies de macella, o abrolho, a agulha de pastor, &c.
[Página 225]Jardins, hortas (horti, culta, solum hortense), saõ terrenos muito estercados, cavados, regados, e cultivados todo o anno; daõ-se nelles as ortigas, murujem, amor de hortelaõ, &c.
Esterqueiras (fimeta), saõ os lugares em que se accumulaõ os excrementos dos gados, misturados com alguns estragos de vegetaes; daõ-se nelles as ortigas, o estramonio, asperugo, &c.
Bordas dos caminhos (versurae), vallados e seves (aggeres, sepes) saõ considerados como lugares estercados, e o mesmo saõ as bordas das cazas, dos muros, ruas, praças e mercados (ruderata, ruderale solum), as plantas proprias destes lugares saõ por ex. a poa annua, erysimum officinale, lolium perenne, almeiraõ, tanchagem, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.
Brenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.
Matto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.
Queimadas (ambusta), saõ os lugares, cujo matto foy destruido com fogo, a fim de os fertilizar com as cinzas dos vegetaes queimados, e de os dispor para pastos, ou searas.
3º Sitios parasiticos.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.
Por terreno (terra, solum), os botanicos entendem a natureza do chaõ proprio a qualquer planta, e o destinguem ordinariamente em quatro sortes, a saber, arêa, argilla, greda, e terra vegetosa.
A area (arena), he hum composto de pequenos graõs seccos, duros, quarzozos, e desadunados; ella varia quanto a grandeza dos seus graõs, como se vê na area das empulhetas, na das escrivaninhas, na das prayas, e na area grossa a que chamamos saibro. Ordinariamente acha-se misturada com alguma das outras terras, e he neste estado misto de terreno que nasce e vegeta bem hum grande numero de plantas, como a canneira, pinheiros, urzes, digital, serpaõ, tojo, espargo, herva turca, &c.
[Página 227]A argilla (argilla), he huma terra unctuosa e de grande tenacidade quando humedicida, susceptivel de endurecer consideravelmente, e naõ faz effervecencia com os acidos; acha-se sempre misturada mais ou menos com outras terras, e lhe damos algumas vezes o nome de piçarra. Quando ella se acha misturada com huma boa porçaõ de cré, daõ-lhe o nome de marga (marga), e neste estado costuma servir para fertilizar as terras. Os terrenos argillosos saõ favoraveis á vegetaçaõ de hum grande numero de plantas, taes como os papoilas, verbascos, bolsa de pastor, &c.
A greda ou cré (creta), he huma terra arida, que se acha nos oiteiros seccos e pouco fecundos; quando he para faz effervescencia com os acidos; suppoem-se ter a mesma origem, que as pedras calcareas; acha-se ordinariamente misturada com outras terras, e neste estado he conveniente á vegetaçaõ da verbena, esferro cavallo ou ferradurina, da reseda, e muitos outros vegetaes.
A terra vegetosa (humus), acha-se por toda a superficie do globo terrestre em
mais ou menos quantidade, e deve a sua origem á descomposiçaõ dos vegetaes e
animaes. E sua cor varia em razaõ das terras, com que se acha misturada,
parece contudo que a mais pura he a que tem huma cor denigrida. He
summamente fertil Nota
Kylbel he de opiniaõ que o principal alimento dos vegetaes
consiste nas particulas finissimas, e subtis da terra
vegetosa. ( Dissert sobre a causa da fertilidade das
terras. )Nota
Se nos tempos primitivos do globo terrestre cada hum dos vegetaes
teve o seu clima, sitio, e terreno proprio, a natureza parece
ter-se eximido deste habito pouco a pouco, porquanto vemos hoje
plantas, que se daõ igualmente bem por toda a parte.
Do que tenho exposto athe aqui sobre a habitaçaõ natural dos vegetaes se
collige claramente, que differindo ella segundo os diversos climas, sitios,
e terrenos, toda a habitaçaõ artificial deve imitar as suas diversidade o
mais que for possível. A habitaçaõ artificial, de que fallo aqui, saõ todos
os jardins botanicos, em que ha hum grande numero de plantas exoticas, ou
aquaticas naturaes do paiz e de terrenos particulares, e que porisso mesmo
requerem os soccorros da arte para se poderem conservar. Estes soccorros
consistem principalmense em que cada
canteiro ou alegrette do jardim naõ conste so de huma casta de terra mas
de muitas differentes, de maneira que cada planta tenha a terra que lhe
he propria. As que saõ naturaes dos bosques, e requerem sombra devem ser guarnecidas
de huma sombrella Nota
He hum vazo de barro, huma grande choca de lata, ou hum cesto
cylindrico de vime, abertos de ilharga, que servem para fazer
sombra ou para abrigar a planta dos ventos. Nota
Saõ campanas de vidro, ou pequenas guaritas envidraçadas, com as
quaes se costumaõ nos jardins cobrir as plantas indigenas dos
paizes quentes a Asia, Africa, e America. Nota
Naõ faço aqui mençaõ de muitas outras circumstancias relativas
aos jardins botanicos por me parecem menos proprias do presente
tractado, e demais disso ellas saõ hoje bastantemente conhecidas
em Portugal, o sabio Naturalista que tem a inspecçaõ do Jardim
Real do Palacio da Ajuda, e do da Universidade de Coimbra naõ
nos deixou nada que dezejar nesta materia.
O Habito de huma planta parece naõ ser outra coiza, no rigor do termo, senaõ
a sua estructura considerada externa, e internamente durante o tempo da sua
vida; estructura, por meyo da qual ella differe de todos os individos de
diverso genero, diversa especie ou variedade, e se conforma pelo contrario
com todos os que pertencem ao mesmo genero, especie ou variedade, a que ella
he relativa. Esta estructura considerada exteriormente he a configuraçaõ, e
face externa das partes da planta presentadas aos nossos sentidos, sem
estrago anatomico, sem soluçaõ de continuidade, nem descomposiçaõ chymica:
considerada internamente he a sua organizaçaõ e constituiçaõ, em que se
comprehendem as partes organicas e constitutivas, escondida a nossos
sentidos pela continuidade de superficie, e sò patenteadas por meyo de
estragos anatomicos, roturas, e descomposiçoẽs chymicas. Estes dous modos de
considerar a estructura de hum vegetal indicaõ, que o seu habito devera por
conseguinte ser dividido em externo e interno, estabelecendo-se o primeiro
sobre [Página 231] tudo o que diz respeito à estructura externa, e o segundo no que respeita
somente á interna. Mas os Botanicos naõ costumaõ fazer estas differenças,
nem seguir este rigor, elles fazem so mençaõ do habito externo (habitus,
s. facies externa), e huns entendem por elle toda a configuraçaõ
exterior que hum vegetal prezenta á primeira vista, ou toda a razaõ de
semelhança e dessemelhança que elle tem com outros nas suas partes, sem
exceptuar as da fructificaçaõ, outros daõ o nome de habito externo
somente ás razoẽs de affinidade ou desconformidade, que os vegetaes tem
entre si em hum certo numero de partes, comprehendem promiscuamente no
habito externo algumas relaçoẽs, que rigorosamente so pertencem Nota
Como saõ a succulentia e sabores. Nota
Linneo fallando do habito dos vegetaes naõ fez mençaõ alguma da
fructificaçaõ, e nos exemplos que deo do caracter habitual se vê
claramente tela excluído do habito externo dos vegetaes. Vej. Phil. Bot- num. 168.
TODOS os vegetaes que hoje existem saõ originarios ou de bolbos, ou de
gomos, ou de sementes; huns foraõ continuados Nota
As plantas dizem-se continuadas por qualquer sorte de raizes e ou
pelos gomos, e propagadas pelas sementes; pelo que hum bacelo ou arvore enxertada naõ he
rigorosamente huma nova planta, mas sim huma planta continuada,
do mesmo modo os bolbos caulinos, e as folhas , que cahindo por terra nella
brotaõ, continuaõ a sua especie e naõ a propagaõ; porque as
plantas verdadeiramente novas ou propagadas saõ as que naceraõ
de sementes. Nota
As sementes taõbem saõ semeadas artificialmente pelos homens como
he notorio, ou casualmente pelos animaes quando ellas se
apegaraõ aos seus pelos, ou depois de terem sido engolidas, mas
neste segundo cazo nem sempre conservaõ o seu principio vital,
potencial e germinativo, porque o calor do ventriculo, e
intestinos lhes destroe o dicto principio. As toupeiras, minhocas, porcos, coelhos, e outros animaes que
mechem, fossaõ, e cavaõ a terra contribuem taõbem por
casualidade a cobrir hum grande numero de semente. Nota
Miller distribue as semente quanto á
sua duraçaõ em tres clas-ses; na 1º poem as que germinaõ no outono,
ou logo depois da sua madureza; na segunda as que germinaõ no anno
seguinte; e na 3º as que se podem semear no segundo anno, ou mais
tarde. A differente duraçaõ ou conservaçaõ da virtude germinativa
das sementes depende de muitas circunstancias, como por ex. da sua
natureza mais ou menos oleosa, farinhosa, e resinosa, da solidez ou
da debil contextura da sua casca, da profundidade em que estaõ na
terra sepultadas e protegidas contra o calor, frio, humidade, estado
de fermentaçaõ, de fricçaõ, vermes, &c. &c. Ha algumas que
apenas estaõ maduras germinaõ logo ainda mesmo dentro das suas
capsulas, como as da avicennia tomentosa; ha outras que pouco tempo
depois que cahem da planta materna perdem a virtude germinativa,
como o caffé, e ha outras em fim que a conservaõ muitos annos tanto
na terra como fora della. Norbergio observou que as sementes da
herva sancta germinaõ, depois de estarem oito annos debaxo da terra:
Munchausio assegura, que as do chrysanthemum segetum se conservaraõ
debaixo da terra vinte annos ferteis, segundo Olmi as da malva
crispa conservaraõ a sua fertilidade prolifica desasette annos.
Brockio attesta que as dos goiveiros encarnados germinaraõ, passados
dez annos, e deraõ flores dobradas. Du Hamel diz que as de huma
especie de mimosa se conservaraõ ferteis vinte annos: segundo
Triewal (Philos. Transact. vol. XLII) as do melaõ germinaraõ depois
de 42 annos; e segundo Home as do centeio guardadas 140 annos naõ
perderaõ a sua fertilidade. Nestas assersoẽs poderá haver
exaggeraçaõ, mas ellas indicaõ ao menos que a virtude germinativa
pode conservar-se muitos annos nas sementes; e por meyo dellas se
poderaõ explicar as maravilhosas reproducçoẽs de algumas plantas,
cuja raça se julgava de todo extincta. Entre as sementes que mais
tempo podem conservar a sua vis germinativa as de algumas
cryptogamicas tem o primeiro lugar, porque podem durante algus
seculos resistir aos frios, e aos mais intensos calores sem a menor
alteraçaõ.Nota
Alguns physiologistas dizem que as sementes, ainda fora da
terra, e desde o tempo que se separaraõ da planta materna athe ao
momento primario da fermentaçaõ, naõ deixaõ de ter vida, mas isto so
se pode conceder tomando o termo vida em hum sentido extenso por
potencia intrinseca germinativa.
A disposiçaõ e forma das cotylédones no estado da germinaçaõ he chamada
cotyledonismo (placentacio, s. cotyledonismus); mas antes de tractar
desta disposiçaõ em particular he precizo advertir, que as sementes
humas saõ chamadas acotyledones (acotyledones), quando parecem constar
somente de corculo, por naõ serem nellas as cotyledones bem sensiveis,
como saõ as dos musgos Nota
Em todas as sementes ha cotyledones , ainda
mesmo nos musgos, segundo Meese, e Hedwig; mas como nestas e
outras sementes semelhantes as cotyledones naõ saõ
bem apparentes, e ou se consomem na terra sem jamais se verem,
ou precizaõ de hum microscopio para se poderem destinguir no
periodo da germinaçaõ, continuar-lhes-hemos a dar o nome de
acotyledones, conforme o uso de muitos Botanicos. Nota
Eu uso aqui deste termo na accepçaõ que lhe dá
Linneo; porque segundo alguns Botanicos modernos as polycotyledones
saõ todas dicotyledones divididas em lacinias. Adanson diz que as
sementes do pinheiro saõ dicotyledones com duas cotyledones partidas
em lacinias profundas, e que as do pinus cedrus tem seis lacinias, e
as do pinus strobus seis athe dez.Nota
O
Dr. Jussieu, e alguns outros Botanicos applicaõ estes termos naõ so
ás sementes, mas taõbem as plantas que daõ semente acotyledones,
monocotyledones, e dicotyledones; pelo que o polytrichum he
acotyledone, a cebola monocotyledone, e o feijoeiro e pinus
dicotyledone. Segundo o dicto Botanico as classes primitivas
naturaes, devem ser fundadas no numero das cotyledones . Linneo contudo naõ parece ser desta opiniaõ, porquanto diz que no
mesmo genero natural podem haver especies com sementes, que
diffiraõ no numero das cotyledones , como saõ
por ex. as especies de cactus e pinus .
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes. No trigo, cevada, e todas as mais gramineas a cotyledone he furada pela [Página 236] plumula e radicula (perforata), e igualmente o tegumento, o qual vem por fim a ficar sem cotyledone, occo e exsucco; ella he unilateral nas palmeiras (unilateralis) e reductosa (reducta), na cebola.
Nas sementes dicotyledones no estado de germinaçaõ as duas cotyledones
contribuem para a preparaçaõ dos succos nutritivos da plumula e
radicula, e ordinariamente passaõ depois a ser folhas seminaes bastardas Nota
Segundo Linneo (Philos. Botan. n. 136), cotyledones et folia
seminalia sunt synonyma in plantis; eu ja expuz o que pensava a
este respeito, quando tractei das sementes; esta assersaõ
applicada ás cotyledones de todas as semente dicotyledones
parece ser sujeita a algumas excepçoẽs, ainda mesmo no cazo que
lhes queiramos dar o nome de folhas seminaes bastardas; porquanto ha algumas que
em lugar de tomarem a apparencia de folhas saõ caduças, ou se engilhaõ
dentro de pouco tempo, como se vê nas das ervilhas, e nas de
algumas especies de feijaõ.
O principio de vida, por meyo do qual se conservaõ perennemente as especies
vegetaes, reside na sementes, nos gomos, e bolbos. Alguns physicos pensaõ
que estes tres meyos de que se serve a natureza para perpetuar a vida
dos vegetaes saõ essensialmente a mesma coiza, e lhes daõ o nome de
gomos seminaes, radicaes, e caulinos: elles observaõ que em alguns
alhos, e ainda em algumas plantas Cryptogamicas a a natureza no lugar
onde costuma produzir flores, dá bolbos ou gomos os quaes reproduzem as
especies taõ perfeitamente como as sementes, que nas axillas das folhas ou ramos, lugar proprio dos
gomos, se vem algumas vezes bolbos decadentes, os quaes cahindo [Página 238] na terra reproduzem a sua especie, como os bolbos radicaes
ordinarios; que a estructura dos bolbos radicaes he summamente analoga à
dos gomos caulinos; que os gomos radicaes das plantas vivaces, e os
bolbos ordinarios saõ de huma natureza identica; que nalgumas sementes
como v. g. nas das nymphaea nelumbo se vem antes da germinaçaõ algumas folhas perfeitas assim como
se observaõ nos gomos, e que se ha gomos floraes, ha do mesmo modo
taõbem bolbos floraes, como v. g. saõ os da tulipa Nota
Este bolbo com effeito contem no seu centro huma flor bem visivel
sem soccorro algum de lente; todas as vezes que no outono ou
inverno dessequei com cautella os seus cascos externos e
internos, sempre nelle observei bem destinctamente as petalas, antheras e pistillo da flor. Alguns asseguraõ
taõbem ter observado o mesmo em muitos outros bolbos, e ainda mesmo
nas raizes da anemone hepatica, e d'algumas especies de
pedicularis.
Os gomos (gemmae) Nota
Nos taõbem damos aos gomos o nome de olhos (oculi)
novedios, grelos, botoẽs, e borbulhas, mas o termo de gomo he o mais
proprio, e o mais geral; o termo olhos he ordinariamente so
applicado a vide; novedios e grelos parece-me que se devéram
reservar para os gomos das plantas herbaceas; botam, somente se deve
applicar aos gomos floraes, e a qualquer flor antes de desabotoar:
borbulha so se diz dos gomos dos enxertos, e na phrase enxertar de
borbulha: o vulgo costuma dar aos bagos da laranja e limaõ o nome de
gomos, mas basta ter humas leves noçoẽs de Botanica para conhecer
que isto he huma impropriedade, e corrupçaõ de termo.
Os gomos da mesma sorte que os bolbos saõ hum verdadeiro abrigo contra os
rigores do inverno ao [Página 240] embryaõ que envolvem, e porisso Linneo lhes chamou com propriedade
invernadoiros (hybernacula) Nota
Hebenstreit diz contudo que as sementes taõbem saõ invernadoiros,
porque as cotyledones e tegumentos abrigaõ a plantula nelles
reclusa durante hum ou mais invernos.
Os gomos dizem-se terminaes (terminales), quando se achaõ situados nas pontas do tronco ou ramos: ordinariamente saõ solitarios, contudo na syringa vulgares achaõ-se dois a dois, e no aesculus pavia tres a tres.
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .
Oppostos (oppositae), quando se achaõ dois no tronco ou ramos, fronteiros hum ao outro, e saõ ou peciolares (petiolares), como no buxo, medronheiro, freixo, loireiro, sabugueiro, madresylva, &c. ou estipulares (stipulares), como no rhamnus catharticus, e cephalanthus.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.
Nullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.
Folheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus. Estes gomos saõ mais agudos do que os seguintes.
Floraes (florales, s. floriferae) quando somente contem flores, como os do damasqueiro, pessagueiro, [Página 242] amendoeira, &c. Estes gomos saõ hum tanto obtusos, e verdadeiros botoẽs, elles contem ou flores femininas como na aveleira e carpe, ou masculas como no pinheiro e abeto, ou emfim flores hermaphroditas como no ulmeiro, amendoeira, pessegueiro, &c. Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)
Ha muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares. Hum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse. Os arbustos plantados em vazos, ou caxas daõ todos os annos gomos floraes e fructos, mas se os tiramos fora dellas, e os plantamos numa terra pingue, e á larga, naõ daraõ durante muito tempo senaõ gomos folheres; se os tornamos a metter em caxas ou vazos recomeçaraõ a dar, como dantes, gomos floraes e fructos. Hum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia. Sobre esta observaçaõ fundaraõ os antigos a cultura das videiras, podando-as e empando-as, porque por meyo da poda a empa se diminue a [Página 243] seiva, e se modera o seu movimento nimiamente accelerado, que aliás nutriria a planta em demasia, e lhe faria viçar todos ou quasi todos os seus gomos floraes, tornando-os em folheares.
A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Revolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Imbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Frondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
A petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
O tempo de vela das folhas (foliorum vigiliae), segundo os botanicos, he o espaço, diurno em que
ellas tem as suas folhas abertas, e o de sono pelo contrario he ordinariamente todo o espaço da
noyte. Este estado de sono das folhas (somnus foliorum), consiste em hum collapso ou mudança de posiçaõ, que [Página 247] ellas costumaõ ter durante o tempo de vela. Hum grande numero de plantas he susceptivel desta mudança nas suas folhas Nota
E igualmente nas suas flores, como ja disse; eu naõ fiz mençaõ
das differentes posiçoẽs, que constitue o sono das flores,
porque facilmente se podem entender pelas que exponho aqui
relativamente às folhas . Nota
A materia electrica da atmosphera em tempo de trovoadas basta
para fazer fechar as folhas e flores; isto he confirmado pelas
experiencias feitas na sensitiva, a qual sendo artificialmente
electrisada fecha as suas folhas do mesmo modo que no tempo de trovoada. Esta planta contudo, segundo se tem observado, abre ainda mesmo
numa perfeita obscuridade as sua folhas pela manhaan, e as fecha à
noyte.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.
1º As simplez saõ denominadas:
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).
Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)
Folhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)
Folhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)
2º. As compostas saõ denominadas:
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)
Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)
Folhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)
Folhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)
Folhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).
Folhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).
[Página 250]Por intorsaõ (intorsio, s. torsio) os Botanicos entendem as curvaturas, reviramentos, ou enroscamentos das partes dos vegetaes, e a denominaõ uniforme (conformis), se as dictas partes se curvaõ ou enrolaõ todas para a mesma banda, e difforme (difformis), se nem todas se curvaõ, ou quando se enrolaõ e curvaõ para differentes lados indeterminadamente.
Huma das principaes especies de intorsaõ he a volubilidade, ou enroscamento dos troncos e gavinhas, ora para a direita, ora para a esquerda, como ra expuz em seu lugar.
A intorsaõ pode ter taõbem lugar nas flores Nota
O torcimento das
corollas deve ser observado no estado da flor fechada, ou no periodo
em que a flor começa a desabotoar.
Pode taõbem haver intorsaõ nos pistillos, como se vê na silene, cucubalus, spiraea ulmaria, e helicteres.
As espigas das plantas asperifolias, taes como a [Página 251] cynoglossa, heliotropium, myosotis, echium, &c. tem todas huma intorsaõ espiral na sua extremidade, em forma de voluta.
As fibras da base das praganas da avena, e stipa, as da cauda das capsulas do geranium, e das valvulas da capsula da impatiens, &c costumaõ formar longitudinalmente hum intorsaõ espiral semelhante á de hum fio torcido.
Debaxo dos nomes de glandulaçaõ, e escabrosidade (glandulatio, scabrities) os Botanicos comprehendem as excrescencias destinadas as secreçoẽs dos vegetaes, e muitas producçoẽs que fazem a sua superficie aspera, escabrosa. Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.
As glandulas (glandulae), segundo toda a extensaõ do termo, saõ qualquer excrescencia
ou porosidade superficial, que serve a alguma secreçaõ; mas huma
accepçaõ restricta, as glandulas saõ pequenas excrescencias
ordinariamente globulares, que se achaõ na superficie das plantas, e saõ
destinadas a filtrar e preparar os succos proprios da especie, a que [Página 252] pertencem; algumas saõ guarnecida de pelos, outras naõ tem pelos
alguns; humas saõ assaz viziveis à vista simplez, outras precizaõ de
lente para bem se destinguirem. As que naõ precizaõ de lente saõ as mais proprias para notas
caracteristicas; daõ se nos peciolos das folhas como no martyrio, nas serraturas, ou
dente das folhas serreadas como
no salgueiro e amendoeira, nas antheras como na adenanthera, junto da bas dose estames como no goivo e couve, por toda a flor e
por todo o corpo da planta (menos na raiz ), como na
fraxinella Nota
Quanto à forma, e outras circumstancias relativas as
glandulas, Vej. o Cap. dos Gland da Prim. Parte deste
Comp.
Verrugas (verrucae), saõ glandulas grossas e hum tanto chatas ou
concavas, com as que se vem nos peciolos das folhas do noveleiro, e ricinus Nota
Taõbem se da o nome verrugas a certos tuberculos ou receptaculos de algumas especies de
lichen.
Callos (calli) saõ pequenas glandulas, pontos, ou globulos duros, contudo algumas vezes este termo he usado taõbem para significar a mesma coiza que cicatrizes ou fossulas superficiaes (pedicularis palustris, protea hirta, obliqua, &c.)
Pontos (puncta), saõ salpicos minimos glandulosos, taes como os que se vem nas flores da fraxinella. Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.
Graõs (granula, s. grana), saõ certas [Página 253] excrescencias globulosas, e callosas que se daõ nos tegumentos das flores da labaça, e outras especies de rumex.
Vesiculas (vesicula, papulae), saõ excrescencias cellulosas ou pequenas
bolhas coradas, e transparentes, que contem dentro em si alguns succos
proprios, como saõ as que se vem na superficie de huma laranja, e que
contem o seu oleo essensial Nota
Taõbem se da o nome de vesiculas as pequenas cellulas succulentas , de que consta qualquer bago de laranja
ou limaõ, e ás fructificaçoẽs gelatinosas do fucus.
Mamillos ou tuberculos (mamilli, s. tubercula), saõ
pontos carnudos, pontudos, e ordinariamente mais largos na base, como os
do cactus mamillaris, e algumas euphorbias Nota
Os tuberculos em algumas especies de
lichen saõ pontos escabrosos e pulverulentos, que constituem o
receptaculo da sua fructificaçaõ. Nas folhas da pulmonaria
e outras asperifolias os pontas asperos, que as salpicaõ saõ
taõbem chamados tuberculos .
Utriculos (utriculi) Nota
Os utriculos considerados em geral podem ser divididos
em internos e externos; os internos dependem da dissecçaõ, e
microscopio para se poderem observar, elles saõ destinados à
preparaçaõ dos succos proprios, e digestaõ dos succos
nutritivos; os externos saõ os que se achaõ na superficie dos
vegetaes, huns saõ pouco apparentes, dos quaes ja fiz mençaõ
debaixo do nome glandulas utriculares, outros saõ assaz
apparentes de modo que ainda mesmo sem lente se podem observar,
e saõ os de que tracto presentemente.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.
Poros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).
Fossulas (fossulae, s. foveae), saõ pequenas cavidades excretorias, como v. g. as que se achaõ na base das petalas da coroa imperial, e outras especies de fritillaria.
Cicatrizes ou pustulas Nota
Taõbem se da o nome de pustulas a huma
especie de enfermidade dos fructos feridos pelo granizo, como
saõ as que se vem nas pera a que o vulgo chama peras
pedradas.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos. Como a preparaçaõ deste fluido pertence igualmente a vasos internos, e o costumaõ extrahir de muitas plantas por meyo de incisoẽs, pareceme ser mais proprio de tractar da sua natureza no capitulo seguinte.
[Página 256]Por succulencia (succulentia, s. lactescentia), os botanicos entendem a qualidade, e cor dos succos que vertem os vasos de huma planta, quando a ferimos ou quebramos.
Os succos das plantas dizem-se ser: aquosos (aquosi succi), quando naõ saõ corados e se assemelhaõ á agoa commua (a videira), lacteos (lactei, albi), se saõ da cor de leite, como nas euphorbias e papoila, amarellos (lutei), como na celidonia; vermelhos (rubri), como os do rumex sanguineus, e os dos ramos tenros do carthamus lanatus.
O succos preparados pelos vasos proprios dos vegetaes que sejaõ extrahidos por meyo de huma incisaõ artificial, quer derramados na casca por ex- sudaçaõ ou rotura, adquirem muitas vezes huma consistencia mais ou menos densa, e saõ chamados neste estado resinas, gommas, e gomas-resinas. As re- sinas (resinae), podem facilmente reconhecer-se, e distinguir-se das gomas pela razaõ de arderem rapi- damente no fogo, e de se dissolverem em espirito de vinho e naõ em agoa, como saõ o pez, thereben- tinas, &c. A gomma (gummi), pelo contrario, naõ arde no fogo, e dissolve-se em agoa e naõ em espirito de vinho, como se vê na goma arabia e na das gin- geiras e amexieiras; a goma-resina (gummi-resina), dissolve-se parte em espirito de vinho e parte em agoa, como se vê na que he extrahida da aloe.
[Página 257]O Sexo das plantas he fundado sobre o das suas flores, e por conseguinte
quasi todas as denominaçoẽs, que se costumaõ dar a estas relativamente ao
sexo, se podem com propriedade dar taõbem ás plantas que as produzem. Pelo que as plantas dizem-se masculinas (plantae mares), quando daõ
somente flores masculas; femininas (feminae), se daõ somente flores
femininas; hermaphoditas (hermaphroditae), se daõ flores hermaphroditas;
monoicas (monoicae), quando no seu tronco ou ramos daõ flores humas
masculinas outras femininas, como o milho, melaõ, e abobara; dioicas
(dioicae), quando em dois individuos da mesma especie ha hum que dà
flores masculinas e outro femininas Nota
O nome de dioica he neste cazo
somente dado a especie, porque os individuos saõ plantas ou
masculinas ou femininas, e o mesmo se deve entender do nome
polygama, quando he dado as plantas proprias da Polygamia dioecia e
trioecia.
Os modernos costumaõ dar o nome de hybridas, ou mulinas (hybridae) a certas
plantas, que procedem de duas especies diversas, assim como no reyno animal
os mulos procedem do coito do jumento e egoa, individos especificamente
differentes. Este effeito tem lugar nos vegetaes em razaõ de cahir o po fecundante das flores de huma especie sobre o pistillo
das flores de outra; as sementes que provêm desta fecundaçaõ saõ as que
produzem as plantas hybridas Nota
Segundo a opiniaõ de alguns Botanicos
todas as especies de plantas que ha hoje na face do globo terreatre
saõ as mesmas que haviaõ nos dias primitivos da terra; elles so
admittem novas variedades e jamais novas especies; outros pelo
contrario saõ de parecer que ha muitas novas especies procedidas do
coito entre individuas especificamente differentes. Esta ultima
opiniaõ naõ me parece ser bem fundada, e as plantas hybridas provaõ
contra ella. As differentes plantas que procedem de differentes
individos ou saõ mestiças, ou mulinas, As mestiças saõ as que provem
de duas especies ou variedades, e daõ sementes fecundas; se cortamos
v. g. os estames a huma tulipa vermelha, e apolvilhamos o seu
pistillo com o po dos estames de huma tulipa brança, as sementes da
dicta tulipa vermelha produziraõ tulipas humas vermelhas, outra
brancas, outras variegadas de vermelho e branco, as suas sementes
seraõ fecundas, e semelhantes plantas por conseguinte devem ser
chamadas mestiças. As plantas mulinas rigorosamente taes saõ as que
procedem de duas especies analogas, ou do mesmo genero, e daõ
sementes sempre estereis ou incapazes de reproduzir individuo algum.
Tanto as mestiças como as mulinas naõ saõ outra coiza mais do que
variedades, a pezar de que algumas tenhaõ sido consideradas como
verdadeiras especies; as mulinas tem quasi todo o habito externo
d'alguma das plantas de que descendem, ou naõ differem da especie
senaõ no viço e infecundidade da flor. Vej. O termo Hybridae
plantae, no Dicc. Bot. vol. 2.
O viço dos vegetaes (luxariatio), he considerado por alguns botanicos ou como floral ou como habitual; o floral he relativo às partes da fructificaçaõ, e delle fallei jà em seu lugar; o habitual consiste na mudança que algumas causas occasionaes fazem nas partes da vegeteçaõ, isto he, em quaesquer partes que naõ saõ flor nem fructo, e como esta alteraçaõ tem lugar nas plantas da mesma especie e as faz variar, e degenerar costumaõ taõbem dar-lhe o nome de variaçaõ ou de degeneraçaõ (variatio, s. degeneratio); mas estes dois termos tem huma accepcaõ mais extensa.
O viço tem lugar ás vezes no tronco,quando as plantas vem a ser cespitosas
(cespitosae) lançando da mesma raiz em hum terreno pingue
muitos troncos, aindaque aliás no terreno que lhes he natural somente
lançaõ hum Nota
Basta muitas vezes cortar o tronco pela base para fazer huma
planta cespitosa.
A degeneraçaõ das plantas pode ter lugar de muitos modos, em razaõ da cultura, mudança de terreno, clima, idade, &c. A cultura naõ amansa menos as feras do que as plantas; ella lhes faz perder os seus espinhos, hispidez, e toda a sorte de pelos, amacia a aspereza dos seus succos, e adoça muitas vezes o amargo e acidez dos seus fructos; as plantas que cultivamos em nossos jardins, hortas, e pomares daõ disro huma clara prova; o estado inculto ou bravio era o seu estado natural; parecenos que lho melhoramos pelas enxertias e amanhos, e pensamos que degeneraõ todas as vezes que por falta da devida cultura [Página 261] tornaõ a ser bravas; mas na realidade aos olhos de hum sabio naturalista he huma verdadeira degeneraçaõ o que chamamos estado de melhoramento; huma amexieira, huma alcachofa hortense, ás quaes a cultura fez perder os seus espinhos, vivem dege- neradas em quanto se conservaõ neste estado; mas logo que abandonadas á revelia da natureza recobraõ seus espinhos, devem ser consideradas como restitui- das ao seu estado natural.
O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs. O clima naõ deixa taõbem de fazer degenerar as plantas quanto à sua duraçaõ, e as plantas que nos paizes quentes saõ vivaces, taes com as chagas, boa noyte, man- jerona, ricinus, &c. transplantadas nos paizes frios vem a ser annuaes. A idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.
O viço e degeneraçaõ podem fazer variar de muitos modos huma mesma especie, mas delles naõ resultaõ jamais novas especies, e he erro crer por ex. que a avea cortada antes da florecencia degenere de tal modo que no anno seguinte se converta em senteio, ou que o trigo em huma terra magra degenere em senteio, este em cerada, a cevada em joyo, &c. O corculo das semente he sempre huma plantula propria, segundo as leys da natureza, para continuar a forma especifica do ente que a produzio, porque aliás teriamos novas creaçoẽs; elle he formado [Página 262] da medulla da planta materna, ou de huma substancia similar de modo, que naõ pode perpetuar senaõ Individuos especificamente semelhantes aquelle a quem esteve apegado no tempo, em que foy gerado e nutrido. Do mesmo modo os ramos, gomos, e bolbos por mais variedades, que possaõ dar, sempre conservaõ os caracteres e essencia da sua especie, porque saõ della meros pedaços vitaes. Pelo que dizer, que hum ramo ou colmo de avea v. g. pode dar huma espiga com sementes de senteio, he querer mudar a natureza das vegetes e fingir chimeras.
Os differentes estados da atmosphera, os excessivos calores ou frios,
qualquer vicio notavel da transpiraçaõ, a obstrucçaõ dos vazos, a plenitude
e condensaçaõ dos succos, e as corrosoẽs e picadas dos insectos saõ as
principaes causas das doenças dos vegetaes (morbi). Ellas saõ taõ
numerosas que podiaõ formar o sujeito de hum bom tractado pathologico Nota
Athe ao presente naõ temos ainda huma boa pathologia nem
therapeuteia dos vegetaes, semelhantes tractados seriaõ
summamente uteis á agricultura, e naõ deixariaõ taõbem de ser
proveitosos á Botanica fundamental.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.
Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.
Cravagem (clavus), saõ pontas denigridas que se observaõ as vezes nas sementes do senteio e junças.
Fogagem (ustilago, uredo), he huma especie de carie das sementes de maneira que a planta, em vez de dar sementes, da huma farinha negra: observa-se muitas vezes nas espigas da cevada, avea, trigo e outras gramas, como taõbem nalgumas especies de escorcioneira, e tragopogon.
Crestamento do sol (aestus, s. aestuatio), quando saõ crestadas pelos grandes
calores, e desmayaõ de tal sorte que ordinariamente perecem. Os antigos
quando viaõ desmaiar huma planta e morrer por hum golpe de sol Nota
Chamaõ
golpe de sol aos raros solares subitamente descortinados de huma nuvem
espessa, e vibrados ardentemente sobre a terra.
Ensoamento (sitis), quando por falta de agoa ou de sufficiente humidade desmayaõ hum tanto, mas tornaõ a restabelecerse, sendo regadas, ou sobrevindo chuvas.
Friagem (pernio), quando saõ em parte crestadas do frio, ou feridas pelo granizo.
[Página 264]Geladura (congelatio), quando todos os seus succos saõ congelados, ou que o movimento destes he de tal modo estorvado e suspendido pelo frio, que morrem.
Marasmo ou atrophia (fames, marasmus, s. atrophia), quando por falta de terra, de succos competentes, ou qualquer outra causa emagrecem summamente ou perecem de magreza.
Corpulencia (polysarchia), quando engrossaõ mais do natural em razaõ dos demasiados succos, e nimia nutriçaõ.
Cancro (cancer), he hum grande inchaço causado pela extravasaçaõ dos succos, sem contudo rebentar a epiderme.
Plethòra ou plenitude (plethora), segundo alguns naturalistas he huma demasiada abundancia de succos de modo que se extravasaõ por meyo de algumas roturas da epiderme, o que constitue hemorrhagias mais ou menos consideraveis; as resinas, gomas, gomas-resinas saõ, segundo elles, especies de hemorrhagias vegetaes occasionadas por huma plenitude de succos.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c. Os insectos causaõ taõbem algumas monstruosidades nas flores, fazendo-as dobrar, prolificar, &c como ja notei em seu lugar.
A grandeza ou medida (magnitudo, s. mensura), he como a notei, ou relativa ou obsoluta; a relativa he a largura, ou comprimento das partes dos vegetaes comparadas humas com as outras; a absoluta consiste nas dimensoẽs conhecidas, ou nas que saõ deduzidas das partes e estatura do corpo humano, que se reduzem as seguintes.
Hum cabello (capillus) he o diametro ou grossura de hum cabello, que se suppoem ser a duodecima parte de huma linha, e neste sentido as partes dos vegetaes dizem-se ser verdadeiramente capillares, (capillares) quando saõ da grossura de hum cabello.
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).
[Página 266]Huma unha (unguis), he o comprimento della, que se suppoem ser seis linhas ou meya pollegada, e neste sentido a grandeza diz-se ser de huma unha (unguicularis).
Huma pollegada (pollex, s. uncia), he o diametro do dedo pollegar ou taõbem o espaço que vay desde a sua ultima junta athe à ponta, que se suppoem ser doze linhas, e neste sentido a grandeza diz-se ser de meya pollegada (semiuncialis) de huma pollegada (uncialis, s. pollicaris), de pollegada e meya (sesquiuncialis, s. sesquipollicaris) de duas pollegadas, &c. (biuncialis, &c.).
Huma maõ travessa (palmus), he a largura de quatro dedos reunidos, excepto o pollegar, e se suppoem ser tres pollegadas; neste sentido a grandeza diz-se ser de meya maõ travessa, de huma maõ travessa, e de maõ travessa e meya (semipalmaris, palmaris, sesquipalmaris).
Hum palmo de craveira, hum palmo maior (dodrans), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do minimo bem estendidos, o que se suppoem ser nove pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo de craveira (dodrantalis).
Hum palmo bastado ou palmo menor (spithama), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do dedo mostrador, seu immediato, bem estendidos, o que se suppoem ser sette pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo bastardo (spithamea).
Hum pe (pes), he pouco mais ou menos o espaço que medea desde o sangradoiro do braço athe á bado dedo pollegar, o que se suppoem ser doze [Página 267] pollegadas, donde a grandeza se diz ser de meyo pe (semipedalis de hum pe (pedalis), de pe e meyo (sesquipedalis) de dois pés, &c. (bipedalis, &c.)
Hum covado natural (cubitus), he o espaço que vay desde o cotovelo athe a ponta do dedo grande, que se suppoem ser desasette pollegadas; a grandeza diz-se ser de hum, dois, tres covados naturaes, &c. (cubitalis, bicubitalis, tricubitalis, &c.)
Hum braço (brachium), he o espaço que vay desde o sovaco athe á ponta do dedo grande, o que se suppoem ser dois pez, donde a grandeza se diz ser de hum braço (brachialis).
Huma braça, ou a altura de hum homem (orgya, altitudo humana, s. hexapoda), he o espaço que vay da extremidade de huma maõ athe a da outra, estando os braços abertos, o que se suppoem ser seis pès, donde a grandeza se diz ser de huma braça (orgyalis, s. sexpedalis).
As cores dos vegetaes (colores), de que tracto presentemente neste artigo, naõ somente saõ as que respeitaõ ás partes da fructificaçaõ, aonde costumaõ ser infinitamente variadas, mas taõbem as que saõ relativas a toda a superficie de qualquer das suas partes. Os antigos consideravaõ as cores como huma das principaes notas do habito externo, com que [Página 268] se podiaõ destinguir as especies; Linneo criticou fortemente este sentimento, dizendo que se bem que ellas podiaõ servir para fazer destinguir as variedades, naõ subministravaõ caracteres seguros para estabelecer especies; alguns modernos contudo naõ admittem inteiramente este parecer, e pensaõ que elle he sojeito a excepçoẽs, como direi em outro lugar. Os differentes gráos de intensidade, com que a natureza còra as flores naõ se podem perfeitamente exprimir nem com vozes, nem com penna, e raras vezes ainda mesmo o pincel as bem imita. Alguns pensaõ que se podiaõ dar sufficientes idéas de muitas dellas, comparando-as com as cores fixas das substancias de que usaõ os pintores e tintureiros; este parecer podia ser adoptado se os Botanicos julgassem ser necessario empregar os nomes exactos das cores na descripçaõ de qualquer planta, mas commumente desprezaõ esta circumstancia, e porisso bastará fazer so mençaõ aqui das cores ordinarias, de que elles costumaõ usar algumas vezes, as quaes se podem reduzir ás seguintes.
Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.
De cor vidrenta ou de cristal (hyalinus, s. vitreus); cor d'agoa (aqueus, s. undulatus) estas cores observão-se muitas vezes nos filetes dos estames e no estylete do pistillo.
Cinzento (cinereus); cor de chumbo (plumbeus, lividus.)
[Página 269]Negro (niger); fusco, pardo (fuscus); fullo, baço (fullus); a cor negra observa-se muitas vezes nas raizes o sementes, mas he raro de a ver nos fructos e ainda muito mais raro na corolla.
Pallido (luridus); cor de pêz (piceus, ater).
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.
Açafroado (croceus); cor de fogo (flammeus, fulvus).
Gris ou griseo (gilvus) cor de tejolho (testaceus).
De cor da ferrugem do ferro (ferruginens).
Vermelho (ruber); as flores do estio, e bagas azedas tem ordinariamente esta cor; vermelho cor de sangue (sanguineus); vermelho cor de carne, ou encarnado (incarnatus); escarlatino, cor de escarlata (coccineus, puniceus); cor de rosa (roseus).
Purpureo, cor de purpura (purpureus, phaeniceus, s. tyrianthinus); purpureo claro (diluté purpureus); purpureo escuro (saturatè purpureus, s. atropurpureus); roxo (violaceus, janthynus, caeruleo-purpureus).
Azul (caeruleus); azul celeste (cyaneus); estas cores saõ mui frequentes nas corollas.
Verde (viridis); verde cor de alho porro (prasi- nus); verdemar (thalassinus); verdenegro (atroviridis). A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.
Garço (glaucus, glaucinus, caesius); a cor garça participa da verde e da azulada, e porisso muitos a [Página 270] comparaõ com propriedade á cor da pedra preciosa chamada beryllo.
O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
Em quanto o numero dos vegetaes geralmente conhecidos foy facil de reter de memoria, ou reduzido somente aos curtos limites de huma materia medica, naõ conhecemos que houvesse destribuiçaõ alguma, que merecesse o nome de systema ou methodo; tal foy o estado da Botanica entre os antigos Gregos e Romanos, e na idade media athe à restauraçaõ das lettras na Europa. Depois desta epoca o numero dos vegetaes conhecidos tendo consideravelmente augmentado, Cesalpino vendo claramente que sem huma disposiçaõ methodica senaõ podia adiantar o estudo dos entes do reyno vegetal, imaginou hum systema, com que os tirou do informe cahos em que jaziaõ; outros sabios seguiraõ depois o seu exemplo, e hoje os systemas em Botanica saõ de huma necessidade absoluta.
A Botanica no estado actual, em que se acha, naõ so costuma tractar dos termos technicos, que conduzem a fazer conhecer hum vegetal por meyo deste ou daquelle systema, mas igualmente ensina em geral o que he hum systema ou methodo Botanico, [Página 277] e como elle se costuma destribuir segundo as regras da boa critica. Estas relaçoẽs e partes didacticas parecem ser inseparaveis em qualquer bom tractado elementar desta sciencia; porque se hum verdadeiro Botanico naõ somente se deve achar em estado de poder entender todos os systemas relativos aos vegetaes, mas taõbem de poder traçar novos; a Botanica por conseguinte deve naõ menos empregarse no que contribue a comprehendelos do que a formalos.
Hum systema ou methodo em Botanica (systema, s. methodus) he hum corpo de
doutrina composto de certo numero de generos supremos, e subalternos que
conduzem gradativamente ao destincto conhecimento das especies vegetaes. Os
generos supremos saõ chamados classes; os subalternos ordinariamente saõ
dois, huns medios chamados ordens, e outros infimos denominados simplezmente
generos; estes ultimos contem as especies, e estas as suas variedades. Em
certo modo hum systema pode comparar-se Nota
Esta comparaçaõ, ainda que naõ
he em tudo exacta, naõ deixa contudo de contribuir para fazer conhecer a
progressaõ das destribuiçoẽs dos systemas.
Mas para proceder com mais clareza, e dar ideas mais exactas dos systemas
Botanicos, devo advertir que todos os que athe agora se tem imaginado podem
ser reduzidos a tres sortes, a saber, systemas naturaes, artificiaes, e
mixtos de naturaes e artificiaes. No systema natural Nota
Este methodo
he chamado natural por conservar as affinidades das plantas do modo
que a natureza nolas prezenta aos olhos; mas nenhum dos que athe
agora se tem publicado he livre de defeitos, nem merece no rigor do
termo o home de methodo da natureza. Os me thodos e systemas, diz
acertadamente M. de la Mark, saõ como os nomes, nem huns nem outros
se achaõ naturalmente nas plantas.Nota
Esta clave dos systemas naturaes deve ser o catalogo
dos titulos das familias naturaes; mas ordinariamente como as
familias saõ numerosas os systematicos Naturistas por querer
simplilicala e abbreviala, reunem as classes naturaes a hum pequeno
numero de classes primarias, as quaes de ordinario saõ fundadas em
huma so nota caracteristica, e por este modo o seu methodo vem a
ficar mixto.Nota
A
clave de qualquer systema, segundo alguns botanicos, he
rigorosamente huma tabella synoptica, e requer esta condiçaõ para
ser boa; mas se o numero das classes he pequeno, a clave pode ser
facil sem ser distribuida synopticamente.Nota
Este systema naõ he puramente artificial, o seu Autor
trabalhou primeiramente nos generos, a que chama naturaes, e depois
servio-se delles empregando-os em classes e ordens artificiaes;
donde nasce hum dos grandes defeitos do dicto systema, havendo
muitos generos, cujas especies naõ tem geralmente o caracter da
ordem ou da classe, e ás vezes mesmo nem o da classe nem o da ordem
(como v. g. o polygonum persicaria.) Alem disso a classe cryptogamia
naõ tem relaçaõ com as demais; os caracteros naõ saõ tirados dos
organos sexuaes, nesta classe, e algumas das suas ordens saõ
proprias de hum methodo natural.
O methodo synthetico he o que conserva mais as affinidades, e o que se chega mais à natureza, mas as suas divisoẽs saõ sujeitas a serem longas e difficeis; nos seus titulos parece haver falta de nexo, os caracteres dos generos parecem obscuros e confusos; as razoẽs de affinidade saõ tiradas de muitas partes, e jamais de huma so ou de poucas, donde resulta que elle so costuma agradar aos que estaõ ja adiantados em Botanica. O methodo analytico ou artificial he opposto à natureza, dissolve e sacrifica ás suas leys as affinidades, e as plantas de huma classe ou ordem natural se achaõ nelle misturadas com as da artificial ou arbitraria. Sem embargo disto, he o mais simplez e facil, serve de hum grande soccorro á memoria e conduz ao conhecimento das plantas por hum caminho plano e abbreviado. Por esta razaõ, e porque as suas divisoẽs genericas saõ estabelecidas sobre o exame de huma das partes das plantas, e agrada mais aos principiantes (que naõ gostaõ nem entendem ordinariamente as grandes combinaçoẽs de caracteres) sem deixar contudo de agradar taõbem e de ser bastantemente util ainda mesmo aos Botanicos consumados; mas para agradar a estes he precião que elle guarde exactamente as suas leys.
[Página 281]Ha taõbem huma sorte de distribuiçaõ analytica chamada synoptica (divisio
synoptica, s. synopsis), que consta de divisoẽs semelhantes ás ramificaçoẽs
das taboas genealogiças, mais ou menos longas, mais ou menos numerosas, sem
limites certos genericos, ou sem se limitarem a classes, ordens, generos e
especies, como as dos systemas ou methodos artificiaes ordinarios. Linneo Nota
Lin. Phil. Botan. n. 153 et 154.Nota
A destribuiçaõ synoptica he taõbem empregada na clave dos
systemos para facilitar a achar as classes.
Todos os methodos e systemas que athe agora se tem imaginado em Botanica saõ mais ou menos defeituosos, e naõ me parece possivel que possa haver algum sem imperfeiçoẽs. Alguns Botanicos saõ de parecer que todos os entes do reino vegetal, que se achaõ proxima, ou remotamente dispersos sobre a face do nosso Globo, formao entre si huma cadea, e fazem parte de hum todo progressivo; que cada individuo pertence a esta cadea em geral, e ao mesmo tempo em particular a huma especie, as especies a generos naturaes, estes a familias naturaes, e que estas familias formaõ gradativamente hum todo encadeado que constitue à clave do verdadeiro methodo natural, em cuja investigaçaõ se devem occupar todos os botanicos, por naõ haver outro na natureza. Elles accrescentaõ que este methodo fora traçado pelo Autor da natureza, cuja profunda sabedoria vinculou todos os entes do universo huns com os outros, e cada hum delles com o todo; que se por ora o naõ podemos plena e perfeitamente perceber, o descobriremos quando tivermos as descripçoes de todas as plantas, que ha no [Página 283] globo terrestre; que prezentemente basta para nos convencer disto observar a gradaçaõ das plantas imperfeitas ás perfeitas, e os fragmentos do dicto methodo natural assaz bem reconhecidos nas familias naturaes das gramas, labiadas, leguminosas, umbrelladas, cruciferas, e algumas outras de que tractaõ os systemas naturaes, os quaes segundo elles naõ saõ outra coiza mais do que pequenos esforços que dirigem a descobrir o verdadeiro methodo natural. Contudo na opiniaõ de outros Botanicos semelhante methodo he o mesmo que a pedra philosophica: admittindo, dizem elles, que senaõ tenhaõ perdido especies nas vastas inundaçoẽs, volcanos e outras revoluçoes do nosso Globo, e que os entes do todo o reyno vegetal se achem encadeados huns com os outros, e cada hum delles com o todo, nem porisso podemos esperar de chegar a ter esse perfeito methodo denominado o unico da natureza; antes pelo contrario isso mesmo parece opporse a obtelo. Essa cadea, ou laço com que os entes vegetaes saõ viculados, naõ saõ outra coiza mais do que as suas affinidades; ora estas affinidades, seraõ sempre irremediaveis obstaculos á perfeiçaõ de qualquer methodo ou systema.
A progressaõ das affinidades, em qualquer me thodo que se pode idear, ou he
synthetica ou anaIytica, em linha de ascenso ou de descenso: a progressaõ
analytica naõ pode ter lugar em hum methodo natural, e a synthetica sera
sempre insufficiente á sua perfeiçaõ. Na supposiçaõ dada, a natureza poz
laços naõ equivocos entre todos os entes vegetaes: por conseguinte naõ poz
balizas nas classes nem em generos alguns, e os seus limites seraõ sempre [Página 284] inconstantes. Se olhamos attentamente para cada hum dos caractéres das
plantas de classes assaz analogaa entre si, e denominadas naturaes, vemos
que posto que existem na maior parte dellas, faltaõ contudo em algumas, que
saõ muito poucas as que tem todos os caracteres constantemente O
lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as
plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla
alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as
labiadas, tem a corolla de hum so labio. As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia
natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames
senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes
Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados
como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha
tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos
pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a
vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim,
ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha
plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto
ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum,
phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.Nota
Sem embargo de que este ultimo sentimento seja assaz provavel, contudo naõ se
segue que devamos abandonar inteiramente o projecto de trabalhar em hum
methodo natural o mais perfeito que nos for possivel. Todos os grandes
Botanicos saõ deste parecer Nota
Haller, Adanson, Jussieu, e Linneo saõ
entre os modernos os que fizeraõ as melhores tentativas, que dirigem a
este methodo; mas desgraçadamente naõ saõ inteirameite concordes nas
metas e generos das suas familias naturaes.
Naõ se segue igualmente que devamos desterrar de Botanica qualquer sorte de systema artificial, e que devamos so occuparnos em fazer methodos naturaes que conduzaõ à perfeiçaõ do methodo dezejado. Os principiantes naõ podem passar sem hum systema artificial, elles naõ se embaraçaõ com affinidades, nem com gradaçoẽs naturaes, e so dezejaõ saber por meyo de poucas operaçoẽs o nome da planta, que encontraõ misturada com outros individios numerosos [Página 286] e de formas differentes. Pelo que sera sempre necessario nas escolas naõ empregar outra sorte de systemas para os introduzir ao estudo de Botanica. Os diversos systemas artificiaes foraõ a causa do progresso que tem feito a Bolanica; cada systematico foy obrigado a observar de novo todos os vegetaes ja observados, a verificar os caracteres conhecidos, e a forcejar por descobrir outros adequados ao seu systema; donde resultou que muitas partes e notas caracteristicas, que dantes tinhaõ sido desprezadas, foraõ bem descriptas, contribuiraõ para melhor fazer reconhecer as affinidades, e enriqueceraõ a Botanica. Os systemas analyticos asem de contribuirem para o adiantamento da Botanica seraõ sempre huns catalogos judiciozos e uteis, pela sua simplicidade, pela brevidade das suas gradaçoẽs, e por ajuntarem os materiaes destinados á construcçaõ de hum bom methodo natural, os quaes hum genio feliz enriquecido de observaçoẽs podera algum dia vir a por em execuçaõ; e ainda mesmo no cazo de termos hum bom methodo natural naõ deixaraõ de servir de ajudarnos juntamente com elle para achar os nomes das plantas com maior certeza e segurança. Eu naõ sou do parecer dos que dizem que basta que haja hum so systema artificial em Botanica, e que os Botanicos deveraõ cuidar em aperfeiçoar hum dos que existem e seguilo geralmente, abando nados todos os outros, por mais aperfeiçoado que seja hum systema artificial tera sempre seus lugares obscuros, seus lados fracos, e naõ sera izento de difficuldades. Nem sempre as partes, que vemos em huma planta, que queremos conhecer, saõ as que servem de fundamento ao systema que seguimos; as [Página 287] que nos podiaõ servir, muitas vezes naõ se achaõ em madureza, ou tem passado; contudo as dictas partes que vemos saõ assaz sufficientes em outro systema para nos fazer conhecer a planta. As notas caracteristicas de hum genero saõ muitas vezes assaz custosas de se perceberem por hum systema, ao mesmo tempo que os caracteres do mesmo genero saõ bastantemente claros e faceis em outro systema. Hum estame abortado, ou supranumerario basta para embaraçar os que usaõ de hum systema sexual, e naõ sabem valerse de outro; em summa, as difficuldades que se achaõ em hum systema podem vencerse com o uso de muitos juntos. Donde resulta, que sem embargo de que demos a preferencia a hum systema, naõ devemos deprezar os mais, principalmente se elles seguem exactamente as suas leys, e saõ formados segundo as regras da boa critica.
Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente. Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes. As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.
[Página 288] Huma classe (classis), no parecer dos Botanicos modernos, he hum
aggregado de muitos generos medios conformes nas partes da fructificaçaõ Nota
Alguns Botanicos modernos saõ de parecer que as classes naturaes
devem tirar os seus caracteres naõ so da fructificaçaõ, mas
ainda de todo o habito externo, e da mesma sorte os generos
infimos, como depois exporei mais extensamente.
As classes humas saõ naturaes outras artificiaes. As naturaes saõ formadas syntheticamente, e constaõ de muitos generos
naturaes Nota
Eu naõ me embaraço aqui com a grande questaõ dos naturalistas, se
ha ou na naõ generos naturaes, e tomo os termos na accepçaõ, em
que Linneo os tomou, segundo a qual hum genero natural he hum
aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural. Nota
Esta circumstancia he rara, e so tem lugar quando huma familia
natural succede ter entre as muitas notas caracteristicas huma
essensial e perpetua, da qual o systema artifcial ou mixto se
vale para fundar huma classe, como se vê na Monadelphia de
Linneo.
As ordens, como subdivisoẽs das classes, devem seguir a sua formalidade
methodica; por conseguinte as das classes naturaes devem ser fundadas em
muitas notas caracteristicas, e as das artificiaes em huma so Nota
Ha alguns methodos denominados naturaes, que devem ser con
siderados como mixtos; nelles ha duas, ou tres sortes de
classes, como he por ex. o do Dr. Jussieu, as primeiras, e as
vezes as segundas quando ha tres sortes de classes,
rigorosamente saõ artificiaes, e as ultimas subalternas, a que
os seus autores chamaõ ordens, saõ as que verdadeiramente
merecem o nome de classes naturaes. Muitas das ordens, que Linneo nos deixou nos seus Fragmenta
Methodi Naturalis, devem taõbem ser consideradas como classes
naturaes ou fragmentos dellas. Daqui se pode colligir que hum verdadeiro methodo natural, que
seguir as suas leys com exactidaõ, deve constar de hum grande
numero de classes, e que no dicto methodo ha bastante
difficuldade em formar devidamente as ordens. Os autores de methodos naturaes, que estabelecerem as classes em
muitos caracteres e fundarem as ordens em hum so, faltaraõ as
leys da uniformidade methodica, pela razaõ de que os seus
generos medios naõ ficaraõ uniformes aos infimos e supremos, e
se assemelharaõ ás ordens artificiaes.
Alguns Botanicos costumavaõ dividir em duas grandes classes primarias
todos os entes do reyno vegetal, a saber, em plantas herbaceas e
lenhosas, ou em hervas e arvores ; mas a doutrina da fructificaçaõ fez
abolir esta sorte de distribuiçaõ primaria que parecia pertencer mais
aos troncos Nota
Esta divisaõ naõ me parece ter sido fundada em nota alguma
constante; porquanto vemos hervas annuaes e biennaes que tem o
tronco de huma consistencia lenhosa; sabemos que a mesma especie
de planta pode ser berbacea na Europa, e lenhosa na America; que
ha hervas que saõ mais altas do que as arvores ; e ainda mesmo a
presença dos gomos he insufficiente, porque na Europa ha arvores que naõ tem gomos, como os naõ tem taõbem as dos paizes situados
debaxo da Zona Torrida. Nota
Quando as hervas, arbustos, e arvores parecem formar huma gradaçaõ de
menor a maior nas especies do mesmo genero infimo, pode-se sem
duvida fundar nellas huma distribuiçaõ; mas esta distribuiçaõ he
so parcial, e naõ a de que fallo presentemente.
Nos systemas artificiaes e mixtos quanto mais [Página 291] longas saõ as classes, tanto mais oppostas saõ á natureza, e difficultozas, como saõ por exemplo a Pentandria e Syngenesia do systema de Linneo, e porisso alguns Botanicos lhes preferem o uso das taboas synopticas que observaõ fielmente as suas leys methodicas. As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos. Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade.
Todas as ideas precedentes saõ relativas á disposiçaõ das classes e
ordens. Quanto á sua denominaçaõ, devo advertir primeiramente que os nomes que ha
em Botanica podem ser reduzidos a duas sortes ou technicos ou
systematicos. Os nomes technicos saõ os que servem para descrever todas as partes dos
vegetaes, elles devem ser immutaveis em todos os systemas, e formar a
linguagem da Botanica Nota
Desgradaçamente nos naõ temos ainda hum bom tractado elementar
que fixe a accepçaõ de todos estes termos; alguns delles saõ
obscuros por se naõ acharem ainda definidos, e outros em
prejuizo do progresso da Botanica tem accepçoẽs inconstantes
segundo as differentes opinioẽ se caprichos dos systematicos, ou segundo as differentes partes a
que saõ applicados; o que he defeituoso, porque nas sciencias
vale mais usar de muitos termos ou de periphrases, do que de
equivocos; à força de querer-mos muito abbreviar, confundimos;
os termos imbricatus, nudus, simplex, &c. saõ disto huma
evidente prova; hum mesmo termo devera sempre ter a mesma
accepçaõ, quer fosse applicado à raiz , quer as folhas , flores,
fructos, &c. Nota
Os nomes dos generos infimos saõ menos sujeitos a mudancas do que
os das ordens e classes. Os nomes das especies, ou saõ triviaes, ou differenciaes
especificos aggregados em huma phrase; huns e outros saõ
sujeitos a mudança no cazo que se descubraõ novas especies, ou
as descobertas, e ja conhecidas se mudem para outros generos; os
triviaes contudo podiaõ, como direi em outro tractado, ser
fixados como os technicos e servir a todos os systemas; deste
modo somente as phrases especificas, e os nomes genericos
intimos e simperiores ficariaõ sujeitos ás mudanças
systematicas.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes. Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.
Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c. De mais disso naõ so devem ser tirados das partes da fructificaçaõ, mas devem taõbem ser fundados em huma nota caracteristica essensial, como saõ por ex. os titulos de cruciformes, siliquosas, papilionaceas, leguminosas, &c.
Cada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.
Alguns Botanicos costumaõ dar a huma familia ou classe natural o nome de
hum genero infimo mais conhecido na dicta familia ou classe, pondo o
dicto nome no plural, dizendo, V. g. as abobaras, as açucenas, as
malvas, &c. ou usaõ de hum termo derivado do nome dos, dictos
generos infimos, dizendo v. g. as cucurbitaceas, as liliaceas, as
malvaceas, &c. Estes titulos saõ proprios dos methodos naturaes, e se achaõ as vezes
taõbem nos systemas mixtos Nota
Como saõ v. g. os titulos das familias da cryptogamia de Linneo
fetos, musgos, algas, e fungos. Nota
Palma, fungus, alga, muscus, filix.
Eu podera tractar aqui ainda de muitas outras circumstancias relativas á boa disposiçaõ e denominaçaõ das classes e ordens; mas como as classes saõ consideradas como generos das ordens, as ordens como generos dos generos infimos, e por conseguinte sujeitas quasi em tudo às mesmas regras methodicas destes ultimos, o leitor entendera facilmente o que falta aqui pelo que direi no capitulo seguinte.
[Página 295]Os generos, como ja adverti, huns saõ superiores outros infimos; no capitulo precedente dei as noçoẽs geraes relativas aos superiores, restame illuminar estas noçoẽs por meyo de huma mais extensa theoria, ou pelas leys didacticas dos generos infimos, que devem fazer o objecto do prezente capitulo.
Hum genero infimo (genus), segundo alguns Botanicos he hum aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural fundado na fructificaçaõ; mas como ha muitos generos infimos que constaõ de huma so especie, outros pensaõ que hum genero infimo naõ he outra coiza mais do que huma divisaõ systematica que comprehende debaxo de huma palavra e caracter, muitas especies de plantas conformes na fructificaçaõ, ou huma so de fructificaçaõ desconforme das especies vizinhas. Esta ultima definiçaõ naõ agrada contudo geralmente, querendo alguns que a conformidade ou desconformidade deve consistir naõ so na fructificaçaõ, mas nas mais partes relativas ao habito externo, e outros accrescentaõ que he improprio dizer que os generos infimos saõ huma divisaõ systematica, quando todos saõ huma obra da natureza, assim como as especies.
Todas estas ideas tem por objecto as duas mais famosas questoẽs debatidas em Botanica: 1º se os caracteres genericos devem somente ser tirados das [Página 296] partes da fructificaçaõ, excluidas todas as mais do habito externo? 2º. Se todos os generos saõ arbitrarios, ou se ha alguns que sejaõ obra da natureza, como são todas as especies?
Gesnero, Cesalpino, Columna e outros foraõ de opiniaõ que os generos somente
deviaõ ser estabele cidos sobre as partes da fructificaçaõ; Linneo seguio
este parecer, e a sua grave authoridade o fez seguir por hum grande numero
de modernos, mas nem todos adoptaraõ este sentimento, elles opposeraõ a esta
theoria o exemplo dos zoologistas, que no reyno animal omittem
ordinariamente os caracteres que a natureza poz nos genitaes, e julgaõ
sufficientes os que se deduzem dos outros organos. Opposeraõ demais disso
que os organos sexuaes e outras partes da fructificaçaõ dos vegetaes, a
que se dava a prerogativa, naõ lhes eraõ mais essensiaes do que aquellas
em que residia a sua vida, como a casca e medulla; que haviaõ muitas
plantas, principalmente cryptogamicas, em que as partes da fructificaçaõ
eraõ muito pouco apparentes, incommodas, e insufficientes para nellas se
estabelecer bons destinctivos genericos, os quaes pelo contrario se
achavaõ nas outras partes e que por conseguinte se devia recorrer a
ellas; que os caracteres habituaes bastavaõ muitas vezes sem a inspecçaõ
da flor para determinar a familia (a que pertencia hum individuo) e
algumas vezes taõbem o seu genero; que era muito util em hum methodo
natural, e em medecina reconhecer, as plantas sem flor, porque esta era
muito menos duravel do que as mais partes, e que por conseguinte os
caracteres fundados nestas partes valiaõ mais neste respeito [Página 297] do que os da fructificaçaõ; que naõ se devia desprezar parte alguma
dos vegetaes, porque todas contribuiaõ a fazelos reconhecer com mais
certeza; que a theoria da fructificaçaõ desprezadora do habito externo Nota
O habito externo neste sentido indica todas as partes de hum
vegetal que naõ pertencem à flor e fructo; de modo que as
bractéas e pedunculos fazem já parte do habito externo.
Quanto à segunda questaõ, Linneo e outros modernos saõ de parecer que todos
os generos saõ naturaes, que naõ saõ obra da arte, mas sim do Autor da
natureza, que os formou nos primitivos dias do globo terrestre, e que por
conseguinte senaõ devem deslacerar, ampliar, contrahir como cada hum quizer
ou conforme a theoria de qualquer Botanico; daõ por ex. os generos
ranunculus, acónitum, nigella, claytonia, passiflora, hybiscus, e outros
semelhantes, que bem examinados parecem indicar que os vegetaes foraõ
formados no principio huns segundo a forma dos outros. Esta opiniaõ tem
contra si a autoridade de muitos celebres Naturalistas e Botanicos Nota
O
Conde de Buffon, o Dr. Daubenton, Oeder, La Mark, &c.Nota
A natureza, diz o Conde
de Buffon, caminha a occultos passos; naõ se sobmette a nossas divisoẽs,
antes parece zombar dellas; passa de especie em especie, e às vezes de
genero a genero por modos imperceptiveis, e porisso se achaõ muitas
vezes especies, que saõ como hum genero intermedio, ou passagem das do
anteoedente ao subsequente: esta he a principal razaõ porque he
impossivel de formar hum perfeito methodo ou systema geral de toda a
Histotia Natural, e ainda mesmo das suas partes.Nota
Vej. as primeiras ediçoẽs do seu Genera plantarum, aonde
consulta os Botanicos a respeito da reuniaõ das especies destes e outros
generos.Nota
Ha especies (diz Mr. de la Mark,
Flor. Franc. vol. 1.) que sendo como gradaçoẽs naõ pertencem nem a hum
nem a outro genero vizinho, sem embargo de serem inclusas em hum delles.
Talvez virá tempo, em que, deseobertas todas as plantas que ha no nosso
Globo, cada genero fique so com huma espeoe, e cada especie com tantas
variedades, quantos forem os individuos. Entre os generos, que Linneo
formou, ha mais de quatro centos que tem so huma especie, elle se vio
obrigado algumas vezes por novas observaçoẽs a mudar muitas especies dos
generos em que dantes as tinha posto, e se hoje fosse vivo, e quizesse
attender ainda às que naõ tem o caracter do seu genero, e às que naõ
seguem as leys da classe e ordem em que estaõ postas, talvez naõ
deixaria de fazer bastantes mudanças.
Taes saõ as principaes reflexoẽs que se costumaõ de ordinario oppor ao parecer de Linneo, e dos que seguem que todos os generos saõ naturaes, mas ainda que dellas resuste que todos os generos tem limites arbitrarios, e que neste sentido naõ merecem rigorosamente o nome de naturaes, contudo como algumas vezes penetramos felismente as verdadeiras affinidades de hum certo numero de especies [Página 305] vegetaes, e formamos generos e familias de antes assaz analogos na sua estructura natural quando isto tem lugar parece me que semelhantes generos e familias podem conservar a denominaçaõ de naturaes em huma accepçaõ menos rigorosa, pela razaõ das suas especies terem entre si huma intima semelhança natural, reconhecida por todos os Botanicos.
Sendo os generos infimos huma divisaõ systematica, que comprehende, debaxo de hum caracter e palavra, huma ou mais especies, do modo que acima expuz, he precizo explicar o que os Botanicos entendem por caracteres genericos e as suas leys didacticas, sem desprezar as que respeitaõ às denominaçoẽs de cada genero.
O caracter de hum genero (character) he a sua definiçaõ, ou qualquer idea
geral deduzida de huma ou de muitas notas, capaz de bem o destinguir de
qualquer outro. Segundo Linneo ha quatro sortes de caracteres genericos, a
saber, o habitual, facticio, essensial e natural. O caracter habitual he
tirado das notas do habito externo, e exprime huma conformidade geral
nas partes vegetaes, que naõ dizem respeito à fructificaçaõ; os antigos
costumavaõ servir se desta sorte de caracter Nota
Elles comprehendiaõ neste caraeter todas as partes das plantas,
ainda mesmo as fiores e fructos, e reconheciaõ às vezes as
affinidades das congeneres melhor do que alguns systematicos; os
hervolarios ainda hoje, somente por meyo do habito externo,
sabem destinguir hum grande numero de plantas. Nota
Alguns Botanicos modernos, como ja disse, saõ de opiniaõ que
aindaque senaõ deva preferir o caracter habitual a todo o que he
tirado da fructificaçaõ, se podem contudo ajuntar a este algumas
notas tiradas, do habito externo para mais o facilitar e tornar
seguro. Nota
Todos os caracteres genericos abbreviados que se achaõ no Systema
Vegetabilium de Linneo ou saõ essensiaes ou facticios. Nota
Linneo foy o primeiro que ideou caracteres naturaes, e os
publicos no seu Genera plantarum, saõ o fundamento dos generos,
no seu parecer, mas rigorocamente o fundamento dos generos he o
caracter natural de cada especie considerado separadamente.
AÇUCENA Nota
Lilium. A traducçaõ, que dou aqui ao publico do caracter generico
natural da Açucena, podia ser menos concisa; mas os que conhecem
o quanto a lingua Portuguesa se chega à matema latina, tanto no
didactico como em qualquer outro estylo, certamente naõ me
notaraõ aqui de ousado: aproveitei-me do favor que o seu proprio
genio me offereceo.
Calyz. Nullo.
Corolla. De seis petalas, campanulada, e estreitada na parte inferior. Pecalas levantadas, encostadas humas as outras, com huma quilha obtusa no dorso, mais largas e mais patentes na parte superior as suas pontas saõ obtusas, grossas, e recurvadas para fora.
O Nectario: he hum rego longitudinal, que se acha gravado em cáda huma das petalas, do meyo para baxo.
[Página 308]Estames. Seis filetes, assovelados, levantados, e mais curtos do que a corolla. Antheras oblongas, e vacillantes.
Pistillo. O germe oblongo, hum tanto cylindrico o com seis estrias. O estylete cylindrico, e do comprimento da corolla. O estigma hum tanto mais grosso do que o estylete, e triangular.
Pericarpo. Huma capsula oblonga, e com seis regos; obtusa, concava, e trigòna, no cume; composta de tres cellulas, e tres valvulas, reunidas com pelos tecidos em grade.
Sementes. Saõ numerosas, encostadas em duas ordens, chatas, e semi circulares pelo lado externo.
N. B. As petalas em algumas especies tem as pontas nimiamente recurvadas de modo que ficam encaracolladas: O nectario em algumas especies he acompanhado de felpa, e em outras glabro.
[Página 309]Todos os caracteres genericos devem, segundo Linneo, ser tirados do numero,
figura, proporção e situaçaõ de todas as partes da fructificaçaõ. Quanto as
mais partes, que constituem o habito externo da planta, o seu parecer foy,
que postoque se deviaõ passar em silencio, mereciaõ sempre de ser bem
observadas e attendidas por naõ multiplicarmos os generos por leves causas,
e nos arriscarmos a fazer generos erroneos. Na formaçaõ dos caracteres
devemSe examinar em todas as especies anasogas todas as partes da
fructificaçaõ, ainda as mais miudas, e as que escapaõ á vista, ou precizaõ
de lente para serem observadas; devem se considerar as notas em que ellas
convem e desconvem, combinar a primeira especie com todas as mais, e todas
com a primeira, porque naõ ha caracter infallivel sem primeiramente ser
conferido e verificado em todas as especies. Na formaçaõ do caracter
natural devem-se somente mencionar as notas em que convem todas as
especies, e excluir como superfluas aquellas em que as dictas especies
desconvem; estas notas devem ser desertptas com termos technicos Nota
Demais disso devem ser escritas em difterentes paragraphos,
segundo as differentes partes da fructificaçaõ, e ter por titulo
em cima o nome do genero, como se vè no exemplo dado do caracter
generico da Açucena. Nota
Os termos tirados de semelhanças sempre presuppoem ideas claras
do primeiro simile, que nem todos podem ter, e porisso se devem
evitar o mais que for possivel; devem-se contudo exceptuar os
que se achaõ bem defindos, e adoptados pela arte, ou tirados
decentemente das partes externas do corpo humano, como dedo,
maõ, orelha, etc. Quanto aos obscenos deduzidos de vulva, penis, scrotum,
praeputium, testiculi, &c. devemos evitalos, ou para melhor
dizer abolilos inteiramente em Botanica, porque temos outros que
podem explicar sufficientemente as mesmas ideas sem ferir a
modestia. A Botanica he hoje cultivada por muitas pessoas modestas de hum e
outros sexo, que naõ podem tolerar semelhante abuso; elle teve
origem no pessimo gosto de alguns medicos dos seculos passados e
principio deste, os quaes por toda a parte naõ viaõ senaõ
objectos e termos anatomicos ainda os mais obscenos e sordidos;
a Botanica que elles sós professavaõ naõ podia escapar a esta
corrupçaõ, e com aquella mesma frivolidade, com que os
applicavaõ a mais nobre entranha do homem (testes enim et nates
cerebro tribuerunt) os applicaraõ taõbem ás mais bellas partes
dos vegetaes. Linneo adoptou este mesmo gosto de termos, e com razaõ o Dr.
Boehmer e outros modernos o censuraõ de os ter muitas vezes
prodigalizado; porquanto podramos muito bem passar na descripcaõ
das escamas cordiformes, e convergentes das sementes do
melampodium sem os termos de formam vulvae, sem o de calyx
peniformis no caracter especifico da datura metel, sem o do
receptaculo elongato in praeputium no fructo do teixo, sem o de
capsula scrotiformis no fructo da mercurial, &c. &c. Nota
Linneo (Phil. Bot. p. 123 diz que todas as vezes que em huma
planta as flores diversificaõ no numero das suas partes, so se deve
attender ao da primeira flor, isto he, ao das flores terminaes, e
porisso classou a ruta, chrysosptenium, monotropa, tetragonia, evonymus,
philadelphus, e adoxa em classes ou ordens contrarias ás que indica o
namero dos organos sexuaes das flores dos lados; mais isto naõ tem sido
adoptado por todos os modernos, e com justo motivo; supponhamos por ex.
que huma planta da quiuze flores, a terminal com cinco estames e todas
as mais que se seguem lateralmente ou desabotoaõ depois, tem todas
quatro estames, se a classamos antes na Pentandria do que na Terrandria,
a flor terminal sendo huma so e dosflorecendo primeiro que todas as
outras porá certamente hum grande obstaculo aos que quizerem achar a
classe da planta pelas fiores fateraes que observaõ, pois lhes he
necessario estar sempre presentes no periodo em que desabotoa &
dicta primeira flor, para poder reconhecer a sua classe; pelo contrario
se a classamos na Tetrandria, ninguem duvida que em todo o tempo em que
ella der flores, todos poderaõ descobrir facilmente a sua classe. He
verdade que a natureza mostra de ordinario nas primeiras fiores todo o
Seu vigor e perfeiçaõ, mas às vezes este vigor passa a ser viço, e por
conseguinte o mais seguro sera sempre guiarmos pela maior parte das
flores, quando quizermos determinar o numero das suas
partes.
A figura da flor he hum guia mais seguro, e mais digno de attender-se em
geral na formaçaõ dos generos do que a do fructo. Sem embargo de que os
antigos parecem ter feito maior cazo da estructura do fructo, contudo
todas as vezes que as flores convem, e os fructos differem (concorrendo
aliás todas as mais condiçoẽs requisitas) em hum certo numero de
especies, todas estas devem ser reunidas Nota
Este parecer he de Linneo, e como o mais methodico e proprio para
evitar multiplicidade de generos fundados em leves motivos,
parece me que devera ser seguido por todos os Botanicos; contudo
o Dr. Jussieu se desviou delle, adoptando a opiniaõ dos antigos,
e desunindo por conseguinte em differentes generos as especies
ou falsos generos, que Linneo tinha reunido em hum so no
rhamnus, pyrus, e prunus, deste modo segundo elle, a pereira,
maceira, e marmeleiro çaõ tres generos, e naõ especies de hum
so. Nota
O Dr. Jussieu e alguns outros modernos querem (contra Linneo) que
as especies de geranium, principalmente em razaõ da regularidade
e irregulidade da corolla, devem ser divididas em dois generos;
mas a anologia das mais partes da fructificaçaõ provaõ a favor
do parecer di Linneo.
As flores viçadas, monstruosas, e mutiladas naõ devem jamais ser fundamento de caracteres genericos, que sò devem ser tirados das flores naturaes. A prole, no cazo de prolificaçaõ, nos fara reconhecer o estado de viço; o calyz, e ultima ordem de petalas podem contribuir para dar-nos idea do estado de huma flor viçada, mas para melhor o reconhecer-mos sera precizo semear ou transplantar a planta viçada no seu terreno natural ou em hum chaõ magro. O calyz he menos sujeito a viço do que os estames e corolla, e os estames menos sujeitos a elle do que as petalas. O nectario, aindaque em algumas flores he sujeito a viçar, naõ deixa contudo de ser hum bom fundamento de caracteres genericos.
Pode haver huma nota singular commua a muitas especies, mas nem porisso se segue que devaõ sempre pertencer a hum so genero; pelo contrario, pode haver na maior parte das espocies de hum genero huma nota singular, que falte nas outras taõbem proprias do dicto genero, e naõ se segue porisso que se devaõ desmembrar, e com ellas constituir dois generos. [Página 313] Nestas circunstancias he precizo attender muito a analogia de todas as partes da fructificaçaõ, sem desprezar contudo o habito externo, e ter sempre presentes estas leys fundamentaes "que naõ se devem reunir plantas que convem so em poucas notas, sendo aliás muito dessemelhantes em todas as mais; nem taõbem que huma planta se deve separar das suas analogas em razaõ de huma nota, quando aliàs convem com ellas em todas as mais ou na maior parte."
No catalogo dos generos de huma ordem ou divisaõ systematica, deve haver cuidado de dispor proximos huns aos outros os que tem mais affinidade entre si, porque esta disposiçaõ naõ so facilita a achar os nomes das especies, mas presenta taõbem commodamente ao leytor as ideas de anologia, e encadeamento dos generos huns com outros, as quaes lhe saõ muitas vezes necessarias.
Tenho exposto em geral o que pertence às leys didacticas de huma disposiçaõ generica, restame tractar das que dizem respeito à denominaçaõ. Depois que hum Botanico descobrio ou formou hum genero, ou depois que observou que hum certo numero de especies convinhaõ no mesmo caracter natural, e por conseguinte pertenciaõ a hum so genero, segue-se imporlhe o nome. Este nome he chamado generico por ser geral e commum a muitas especies, ou idoneo a se lo no cazo que o genero tenha huma so especie; poem-se como titulo sobre huma descripçaõ generica ou caracter natural do genero, e se costuma taõbem pôr antes de qualquer nome trivial ou phrase especifica. Portanto todas as [Página 314] especies que convem no mesmo caracter generico, ou que formaõ hum so e mesmo genero, devem ter hum so e mesmo nome generico, e por conseguinte as que differem em genero devem ter hum nome generico differente.
Como o idioma universal, de que se servem os Botanicos, he o latino, o leytor entendera facilmente que eu somente me occuparei aqui em mencionar as regras relativas aos nomes genericos escriptos em latim, as quaes ce podem reduzir às seguintes.
Todo o nome generico genuino deve convir com igual propriedade a qualquer das
especies; a sua significaçam ou idea etymologica nam deve ser adequada a
humas especies e inadequada as outras congéneres: porisso os melhores nomes
genericos sam aquelles, cuja etymologia he desconhecida, ou cuja
significaçam nam allude á estructura, propriedades, usos vegetaes, &c.
mas so serve de conservar a memoria de alguma personagem benemerita
principalmente dos grandes Botanicos, e dos que se assinalaram em
protegelos, ou em promover a Botanica. Segundo Linneo os nomes genericos,
cuja significaçaõ envolve hum caracter essensial, ou hum destinctivo
habitual, podem ser considerados no numero dos melhores, taes como v. v.
o de adenanthera, e glycyrrhiza, o primeiro indicando o caracter
essensial de hum genero, cujas especies tem todas huma glandula nas antheras , e
o segundo indicando o destinctivo habitual de outro, cujas especies tem
todas a raiz doce: mas na supposiçaõ Nota
Esta hypòthese
he assaz possivel e conforme à doutrina de Linneo, que confessa que
hum caracter essensial pode deixar de o ser, descobertas novas
especies, e que huma nota singular pode convir ora a muitos generos,
ora somente á maior parte das especies de hum so genero. Vej. Phil.
Bot. de Charact.Nota
Chrysanthemum v. g. significa
etymologicamente flor cor d'oiro mas como a especie leucathemum he
hranca, se confiamos na etymologia, diremos: flor cor d'oiro branca,
o que he absurdo.
Donde se segue que senaõ devem usar nomes genericos fundados em
semelhanças das partes Nota
Principalmente as obscenas, e porisso senaõ devem imitar os
termos phallus, clitoria, orchis, &c.
O nome generico deve ser inteiro e naõ constituido por duas palavras separadas como v. g. dens leonis, porque esta separaçaõ he contraria á facilidade e simplicidade methodica. Linneo he de parecer que os nomes genericos substantivos saõ melhores do que os adjectivos, e que os diminutivos ainda que toleraveis naõ saõ os melhores, mas todos elles me parecem igualmente bons quando convem adequadamente a todas as suas especies, e guardaõ as mais leys necessarias.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto. Os nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies. He pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos. Naõ se devem taõbem formar dos nomes technicos [Página 319] ajuntandolhes huma ou duas syllabas como v. g. terminalia.
Os nomes genericos naõ devem ser escritos com lettras gregas, mas latinas;
naõ devem ser longos, difficeis de pronunciar-se ou malsoantes, como v.
g. callophyllodendron, acrochordodendros, caráxeron, mas curtos Nota
Naõ devem ter mais de doze lettras, segundo Linneo; no meu
parecer, nenhum nome generico ou especifico deve ter mais de cinco
syllabas.
Segundo Linneo os nomes genericos que se achaõ adoptados naõ se devem mudar
por outros mais competentes ou melhores, porque todos os dias achariamos
ainda outros mais adequados e jamais cessariamos de innovalos, se tivessemos
autoridade para isso. Esta idea parece-me ser acertada quanto aos bons
nomes genericos, que hoje se achaõ adoptados, e que [Página 320] competem com igual propriedade a todas as suas respectivas especies;
mas quanto aos que saõ maos ou vierem a selo, naõ vejo razaõ forte que
empeça de mudalos, em hum bom systema de nomenclatura, que fixe os nomes
de todos os vegetaes Nota
Este meu sentimento talves parecera estranho
a alguns Botanicos, mas eu espero de publicar em outro tractado o
modo com que elle se podera pôr em execuçaõ sem os inconvenientes
que se costumaõ commumente objectar.
Cada novo genero deve ter hum novo nome; mas se for preciso partir hum genero antigo em dois ou mais, o nome do antigo ficará, ás especies mais conhecidas, medicinaes, ou ás que melhor competir a sua significaçaõ etymologica, e as de mais especies do dicto antigo genero seraõ destribuidas debaxo de outro nome generico ou formado enteiramente de novo, ou tirado da synonymia das dictas especies, que se devem sempre preferir no cazo que seja bom.
[Página 321]As especies saõ a subdivisaõ do genero, assim como esta subdivide a ordem.
Toda a especie (species) he huma forma vegetal creada nos primitivos dias da
terra pelo Deos da natureza, e conservada em successivas reproducçoẽs de
plantas hermaphroditas, monoicas, dioicas, ou polygamas sempre
essensialmente semelhante. Esta semelhança naõ deve ser tomada em hum
sentido exactissimo, e em todos os accidentes, mas somente na estructura
essensial, porquanto he sujeita a variedades ou a certas differenças
accidentaes e de pouca duraçaõ. Donde se deduz que tantas saõ as formas
essensialmente diversas que hoje vemos, quantas saõ as especies. Estas
formas foraõ dadas no principio aos primeiros individuos de cada especie
juntamente com certas leys generativas; em razaõ destas leys tem sido
conservadas athe agora e seraõ perpetuadas em quanto existir a prole dos
dictos individuos; ellas jazem, pelo assim dizer, potencialmente retractadas
na estructura intima do corculo das suas sementes; este corculo ou conserva
a sua estructura propria e força germinativa, ou naõ; se naõ conserva estas
condiçoẽs perecerá infallivelmente, e se as conserva dara o producto que se
achava retractado na sua intima estructura, isto he, hum individuo que tenha
a mesma forma da planta materna que o gerou. O terreno e algumas outras
causas [Página 322] externas poderaõ fazelo desviar hum pouco da forma costumada, mas elle
seguira sempre as leys da sua estructura essensial ou conservará sempre
sufficientes notas caracteristicas da sua especie original. Se huma
planta por ex. varia nos fructos ou divisaõ das folhas , a forma do tronco, flores, sementes,
&c. apontaraõ a especie a que elle pertence. Donde resulta que podem haver muitas novas variedades, mas naõ especies
novas, nem Nota
As transformaçoẽs das sementes saõ assaz desmentidas pelas razoẽs
mencionadas; alem disso naõ consta que nos jardins Botanicos
aonde ha muitas mil plantas jamais se tenhaõ observado; as
disseminaçoẽs clandestinas e a germinaçaõ das sementes que
estiveraõ alguns annos occultas illesamente debaxo da terra saõ
certamente a causa occasional de semelhantes enganos.
As especies tem seus caracteres, assim como os generos; estes caracteres saõ
chamados especificos: os dos generos devem, segundo Limneo, ser tirados so
das partes da fructificaçaõ, mas os das especies podem ser deduzidos de
todas as partes da planta. Os caracteres especificos saõ de tres sortes ou
essensiaes, ou synopticos, ou naturaes; os dois primeiros presentaõ em huma
phrase (posta depois do nome generico) as principaes notas constantes, pelas
quaes huma planta differe de todas as outras conhecidas no mesmo genero; o
ultimo contem em muitas phrases o de talhe exacto de todas as partes de huma
planta quer seja solitaria no seu genero, quer acompanhada de outras
congeneres conhecidas. O caracter essensial he fundado em huma nota
singular differencial, propria de huma so especie, e enunciada em duas
ou tres [Página 323] palavras, como v.g. tanchagem de hastea uniflora, betula de folhas redondas, e crenuladas;
quando se pode descobrir este caracter, deve-se extinguir o synoptico,
como mais extenso, e se nos o podessemos obter em todas as especies, a
sua brevidade, facilidade e certeza poriaõ certamente a Botanica no seu
summo grao de perfeiçaõ. O caracter synoptico he fundado em huma aggregaçaõ de notas
destributivas, das quaes humas convem ás especies proximas, outras
differem dellas, mas achando-se reunidas em huma somente a fazem
destinguir de todas as mais congeneres conhecidas, como v.g. quando
dizemos: salgueiro de folhas serreadas, glabras, ovadas, agudas, e quasi rentes. Vêse claramente
que este caracter he sempre mais extenso do que o essencial, mas quanto
menos extenso for, tanto melhor sera, contanto que a sua brevidade o naõ
faça ficar insufficiente, defeito que alguns Botanicos notaõ nalguns das
especies do systema de Linneo. Ordinariamente costuma ser annunciado por
doze athe quatorze vocabulos quando muito, e com effeito parece que este
numero he sufficiente aos caracteres synopticos ainda considerados na
sua maior extensaõ; porquanto supponhamos por ex. que hum genero he
vastissimo e consta de cem especies (o que he rarissimo); todas estas
especies por hum methodo synoptico seraõ quando muito divididas 1º em
duas vezes 50 Nota
Se ellas saõ susceptiveis de se dividir 1º. v. g. em tres partes
como 26, 34, 40, he claro que as subdivisoẽs daraõ ainda menos
vocabulos. Nota
Ponho 13 em lugar de 13 mais 12 por evitar prolixidade nas
subdivisoẽs posteriores, entendendo-se facilmente que 13 deve
ser dividido em 7 e 6, e 12 em duas vezes 6 e assim dos
mais. Nota
(N...) lugar do nome generico.Nota
A razaõ que elles costumaõ dar ordinariamente he, que as longas
descripçoẽs saõ fastidiosas e naõ se lêm; mas deveraõ reflectir
que as descripçoẽs breves ou phrases synopticas e essensiaes saõ
sujeitas a mudanças e a serem insufficientes em novos systemas
ou descobertas novas plantas; e que pelo contrario hum caracter
natural especifico bem delineado he immudavel, e como tal se
recorrera sempre a elle, e sera sempre lido por todos os
verdadeiros Botanicos, ainda que o naõ seja pelos que so querem
ter huma noticia superficial de Botanica. Vale mais gastar
muitos annos, e fazer obras solidas do que edificar sobre a area
apressadamente só por granjear em pouco tempo o nome de
architecto. Nota
Como v. g. Mathiola de folhas asperas, hum tanto redondas, e de fructo
denigrido: assim especificada pelo Padre Plumier, celebre
botanico d'Elrey de França no serviço da America. Nota
Como saõ o Species plantarum, e o Systema vegetabilium de
Linneo. Nota
Este caracter como involvendo em si todas as
notas da fructificaçaõ e mais partes do habito externo, satisfaz
completamente a ambas as relaçoẽs de genero e especie, debaxo das
quaes se podem considerar semelhantes plantas solitarias. Eu
tractarei mais particularmente deste sujeito na minha Specinomia
vegetabilium.
As notas differenciaes, em que se costumaõ fundar os caracteres essensial e
synoptico, saõ tiradas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ das partes
constantes ou menos sujeitas a variar. As raizes podem subministrar
excellentes notas destinctivas, mas como ordinariamente senaõ podem metter
nos hervarios, e que para as poder observar he precizo sempre arrancar a
planta, o que senaõ deve fazer nos jardins, naõ devemos recorrer a ellas
senaõ no cazo urgente de naõ ter outros meyos de bem destinguir as especies,
como succede por ex. nas orchideas. Podemos, em lugar dellas, servirnos
dos troncos, ramos, pedunculos, peciolos, e principalmente das folhas , as quaes fornecem
ordinariamente as mais bellas, e naturaes differenças. Os gomos,
bolbilhos sobreradicaes, as armas, bracteas, estipulas, glandulas, e a [Página 328] inflorescencia ou disposiçaõ das flores podem taõbem dar-nos muitas vezes
excellentes sinaes destinctivos. O cotanilho, felpa e pêlos saõ
ordinariamente empregados nos caracteres synopticos como notas
concomitantes; ellas saõ contudo as menos seguras, porque costumaõ
falhar ás vezes em razaõ da cultura, terrenos e idade das plantas Nota
Todas as vezes que os individuos naõ tiverem outra differença
mais do que os pêlos, naõ se devem reputar por differentes especies,
assim o Thymus serpillum e glabrum saõ sò variedades da mesma
especie; a Herniaria glabra e hisurta, de que Linneo fez duas
especies, parecem taõbem ser somente variedades, e talvez ainda
muitas outras.Nota
A viola mirabilis ainda que dá
na primavera flores radicaes petaleadas, como no estio todas as suas
flores caulinas saõ despetaleadas e dellas resulta o fructo, a falta
de corolla foy julgada ser huma excellente nota para a caracterizar
especificamente.Nota
Os sexos separados saõ postos no numero das variedades
naturaes pelos Botanicos modernos. Os antigos antes de Camerario naõ
tendo hum exacto conhecimento dos sexos, davaõ ás vezes o nome de
macho á planta, que pensavaõ ter mais virtude medicinal ou ser mais
vigorosa do que outra intimamente analoga, e esta porisso mesmo que
tinha menos virtude, vigor, ou extensaõ era segundo elles denominada
femea; daqui procederaõ os erros de darem os dictos nomes ás
hermaphroditas, e ás cryptogamicas de sexo obscuro, como v. g.
paeonia mas, paeonia faemina, filix mas, filix faemina, &c, e de
chamarem masculas as que eraõ femininas e vice versâ, como se vê no
canamo e mercurial.
A cor varia muito na mesma especie; a raiz da cenoira ora he
amarella ora vermelha ou branca; as do rabaõ radisio huma vezes he
branca outras denigrida; as folhas da mesma especie de aquifolio, buxo, persicaria,
amarantho papagayo, &c. ora saõ inteiramente verdes ora variegadas;
na faya, na alface e armoles hortense saõ ou verdes ou vermelhas, e nas
couves naõ deixaõ taõbem de haver exemplos de [Página 330] mudança de cor nas folhas . Mas nenhuma parte be mais sujeita a variar de cor na mesma especie do que
a corolla passando ora a cores mixtas ora a cores simplez, de que temos
exemplos nos jacinthos, tulipas, rainunculos Nota
Tournefort contou em huma sò especie de jacintho 36 variedades,
93 em huma especie de tulipa, e mais de 200 em huma de
rainunculo. Nota
Esta regra geral he sujeita a algumas excepçoẽs no parecer de
alguns Botanicos; algumas especies de Lichen e Agaricus segundo
elles, naõ se podem bem destinguir sem empregar os caracteres
fundados nas cores, e as divisoẽs synopticas das especies de
gnaphalium e achillea, fundadas na cor branca e amarella das
flores, saõ bem acertadas, e seguras; elles pensaõ que ha flores
de cores fixas, e muitas que rarissimamente mudaõ de cor; que
por conseguinte naõ ha razaõ sufficiente para naõ as empregarmos
nos caracteres synopticos; segundo elles, Linneo estabeleceo a
este respeito huma regra nimiamente severa, e devera attender
que muitas das notas tiradas da determinaçaõ das folhas , e direcçaõ do
tronco, que elle admittio geralmente como excellentes, saõ
algumas vezes menos seguras do que as cores de algumas flores.
Os cheiros como variaõ segundo os olfactos de differentes individuos, e naõ saõ susceptiveis de se poderem bem definir, naõ podem subministrar destinctivos claros das especies, nem ainda mesmo os que saõ denominados cheiros comparativos ou allusivos aos das plantas mais conhecidas; como v. g. ao do limaõ, herva doce, herva cidreira, cravo, canella, &c. Os sabores variaõ taõbem naõ so segundo os diversos organos gustativos, e idades de cada individuo, mas ainda segundo os terrenos e climas, e emfim podem ser adoçados e abrandados pela cultura: donde se collige que devem ser excluidos dos caracteres synopticos e essensiaes; demais disso as observaçoẽs gustativas saõ arriscadas, havendo algumas plantas, de que basta que hum modico succo toque a lingua para envenenar.
Os defeitos procedidos de enfermidade, mutilaçaõ, de viço ou monstruosidade em qualquer parte que se achem nas plantas saõ incapazes de poder servir de notas em caracter algum especifico; as flores dobradas, semidobradas, proliferas e mutiladas devem somente ser consideradas como notas naõ naturaes, que so podem caracterizar huma variedade de especie: alem disso as plantas, a que ellas pertencem, sendo originarias das especies naturaes, conservaõ sempre os sufficientes destinctivos da sua propria [Página 332] especie, e da mesma sorte que hum monstro naõ constitue especie entre os animaes, assim taõbem entre os vegetaes.
As virtudes e tisos diéteticos, medicinaes, e economicos, como naõ constituem partes das plantas, nao devem ser fundamento de caracteres especificos, ainida que possaõ entrar nas descripçoẽs historicas das es pecies; donde se segue que saõ erroneos todos os termos empregados nas phrases especificas destinados a indicar as virtudes e ussos, como v. g. purgativo, antiscorbutico, officinal, usual, venenoso, mortal, sadio, saudavel, dormideira, furioso, alimentar comestivel, bom para bassoiras, penteador, usado dos tintureiros, bom para tintas, &c., &c.
Os diversos climas, paizes e quaesquer lugares relativos á habitaçaõ das
plantas, como sendo-lhes accidentaes, naõ podem subministrar boas notas
especificas. Alem disso as plantas que se daõ em huma parte do nosso globo
podem-se dar em outra; temos exemplos de muitas especies naturaes da
Lapponia e Siberia, as quaes se achaõ igualmente no Canadá, outras que naõ
saõ mais particulares á Europea do que á Africa, e outras emfim que sendo
indigenas da Asia nascem naturalmente taõbem na America; as mesmas especies,
que se daõ nas lagoas, achaõ-se ás vezes nas altas montanhas; ha algumas que
se daõ tanto nos charcos como nos bosques, e outras que saõ raras em hum
paiz e abundantes em outro. Os que vem huma grande collecçaõ de plantas de
todas as partes da terra em hum jardim Botanico, ou em hum copioso hervario
de plantas seccas ou estampadas, e dezejaõ descobrir o nome de huma planta [Página 333] ou estudala por hum systema, so se podem servir dos termos relativos à sua
estructura, ficando-lhes indifferentes ou superfluos todos os que dizem
respeito, á sua habitaçaõ. Donde resulta que os termos geographicos, e todos
os que saõ relativos á habitaçaõ das plantas, naõ devem entrar em caracter
algum especifico, e que por conseguinte saõ erroneos os de Africana,
Europêa, Asiatica, Americana, occidental, oriental, austral, Portugueza,
Hespanhola Nota
Este defeito ficou nos nomes triviaes.
Os tempos de crescer, e florecer, como sujeitos a mudar e accidentaes ás plantas, naõ podem ser fundamento de notas especificas, e por conseguinte se empregariaõ erradamente nos caracteres especificos os termos de serodeo, temporaõ, da primavera, outono, estio, inverno, de Março, Mayo, de todos os mezes, de huma hora, que florece de noyte, &c.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura. Pelo contrario, a grandeza relativa, por meyo da qual as partes da mesma planta saõ comparadas humas com as outras, subministra notas assaz seguras, e se pode adequadamente empregar nos caracteres essensiaes e [Página 334] synopticos, pode-se por ex. caracterizar muito bem huma especie de lobelia, dizendo que ella tem pedunculos curtissimos e o tubo da corolla compridissimo. A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c. Donde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c. Da mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c. Nem sera menos vicioso usar de diminutivos e das termimçoẽs em oide ou forme, como v. g. genciana gencianella, isto he, pequena genciana que se assemelha á grande, couve asparagoide ou asparagiforme, isto he, couve que se asselha na forma ao espargo.
Todos os termos empregados nas phrases especificas, ou destinados a
exprimir as notas caracteristicas, devem ser claros, breves, e proprios
naõ se de vem por conseguinte usar os figurados, como v. g. dizer urtiga
morta ou fatua, em lugar de inerme, gentil por muito cheiroso, de flor
ou de folha por flores ou folhas , &c. Saõ igualmente improprios todos os que
saõ deduzidos de huma ordem numeral, como v. g. rainunculo primeiro,
segundo, terceiro, &c. e os que exprimem o nome de alguma personagem
como v. g. trevo de Gaston, narcizo de Tradescancio, &c., porque
semelhantes nomes naõ daõ ideas de nota alguma que se acha na planta. Da
mesma sorte os que saõ fundados em hypotheses, como v. g. dictamno
verdadeiro, falso, ou bastardo, e os que daõ ideas vagas e muito
arbitrarias, como v. g.. flores lindas, feas, &c. Nenhum adiectivo deve
ser usado sem ter antes hum substantivo technico Nota
A technelogia viria
por este modo a ser inconstante e muito vaga, o que seria defeito;
porquanto deve ser fixa, em razaõ de se oppor á corrupçaõ da sciencia,
conservando a certeza e clareza da sua linguagem.Nota
Este e outros muitos defeitos ficaraõ nos triviaes, de que usa
Linneo no seu Species plantarum, nomen clatura, que
ordinariamente se oppoem a que as leys da boa critica
estabelecidas pelo mesmo Botanico naõ sejaõ uniformes.
Ha contudo alguns nomes compostos das particulas privativas latinas e,
in, ou do a priativo grego Nota
Como v. g. enervis, enodis, eglandulosus, inermis, indivisus,
impunctatus, inarticulatus, acaulis, &c; alguns destes
termos podem traduzir-se pelas palavras Portuguesas compostas da
particula des. Nota
Como v. g. muticus, nudus.
Todos os termos assimilativos, isto he, destinados a exprimir
semelhanças, naõ devem ser usados nas phrases especificas, porque he
rarissimo que o asse melhado represente o seu simile perfeitamente, e
demais disso este fica muitas vezes sendo obscuro como v.g. se
dicessemos: folhas semelhantes
ás segures Romanas. Devem-se contudo exceptuar os que se achaõ definidos ou geralmente
adoptados, e os que saõ decentemente Nota
Vej. a Nota relativa aos termos assimilativos destinados á
descripçaõ dos caracteres genericos.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro. Naõ devem constar de termos superfluos, como seriaõ por ex. os que indicassem todas as variedades, ou se opposessem a ellas; nem ser taõ succinctas, que lhes faltem [Página 339] os termos sufficientes para bem caracterizar a especie. Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces. A conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas. Quando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa. O parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem. Como o caracter natural de qualquer especie exige ser descripto em muitas phrases, segundo as differentes partes de que consta; cada phrase deve ser posta separadamente para maior clareza, como exporei mais particularmente, quando tractar da descripçaõ das plantas.
Antes de Linneo as especies eraõ somente nomeadas com o seu caracter
synoptico ou essensial, posto immediatamente depois do nome generico; e em
razaõ disto todos os termos que nelles entravaõ, e ainda os mesmos
caracteres eraõ chamados nomes especificos (nomina specifica). Elle
conservou a mesma accepçaõ, e uso; mas vendo que naõ era possivel de
retelos de còr, e que eraõ sujeitos a mudança, descobertas novas
especies, imaginou de pôr entre elles e o nome [Página 340] generico hum termo Nota
As vezes saõ mais, como v. g. Impatiens noli me tangere: Panicum
crus galli, &c; mas isto he raro. Nota
Eu publicarei na minha Specinomia vegetabilium as regras, a que
os triviaes se podem sujeitar, e proporei hum systema de
nomenelatura invariavel em todas as destribuiçoẽs methodicas ou
systemicas, que se possaõ imaginar em Botanica.
Quanto á disposiçaõ das especies, facilmente se entende pelo que tenho dicto neste capitulo, que as que tiverem mais affinidade entre si devem estar mais conchegadas.
[Página 342]Huma variedade em Botanica (varietas), he huma forma vegetal desviada accidentalmente, por alguma causa occasional, da forma primitiva creada de que he originaria; ou para o dizer mais breve, he a especie accidentalmente mudada depois da creaçaõ. Eu não incluo nestas definiçoẽs as variedades naturaes creadas, que consistem nos sexos, mas fallo taõ somente das variedades casuaes que tem havido, ha, e podem ter lugar nas reproducçoẽs das especies primitivas. As variedades naturaes creadas saõ huma estructura vegetal creada em tudo identica a outra, mas differente no sexo ou n'alguns accidentes. Suppondo pois, como he provavel, que o Autor da natureza creasse no principio n'algumas especies vegetaes os dois sexos individualmente separados, assim como nas especies dos animaes; as variedades naturaes creadas saõ por conseguinte taõ antigas como a sua especie; porquanto consistindo a especie nas partes da estructura em tudo identicas e commuas aos dois sexos, e sendo as variedades naturaes creadas fundadas nestas mesmas partes acompanhadas da differença sexual, estas so por abtracçaõ methaphysica e naõ por ordem de tempo se podem perceber separadas da sua especie. Mas na hypothese de que todas as especies, que saõ hoje dioicas, foraõ creadas hermaphroditas, e [Página 343] que huma causa occasional, alguns seculos depois da creaçaõ, as tornou dioicas, neste cazo a unisexualidade somente deve constituir huma variedade casual, e naõ na tural creada.
As variedades saõ taõ proprias do reyno vegetal, como do animal; porque assim
como vemos na mesma especie canina, caẽs d'agoa, de fila, perdigueiros,
galgos, sabujos, &c., &c. assim taõbem opservamos na mesma especie
de pereira, as que daõ peras bojardas, carvalhaes, flamengas, do conde,
gervasias, pardas, &c.; e notamos na mesma especie de murriaõ plantas de
flores escarlatas e outras de flores azues. Todas estas variedades saõ
reputadas em hum e outro reyno por casuaes Nota
Se admittissemos a
hypòthese (que se tem por improvavel) de que algumas das variedades
de caens, pereiras, e as duas dos murrioẽs acima mencionadas
existiraõ em diversos lugares da terra no mesmo tempo primitivo da
creaçaõ da sua especie, ou de que saõ taõ antigas como ella, neste
cazo ficariaõ sendo variedades naturaes creadas pela razaõ de terem
sahido das maõs do Autor da natureza taes como as vemos hoje, ou
terem nascido immediatamente taes dos germes que elle creara, e naõ
serem occasionadas pelos terrenos, climas, &c. nas consecutivas
reproducçoẽs.Nota
Os ventos, chamados pelos sexualistas, conductores dos prazeres
ou dos amores das plantas, podem taõbem ser contados entre as
causas das variedades, e ainda mesmo as abelhas (segundo Hales)
pela razaõ de levarem comsigo de flor em flor o po fecundante de differentes especies de antheras . Nota
Na sua idade vigorosa tem as folhas lobadas , e
algumas ovadas, mas na velhice todas saõ ovadas, e o tronco he
arboreo.
Os Botanicos ordinariamente naõ costumaõ fazer mençaõ nos seus catalogos systematicos das variedades de cada especie, e apenas indicaõ algumas: elles pensaõ que jamais poderiaõ terminar os dictos catalogos, se emprehendessem de mencionar todas as variedades do reyno vegetal, e que ainda no cazo que fosse possivel terminalos, o estudo de Botanica ficaria summamente longo e fastidioso. Naõ negaõ contudo 1º, que se devaõ bem conhecer e conservar as que saõ uteis e agradaveis; 2º que se deva saber, destinguir o que he variedade do que he especie. Quanto ao primeiro artigo, deixaõ esse trabalho aos Autores que tractaõ da Botanica applicada às artes de pharmacia, de materia medica, horticultura, jar dinagem, e qualquer outra parte de agricultura, quanto ao segundo artigo confessaõ que sem a dicta distinçaõ se multiplicaria erroneamente o numero das especies, o que se opporia á clareza e brevidade methodica, que exige o estudo dos vegetaes; elles deraõ por conseguinte algumas regras tendentes a destinguir as variedades das especies, as quaes da mesma sorte que as que foraõ referidas no capitulo precedente, aindaque estaõ talvez bem desviadas da perfeiçaõ, a que hum mais profundo estudo da natureza as poderá conduzir, devem contudo ser presentadas aos que se daõ à Botanica, por naõ terem por especies entes, que dellas so differem levemente.
Todo o viço ou monstruosidade, que tem lugar no [Página 345] numero, figura, proporçaõ ou situaçaõ das partes de qualquer vegetal,
constitue huma variedade; e assim como no reyno animal hum monstro ou hum
eunucho somente saõ individuos imperfeitos da sua especie, assim taõbem o
saõ as plantas monstruosas e eunuchas, como as que daõ flores dobradas,
semidobradas, proliferas, e mutiladas. Todas as plantas enfermas,
mestiças, ou mulinas, Nota
Vej. o que disse a respeito destas plantas nos seus Cap.
respectivos.
Reduzir as differentes variedades á mesma especie he hum trabalho algumas
vezes muito mais difficil do que ajuntar as especies debaxo do mesmo genero.
Muitas vezes basta o caracter da especie para fazer reconhecer a variedade;
mas ha algumas variedades que exigem muitas reflexoẽs e experiencia,
requerem hum attento exame de todas as suas partes, ainda as mais miudas, e
huma combinaçaõ destas com as das suas congeneres e às vezes com as das
especies do genero vizinho, para se poderem reduzir á especie de que emanaõ. Ha algumas especies e ainda mesmo familias inteiras, em que os
individuos so costumaõ variar na raiz ; ha outras, em que
elles variaõ nas folhas ,
grandeza do tronco e ramos, na cor e pelos; e ha outras emfim, cujos
individuos somente soffrem mudanças nas flores ou fructos. Naõ se
devem jamais perder de vista as causas occasionaes; muitas plantas [Página 346] indigenas das montanhas, e que nessas costumaõ ter o tronco postrado, se
encontraõ muitas vezes em outros lugares differentes com o tronco levantado;
algumas amphibias saõ curvadas dentro d'agoa e levantadas fora della; o
rainunculo bolboso tem o tronco levantado, quando habita nas encostas dos
oiteiros expostas ao sol, e he pelo contrario reptante nos lugares humidos e
sombrios. Os sitios montanhosos fazem que as folhas inferiores sejaõ mais inteiras e as
superiores mais divididas; os lugares humidos fazem de ordinario fender
as folhas inferiores, e os
seccos as superiores. Ha alguns terrenos que fazem as folhas rugosas, bolhosas, e franzidas; outros que lhes fazem
perder os pelos. De todas as causas occasionaes a cultura he a que me parece contribuir
mais para à producçaõ das variedades; ella muda as folhas em crespas, ondeadas, e repolhudas, falas
maiores, abranda o seu amargor, e igualmente o acido e acerbo dos
fructos, torna-os succulentos de quasi exsuccos, e faz
perder os pelos aos troncos e ramos, a sua escabrosidade, e ainda mesmo
os seus espinhos. He precizo pois remontar a estas e outras causas
occasionaes para podermos, em cazo de duvida, decifrar huma variedade; se
conjecturamos v. g. ser a cultura e terreno a causa da mudança accidental da
especie, semeemos ou transplantemos a planta degenerada no seu terreno
natural, e veremos que abandonada ao estado inculto tornarà mais cedo ou
mais tarde à sua estructura e condiçaõ especifica. Esta experiencia he
necessaria algumas vezes relativamente áquellas variedades, que saõ
constantes em muitas geraçoẽs, e se continuaõ por sementes, de maneira
que parecem [Página 347] especies, como saõ v. g. as que daõ em nossos jardins e hortas flores
semidobradas, folhas repolhudas,
crespas, Nota
Ha plantas contudo, cujas folhas no terreno natural saõ crespas, e Linneo se
servio dellas no caracter synoptico da malva crispa, mentha
crispa, &c.; mas ha outras que elle julgou variaveis, e por
conseguinte so proprias para constituir variedades, como as da
chicoria crespa, tanacetum crispum, a matricaria crespa,
&c. Nota
As pereiras, maceiras, amexieiras, &c. sendo plantadas nos
matos, e deixadas á ley da natureza costumaõ dar fructos menos bons
do que as cultivadas; e aindaque naõ temos hum sufficiente numero de
experiencias que nos demostre o seu estado retrògrado sendo semeadas
repetidas vezes nos matos, ha contudo grande probabilidade que
depois de varias geraçoẽs tornariaõ á sua especie primitiva
sylvestre, de que tinhaõ emanado.
Os Botanicos quando querem indicar as partes ou notas variaveis que
constituem as variedades de huma especie, costumaõ algumas vezes
mencionalas depois do caracter especifico vistoque as differenças
especificas Nota
As especies e variedades, que a natureza lança do seu
seyo fecundo, tem caracteres, que se devem considerar como geraes
nas primeiras, e particulares nas segundas; porque se posessemos hum
caracter variavel por especifico, seguirse-hia que apparecendo-nos
hum individuo, que naõ tivesse o dicto caracter variavel, aindaque
fosse da mesma especie original, naõ o poderiamos reconhecer antes o
teriamos por huma nova especie, donde resultaria multiplicarmos
entes sem necessidade, e formarmos muitas especies falsas. Pelo que
todas as vezes que hum Botanico tiver a menor duvida, se huma planta
he especie ou variedade, deverá sempre indicar a sua duvida, quando
fizer mençaõ della, por ver se a experiencia de outros o
illumina.
M. dos alqueives. Com folhas indivisas; caule estirado. Varia nas flores, sendo as suas corollas ora escarlatas, ora azues, e algumas vezes tambem variegadas de branco e purpureo.
Em lugar de dizer:
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.
Donde se vê que às notas variaveis devem ser pospostas ás especificas, no cazo que dellas se haja de fazer mençaõ. Os nomes que exprimem estas notas nas phrases especificas saõ por alguns Botanicos chamados variantes (variantia); mas para fallar com propriedade, o nome variante so me parece devera ser chamado aquelle, que se posesse depois do trivial, [Página 349] como v. g. seriaõ os termos verde, repolhuda, e murciana na nomenclatura seguinte:
Couve hortense verde.
Couve hortense repolhuda.
Couve hortense murciana.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.
A descripçaõ das pantas ou he analytica ou historica. Descrever huma planta analyticamente he dar ideas expressivas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ de todas as partes, de que consta o seu caracter natural; descrevela historicamente he dar a descripçaõ analytica e alem disso tudo o que diz respeito à mesma planta, sem embargo de naõ ser parte constitutiva do seu caracter natural Botanico.
A descripçaõ analytica deve ser feita no lugar, em que a planta nasce e
habita naturalmente, e naõ nos jardins, aonde a cultura a pode fazer variar
ella abrange todo o estado progressivo da planta [Página 350] desde a sua germinaçaõ athe à madureza e quéda das sementes, sem
desprezar a menor parte do habito externo nem as minimas da fructificaçaõ,
que precizaõ de huma lente para bem se divisarem (o que succede poucas
vezes). Cada huma das dictas partes deve ser exposta com termos technicos, e
em paragraphos separados por evitar confusaõ. Quando observarmos alguma
variedade, notala-hemos no paragrapho da parte, a que ella for relativa. Devem-se omittir as circumstancias que dizem respeito á physiologia,
e historia da planta, por serem consideradas como superfluidades nas
phrases de huma descripçaõ puramente analytica Nota
Estas circumstancias devem reservar-se para a descripçaõ
historica; ha contudo algumas, que sem embargo de pertencerem
rigorosamente á descripcaõ historica naõ deixaõ de ser por
alguns Botanicos mencionadas de passagem na analytica, como saõ
por ex. a irritabilidade da Dionaea muscipula e Sensitiva, as
cores dos succos, e a consistencia destes mesmos succos, ou
resinas e gomas, quando saõ vertidas da casca sem aberturas
artificiaes. Nota
O
Philos. Botan. Num. 326-330.
Descripçam Analytica da Tilha da Europa Nota
Tilia Europaea, Lin. Nos damos taõbem a esta arvore o nome de til e de telha.
Germinaçam********* Nota
Linneo naõ fez mençaõ da disposiçaõ das cotyledones, da figura
das folhas seminaes, e
de tudo o que pertence ao estado da germinacaõ das sementes;
isto he hum defeito, porque toda a descripçaõ analytica deve
começar por este estado da planta, e quando naõ houver occasiaõ
de o observar, deve-se indicar do modo acima expresso, para que
outros que tiverem esta occasiaõ nolo descrevaõ.
Radicaçam. Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.
Tronqueadura. Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.
Gomoscencia. Gomos alternos, covados, estipularesfolheares, formados de quatro ou cinco escamas ovadas, obtusas, levemente enroladas para dentro, e hum tanto carnudas na base; as duas externas saõ menores e desiguaes.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.
[Página 352]FOLHEATURA. Nota
Eu tomo aqui este termo em huma accepçaõ mais extensa do que Linneo
lhe costumava dar, entendendo por ella naõ so a disposiçaõ, que tem
as folhas tenras dentro dos
gomos e no seu brotamento, mas ainda todo o estado das folhas adultas e seus
peciolos.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.
Peciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .
Inflorecencia Nota
As bracteas e pedunculos, como partes as mais chegadas ás flores, e
fundamento da sua diversa disposiçaõ, saõ com propriedade postos
aqui debaxo da divisaõ da Inflorecencia.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.
Pedunculos solitarios, laterifolios, mais compridos do que o pecioso,
filiformes, recompostos; os communs ou primarios tripartidos, os
secundarios lateraes taõbem ordinariamente tripartidos, e o medio [Página 353] indiviso, de modo que todos vem a soster sette flores Nota
Estas divisoẽs do pedunculo commum, e o numero das flores variaõ
muito.
Flores racimosas, e elevadas quasi á mesma altura.
Fructificaçaõ.
Calys. Perianthio partido em cinco lacinias concavas, de cor aloirada, quasi da grandeza das petalas, e decadentes.
Corolla. De cinco petalas oblongas, obtusas, pallidas, e crenadas no cume.
Estames. Filetes numerosos, de trinta athe quarenta, assovelados, do comprimento da corolla, e apegados ao receptaculo. Antheras hum tanto globosas.
Pistillo. Germe hum tanto globoso e cotanilhoso. Estylete filiforme, e da altura dos estames. Estigma obtuso e pentágono.
Pericarpo. Huma capsula cotanilhosa, globosa pentagona, de cinco cellulas, e cinco valvulas coriaceas, as quaes costumaõ arbrtrse pela base.
Sementes. Solitarias e hum tanto globosas: saõ dycotylẽdones, e contem no centro o corculo guarnecido de hum asterisco de cinco lacinias quasi iguaes.
N. B. Ordinariamente quatro sementes abortam, de modo que a capsula fica sendo de huma so cellula e contem sò em si a unica semente, que costuma medrar.
[Página 354] A descripçaõ historica de huma planta, ou segundo outros a historia
natural de huma planta comprehende alem da sua descripçaõ analytica, a
synonymia, etymologia do seu nome usual, habitaçaõ cultura, o tempo
vegetativo, o tempo de sono e vigilias das suas folhas e flores, a sua estructura interna ou
natureza considerada physiologica e chymicamente, os seus usos
mediornaes e economicos, e emfim a sua figura bem estampada. He verdade que ordinariamente huma descripçaõ historica naõ contem todas
estas circumstancias, e se limita so em conter a descripçaõ analytica,
synonymia, habitaçaõ Nota
A synonymia e habitaçaõ, como circumstancias as mais necessarias,
costumaõ taõbem por se nos catalogos das especies depois dos
caracteres synopticos ou essensiaes.
A synonymia he hum aggregado de citaçoẽs dispostas em paragraphos
separados e successivos, nos quaes se indicaõ naõ so os diversos nomes,
caracteres synopticos, essensiaes, ou Nota
A synonymia he ordinariamente muito limitida e imperfeita nos
catalogos systematicos a respeito das variedades, o que
certamente he hum defeito, porquanto a noticia das variedades
serve de conservar o verdadeiro caraeter da especie sem
obecuridade nem consusaõ, e contribue para fazer evitar enganos
de ter por especie o que so he variedade. Nota
O infatigavel Gaspar Bauhino vendo que muitos nomes davaõ ideas
de muitas differentes plantas, e que por conseguinte causavaõ
huma grande confusaõ no estudo dos vegetaes, emprehendeo de se
oppor a este inconvemente, e nos deo no seu Pinax hum bom
tractado de synonymos, o qual foy depois continuado por
Sherardo, Dillenio, e Sibthorpio; mas este tractado esta ainda
bem distante da sua perfeiçaõ.
A noticia da habitaçaõ das plantas he taõbem de grande utilidade; ella serve de indicarnos o lugar aonde as podemos ir buscar para os nossos herva rios, afim de conservarmos o claro conhecimento dellas em successivos tempos, mostra nos aonde as podemos ir colher para os differentes usos medicinaes e economicos, instrue nos sobre a qualidade do terreno que lhes he proprio (estabelecendo nisto o principal fundamento da agricultura), e emfim conven cenos que naõ ha na terra lugar algum inteiramente esteril, ou que taõ somente ha lugares estereis relativamente a esta ou aquella planta, mas naõ a todas. Donde resulta que na deseripeaõ historica de qualquer planta a noticia da sua habitaçaõ he absolutamente necessaria.
O tempo vegetativo inclue 1º o espaço de tempo em que a semente de huma
planta jaz debaxo da terra, desde o dia em que foy semeada athe áquelles
em que a plantula seminal, rebentados os tegumentos, brota fora delles,
e a sua plumula começa a apontar á flor da terra; este espaço he chamado
por alguns Botanicos tempo da germinaçaõ ou incubaçaõ das sementes Nota
Germinatio, seu incubatus seminum. Alguns Botanicos assignaõ
tres sortes de vida ao germe ou corculo das sementes: huma
comaterna, que elle recebeo e conservou na planta que o produzio,
vegetando com ella athe ao estado de plena madureza; outra inactiva
por meyo da qual conserva illesa a sua estructura, a vis productiva
e vegetativa, sem contudo vegetar pela razaõ de que o movimento dos
seus fluidos he nimiamente lento, e as suas funçoẽs vitaes estaõ
muito entropecidas e adormentadas em certo modo como as das cobras,
lagartos, formigas, &c. durante o inverno, no qual parecem
mortos; esta sorte de vida, segundo elles, he a que tem o germe
desde a quéda das sementes athe á germinaçaõ exclusivamente; outra
emfim germinativa, que começa na germinaçaõ. Zullingero admitte
nestes tres differentes estados das sementes huma especie de
fermentaçaõ continuada, querendo que ella comece na fecundaçaõ, e
que no segundo estado sirva de aperfeiçoalas e dispolas para receber
os succos da terra, que contribuem para à germinaçaõ, accrescentando
que se este entrevallo for longo ou a fermentaçaõ nimiamente
prolongada destruirá a vis vegetativa dilatando-lhes os vazos athe
rompelos e fazendo evaporar as particulas oleosas. Mas este segundo
estado vital, e de fermentaçaõ parecem ser demasiadamente
hypotheticos; a dureza e seccura, que observamos entaõ nas sementes,
naõ nos indicaõ que nellas haja movimento de succos nem funçoẽs
vitaes, e por conseguinte so se lhes pode admittir vida, tomando a
idea desta palavra em hum sentido nimiamente amplo. Pelos mesmos
motivos naõ parece que haja antes da germinaçaõ movimento algum
intestino, e se o houvesse concorreria tanto para a fermentaçaõ como
para a putrefacçaõ. Portanto todo o movimento fermentativo que tem
lugar na germinaçaõ he inteiramente novo. Quando as sementes se
achaõ debaxo da terra, e que a humidade penetrando pelos poros dos
seus tegumentos, ou pela sua cicatriz umbilical, faz amollecer o
corculo e as cotylédones, ajudada do calor conveniente, a sua
substancia farinosa tornase pouco a pouco em lactea, e se percebe
nelles hum sabor mais doce e hum cheiro particular; todos estes
phenomenos indicaõ huma mistura interna das suas partes
constitutivas occasionada por hum movimento intestino, e como elles
senaõ observaõ de modo algum antes que a humidade e phlogisto
competentes tivessem entrado no germe e cotylédones, o movimento,
que he hum effeito destas causas, he inteiramente novo assim como
ellas o saõ nas sementes.Nota
Na preflorescencia se deverá taõbem fazer mençaõ, se a planta
florece duas ou mais vezes no anno, e em que dias e mezes. Nota
Notar-se-ha taõbem na frutescencia, se a planta da duas ou mais
vezes fructos no anno, e em que mezes. Nota
A circumstancia de huma planta conservar as suas folhas todo o anno, ou de
naõ perder humas sem que comecem a nascerlhe outras, pode ser
referida tanto no tractado da desfolha como da
enfolhescencia.
A noticia dos differentes oleos, leves, pezados, liquidos, concretos,
tirados por destillaçaõ ou expressaõ, a dos diversos saes alcalinos, do
sal commum, nitro, assucar, tartaro, acidos, differentes gazes, &c. Nota
Das substancias que entraõ na composiçaõ dos vegetaes humas
saõ commûas a todos, como v. g os oleos, os alcalis fixos, os gazes,
a agoa, e terra; outras saõ menos geraes e somente proprias a hum
certo numero, como v. g. o alcali volatil que se acha nos cogumelos,
mostarda, trigo, &c. o alcali mineral que se dá nas especies de
salsola, de salicornìa, e outras plantas maritimas, o sal commum que
se acha na salsola soda, o nitro na alfavaca de cobra, gyrasol,
&c, o sal de Glauber na tamargueira, o tartaro nas uvas, o sal
ammoniaco na cigude, o enxofre na inula helenium, e rumex patientia,
o alcanfor no alcanforeiro, hortelaan apimentada, labiaes e algumas
compostas (segundo Gaubio e Neuman), os oleos essensiaes, como o que
se dá nas cellulas vesiculares da casca da laranga, flores
fragrantes e partes cheirosas das plantas, os oleos corados, como o
oleo azul que se tira da camomilla, os oleos pezados ou que vaõ ao
fundo d'agoa como o do cravo da India, os acidos particulares a
certos fructos, raizes e sobreraizes; a materia saccharina que se dà
em hum grande numero de flores, fructos, e em todas as gramas (e
talvez em todos os vegetaes) &c, &c.
Os usos economicos e médicinaes naõ devem ser omittidos em qualquer descripçaõ historica por mais incompleta que seja a respeito de outras circumstancias; a Botanica deve a elles a gua origem, e desde os primitivos dias da especie humana athe hoje o estudo dos vegetaes foy sempre dirigido à sua utilidade. Eu darei algumas breves noçoẽs sobre estes usos no Capitulo XL.
Como a Botanica naõ pode demonstrar a fé dos caracteres por hum rigor
mathematico Nota
A certeza que adquirimos do nome de huma planta por meyo dos
caracteres, que lemos nos livros dos Botanicos, naõ pode jamais
chegar ao grao de evidencia mathematica, ou vir a ter força de
demonstraçaõ, por muitas razoẽs, principalmente porque nas
descripçoẽs que se costumaõ dar de qualquer planta sempre falta
alguma circumstancia, e como pode haver no globo terreste huma
especie em tudo semelhante nos caracteres dados a outra, e
dessemelhante nos omittidos, podemos por conseguinte facilmente
enganar-nos dandolhe o nome de estoutra. Nota
Vej. Estampa XXIX
e XXX deste Compendio, vol. 2.Nota
Vej. a Estampa XXX
deste Compendio.Nota
Vej. a Estampa XXIX
deste Compendio.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.
[Página 362] GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
O chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
III. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
[Página 407]Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
As infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
[Página 424]Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
[Página 428]Em todos os tempos o homem procurou sempre nos vegetaes meyos de restabelecer
a sua saude, de se alimentar, de se reparar dos frios ou calmas, e de muitas
outras precizoẽs; a necessidade e o acazo lhe fizeraõ reconhecer pouco a
pouco as propriedades de alguns destes entes enteressantes; estas
propriedades conservadas ou por tradiçaõ ou escritas chegaraõ emfim a servir
de fundamento de tractados mais ou menos perfeitos segundo as differentes
graos de progresso do espirito humano; sobre ellas fundaraõ os antigos
Gregos e Romanos tractados de materia medica e de agricultura, e ainda hoje
as propriedades dos vegetaes saõ as notas caracteristicas em que os autores
de materia medica fundaõ as suas destribuiçoẽs methodicas Nota
Nos Methodos
de materia medica as classes, ordens e outras divisoẽs saõ fundadas
sobre as propriedades medicinaes das plantas,e nos methodos botanicos as
classes, ordens, &c: saõ fundadas nas notas da fructificaçaõ e
habito externo, independentemente das suas virtudes, e usos.
Os methodos botanicos, o lugar de habitaçaõ, os succos, nectarios, as qualidades de cheiro, sabor, e cores dos vegetaes e as suas analjses chymicas tem sido os meyos investigativos, de que os sabios se tem servido nestes ultimos tempos para indicar nelles a uniformidade e dessemelhança de virtudes, e estabelecer regras geraes a respeito dellas.
Os methodos, ou systemas botanicos saõ ou artificiaes, ou naturaes, como jà
mencionei nos capitulos precedentes. Os systemas artificiaes, como sujeitos
a leys nimiamente arbitrarias, e a reunir plantas ordinariamente differentes
no habito externo, naõ podem, senaõ por acaso, offerecer divisoẽs genericas
de plantas de uniformes virtudes; os methodos na turaes saõ por conseguinte
os unicos que podem subministrar divisoẽs menos sujeitas a engano
relativamente à dicta uniformidade. Linneo assignou pois a este respeito a
regra seguinte: todas as plantas que sam do mesmo genero natural, sam tambem
da mesma virtude; e as que sam da mesma familia ou divisoens naturaes,
participam mais ou menos da mesma virtude Nota
Plantae, quae genere
convenìunt, virtute ettam conventunt; quae in ordine naturali
continentur etiam virtute proprius accedunt, quaeque classe naturali
congruunt etiam viribus quodam modo congruunt. Lin. Philos Botan. p.
278.Nota
Este parecer he seguido por muitos sabios Naturalistas e famosos
Medieos, como Daubenton, Cullen, &c. Vej. Lectures on the Materia Medica, by Villiam Cullen, p. 158,
169. Lond. in-4. donde copiei huma grande parte das reflexoẽs,
que opponho aqui aos sentimentos de Linneo. Nota
Como por ex. comparar os fructos de huma especie com os de
outras, as folhas com folhas , raizes com
raizes, flores com flores, a casca do tronco de huma especie com
a casca do tronco de outras congeneres naturaes, &c. Nota
A figueira por ex. he huma arvore venenosa, e os seus fructos saõ saudaveis. Nota
A idade, e constituiçaõ do sujeito, e igualmente a
dose das substaucias vegetaes fazem taõbem
algumas vezes variar a acçaõ das suas virtudes; o que he somente hum
purgativo ao homem robucto, he venenoso ao homem debil e de vida
sedentaria, como se tem visto algumas, vezes na Euphorbia.
Muitos Botanicos modernos, principalmente, os que saõ apaxonados pelos
methodos naturaes, pensaõ que naõ so senaõ devem desprezar as affinidades
dos caracteres botanicos na investigaçaõ das qualidades e virtudes
medicinaes das plantas, mas taõbem que ellas nos dirigem com segurança a
substituir huma planta a outra em hum grande numero de familias naturaes.
Linneo parece ter sido deste parecer, e nos deixou a este respeito na sua
Philosophia Botaniça Nota
Vej. Phil. Bot. p. 279-282.
As Gramineas (Graminea, Ordo Naturalis IV.) Nota
Quanto as ordens,
naturaes estabelecidas por Linneo, e igualmente quanto aos generos
aqui citados Vej. Lin. Genera plantarum, edit, novissima, cur. J. J.
Reichard.
As Estrelladas (Stellatae, ord. nat. XLVII.) saõ diureticas, como a ruiva dos tintureiros, amor de hortelaõ, asperula, galium, &c.
As Borragineas ou Asperifolias (Asperifoliæ, ord nat. XLl) podem servir de hortaliças, e saõ mais ou menos mucilaginosas e glutinosas, como a buglossa, borragem, e consolda maior.
As Luridas (Lurida, ord. nat. XXVIII.) saõ suspeitas de venenosas e narcoticas, como a belladona, stramonio, meimendro, mandragora, nicotiana, as solaneas, bringelas, e ainda mesmo os tomates. O pimentaõ he summamente acre.
As Umbrelladas (Umbellatae, ord. nat. XLV) quando vegetaõ nos lugares seccos saõ aromaticas, calefactivas, proprias para excitar o suor, ourinas, menstruos, leite, e dissipar as flatulencias, como saõ por. ex. o levisticum, assa faetida, angelica, imperatoria pimpinella, peucedanum, opopanax, galbanum, carvi, [Página 435] cuminum, daucus, meum, faniculum, &c; as que nascem em lugares aquosos saõ venenosas, como a cicuta, aenanthe, sison, phellandrium, e apium palustre; as suas virtudes residem nas raizes e sementes.
As raizes das plantas da classe Hexandria, que saõ inodoras, costumaõ usar-se em algums paizes como alimento, v. g. as da tulipa, tilium martagon, e ornithogalum; mas as que tem hum cheiro viroso saõ venenosas, como as da cebola alvarraan, jacintho narcizo, coroa imperial, leucojum, goriosa, e anthericum.
As Bigornes (Bicornes, ord. nat. XVIII.) saõ astringentes, como a urze, pyrola, vaccinium, e principalmente o arbutus urva ursi; em alguns paizes costumaõ comer-se as suas bagas acidas, como as do medronheiro, as do arbutus uva ursi, vaccinium uityr tillus e exycoccus, diospyros virginiana, e melastoma.
Os fructos polposos da classe Icosandria saõ usados como alimentos, taes saõ v. g. as maçaans, peras, marmelos, romaans, fructos do pirliteiro, as nesperas, sorvas, groselhas, pessegos, damascos, ameixas, ginjas e cerejas na familia das Pomaceas (Pomaceae, ord. nat. XXXVI.); os morangos, amoras de sylva, e bagas da roseira de caõ nas Senticosas (Senticosae, ord. nal. XXXV.); emfim os fructos da eugenia e psidium nas Hesperideas (Hesperideae, ord nat. XIX.)
As plantas da classe Polyandria ordinariamente saõ venenosas; como saõ o
aconitum, Nota
Linneo conta taõbem entre as plantas venenosas o aconitum
anthora; outros autores contudo duvidaõ das suas qualidades nocivas, e
lhe chamaõ pelo contrario o aconito saudavel, dizendo que elle he hum
contraveneno do ranunculus thora.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.
As Cruciferas ou Siliquosas (Siliquosae, ord. natXXXIX) saõ acres, incisivas, detersivas e diureticas; como saõ os agrioẽs, a cochlearia, a armoracia, &c.; ellas perdem muito da sua virtude no estado de seccas, e porisso devem ser usadas em quanto verdes.
As Malvaceas (Columniferae, ord. nat. XXXVII.) saõ mucilaginosas, lubrificantes, embotaõ a acrimonìa dos humores, e saõ suppurativas em razaõ da sua virtude emolliente; taes saõ por ex. a malva, a althea, &c.
As Leguminosas (Papilionaceae, ord. nat. XXXII.) saõ excellentes para pastos ou alimento dos quadrupedes, como v. g. o trevo, medicago, trigonella, hedysarum, vicia, loeus, e lathyrus: as suas sementes saõ farinhosas e flatulentas, e servem de alimento aos homens e varios animaes, taes saõ principalmente as favas, ervilhas, feijoẽs, graõs, lentilhas, e chixaros.
[Página 437]As Compostas (Compositae, ord. nat XLIV.) saõ muito usadas em medicina, e commumente saõ amargosas, como sao v. g. o cardo sancto, a chicoria, o almeiraõ, o cardo mariano, a pilosella, o dente de leaõ, a losna, a matricaria, a chamomilla, as macellas, a tanasia, a balsamitta, eupatorium, achil lea ageratum, santolina, abrotanum, carlina, acmella, artemisia, &c.
As Orchideas (Orchideae, ord. nat. VII.) saõ aphrodisiacas, taes saõ principalmente a orchis bifolia, orchis morio, e o epidendron vanilla.
As Estrobilosas (Coniferae, ord. nat. LI.) saõ resinosas, e diureticas, como, saõ v. g. os pinheiros, o abeto, acipreste, sabina, zimbro, e juniperus lycia.
A Classe Cryptogamia contem muitos vegetaes suspeitos; os fetos tem hum cheiro desagradavel: os musgos do mesmo modo; das algas saõ rarissimas as que se comem, e muitas saõ purgativas; e os fungos saõ segundo Plinio huma perigosa comida.
Taes saõ em geral os sentimentos de Linneo sobre as familias naturaes; mas todas estas, generalidades saõ sujeitas a mais ou menos excepçoẽs, que seria prolixo expor aqui. Direi somente que os grãos das qualidades dos vegetaes variaõ infinitamente, e talvez à proporçaõ do numero dos individuos: nas Gramineas, por ex, as sementes cerealinas servem de alimento ao homem, mas que differença naõ ha entre o paõ de trigo e o de milho, e cevada? Quanto naõ differe o alimento do arroz do que fornece o paõ de trigo? Quanto naõ differem entre si os fructos polposos, que se usaõ como alimento? Que desigualdades naõ há algumas vezes entre as plantas [Página 438] aromaticas, amargosas, acidas, acres, e astringentes do meSmo genero? As vezes o principio nutritivo está separado de todo o veneno, como nas sementes cerealinas, outras vezes misto com hum principio amargozo ou combinado com huma substancia mais ou menos venenosa, como nalgumas solaneas e na mandioca; quanto naõ variaõ as quantidades dos principios saborosos, odorantes, e outras partes constitutivas de cada hum dos individuos vegetaes, e que variedade no modo, e circumstancias com que se achaõ combinados? Eu confesso ingenuamente a fraqueza das minhas luzes a este respeito; peloque deixo aos que se occupaõ de Materia Medica, e practica de Medicina o decidir athe onde seja justo o sentimento "de que se pode em algumas familias naturaes substituir humas plantas a outras."
O lugar de habitaçaõ dos vegetaes tem parecido taõbem a alguns botanicos hum
meyo de poder descobrir as suas incognitas virtudes. Linneo assignou a
este respeito a regra seguinte Nota
Locus siccus sapidiores,
succulentus insipidas magis, aquosas (sapius) corrosivas reddit.
Liu. Phil. Bot. p. 283.Nota
Vej. pag.
430.Nota
Debaxo do
nome de exposicaõ (expositio) devem entender-se os lugares expostos ao
sol, os sombrios, encostas, lugares altos e lavados dos ventos, os
valles, fugares que ficaõ ao norte, sul, nascente ou poente,
&c.Nota
A alface em razaõ da cultura he incomparavelmente menos
narcotica, o almeiraõ muito menos amargoso, e a escorcioneira
summamente adoçada e amaciada.
Os succos lacteos das plantas saõ de ordinario hum indicio de màs
qualidades, e he por esse motivo que Linneo estabeleceo a este respeito
a regra seguinte Nota
Lactescentes plantae communiter veneuatae sunt,
minus autem semiflosculosae et campanulacea. Lin. Phil. Bot. p. 282,
283.Nota
Linneo conta entre as
plantas de succos lacteos, que saõ venenosas, as seguintes; a
rauwolfia, thevetia, cerbera, plumieria, tabernamon-tana, periploca,
apocynum, cynanchum, ceropegia, e asclepias na familia das Contortas
ou de corolla retorcida (Contortae); a bocconia, sanguinaira,
papaver, argemoue, chelidouìum, nas Papaveraceas (Rhaeades); a
cambogia, dalechampia, euphorbia, e jatropha, nas Tricóxcas
(Tricoccae); e alem nisso varias outras, como a melia, ficus, thus,
acer, e agaricus.Nota
Nas especies de alface ha algumas que saõ reputadas venenosas,
como a Lactuca virosa, mas segundo as observaçoẽs de alguns
practicos modernos o extracto, desta planta pode ser dado mesmo
em grande dose como hum excellente aperitivo, e sedativo, e o
Dr. Joze Collin a recommenda nas hydropisias; ainda mesmo as
cultivadas nos paizes quentes saõ hum tanto venenosas, segundo
Galeno (Vej. Cullen Mater. Med. p. 306. ed. de Lond. in-4.) O Dr. Macquer pensava que ainda mesmo nas alfaces das nossas
hortas ha huma qualidade narcotica, como lhe ouvi muitas vezes
dizer nas suas liçoẽs.
Linneo pertendeo ter achado nos nectarios hum meyo para poder taõbem
reconhecer as màs qualidades de algumas plantas, e estabeleceo a este
respeito o aphorismo seguinte; as plantas, que dam flores com hum
nectario destincto das petalas, commumente sam venenosas Nota
Plantae floribus nectario a petalis distincto
cnmmuniter venenatae sunt Lin. Phil. Bot. p. 282. Os
exemplos que aponta saõ os seguintes: aconitum, helleborus,
aquilegia nigella, parnassia, epimedium, clutia, keggellaria,
hyacinthus, stapelia, ascleplas, mirabilis, nerium, narcissus,
zygophyllum, dictamnus, e melianthus.
O cheiro, sabor, e cores saõ os principaes meyos de que os medicos se servem
para conhecer as virtudes medicinaes de qualquer substancia vegetal. O
primeiro aphorismo a este respeito he, que todas as substancias vegetaes
insipidas, e inodoras tem muito pouca ou nenhuma virtuade em medicina Nota
Insipida et inodora vim medicam vix
exercent. Lin. Philos. Bot. p. 283.Nota
Entre estas algumas foraõ conservadas como alimentos, e naõ como
medicamentos. Nota
Sapidissima et odoratissima semper maximam vim possident.
LinPhil. Bot. p. 283Nota
Cullen, Mat. Med p. 161, 162, ed de Lond.
in-4.Nota
Sapidae et
suaveolentes bonae sunt; nauseosae et graveolentes venenatæ sunt.
Lin. Phil. Bot. p. 284Nota
Cullen Mat. Med. p. 162.Nota
O Dr. Cullen parece entender, aqui a fragrancia das flores; eu
conjecturo contudo que Linneo quiz dar a entender a fragrancia,
que existe em todo o corpo das plantas, comprehendendo as folhas , ramos, tronco e raiz ; e neste sentido o seu aphorismo parece
ter muito poucas excepçoẽs. O Dr. Cullen naõ admitte taõbem
a assersaõ de Linneo. Sapida non agunt in nervos, nec olida in
fibras musculares; pensando que o que obra sobre os nervos obra
taõbem sobre as fibras musculares e vice versá, em razaõ das dictas
fibras serem em parte huma continuaçaõ dos fios nervosos, ou ao
menos intimamente adunadas a elles e sujeitas á sua acçaõ. Diz alem
disso que o aphorismo do mesmo Botanico: Ambrosiaca analeptica,
Fragrantia orgastica, Aromatica excitantia, Tetra stupefacientia,
Nanseosa corrosiva: he ambiguo, obscuro, e pouco fundado na
natureza. Ibid. p. 163.Nota
Color pallidus insipidum, viridis crudum, luteus
amarum, ruber acidum, albus delce, niger ingratum indicat. Lin. Phil.
Bot. p. 286.Nota
Os exemplos, que Linneo aponta nesta ultima regra,
saõ: baccae atropae, actaeae, coriariæ, solani, tini, enpetri et
padi. As bagas negras de algumas urzes e do ribes nigrum aindaque
desagradaveis naõ contem contudo veneno algum.
As operaçoẽs chymicas tem parecido a muitos sabios hum dos melhores meyos de
investigar as virtudes dos vegetaes; foraõ por conseguinte tractados por
expressoẽs, trituraçoẽs em agoa, infusoẽs em espirito de vinho ou agoa,
distillaçoẽs a fogo brando ou forte, e por todos os meyos que conduzem a
analysar os seus principios; a sua analyse tem dado a conhecer as suas
partes extractivas, gomosas, mucilaginosas, saccharinas, amilaceas,
resinosas oleosas, stipticas, aromaticas, e os differentes saes e terras,
que entraõ na sua composiçaõ. Naõ se pode negar que todos estes
conhecimentos reunidos com alguns dos que acima mencionei saõ
bastantemente uteis para nos fazer discorrer sobre a natureza dos
vegetaes com maior segurança do que os antigos discorriaõ; com estas
luzes podemos taõbem melhor do que elles julgar das suas virtudes; mas
quem attender bem ao muito que variaõ os acidos e alcalis mos
differentes vegetaes quanto à quantidade e qualidade, o muito que os
seus outros principios variaõ taõbem nas proporçoẽs, e saõ alterados
pelo fogo, a grande difficuldade, ou impossibilidade que ha algumas
vezes de obter os seus principios subtis e volateis, nos quaes contudo
consistem as suas principaes virtudes, naõ estranhara certamente a
asserçaõ de alguns grandes [Página 448] medicos Nota
From chemical investigation much has been expected; but
it is now known littte can be obtained. Cullen Mat. Med. pag. 167
ed. de Lond. in-4.
Depois do descobrimento do Dr. Ingen-Rouz Nota
Vej. Experiences sur les
Vegetaux, par M. Ingen. Houz. Paris, 1780, in-8, ou a ultima ediçaõ,
aonde esta materia he tractada com todos os detalhes, que o leytor
pode dezejar.Nota
Ha a
este respeito huma experiencia bem simples; ponha-se hum ramilhete
de flores em hum copo dagoa, cubra se com huma campanula de vidro de
modo que o ar ambiente naõ entre pela base da dicta campanula; as
flores corromperaõ o ar interno de tal modo que se no dia seguinte
mettermos hum pardal dentro da campanula (immediatamente que a
levantarmas) o animal morrera dentro de poucos minutos, e se
mettermos taõbem hum coto de vela accesa no sendo da dicta campanula
se apagara em continente. Veja-se Experiences sur les Vegetaux, que
acima citei. Huma planta ordinariamente vicia huma quantidade de ar
dez vezes maior do que ella.
A idade, e o tempo em que as plantas e suas differentes partes devem ser
colhidas, e o modo de as [Página 449] seccar, e conservar para os usos medicinaes são circumstancias que
naõ devo passar aqui em silencio, viso que podem influir muito sobre as
suas virtudes Nota
Vej. Iacobi Silvii Opera Medica. Colon. Allobrog.
1630. in-fol.; et Georg. Rud. Boehmeri De collectione simplicium
Disput, &c.Nota
As cruciferas e labiadas parecem exceptuar-se desta
regra em razaõ de melhorarem nas suas quasidades por meyo da
cultura.Nota
He
por este motivo que o viscum e polypodium, que se daõ nos carvalhos,
saõ melhores para os usos medicinaes, em razaõ de terem mais
astringencia.
As raizes bolbosas e tuberosas devem ser colhidas na outono; quanto às
outras, muitos pertendem que devem ser arrancadas na primavera, logo que
começaõ a brotar folhas ,
porquanto a seiva que conservaraõ e adquiriraõ no inverno he entaõ
elaborada e lhes dà hum grande vigor, sendo neste periodo succulentas , tenras, carnudas, e bem nutridas; quando pelo
contrario, no outono saõ duras, quasi exsuccas e nimiamente
enfraquecidas de terem nutrido o troço [Página 450] ascendente e suas partes. He difficil de assignar regras geraes a este repeito, sendo certo que
quasi em todas as estaçoes do anno se podem colher boas raizes Nota
As raizes carnudas das plantas annuaes, como as dos rabaõs,
nabos, cenoiras, &c. que se usaõ como hortaliças, podem ser
colhidas em todas as estaçoẽs, contanto que sejaõ tenras e antes
da florecencia, porque neste periodo ficaõ occas ou
esponjosas. As malvaceas, em razaõ de serem usadas como emollientes, devem
taõbem ser colhidas tenras.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas. A casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.
Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar. Os ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ. As folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c. As avenças, polypodios e outras plantas da familia dos fetos devem ser colhidas durante o tempo da florecencia.
O melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica. As antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.
Os fructos ou pericarpos devem apanhar;se no estado de madureza, que naõ seja demasiada, como he a do [Página 452] periodo em que delles cahem as sementes; ha alguns fructos contudo que se apanhaõ verdes, e saõ assim usados em Medicina, mas saõ em pequemo numero ou huma pequena excepçaõ da regra geral.
As sementes devem ser colhidas gradas, e em plena madureza Nota
As excepçoẽs
a esta regra saõ muito poucas em medicina: ha algumas sementes que
servem de alimento, e se apanhaõ indifferentemente verdes ou maduras,
como saõ por ex. as ervilhas e favas; mas estas nutrem menos quando
verdes, aindaque nesse estado saõ menos flatulentas e melhor digeridas.
As sementes que se colherem para semear devem naõ so ser maduras, mas a
sua plantula seminal naõ ter, dano algum sensivel; as melhores saõ as
mais pezadas ou que lançadas em hum copo d'agoa vaõ ao fundo, porquanto
as que ficaõ ao lume d'agoa raras vezes saõ boas; naõ devem ter começado
a grelar, nem ter as cotylédones quebradas, porque aindaque estas duas
condiçoẽs naõ ponhaõ obstaculo á germinaçaõ futura, fazem contudo que o
vegetal que dellas nasce seja pouco vigoroso.
Naõ basta so saber o tempo proprio da colheita dos simples, he precizo taõbem
attender ao modo de os seccar e conservar. Ná desiccaçaõ ou modo de seccar
as plantas o principal objecto he privalas da humidade redundante, a fim de
as podermos guardar hum certo tempo para os usos de medicina. Alguns
recommendaõ de as seccar á sombra, principalmente as que saõ aromaticas,
para que menos percaõ do seu cheiro; mas a experiencia tem mostrado que
quando as seccamos rapidamente ao sol, ou nas estufas, ellas conservaõ assaz
bem o seu cheiro, propriedades, e muito melhor a suas cores; as que tem na
sua [Página 453] composiçaõ muito pouco do principio resinoso, como v. g. as borragineas,
veronica, e herva cidreira, perdem muito da sua virtude sendo seccas á
sombra lentamente, e ficaõ denigridas, por causa da fermentaçaõ que nellas
se estabelece, o que naõ succede quando saõ seccas promptamente ao sol ou
numa estufa Nota
As estufas, ou cubiculos, que se aquecem athe certo grao
por meyo de fornalhas tubuladas, saõ de grande utilidade nos paizes do
norte da Europa para seccar as plantas rapidamente em tempos humidos ou
chuvosos; as melhores, que tenho visto nas cazas dos Boticarios de
Paris, saõ hum cubiculo com tecto e paredes de tabique bem rebocado e de
seis pés quadrados; tem huma porta e janella de vidraças de grandeza
proporcionada; á esquerda da porta está situada a fornalha de ferro ou
barro (a que chamaõ poële) guarnecida de hum tubo de lata de cinco dedos
de diametro, que serve juntamente com a fornalha para estufar o ar do
cubiculo; este tubo he suspendido com arames no tecto do cubiculo, e a
sua extremidade superior sahe por hum buraco aberta na janella para
botar fora o fumo; na porta esta pendurado hum thermometro de mercurio
dividido em 80 graos desde o de congelaçaõ athe o grao de agoa fervendo.
Este instrumento serve para regular o calor da estufa que de ordinario
monta athe 55 ou 60 graos; ha nas paredes, em distancias iguaes de 8 ou
10 pollegadas, varias travessas de pao pregadas, que servem de soster
dois varoẽs de ferro, sobre os quaes se poem as plantas a seccar dentro
de cestas de vime compridas, medeando contudo entre as plantas e as
cestas algumas folhas de papel.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas. Nas estufas ou sobre hum forno de padeira, em que [Página 454] successivamente se coze paõ, a dessiccaçaõ he mais rapida e melhor, por naõ ser interrompida; neste cazo as serapilheiras devem ficar penduradas, para que o ar possa circular livremente, o que naõ sera desacertado practicar taõbem, quando a dessiccaçaõ for feita ao sol.
As raizes, troncos lenhosos, e cascas requerem huma dessicaçaõ mais appressada, em razaõ de conterem mais humidade; quanto às raizes, he precizo antes de as por a seccar alimparlhes a terra com huma serapilheira ou lavando-as rapidamente, cortar-lhes as raigotas filamentosas, partilas longitudinalmente ou transversalmente sendo grossas, e depois polas enfiadas a seccar; as que saõ delgadas naõ precizaõ de se cortar. Ha algumas que costumaõ guardar-se mettidas em area ou terra, como as da althea, escorcioneira, e armoracia, a fim de as conservar frescas; mas deve se advertir que guardadas muito tempo neste estado saõ sujeitas a vegetar e endurecer, e nesta circumstancia devem rejeitar-se como muito pouco efficazes. As raizes bolbosas compostas de cascos, como v. g. a cebola alvaraan, saõ difficeis de bem se seccar ao sol; o melhor sera se parar os seus cascos e mettelos a seccar no banho maria, a querelos ter perfeitamente privados de humidade.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas. As plantas aromaticas saõ susceptiveis de huma rapida dessiccaçaõ; mas he precizo saber regular os graos de calor e proporcionalos á volatilidade dos seus principios odorantes, e à quantidade da humidade. Ellas perdem na verdade [Página 455] durante a dessiccaçaõ, huma pequena porçaõ do seu aroma, e immediatamente depois parecem ter pouco cheiro, mas passados alguns dias amollecem hum tanto e ficaõ bastantemente cheirosas; as que saõ seccas à sombra saõ hum pouco mais aromaticas; porem ficaõ mais humidas, e a sua humidade costuma destruirlhes a cor, e he pouco favoravel à sua conservaçaõ.
As flores costumaõ perder ordinariamente as suas cores na dessiccaçaõ, e para melhor lhas conservar he precizo, embrulhalas em papel e polas assim a seccar; deve-se-lhes conservar o calys, e arrancalo somente depois de passada a dessiccaçaõ, quando assim for necessario como nas violettas; os cravos, e rosas vermelhas parecem ser huma excepçaõ desta regra, porquanto so se costumaõ seccar as suas petalas, e ainda estas mesmas saõ antes privadas das unhas. Os fructos ordinariamente costumaõ por-se a seccar naõ muito maduros.
As sementes consideradas relativamente aos principios, e consistencia das
suas cotylédones podem ser divididas em oleosas, farinhosas e resinosas; as
oleosas propriamente saõ aquellas de que se pode tirar oleo por expressaõ,
como v. g. as do melaõ, melancia, abobara, pepino, nogueira, amendoeiras,
nabos, &c.; as farinhosas saõ as que naõ daõ oleo por expressaõ, e se
reduzem facilmente em po ou farinha, como o trigo, cevada, milho, favas,
ervilhas, tramoços, e outras da familia das gramineas, e das leguminosas; as
resinosas saõ aquellas em que o principio resinoso he predominante. As
sementes contem em geral menos humidade do que as demais partes das plantas,
e porisso basta polas a seccar em lugar secco e hum [Página 456] pouco quente; as farinhosas Nota
Em alguns paizes do norte da Europa
costumaõ seccar o trigo em estufas afim de o poderem bem conservar para
o uso domestico, e ainda mesmo para semear.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor. Ha muitos simples, que podem conservar-se muitos annos sem corrupçaõ, principalmente quando foraõ colhidos em annos favoraveis, mas os melhores em geral seraõ sempre aquelles que se renovarem todos os annos.
As sementes em geral conservaõ-se bem nos lugares seccos c frescos; as
oleosas costumaõ nos lugares humidos germinar dentro de pouco tempo, e
apanhar [Página 457] môfo, e nos lugares quentes adquirem ranço; porisso he necessario
conservalas em lugares seccos e temperados; as farinhosas saõ sujeitas às
mesmas alteraçoẽs nos lugares humidos, e nos quentes seccaõ-se
demasiadamente porisso sera acertado de as conservar quasi do mesmo modo; as
resinosas aindaque resistaõ mais tempo à humidade e se alterem menos com o
calor, contudo o melhor sera conservalas em lugares temperados. Guardaõ-se
embrulhadas em papel, em cabaços, saccos, frascos bem tapados,
&c. Nota
As sementes, que se guardaõ muito tempo em frascos tapados
sem serem barradas de cebo ou cera, saõ ordinariamente inuteis para a
vegetaçaõ; a humidade e gaz, que ellas exhalaõ dentro do frasco, e a
falta de renovaçaõ do ar interno saõ, segundo Pullein, a principal causa
da sua corrupçaõ.
Para se poderem conservar para a vegetaçaõ e remetter a paizes remotos, sem
que sejaõ alteradas nas longas viagens de mar, Linneo aconselha de as metter
em hum frasquinho cylindrico de vidro tapado com huma rolha de cortiça
envolta em hum boccado de pelle, e que depois disso se ponha este frasquinho
dentro de outro hum tanto mais largo, havendo o cuidado de encher o espaço,
que medea entre hum e outro, com hum misto feito de partes iguaes de sal
commum, e sal ammoniaco com o quadobro de [Página 458] nitro, assegurando que desta maneira o calor naõ pode de modo algum chegar
a penetralas. Alguns costumaõ cobrilas de assucar quando ellas tem hum
pericarpo polposo; outros cobrem-nas de cera, e barraõ-nas depois com
argilla amassada em huma dissoluçaõ forte de goma Arabia, embrulhaõ-nas
emfim em hum encerado, e as remettem dentro de huma caxa ou barril. Alguns
aconselhaõ taõbem de as cobrir de cebo ou de hum misto de partes iguaes de
cera e cebo, quando saõ grossas, e sendo miudas, de as involver primeiro em
argilla e depois em cebo, cera, &c.; a operaçaõ consiste em tomalas com
huma pequena tenaz e mettelas em cera ou cebo que nade derretido na
superficie de agoa quente, tirando-as immediatamente e lançando-as em agoa
fria. A cera ou qualquer tegumento artificial, com que as sementes forem
cobertas, naõ devem ser despegados, senaõ quando estas se quizerem semear;
neste periodo raspar-se-haõ às mais grossas os dictos tegumentos com toda a
cautella, e lavar-se-haõ as mais miudas em sabaõ e area fina, athe que a
casca fique livremente exposta ao contacto do ar e capaz de embeber a
humidade, e semear-se-haõ sem mais demora Os que dezejarem ter mais
extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados
seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the
East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on
the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis
pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel.
- Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della
perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens
traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio
frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi.
Viennae. 1765. As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente
preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em
agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em
as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da
electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado,
principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia
de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo
individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a
este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum
semine.Nota
Eu devera passar actualmente a tractar dos usos [Página 459] economicos dos vegetaes, mas como a extensaõ desta materia ainda mesmo
tractada em geral me faria exceder os curtos limites de hum Compendio,
deixala-hei aos que se occupaõ dos differentes ramos da Botanica applicada
ás artes. Ninguem ignora que os vegetaes, alem dos usos que tem em Medicina,
saõ empregados nos da Architectura civil, militar, e naval, subministraõ ao
homem huma grande diversidade de alimentos e bebidas, nutrem muitos animaes
que lhe saõ uteis, saõ a materia de que elle forma innumeraveis trastes
domesticos, instrumentos, vasilhas, &c servem nas tinturarias, e
manufacturas, em huma palavra saõ, como ninguem duvida, o fundamento da
Agricultura, a mais preciosa de todas as artes Nota
He huma maxima hoje
assaz bem reconhecida, que a Agricultura sendo animada he o verdadeiro
fundamento da provoacaõ e força dos Imperios; o solido esteio em que se
sostem as manufacturas, artes, e commercio, a fonte de que emana a sua
firme prosperidade; o thesoiro e verdadeiras minas de qualquer estado; o
unico meyo de enriquecer de contino tanto o vassalo como o soberano; e
emfim o melhor regresso para poder pagar as dividas publicas, e naõ
contrahir outras. Quesnay, Bandini, Boisgillebert, &c.
HUM hervario (herbarium) he huma collecçaõ de plantas seccas estendidas sobre
papel, ou nelle estampadas bem ao natural, e dispostas methodicamente. O
primeiro pode ser chamado hervario naturas e o segundo artificial, como he o
das plantas de França que M. Bulliard publicou e vay continuando. Hum e
outro saõ summamente uteis e necessarios a todos os que cultivaõ o estudo
dos vegetaes. Elles servem de nos fazer conservar por hum meyo commodo as
ideas das plantas, que ja temos observado, e nos conduzem com os systemas a
reconhecer sem hesitaçaõ os nomes das plantas, que jamais se tinhaõ
presentado vivas a nossos olhos. Alguns Botanicos preferem os herbarios
naturaes aos artificiaes; huns e outros tem suas vantagens e seus
inconvenientes; a maior parte das raizes, os fructos, e sementes, hum
grande numero de especies da familia do fungos, e plantas succulentas Nota
Ha algumas plantas succulentas , que se podem
conservar nos hervarios naturaes, mas ficaõ summamente
desfiguradas. Nota
Aindaque as flores e suas partes podem ser conservadas em
espirito de vinho, este modo naõ me parece contudo merecer de
ser perferido ao das estampas fieis, porquanto estas saõ mais
duraveis e mais livres de engano.
Todos os que se propoem de estudar Botanica devem começar por fazer huma
collecçaõ de plantas seccas: depois de terem ajuntado hum certo numero
nas herborizaçoẽs Nota
As herborizaçoẽs (herbationes, s. herborizationes) saõ passeios
ou caminhadas, que se fazem para apanhar ou observar plantas;
dizemse publicas, quando saõ feitas (hum dia na semana) na
companhia de hum professor de Botanica; e particulares, quando
naõ saõ presididas pelo dicto professor, como quando alguem
herboriza so, ou com hum hervolario, jardineiro, dois ou tres
amigos instruidos em Botanica, &c. Este era o principal divertimento do celebre philosopho Rousseau,
e de muitos outros; com effeito as plantas e flores dos campos
seraõ sempre o mais aprazivel objecto de meditaçoẽs do homem
sabio, que nellas encontra de contino evidentes provas da
immensa sabedoria do Deos da natureza. Nota
Nomenclar huma planta he dar-lhe o seu nome generico e especifico
(ou trivial) segundo hum systema adoptado; os principiantes
deveraõ para este fim consultar o seu professor, ou algum dos
seus condiscipulos bastantemente instruidos no conhecimento das
plantas do paiz, e naõ confiar na nomenclatura dos jardins
botanicos, que muitas vezes he errada por incuria ou ignorancia
dos jardineiros.
Ninguem deve esperar de poder conservar huma planta com toda a sua natural
belleza, seja qual for o modo de dessiccaçaõ que se haja de practicar;
porquanto ainda às mais bem dessiccadas perdem muito da sua fresca
apparencia. As dessiccaçoẽs, de que se servem os botanicos para conservar as
plantas no mais perfeito estado, que lhes he possivel, saõ feitas ou em area
ou por compressaõ. A dessiccaçaõ em area, attribuida a Joaõ Rodolpho
Camerario, consiste na operaçaõ seguinte. Lave-se huma sufficiente
quantidade de area fina afim de a privar de materias heterogeneas,
seque-se depois, e peneire-se para separar as partes grosseiras, de que
a lavagem a naõ pôde privar; feito isto, escolha-se para cada [Página 463] planta hum vaso de barro de forma e grandeza competente; escolha-se
taõbem a mais bella especie das plantas que se tiver ápanhado com flor,
em tempo secco e com hum tronco sufficiente: lance-se no fundo do vaso
huma pouca de area secca e quente e metta-se nelle a base do tronco da
planta destinada á dessiccaçaõ, sostentando-a com a area de modo que
nenhuma das partes da planta toque nas paredes lateraes do vazo,
continue-se a lançar area pouco a pouco athe cobrir a planta de maneira
que fique por cima della quasi a grossura de dois dedos de area; á
proporçaõ que esta se for lançando, ter-sehá o cuidado de estender os
ramos, folhas , e flores, sem
contudo as constranger, e de modo que fiquem na sua configuraçaõ, e
postura natural. Concluido este trabalho, ponha-se o vaso em huma estufa de cincoenta
graos de calor ou pouco menos Nota
Alguns em lugar de metter os vazos
em estufas costumaõ expolos ao ardor do sol, mas o calor das estufas
merece de ser preferido em razaõ de fazer a dessiccaçaõ mais
rapidamente. Nesta sorte de operaçaõ huma grande parte da materia
colorante das flores he ordinariamente bem conservada: as petalas
algumas vezes costumaõ despegar-se, principalmente quando o germe he
grosso como na tulipa, e porisso muitos costumaõ cortalo antes de
enterrar a flor na area, assegurando que por este meyo ellas
conservaõ bem a sua adherencia.
Aindaque as plantas assim dessiccadas conservem bem a sua forma de maneira
que porisso alguns lhes chamaõ mumias vegetaes, contudo tem o defeito de
ficarem mais volumosas e quebradiças, do que as [Página 464] dessiccadas por compressaõ, e porisso este segundo meyo he
ordinariamente hoje preferido, principal mente por ser mais simples, e
capaz de conservar as cores Nota
Ha algumas flores, de que he difficil
poder conservar a substancia colorante; as violettas saõ deste
numero, e o melhor modo, de que alguns se servem para lhes conservar
a cor, he escaldando-as em agoa fervendo, retirando-as
immediatamente, espremendo-as e seccando-as depois
rapidamente.Nota
O modo de seccar as plantas que proponho he exactamente
o mesmo que practicava o celebre Joaõ Jacques Rousseau, cujos
hervarios foraõ summamente admirados em Paris pela bella dessiccaçaõ
de suas plantas. Ha ainda outros modos mais simples, mas naõ me
parecem satisfazer ao intento taõ perfeitamente como o que exponho
aqui.Nota
Este papel he destinado para
estender as plantas depois de seccas e servir no hervario; e porisso
deve ser preparado do modo sobredicto a fim de contribuir para
preservar as plantas de serem roidas pelos insectos. Alguns molhaõ
este papel em huma preparaçaõ de aloe, alcanfor, plantas amargosas,
aromaricas, &c. e preferem esta preparaçaõ á da pedra hume, que
segundo elles altera a cor das flores mas eu naõ pude ainda observar
esta mudança, quando as flores tem sido antes bem
dessicadas.Nota
Alguns costumaõ em lugar das duas taboas servir-se do prelo em
que os livreiros costumaõ levemente apertar os livros somente
cozidos, a que chamaõ em França brochures; e na verdade este
instrumento he assaz commodo para regular a compressaõ. Nota
Assim como ha plantas que basta mudalas duas vezes de papel para
ficarem seccas, ha taõbem outras que precizaõ de ser mudadas ao
menos seis vezes para perderem a sua humidade; as que saõ succulentas precizaõ de ser mudadas de papel mais a
miudo, e requerem huma dessiccaçaõ tanto mais accelerada, quanto
maior he a abundancia dos seus succos.
Depois que as partes da planta tiverem perdido a sua flexibilidade por meyo
das operaçoẽs feitas no papel pardo e papelloẽs, e que nos parecerem estar
seccas, passar-se-ha a dicta planta a huma folha de papel branco (n. 3º), e
se deixará ficar nelle ainda alguns dias a fim de perder completamente a
humidade, que nos pode ter escapado de perceber. Terminada assim a
dessiccaçaõ por-se há a planta em huma folha de papel branco competente
(n. 4º), e nelle se firmará o seu tronco, ramos, e ainda mesmo as folhas maiores, com fittinhas, ou
pequenas tiras estreitas de papel pegadas com colla de peixe Nota
Alguns naõ usaõ das tiras de papel, ou pedacinhos de fitta, e
collaõ na folha todo o corpo da planta com colla de peixe; mas
este modo naõ deixa o papel taõ aceado como o sobredicto. Os organos da fructificaçaõ, que convem de ajuntar (sendo
possivel) a cada planta, devem ser dessiccados á parte, e se
collaraõ depois, ao lado da planta a que pertencem.Nota
A descripçaõ
historica trabalhada em toda a extensaõ, de que he susceptivel, deve
ser feita em cadernos separados, por naõ fazer os hervarios
demasiadamente volumosos.
Tanto que se houver dessiccado do modo sobredicto hum certo numero de
plantas sufficiente para começar a fazer hum hervario, distribuir-se-haõ
me thodicamente, isto he, por-se-haõ todas as congeneres seguidas
successivamente Nota
No cazo que se hajaõ dessiccado algumas
variedades, terse-ha o cuidado de as por immediatamente depois da
sua especie respectiva.Nota
Os generos de cada
ordem, que tiverem mais affinidade, devem ficar approximados.Nota
As brochuras (do Franc. brochure) saõ, como
ja indiquei, livros somente cozidos, e levemente apertados; as suas
folhas naõ foraõ batidas nem aparadas, e se usaõ assim em Franca
cobertos com huma capa de duas folhas de papel colladas.Nota
Elle podera conter dobrado numero de plantas, se lhe derem
dobrada largura da que proponho aqui, como se entende
facilmente.
O vaõ, ou espaço interno do armario deve ter de altura cinco pés e dez pollegadas (medida de Paris), quasi dois pés de largo, e pouco mais de hum pé de fundo. Repartir-se-ha este vaõ em duas metades iguaes ao alto por meyo de duas taboas aprumadas, formar-se-haõ nas dictas duas metades vinte e quatro parteleiras por meyo de travessas ou taboinhas horizontaes da grossura de meya pollegada. No lado direito haveraõ onze parteleiras e dez travessas. Cada huma destas parteleiras he destinada a receber as bocetas de plantas relativas a cada huma das vinte e quatro classes do systema mencionado, e devem ter mais ou menos pollegadas de altura, segundo o menor ou maior numero de vegetaes que costumaõ ter as dictas classes. A sua destribuiçaõ e altura adequada deve ser da maneira seguinte.
[Página 469]A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6Este armario sera fechado com duas portas correspondentes aos dois lados sobredictos, e em cada huma dellas se poraõ tantos lettreiros quantas forem as parteleiras do seu lado. Cada lettreiro deve conter o nome de huma das vinte e quatro classes do systema de Linneo, ser escrito com lettras bem legiveis, e collado exactamente defronte da parteleira, que deve conter a boceta notada com outro lettreiro semelhante.
Reclusas as pantas seccas nas bocetas, e estas nas parteleiras respectivas do
Armario construido do modo que fica exposto, naõ havera difficuldade alguma
em achar dentro de poucos minutos huma planta que dezejamos mostrar. Supponhamos por ex. que quero mostrar a hum Botanico a Cleonia
lusitanica; se me esqueço da classe, consulto o Genera plantarum de
Linneo, e pelo index venho em continente a conhecer que esta planta
pertence á Didynamia; lanço por conseguinte a vista sobre os lettreiros
collados nas portas do armario Nota
Pode-se abbreviar ainda esta
pesquiza procurando directamente a Didynamia gymnospermia nos
lettreiros postos na face anterior das bocetas, no cazo que sejaõ
escritos com lettras taõ grandes, como as dos lettreiros das portas
do armario; demais disso hum pouco de uso bastará para fazer
derepente lançar maõ da boceta relatira à classe e ordem que
buscamos.
Fim do Tomo primeiro.
"Compendio de Botanica" de Brotero: Transcrição digitalTranscrito para uso do projeto Dicionário Histórico de Termos da Biologia (https://dicbio.fflch.usp.br/), coordenado pelo Prof. Dr. Bruno Oliveira Maroneze.
BROTERO, Felix Avellar . Compendio de Botanica . Tomo primeiro . Paris : Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros, 1788 . Disponível em: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/index.html.A ortografia original da obra foi mantida sempre que possível. Procurou-se manter as letras ligadas œ e æ nas transcrições dos nomes em latim.
As quebras de página foram inseridas apenas no texto principal, não nas notas de rodapé. Quando a quebra de página ocorre no meio de uma palavra, o elemento pb foi incluído antes da palavra, de modo a não quebrá-la.
A numeração das páginas no original impresso contém erros. Após a página 368, a página que deveria ser 369 está numerada como 399, e assim por diante, até a página 400. As páginas erradas estão marcadas com o atributo ana e a indicação "PaginacaoErronea" nos elementos pb .
As imagens (fac-símiles) das páginas da obra estão hospedadas no repositório digital da Universidade de Coimbra. O URL de cada imagem segue o padrão: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/UCFCTBt-B-78-1-15/UCFCTBt-B-78-1-15_item1/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG_24-C-R0120/UCFCTBt-B-78-1-15_XXXX_PAGE_t24-C-R0120.jpg , onde XXXX é um número sequencial e PAGE é o número da página, seja em romanos, seja em arábicos. Neste arquivo transcrito, cada elemento pb , bem como o elemento titlePage , contém o atributo facs com o endereço URL do arquivo da imagem correspondente à página em questão.
Este arquivo foi produzido para uso no projeto "Dicionário Histórico de Termos da Biologia", acessível pelo site https://dicbio.fflch.usp.br/.
"Compendio de Botanica" de Brotero: Transcrição digitalTranscrito para uso do projeto Dicionário Histórico de Termos da Biologia (https://dicbio.fflch.usp.br/), coordenado pelo Prof. Dr. Bruno Oliveira Maroneze.
BROTERO, Felix Avellar . Compendio de Botanica . Tomo primeiro . Paris : Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros, 1788 . Disponível em: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/index.html. "Compendio de Botanica" de Brotero: Transcrição digital "Compendio de Botanica" de Brotero: Transcrição digitalTranscrito para uso do projeto Dicionário Histórico de Termos da Biologia (https://dicbio.fflch.usp.br/), coordenado pelo Prof. Dr. Bruno Oliveira Maroneze.
Transcrito para uso do projeto Dicionário Histórico de Termos da Biologia (https://dicbio.fflch.usp.br/), coordenado pelo Prof. Dr. Bruno Oliveira Maroneze.
BROTERO, Felix Avellar . Compendio de Botanica . Tomo primeiro . Paris : Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros, 1788 . Disponível em: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/index.html. BROTERO, Felix Avellar . Compendio de Botanica . Tomo primeiro . Paris : Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros, 1788 . Disponível em: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/index.html.BROTERO, Felix AvellarCompendio de BotanicaTomo primeiroParis1788A ortografia original da obra foi mantida sempre que possível. Procurou-se manter as letras ligadas œ e æ nas transcrições dos nomes em latim.
As quebras de página foram inseridas apenas no texto principal, não nas notas de rodapé. Quando a quebra de página ocorre no meio de uma palavra, o elemento pb foi incluído antes da palavra, de modo a não quebrá-la.
A numeração das páginas no original impresso contém erros. Após a página 368, a página que deveria ser 369 está numerada como 399, e assim por diante, até a página 400. As páginas erradas estão marcadas com o atributo ana e a indicação "PaginacaoErronea" nos elementos pb .
As imagens (fac-símiles) das páginas da obra estão hospedadas no repositório digital da Universidade de Coimbra. O URL de cada imagem segue o padrão: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/UCFCTBt-B-78-1-15/UCFCTBt-B-78-1-15_item1/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG_24-C-R0120/UCFCTBt-B-78-1-15_XXXX_PAGE_t24-C-R0120.jpg , onde XXXX é um número sequencial e PAGE é o número da página, seja em romanos, seja em arábicos. Neste arquivo transcrito, cada elemento pb , bem como o elemento titlePage , contém o atributo facs com o endereço URL do arquivo da imagem correspondente à página em questão.
Este arquivo foi produzido para uso no projeto "Dicionário Histórico de Termos da Biologia", acessível pelo site https://dicbio.fflch.usp.br/.
A ortografia original da obra foi mantida sempre que possível. Procurou-se manter as letras ligadas œ e æ nas transcrições dos nomes em latim.
As quebras de página foram inseridas apenas no texto principal, não nas notas de rodapé. Quando a quebra de página ocorre no meio de uma palavra, o elemento pb foi incluído antes da palavra, de modo a não quebrá-la.
A numeração das páginas no original impresso contém erros. Após a página 368, a página que deveria ser 369 está numerada como 399, e assim por diante, até a página 400. As páginas erradas estão marcadas com o atributo ana e a indicação "PaginacaoErronea" nos elementos pb .
As imagens (fac-símiles) das páginas da obra estão hospedadas no repositório digital da Universidade de Coimbra. O URL de cada imagem segue o padrão: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/UCFCTBt-B-78-1-15/UCFCTBt-B-78-1-15_item1/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG_24-C-R0120/UCFCTBt-B-78-1-15_XXXX_PAGE_t24-C-R0120.jpg , onde XXXX é um número sequencial e PAGE é o número da página, seja em romanos, seja em arábicos. Neste arquivo transcrito, cada elemento pb , bem como o elemento titlePage , contém o atributo facs com o endereço URL do arquivo da imagem correspondente à página em questão.
A ortografia original da obra foi mantida sempre que possível. Procurou-se manter as letras ligadas œ e æ nas transcrições dos nomes em latim.
As quebras de página foram inseridas apenas no texto principal, não nas notas de rodapé. Quando a quebra de página ocorre no meio de uma palavra, o elemento pb foi incluído antes da palavra, de modo a não quebrá-la.
pbA numeração das páginas no original impresso contém erros. Após a página 368, a página que deveria ser 369 está numerada como 399, e assim por diante, até a página 400. As páginas erradas estão marcadas com o atributo ana e a indicação "PaginacaoErronea" nos elementos pb .
anapbAs imagens (fac-símiles) das páginas da obra estão hospedadas no repositório digital da Universidade de Coimbra. O URL de cada imagem segue o padrão: https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/UCFCTBt-B-78-1-15/UCFCTBt-B-78-1-15_item1/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG_24-C-R0120/UCFCTBt-B-78-1-15_XXXX_PAGE_t24-C-R0120.jpg , onde XXXX é um número sequencial e PAGE é o número da página, seja em romanos, seja em arábicos. Neste arquivo transcrito, cada elemento pb , bem como o elemento titlePage , contém o atributo facs com o endereço URL do arquivo da imagem correspondente à página em questão.
https://digitalis-dsp.uc.pt/botanica/UCFCTBt-B-78-1-15_2/UCFCTBt-B-78-1-15_2_item1/UCFCTBt-B-78-1-15/UCFCTBt-B-78-1-15_item1/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG/UCFCTBt-B-78-1-15_JPG_24-C-R0120/UCFCTBt-B-78-1-15_XXXX_PAGE_t24-C-R0120.jpgXXXXPAGEpbtitlePagefacsEste arquivo foi produzido para uso no projeto "Dicionário Histórico de Termos da Biologia", acessível pelo site https://dicbio.fflch.usp.br/.
Este arquivo foi produzido para uso no projeto "Dicionário Histórico de Termos da Biologia", acessível pelo site https://dicbio.fflch.usp.br/.
COMPENDIO DE BOTANICA , ou Noções elementares d'esta sciencia, segundo os melhores escriptores modernos, expostas na Lingua Portugueza Por FELIX AVELLAR BROTERO . TOMO PRIMEIRO.Perfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor.
PARIS . Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros. M,DCC,LXXXVIII. [Página iii]AO ILLUSTRISSIMO E EXCELLENTISSIMO SENHOR D. VICENTE DE SOUSA COUTINHO, Do Conselho de S. Magestade Fidelissima, Seu Embaxador na Côrte de Versalhes, Senhor de Alva, etc. etc.
EXC.mo SENHOR,
Aindaque nam concorressem em V. Exc. o esplendor do emprego, a consumada pericia nos negocios politicos, e a gloria de illustres Ascendentes, bastara à grande humanidade para com os desgraçados, o agradavel acolhimento que costuma fazer â todos os seus Compatriotas, os generosos sentimentos com que se digna favorecer os homens de Lettras, às quaes V. Exc. faz tanta honra, bastaram muitas outras admiraveis virtudes, que ornam o espirito de V. Exc. para dar-lhe hum nome preclaro, recommendavel à [Página iv] posteridade, e digno das homenagens de todos os sabios. Dezejara ser assaz feliz para achar em meus talentos hum obsequio adequado a tam bellas qualidades: mas sendo V. Exc. servido de acceitar o que présentemente lhe faço na dedicaçam dos fructos do meu trabalho sobre a Sciencia dos Vegetaes, permittirà hum fraco testemunho à minha gratidam, augmentarà o numero das demonstraçoens de benevolencia, com que costuma acolher tudo o que o zelo e amor do bem publico fazem emprehender, e protegerà ao mesmo tempo huma Sciencia, cuja utilidade he bem reconhecida pela frequencia com que he applicada à Medecina, Agricultura, e Artes.
DE V. EXC. O mais affectuoso e reverente servo, Felix Avellar Brotero.
[Página v]Quæso, ne hæc legentes, quoniam ex his spernunt multa, etiam relata fastidio damnent, cum in contemplatione naturæ nihil possit videri supervacuum, Plin.
A Botanica como todas as mais partes de Historia natural sam hoje em toda a Europa summamente cultivadas pelo muito que sam uteis ao progresso dos conhecimentos humanos, e às commodidades da vida social. O estudo botanico reune à sua utilidade hum superior grao de agradavel, a immensidade dos entes vegetativos, que de contino renovam a face da Terra, sendo hum dos mais bellos e amenos expectaculos, que nos prezenta a natureza, hum vastissimo campo, em que os olhos de hum attento observador encontram a cada passo maravilhas sem numero variadas, objectos de profundas meditaçoens, que engrandecem o espirito, e o elevam athé à firme persuasam de hum Deos, Autor do Universo. Grandes homens tem cultivado este campo com cuidado, e os seus trabalhos fizeram que os conhecimentos botanicos, algum dia tam limitados e confusos, tem adquirido huma nam pequena extensam e clareza. Conhecemos hoje mais da metade das plantas do globo terrestre, e temos prezentemente muitos methodos ou systemas, e muitas obras elementares de Botanica tanto em latim, como em quasi todas as linguas modernas da Europa.
Entre nòs contudo os principios desta Sciencia tem sido athe agora somente conhecidos em latim, e daqui resulta que todos os que ignoram esta lingua, ou tem fracas luzes della, ficam privados de adquirir as noçoens de huma Sciencia, que [Página vi] muitas vezes em razam do seu estado lhes sam absolutamente necessarias.
Dezejando pois obviar este obstaculo, e facilitar geralmente o estudo dos vegetaes entre nos, cuidei de escrever o prezente Compendio fundado nos tractados dos melhores Botanicos modernos e nas minhas proprias observacoens, o qual, segundo me parece, poderà ser util nam so aos que ignoram a lingua latina, mas ainda aos que a sabem e tem ja alguns conhecimentos em Botanica .
No principio do primeiro Volume tracto da origem, progresso, e estado actual da Botanica , e dou humas breves noçoens da physiologia e anatomia dos vegetaes. Explico depois os termos technicos mais usados na descripçam das partes relativas ao seu habito externo e fructificaçam, sem desprezar contudo os que dizem respeito à sua habitaçam. Passo na parte seguinte a fazer mençam do que me pareceo ser sufficiente para entender qualquer systema botanico e suas partes, como tambem da theoria critica, que devem saber os que se proposerem de formar esta sorte de destribuiçoens methodicas. Ajuntei a esta parte alguns exemplos de practica sobre a descripçam das especies, por querer facilitar hum trabalho, que considero como base dos Methodos, e o mais digno dos principaes cuidados de todo o Naturalista Botanico. Termino o volume com algumas reflexoens sobre as virtudes, propriedades, e usos dos vegetaes em geral, e com hum capitulo sobre o modo de fazer hum hervario.
No Segundo Tomo exponho o systema de Linneo, e dou huma idea geral da sua praxe, por ser hoje o mais seguido na Europa, e o que se adoptou na nossa Universidade. Esta exposiçam em alguns lugares he muito mais ampla do que ordinariamente se costuma dar; porquanto tive o cuidado de nada omittir do que as minhas proprias observaçoens e as de [Página vii] outros botanicos modernos me subministraram de mais interessante para illuminala. Ajuntei depois os sentimenots de muitos celebres Botanicos a respeito do mesmo systema para que o Leitor tendo conhecido as suas engenhosas vantagens nam ignorasse os seus defeitos, e podesse estima-lo segundo o seu justo valor.
As difficuldades, que encontram os que começam a cultivar a Sciencia botanica, seram diminuidas por meyo do Diccionario immediatamente adjuncto; e a fim de que o prezente tractado fosse ainda mais proveitoso, ajuntei tambem no fim deste segundo Tomo hum catalogo dos principaes autores botanicos, hum sufficiente numero de Estampas tiradas das obras de Linneo e outros modernos para clara intelligencia de muitos termos, hum index dos nomes usuaes Portuguezes de plantas, os quaes se acham nos livros escritos na lingua nacional, e em Grisley, Pisam, Marcgrave, Rheede, Rumphio, etc, com os nomes latinos genericos e triviaes, a que correspondem segundo o systema de Linneo; outro em fim dos termos technicos Portuguezes.
Cuidei de distribuir todas as partes do primeiro Tomo o mais methodicamente que me foy possivel, nam me querendo por ora desviar muito do plano que costuma seguirse hoje nas escolas de Botanica. Nam posso contudo deixar de confessar que este plano nam he o que mais me agrada, e espero algum dia de o mudar, se poder chegar a publicar os Elementos de Phytologia , que preparo em latim.
Na traducçam dos termos latinos segui os nossos Diccionarios, e me aproveitei de algumas palavras dispersas pelas nossas Provincias, que senam acham ainda em Diccionario algum; muitas vezes fui obrigado a formar novas do latim, como faziam os antigos Romanos do Grego, e como fez Barnades em Hespanhol, Lée em Inglez, Dalibard e La Mark [Página viii] em Francez, etc. Talvez serei em algumas notado pelo vulgo; mas pouco importa; todos os termos que formei tem o cunho Portuguez, e foram innovados segundo o genio da Lingua; demais disso as linguas das Sciencias sam hum puro effeito da convençam dos sabios, e nam poderam jamais ser a linguagem do vulgo, que nam as estuda e so as conhece athe hum certo ponto: a necessidade de explicar com clareza, concisam, e propriodade huma infinidade de ideas, que elle nam tem, farà sempre em todas as Sciencias termos barbaros aos seus ouvidos, e indespensaveis aos sabios ou aos que sam nellas iniciados.
Depois de ter vendido o Manuscripto da prezente Obra, achei acertado acerescentarlhe algumas notas para lhe dar o complemento necessario, e nam receyo actualmente de assegurar que sem embargo de ser hum Compendio, o Leitor nam acharà tractado algum elementar de Botanica mais completo de quantos se tem athe agora publicado.
[Página ix] O Estudo dos vegetaes he tam antigo como a especie humana, ella parece ter
sido obrigada a adquirir ideas particulares destes entes antes de todos os
mais conhecimentos da natureza. Se consultamos a Sagrada Historia, ella nos presenta o primeiro homem no meyo
de hum delicioso jardim, nutrindo-se de hervas As folhas da bananeira
(Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e
Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ
figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o
sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez
e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura
proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ
facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ
foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil,
visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e
tres de largo. Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super
terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem
generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes
herbas terræ, (Genes. Cap. 3.). Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens
usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta
permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca,
quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit
vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ
menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta
estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ
podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e
d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar
das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros. Nota
Nota
Nota
Nota
Panis erant primis virides mortalibus herbæ. Ovid Fast. L. 4. Cum
hontines pastoriciam vitam agerent, neque scirent etiam arare terram....
ut ex arboribus, ac virguliis decerpendo glandem, arbutum, mora, pomaque
colligerent ad usum. Varro de Re rust. L. 1. 2. Alguns philosophos da
antiguidade naõ se contentaraõ meramente de seguir esta opiniaõ,
elles foraõ de parecer que o homem tinha sido formado para se nutrir
somente de vegetaes, e que elle devia respeitar a vida de todos os
animaes; estes sentimentos passaraõ mesmo a ser hum artigo de
Religiaõ entre algumas naçoens, e delles vemos ainda hoje alguns
restos na India.
Mas os alimentos nam foram o unico motivo, que obrigou os primeiros homens a
familiarizar-se com os vegetaes; as suas enfermidades deram ainda novas
razoens para isso, e nam menos forçosas. He verdade que a historia e antigos Poetas Nota
Vej. Entre outros Hesiodo e
Ovidio.Nota
Naõ consta que tenha havido athe agora povo algum civilizado, ou
selvagem, em que deixassem mais ou menos de haver contendas sanguinarias
ou entre si ou contra seus vizinhos: nos vemos ainda dissensoẽs mais ou
menos fortes entre irmaõs, e familias que vivem nas cidades policiadas,
e apezar dos innocentes costumes attribuidos às familias primitivas, naõ
deixamos de ver na primeira hum dos mais funestos exemplos das paxoẽs
humanas.Nota
Naõ so quanto ao moral, mas ainda quanto ao physico, sendo assaz
conhecido pela experiencia que a colera, medo, tristeza ou alegria
demasiadas, e outras paxoẽs podem causar na economia animal
desordens consideraveis, e ainda mesmo funestas.
Nos seculos antediluvianos o pequeno progresso, que o espirito humano fez nas
artes, foy sempre a par com o conhecimento dos vegetaes. Se consideramos as primeiras famílias na vida pastoril ou errando em bandos,
nam se pode negar que esse estado fosse favoravel a hum semelhante
conhecimento; ellas eram entam obrigadas a converter differentes plantas em
cabanas, para se reparar das chuvas e injurias da atmosphera, e à proporçam
que mudavam de lugares se viam precisadas a fazer tentativas de novas
producçoens vegetaes para nutrirse e curarse, guiadas ora pela semelhança
das que jà conheciam, ora pelo instincto Nota
O instincto dos animaes,
aindaque limitado a suas absolutas precisoẽs e susceptivel de pouco
progresso, parece às vezes ser superior ao juizo dos homens; estes se
serviraõ delle com felicidade em algumas occasioẽs naõ so para fazer
escolha de alimentos, mas ainda para reconhecer as virtudes de alguns
vegetaes. Plinio foy de parecer que o caõ tinha ensinado a vomitar o
homem. Nota
O primeiro
Lavrador, segundo lemos no Genesis - foy Cain: Cain fuit agricola &
terrem etiam arare primus excogitavit. Os Egypicos, que se jactavaõ
de ser os mais antigos povos da terra, e descender de Entes Divinos,
veneraraõ a Isis como inventora da cultura do trigo e cevada, e ao
Arabe Osiris por lhes ter primeiro ensinado o uso do arado e
agricultura. Os antigos Gregos e Romanos pertendiaõ que a agricultura succedera a
vida pastoril, em que as primitivas geraçoẽs se occuparaõ durante
muitos seculos; e criaõ que fora Ceres quem a ensinara na Grecia
depois de ter vindo do Egypto; outros contudo seguiraõ que Buzyges
ou Triptolemo fora o que a estabeceo entre os Gregos. Nota
As mesmas plantas
venenosas podiaõ ainda nesse tempo ser aproveitadas para hervar as
settas e outros usos vingativos, da mesma sorte que as vemos hoje
empregadas entre as naçoens selvagens.
Depois da grande e lastimosa catastrophe dos povos do antigo Globo vemos Noé plantar huma vinha, e na tentativa com que descobrio o vinho, mostra ter conservado o espirito investigador dos usos dos vegetaes e seus productos, que tinha havido nos seculos antediluvianos. Nem se pode duvidar que na sua familia se salvasse huma grande parte das antigas tradiçoens botanicas, e que estas passassem depois igualmente aos seus vindoiros. O grande empenho de Rachel por obter huma [Página xiv] das mandràgoras, que Reuben tinha trazido do campo, provavelmente procedeo da persuasam em que ella estava da efficacia desta planta contra a esterilidade, o que suppoem por conseguinte noçoens estabelecidas das virtudes de alguns vegetaes. Os Egypcios, huma das mais antigas naçoens civilizadas, sam representados na historia como tendo vivido do Lotus (de que faziam huma especie de pam), e dos talos do Papyrus. A agricultura, a arte de embalsamar os cadaveres com substancias resinosas e aromaticas usada por este povo desde hum tempo immemorial, ocustume de expor os seus doentes à vista publica, a fim de que as pessoas que junto delles passassem lhes subministrassem os soccorros que para suas enfermidades reconheciam nos vegetaes, indicam claramente que as tradiçoens botanicas se tinham conservado no Egypto, e adiantado. Estas tradiçoens poderiam ter diminuido entre as naçoens menos cultas e entre os povos de vida errante, mas ellas nam podiam ser de todo extinctas, visto serem sumamente interessantes à sua subsistencia e à sua saude.
A historia nam nos assegura de que as tradiçoens sobre os usos tanto
economicos como medicinaes das plantas passassem a ser escriptos nos primeiros seculos depois da horrivel
catastrophe do diluvio. Parece contudo que a Botanica medicinal traditiva nam tardou muitos seculos
depois da dispersam das gentes em ser escripta entre as naçoens civilizadas,
principalmente no Egypto. Neste paiz as plantas efficazes sendo ja conhecidas em grande numero, os
sacerdotes tractaram de redigir os seus nomes a huma certa ordem ou
catalogo, e o depositaram nos templos. Os doentes começaram entam a recorrer a elles, como depositarios dos remedios
proprios para suas enfermidades, e pouco a pouco a arte de curar com os
vegetaes, a que todo o curativo das doenças estava entam limitado, veyo a
ficar somente aos sacerdotes, e a fazer parte do seu sistema [Página xv] religioso. Elles tractaram quanto lhes foy possivel de adiantar os seus conhecimentos na
Botanica medicinal; e com effeito ella foy entre os antigos Egypcios huma
das artes mais cultivadas e honrosas. Hermes, a quem os Gregos chamaram Mercurio, e de quem a mercurial deriva o
nome, foy hum dos mais antigos e famosos sabios nesta arte. A rainha Isis foy nella tam instruida e por meyo della fez curas tam
admiraveis, que os povos depois da sua morte lhe erigiram templos,
adorando-a como a melhor advogada nas suas enfermidades. Ella foy a que instruio a Horo ou o Apollo dos Gregos, ao qual elles
attribuiram a invençam da Medicina. Esculapio Nota
Este Esculapio viveo dois mil annos antes de Hjppocrates, e naõ deve
ser confundido com o Esculapio dos Gregos, que dizem fora discipulo
de Chiron o Centauro, e ter servido na expediçaõ Argonautica. Nota
Esta
persuasaõ foy depois bem geral em todo o antigo paganismo, e Celso a
idica claramente, quando diz: morbos vero iram
deorum immortalium relatos & ab eisdem opem posci
solitam.
Os Magos na Persia, os Gymnosophistas na India, e os Caldeos na Assyria e
Babylonia applicados no principio a observar puramente o que lhes offerecia
a candida natureza nos vegetaes introduziram tambem, como os Egypcios, em
botanica hum grande número de superstiçoens. As colonias, que emigraram destes paizes nam podiam deixar de levar comsigo
mais ou menos noçoens de hum semelhante abuso. Estas noçoens com effeito passaram athe à extremidade gelada do antigo
continente oriental e de là a America com o nome de superstiçam de Chemis,
Orchis, e outras divindades. Do Egypto nam so passaram a toda a Africa, mas caminhando ao longo das costas
do Mediterrâneo entraram na Phenicia e depois na Grecia, aonde augmentando
pouco a pouco tomaram emfim o nome de superstiçam de Esculapio. Ellas se espalharam igualmente nas Gallias, e dellas correram athe ao norte
da Europa com o titulo de Druidismo Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes
muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio
hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ
ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca,
mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e
passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se
fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava
vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses
huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era
taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e
extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de
colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido
lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em
razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as
ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que
pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex.
contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa
contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra
toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque
consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de
visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os
destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa
estrea. Nota
Lemos na historia destes obscuros, e supersticiosos tempos que hum certo
numero de plantas fora entam consagrado aos
Deoses por motivos religiosos Felices gentes, queis dî nascuntur in
hortis! Nota
Como foraõ por ex. a artemisia,
consagrada a Artemis ou Diana (porque naõ derivou o nome de Artemisia
mulher de Mausolo, rey de Caria, como Plinio e outros disseraõ); a hera
a Osiris e a Bacho; o pinheiro a Neptuno; o loireiro a Apollo, a sua
baga a Bacho, donde lhe veyo o nome de bacca; a videira ao mesmo deos
Bacho; a oliveira e matricaria a Pallas; o trigo a Ceres,
&c.Nota
Como foraõ por ex. os alhos e cebolas entre os Egypcios cujas
divindades eraõ ainda adoradas no tempo de Iuvenal, como - se collige do
satyrico verso, com que as ridicularizou e aos seus adoradores:
Portanto a botanica supersticiosa, cuja origem pode em [Página xviii] geral ser attribuida à ignorancia, temor, e embuste, parece ter-se
introduzido progressivamente entre todas as antigas naçoens, e nos
observamos ainda hoje hum resto della nos pòvos selvagens, e na plebe de
alguns paizes civilizados Nota
Tal e por ex. o uso de passar por entre hum vime fendido as creanças
com enfermidades herniaes [ou quebradas, segundo a expressaõ vulgar]
de ligar depois o dicto vime om as tiras da sua camizinha a fim de
as curar; como taõbem o uso de colher plantas medicinaes, em certas noytes de Junho, noytes
famosas na antiguidade antechristaã pelas fogueiras que nellas se
faziaõ a Ceres, deosa das searas, com palha de faveiras, ervilhas,
&c, e pelo costume de saltar por cima das dictas fogueiras para
assim expiar os peccados sobre o fogo, como diz expressamente
Plutarcho. Nota
Como foy taõbem a das Druidezas nas ilhas das
Gallias, e a das Cuthites em alguns lugares da costa do
Mediterraneo.Nota
Do ministerio supersticioso, que estas personagens exerciaõ com os
vegetaes, principalmente os que obraõ com força sobre o systema
nervoso, se originou provavelmente o grande numero de metamorphoses
e muitas fabulas, e prestigios, que a Poesia nos transmittio. Quem bem reflectir no que a credulidade de muitas pessoas attribue
ainda hoje as ànacardinas, e attender aos effeitos dos aromas, do
vinho, opio e outros narcoticos, á singularidade de huma especie de
Arum, que segundo Sloane faz emmudecer, &c., naõ acharà estranho
este meu parecer.
Perto da famosa epoca da guerra de Troya, Chiron o Centauro, do qual a planta
Centaurea obteve o nome, parece ter practicado sem superstiçam a botanica
curativa, em que tinha grandes conhecimentos. Elle formou muitos illustres alumnos, entre os quaes se contam alguns
Princepes; porquanto naquelles heroicos tempos a Botanica curativa tinha
parte na educaçam dos soberanos, e todos os grandes homens cuidavam entam
summamente de grangear a estima a amor dos- povos buscando meyos de os
aliviar nas suas enfermidades Nota
Naõ so nesta epoca, mas ainda antes
della, e em outros seculos seguintes, muitos principes e grandes
personagens cultivarão o estudo dos vegetaes, descobriraõ e poseraõ em
uso as virtudes de alguns, como foraõ, por ex. Teucro Rey de Troya,
Helena raynha de Lacedemonia, Ptolomeo Philadelpho Rey do Egypto,
Telepho Rey de Misia, Eupator Rey do Ponto, Lysimacho Rey de Thracia,
Gencio Rey de Esclavonia, Pharnaces Rey do Ponto, &c., dos quaes
tomaraõ o nome as plantas Teucrium, Helenium, Philadelphus Telephium,
Eupatorium, Lysimachia, Gentiana, e Pharnaceum. Cyro Rey dos Persas teve
hum jardim de toda a sorte de plantas, que cultivava por sua propria
maõ, Attalo Rey dos Pergamenos mandou plantar no seu jardim toda a casta
de plantas medicinaes e venenosas para as apprender a destinguir.
Mithridates, Rey do Ponto, cultivou muito este estudo, e Cratevas lhe
dedicou a planta Mithridatia. Evax, Rey dos Árabes, escreveo sobre as
plantas medicinaes. Iuba, Rey da Mauritania, escreveo da Euphorbia
contra os venenos, e lhe deo o nome do seu medico Euphorbo, que a tinha
descoberto, no tempo em que Augusto Cesar tinha mandado erigir huma
estatua a Antonio Musa, irmaõ do dicto Euphorbo, pelo ter curado huma
perigosa enfermidade.
Durante a guerra de Troya Nota
Esta famosa guerra succedeo quasi doze seculos antes da Era
Christaã. Nota
Foy o Esculapio dos Gregos, cuja sciencia na arte de curar lhe
grangeou honras divinas, como ella tinha grangeado ao dos
Egypcios.
No espaço entre a guerra de Troya e de Peloponeso, que envolve hum periodo de
mais de sette centos annos, Thales e Pythagoras trazendo a philosophia à
Grecia, a Botanica começou a ser melhor cultivada, como o foram as demais
artes; e as substancias vegetaes, como medicamentos internos Nota
Alguns autores saõ de parecer que as subftancias vegetaes começaraõ a
ser empregadas no uso interno somente neste periodo, e que ainda
mesmo no tempo da guerra de Troya se practicasse somente a botanica
cirurgica, e naõ a medicinal; que a bebida de Machaon devia ser
considerada como nutritiva e naõ como medicinal; que os doentes
estavaõ taõ fora de confiarem entaõ em remedios internos, que nos
cazos em que estes deviaõ ser tomados, so tinhaõ fé em amuletos, e
prestigios ou na articulaçaõ de certas palavras proferidas por seus
sacerdotesve sacerdotizas, as quaes às vezes eraõ acompanhadas de
remedios externos vegetaes; que todas as feridas dos heroes Gregos
na guerra Troyana foraõ curadas com remedios applicados
exteriormente, a saber, succos, resinas, e oleos vegetaes, e que por
conseguinte todo o curativo fora meramente cirurgico; que o vinho
que Agamemnaõ bebia em jejum naõ era no intuito de se preserva da peste [sem embargo de que vemos
este uso nos Gregos modernos] porquanto a peste do exercito Grego
fora considerada como hum flagello celeste, e naõ pôde ainda nesta
epoca ser curada por meyos physicos, recorrendo-se somente a
propiciar o Deos irado. Outros pelo contrario pertendem que junto da guerra de Troya a
Medicina do Egypto começara a ser cultivada entre os Gregos; que
fora entaõ que o acazo fizera descobrir ao pastor Melampo a virtude
do helleboro negro, notando que as cabras tendo comido desta planta
eraõ purgadas, o que o moveo a dar o leite dellas às filhas de Rey
Proeto, que eraõ hystericas e se julgavaõ mudadas em vaccas; que a
preparaçaõ, que Hellena fazia da herva entaõ denominada Nepenthes,
era o ópio, &c. Sem embargo de que estas opinioẽs tenhaõ sido seguidas por pessoas de
grande merecimento, as razoẽs em que ellas saõ fundadas naõ me
parecem sufficientes para persuadirme que a Medicina entre os Gregos
naõ date de mais alta antiguidade, ou que fosse filha da
Cirurgia. Eu penso que estas artes foraõ contemporaneas entre todas as nações,
e tiveraõ taõ alta origem como a Botanica, que na infancia das
dictas naçoẽs e durante numerosos seculos naõ foy outra coiza senaõ
hum conhecimento dos vegetaes applicado às artes. A intemperie do ar, mudança das estaçoẽs, venenos, maos fructos,
&c. em todas as epocas da existencia humana, e em todos os
paizes deviaõ causar aos seus habitantes molestias internas que
exigissem medicamentos internos ou da Medicina assim como as
contusoẽs, feridas, &c. exigiaõ os da Cirurgia, e naõ he
verosimil que o homem taõ familiarizado com o uso dos vegetaes naõ
cuidasse de buscar nelles remedios internos nos cazos desesperados,
tentando de tomar cozimentos, gomas, sumos de hervas, &c., assim
como os tentara nas molestias denominadas externas. Eu naõ duvido que as primitivas geraçoẽs usassem primeiramente como
medicamentos internos so das partes daquellas mesmas plantas, de que
se serviaõ como alimentos, e que elles muitas vezes fossem
inefficazes; mas basta que elles as tomassem como medicamentos para
considerarmos a Medicina contemporanea da Cirurgia ou como sendo a
mesma arte entaõ reunida. No descobrimento que fez Noé do vinho vemos huma clara prova das
tentativas que os homens faziaõ por descobrir novos usos nutritivos
nos vegetaes; e porque naõ fariaõ elles em todo o tempo as mesmas
por descobrir os seus usos curativos internos por escapar à dor, e á
morte? O uso dos medicamentos internos, que se tem observado nalgumas naçoẽs
selvagens, naõ nos indica o contrario. Nota
Nos perdemos nam so os escritos deste philosopho, mas ainda os de
muitos outros que tinham tractado dos vegetaes, como foram Lino e
Orpheo seu discipulo, Museo, Zoroastres, Euriphantes, Solon,
Dieuches, Praxagoras, Diocles, Herophilo, Metrodoro, Diagoras,
Epimenides que pela paxam pelo estudo das plantas viveo muitos annos
retirado nas montanhas, os de Archigenes, Androcides, Philippe,
Chrisippo, Callimacho, Asclepiades, Archilocho, Evax rey dos Arabes,
Temison, Dionysio, Glauco, Glaucias, Erasiatrato, Plistonico,
Sosimenes, Androcio, &c. como lemos em Theophrasto, Celso,
Herodoto, Plinio, e Galeno.
Quatro centos e tantos annos antes da Era Christaan appareceo o illustre
Hippocrates Nota
Hippocrates nasceo 459 annos antes de Christo.Nota
Este botanico, a que alguns chamaram tambem Cratevas, nam deve ser
confundido com oCratevas, de que falla Plinio que denominara huma
planta Liliacea (Erythronium dens canis Lin.) com o nome de
Methridates. Os escritos tanto de hum como de outro foram perdidos. Nota
Theophrasto escreveo no terceiro seculo antes da era Christaan. Os Gregos nam foram rigorosamente os fundadores da Botanica escrita
applicada as artes, como se pode colligir do que tenho dicto; mas
elles foram reconhecidos como taes pela razam dos seus escritos
nesta arte serem os mais antigos que chegaram athe nossos dias,
tendo-se perdido os dos Egypcios e Asiaticos por differentes
circumstancias.
Com effeito Theophrasto servindo-se dos trabalhos de Aristoteles Nota
Aristoteles cita em muitos lugares das suas obras os seus dois livros
sobre as Plantas; mas delles apenas temos alguns pedaços
deslustrados pela inepta falsificaçam de hum Arabe pouco versado em
Botanica. Nota
O que Hesiodo, Nicandro, Xenophonte, Basso e outros antigos Gregos
mencionaram dos vegetaes nam he comparavel com os escritos de
Theophrasto. Nota
Theophrasto parece ter seguido nisto os sentimentos de seu mestre,
cuja destinçam a respeito dos sexos vegetaes era muito vaga em
geral, e consistia em julgar que o individuo masculino era mais
forte e mais amplo do que o feminino, posto que esse fosse mais
fructifero. Nota
"Se o pò das flores de hum ramo de palmeira masculina, diz
Aristóteles, for sacudido sobre as da feminina, os fructos desta
amadureceram promptamente; e se o pò das masculinas for conduzido de
longe pelos ventos às femininas, seguir-se ha o mesmo effeito, como
se o ramo da masculina se tivesse dependurado sobre a feminina". Theophrasto diz, que se o pò da palmeira masculina nam for sacudido
sobre o fructo da feminina, este nam amadurecerà jamais, mas cahirà;
porem como depois diz que senam pode assignar razam deste facto de
apolvilhaçam ou aspersam do pò, parece que nam teve ideas de que os
ovarios vegetaes eram fecundados como os dos animaes. Talvez tanto elle como seu mestre nam referiram mais do que as
observaçoens dos Egypcios e Babilonios, entre os quaes a
apolvilhaçam das palmeiras era practicada desde hum tempo
immemoravel, segundo Herodoto.
O botanico de reputaçam, de que temos noticia, depois de Theophrasto foy
Dioscorides Nota
Dioscorides escreveo no tempo do Imperador Nero.
No tempo dos antigos Romanos, à Botanica fez
muito pouco progresso. A traducçam dos escritos de Methridates sobre as
plantas, os quaes Pompeo tinha trazido da Asia, excitaram na verdade alguma
curiosidade em Roma, mas passou-se muito tempo sem que sabio algum se occupasse
de adiantar os conhecimentos que haviam entam na Grecia sobre os vegetaes. He
verdade que delles escreveo Catam, Virgilio, Varro, Collumella, e Palladio, mas
os seus tractados postoque nam deixem de ser estimaveis quanto a agricultura e
usos economicos parecem so ter sido meras copias dos escritos Gregos. Plinio foy
somente o que entre os Romanos adiantou hum pouco a Botanica, tractando-a como
historiador naturalista, a pezar do uso do seu tempo. A sua grande liçam dos
autores coétaneos e da antiguidade, e o caracter observador, de que era dotado
nam exigiam menos. Elle augmentou o catalogo das plantas dos antigos com quasi
duzentas, e nos deixou a sua [Página xxvi] historia; mas he justamente arguido de ter equivocado muitos dos seus nomes,
adulterado varias passagens dos originaes que copiara, e de ter misturado
algumas vezes o verdadeiro com o fabuloso. Fazendo mençam dos figuras de algumas
plantas, que Cratevas, Deniz e Metrodoro tinham feito, parece ter menos estimado
semelhantes retractos do que boas descripçoens; mas as que elle nos deixou ainda
mesmo sobre a estructura das plantas, que tinha observado, rarissimas vezes sam
mais circumstanciadas do que as dos seus predecessores; elle foy ainda muito
menos methodico do que elles, e como dizem alguns Methodistas de hoje, tudo
nelle he huma bella desordem. As noçoens dos Gregos e Romanos naturalistas a
respeito dos sexos vegetaes nam lhe foram desconhecidas; elle nos diz com
effeito que alguns admittiam os dois sexos nas arvores e plantas herbaceas Nota
Arboribus, imo potius omnibus quae terra gignit herbisque etiam
utrumque sexum esse diligentissimi naturae tradunt. Plin. Hist. Nat.
lib. 13. Cap. 4.Nota
Ibid. et alibi.
Depois de Plinio athe à ruina do Imperio do Occidente, a Botanica nam deo passo algum, e muito menos ainda depois della athe ao seculo XV, postoque muitos celebres medicos se occupassem deste estudo. Galeno parece ter-se nelle destinguido mais do que Rufo, Apuleio e outros, e foy o primeiro que invectivou contra a inutilidade das descripçoens dos autores Gregos e Romanos. Confiando mais nos seus olhos cuidou de estudar os vegetaes a seu modo, fazendo muitas viagens nos paizes do Levante, afim de conhecer os que eram de uso medicinal, e nos deixou nos seus livros os nomes de quinhentas especies; mas nam emendou contudo os defeitos que tinha notado nas [Página xxvii] descripçoens dos outros. Ecio, Egineta, Tralliano, e Oribasio nam foram mais felizes.
Invadido e desmembrado o Imperio do Occidente, o destino da Botanica foy quasi
semelhante ao das bellas artes da Italia. He verdade que alguns seculos
depois, os Arabes tendo estendido as suas conquistas pela costa
septentrional da Africa athe às Hespanhas tentaram de acolher as sciencias
deste Imperio, e que os seus medicos Nota
Mesué, Serapiaõ, Raxis, Avicenna,
Averrhoes, Avenzoar, Abenguefit, Albenbeithar, Abul Fadl, &c.Nota
Myrepso,
Quiricio, Bosco, Hildegarde, Sylvatico, Dondis, Suardo, Villanova,
Plateario, &c.
Tomada a capital do Imperio do Oriente por Mahumet II, quasi no meyo do seculo XV, muitos sabios Gregos, que entam se expatriaram fugindo do barbaro jugo mahometano, sendo bem acolhidos na Italia deram principio ao restabelecimento das lettras no Occidente. A invençam da arte de imprimir, que succedeo quasi no mesmo tempo, e as grandes investigaçoens que entam se fizeram em toda a sorte de manuscriptos da antiguidade contribuiram para completar esta feliz revoluçam da litteratura. [Página xxviii] Ella veyo a redundar em proveito das artes e sciencias, e a Botanica nam podia por conseguinte deixar tambem de ter nella alguma parte. O primeiro ardor de trabalho entam, assim como nas mais sciencias, foy a liçam e explicaçam dos antigos escriptores. Theodoro Gaza, e Hermolao Barbaro sam considerados como os primeiros que começaram a restauraçam da Botanica, traduzindo em latim as obras de Theophrasto e Dioscorides. Muitos outros seguiram o seu exemplo, e todos os Tractados da antiguidade sobre os vegetaes, que se poderam achar nas bibliothecas, foram pouco a pouco interpretados.
A necessidade, que a Medicina tinha da Botanica, requeria absolutamente, que se
continuasse o seu estudo e se aper feiçoasse; mas elle nam pode obter perfeiçam
nestes primeiros tempos, nam consistindo entam mais do que na grande liçam dos
monumentos Gregos e Romanos, e de alguns da idade media. Demais disso, nam menos
pela razam do espirito de disputa, que entam dominava, do que por causa das
vagas e obscuras descripçoens, que os antigos tinham dado dos vegetaes, os
commentadores nam so se contrariavam em suas opinioens, mas pelo menor pretexto
davam às plantas dos paizes em que viviam os nomes das mencionadas pelos
escriptores que commentavam, sem reflectir na grande diversidade que havia entre
os terrenos e climas frios do norte da Europa, aonde escreviam, e os da Grecia e
Italia patria dos antigos Autores. Ainda mesmo os que viviam, nos paizes
quentes e meridionaes da Europa nam deixaram de cahir em muitos enganos Nota
Esta erronea applicaçam dos nomes e igualmente dos usos das plantas
foy a principal causa, porque a Materia Medica daquelles tempos se
acha tam carregada de um farrago de substancias inuteis, e ainda
mesmo nocivas; porquanto succedeo que os commentadores algumas vezes
tiveram por saudaveis as plantas venenosas, intendendo mal os nomes
mencionados nos antigos escritos. Nota
Devemos com effeito confessar ingenuamente que nam sabemos qual era o
verdadeiro helleboro, a verdadeira cegude, nem a maior parte das
plantas de que tractaram os antigos Gregos e Romanos. Ainda mesmo depois das sabias investigaçoens, que fez Tournefort por
todo o Levante, e patria dos antigos Gregos, apenas consta que se
ache bem verificada a decima parte dos 600 nomes de plantas, de que
elles fizeraõ mençaõ. Eu nam tractarei jamais o nosso Amato de ignorante de Botanica, como
fez Mathiolo, porisso que nam soube decifrar as verdadeiras plantas
indicadas pelos nomes, e incompletas descripçoens, que se acham nos
livros de Dioscorides, nem censurarei taõbem Mathiolo de nam as ter
decifrado muito melhor, notando-o, como alguns fizeram, de nam ter
comparado as plantas que a natureza produz com as descripçoens de
Dioscorides, mas de ter sobre ellas imaginado as que a natureza
devera produzir, ou tinha mal feito de nam produzir; nem igualmente
cuidarei de o desculpar, como outros fizeram, dizendo, que as
plantas descriptas por Dioscorides tinham mudado hum tanto de figura
desde o seu tempo athe ao do dicto commentador; porquanto attribuo
unicamente toda a difficuldade de reconhecer as plantas dos antigos
às suas màs descripçoens, e esta he a melhor desculpa que se pode
dar a Mathiolo e outros commentadores dos antigos Gregos e
Romanos.
Portanto o modo ordinario de estudar os vegetaes nestes primeiros tempos
differia muito pouco do que tinham usado os antigos fundado na tradiçam Nota
Os que conhecem huma planta meramente de vista, ou porque tendo
ouvido o seu nome de alguma pessoa, que lha mostrasse, ficaraõ
somente com certas noçoẽs do seu habito externo, que elles naõ sabem
explicar, aindaque contudo bastem às vezes para lha fazer destinguir
de qualquer outra, so a conhecem por tradiçaõ ou impiricamente; tal
he por ex. o conhecimento que os nossos hervolarios tem de algumas
plantas. Os Antigos suppunhaõ as plantas conhecidas por este modo, e porisso
cuidaraõ muito pouco de dar boas descripçoẽs dellas, nem na verdade
o sabiaõ como nos.
Este impirico e fastidioso modo de apprender a conhecer os vegetaes nam podia subsistir por muito tempo, e sem duvida poucas reflexoens bastavam aos botanicos para julgar entam que [Página xxx] era indispensavel começar quasi tudo de novo, e estabelecer a botanica, estudando as plantas nam nos livros dos antigos, como era costume, mas sim no grande livro da natureza, que ante elles estava aberto e pedindo a sua attençam. A liçam dos antigos, e o dezejo de reconhecer as plantas, de que elles tinham tractado, requerendo absolutamente a comparaçam das descripçoens com as partes dos vegetaes, a que ellas se suppunham pertencer, necessariamente deviam conduzir a fazer pouco a pouco descobrir novos, e foy com effeito o que succedeo no seculo XVI.
O descobrimento de hum grande numero de plantas, que succedeo nesse seculo, estava exigindo huma destribuiçam methodica capaz de auxiliar a memoria e facilitar o estudo tanto dos antigos vegetaes como dos que novamente se tinham descoberto e se hiam descobrindo. As descripçoens começaram a parecer insufficientes, e o deviam ser na verdade pela razam de serem pouco circumstanciadas, nam obstante todo o trabalho que alguns tiveram de melhor as traçar do que os antigos. Cuidou-se pois de ajuntar as descripçoens estampas semelhantes às que Corbichon e Cuba tinham publicado no seculo XV, e fizeram-se tentativas de destribuiçoens methodicas.
Trago ou Bock foy dos modernos o primeiro, que emprehendeo de dispor os vegetaes
em Methodo; mas o seu plano differe muito pouco do modo destributivo que tinham
seguido Dioscorides e Theophrasto, e se pode dizer que elle somente renovou as
ideas destes antigos Botanicos. Lonicero, Dodoneo, Lobel, Clusio, Dalechampio,
Zaluziano, e muitos outros seguiram igualmente quasi o mesmo plano methodico dos
antigos. A grandeza, duraçam, lugar de nascimento, qualidades, virtudes Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em
que diz: existimandum est autem nullas
propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in
duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci
describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ;
2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo
considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os
generos: - Ex his enim (flore, fructu et
semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes
apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel
Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde
ego cognationes stirpium indicare soleo, figura
differt. Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos
relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657,
seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos
vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde
Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio
Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome
generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem
determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar.
Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo
fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas
todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente
incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos
caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de
Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as
especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados
em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.Nota
Os antigos nam tractaram senam das plantas, em que conheciam alguma
utilidade na Medicina e artes, e porisso os seus conhecimentos
botanicos foram limitados a hum pequeno numero de plantas; elles
cuidaram mais de indagar os seus usos e virtudes, do que os seus
verdadeiros caracteres fundados na estructura e fructificaçam, por
cujo motivo as suas destribuiçoens nam merecem rigorosamente o nome
de Methodo ou Systema, na accepçam em que se tomam hoje estas
palavras entre os Botanicos. As virtudes, e qualidades das plantas sam na verdade ainda hoje
adoptadas pelos autores de Materia Medica, como fundamento das suas
destribuiçoens; mas estas destribuiçoens por mais toleraveis que
sejam em Materia Medica, pela razam do seu differente fim, e por
supporem as plantas ja conhecidas seram sempre improprias em
Botanica, e faram nella confundir o que merece de ser
destinguido. A mesma planta succede as vezes ter differentes virtudes, segundo as
suas differentes partes, de maneira que se os botanicos seguissem os
Autores de Materia Medica, a raiz de huma planta
muitas vezes deveria ser posta em huma classe, a sua flor em outra,
as suas folhas e tronco em
outra, em fim ainda algumas vezes o mesmo fructo, como v. g. a
laranja, mereceria de ser posto em differentes Classes. Nota
O Dr. Porta na sua Phytognomica publicada em Napoles no anno de 1588
dividio os vegetaes em sette classes, considerando-os segundo o seu
lugar de nascimento, segundo as relaçoens que elles tem com os
homens e animaes tanto na figura de suas partes como nos costumes, e
em fim pela relaçaõ que elles tem com os astros. No seu parecer, as plantas em que ha alguma parte que representa o
figado, sam boas para as doenças do figado; as que representam
olhos, sam boas para os olhos; as que representam dedos sam boas
para a gotta; as que tem a forma de testiculos saõ boas para as
doenças dos testiculos, &c. &c. He bem facil de perceber quanto este denominado Methodo he improprio,
cheio de falsidades, e ridiculo, a pezar de todos os elogios que lhe
fizeram de engenhoso. Nota
Nota
Gaspar Bauhino publicou no anno de 1596, no seu Pinax, os nomes e
synonymia de seis mil plantas conhecidas athe ao seu tempo, e as
destribuio em 12 Classes pelas suas qualidades e algumas partes do
habito externo indeterminadamente. Seu irmaõ Joaõ Bauhino na sua
Historia geral das plantas publicada e m três Vol. in-fol. no anno de
1650 deo as figuras de 3428 plantas, e descreveo 5266, destribuindo-as
em 40 livros ou classes segundo as suas qualidades, duraçam, grandeza, e
algumas das suas partes. Estas duas Obras, apezar da sua mà ordem
methodica, mereceram sempre pela vasta erudiçam, que contem, huma
especial estima de todos os Botanicos. As Obras de Guilherme Lauremberg,
Hernandes, Jonston, Rheede, Rumphio, Burman e muitos outros, que
seguiram falsos planos methodicos, semelhantes aos dos antigos, ou pouco
differentes, nam deixam tambem de ter hum particular merecimento quanto
à descripçam historica das plantas; mas os curtos limites deste discurso
nam me dam lugar de mencionar todos os tractados uteis que se tem
publicado em Botanica: demais disso este objecto so me parece ter
proprio dos que escreverem a Historia geral e chronologica da Botanica,
ou Catalogos geraes dos Autores Botanicos.
André Cesalpino, celebre professor de Piza, foy o primeiro que imaginou huma
destribuiçam toleravel quanto à propriedade das partes fundamentaes das suas
divisoens, e porisso mereceo o titulo de primeiro Systematico entre os
Botanicos. Valendo-se do seu descanço e da facilidade de comparar e observar, que lhe
offereciam os jardins botanicos da Italia fundados no seu seculo Nota
Em
Padua, Piza, e Bolonha; o primeiro, que he o mais antigo da Europa, foy
fundado em 1540 pela illustre caza de Medicis; os outros dois foram
estabelecidos em 1547. Depois destes fundaraõ-se muitos outros, como o
de Mompelher em 1598; o de Paris em 1626; o de Edimburgo em 1675; o de
Upsal em 1657; o de Oxeford em 1683; o de Leyde em 1677; os de Berlim e
Leipsique em 1680; o de Amsterdam em 1688; o de Petresburgo no tempo de
Pedro I; o de Madrid em 1756; os de Lisboa e Coimbra no glorioso reynado
do Senhor D. Jozé I; em fim nam ha hoje Estado algum na Europa, por
pequeno que seja, que deixe de ter jardins botanicos, e em alguns elles
sam bastantemente multiplicados, pertencendo nam so às Universidades e
Academias, como também a particulares ricos. Elles foram no principio
instituidos somente para serviço da Medicina; mas os seus Inspectores
vendo que os estreitos limites das plantas medicinaes lhes nam davam
lugar de fazer extensas observaçoens, nem de tirar grande proveito,
introduziram nelles pouco a pouco toda a sorte de plantas, o que deo
occasiam de bem examinar as suas affinidades e de fundar o grande numero
de Methodos que tem havido. A sua utilidade fez tambem que algumas
naçoens Européas os estabeleceram ainda mesmo nos seus dominios
ultramarinos, como fizeram os Hollandezes no Cabo da Boa Esperança, os
Francezes nas Ilhas Mauricias &c. e se nos os tivessemos tambem
estabelecido nas nossas colonias, como nas Cortes de Thomar se havia
proposto, a agricultura, commercio, e artes certamente disso teriam
tirado nam pequenos enteresses.Nota
Cesalpino he na verdade desculpavel neste respeito por ter sido o
primeiro que fundou hum systema na fructificaçam, e o seria com effeito
ainda mais se elle tivesse nas suas divisoens escolhido os destinctivos
tirados do habito externo por attender as affinidades naturaes; mas em
todas as suas divisoens apenas vemos huma sò familia natural, que he a
das Umbrelladas posta na sexta Classe do seu systema.
Joaquim Jungio, Allemam, foy dos primeiros que adoptaram as ideas de
Cesalpino; mas os calamitozos tempos da Allemanha, em que viveo, nam lhe
permittiram de publicar hum melhor Methodo, postoque merecesse de ser
reconhecido pelo primeiro Botanico dogmatico em razam dos muitos sabios
aphorismos, que estabeleceo em Botanica Nota
Jungio faleceo no anno de
1657; a sua Izagoge Phytoscopica, que foy publicada 22 annos depois da
sua morte, contem hum grande numero dos principios criticos, que Ray e
Linneo seguiram. Haller parece ter feito hum grande cazo desta Obra,
como se collige da passagem seguinte. (Praef. Helv. S. pag. 21.): habentur hoc Libro (Jungii) de Plantis
fragmenta satis luculenta, ubi passim leges sancit Linnaeanis
simillimas, deinde stirpes ad genera naturalia revocat, & a
consuetis familiis separat, suas etiam observationes interponit....
incredibile est, quàm profunde in minutias staminum, tubarum,
florumque introspexerit, quantâ etiam perspicacitate, et ingenii
methodica indole definitiones primus fixerit.
Em 1680 Roberto Morisono, Escossez, sendo professor de Botanica em Oxeford publicou huma Historia geral de plantas com pequenas figuras gravadas em cobre, na qual seguio as ideas de Cesalpino debaxo de huma nova forma, dividindo o seu Methodo em 18 Classes fundadas no fructo, corolla, e partes do habito externo. Este Methodo foy com razam censurado de ter mao nexo, e a clave mal feita, e nam sei que fosse seguido mais do que por Bobart, que o completou publicando o seu terceiro volume depois da morte de Morisono.
Em 1682, Joam Rai, theologo Inglez de grande engenho e erudiçam, publicou a mais
extensa Historia do reyno vegetal que se tinha visto, comprehendendo 18655
plantas entre especies e variedades. Os trabalhos desta vasta Obra nam [Página xxxvi] foram dirigidos sò à Medicina, como era costume, mas a tudo o que podesse
ser util à vida humana, e Rai foy com effeito o primeiro depois de Plinio,
que se esforçou paraque a Botanica fosse estudada, como huma parte da
Historia natural Nota
Boerhaave, e Linneo foram do mesmo parecer, e este ultimo tornou a
pôr a Botanica na Historia natural; mas o prejuizo de a considerar
meramente como huma parte da Medicina tem prevalecido de sorte, que
ainda hoje por toda a parte os Medicos e Boticarios sam
privativamente os professores de Phytologia , como senaõ houvesse outra Phytologia mais do que a applicada a
usos medicinaes, nem outras pessoas capazes de a ensinar senam
Medicos e Boticarios. Nota
Rai publicou huma segunda ediçaõ do seu Methodo em 1700, com hum
grande numero de emendas, que elle se vio obrigado a fazer depois de
ter visto o Methodo de Tournefort, seu digno rival.
Christovam Knaut no seu Tractado geral das plantas de Halla na Saxonia, publicado em 1687, tentou de seguir hum novo plano destribuindo as dictas plantas em 17 classes fundadas principalmente na corolla, e fructo, e subdivididas em 62 secçoens pela fructificaçam e habito externo, mas o seu Methodo foy com razam notado de ser summamente composto e difficil.
Pedro Magnol, professor da Universidade de Mompelher, imaginou tambem hum novo
plano de destribuiçam, que alguns consideram como a primeira tentativa do
Methodo natural. Porem o seu intuito nam foy de investigar o Methodo natural,
mas tam somente mostrar que haviam familias nam menos nos animaes do que nos
vegetaes, e que ellas se deviam caracterizar nam puramente pela
fructificaçam, mas por todas as demais partes, porque nenhuma dellas era
accidental, e que em todas se deviam [Página xxxvii] indagar as affinidades ou relaçoens possiveis de semelhança Nota
O Conde
de Buffon foy do mesmo parecer; Linneo, Royen, Haller, Wachendorf,
Adanson, Jussieu, e muitos outros celebres Botanicos do nosso seculo
todos reconheceram, que haviam familias naturaes fundadas em affinidades
naturaes, como Magnol tinha indicado; alguns delles, como Adanson e
Jussieu, admittiram demais disso huma serie ou gradaçoens entre as
differentes familias começando pelas plantas mais
imperfeitas.Nota
Este segundo Methodo de Magnol foy
impresso depois da sua morte em 1720: consta de 15 Classes fundadas nos
caracteres do calys combinados com os corolla, e subdivididas em 55
secçoens relativamente ao lugar de nascimento, disposiçam das flores,
sexo, calys, corolla, e fructo. M. Adanson estranha com razam que Magnol
depois de ter imaginado hum Methodo razoavel composesse este, que lhe he
na verdade inferior e no qual parece querer evitar as familias ou
Classes naturaes, buscando por toda a parte hum calys athe chegar a dar
este nome aos tegumentos das sementes, quando lhe era precizo hum calys
para satisfazer às suas ideas systematicas
Paulo Herman, professor de Botanica em Leyde, seguio as ideas do Cesalpino debaxo de huma nova forma, e dividio as 5600 plantas, de que tractou em 2J Classes fundadas principalmente nas differentes sortes de fructos ou sementes cobertas e descobertas, subdividindo as dictas Classes em 82 secçoens pela disposiçam das flores, e pela corolla e fructo. O seu Methodo he complicado; elle foy seguido de Rudbeck e Zumbach que o aperfeiçoou e imprimio no anno de 1690.
Augusto Quirino Rivino, professor de Botanica em Leipsik, tractou de descobrir
hum Methodo mais facil e mais conforme aos principios systematicos do que nenhum
dos seus predecessores. Elle dividio o pequeno numero de plantas, que conhecia,
em 18 classes fundadas principalmente nas relaçoens da corolla, e subdivididas
em 91 secçoens relativamente ao fructo, figura do calys e corolla, situaçam, e
disposiçam ou falta das flores. Este Methodo publicado pouco a pouco desde o
anno de 1690 athe 1696, nam he tam regular, como alguns pensaram; porquanto
vemos que o seu Autor considerou na clave das suas Classes nam so a regularidade
e irregularidade da corolla e numero das suas petalas, mas ainda a perfeiçam das
flores, e a sua disposiçam. Elle foy contudo durante alguns annos o mais
seguido em Allemanha; Koenig, Welsch, Heucher, Gemeinhart, Hebenstreit, e
Hecher o adoptaram nos seus tractados de plantas; Kramer, Christiano Knaut Nota
Ludwig no anno de 1737 ajuntou duas classes demais ao Methodo de
Rivino, deduzidas da presença ou falta da corolla, e Wedel e Boehmer o
seguiram neste estado de reforma; no anno de 1747 aperfeiçoou segunda
vez o dicto Methodo, reunindolhe demais a relaçam dos sexos das flores,
e foy a melhor emenda que delle se publicou.Nota
Christiano Knaut foy hum dos Botanicos, cujos paradoxos tem
impedido o progresso da Botanica; elle seguio que havia tantos generos
como especies, que a corolla era a parte essensial da flor, e que nam
haviam sementes nuas.
José Pitton Tournefort, que tam destinctamente orna o numero dos grandes
Botanicos da França, foy de todos os seus contemporaneos e predecessores o que
mais aperfeiçoou a [Página xxix] Botanica systematica. Persuadido de que todos os Methodos seriam sempre
demasiadamente imperfeitos em quanto as suas infimas divisoens, ou generos, nam
fossem melhor determinadas, cuidou de lhes dar huma nova forma e fez para este
fim hum grande numero de observaçoens tanto em França como em diversos paizes
estrangeiros, ajudado da munificencia do seu Soberano e pessoas ricas. Concluio
esta difficil empreza no anno de 1694, no qual introduzio em Botanica muitos
principios sábios, e sobre elles fundou hum Methodo que foy reconhecido por
claro, conciso, e facil. Destribuio neste Methodo 10146 plantas (especies ou
variedades) em 22 classes, dividio estas em 122 secçoens, e subdividio as dictas
secçoens em 696 generos. As suas classes foram deduzidas, 1°. da grandeza e
duraçam, ou da consideraçam das plantas como hervas ou arvores ; 2° da presença ou nullidade
da corolla e da flor; 3°. da disposiçam das flores, ou das relaçoens de
simplices e compostas; 4°. do numero das petalas da corolla; 5°. da figura
regular ou irregular da corolla Nota
M. Adanson reconheceo nas Classes de Tournefort seis familias
naturaes, e 48 nas suas secçoens, e assegura com razam que de todos
os Methodos artificiaes o de Tournefort foy o que menos turbou as
affinidades, ou melhor se conformou com a marcha da natureza. Nota
Gouan, Adanson, Jussieu, e outros modernos adoptaraõ esta
doutrina. Nota
Rai tinha sido do mesmo parecer: Notae (dizia elle) obviae sint,
manifestae & cuilibet facile observabiles; nam cùm Methodi usus
praecipuus sit rudes et tyrones in stirpium cognitionem compendio
absque taedio & difficultate inducere, non oportet ejusmodi
notas proponere, quae attentum & sollicitum requirunt
expectatorem, cuique ut microscopium secum ferat necesse est. Rai, Tournefort parecem ter reservado o uso do microscopio somente
para a Botanica physica, persuadidos de que elle se oppunha a
facilidade dos Methodos da Botanica pura. Alguns modernos contudo pensam que o uso do microscopio he
indespensavel a todo o botanico, visto ter a experiencia mostrado
que ha nos vegetaes da mesma sorte que nos animaes quasi tantas
partes imperceptiveis (ou talvez mais) como ha de volumosas ou
perceptiveis sem microscopio, e que os nectarios, partes da
fructificaçam, e muitas notas caracteristicas de algumas plantas
jamais se poderaõ bem reconhecer senaõ usarmos do microscopio ou ao
menos de huma boa lente.
Aindaque Tournefort nam tivesse pensado em traçar hum plano, capaz de classar
adequadamente todas as plantas do globo terrestre, o que elle julgava
impossivel em qualquer destribuiçam systematica, contudo o seu systema tanto
pela novidade dos generos como pela sua facilidade obteve huma grande
acceitaçam, e nelle se alistaram durante alguns annos todas as especies e
generos, que se descobriram Nota
Principalmente as novas plantas da
America, que o douto religioso Carlos Plumier havia descoberto e
descripto por ordem de Luiz XIV., que lhe tinha dado tença e o titulo de
seu Botanico.Nota
Ponho Seguier entre os que seguiram Tournefort, porque o seu Methodo
relativo às plantas de Verona differe muito pouco do Methodo deste
Botanico, e o mesmo se deve entender do de Durande, que hoje se
ensina na Universidade de Dijon. Nota
Todos os Botanicos depois de Linneo tem evitado essa falsa divisaõ; e
Bergen sem embargo de ter seguido Tournefort no seu Tractado das
plantas de Francfort, publicado em 1750, naõ deixou de diminuir as
suas Classes reunindo as arboreas com as herbaceas.
Passados alguns annos depois da publicacam do systema de Tournefort appareceram
alguns outros, que nam sendo nem mais faceis nem mais perfeitos nam lhe poderam
usurpar a maior acceitaçam. Boerhaave, celebre professor de Botanica, Chimica, e
Medicina, publicou em Leyde no anno de 1710 huma divisam de seis mil plantas em
84 Classes, considerando-as relativamente à sua grandeza, duraçam,
fructificaçam, e habito externo: subdividio as dictas classes em 104 secçoens ou
ordens fundadas na substancia e figura das folhas, do calys, corolla, sementes,
e tronco, no numero das petalas, capsulas e sementes; na situaçam das flores e
germe; e em fim nos organos sexuaes das flores, que elle empregou tambem algumas
vezes para caracterizar os generos. O seu Methodo foy huma combinaçam dos
systemas de Cesalpino, Rai, Herman, e Tournefort, e por ser muito difficil e
complicado foy apenas seguido na sua escola e por Emsting e Morandi Nota
Morandi no seu Tractado das plantas medicinaes, publicado em 1744,
reunio as arvores com as hervas, e em quasi tudo o mais seguio o
Methodo de Boerhaave.
Em 1720, Pontedera nas suas dissertaçoens, em que descreveo 272 especies novas de plantas, negando os seus sexos [Página xliii] em geral, imaginou de emendar às imperfeiçoens do Methodo de Tournefort, e augmentou as suas 22 classes athe 37, considerando-as debaxo das mesmas relaçoens, e alem disso segundo a presença ou nullidade dos gomos; mas elle nam chegou a pôr em execuçam o seu plano systematico, nem o applicou aos diversos generos de plantas.
Trinta e tantos annos depois da ediçam do Methodo de Tournefort, Carlos
Linneo, sabio Naturalista Sueco Nota
Carlos Linneo foy filho de hum pobre
Ecclesiastico de Smolandia na Suecia. Tendo-se applicado ao estudo de
Historia natural fez nesta sciencia tam rapidos progressos, que na idade
de 22 annos se achava ja capaz de ajudar e substituir Rudbeck, que entaõ
a professava em Upsal. Huma das suas primeiras tentativas em Historia
natural foy de fazer hum systema Botanico, que podesse prevalecer ao de
Tournefort, e o qual dizem que elle chegara a introduzir no jardim
botanico de Upsal no anno de 1731. Depois disto foy empregado pela
Sociedade da dicta cidade para fazer huma viagem na Lapponia, Noruega e
outros paizes do Norte por objectos de Historia natural. Em 1735, e
annos seguintes protegido por Amigos viajou pela Dinamarca, Suecia,
Allemanha, Inglaterra, e Hollanda, aonde publicou o seu Systema Naturae.
Tendo tornado à Suecia, sua patria, a reputaçam que por fora tinha
grangeado lhe suscitou a inveja de Rozen e outros Membros da
Universidade de Upsal de maneira, que tendo aberto hum curso de Liçoens
de Historia natural, foy por decreto da dicta Universidade suspendido de
o continuar, debaxo do pretexto de que somente os doutores aggregados a
ella podiaõ ensinar. Mas vencida esta dificuldade no anno de 1741, em
que foy nomeado professor de Medicina e Botanica, continuou durante
muitos annos as suas liçoens com grande celebridade athe que em fim
victima da sua applicaçam demasiadamente sostida veyo a ficar privado
quasi de todas as suas faculdades intellectuaes no ultimo anno da sua
vida, e a morrer de huma hydropisia de peito. Elle contribuio tanto
pelos seus extensos trabalhos como pelos sabios Alumnos, que formou,
para adiantar todas as partes de Historia natural mais ou menos, e se
lhe deve com effeito esta justiça, a pezar das suas opinioens.
A noticia dos sexos das plantas nam tinha sido inteiramente desconhecida aos antigos Gregos e Romanos; nos escritos de [Página xliv] Herodoto, Aristoteles, Theophrasto, Dioscorides, e Plinio achamos provas disso, como ja disse fazendo mençam destes Autores; mas as suas ideas a este respeito foram obscuras, conjecturaes, e nam fundadas em conhecimentos anatomicos das flores. Demais disso, ainda estas mesmas ideas parecem ter sido limitadas às palmeiras e de alguma sorte às figueiras; porquanto se bem que attribuiram sexos a muitas outras plantas, isso nam foy mais do que por hum mero motivo de destinçam estabelecida humas vezes na força ou fraqueza dos individuos, outras vezes na maior ou menor perfeiçam dos seus fructos, na maior ou menor efficacia das suas virtudes.
Em toda a idade media athe quasi ao seculo passado, a doutrina dos sexos das
plantas foy muito incerta e indeterminada, nam tendo os botanicos outras
noçoens della mais do que as dos antigos, donde procederam muitas falsas
destinçoens, que lemos nas obras dos autores desses tempos Nota
Como saõ as de Feto macho, Feto femea; Peonia macha, Peonia femea;
Cornus mas, Cornus. faemina, &c. &c. Elles chamavaõ em algumas especies herbaceas dioicas, taes como o
Canamo e Mercurial, plantas machas as que eraõ femeas, e vice versâ,
so pela razam da sua grandeza ou virtudes medicinaes; (Mercurialis
testiculata, sive mas; & spicata, sive faemina. G. Bauh.) Nota
Gesnero, Grew, Malpighi, e Feldmand foram os que principalmente
restauraram a Botanica physica, e a adiantaram; este agradavel
estudo foy continuado por Hales, Ludwig, Leuvenhoek, Hill, Linne ,
Duhamel, Guettard, Bonnet, Saussure e muitos outros. Nota
J. Bauhino citou em 1650 as principaes passagens de Zaluzianski a
respeito dos sexos, mas nam parece ter feito maiores
investigaçoens.
A frequencia de ver das sementes de hum so individuo nascer masculinos e
femininos, isto he, hum esteril outro fructifero, devia necessariamente conduzir
a comparar os vegetaes com os animaes no modo de produzirse, e a investigar cada
vez mais este curioso objecto. Com effeito nam tardou muito tempo que o Dr.
Nehemias Grew Nota
Idea of a Philological History of Plants, &c. Lond.
1682, fol.
A opiniam de Grew foy adoptada por hum grande numero de Botanicos. Malpighi
seu contemporaneo nam contribuio pouco para a confirmar Nota
Anatome
plantarum. Lond. 1686, fol.Nota
"Em todos os flosculos das Compostas, dia este celebre
physiologista (na sua Epistola de Sexu Plantar. Tubingia, 1694), em que
falta o estigma ao pistillo, ha abortamento nas sementes; se no milho,
na amoreira, e muitas outras plantas cortamos as antheras das flores
masculinas, e os estyletes das femininas, naõ ha fecundaçaõ, nem por
conseguinte geraçaõ, e se pomos o individuo masculino da mercurial
distante do feminino, este naõ dará fructo, ou se o der, as suas
sementes naõ germinarão" Elle confessou contudo que as suas experiencias
tinhaõ falhado no canamo. Camerario naõ so foy o que melhor estabeleceo
o sexualismo dos vegetaes, mas o que ensinou a substituir por analogia
as plantas indigenas às exoticas, ideas, que Petiver e outros depois
seguiraõ. Elle foy taõbem o primeiro que fez mençaõ do numero dos
estames, e parece ter suggerido a Linneo os principios do seu systema:
Magnol tinha taõbem ja antes de Linneo empregado os organos sexuaes das
plantas em algumas das divisoẽs do seu Methodo Calylino, e Boerhaave nos
generos: Burchard medico de Brunswick tinha imaginado de fundar nelles
hum Methodo, como se collige da sua carta escrita a Leibnitz em 1702, e
reimpressa em 1758 por Heister em Helmstad: "Hic disserere constitui an
ex partibus istis, quas ab officio genitales dicturus sum, Plantarum
comparationes institui possint".Nota
Wolfio, Burchard, Logan, Blair, Bradley, Ludwig, Royen, Jussieu,
Needham, Monro, &c., &c.. Esta investigaçaõ passou athe à
plantas menos perfeitas e Jussieu descobrio estames no Fetos,
Micheli nos Fungos, Reaumur nas Algas e Hedwig nos Musgos. Sem embargo disto, a doutrina dos sexos naõ tem sido athe ao presente
universalmente recebida. Tournefort considerou as partes sexuaes das flores meramente, como
vasos excretorios destinados a separar a redundantia dos succos
nutritivos do novo fructo, e naõ lhes deo lugar no seu systema. Pontedera, Siegesbeck, Bénneman, e Moeller seguiraõ, que o pò das
antheras era somente huma materia proveitosa ao novo fructo. Alguns naõ admittiraõ sexos nas plantas Cryptogamicas (Vej. a Expos.
da Cl. Cryptog. vol. 2.) O Padre Spalanzani assegura com muitas experiencias, que no canamo e
muitas outras plantas perfeitas podem haver fructos perfeitos ou
sementes capazes de propagar a sua especie sem o concurso das
antheras. O Dr. Alston, professor de Edimburgo, o Conde de Buffon, e outros
Epigenesistas naõ admittem o sexualismo em todo o reyno vegetal. Vej. a Palavra Sexus no Diccionario Botanico, Vol. 2.
Linneo completou em fim a doutrina dos sexos, e lhe deo toda a extensam, de que
ella era susceptivel, compilando a seu favor todos os argumentos de que se
tinham servido os seus predecessores, ajuntando algumas novas observaçoens, e
fundando nella hum novo Systema, que em razam disso denominou sexual. Publicou este Systema no anno de 1787 e o dividio em 24 Classes
estabelecidas relativamente ao numero, ponto de apego, proporçam, adunaçam,
situaçam, e occultaçam dos estames; subdividio cada huma destas Classes em
differentes Ordens deduzidas do numero dos pistillos, do numero, adunaçam e
situaçam dos estames, e da figura do fructo Nota
As Ordens do Systema sexual sam algumas vezes subdivididas em
secçoens entremedias, fundadas em diversas relaçoens do calys,
corolla e outras partes da fructificaçam. M. Adanson diz (Pref. p. XX.) que as subdivisoens das classes deste
systema sam algumas vezes fundadas tambem em notas do habito
externo; eu penso que elle falla das Ordens da Classe Cryptogamia,
porque todas as mais subdivisoens sam puramente estabelecidas em
notas da fructificaçam. Nota
Tournefort tinha feito
mençam de 698 generos; depois delle athe Linneo muitos outros Botanicos
ajuntaram quasi mil, e Linneo athe o anno de 1759 descreveo 1174
generos. O Dr. Murray, na ultima ediçam do Systema Vegetabilium de
Linneo publicada em 1784, fez mençam de 1436 generos; mas o numero dos
generos conhecidos, e classados no systema de Linneo he mais
consideravel, como se pode ver nas Obras de Jacquin, Forster, Aublet,
&c.
Este systema teve no principio pouco séguito Nota
Milne (Dict. Bot.) diz que
Linneo estando em Londres proposera o seu systema a Sloane, entam
presidente da Sociedade Real da dicta cidade, e que este nam fizera cazo
delle.Nota
Vej. a Exposiçam
deste Systema, e o Cap. V. do Tom. II. desta Obra.Nota
Boerhaave tinha na verdade fundado antes de Linneo caracteres
genericos nas partes da fructificaçaõ; mas por hum modo abbreviado,
e bem differente do plano de Linneo. Nota
Heister pensava que as
folhas podiaõ algumas vezes servir como parte essensial para
caracterisar os generos. Gouan na maior parte dos generos do seu Hortus
Monspeliensis ajuntou aos caracteres da fructificaçaõ (adoptados de
Linneo) outros a que elle chama secundarios, e que saõ tirados de
diversas partes do habito externo. Jussieu servio-se das cores, e das
notas do habito externo mixtas com as da fructificaçaõ em muitos
caracteres dos generos do seu Methodo. Adanson nas suas familias de
plantas naõ estabeleceo caracter algum generico puramente na
fructificaçaõ, e advertio que o mesmo, que Linneo tinha dicto de
Tournefort "Tournefortianis nihil detraho meritis optimis, nego tamen
ejus characteres perfectos esse, nego ex iis destingui posse genera" se
lhe podia adequadamente applicar relativamente a huma grande parte dos
seus generos; porquanto os caracteres de muitos delles, principalmente
dos exoticos, eraõ muito defeituosos, de maneira que os viajantes naõ
podiaõ nelles confiar, e que elles algumas vezes o teriaõ conduzido na
sua viagem do Senegal a tomar humas plantas por outras, se naõ se
tivesse servido dos destinctivos das folhas, disposiçaõ das flores,
&c. Haller taõbem admittio entre as notas genericas as do habito
externo, e chegou ainda mesmo a dizer, que Linneo as tinha seguido na
praxe, a pezar dos principios que tinha estabelecido: Id tamen
fundamentum jeci, cui soli Methodus naturalis potest superstrui, ut
vicinae sint stirpes, quae notis plurimis sibi similes sunt, etiam si
aliquâ quam longissime differant, eae plantae sint dissimiles, quae
plurimis notis diversae sunt, etiam si unâ notâ quam vicinissimae
fuerint. Neglectus hujus axiomatis Methodos non naturales genuit. Inter
notas habitum posui, quem excludit quidem ex legibus Linnaeus in praxi
vero ubique revocat, suisque legibus praefert, exemplo Convalartae,
Tussilaginis, &c. (Hal. Stirp. Helv. praef. p. 14.Nota
Os
generos (diz o Dr. Oeder Elem. Botan.) naõ saõ definidos pela natureza;
elles ficaraõ ao arbitrio dos homens, os seus limites saõ ambiguos, e
dependem das relaçoẽs arbitrarias, que cada hum adoptou por definiçaõ,
ou se propoz de seguir com preferencia rejeitando outras. Naõ me parece
que haja Autor algum, que tenha fundado generos invariaveis, por mais
disputas e por mais defensores que tivesse de que seguio as affinidades
naturaes. Que Botanico ha que deixe de conhecer a grande diversidade que
existe entre os generos da maior parte dos Methodistas, sem embargo de
todos terem pertendido seguir a natureza? Daqui tem procedido a
differença e multiplicidade de nomes, que daõ motivos de queixas aos que
estaõ acostumados a hum systema, e que fazem perder o gosto de cultivar
a Sciencia, oppondo-se por conseguinte ao seu progresso. As innovaçoẽs,
que Linneo fez na nomenclatura, a pezar de muitas queixas, foraô
adoptadas, e saõ hoje seguidas; mas talvez nos seculos seguintes,
crescendo o numero dos generos, e apparecendo outro famoso e ousado
systematico, se queixaraõ outros de que lhes mudaraõ os nomes de Linneo.
Alguns tem sido de parecer que deviaõ haver poucos generos por evitar o
incommodo do grande numero de nomes genericos, outros pelo contrario
seguiraõ que deviaõ haver muitos a fim de que os nomes das especies
fossem menos variaveis, e mais facil a practica methodica; mas nenhum
destes pareceres se dirige a arrancar a raiz do mal, que procede de naõ
haver em Botanica huma nomenclatura fixa, como ha em Astronomia.
No parecer de Adanson os generos de Linneo sam mais proprios dos systemas artificiaes fundados na fructificaçam, do que dos que sam estabelecidos em outras partes, e do que do Methodo natural, em cujos generos os caracteres devem ser tirados de todas as partes das plantas; outros contudo tem pensado que elles sam mais proprios do Methodo natural do que dos artificiaes ou ao menos do que systema do Sexual, porquanto dizem, que todos os Autores, que athe agora tem feito tentativas do Methodo natural, desuniram incomparavelmente muito menos dos generos de Linneo, do que seria precizo desmembrar, se todas as especies citadas no Systema [Página lii] sexual fossem destribuidas nas Classes e Ordens, a que rigorosamente pertencem conforme as leys do dicto systema.
Nam obstante todos os defeitos, que se censuraram nas differentes divisoens
desta destribuiçam systematica, ella nam deixou contudo de ser adoptada por
hum grande numero de Autores Botanicos, e de vir a ser hoje a mais seguida
na Europa Nota
A França he de todos os paizes da Europa aonde os systemas
de Linneo saõ menos seguidos. No jardim Real de Paris ensina-se o
Methodo de Jussieu, e em Dijon e muitas outras Universidades segue-se o
Methodo de Tournefort reformado.
No anno de 1738 Linneo publicou outro plano systematico, ao qual deo o nome de Methodo Calycino, por ser destribuido em 18 Classes deduzidas principalmente das relaçoens do calys; mas elle nam completou a execuçam deste Methodo por lhe ter preferido o primeiro fundado nos organos sexuaes.
No mesmo anno publicou huma terceira destribuiçam dos vegetaes, com o titulo de Fragmentos do Methodo natural.
Esta destribuiçam continha entam 746 generos em 65 divisoens, que elle
denominou Ordens naturaes sem lhes dar titulos alguns; mas em 1751 na ediçam
da sua Philosophia Botanica augmentou os dictos generos athe ao numero de
1026, e as suas Ordens a 68, dando-lhes differentes nomes tirados das obras
dos seus predecessores, ou imaginados por [Página liii] elle algumas vezes com bem pouca propriedade Nota
Segundo Royen, os
titulos das familias dos vegetaes devem ser tirados de hum genero, que
nellas he o mais conhecido; Adanson e Jussieu seguiraõ esta maxima, e
ella me parece na verdade ser a mais razoavel.Nota
Primum & ultimum in parte systematicâ Botanices quaesitum est
Methodus naturalis. Clas. Plantar. Methodus naturalis ultimus finis
Botanices est et erit. Philos. Botan. pag. 137.Nota
Isto naõ parecerà
estranho aos que conhecem a grande dificuldade que ha de vencer os
obstaculos, que se oppoem ao descobrimento do Methodo natural. Estes
obstaculos no parecer de Linneo (Phil. Bot. p. 137) saõ, 1.º o desprezo,
que se havia feito do habito externo das plantas, depois que se tinha
começado a cultivar a doutrina da fructificaçaõ; 2.º a falta de generos
exoticos, que restavaõ para defcobrir; 3.º a affinidade que tinhaõ os
generos com os que lhes ficavaõ lateralmente contiguos; 4.º (Gener.
Plant.) a difficuldade ou quasi impossibildade de estabelecer a clave do
Methodo natural, sem a qual as familias naturaes naõ podem constituir
Methodo. Estas difficuldades foraõ a causa porque elle deo o nome de
Pedaços do Methodo natural às Ordens que publicou, confessando que ellas
eraõ dirigidas a fazer conhecer a natureza das plantas, e naõ a sua
nomenclatura; porquanto pensava que so os Methodos artificiaes podiaõ
servir para bem fazer conhecer os seus nomes, e que todos os que para
este fim destribuiaõ as plantas em Fragmentos do Methodo natural,
rejeitando o artificial, lhe pareciaõ ser semelhantes aos que deitaõ
abaxo humas cazas de abobada e de bons commodos, para em seu lugar
reedificar outras, de que naõ podem fechar a abobada.Nota
Em vaõ, diz o Dr. Oeder (Elem. Bot.), se tentara de
explicar ou indagar o caracter de huma familia natural, em quanto houver
a preoccupaçam de que sò das partes da fructificaçaõ se devem tirar
caracteres geraes: examinemos toda a estructura, ou habito das especies,
todas as affinidades em qualquer parte que as poz a natureza, e podemos
estar certos de que descobriremos bons caracteres. ... . Sem embargo de
que Linneo fosse hum dos maiores defensores da doutrina da
fructificacam, nam me persuado que os caracteres das Ordens, que nos
deixou nos seus Fragmentos do Methodo natural, fossem puramente nella
estabelecidos.
Os trabalhos de Linneo em Botanica nam se limitaram somente a fazer huma
revolucam nos generos, e a formar com elles novas destribuiçoens; elle
publicou hum grande numero de novas observaçoens e de tractados de plantas
de muitos paizes, simplificou a nomenclatura dos vegetaes, inventou alguns
termos technicos, emendou e fixou os antigos, e estendeo os dogmas de
Botanica Nota
Estes dogmas estaõ reunidos na sua Philosophia Botanica:
muitos delles sam compilados de Jungio, Paulo Hamman e Tournefort:
alguns saõ demasiadamente generalizados ou applicados sem destinçam
tanto aos Methodos artificiaes como ao natural; em fim alguns foram
tractados de paradoxos, de principios contradictos pela practica do seu
mesmo autor, e rejeitados por Siegesbeck, Heister, Hebenstreit, Alstoa,
Ludwig, Haller, Adanson, Jussieu, &c.
Adriano Royen, professor de Botanica na Universidade de Leyde, deo no anno de
1740 hum plano de destribuiçam de 2700 plantas com o nome de Preludio do
Methodo [Página lv] natural, dividido em 20 classes relativamente ao numero das cotyledones,
partes da fructificaçam, disposiçam das flores, e substancia herbacea ou
pétrea (porque no seu tempo ainda se nam tinham excluido de Botanica Nota
As esponjas, coraes, corallinas, madreporas, e outras producçoens
marinhas denominadas lythophytos foram classadas no Reyno vegetal quasi
athe o meyo do nosso seculo. Imperati em 1599 teve algumas leves ideas
da animalidade destes entes; Peyssonel renovou as mesmas ideas em 1727,
mas sem provas convincentes; o Dr. Bernardo de Jussieu em huma Memoria
presentada a Academia de Sciencias de Paris em 1741 foy o primeiro que
provou com razoens decisivas, que elles deviam ser classados no reyno
animal por serem relativos aos polypos, cujos corpos se ramificaõ e tem
grande analogia com os vegetaes. Depois deste tempo os lithophytos foram
inteiramente excluidos do reyno vegetal.Nota
Hinc patet,
cur nullis a quocunque demum autore datis principiis adhaserim, sed
solis naturae legibus adstrictus.... Unde factum est, ut classes, quas
ante me pauci dederant, naturales servaverim, plures introduxerim, et
reliquas seorsim exhibuerim. Pr. Florae Leid.
Alberto Hailer, na sua Enumeraçam das plantas da Suissa impressa em 1742, e
das de Gottinga publicada em 1753 fez tambem huma nova tentativa do Methodo
natural, destribuindo duas mil especies, que descreveo, em 13 Classes Nota
Linneo reconheceo 15 Classes neste Methodo; Adanson confessa
contudo nam ter podido descobrir nelle mais do que 13; eu nam pude
taõbem decifrar hum maior numero; ellas sam com effeito difficeis de bem
se destinguirem, por se encadearem de ordinario estreitamente com as
subdivisoens subalternas, segundo o plano, que o seu Autor se tinha
proposto, e que elle seguio o mais que lhe foy possivel. Ego, qui non
universalem stirpium Historiam molior, non tenebar perfectam dare
generum distributionem. Sufficere credidi, si quamlibet familiam inter
duas familias disponerem, à quibus proximè distat et difficiliùs
distinguitur. Detegent fortè hoc meum studium gnari, in graminibus, in
transitionibus, quibus classes conjunguntur &c... id ubique non
obtinui, neque fortè licet, cùm affinitates naturales mihi non simplices
esse videantur, sed ab uno genere ad alia muita ex diversis notis
perinde possit legitimè transire. (Hall. Pr. Stirp. Helvet.
Francisco Sauvages, Medico de Mompelher, deo em 1743 o projecto de hum Methodo fundado nas differentes relaçoens das folhas, o qual, a pezar da reforma que o dicto botanico nelle fez em 1751, he muito defeituoso, principalmente pela razam das suas divisoens conterem de ordinario plantas que lhes nam convem com propriedade.
Everardo Wachendorf imprimio no anno de 1747 hum catalogo, das plantas do jardim botanico de Utrech, no qual citou quasi quatro mil especies simplesmente com as phrases de Linneo, e destribuidas em 16 Classes principalmente pela fructificaçam. Este botanico he contado no numero dos que fizeram tentativas sobre o Methodo natural; mas as divisoens do Methodo, que elle imaginou, pela maior parte nam sam [Página lvii] naturaes, e os seus titulos de ordinario sam viciosos pela sua demasiada extensam.
O Methodo geral publicado pur Lourenço Heister em 1748 contem 35 Classes fundadas na fructificaçam, habito externo e grandeza arborea ou hebracea; subdivididas em 93 Ordens relativamente ao sexo das flores, à sua disposiçam e das folhas, numero das petalas e sementes. Este Methodo parece ter sido trabalhado sobre o de Rai, e he mais facil do que elle.
Joam Gleditsch deo no anno de 1749 Nota
Vej. a Histor. da Acad. Real de
Scienc. de Berlim. in 4.º, pag. 109, e seg.
M. Duhamel no seu Tractado das arvores e arbustos, que se cultivam em França sem estufas, impresso em 1755, cuidou de combinar o Systema de Linneo com o de Tournefort, e destribuio as mil especies, de que fez mençam, em tres Classes relativamente aos sexos, e ao numero das petalas. Elle deo ainda na mesma Obra mais dois outros Methodos, hum composto de sette Classes estabelecidas na substancia e figura do pericarpo, e na substancia, figura, e nudez das sementes; outro de quatro Classes fundadas na figura, situaçam, e duraçam das folhas. O intuito de M. Duhamel foy de facilitar, o mais que lhe foy possivel, o conhecimento das plantas de que tractou, considerando-as nestes tres Methodos relativamente ao estado da florecencia, da frutescencia, e do [Página lviii] periodo em que ellas se acham sem, flor nem fructo, e so com folhas: elle conhecia muito bem, que todos os Methodos artificiaes sendo mais ou menos defeituosos, o seu primeiro Methodo nam podia ser livre de defeitos, e lhe ajuntou por esse motivo os dois outros para supprir às suas imperfeiçoens. Hum semelhante plano he digno de ser imitado, e o seria ainda muito mais, se M . Duhamel lhe tivesse ajuntado hum quarto Methodo ou Catalogo, no qual as plantas, que citou, se achassem dispostas em familias naturaes.
M. Adanson, sabio Botanico da Academia de Sciencias de Paris, no seu Tractado das
Familias de Plantas publicado em 1763 seguiu hum plano do Methodo natural
inteiramente diverso dos que tinham imaginado os seus predecessores. Elle
destribuio as 18 mil plantas (especies e variedades) conhecidas athe ao dicto
anno, em 1615 generos, a que chamou linhas de separaçam primarias e bem
assignaladas pela natureza. Assignou a cada huma destas Familias e generos o
seu caracter particular deduzido da fructificaçam e habito externo, porque
no seu parecer os verdadeiros caractéres genericos naturaes, ou proprios das
divisoens do Methodo natural devem ser tirados de todas as partes dos
vegetaes, vistoque ha algumas, que sam mais essensiaes para este fim em
certas Familias do que as da fructificaçam, como por ex. sam as folhas na
familia das Estrelladas e Leguminosas, e a disposiçam das flores nas
Labiadas. Nam estabeleceo clave alguma às 58 familias, a que limitou o
reyno vegetal conhecido, pensando que era muito difficil, e mesmo impracticavel,
reduzir as familias naturaes a huma boa clave classica, por falta da
generalidade competente de notas caracteristicas. Em lugar de clave dispoz as
dictas familias por huma serie gradativa, começando pelas dos vegetaes menos
perfeitos, e encadeando-as [Página lix] humas com outras conforme as affinidades, com que ellas lhe pareceram ter
sido approximadas pela natureza. Este Methodo nam deixa de ter bastantes
imperfeiçoens, como o seu mesmo Autor confessa; muitos dos caracteres dos seus
generos e familias sam incompletos, e precisam de ser correctos (este defeito
contudo nem sempre deve ser attribuido ao Autor, elle procede muitas vezes das
omissoens dos seus predecessores ou das estampas e descripçoens incompletas, que
elles publicaram, e que M. Adanson seguio, sendo-lhe impossivel de tudo
verificar); algumas plantas referidas às familias das dicotyledones sam
monocotyledones; algumas familias parecem desligadas, outras tem transiçoens
muito arbitrarias e mesmo improprias, como he por ex., a dos Pinheiros aos
Musgos, que o Autor poz no fim de todas as suas gradaçoens methodicas; outras
nam tem a sufficiente uniformidade de caracteres nos seus generos para merecerem
o nome de naturaes; em fim algumas plantas podem referir-se a duas familas
vizinhas, sem que nota alguma caracteristica decida mais a favor de huma do que
de outra. A pezar destes e outros defeitos, o Methodo de M. Adanson nam deixa de
ser muito mais bem trabalhado nas familias naturaes do que os dos seus
predecessores; elle chegua-se muito mais ao Methodo natural, e pode servir de
grande soccorro aos que se occupam na sua investigaçam. M. Adanson publicou alem
disso na mesma obra hum grande numero de reflexoens sabias sobre a Botanica
dogmatica e methodica, que o dam bem a conhecer pur hum botanico erudito e
profundo. Eu adoptei neste Tractado muitas das suas ideas, todas as vezes que as
achei conformes ao que me tem ensinado o estudo de muitos annos subre os
vegetaes, porque nem sempre me pareceram bem fundadas. Algumas das suas
assersoens relativas às partes da [Página lx] fructificaçam das plantas denominadas Cryptogamicas discordam muito das
minhas observaçoens e das do Dr. Hedwig de Leipsik Nota
O Dr. Kedwig he de
todos os modernos o que me parece ter melhor indagado as plantas
Cryptogamicas. A Academia de Petresburgo coroou huma das suas obras, na
qual elle demonstrou com huma grande sagacidade as miudas partes da
fructificaçaõ naõ so dos Musgos, mas ainda dos Fetos, Algas e Fungos.
Elle referio a Cavallinha a Tetandria monogynia: os organos masculinos
do Agarico, segundo as suas observaçoens, estam na parte interna da
volva, que cobre as laminas, e que vem depois a formar o annel a roda do
espique; os pistillos da mesma planta estam situados nas laminas. Elle
pensa que os escudilhos dos Lichens sam capsulas, que enserram sementes,
e que os tuberculos dos Lichens tuberculosos foraõ escudilhos antes de
tomar a forma tuberculosa. Julga que as celhas do Lichen ciliaris sam
raizes, assim como outras partes analogas em muitas outras espécies de
Lichen. O seu prezado axioma he que — omnis planta ex semine — assim
como o de Harvey era, omne animal ex ovo —. Segue que os fluidos
circulaõ, nos vazos dos vegetaes, assim como nos dos animaes, e que os
Reynos Vegetal e Animal se podem bem distinguir hum do outro pelos
organos masculos, os quaes em todos os vegetaes perecem depois de ter
operado a fecundaçaõ, e pelo contrario subsistem nos animaes depois
desta operaçaõ, e podem repetila muitas vezes.
O Dr. Antonio Luiz de Jussieu, celebre Botanico da Academia de Sciencias de
Paris, em duas Memorias prezentadas à dicta Academia nos annos de 1773 e de
1774, indicou hum novo plano methodico universal, e nelle adoptou a nomenclatura
de Linneo, e quasi geralmente os seus generos, reduzindo-os a 92 Familias
estabelecidas em differentes relaçoens collectivamente tiradas de todas as
partes das plantas, e dispondo as dictas familias conforme as suas affinidades
em huma serie methodica, começando pelas dos vegetaes menos perfeitos, como
tinha feito M. Adanson. Elle nam seguio contudo as ideas deste Botanico nem as
de Linneo a respeito da clave [Página lxi] classica das familias naturaes; porquanto persuadido de que nellas haviam
algumas relaçoens geraes e invariaveis capazes de servir de base para
estabelecela, reduzio as do seu Methodo (que considerou como naturaes) a huma
clave de 14 Classes fundadas principalmente na privaçam ou numero das
cotyledones das sementes, e no mediato ou immediato apego dos estames ao calys,
receptaculo, ou pistillo. Mas esta clave tem algumas imperfeiçoens e he muito
diffcil na practica: o titulo de acotylédones (ou sem cotyledones) dado a
todas as Cryptogamicas, às Nayades e Parasitas he improprio e desmentido
pela natureza; nestas duas ultimas familias ha algumas plantas Nota
Como
saõ por ex. o Myriophyllum, e Ceratophyllum.Nota
Como por ex. no Cactus, no qual algumas especies saõ
monocotyledones e outras dicotyledones.Nota
O Methodo sobredicto foy imaginado pelo Dr.
Bernardo de Jussieu, e estabelecido primeiramente no Real Jardim de
Trianon, sito no Parque de Versalhes; depois da sua morte o Dr. Antonio
Luiz de Jussieu cuidou de lhe dar huma melhor forma, e o introduzio no
jardim Real de Paris, aonde hoje he ensinado publicamente aos nacionaes
e estrangeiros.Nota
O Real Jardim Botanico de Paris contem quasi cinco mil
differentes especies de plantas de diversos climas do globo terrestre, e
este numero he todos os dias augmentado pelas novas remessas, que o
douto Thouin, Jardineiro mòr do dicto Jardim, recebe de paizes
estrangeiros.
Por evitar de ser prolixo, nam faço aqui mençam de alguns outros Methodos modernos, relativos às plantas de differentes paizes do Globo, como o do Dr. Allioni sobre as plantas do Piemonte, o de Oeder sobre as de Dinamarca, o do Cavalheiro de la Mark sobre as da França, o do Lord Bute sobre as da Gr. Bretanha, o de Thunbergio sobre as do Japam, nem os de outros, que se [Página lxiii] acham indicados no nosso Catalogo dos Autores Botanicos: todos estes Methodos nam sam outra coiza mais, do que combinaçoens ou correcçoens dos precedentes, de que tenho summariamente tractado.
Alem dos Methodos universaes, e geraes, tem havido ainda alguns outros
denominados parciaes, e relativos a huma so Classe ou Familia de plantas; taes
sam por ex. os de Dillenio, Michelli, Gledits, Batarra, e Bladts sobre os
Fungos; os de Dillenio, Michelli e Hedwig sobre os Musgos; os de Monti,
Michelli, e Schenzer sobre as Gramas; os de Morison, e Artedi sobre as
Umbrelladas; e os de Vaillant, e Pontedera sobre as Compostas. Alguns publicaram
Tractados particulares de hum genero infimo, que pelas numerosas especies, que
contem, parece constituir huma Familia, como por ex. Klein, Donati, e Gmelin do
Fucus ou Alga, Burman do Geranto, e Haller do Alho. Muitos emprehenderam
viagens nam so pela Europa, mas por todos os lugares do Globo, aonde ha
colonias de Europeos, e,aonde o commercio e navegaçam lhes franquea a
entrada Nota
As viagens, que desde o seculo passado athe ao presente se tem
emprehendido por differentes sabios a fim de augmentar os conhecimentos
em Botanica e outras partes de Historia natural, saõ summamente
numerosas; as principaes entre as modernas saõ: a de Gmelin pela Siberia
athe aos confins da China: a de Shaw na Africa; Colden na Virginia;
Brown na Jamaica; Adanson no Senegal; Kalmio e Jacquin na America; Osbek
na India; Hasselquist na Palestina; Loeffling e Alstroemer na Hespanha;
Amman na Russia; Burman em Ceilaõ e Cabo da Boa Esperança; Bergio taõbem
no Cabo da Boa Esperança; Forskoll no Egypto e Arabia; Pallas nos
Estados da Russia; Sparman na Africa austral; Sonerato na nova Guiné e
India; Aublet na Ilha de França e Guianna; Thunbergio na Africa austral,
Ceilaõ, Java e Japaõ; Solander com o celebre cavalheiro Banks, e os dois
Forsteros no mar austral, &c.Nota
Como a Sociedade de Allemanha estabelecida em 1670, a de
Londres em 16S2, a Academia de Sciencias de Paris em 1699, a de Upsal em
1720, a Imperial de Petresburgo em 1728, a de Noremberg em 1731, a de
Stokolmo em 1739, e muitas outras que foraõ fundadas no seculo actual
para servirem de Archivos às Sciencias, e contribuirem para o seu
progresso.
Das destribuiçoens dos entes do reyno vegetal, que athe agora se tem
publicado quer sejam denominadas Systemas ou Methodos artificiaes Nota
Os
Systemas artificiaes saõ fundados em huma so parte ou em poucas: o
Methodo natural pelo contrario he fundado em muitas, e considerado como
hum composto de muitas familias, nas quaes cada especie se acha por taõ
intimas affinidades ligada com outras, que nenhuma dellas se pode
separar sem fazer violencia à natureza.Nota
Como
foraõ Morison, Ray, Tournefort, Magnol, Boerhaave, Ludwig, Adanson,
Jussieu, &c.
" A Botanica, diz hum celebre Naturalista moderno Nota
M. Adanson, cujas ideas transcrevo aqui por me parecerem ser as mais
exactas, e adequadas para instruir o Leytor sobre o estado actual da
Botanica. Nota
Segundo o mesmo sabio Naturalista, a Botanica he susceptivel de
muitos problemas sobre as linhas de separaçaõ entre as Familias e
generos, sobre as relaçoẽs que os encadeaõ, sobre as affinidades que
fazem que hum vegetal pertença mais a hum genero, ou familia, do que
a outros &c. O Dr. Ant. L. de Jussieu he do mesmo sentimento, accrescentando que
ella preciza às vezes de huma especulaçaõ, que equivale à das
Sciencias mais abstractas. Nota
Naturalem
et perfectissimam Methodum, in quá nullæ anomaliæ occurrunt deprehendi
vix, posse opinamur, cum varietas characterum nimia sit, & ex
consensu omnium signorum characteres veró naturales exurgant, hinc uno
signo variante vera dispositionis ratio turbatur. Ludwig. Instit. Botan.
§. 190.Nota
Ray, que no fim do seculo passado fez mençaõ de 18655 plantas,
ontando especies e variedades, dizia que a metade dos vegetaes do
globo terrestre não estava ainda conhecida. Oeder em 1753
julgava que haviaõ 7320 especies conhecidas sem contar as variedades, e
que na Europa, aonde haviaõ tres mil e tantas especies, eraõ poucas as
que naõ se conheciaõ, mas que isto era bem differente a respeito das
outras partes do Globo. M. Adanson pensa que ha 16 mil especies
conhecidas, e que restaõ ao menos 25 mil para descobrir. M. Le Monier,
Professor de Botanica em Paris pertende que ha hoje 25 mil plantas
conhecidas entre especies e variedades, e que cohecemos mais da metade
das plantas do globo terrestre. Linneo dizia que o numero das plantas de
todo o Globo era menos do que se pensava, e que segundo o seu calculo
ellas montavaõ quando muito a dez mil [numerum plantarum totius Orbis
longé pauciorem esse, quam vulgó creditur, satis certo calculo
intellexi, utpote qui vix ac ne vix 10,000 attingat] [Spec. Plant. ad.
Præf. edit 1754]: mas o seu calculo naõ tem a certeza que elle
pertendia; os Hervarios de Adanson, Jussieu, e Sloane contem 8 mil
especies, o de Vaillant nove mil, o de Sherard dez mil, e quantas mil
alem destas naõ contem os sertoẽs de Africa, Asia, e America, e outros
paizes da Terra aonde nenhum Botanico tem ainda penetrado?Nota
Em todos os tres reinos de natureza ha formas tao particulares a
certos paizes, que se naõ achaõ fora delles: no reino vegetal a
experiencia tem mostrado que ha muitas especies e generos, que saõ
proprios huns da Asia, outros da Africa, e outros da America
exclusivamente; que na Europa ha hum grande numero de generos de
Cruciferas e Umbrelladas, muito poucos de Malvaceas, e apenas duas
especies de Palmeiras (as quaes segundo alguns conjecturaõ foraõ
nella naturalizadas por transplantaçaõ) que na Zona torrida ha muito
poucas Umbrelladas, e rarissimas Cruciferas. Portanto assim como ha Familias quasi inteiras na Europa, outras
quasi inteiras fora della, he muito provavel que hajaõ taõbem fora
della algumas Familias, das quaes naõ conhecemos ainda planta alguma
ou apenas conhecemos hum ou poucos generos, que os viajantes nos tem
descripto. Nota
Porquanto ha, segundo o mesmo Botanico, algumas plantas, que tendo
variedades saõ consideradas como especies, e outras vice versá, que
sendo especies saõ reputadas por variedades. Nota
Diz-se ordinariamente, que ha muitas coizas
minuciosas, que se devem omittir e désprezar nas descripçoẽs dos
vegetaes; que as descripçoẽs longas naõ se lêm, e que nellas se naõ
percebe com facilidade e brevidade as differenças caracteristicas; em
fim que as abbreviadas saõ as melhores, e o que nellas falta deve ser
supprido pelas Estampas. Pelo contrario vejo ainda mesmo alguns
daquelles, que tem seguido este parecer, queixarem-se de que naõ poderaõ
aperfeiçoar seus Methodos pela razaõ de naõ terem achado nos Autores
descripçoẽs mais extensas e completas. Plinio dizia, que nada podia
parecer superfluo nos olhos de hum attento observador da natureza; com
effeito naõ me parece que haja coiza alguma em huma especie vegetal, que
deixe de merecer de ser observada, e descripta na sua Historia Natural;
o que em hum seculo he reputado por superfluo e minucioso, naõ o he em
outro, e nos temos varios exemplos disto nas estipulas, nectarios,
glandulas, situaçaõ do corculo, ponto de apego dos estames, figura do
pollen das antheras, &c. As Estampas saõ na verdade de grande
soccorro, mas he rarissimo de encontrar alguma em que naõ hajaõ defeitos
e descuidos; demais disso ha muitas circumstancias que naõ se podem
nellas bem exprimir, as quaes se podem pelo contrario bem expor nas
descripçoẽs. Huma descripçaõ, na qual se mencionasse completissimamente
a forma exterior, estado organico, e toda a natureza de huma planta,
dando-se della huma boa estampa, seria hum fixo monumento da dicta
planta, e naõ deixaria para observar a respeito della o que huma
descripçaõ abbreviada, aindaque reunida a numa boa Estampa, costuma
deixar. As descripçoẽs abbreviadas prezentaõ com effeito os finaes
caracteristicos com facilidade; mas como os sinaes caracteristicos
differem segundo os differentes Methodos, a facilidade, he igualmente
sujeita a differir, succedendo muitas vezes que a mesma descripçaõ, que
he facil a respeito, de huns, fica sendo difficil a respeito de outros,
ou pelo dizer de outro modo, a descripçaõ abbreviada, que he boa
conforme as ideas deste ou daquelle Botanico, he mà para a Botanica,
como a sua historia desde a restauraçaõ das lettras athe ao presente
nolo attesta. Em summa, a perfeiçaõ da Botanica depende da comparaçaõ de
todas as partes e sinaes quaesquer que se podem divisar na forma e
estructura dos individuos vegetaes, e para este fim so as descripçoẽs
vastamente circumstanciadas podem ser de hum adequado soccorro.Nota
Rai foi de parecer, que naõ era necessario nos Methodos indicar parte
alguma, que exigisse o uso do microscopio, como ja notei (pag. XL,
not. b.). Alguns Methodistas seguem ainda hoje este parecer; outros
rarissimamente assignaõ caracteres fundados no uso do microscopio;
outros em fim estabelecem Familias inteiras em notas
caracteristicas, que dependem absolutamente do uso delle. M. Adanson pensa que ha nos animaes e vegetaes quasi tantas partes
insensiveis ou microscopicas, como ha de bem apparentes á vista
simples, e que todas ellas saõ igualmente dignas da attençaõ de hum
Naturalista, julgando por erronea a opiniaõ de Rai. Nota
Seria acertado que huma Academia protegida por algum Soberano ou
pessoas ricas e com artistas tencionados emprehendesse de dar todos
os annos hum certo numero de Estampas completas dos vegetaes
conhecidos athe chegar a publicar todas as suas especies e
principaes variedades: este trabalho daria a Historia Natural hum
precioso Archivo, e contribuiria summamente para o seu
progresso. M. Adanson, e outtos modernos criticaraõ com justo
motivo a Linneo de ter dicto (Gener. Piantar. 1743) icones pro
determinandis generibus non commendo, sed absolute rejicio, licet fateor
has magis gratas esse pueris, iisque, qui plus habent capitis quam
cerebri... ab iconibus enim quis potest unquam aliquid argumentum fixum
desumere; sed ab scriptis facillime; sendo notorio que o mesmo celebre
Botanico Sueco se servio das Estampas de Rheede, de Tournefort, Plumier,
Dillenio, Micheli & outros para caracterizar alguns generos e
especies, nao deixou de ajuntar sempre huma Estampa às descripçoes das
plantas novas, que descobrio. He verdade, diz M. Adanson, que ha muitas
coizas nosentes organicos, que nao se podem exprimir nas Estampas, e saõ
so proprias das descripçoẽs; mas naõ se pode duvidar taõbem que ha
algumas nos dictos entes, e hum nao sei que nas suas physionomias, que
sò he privativo à pintura ou desenho de exprimir e de que nenhuma
descripçaõ pode dar noçoẽs claras. He por esta razaõ que sera sempre
necessario reunir as figuras as descripçoẽs, e as descripçoẽs ás
figuras, como servindo humas às outras de hum reciproco
soccorro.
Taes sam os passos, que tem dado a Botanica, e o seu estado actual nos
differentes paizes da Europa. O seu progresso entre nos tem sido ora
proporcionado e em parte superior ao das outras Naçoens Européas, ora mais
lento. No tempo, em que a Lusitania esteve debaxo do dominio dos Romanos,
lemos nos antigos Autores Nota
Segundo Plinio, Strabo, Justino, Athenco, Columela, e outros, as
plantas frumentaceas e hortaliças eraõ copiosamente cultivadas entre
os Lusitanos; elles extrahiaõ muito azeite naõ so das azeitonas, mas
ainda das bagas de loiro e fructos de outros vegetaes, e os Romanos
exportavaõ delles trigo, azeite, vinhos, cardos hortenses, tuberas
da terra, linhos, esparto, bettonica, &c. &c. Nota
A Bettonica ou Vettonica diz-se ser assim denominada pela razaõ dos
seus usos medicinaes terem sido descobertos pelos povos Vettones ou
Vetones. Estes povos habitavaõ huma parte das provincias orientaes do Portugal
moderno e a provincia da Extremadura da Hespanha moderna; a sua
Capital segundo Prudencio, era Merida (Emerita), a qual fazia parte
do Portugal antigo ou Lusitania. André de Rezende seguindo a opiniaõ de Plinio extende a habitaçaõ dos
Vettoens athe ao Doiro.
A restauraçam das lettras tendo feito mudar em Portugal o plano de estudos,
Theophrasto, Dioscorides e outros antigos, que tinham tractado dos vegetaes,
começaram a ser melhor interpretados do que o tinham feito os Arabes e os que
athe esta famosa epoca haviam adoptado as suas ideas; a nossa Universidade tinha
na Botanica (que entam se ensinava) professores tam instruidos como as melhores
da Europa. Com intuitos de commercio e de engrandecimento do Estado,
acompanhados da paxam de investigar, descobrimos novos paizes navegando
pelos mares meridionaes da Africa e India athe à China, e fomos à proporçam
que os conhecemos dando à Europa tanto em Geographia como em differentes
partes de Historia natural Nota
Garcia de Horta, celebre Professor da nossa Universidade de Coimbra,
tendo deixado a sua cadeira de Medicina em 1534, e passado à India e
China publicou em Goa o seu Tractado das Especierias do Oriente, o
qual foy depois tradurido do Portuguez em varias linguas pela sua
novidade e exactidaõ. Thomé Péres e Joaõ Fragoso tractaraõ taõbem das drogas e plantas do
Oriente; Fernaõ Mendes Pinto, Barros e outros fizeraõ mençaõ de
muitas arvores e producçoẽs da India, China, Moluccas e outras ilhas
do mar da India. Pero Magalhaẽs, amigo do nosso Camoẽs, na sua Historia de S. Cruz ou
Brasil tractou da herva sancta (depois chamada herva do tabacco ou
da ilha Tabago, e herva de M. Nicot), da mandioca, da arvore do
balsamo de copaïva e algumas outras produccoẽs da America
Meridional.
Se o mesmo plano de estudos, e a mesma instrucçam se houvesse sustentado e
promovido entre nos, a Botanica e outras Sciencias e artes deveram certamente
aos Portuguezes hum explendor progressivo; mas differentes circumstancias assaz
expressas na nossa Historia se opposeram a isso. Cahimos debaxo do poder de
Hespanha, e fomos durante muitos annos com pezados grilhoens sopeados e
enfraquecidos; fomos, depois de os ter felizmente espedaçado, obrigados a
soster longas guerras; e em quanto as artes e Sciencias floreciam entre os
estrangeiros, e estes se serviam ainda mesmo de nossas terras Nota
Tournefort adiantou a Botanica com algumas plantas, que descobrio em
Portugal; Grisley no seu Viridarium Lusitanum fez taõbem mençaõ de
algumas, de que nenhum autor Portuguez tinha tractado. Rheede e Rumphio enriqueceraõ a Botanica com a noticia de novas
plantas de muitos lugares da India e ilhas adiacentes, que os
Hollandezes nos tinhaõ conquistado em quanto estivemos debaxo da
dominaçaõ dos Reys Philippes. Marcgrave e Pisam tractaraõ da Historia Natural do Brasil mais ampla
e circumstanciadamente do que nenhum dos nossos Autores.
Os primeiros tempos pacificos foram empregados em reparar os danos, que
principalmente a Politica e armas de Hespanha nos tinham causado; mas nam se
pode remediar a todos; a degenerada situaçam das lettras prevaleceo, e as
Sciencias nam poderam ser ainda geralmente reformadas. O Ceo tinha destinado
esta gloriosa empreza a hum dos mais illuminados Soberanos que tem occupado o
throno Portuguez, o Senhor D. Joseph I.: no seu reynado a reforma do bom [Página lxxiv] gosto em Litteratura foy seguida pela das Sciencias. Inclytos sabios
estrangeiros foram chamados para professar algumas dellas entre nos, e elles nos
introduziram subitamente aos mais essenciaes conhecimentos, que a Europa,
durante a nossa decadencia, tinha nellas alcançado. A Botanica nam podia
deixar de merecer a attençam de hum Princepe Nota
O estudo dos vegetaes tem
sido promovido por muitos Soberanos. Alexandre Magno mandou remetter a
seu Mestre Aristoteles (ao qual tinha incumbido o cuidado das Sciencias
naturaes na Grecia) as mais singulares produicçoẽs vegetaes, que haviaõ
nos paizes que tinha conquistado, e se diz que mandara a Socotorà huma
colonia Grega para ter cuidado de colher e enviar ao Egypto o albe desta
ilha. Os Imperadores Romanos mantiveraõ sabios em varias partes dos seus
vastos dominios para conservar os conhecimentos botanicos e os
adiantarem. Maximiliano II. e Rodolpho seu filho, Imperadores de
Allemanha, honraraõ e ennobreceraõ a Clusio pela sua grande erudiçaõ em
Botanica. Philippe II. mandou Hernandes à America investigar as suas
producçoẽs vegetaes e outros objectos de Historia Natural, e despendeo
nisso mais de trezentos mil ducados. Luiz XIV. manteve muitos annos o
douto P. Plumier na America para descrever as suas plantas, e mandou
Tournefort viajar por todo o Levante principalmente no intuito de
reconhecer os vegetaes, de que os antigos Gregos e Romanos tinhaõ feito
mençaõ. Pedro I, Czar da Russia, e seus successores fizeraõ indagar as
plantas dos seus grandes estados athe à China. Fernando VI. mandou vir a
Hespanha o sabio Loefling, e estabecer por elle em 1756 o jardim
Botanico de Madrid. Elrey de Dinamarca em 1761 enviou a Arabia nove
sabios, e entre elles Forskohl para se occupar de observaçoẽs botanicas.
O Imperador actual mandou o celebre Jacquin as Antilhas para observar e
descrever as suas producçoẽs vegetaes. A protecçaõ com que hoje todos os
Soberanos e muitas pessoas ricas promovem por toda a Europa a Botanica
he he assaz conhecida.Nota
O Real Jardim botanico sito junto do Pallacio Real de N. Senhora da
Ajuda, e o Jardim da Universidade de Coimbra. Nota
O Dr. Domingos Vandelli, cujo merecimento he bem conhecido nas
principaes Academias da Europa. Este sabio restabeleceo naõ so a Botanica em Portugal, mas ainda a Zoologia , Mineralogia, e Chimica de que foy
igualmente nomeado professor pelo Senhor D. Joseph I.
Por terminar este Epitome historico da Botanica ajuntarei somente as reflexoens
seguintes. O reyno vegetal he huma fonte inexhaurivel de novos conhecimentos,
hum thesoiro copiosissimo de preciosidades. A estructura infinitamente variada
dos entes deste reyno, as combinaçoens de differentes principios, que constituem
a sua natureza, sam huma das mais bellas maravilhas da composiçam do Globo, que
habitamos. Nam ha vegetal algum, que nam mereça de occupar a attençam de hum
verdadeiro sabio; nenhum ha, por mais desprezivel que pareça, de que se nam
possa esperur alguma utilidade Nota
Na supposiçaõ de que somente hum certo numero de vegetaes fosse util,
o seu estudo seria recommendavel a fim de que se naõ confundissem os
uteis com os inuteis; mas a experiencia desmente todos os dias esta
supposiçaõ, mostrando que huma planta tida por inutil em huma arte
he util em outra, e bastarà citar a este respeito o Recueil
d'Expériences sur les teintures, que les végétaux indigènes de
France communiquent aux laines, por. M. Dambourney. Nota
Nos antigos tempos os que practicavaõ a arte de curar costumavaõ
subministrar aos seus doentes os medicamentos, e como estes eraõ quasi
todos tirados dos vegetaes, a Botanica medicinal era hum dos seus
principaes estudos. Este costume tem ainda hoje lugar entre os Asiaticos
e Africanos. Entre os Europeos os Medicos e Cirurgioẽs foraõ
determinados por diversas circumstancias a occupar-se puramente do
curativo clinico dos enfermos, e deixaraõ o cuidado de preparar e
distribuir os medicamentos a differentes sortes de pessoas, como
Boticarios, Hervolarios, Droguistas, e Especieiros. Mas deste abandôno
ou tranfacçaõ naõ se pode tirar fundamento de que elles naõ devaõ
apprender a conhecer os medicamentos, tanto relativamente à sua
preparaçaõ e composiçaõ, instruindo-se na Chimica e Pharmacia, como no
seu estado simples e taes como sahem do seyo da natureza, instruindo-se
em Botanica e outras partes de Historia Natural. Hum Medico ou Cirurgiaõ
que sabe Botanica esta habil para descobrir nas plantas indigenas do
lugar, em que practica, virtudes identicas ou semelhantes às das
exoticas; para fazer hum grande bem aos pobres habitantes das aldeas
(quando nellas practica) mostrando lhes medicamentos frescos e sem
despeza; para poder destinguir o Boticario ignorante do que he instruido
no conhecimento das plantas medicinaes, e decernir (sendo perguntado na
caza do seu enfermo) se o Boticario ou Hervolario, vendeo ou naõ à
verdadeira planta, que elle tinha ordenado; para poder julgar, se huma
planta subministrada por hum Boticario ou qualquer outra pessoa, à qual
se attribue hum homicidio, era ou naõ venenosa; em fim està habilitado
para poder descrever huma planta nova, de que observou as virtudes, e
poder seguramente verificar as que se assignaõ às antigas. Os que
ignoraõ a Botanica, pelo contrario, ficaõ privados de todas estas
vantagens; elles confiaõ nos Boticarios ou Hervolarios, que muitas vezes
saõ pouco instruidos no seu estado, e daõ hum simples por outro, e dahi
resulta huma das razoẽs porque ha tantos enfermos mal tractados, e
tantas falsas observaçoẽs em Medicina.
Todos os corpos compostos, que existem no globo terreste, podem ser reduzidos
a tres grandes classes primarias, a que os Naturalistas chamam os tres
reynos da Natureza, a saber, o reyno mineral, vegetal, e animal. No primeiro consideraõ-se as terras, pedras, e metaes, que se distinguem dos
entes dos outros dois reinos, pela rasaõ de naõ viverem, ou nam terem huma
organizaçaõ e contextura destinada às funçoẽs da vida, segundo o modo com
que fisicamente se entende esta palavra; as pedras e metaes naõ deixaõ sem
embargo disso de ter crescimento. O segundo comprehende os vegetais (vegetabilia) ou entes organizados que
crescem e vivem, sem contudo serem dotados de sensibilidade, nem de potencia
locomotiva. O terceiro contem os animais ou entes que crecem, vivem, sentem, e tem
potencia locomotiva; ainda que nas suas extremas gradaçoẽs (começando no
homem e quadrpedes) se achem alguns que parecem ter a sua sensibilidade e
faculdade [Página 2] locomotiva em hum grande embotamento e inatividade Nota
Muitos Naturalistas achaõ grande difficuldade em declarar com
evidencia onde termina o ser vegetal e começa o animal: eu tractarei
mais extensamente desta materia nos meus Elementos de Botanica.
A sciencia que tracta dos entes destes tres reynos he chamada Historia Natural. Quando so se emprega na consideraçaõ dos mineraes tem o nome de Mineralogia; se so tracta dos vegetaes he chamada Phytologia ou Botanica ( Phytologia, seu Botanica ), mas este segundo nome he o mais usado. Em fim quando somente tracta dos animaes he chamada Zoologia .
A Botanica segundo o diverso modo com que tracta dos vegetaes pode ser dividida em Botanica applicada, physiologica, e pura ou fundamental. A applicada tracta do uso dos vegetaes tanto medicinal como economico, isto he, de todas as utilidades que o homem pode tirar dos vegetaes; donde resulta que todos os tractados de materia medica, de agricultura, das differentes madeiras, das tintas vegetaes, &c. naõ saõ outra coiza mais do que huma Botanica applicada. A Botanica physiologica tracta das funçoẽs vitaes e estructura organica dos entes do reyno vegetal, e para este fim se vale da anatomia, chymica, e physica; a patologia dos vegetaes, ou tractado das suas doenças, ainda que devera ser separada, he comprehendida ordinariamente tanto na Botanica physiologica como na pura, e ainda mesmo nos tractados de agricultura. A Botanica pura ou fundamental tracta do modo de destinguir hum vegetal de todos os mais, por meyo dos seus caracteres, ou sinaes externos, com certeza, facilidade, e brevidade. Ella he [Página 3] a que deve fazer o objecto deste tractado e della dependem as duas precedentes.
Ainda que o meu fim naõ he tractar neste epitome senaõ dos principios relativos á Botanica pura, naõ me parece contudo desacertado dar aqui algumas breves noçoẽs sobre a organizaçaõ ou estructura interna dos vegetaes por facilitar a intelligencia de alguns termos a ella respectivos, que se achaõ nas obras de Linneo e de muitos outros Botanicos.
Os vegetaes tanto pela sua organizaçaõ como pelas suas funçoẽs vitaes tem
huma grande analogia com os entes do reino animal; nascem, perecem,
reproduzem por sementes ou ovos vegetaes a sua mesma especie; continuaõ-na
taõbem por gomos, ramos cortados, e enxertias, circumstancias que se achaõ
igualmente em alguns animaes Nota
Nos polypos.
O corpo dos vegetaes em geral consta de epiderme (epidermis) ou cuticula
exterior apegada á casca (cortex) produççoẽs assaz conhecidas; a ultima
lamina interna da casca, hum tanto mais compacta do que ella, [Página 4] he chamada livrilho ou alburno (liber, alburnum Nota
Alguns Botanicos fazem differença entre estas duas palavras,
relativamente a algumas arvores , dizendo que o alburno medea entre
o lenho e livrilho, e tem huma consistencia diversa de ambos,
constituindo as primeiras camadas concentricas do corpo
ordinariamente chamado lenho.
O systema vascular dos vegetaes he menos conhecido que o dos animaes; a anatomia e observaçoẽs microscopicas tem contudo descoberto quatro sortes de vasos, a saber, os seivosos, proprios, aereos, e os utriculos . Os vasos seivosos (vasa sapacea) chamados taõbem fibras lenhosas e vasos lymphaticos contem a seiva, chamada vulgarmente agoadilha ou chorume (sapa, humor plantarum) que he hum fluido aquoso, sem cor, sem cheiro nem sabor. Ella passa por ser o succo nutritivo dos vegetaes, que se aperfeiçoa nos utriculos e alguns outros vasos delgados; ella se observa bem destinctamente nos ramos das videiras cortados na primavera; estes vasos correm longitudinalmente ao lado das tracheas, saõ fasciculados, cruzaõ-se algumas veses, outras veses desviaõ-se mutuamente, deixando entre si espaços cheyos de utriculos : podem-se observar bem destinctamente nas raizes das caneiras e lirios. Os vasos proprios (vasa propria) saõ taõbem fibras lenhosas e succosas como os precedentes, mas saõ em menos numero, contem Succos mais espessos, còrados, lacteos, vermelhos, amarellos, saborosos, cheirosos, &c. e delles dependem [Página 5] as qualidades proprias de cada vegetal; alguns physiologistas pensaõ que elles saõ analogos ao chilo e sangue dos animaes; elles estaõ dispostos circularmente á roda do axe do tronco, mas achaõ-se em maior numero na casca, e se podem observar nas euphorbias, celidonia, çarthamus lunatus, &c. Os vasos aereos, chamados ordinariamente tracheas (tracheœ) saõ tubos formados de huma lamina elastica, espiral, ou semelhante a hum arame enroscado á roda de hum vime. Achaõ-se em todo o corpo do vegetal, correm ordinariamente parallelas aos vasos seivosos, e parecem ter maior diametro ou calibre do que os outros vasos. Saõ destinados a conter o ar, ou pelo assim dizer, servem á respiraçaõ dos vegetas, e se observaõ rasgando com brandura transversalmente em duas partes as folhas da vide, roseira e escabiosa. Os utriculos (utriculi) chamados taõbem tecido cellular, ou parenchyma, (parenchyma) saõ huma espécie de saccos ovaes, esponjozos, de varia grandeza, situados transversalmente e occupando as malhas ou entrevallos que deixaõ entre si os vasos longitudinaes. Saõ destinados á elaboraçaõ dos succos nutritivos, achaõ-se em maior numero na casca do que no lenho; a medulla contem os maiores e naõ parece ser outra coiza mais do que hum montaõ desta substancia vesicular ou vesiculas membranosas que communicaõ entre si. Podem observar-se no sabugueiro, choupo, carvalho, &c, por meyo de hum microscopio. Os rayos medullares, muitas raizes , frutos, e algumas plantas marinhas parecem ser quasi inteiramente utriculos , segundo as observaçoẽs repetidas vezes feitas por muitos sabios physiologistas. Alem destes vazos ha taõbem nos vegetaes muitos outros [Página 6] destinados a secreçoẽs, e as differentes sortes de glandulas os indicaõ.
Nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem circulaçaõ; o movimento dos seus succos he
chamado propulsaõ (propulsio), o calor, frio ou frescura alternados, ou a
acçaõ do ar ambiente sobre a lamina das tracheas parece ser a causa da
propulsaõ dos succos, ao menos ha grande probabilidade que a sua dilataçaõ e
condensaçaõ ajuda muito o jogo dos vasos. Nestes naõ ha valvulas algumas; o que hoje he raiz em hum
bacelo por ex., se arrancamos e reviramos a planta, dentro de pouco tempo
virá a ser cume, tendo pelo contrario o antigo sido convertido em raiz . Os succos passaõ da raiz ao tronco pelas fibras internas do
lenho, vaõ athe às ultimas ramificaçoẽs vasculares das folhas e descem para a raiz pelos
vasos da casca, de modo que a raiz tira succos do tronco e este
da raiz ; alem disto os ramos tiraõ taobem a sua nutriçaõ pelas folhas , e as raizes pelas radiculas fibrosas ou capillares. As folhas absorbem como a pelle dos
animaes, e em muitas plantas a maior parte da
substancia nutritiva lhes entra pelas folhas ; segundo alguns physiologistas os vegetaes em geral
nutremse de dia pela via das folhas e de noyte pelas raizes , e no inverno
aquellas plantas que nelle perdem inteiramente
as suas folhas so se nutrem pela raiz . O movimento da seiva e dos succos proprios tem lugar em todas as estaçoẽs do
anno, mas no inverno he mais lento. Este movimento como ja indiquei he ascendente e descendente como se prova
pelas enxertias. Se na primavera cortamos hum ramo das videiras ou hervas maleitas, o ramo
separado lança menos succos, e a sua effusaõ cessa e se esgota muito tempo [Página 7] antes que a do ramo ou tronco cortado que communica com a raiz ; isto parece provar alem dos dois movimentos, que ha huma
especie de communicaçaõ da seiva descendente, e ascendente na raiz , mas isso naõ obstante naõ merece o nome de
circulaçaõ, porquanto nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem primeiro motor
intrinseco dos succos, nem valvulas em quaesquer dos seus vazos Nota
Alguns physiologistas, que admittem a circulaçaõ nos vegetaes, dizem
que ella he assaz analoga á circulaçaõ que existe nos polypos.
As tracheas achaõ-se em grande numero nas folhas , ás quaes por isso mesmo alguns Botanicos chamaraõ bofes dos vegetaes. Os orificios destes vazos aindaque se reconheçaõ em ambas as duas faces das folhas , numa dellas sempre saõ em menor numero do que na outra. A observaçaõ tem mostrado que a substancia aeriforme, que dellas exhala durante a noyte, he muito nociva, ao mesmo tempo que de dia exhalaõ outra, com que se purifica a atmosphera: nellas parece residir a irritabilidade da sensitiva, e de outros vegetaes, cujas folhas e flores se contrahem por estimulos externos.
Nas enxertias quaesquer que sejaõ, tanto de garfo como de escudo, flauta, entalhe, &c. os succos passaõ do enxerto ao enxertado, e do enxertado ao enxerto alternativamente em rasaõ da anastomose, ou reuniaõ dos vazos de hum e outro. Esta reuniaõ he [Página 8] tanto mais duravel quanto mais perfeita; a sua perfeiçaõ consiste na grande analogia do garfo com o tronco enxertado, ou na grande affinidade de organizaçaõ e dos succos. O garfo deve vir a ser hum tronco do enxertado, e porisso quanto maior for a dicta affinidade tanto mais depressa, e firmemente se encorporará com elle, e tanto mais tempo viverá.
Os vegetaes, assim como os animaes, tendem todos naturalmente a reproduzir-se.
Toda a sua vegetaçaõ se dirige a este fim, chamado ordinariamente fructificaçaõ,
que tem principio nas flores e acaba no fructo. O grande numero de vegetaes
relativamente á sua fructificaçaõ he reduzido a duas grandes classes, a saber, a
plantas perfeitas, e plantas imperfeitas, (plantae perfectae aut imperfectae.)
As perfeitas saõ aquellas em cujas flores se observaõ estames, ou pistillos, ou
ambos estes dois organos; as imperfeitas saõ aquellas que rigorosamente fallando
naõ tem estes organos, ou se os tem naõ saõ bem apparentes á vista nuã, de sorte
que a sua fructificaçaõ tem lugar por hum modo differente do das plantas
perfeitas; saõ as que Linneo classou na sua Cryptogamia, e as que os
physiologistas chamaõ plantas microscopicas. No tempo da florecencia das plantas
perfeitas, as observãçoẽs dos modernos descobriraõ em suas flores hum coito
summamente analogo ao dos animaes, e reconheceraõ que nellas haviaõ genitaes de
dois sexos, envoltos em certos tegumentos, a que daõ ordinariamente o nome de
calyz ou corolla segundo as circumstancias. Os genitaes masculinos saõ chamados
estames, e os femininos pistillo, o qual se acha ordinariamente no centro da
flor, como se observa bem destinctamente [Página 9] em huma açucena. Cada estame he composto de duas partes inferior e
superior, a primeira tem o nome de filete, e a segunda ou superior que
termina o filete he chamada anthéra . O pistillo consta, em hum grande numero de flores, de tres partes, a saber,
germe, estylete, e estigma; o germe he a parte inferior do pistillo, ou o
fructo recêm nascido e nelle se achaõ ja as sementes Nota
Vej. no §.
Sementes a nota quarta (d).Nota
Elle constitue a cera
bruta, que as abelhas tiraõ das flores.Nota
Adanson naõ quer que
seja o po seminal dos globulos o que entra no estylete, mas sim hum
espirito volatil, envolto nelle (bem comparavel á materia electrica que
se acha envolta nos corpos electricos) e proprio para penetrar pelas
tracheas do estylete. Com effeito he raro ver estyletes que sejaõ
tubulosos, e a Anatomia naõ tem mostrado athe agora nos estyletes, e
germes cortados na florecencia, o menor indicio do po dos globulos. Eu
fallarei mais extensamente nesta materia nos meus Elementos de
Botanica.
Nas plantas imperfeitas naõ se conhecem a olhos nûs os organos sexuaes; o microscopio os tem feito descobrir em algumas, mas ha outras em que nenhum observador ainda mesmo com este instrumento os tem podido devisar athe agora, nem me parece que existaõ. He certo contudo que todas daõ sementes; os cogumelos, e o bolor podem, segundo a experiencia, ser semeados como as plantas perfeitas; quanto aos fetos e musgos as sementes saõ ainda mais bem conhecidas, e senaõ podem negar ainda mesmo aos limos, fucos, e outros generos de Algas, se bem que pareçaõ ser de huma forma exquisita em algumas especies.
Taes saõ em summa as principaes noções relativas á physiologia dos vegetaes. A
Botanica pura tractando, como disse, do modo de destinguir com certeza os
vegetaes huns dos outros, he o fundamento de todos os tractados de plantas de
qualquer sorte que sejaõ considerados. Ella se serve para este fim dos sinaes
caracteristicos que se achaõ em cada individuo do [Página 11] reyno vegetal, ajuntando, semelhantes com semelhantes, e separando os
dessemelhantes. Desta reuniaõ de plantas ou especies conformes em caracteres
resultaõ os generos infimos, que reunidos de novo, do modo que depois
exporei em seu lugar Nota
Vej. A Quarta Parte deste Compendio.
Os systemas saõ com justo motivo considerados, como hum fio de Ariadnes no
immenso labyrintho vegetal; elles saõ hum grande soccorro da memoria, conduzem
ao conhecimento do nome da planta, e nos mostraõ se ella tem ou naõ sido
conhecida dos Botanicos que nos tem precedido. Os sinaes caracteristicos, que se
achaõ nas especies do reyno vegetal, saõ os meyos de que nelles se vale a
Botanica, como disse, para nos encaminhar a este conhecimento. Todos estes
sinaes saõ exprimidos por termos technicos, que reunidos formaõ o idioma
Botanico, cuja exposiçaõ he o principal objecto deste tractado. Antes de
Linneo os termos facultativos de Botanica, naõ tinhaõ huma accepçaõ taõ
determinada como hoje tem, elle a fixou em hum grande numero; e se bem que
alguns delles parecem ter ainda huma significaçaõ vaga e ambigua Nota
Eu
demonstrarei em outro tractado estas ambiguidades, e proporei as
definiçoẽs com que semelhantes termos se podem fixar.
A raiz he hum organo nutritivo apegado a terra Nota
As lentilhas d'agoa (lemna) naõ costumaõ estar apegadas a terra;
saõ fluctuantes, e as suas raizes encravadas n'agoa mudaõ a cada instante de
lugar. Em hum grande numero de algas naõ se sabe o que deve ter o nome
de raiz , nem pela forma nem pela estructura
interna, e semelhantes plantas tiraõ igual nutriçaõ por toda a
sua superficie. Algumas plantas parasitas (plantae parasiticae), taes como a
cuscuta, viscum, &c. naõ saõ apegadas a terra, ellas estaõ
aferradas a outros vegetaes, delles tiraõ a sua nutriçaõ, e ás
vezes os fazem morrer de marasmo. Em fim ha plantas que passaõ por ser destituidas inteiramente de raiz , sem embargo de estarem todas cobertas de
terra como a maçan de porco: a lemna arhira, que esta encostada
ao lume d'agoa, taõbem naõ tem raiz alguma. Nota
Nas raizes lenhosas ha
alburno da mesma sorte que no tronco, mas nas plantas herbaceas
annuaes, em que naõ ha aros concentricos, naõ se devisa alburno
algum, e o nome de lenho naõ me parece proprio das raizes que se corrompem
annualmente, em algumas o denominado lenho he verdadeiramente
huma substancia medullar.
As raizes em geral constaõ de
cuticula, casca, lenho, e medulla. Ordinariamente humas saõ mais
delgadas do que o tronco, outras saõ consideravelmente mais grossas. Humas e
outras podem ser consideradas, ou como simplices ou como compostas. Toda
a raiz simples (simplex), he indivisa e naõ lança
ramificaçoẽs algumas nos lados do seu troço; pelo contrario a composta
(composita) lança muitos ramos ao longo do seu troço: para disto se
poder formar clara idea, he precizo reconhecer no commum das plantas
duas sortes de troços continuados hum com outro, a saber, o troço
descendente e ascendente. O troço descendente das plantas (caudex descendens), em huma accepçaõ
extensa he qualquer raiz ; em hum sentido estricto, he a
parte mais grossa [Página 14] da raiz , a que alguns chamaõ taõbem o troço materno, do
qual nascem lateralmente ramos, que lançaõ varias radiculas Nota
Fibrillae, radiculae, taõbem se dá o nome de radicula á parte
inferior da plantula seminal, ou corculo quando começa a
germinar.
1º. A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:
Horizontal (horizontalis), quando se estende transversalmente ou corre quasi parallela com a superficie da terra (como a dos lirios e escalracho.)
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.
Perpendicular ou aprumada (perpendicularis), quando se encrava a prumo pela terra abaxo (a cenoira, e rabaõ.)
Obliqua (obliqua, inclinata), quando tem huma direcçaõ esguelhada, ou se encrava obliquamente ao horizonte ou superficie da terra (o cravo romano.)
[Página 15]2º. Quanto á sua divisaõ, e forma diz-se:
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.
Fibrosa (fibrosa, fibrata), quando consta somente de radiculas delgadas, e se diz capillar (capillacea, capillata, schirrata, comosa), se as radiculas saõ finissimas e bastas, como nas lentilhas d'agoa e alguns gramineos; filiforme (filamentosa, filiformis), se as dictas radiculas saõ como fios hum tanto grossos, como as da violetta e quejadilho. Alguns lhes daõ o nome de retiformes (retiformes), se ellas se enredaõ a maneira de rede.
Fusiforme (fusiformis), se he polposa, perpendicular, oblonga, adelgaçando pouco a pouco para a sua extremidade inferior, de modo que se assemelha a hum fuso (a cenoira e rabaõ). Turbinada (turbinata) quando he conica verticalmente, ou se assemelha a hum piaõ bailando (como alguns nabos).
Globosa (globosa), quando tem huma forma quasi espherica (ranunculus bulbosus). Pode ser tanto bolbosa como tuberosa.
Troncada (truncata, praemorsa), quando he simplez, e naõ termina em ponta, mas antes parece como retraçada ou cortada transversalmente (scabiosa succisa.)
Fasciculada (fascicularis, fasciculata), quando consta de partes carnudas, bolbosas, ou tuberosas approximadas, e adunadas na extremidade superior [Página 16] junto da base do tronco (orchis abortiva, ranunculus ficaria, paeonia). Alguns lhe chamaõ taõbem grumosa (grumosa), como sendo disposta por grumos quer sejaõ rentes quer dependurados, como nos ranunculos, anemones, e abrotea.
Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia). Todas estas raizes saõ bolbos bastardos.
Articulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata). Nodosa (nodosa), quando he carnuda e tem varias protuberancias (scrophularia nodosa). Alguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.
Escamosa (squamosa), quando he guarnecida de tunicas ou producções
escamosas quer estas sejaõ obtusas quer pontudas, ou imbricadas, ou
distantes, ou finas e membranosas , ou cascos da consistencia da raiz , e hum tanto succulentos (dentaria pentaphyllos). Nota
A raiz denteada (dentata), que se diz ordinariamente
ter producçoẽs pontudas, direitas, curtas, da consistencia da raiz , laxas e distantes, he huma verdadeira raiz escamosa, e a Oxalis acetosella que se dà
por exemplo, o demostra evidentemente: assim como as escamas
pontudas dos caules senaõ chamaõ dentes, do mesmo modo devem ser
as das raizes , e este he
o meyo de evitar termos desnecessarios.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata). Estes graõs saõ pequenos bolbos bastardos.
Entre as raizes herbaceas
ordinariamente mais grossas do que o tronco ha humas a que se deo o nome
de tuberosas, e a outras o de bolbosas. A raiz tuberosa (tuberosa) he a que consta de huma ou mais
tuberas (tubera); as tuberas saõ corpos carnudos, farinhosos, de varia
figura Nota
Ordinariamente saõ hum tanto globosas.
A raiz bolbosa (bulbosa) he a que Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao
lado dos antigos. Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ
dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum
tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos,
patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos,
aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto
fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so
merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da
natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos
nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de
muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas
bolbosas. Nota
Vej. as palayras bulbus e bulbosus no nosso Diccion. Nota
Nota
O termo caput significa taõbem nos escritos de alguns Botanicos a
cabeça ou golla da raiz , que he a parte extrema
superior que se acha hum pouco fora da terra, donde nascem as folhas radicaes, e
comeca o tronco; esta golla he assaz bem distincta no rabaõ, e
algumas outras raizes ;
porem em hum grande numero dellas naõ se distingue golla alguma,
e o ponto de separaçaõ entre o tronco e a raiz he
muito arbitrario.
3º. Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:
Annual (annua), quando perece com o seu tronco annualmente, devendo-se tanto ella como a sua especie propagar por meyo de sementes, tal he a do trigo, feijoeiro, &c. Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎. Biennal (biennis) quando vegeta no primeiro anno, no segundo o seu tronco fructifica, e ambos nelle [Página 20] perecem (tragopogon), ella he indicada com o sinal ♂. Vivace ou perennal (perennis), quando dura viva na terra mais de dois annos, lançando ou brotando de seus gomos troncos novos, como he a da hera terreste, a da violetta, &c.: he indicada pelo sinal ♃. Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .
O tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.
Os antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.
Em hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla. Quando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.
As especies de tronco saõ: caule, hastea, colmo, espique, e surculo Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os
peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ
para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ
flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus),
e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a
que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos
radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das
hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco;
so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou
especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser
inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda,
se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como
senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do
Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que
tem com o espique do bolor (mucor mucedo). Nota
O caule (caulis) he huma especie de tronco ordinariamente guarnecido de folhas Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo
postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas
nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da
definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de
Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta. Nota
A hastea (scapus) he huma especie de tronco herbaceo ou levantado ou
obliquo, e inteiramente [Página 22] desguarnecido de folhas Nota
A hastea pode terminar em huma ou muitas flores, em espigas,
racimos e paniculas, e por conseguinte ser ramosa. Lê-se nalgumas descripçoẽs de plantas herbaceas e levantadas:
caule sem folhas , ou nu
de folhas (caulis
aphyllus, s. nudus) hastea bifolia, hastea folhosa; mas estes
termos saõ ambiguos e improprios, porque no primeiro cazo o
tronco he huma hastea, e no segundo he hum caule. Pela mesma razaõ me parece taõbem ser desnecessario dizer: hastea
sem folhas (scapus
aphyllus). Ha plantas que podem ter duas sortes de troncos, isto he, caule e
hastea como a pilosella e morangueiro. Algumas especies de Osmunda tem hastea e espique ao mesmo tempo,
segundo alguns autores, mas como neste cazo a folha naõ fructifica, parece que se deve conservar o nome de peciolo
ao seu pé, dar o nome de hasteas aos pedunculos radicaes, e
chamar simplesmente pedunculos aos que nascem do espique muito
acima da superficie da terra.
O colmo (culmus) he huma especie de tronco proprio dos gramineos, e
plantas analogas a elles, como he o do trigo, caneira, junco, &c. em
humas plantas he occo, em outras esponjoso, ou geniculado ou sem nos,
com folhas ou sem ellas,
ramoso, ou simplicissimo, herbaceo ou arbustivo; em huma palavra, he
huma hastea ou caule a que os Botanicos quizeraõ dar o nome de colmo por
ser hum tronco dos grames, e plantas que lhes saõ naturalmente analogas Nota
Donde resulta que para naõ errarmos nas descripçoẽs que fizermos,
dando o nome de caule ou hastea a huma planta que tem colmo, he
precizo termos ideas claras dos caracteres principaes que
constituem a familia natural dos gramineos; ainda que naõ he
este o proprio lugar de fallar nesta materia, direi contudo de
passagem que os principaes caractéres desta familia consistem
nas folhas planas,
lineares, pontudas, flexiveis, em forma de fitta, compostas de
fibras parallelas, e ordinariamente envaginantes; os tegumentos
dos organos sexuaes, chamados casulos, saõ certas escamas
paleaceas denominadas valvulas, o calyx tem duas ordinariamente,
e raras vezes huma, tres ou mais; a corolla tem ordinariamente
duas valvulas, das quas a interior he menor, e raras vezes tem
huma so; o fructo he huma semente sem pericarpo
(excepto o esparto, segundo Linneo), e a sua substancia he
farinhosa.
O espique (stipes) he huma especie de tronco proprio dos fetos e fungos;
nos primeiros he semelhante a hum peciolo, e nos segundos a hum
pedunculo radical ou hastea Nota
Linneo da taõbem o nome de espique aos peciolos das folhas das palmeiras, mas
como ellos naõ elevaõ de modo algum a fructificaçaõ destes
vegetaes, alguns modernos naõ admittem nellas esta especie de
tronco, e conservaraõ o nome de peciolo aos seus pés, dando o
nome de caule simplez ao troço, que se eleva sobre a terra,
terminado no cume por folhas e fructificaçaõ em espadice.
O surculo (surculus) he huma especie de tronco proprio dos musgos, o seu troço he filiforme, guarnecido sempre de foliolos, ou de escamas persistentes e de varia forma; ás vezes he simplez, outras vezes ramoso, ora he reptante ou estirado ora levantado. Ha algumas especies de jungermannia, nas quaes o tronço he hum surculo, e nisto saõ verdadeiramente analogas aos musgos.
Toda a planta que tem tronco he denominada entronquecida (caulescens), e destronquecida (acaulis) senaõ tem tronco algum (carlina acaulis). Muitas [Página 24] vezes se da taõbem este ultimo nome às que tem hum tronco curtissimo, e quasi cozido com a terra
1º. O tronco em geral pode ser considerado segundo differentes relaçoẽs; quanto à sua duraçaõ e substancia diz-se ser:
Herbaceo (herbaceus), se naõ he lenhoso e perece annualmente (a chicoria, e o ranunculo).
Subarbusteo (suffruticosus), quando os seus ramos annualmente se seccaõ, e naõ tem gomos alguns athe a base, ou so a sua parte inferior junto della persiste viva, donde brota na primavera (a dulcamára, tomilho, gilbarbeira, salva, e alfazema). Este tronco he quasi lenhoso.
Arbusteo ou arbustivo (fruticosus), quando pertence a huma raiz lenhosa, da qual todos os annos brotaõ muitos
troncos, que senaõ secçaõ nem morrem annualmente nem se elevaõ a altura
das arvores ordinarias Nota
He difficil de dar huma boa definicaõ dos arbustos e arvores ,
nascendo isto de que a divisaõ das plantas lenhosas em arbustos
e arvores naõ he natural porquanto a naturera naõ poz limites entre elles,
mas taõ somente a opiniaõ do vulgo. Linneo diz que a unica destinçaõ que pode haver he de dar o nome
de arvores ás que tem gomos, e o de arbustos ás que os
naõ tem; a seguir este parecer, muitas arvores ficariaõ sendo
arbustos, e muitos arbustos seriaõ arvores , o que naõ tem
sido athe agora adoptado nas descripçoẽs botanicas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c. Quando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.
Compacto ou mociço (solidus), que naõ he tubuloso, nem consta de huma substancia porosa, encortiçada, e balofa, nem tem huma medulla esponjosa, mas antes mal se lhe pode divisar a medulla (o acipreste, e oliveira).
Esponjoso (inanis, s. spongiosus), quando consta de huma substancia balofa e esponjosa, ou tem huma larga medulla esponjosa (o milho e o sabugueiro).
Repleto (farctus), quando he compacto, ou esponjoso, de modo que se lhe naõ divisa tubo algum (o acipreste e sabugueiro).
Tubuloso (fistulosus, s. tubulosus), quando he occo como hum canudo (o phellandrium aquaticum, conium maculatum, e a cebola.)
2º Considerado quanto à sua medida diz-se ser:
De meya pollegada de alto (unguicularis, semiuncialis, s. unguem longus); de
huma pollegada de alto (uncialis, s. pollicaris); de pollegada e meya de
alto (sesquiuncialis); de maõ travessa de alto (palmaris, palmum longus); de
hum palmo (dodrantalis, dodrantem longus); de sette pollegadas (spithameus);
de hum pé (pedalis); de desasette pollegadas, ou de hum covado natural
(cubitalis); do comprimento de hum braço, ou de vinte o quatro [Página 26] pollegadas (brachialis); de huma braça, ou de seis pés (orgyalis). Quanto
á sua grossura diz-se ser: da grossura de hum cabello ou da duodecima parte
de huma linha (capillaris); de huma linha de diametro ou da duodecima parte
de huma pollegada (linearis); de duas, tres linhas, &c. de largo; de
meya pollegada, de huma pollegada de largo, &c. Todas estas medidas se
podem augmentar á proporçaõ da altura e grossura do tronco, dizendo-se por
ex. ser de trez, oito, vinte braças de alto, &c. Todas ellas se devem
entender na razaõ de pouco mais ou menos, vistoque as plantas
relativamente a ellas variaõ muito, segundo o terreno, clima, lugares
mais ou menos abrigados, &c. Nota
Alguns o denominaõ grosso, delgado, curto, muito alto, grande,
pequeno, comparando-o idealmente com as folhas e outras partes da planta; mas
estas ideas saõ vagas, a naõ declararmos juntamente a parte com
que o comparamos.
3º Quanto á direcçaõ he denominado:
Levantado (erectus, arrectus), quando he quasi perpendicular ao plano da terra, ou forma com elle quasi hum angulo recto (o verbasco): he o contrario de obliquo, postrado, e voluvel.
Direito (rectus, strictus), quando he impertigado, sem tortuosidades algumas, e forma com o plano da terra hum angulo recto (o junco, e o helianthus altissimus). He hum tronco perfeitamente levantado, e alem disso he opposto ao caule tortuoso, fraco, e a quaesquer outros que tem curvaturas.
Fraco (laxus, flaccidus, debilis), quando por ser delgado ou de flexivel contextura bambolea, e abana facilmente em varias direcçoẽs.
[Página 27]Rijo (rigidus), he firme, naõ bambolea facilmente, e tem huma tezidaõ hum tanto elastica de maneira que se o curvamos, se levanta immediatamente (algumas junças).
Obliquo ou esguelhado (obliquus), quando esta posto de esguelha, apartando-se quasi tanto do plano da terra, como da linha perpendicular ao dicto plano (lathyrus aphaca).
Remontante ou realçado (ascendens), quando sendo primeiramente obliquo, postrado, ou parallelo á terra se revira para cima em arco (vicia cracca, viola canina).
Reclinado (reclinatus, declinatus, inclinatus), quando levantando-se primeiramente hum tanto de es guelha começa a descahir para a terra, prolongando-se em arco, ou formando huma curva assaz aberta; mas a sua ponta fica levantada de maneira que figura quasi hum postrado 𝆗 (convolvulus tricolor, potentilla aurea).
Incurvado (incurvatus, inflexus), quando se levanta direito e arquea na parte superior (juncus inflexus).
Acenoso (nutans), quando tem a ponta dobrada para baxo, ou dependurada perpendicularmente (juncus filiformis).
Postrado ou estirado (procumbens), quando em rasaõ da sua fraqueza jaz deitado horizontalmente sobre a terra, sem contudo nella lançar raizes (o murriaõ, a parietaria lusitanica, a semprenoiva.)
Descahido (decumbens), quando primeiramente se eleva hum pouco, e depois cahe sobre a terra, onde alastra mais ou menos (o serpaõ).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).
Sarmentoso (sarmentosus), quando lança muitas varas nodosas (chamadas sarmentos), as quaes tocando na terra, ou corpos vizinhos, nelles arraigaõ pelas suas juntas (a videira, legacam, e clematis vitalba).
Reptante ou serpentante (reptans, repens) quando he postrado, longo, mais ou menos ramoso, e lança amiudo sobre a terra varias radiculas (a potentilla, e a lysimachia nummularia). Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c. A hera humas vezes he reptante, outras raigotosa; donde resulta que estes dois termos indicaõ a mesma coiza em differentes lugares.
Articulado (articulatus), quando tem juntas destribuidas de distancia em
distancia Nota
Este termo toma-se ás vezes taõbem por geniculado, mas o
melhor he applicalo somente aos caules que tem juntas sem serem
nodosas, e taõbem quando so dependem do tacto para se reconhecerem,
(como as do juncus articulatus, e cyperus articulatus). As juntas
saõ chamadas articulationes, articuli, juncturae, e quando, saõ
nodosas genicula, nodi. Linneo da ordinariamente o nome de articulus
ás entrejuntas, mas hum grande numero de Botanicos antigos e
modernos daõ a este termo a significaçaõ de junta.
Tortuoso (flexuosus), quando he ondeado ou como colombrino, formando nas juntas ou lugar dos gomos pontas angulosas, e alternadas ora para hum ora para outro lado (o legacam, e dulcamára).
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba). Quando elle chupa a substancia da planta em que se segura ou por meyo de suas radiculas, ou de qualquer modo que seja, daõ-lhe o nome de parasito (parasiticus) como he o da hera e cuscuta. Se elle se enrosca á roda dos corpos vizinhos, prolongando-se sempre espiralmente, daõ-lhe o nome de voluvel ou encaracolado (volubilis), e o dizem ser encaracollado á direita, (dextrorsum, s. contra motum solis) se a primeira rosca inferior começa pela banda direita, da direita para á esquerda ou do poente para o nascente (o feijoeiro, e a verdeselha); encaracollado à esquerda (sinistrorsum, s. secundum motum solis), se a sua primeira rosca segue huma direcçaõ contraria á precedente (o luparo, madresylva, e norça preta). Para podermos determinar estas direcçoẽs he precizo suppormo-nos estar dentro das roscas com a cara para o sul.
4º Quanto á figura diz-se ser:
Cylindrico ou roliço (teres, cylindricus), quando [Página 30] se assemelha a hum rolo, naõ tendo angulos alguns (a tulipa, e pinheiro); quasi cylindrico (subcylindricus), quando se approxima quasi á figura de hum rolo (allium molly); semicylindrico (semiteres) se he plano de huma banda e convexo da outra, ou como a metade de hum rolo partido longitudinalmente (allium ursinum).
Comprimido (compressus), se he hum tanto chato de duas bandas em todo o seu comprimento, ou parece como esmagado nos dois lados oppostos (poa compressa, potamogetum compressum).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).
Anguloso (angulatus), se tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos
angulos, diz-se ser triangular, quadrangular, de cinco, seis, ou muitos
angulos (tri- quadr- quinq- sex- mult- angularis Nota
Os termos de
trigonus - polygonus tem ordinariamente huma accepçaõ synonyma de
triangularis - multangularis; mas alguns botanicos usaõ dos
primeiros para significar angulos hum tanto embotados.
Segundo o numero dos lados planos que tem, diz-se ser: de tres, quatro, cinco lados, &c. [Página 31] (tri-quadri-quinqueter, &c. ou taõbem tri-quadri-quinquelaterus, &c.)
5º. Considerado quanto á sua superficie diz-se ser:
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.
Esfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.
Nû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias. Este termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem. Diz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .
Envaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).
Escamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).
Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).
Encortiçado (suberosus), quando a sua casca he branda, elastica, toda cortiça ou semelhante a ella na qualidade (o sobereiro, e passiflora suberosa).
Gretado (rimosus), quando tem no exterior da sua casca muitas gretas abertas irregularmente.
Entunicado (tunicatus), quando a sua casca he [Página 32] coberta de differentes membranas applicadas humas sobre outras.
Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).
Estriado ou riscado (striatus), quando tem longitudinalmente muitos riscos na superficie da sua casca; estas estrias saõ superfiçiaes, e mais ou menos distantes (genista tinctoria).
Regoado (sulcatus), quando tem longitudinalmente regos, ou riscos largos e profundos na sua casca (a milfolha, e aipo).
Glabro (glaber), quando a sua superficie naõ tem escabrosidades nem pelos
alguns, mas he liza ou polida (a abrotea, e cebolla alvarran) Nota
He a
mesma coiza que lizo, e nû de pelos e excrescencias.
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).
Echinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).
Cotanoso ou cotanilhoso (tomentosus) se a sua superficie esta coberta de hum cotaõ ordinariamente branco, finissimo, curtissimo, e de tal sorte tecido que os seus pelos mal se podem separadamente distinguir sem lente (a cineraria maritima).
Lanudo (lanatus), quando a sua superficie esta [Página 33] coberta de pelos longos, bastos, curvados, e tecidos huns com outros á maneira de huma tea de aranha, como visivelmente se conhece sem lente (na ballota lanata, e onopordum acanthium).
Peludo ou hirsuto (pilosus, hirsutus, s. hirtus) Nota
As differenças, que
se fazem ordinariamente destes tres termos, so servem de embarassar
os principiantes, e porisso os naõ distingui aqui.
Felpudo ou aveludado (villosus), quando tem pelos bastos, approximados, macios ao tacto, naõ entrelaçados, e assaz bem visiveis sem lente (o çumagre.)
Hispido (hispidus), quando he salpicado de sedas finas, hum tanto rijas, rectas, distantes mais ou menos entre si, e mui quebradiças (echium vulgare).
Ardentoso (urens), he hispido, mas as suas sedas saõ venenosas, e chamadas ferroẽs, em razaõ de que penetrando a pelle nua causaõ nella ardor e inflammaçaõ (a urtiga.)
Aculeado (aculeatus), quando tem aculeos, ou espinhos, bastardos, na sua casca (a sylva, e roseira).
Espinhoso ou abrolhoso (spinosus), quando lança do seu lenho abrolhos ou espinhos proprios (o pirliteiro, e o abrunheiro bravo).
[Página 34]Estipuloso (stipulatus), quando he guarnecido de estipulas (o martyrio, todas as especies de polygonum, e a maior parte das leguminosas.)
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).
Bolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).
6º. Quanto á sua composiçaõ ou divisaõ diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se prolonga athe á ponta quasi sem ramos, ou tem ramos rarissimos quer na parte superior quer nos lados (a açucena, e scabiosa succisa): simplicissimo (simplicissimus, integer), quando he inteiramente indiviso, prolongando-se sem ter absolutamente ramo algum (o alho, e paris quadrifolia).
O tronco he composto todas as vezes que merece de ter o nome de subramoso ou ramoso. O subramoso (subramosus), he hum tronco quasi simplez em razaõ de ter poucos ramos lateraes (as esporas, e aquilegia); o ramoso (ramosus), tem muitos ramos lateraes (a beccabunga, e sherardia arvensis). Diz-se ramosissimo (ramosissimus), quando tem ramos numerosissimos, subdivididos, e amontoados sem ordem (gallium saxatile, e thalictrum faetidum); se todo elle naõ parece outra coiza mais do que huma panicula, ou que todos os seus ramos formaõ huma [Página 35] panicula, daõ-lhe o nome de paniculado (paniculatus), como he o da saxifraga cotyledon.
Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).
Patente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto. (Este termo he muitas vezes usado em lugar do seguinte). Derramado ou diffuso (diffusus), quando se divide em muitos ramos que formaõ entre si angulos quasi rectos (a fumaria, e hesperis tristis.)
Copado (fastigiatus), quando os seus ramos saõ approximados ou empilhados, chegaõ a igual altura, e formaõ huma copa anivelada, e fechada como huma moita (santolina chamaeciparissus).
Açarilhado (brachiatus), quando tem ramos oppostos, e o par superior cruza o inferior, como os braços de hum çarilho (a mercurial).
Forquilhoso ou forqueado (dichotomus), quando se divide sempre em dois ramos, em forma de forcado (valeriana locusta). Alguns o denominaõ triramoso (trechotomus), quando se divide sempre em tres ramos (o cardo penteador, e a verbena mexicana). A divisura ou ponta angular das divisoẽs do tronco forquilhoso he chamada bifurcaçaõ ou forqueadura (bifurcatio, s. dichotomia).
Vergonteado (virgatus), quando he delgado, fraco, flexivel, e se prolonga lançando muitas varinhas [Página 36] bastas, desiguaes, e da sua mesma qualidade ou fraqueza (artemisia campestris).
Prolifero (prolifer), quando he, pelo assim dizer, pontaramudo, lançando
ramos verticillados so na ponta, os quaes
saõ taõbem proliferos (como o pinheiro, e scabiosa prolifera Nota
Nestes dois exemplos se vê que o tronco prolifero pode ser ou
lenhoso ou herbaceo; mas ordinariamente o termo prolifero sò se
applica aos troncos lenhosos que daõ muitos gomos nas
pontas.
Diz-se em fim ser disticado (distichus), se tem ramos disticados; e esteiado (fulcratus), quando se esteia em seus ramos ou tem ramos esteiados: estes termos seraõ melhor explicados no artigo seguinte.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Levantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos. Nascem da casca, e della lhes provêm os muitos vazos de que saõ compostas. Estes vazos saõ sufficientemente visiveis, e [Página 39] estaõ cobertos da epiderme, que he a continuaçaõ da epiderme da casca. As suas ramificacoẽs formaõ huma especie de rede, a que chamaõ tecido reticular (rete s. opus reticulare), cujas malhas saõ occupadas pelo tecido cellular ou parenchyma. Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.
As folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes. A parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex). Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus). E sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco. Os vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente. O mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro. Os veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes.
As folhas saõ consideradas naõ so
relativamente a estas circumstancias, mas ainda quanto à sua duraçaõ,
grandeza, situaçaõ, inserçaõ, direcçaõ, circumscripçaõ, sinuosidades,
angulos, lados, substancia, simplicidade, e compoziçaõ. A duraçaõ he o tempo em que ellas subsistem apegadas á planta. A grandeza consiste nas dimensoẽs de comprimento e largura, e he ou
absoluta ou relativa; a primeira consiste em huma medida determinada de
linhas, pollegadas, palmos, &c. e a segunda na extensaõ da sua
superficie comparada, com o comprimento dos seus peciolos, do tronco ou
das articulaçoẽs deste. Na insersaõ naõ so se considera o ponto de apego da folha ,
mas ainda o modo com que he apegada. A situaçaõ he o modo com que as folhas so achaõ dispostas no tronco da planta. A direcçaõ he a posiçaõ particular, em que se achaõ as folhas no tempo diurno
relativamente ao tronco, aos differentes polos da terra e sua
superficie, ou em fim, respectivamente á superficie d'agoa. Na circumscripçaõ considera-se a figura da folha circumscripta no disco, e he supposta inteira, precidindo-se dos
angulos, sinuosidades, margens e ponta. Nas sinuosidades suppoem-se a folha dividida no seu disco, e [Página 41] como tendo, partes nelle cortadas, ou na base, ou no topo, ou nos
lados, ou em qualquer parte que for. Os angulos saõ partes da folha mais ou menos prolongadas ou
prominentes, e se suppoem a folha inteira e em huma posiçaõ
horizontal. Os lados do modo com que os consideraõ os botanicos saõ os angulos
longitudinaes da folha , ou as esquinas que ella tem ao
comprido. Na substancia entende-se a polpa entre as superficies. A simplicidade da folha consiste em ser huma so em hum so
peciolo; considerada lateralmente as suas lacinias (laciniae) naõ chegaõ
a ser rasgadas athe á nervura dorsal do meyo para cima, e
ordinariamente o naõ saõ mesmo athe á base; naõ he articutada, e
considerando-a verticalmente, as suas lacinias naõ formaõ foliolos
perfeitos, nem he rasgada inteiramente athe ao cume do peciolo, mas taõ
somente athe certa distancia acima delle. Pelo contrario a composiçaõ da folha consiste em ter muitas
em hum so peciolo commum; he rasgada por conseguinte inteiramente athe
ao topo do peciolo, ou lateralmente athe á nervura dorsal ,
que nesta sorte de folhas he o
peciolo commum Nota
Nas folhas , a que Linneo
chama decursive-pinnata, a base da ala decursiva diminue, e se
estreita de tal modo, que deixa ver o peciolo commum descarnado,
ou quasi sem ala no porsto onde começaõ os foliolos inferiores,
no que se distinguem das pinnatifidas (a aroeira.)
Os antigos davaõ o nome de folhas ainda mesmo ás petalas das flores. Linneo fez huma destinçaõ entre folhas e frondes, e deo o nome de frondes (frondes) ás folhas dos fetos e plantas da
mesma ordem, ás folhas das
palmeiras, ás folhas aggregadas
de alguns aciprestes, e a algumas producçoẽs semelhantes a folhas , que se achaõ na ordem das
algas; mas naõ nos deixou huma definicaõ exacta em que se funde esta
differença Nota
Daqui procede que muitos Botanicos ainda hoje lhes chamaõ
geralmente folhas ; eu
penso que a querer fazer destinçaõ, o nome de fronde so compete
propriamente a huma folha , ou producçaõ anologa a
ella, que dá flores ou fructifica. O ruscus, muitos fetos, e
muitas algas nesta circumstancia teriaõ frondes bem caracterizadas.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Caulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
Innatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
Dispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Levantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Huma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Angulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Rhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Fendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Apalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Sinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Celheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Laceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
Obtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Troncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Nuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Viscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Cotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Concavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Bojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Aquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Dolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
[Página 73]1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Binadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
Bigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Trigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
O peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.
Algumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).
Contudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas . Peciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha. Peciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas. Peciolo commum (communis) he o que tem no topo ou nos lados muitos foliolos, ou muitos peciolos parciaes. Peciolo parcial (partialis) he o que nasce do peciolo commum; os peciolos parciaes às vezes saõ immediatos ao peciolo commum, outras vezes ramificaõse mais ou menos variamente; nesta circumstancia os ultimos saõ chamados immediatos, e os que medeaõ entre elles, e o peciolo commum tem o nome de mediatos.
O peciolo distingue-se facilmente do pedunculo Nota
He rarissimo que esta distinçaõ falhe, contudo na turnera, e
nalgumas especies de hibiscus, o pé da folha achase
confundido com o da flor. Elle eleva às vezes folhas que daõ flores, como se vê nas especies de
ruscus.
1º. Quanto á sua figura, diz-se ser:
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .
Alado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).
Aclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).
Roliço (teres) he cylindrico, ou semelhante a hum rolo: semiroliço (semiteres) he semicylindrico, ou semelhante à metade de hum rolo partido longitudinalmente.
Adelgaçado (attenuatus), quando se adelgaça ou he comprimido junto da ponta (populus tremula)
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.
Trigumeo (triquete) tem tres angulos ou gumes, e tres faces planas.
[Página 82]Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).
2º. Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:
Curto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.
Mediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.
Comprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .
Quanto á grandeza absoluta (vej. pag. 23, art. 2º)
3º. Considerado relativamente ao seu apego, diz-se ser:
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).
Innato (adnatus), tem a base larga, e se apega taõ fortemente ao tronco ou ramos, que parece confundir-se com a sua substancia; naõ se pode arrancar sem se espedaçar a casca do tronco, o que naõ succede nos peciolos inseridos.
Decursivo ou decurrente (decurrens), quando a sua base se prolonga sobre o tronco ou ramos, e corre por elles abaxo.
[Página 83]Amplexicaule ou abarcantes (amplexicaulis), quando abarca com a sua base o tronco ou ramos.
Appendiculado (appendiculatus), quando tem na base alguns appendiculos, orelhas, ou producçoẽs folheaceas (dipsacus pilosus).
Envaginante (vaginans), quando com a sua base reveste e cerca o tronco ou ramos a modo de bainha.
4º. Quanto á direcçaõ, diz-se ser:
Levantado (erectus, s. arrectus), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, chegando-se muito à poziçaõ perpendicular.
Patente (patens), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto.
Remontante (assurgens), quando ao sahir do tronco ou ramos he horizontal ou abaxa hum tanto, mas levanta-se depois com a ponta para cima, vindo assim a formar huma especie de arco.
Recurvado (recurvatus) he o contrario do precedente; ergue-se hum tanto em arco ao sahir do tronco, e se curva depois para baxo.
5º. Quanto á superficie, diz-se ser:
Nu (nudus) quando naõ tem pelos, nem glandulas, excrescencias, espinhos, nem sorte alguma de armas.
Glabro (glaber) se he nu, e a sua superficie he liza. Aculeado (aculeatus),
quando tem aculeos (a sylva, e roseiras). Espinescido (spinescens), se
tem espinhos muito raros e fracos, ou taõbem quando he rijo, endurecido,
e picante na ponta Nota
Nesta circumstancia so pode ter lugar nas folhas pinnuladas.
Articulado (articulatus), se tem huma ou mais articulaçoẽs.
As partes accessivas das plantas a que Linneo dá Nota
Sigo nesta divisaõ a sua Phil. Bot. n. 84, porque o mesmo Autor
no seu tractado dos termos Botanicos estendeo taõbem o nome de
esteios aos peciolos e pedunculos.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Nullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Intrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Rentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
Fêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Pelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Quando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
[Página 95]As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
Dizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
O pedunculo (pedunculus) he a parte do tronco ou ramos que serve de esteio á flor, e a que chamaõ vulgarmente o pé da flor. Elle tem huma intima analogia com os ramos, e lhe daõ por esse motivo muitas das suas denominaçoẽs.
Diz-se ser: commum (communis), quando sostem muitas flores ou se divide em pedunculos parciaes.
Parcial (partialis), quando nasce do pedunculo commum ramificado; subdivide-se as vezes ainda em outros menores, a que chamaõ pedicellos ou pedunculos immediatos (pedicelli).
1º. Os pedunculos considerados, quanto ao lugar a que estaõ apegados na planta, dizem-se ser:
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco). Estes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.
Caulinos (caulini), quando nascem do caule.
Rameos (ramei), se nascem dos ramos.
Peciolares (petiolares), se nascem dos peciolos (o hibiscus moscheutos, e algumas especies de turnera). [Página 97] Alguns daõ-lhes taõbem o nome de folheares (foliares) nesta mesma accepçaõ.
Gavinhosos (cirrhiferi, s. cirrhosi), quando lançaõ huma gavinha na ponta (vitis indica, cardiospermum). Alguns daõ-lhes taõbem este nome e o de voluveis, ou enroscados (volubiles), se elles se enroscaõ como huma gavinha.
Terminaes (terminales), quando se achaõ na ponta do tronco ou ramos (a tulipa, e o alfeneiro).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).
Contrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).
Lateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem). Alguns daõ contudo o nome de lateraes aos que nascem nos lados do tronco ou dos ramos, e os oppoem aos terminaes.
Unilateraes (unilaterales), se tem todos o seu ponto de apego em hum mesmo lado, seja qual for a sua direcçaõ: segundinos (secundi), quando estaõ todos inclinados para a mesma banda, ainda que o seu ponto de apego naõ seja exactamente no mesmo lado.
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).
Sobrefolheaceos (suprafoliacei, seu supini) Nota
O termo supinus usa-se taõbem em lugar de resupinatus.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.
2º Quanto á sua situaçaõ, dizem-se ser:
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas. Oppostos (oppositi), quando na mesma altura se acha hum defronte do outro.
Dispersos (sparsi), saõ raleados, copiosos, postos em distancias desiguaes nos lados do tronco ou ra mos, sem guardar ordem alguma.
Conglomerados (conglomerati), quando pertencem a huma panicula apertada; saõ dispostos sem ordem, mas approximados estreitamente (os amaranthos).
Conglobados (conglobati), quando formaõ huma especie de globo; as umbrellas da angelica e algumas flores capitozas tem pedunculos bem visivelmente conglobados. Alguns botanicos usaõ contudo deste termo em lugar de conglomerados.
Capitosos (capitati), se sostêm flores dispostas em cabeça, como os de alguns trevos.
Espigosos (spicati), se saõ dispostos em espiga.
Paniculados (panniculati), se saõ dispostos em panicula: thyrsosos (thyrsiflori), se saõ dispostos em thyrso.
Corymbosos (corymbosi), se saõ dispostos em corymbo.
[Página 99]Fasciculados ou copados (fasciculati, s. fastigiati), se saõ dispostos em fasciculo.
Racimosos (racemosi), se saõ dispostos em racimo.
Umbrellados (umbellati), se saõ dispostos em umbrella.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.
3º Quanto ao numero, o pedunculo diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se divide em rarissimos pedicellos; simplicissimo (simplicissimus) se he unifloro, naõ se dividindo em pedunculos alguns. Multifloro (multiflorus), se sostem muitas flores; unifloro, bifloro, trifloro, quadrifloro, &c se sostem huma, duas, tres, quatro flores, &c.
Composto ou ramoso (compositus, s. ramosus), quando se ramifica em muitos pedunculos parciaes.
Solitario (solitarius), se naõ tem outro ao seu lado no mesmo ponto de apego.
Dois a dois (gemini, geminati, bini), quando se achaõ dois no mesmo ponto de apego ou quasi ao lado hum de outro, e deste modo continuaõ nas mais partes do tronco ou ramos: neste mesmo sentido se dizem ser taõbem: tres a tres, quatro a quatro, &c. (terni, quaterni, &c.)
Numerosos (numerosi, multiplices), quando saõ em grande numero, ou sejaõ situados nas umbrellas e verticillos, ou ao longo dos ramos, receptaculos communs, &c.
4º Quanto a direcçaõ, dizem-se ser:
Encostados (appressi), quando em quasi todo o [Página 100] seu comprimento jazem encostados ao tronco ou ramos.
Levantados (erecti), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, estando muito pouco desviados delles.
Patentes (patentes), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto: horizontaes (horizontales), se formaõ hum angulo recto com o tronco ou ramos.
Coarctados (coarctati), quando se achaõ muitos juntos, approximados, e quasi parallelos.
Resupinados (resupinati), quando sostem flores, que tem corollas resupinadas.
Acenosos (cernui, nutantes), quando em razaõ da sua debilidade, e pezo da sua flor se survaõ na ponta virando esta ou para a terra ou para a ilharga (o gyrasol, o geum rivale, e carduus nutans).
Fracos (flaccidi), quando saõ taõ debeis que basta o pezo da sua flor para os fazer curvar ou ficar pendentes.
Pendentes ou verticaes (penduli, s. verticales), quando estaõ dependurados perpendicularmente para a terra (convallaria polygonatum).
Recurvados (recurvati), quando se elevaõ hum pouco, e depois se curvaõ para baxo.
Remontantes (ascendentes), saõ hum tanto arqueados perto da base, e depois se indireitaõ levantando a ponta para cima.
Irtos ou rectos (stricti), quando naõ tem tortuosidades nem curvatura alguma.
Tortuosos ou ondeados (flexuosi, s. undulati), [Página 101] quando tem tortuosidades ou dobras alternativas, á maneira de huma espada columbrina (aira flexuosa).
Requebrados (retrofracti), quando saõ quasi pendentes, e tem articulaçoẽs angulozas, parecendo como quebrados.
5º Quanto á sua medida relativa, saõ comparados com a flor, e se dizem: curtos, curtissimos, mediocres, compridos e compridissimos. Quanto à sua medida absoluta, veja-se pag. 25, art. 2º.
6º. Quanto á sua superficie e estructura, dizem-se:
Roliços (teretes), se saõ semelhantes na forma a hum rolo: trigumeos (triquetri), se tem tres gumes agudos: trigònos (trigoni), se tem tres gumes hum tanto embotados: quadrigumeos (quadriquetri), se tem quatro gumes afiados: tetragonos (tetragoni), se tem quatro gumes embotados.
Filiformes (filiformes), saõ delgados e de igual grossura, semelhantes a hum fio de linhas ordinario.
Adelgaçados (attenuati, s. acuminati), quando se adelgaçaõ, para a ponta.
Engrossados (incrassati), quando engrossaõ para a ponta ou junto do caliz da flor: se junto da flor engrossaõ á maneira de huma massa, dizem-se: aclavados (clavati).
Articulados (articulati), se tem huma junta ou ainda mais geniculados ou nodosos (geniculati), se as juntas saõ tumidas á maneira de nòs.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.
Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.
Nûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.
Alguns os denominaõ ainda: estereis (steriles); se sostem flores abortivas, que naõ daõ fructo: ferteis ou fecundos (fertiles), se estas daõ fructo.
A disposiçaõ das flores chamada por Linneo inflorescencia (inflorescencia), he o modo com que ellas saõ apegadas aos pedunculos ou a qualquer parte do tronco.
As flores em geral ou saõ rentes ou pedunculadas; as rentes (sessiles), saõ as que estaõ apegadas ao tronco ou a qualquer parte da planta, sem terem pedunculo algum; as pedunculadas (pedunculati), saõ estejadas em hum pedunculo.
A disposiçaõ das flores sendo analoga á dos pedunculos, conhece-se claramente que ellas devem [Página 103] participar de hum grande numero de denominaçoẽs em tudo semelhantes, como por ex. saõ as de terminaes, lateraes, unilateraes, segundinas, dispersas, solitarias, duas a duas, tres a tres, levantadas, patentes, horizontaes, verticaes, acenosas, &c. termos que ficão explicados no capitulo precedente. As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.
A flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c). Eu fallarei mais circumstanciadamente desta sorte de flores em outro lugar.
Aggregada Nota
Linneo estende o nome de flor aggregada ainda a muitas
outras, mas rigorosamente a flor aggregada he a sobredicta.
Espadicea ou enrocada (spadiceus), consta de muitos flosculos rentes ou pedunculados, nascidos de hum receptaculo commum oblongo, contido em huma espatha. Este receptaculo he chamado roca ou espadice (spadix); elle diz-se simplez (simplex) no pe de bezerro, em razaõ de se naõ ramificar, e ramoso [Página 104] (ramosus) nas palmeiras, por se dividir em alguns ramos.
Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan. O verticillo diz-se: rente (sessilis), se as flores que o formaõ naõ tem pedunculo; pedunculado (pedunculatus), se ellas saõ pedunculadas: involucrado (involucratus), se tem hum involucro: bracteado (bracteatus), se he acompanhado de alguma bractea: nu (nudas), se naõ tem involucro nem bractea alguma: basto (confertus), se os flosculos que o compoem estaõ, approximados densamente: raleado (distans), se os seus flosculos estaõ hum tanto distantes entre si: semicircular (dimidiatus), quando, os seus flosculos naõ formaõ á roda do tronco hum annel completo, mas somente metade delle.
Flor capitosa (capitatus), he a que representa huma especie de cabeça, ou que se acha conglomerada em cabeça (capitulum); esta consta de muitos flosculos densamente conchegados em huma forma mais ou menos globular. A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.
[Página 105]Flor espigosa (spicatus), consta de muitos flosculos dispostos em espiga. A
espiga (spica) he huma flor congregada, que consta de muitos flosculos
alternos rentes ou com curtissimos pedicellos levantados. Os seus flosculos
saõ apegados a hum receptaculo commum oblongo, chamado carolim ou carolo
(rachis), como se vê na tanchagem, cevada, trigo, milho, e muitos outros
grames. A flor casulosa (flos glumosus), he verdadeiramente huma especie de
flor espigosa propria das gramineas, e he assim denominado pela razaõ de ser
hum casulo o caliz commum ou particular dos seus flosculos. A espiga-diz se
ser: simplez (simplex), quando consta de flores solitarias, e o seu
receptaculo commum naõ se divide em pedunculos nem receptaculos menores, que
formem pequenas espigas, (a tanchagem). Composta (composita), quando o
receptaculo commum se divide e lança pequenas espiguettas (spiculae, s.
spicillae), como se vê no joyo. Conglomerada (glomerata), quando he composta
ou recomposta, e que as suas espiguettas estaõ muito apertadas e variamente
amontoadas (a alpista, e dactylis glomerata). Disticada (disticha), se os
seus flosculos ou espiguettas estaõ em dois renques oppostos (o bolebole).
Segundina (secunda), quando os seus flosculos estaõ apegados, e virados
todos para shuma so e mesma banda (nardus stricta). Ovada (ovata), se tem
huma figura ovada (o bolebole). Bojuda (ventricosa), se he tumida no meyo, e
estreita nas duas extremidades superior e inferior. Cylindrica (cylindrica),
se tem a forma roliça em todo o seu comprimento. Interrompida (interrupta),
quando o pedunculo commum ou receptaculo commum tem [Página 106] alternativamente alguns intervallos calvos de flosculos ou espiguettas (a
alfazema). Imbricada (imbricata), se os seus flosculos saõ imbricados
longitudinalmente Nota
Estes flosculos saõ ordinariamente segundinos ou unilateraes. Nota
As vezes o tronco naõ da mais do que huma so espiga e lhe chamaõ
por isso unispigado (monostachyus), quando porem produz muitas
espigas daõlhe o nome do multispigado (polystachyus).
Flor amentilhosa ou caudilhosa (flos amentaceus), consta de muitos flosculos dispostos em amentilho ou caudilho (amentum) o qual he huma particular especie de espiga simplez, que consta de flores rentes, [Página 107] ordinariamente unisexuaes, acompanhadas de escamas, e pegadas a hum carolim ou axe commum que lhes serve de receptaculo; taes saõ por ex. os que se observaõ na nogueira, ortiga romana, junça, tabûa, choupo, salgueiro, sabina, pinheiro, acypreste, castanheiro, aveleira, &c. Os amentilhos nascem ordinariamente de gomos e o seu carolim he filiforme; quando elles tem hum carolim grosso e escamas lenhosas, huma forma conica, e produzem somente flores femininas, daõ-lhes o nome de pinhas (coni, s. stobili), como no pinheiro e acypreste. O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.
Flor corymbosa (flos corymbosus), he diaposta em corymbo. O corymbo (corymbus), he huma disposiçaõ de flores aniveladas, os seus pedunculos tem differentes pontos de apego, elevaõ-se gradualmente quasi todos a mesma altura, formando angulos agudos entre si (a milfolha, achillea aggeratum, e chrysanthemum corymbosum). O corymbo he simplez (simplex), se os pedunculos naõ se dividem; composto (compositus), se elles se dividem em muitos outros menores.
Flores paniculadas (flores paniculati), saõ dispostas em panicula. A panicula (panicula), he huma ramificaçaõ vaga e dispersa, na qual os pedunculos [Página 108] communs, e parciaes saõ notavelmente mais compridos do que as flores e fructos (a caneira, o milho painço, e gypsophylla paniculata). A panicula diz-se: diffusa (diffusa), quando os seus pedunculos parciaes saõ esparralhados e divergem entre si; contrahida ou coarctada (coarctata), se os dictos pedunculos estaõ muito conchegados e quasi parallelos. Ella tem ainda muitas outras denominaçoõs, que se entendem facilmente e ficaõ ja explicadas principalmente no capitulo do tronco, e ramos.
Flores thyrsosas (flores thyrsosi, s. thyrsoidei), saõ dispostas em thyrso. O thyrso, ou ramilhete (thyrsus), he huma especie de panicula contrahida, de forma ovada e conica, que se assemelha muito bem aos nossos ramilhetes compridos (syringa vulgarìs, aesculus hippocastanum, tussilago petasites). O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.
Flores racimosas (flores racemosi), saõ disposta em racimo. O racimo ou cacho
(racemus), he huma disposiçaõ de flores com pedunculos curtos, penden tes, e
ordinariamente apegados a hum axe ou pedunculo commum (a videira, azereiro,
uva espim, sylva, groselheira, &c. O racimo diz-se ser: simplez
(simplex), se o ramo ou pedunculo commum sò tem pedunculos indivisos (o
azereiro, e phytolacca); composto (compositus), se os seus pedunculos,
parciaes saõ divididos (a videira, e sylva) Nota
Nos damos o nome de engaço a qualquer cacho depois de despojado
do seu fruto, e o de escadea a huma pequena porçaõ dos seus
pedunculos parciaes guarnecidos de frutos. Nota
O mesmo racimo pode ser levantado no tempo da
florecencia, e pendente no da frutescencia em razaõ do pezo dos seus
fructos como e vê v. g. no ribes petræum.
Flores fasciculadas (flores fasciculati), saõ dispostas em fasciculo. O fasciculo (fasciculus); he huma pilha de flores longas, levantadas, parallelas, approximadas, copadas ou elevadas á mesma altura, e de curtos pedunculos (dianthus barbatus, silene armeria).
[Página 110]Flores umbrelladas (flores umbellati), saõ dispostas em umbrella Nota
Fallo das flores umbrelladas em geral, e em toda a extensaõ do
termo; porquanto particularmente, as flores umbrelladas saõ as
das plantas que formaõ huma familia natural, que saõ dispostas
em umbrella, e tem huma coralla de cinco petalas, cinco estames,
o germe sottoposto á corolla, dois estyletes, e duas sementes
reunidas, como saõ as do coentro, e salsa. Nota
Os seus pedunculos saõ taõbem algumas vezes chamados rayos
(radii). Nota
Diz-se taõbem difforme, se nella se observaõ bolbos entre as
flores, como no allium pallasii.
Flores cymosas (flores cymosi), saõ dispostas em cymeira. A cymeira ou
umbrella bastarda (cyma, s. umbella spuria), he huma disposiçaõ de
flores, cujos pedunculos primarios nascem do mesmo centro, e depois se
ramificaõ irregularmente e sem ordem Nota
As ramificaçoẽs da cymeira, saõ quasi sempre dirigidas para à
banda do dicco, ou da parte interior.
A natureza segundo as leys, que lhe foraõ dadas, prezenta-nos todos os annos
nas flores hum extenso quadro summamente variado e agradavel. Se
exceptuamos os polos sempre gelados, os seus proximos [Página 113] climas, e os profundos mares Nota
No fundo do mar naõ ha planta
alguma perfeita, e só se achaõ algumas especies de fucus, e ulva que
saõ do numero dos mais imperfeitos vegetaes, que se
conhecem.Nota
Vej. Lin. Phil. Bot. art. 335.Nota
Horologium Florae.Nota
Vigiliæ
florum.
Daqui procedeo a origem de hum certo numero [Página 114] de termos, que se achaõ em suas obras dados ás flores, e igualmente às plantas, a que saõ relativas, os quaes se podem reduzir principalmente aos seguintes.
Flores de inverno (flores hybernales, s. brumales), saõ as que desabotoaõ ordinariamente durante o inverno. Algumas plantas cryptogamicas, e a rosa, de todos os mezes saõ deste numero, algumas dos paizes meridionaes da America, e Africa transplantadas na Europa taõbem florecem durante o inverno nas estufas.
Flores da primavera (vernales, s. verni), saõ as que desabotoaõ nos mezes desta estaçaõ; taes saõ por ex. as dos salgueiros, quejadilho, amendoeira, pereira, damasqueiro, narcizo, &c. As plantas, exoticas dos climas frios, e das montanhas transplantadas em nossos pardins ordinariamente taõbem florecem na primavera.
Flores do estio ou veraõ (aestivales, s. aestivi), saõ as que desabotoaõ durante o veraõ, como saõ por ex. as da althéa, malva, feijoeiro, saudade, milfolha, meloeiro, &c.
Flores do outono (autumnales), saõ as que desabotoaõ durante o outono, como v. g. o colchico. As plantas da America septemptrional, principalmente as que saõ vivazes transplantadas em nossos jardins taõbem florecem nesta estaçaõ.
As vigilias ou tempo de vela das flores contem o espaço que medea entre o seu
abrimento e a reclusaõ, quer seja durante o dia, quer de noyte; pelo
contrario o somno das flores (somnus florum), he o espaço que medea desde a
sua reclusaõ athe ao seu abrimento. O abrimento de huma flor (apertio
floris), [Página 115] he o ponto de tempo em que ella se abre Nota
Este termo tem huma significaçaõ mais extensa do que o de
desabotoamento (exgemmatio floris), porquanto todo o
desabotoamento he abrimento, mas nem todo o abrimento de huma
flor he desabotoamento; a primeira vez que huma flor abre do seu
botaõ, diz-se desabotoar ou ter desabotoamento, mas na segunda
vez, no segundo dias e mais vezes diz-se ter abrimento e naõ
desabotoamento.
Quanto ao tempo de vela ou de somno, as flores saõ denominadas diurnas ou
golares (diurni, s. solares) Nota
Alguns Botanicos comprehendem taõbem debaxo do termo solares as
flores nocturnas.
Flores meteoricas (meteorici), saõ as que naõ tem hora determinada de abrir-se, e de se fechar, porquanto o abrimento e reclusaõ saõ desordenados em razaõ da sombra, humidade, seccura, e maior ou menor pressaõ da atmosphera; o martyrio por ex que costuma abrir-se ao meyo dia em tempo claro, naõ se abre senaõ às tres horas quando o ceo està espessamente nublado.
Flores tropicas (tropici), saõ as que se abrem todos os dias constantemente de manhaan, e se fechaõ quasi [Página 116] ao sol posto, mas o tempo de vela he maior, ou menor á proporçaõ que os dias augmentaõ ou diminuem.
Flores equinoxiaes (aequinoctiales), saõ as que se abrem todos os dias em huma hora certa e determinada, e se fechaõ taõbem em huma hora certa, de modo que o seu tempo de vela he todos os dias igual ou quasi igual.
[Página 117]ASSIM como todos os animaes tendem naturalmente à sua reproducçaõ, da mesma sorte
os vegetaes á proporçaõ que crescem se encaminhaõ ao estado de fructificaçaõ, e
tanto que fructificaraõ, ou perecem dentro de breve tempo ou cessaõ de crescer
no lugar que deraõ o fructo, sendo-lhes precisos novos gomos para poderem
lateralmente prolongar-se. Donde se collige que a fructificaçaõ (fructificatio)
he huma parte transitoria em que termina o vegetal dentro de hum certo periodo
de tempo, destinada a dar principio a novos entes da sua espécie. Ella
consiste essensialmente na flor e fructo: a flor he hum a parte da
fructificaçaõ, que no seu estado completo e perfeito consta de organos
sexuaes envoltos em tegumentos; a sua essensia consiste em ter anthera ou estigma Nota
Em razaõ de comprehender ainda as flores cryptogamicas geralmente se
poderia melhor dizer: consiste em ter anthera , ou estigma, ou hum principio de semente .
O CALYZ e corolla saõ os tegumentos dos organos sexuaes, ou para me explicar segundo o modo de alguns sexualistas, o calyz he o thalamo nupcial das flores, e a corolla a rica armaçaõ delle. Cesalpino pensava que o calyz era hum prolongamento da casca e a corlla huma prodcçaõ do livrilho ou alburno.
As flores nem sempre saõ acompanhadas destes tegumentos; quando huma flor
tem calyz e corolla hé chamada completa (flos completus) e incompleta
(incompletus) se lhe falta algum dos dictos Nota
Alguns daõ taõbem o nome de perfeita (perfectus) á completa e o
de imperfeita (imperfectus) á incompleta; porem o melhor sera
reservar o nome de flor imperfeita para as cryptogamicas, e o de
perfeita para as das outras classes.
A natureza naõ poz limites certos entre o calyz e corolla, e daqui procede
que os Botanicos tem differentes opinioes relativamente á denominaçaõ destes
tegumentos; huns querem que o tegumento immediato aos organos sexuaes deva
ser chamado corolla em todas as circumstancias, e por conseguinte todas as
vezes que a flor tem hum so tegumento [Página 119] daõ-lhe o nome de corolla; outros seguem em parte este parecer, e em
parte a cor, á qual daõ a preferencia. Linneo vendo que algumas corollas
se tornaõ verdes, e alguns calyces saõ bastantemente corados,
estabeleceo a differença entre o calyz, e corolla na posiçaõ dos
estames, dizendo que estes nas flores descalycinas e muitas completas
saõ alternos com as petalas ou lacinias da corolla ficando situados
entre as suas aberturas, que nas descorolladas pelo contrario saõ
fronteiros aos foliolos ou segmentos do calyz, ficando encostados ou
postos defronte delles, como se pode observar no cardo penteador,
cerejeira brava, coentro, sabugueiro, consolda maior, alchemilla,
potamogeton, e muitas outras plantas das classes Terandria e Pentrandria Nota
Sem embargo destas condiçoẽs naõ deixa as vezes de haver
difficuldade na decisaõ do nome destes tegumentos, e Linneo o dà
a entender quando diz: calyz a naõ chamar-lhe corolla; corolla a
naõ charmar lhe calyz; corolla calycina; calyz acorollado: cujos
exemplos se vem no loireiro, garidella, commelina, monotropa,
tetragonia, &c.
O CALYZ (calyx), no maior numero de flores heo tegumento externo dos organos sexuaes, de cor verde ou menos corado do que a corolla (o jasmim, cravo, e goivo). Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.
Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva. Antigamente so o primeiro tinha o nome de calyz, e com effeito os mais mereciaõ antes ser chamados calyces bastardos (calyces spurii).
O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.) O perianthio pode ser taõbem contiguo a outro (como na malva), a huma corolla ou a muitas, como no gyrasol; quando elle recobre muitos flosculos, estes ou saõ rentes ou quasi rentes, Nas flores casulosas e amentilhosas o calyz ordinariamente naõ he circular; a estructura escamosa, paleacea e outras circumstancias relativas à sua forma poderaõ contribuir a destinguilo do perianthio. Os foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas . Nas flores compostas os foliolos saõ ordinariamente chamados escamas (squamae), principalmente se saõ imbricados, como nas perpetuas. Se na flor naõ ha perianthio, como na tulipa e açucena, daõ lhe o nome de nullo (nullum).
Diz-se: perianthio da fructificaçaõ (perianthium fructificationis), quando
contem ou enserra os estames e o germe; nesta circumstancia sempre esta
immediatamente sottoposto ao germe (a sylva, peonia, morangueiro, masva,
jasmineiro craveiro, faveira, &e.) Perianthio da flor (perianthium
floris), se em si contem os estames sem germe Nota
Este calyz tem o seu ponto de apego sobre o germe ou fructo
tenrinho, no cazo que o haja; os calyces das flores masculas
aindaque naõ saõ apegados ao topo do germe (porque o naõ ha),
devem contudo ser considerados como perianthios da flor, por
conterem estames e naõ germe algum, como saõ os da amoreira,
mercurial, amaranthos, &c. Nota
O calyz neste cazo esta sottoposto ao germe; às vezes ha huma
corolla sobreposta ou outro calyz sobreposto ao germe, o que naõ
tem lugar no cazo do perianthio da fructificaçaõ, em que o germe
naõ fica situado immediatamente debaxo da corolla, nem entre o
calyz e corolla, como succede no prezente; no perianthio da
fructificaçaõ os estames naõ estaõ apegados ao germe, mas sim ao
receptaculo que Sostem a base do germe, ou ao dicto perianthio,
ou a huma corolla ou nectario que naõ tem o ponto de apego no
germe. Ha flores que tem o periantio do fructo diverso do da flor como a
Linnæa e Morina, ha outras que tem perianthio do fructo e naõ da
flor, como as femininas da aveleira, poterium, &c, outras
tem perianthio da flor e naõ do fructo, como a murta, romeira,
pereira, sorveira, &c, ha outras emfim que naõ tem
perianthio algum, aindaque tenhaõ hum receptaculo da flor, como
v.g. a hippuris, orchideas, valeriana, aristolochia, &c. Vej. Linn. Meth, Calyc.
Perianthio superior ou sobreposto (superum), he o que se acha posto sobre o germe ou tenrinho fructo, como o da romeira, pereira, e outros muitos perianthios da flor.
Perianthio inferior ou sottoposto (inferum), he o que cinge a base do germe ou tenrinho fructo, como saõ os perianthios da fructificaçaõ e do fructo.
Commum (commune) Nota
As vezes das lhe taõbem o nome de composto ou universal
(compositum, s. universale). Segundo Linneo este calyz pode ser dobrado como se vê no
micropus.
Parcial ou particular (proprium, S. partiale), he [Página 122] relativo a hum flosculo contido em hum perianthio, commum, ou a
qualquer flosculo congregado, rente ou quasi rente (a saudade, e
gyrasol) Nota
Ordinariamente este termo so se applica aos calyculos das
flores compostas e aggregadas. O perianthio parcial pode segundo
Linneo conter mais de huma flor, como se vẽ no sphaerantus, e
elephanthopus.
Calyculado (auctum, s. calyculatum), quando tem na sua base huma serie de
escamas ou foliolos curtos, differentes delle, e que constituem quasi
hum segundo calyz menor ou calyculo (calyculus) Nota
Da-se taõbem o
nome de calyculos a alguns perianthios parciaes, como aos da
saudade, pela razaõ de serem pequenos ou menores do que o
commum.
Unico (unicum), quando a flor tem hum so, como v. g. o alecrim: simplez (simplex) he unico, naõ calyculado, nem dobrado nem triplicado (sida). Este termo parece ser synonymo do precedente; Linneo contudo deo-lhe mais extensa significaçaõ, e o applicou ainda para denotar hum calyz quasi inteiro, de foliolos naõ imbricados, quasi do mesmo comprimento, ou adunados na base, como o da tagetes, bellis, e o calyz interior da crepis.
Dobrado ou triplicado (duplex, geminum, triplex), quando Nota
Estes
calyces saõ ordinariamente differentes no numero, e forma de suas
partes; encontraõ se tanto nas flores simplez, como nas compostas e
aggregadas; as vezes estaõ dois approximados, ou apegados hum ao
outro debaxo do germe, ou no topo outras vezes saõ remotos, estando
hum na base outro no topo do germe, outras vezes emfim hum commum na
base, e dois no topo do germe, como se podem observar na malva,
althaea, craniolaria, morina, linnaea, scabiosa, caryophyllus,
&c.
Caduco (caducum), se cahe logo que a flor desabotoa, como o da papoila, e epimedium.
Decadente ou simulcadente (deciduum), se cahe juntamente com a corolla, como o da uva espim, mostarda, e outras flores da Tetradynamia.
Persistente (persistens) se persiste athe à madureza do fructo, como o da salva, alecrim, e outras flores da Didynamia.
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitas escamas ou foliolos destinetos na base (a alface). Monophyllo (monophyllum), quando he de huma so peça ou inteiriço na base, ainda que seja partido ou fendido (a salva, romeira, pereira, pimentaõ, &c.); de dois foliolos (diphyllum) na papoila, celidonia e fumaria; de tres foliolos (triphyllum), na tradescantia e ranunculus ficaria; de quatro foliolos (tetraphylhum) na couve, e goiveiro; de cinco (pentaphyllum), no linho; elle diz-se ser ainda de seis, sette, oito, nove, dez foliolos, &c. (hexa- hepta- octo- ennea- decaphyllum, &c.)
Fendido (fissum), se he monophyllo, e rasgado athe ao meyo pouco mais ou menos, e as sinuosi dades entre os segmentos saõ lineares ou de igual largura; segundo o numero das lacinas diz-se ser: multifendido (multifidum), fendido em duas, tres, quatro, cinco lacinias, &c. (bi-tri-quadri-quinquefidum, &c.); se as lacinias saõ curtas ou marginaes, daõ-lhes. o nome de dentes, e se diz por conseguinte denteado (dentatum s. ferratum); segundo o numero destas curtas lacinias diz-se ser: denteado de muitos dentes (multidentatum), de dois, tres, quatro, cinco dentes, &c. (bi-tri-quadri-quinquedentatum, &c.)
[Página 124]Partido (partitum), he monophyllo e dividido athe abaxo do meyo ou quasi athe à base; segundo o numero das lacinias diz-se ser; multipartido (multipartitum), bipartido (bipartitum), tripartido (tripartitum), quadripartido (quadripartitum), partido em cinco, seis lacinias, &c. (quinque-sexpartitum, &c.)
Inteiro (integrum), he monophyllo sem ser fendido, nem partido em lacinias algumas.
Celheado (ciliatum), se os seus foliolos ou lacinias saõ celheadas Nota
As celhas rigorosamente saõ os pelos ou sedas que se achaõ no
fio marginal; mas aqui os botanicos comprehendem taõbem o
disco.
Tubuloso (tubulosum), se he roliço e occo (a neveda e hortelaan).
Infunado (inflatum), quando he concavo, e parece soprado como huma bexiga (a herva traqueira).
Levantado (erectum), se os seus foliolos ou lacinias saõ levantadas (jasmim).
Patente (patens), quando as suas lacinias ou foliolos saõ abertos largamente, ou formaõ com o pedunculo hum angulo obtuso pouco desviado do angulo recto.
Reflexo (reflexum), quando a extremidade dos seus foliolos ou lacinias se curvaõ hum tanto para traz, ou para baxo.
Igual (aequale), quando os seus foliolos, lacinias ou dentes saõ iguaes: desigual (inaequale); se elles saõ desiguaes (cistus).
Curto (abbreviatum), se he mais curto do que a corolla, ou do que o seu tubo, ou unhas das petalas: comprido (longum), se he mais comprido do que ella.
[Página 125]Globoso (globosum), se tem a forma globosa (a perpetua e bardana); aclavado (clavatum), quando se prolonga engrossando pouco a pouco, e reprezenta a forma de huma massa (silene).
Troncado (truncatum), se ne sua parte superior parece como decotado: obtuso (obtusum), se os seus foliosos ou segmentos saõ obtusos; agudo (acutum), se elles saõ agudos; as vezes diz-se taõbem agudo ou obtuso na base.
Espinhoso (spinosum), se tem espinhos (a calcitrapa, e cardo sancto); aculeado (aculeatum), se tem aculeos (a bringela).
Imbricado (imbricatum), se consta de foliolos ou escamas imbricadas (o gyrasol, milfolha, e alface).
Esquarroso (sguarrosum), se tem foliolos ou escamas imbricadas, desviadas, e abertas entre si principalmente nas pontas (conyza squarrosa)
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).
Turbinado (turbinatum), se he verticalmente conico tendo a forma de hum piaõ bailando (moluccella)
Involucro (involucrum), he huma especie de calyz remoto da flor Nota
He
hum calyz bastardo, proprio naõ so das flores umbrelladas mas de
muitas outras; naõ se rasga ao alto como as espathas, e o estar mais
ou menos distante da flor contribue a fazelo distinguir das outras
especies de calyz; ordinariamente parece ser hum composto de
bracteas.
Diz-se ser; universal (universale), se esta situado na, base dos rayos de huma umbrella univeroal (a cenoira, bisnaga, e cardo, corredor): parcial (partiale), [Página 126] quando acompanha a base dos rayos de huma umbrella parcial (salsa, coentro, cerofolho); chamaõ-lhe: involucello (involucellum), ou pequeno involucro parcial, se tem poucos foliolos curtos, como nas euphorbias e buplevrum; proprio (proprium), se acompanha o pedunculo da flor de huma umbrella parcial, ou ainda o de huma so flor, como na pulsatilla.
Semicircular (dimidiatum), se acompanha somente metade do topo do pedunculo que sostem a umbrella, faltando na outra metade (o coentro, e aethusa).
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitos foliolos, como na canafrecha, e peucedarium; momophyllo (monophyllum), se consta de hum so foliolo, he inteiriço na base, e acompanha o pedunculo circularmente (a pulsatilla); de dois, tres, quatro, cinco, seis foliolos, &c. (di-tri-tetra-penta-hexaphyllum, etc.) como se ve nas euphorbias e umbrelladas.
Casulo (gluma), he huma especie de calyz Nota
O nome de casûlo he taõbem
dado a corolla das gramas; mas aqui so se deve entender o casulo
externo, porque do interno fallarei quando tractar da corolla.
Alguns para os distinguir chamaõ-lhes casulo calycino, casulo
corollino; talvez melhor fora dar somente ao calyz o nome de
casulo.
As escamas ou folhiços paleaceos, de que consta o casûlo, saõ chamados
valvulas (valvulae, s. valvae); ellas saõ de varia forma e estructura,
planas, concavas, aquilhadas, assoveladas, iguaes, desiguaes, &c. O
casûlo, em razaõ do numero das valvulas de que he composto, diz-se ser:
univalve (alvis), se [Página 127] consta de huma so (o joyo); bivalve,(bivalvis), se consta de duas (o
trigo e milho): trivalve (trivalvis), se consta de tres (o escalracho,
milhaan, e milho painço); multivalve (multivalvis), se consta, de muitas
valvulas ou mais de trez (a uniola, as maçarocas de milho Nota
Linneo chama folhas ás
valvulas destas maçarocas, mas a sua estructura, e modo de
envolver as fores me fazem decidir a consideralas como hum
casulo commum multivalve.
Unifloro (uniflora), se inclue somente hum flosculo como o milho painço, a alpista, e milho ordinario: biflora (biflora), se contem duas flores (a avea, e aira) trifloro (triflora), se contem tres flores (algumas especies de trago) multifloro (multiflora), se contem muitos flosculos, ou mais de tres (o joyo, e bolebole).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).
Glabro (glabra), se naõ tem pelos, nem celhas, nem sedas algumas: peludo, lanudo, felpudo, celheado e hispido, se as suas valvulas constaõ de producçoẽs proprias a merecer estas denominaçoẽs (vej. o § Do trichismo e hispidez).
Aristado (aristata), se as suas valvulas tem praganas (o trigo tremez): desaristado (mutica), se ellas saõ destituidas, de praganas (o escalracho, e milho).
A pragana (arista), he hum fio mais ou menos comprido, hum tanto rijo, e apegado a alguma das valvulas do casulo calycino ou corollino das gramas. Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).
Amentilho (amentum), segundo Linneo he hum calyz formado do receptaculo
commum ou carolim filiforme, guarnecido de escamas paleaceas, e originario
de hum gomo. Eu ja fallei do amentilho como huma especie de espiga Nota
O amentilho rigorosamente he huma especie de espiga simplez,
que consta de flores unisexuaes; o nome de calyz sò pode competir às
suas escamas, mas algumas vezes o amentilho he nu e sem escamas, e
neste cazo seremos obrigados a chamar calyz a hum receptaculo, o que
me parece assaz improprio, a naõ querer chamar amentilho somente às
escamas do gomo.
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).
He univalve ou monophylla (univalvis, s. monophylla), quando consta de huma so peça que se raaga de ilharga (o narcizo, e pe de bezerro): bivalve ou diphylla (bivalvis, s. diphylla), quando he rasgada em duas partes ou em dois foliolos (as palmeiras): Mediada (dimidiata), se he monophylla, aberta e concava, como a metade de hum ovo cortado ao [Página 129] alto, e guarnece a fructificaçaõ somente com a parte inferior: imbricada (imbricata), como nas bananeiras.
Trunfa (calyptra), he huma especie de calyz membranoso ,
acapellado, posto immediatamente sobre a fructificaçaõ dos musgos
chamada anthera, urna, ou capsula (o polytrichum, e bryum) Nota
Hedwigio e alguns outros Botanicos, que seguem que a corolla he o
tegumento immediato dos organos sexuaes, consideraõ a trunfa dos
musgos como huma corolla, e so daõ o nome de calyz ao
perichecio.
Volva (volva), he huma membrana que cobre os cogumelos e algumas outras plantas da familia dos fungos, susceptivel de ser lacerada. Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo. A volva incompleta he a que somente cobre parte do individuo; daõ-lhe taõbem o nome de veo (velum); observa-se na face superior e inferior do umbraculo dos cogumelos, e continua athe ao espique, ao qual humas vezes se afferra, outras vezes somente se encosta sem contudo se apegar a elle. Quando depois de rota fica rodeando o espique em forma de calça, daõ-lhe o nome [Página 130] de annel (annulus), como se ve no agaricus campestris). A volva incompleta e o annel parecem merecer mais propriamente o nome de casyz do que a completa, que tem ordinariamente huma grande analogia com as cascas das sementes.
A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe. O annel diz-se; remoto (remotus se fica distante do umbraculo no tempo que este abrio; approximado (approximatus), se no dicto tempo jaz conchegado ao umbrgeulo; caduco (caducas) se cahe logo que a volva incompleta se rompe; persistente (persistens), quando rota a volva persiste aferrado ao espique. Elle se diz ainda; amarello, alvadio, &c. segundo as suas differentes cores.
A corolla (corolla), he hum tegumento dos organos sexuaes da flor immediatamente contiguo a elles, e de ordinario mais corado e mais delicado [Página 131] do que o calyz; tal he por ex. a do jasmim, açucena, rosa, cravo, &c.
Quando a flor naõ tem corolla diz,se despetaleada ou descorollada, como já expuz, e nesta circumstancia a corolla he denominada nulla (nulla); como v. g. nas flores femininas dos carvalhos e aveleiras.
1º Quanto à divisaõ:
A corolla ou he de huma so pera e inteiriça na base, ou consta de duas ou
mais peças assaz destinctas na base; no primeiro cazo dizse: monopétala
(monopetala), e no pegundo petaleada ou polypétala (polypetala) Nota
Este
termo da-se taõbem ás corollas, que tem hum grande numero de petalas,
como as do golfaõ, cactus, &c.
Na corolla monopetala em geral podem se considerar duas partes, a superior chamada orla (limbus) e a inferior, pela qual ella se apega, denominada base (basis); esta parte inferior muitas vezes he cylindrica, e nesta circumstancia daõ-lhe o nome de tubo (tubus), como se vè no alecrim, jasmineiro e colchico. A orla humas vezes he inteira, outras vezes he fendida ou partida, e neste segundo cazo os segmentos saõ chamados lacinias (laciniae), como no jasmim, congossa, borragem, &c.
As peças ou foliolos còrados de que consta a corolla petaleada saõ chamados petalas (petala); em cada huma destas pode se em geral suppor duas partes, a superior larga, aberta e dilatada tem o nome de lamina (lamina), e a inferior estreita, e aguda [Página 132] na extremidade he chamada unha da petala (unguis) como saõ as que se vem nas petalas do cravo, goivo, &c.; as vezes a unha da petala he curtissima como nas rozas e rainunculos; outras vezes observa-selhes huma base larga, que mal merece o nome de unha, e porisso alguns lhes chamaõ petalas rentes (sessilia).
A corolla petaleada, segundo o numero das suas petalas, diz-se ser: de duas, trez, quatro, cinco, seis, sette, oito, nove, dez, ou muitas petalas (di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- octo- ennea- deca- polypetala.)
Na familia das gramineas a corolla, ou casulo corollino em lugar de petalas diz se ter valvulas (valvulae), que saõ certas escamas paleaceas, concavas, approximadas immediatamente ao germe, como se ve no trigo, e centeyo. Ordinariamente saõ duas, e as vezes persistem e ficaõ servindo de casca à semente, como se vè na cevada.
Fendida (fissa), quando he rasgada em lacinias athe ao meyo ou menos (o
quejadilho) Nota
Se he monopetala; na petaleada as petalas podem se
dizer fendidas ou partidas na mesma accepçaõ, que tem estes termos
relativamente as corollas monopetalas.
Partida (partita), quando he rasgada em lacinias athe abaxo do meyo ou quasi athe à base (a semprenoiva, e borragem); diz-se partida em muitas lacinias (multipartita), bipartida, tripartida, quadripartida, &c. (bi-tri-quadripartita, &c.).
[Página 133]2º. Quanto à direcaõ diz-se ser:
Levantada (erecta), quando tem as suas petalas, valvulas, ou lacinias levantadas, isto he, formando hum angulo agudissimo com o estylete supposto prosongado rectamente (o colchico, e cevada.)
Patente (patens), se as suas petalas, valvulas, ou lacinias formaõ hum angulo quasi recto com o estylete supposto prolongado no centro rectamente (a papoila); patentissima (patentissima), se ellas formaõ hum angulo recto com o estylete.
Plana (plana), quando as suas petalas ou lacinìas saõ planas, e nella naõ
ha tubo Nota
Quando ha tubo, este termo e o de patente devem ser applicados á
orla ou suas lacinias.
Concava (concava), quando tem a sua orla concava.
Recurvada (reflexa, recurva), as suas petalas ou lacinias tem a ponta curvada para traz ou para fora (o espargo); revolutosa (revoluta), he hum grao de mais, tem as petalas ou lacinias recurvadas, e quasi enroladas (algumas especies de lilium).
Incurvada (incurva, s. inflexa), as suas petalas ou lacinias tem as pontas curvadas para dentro, isto he, para a banda do centro da flor (o funcho).
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)
[Página 134]3º Quanto ao ponto de apego.
A corolla ou he apegada ao calyz (calyci inserta), como na roseira e romeira, ou ao receptaculo (recentaculo inserta), como na papoila, cravo e rainunculo.
Sottoposta ou inferior (infera), quando se acha posta debaxo do germe, como na açucena, e cebola: sobreposta ou superior (supera), se esta apegada á parte superior do germe, como no narcizo.
Innata ao calyz (calyci adnata), se està pela sua face inferior intimamente adunada ao calya (a abobara, pepino, e outras cucurbitaceas.)
4º. Quanto à superficie, e margem diz-se ser:
Lanuda (lanata), se tem lanugem (hyacinthus lanatus).
Felpuda (villosa), se tem felpa (menyanthes).
Barbuda ou hirsurta (barbata, s. hirsurta), como no, hypericum bacciferum.
Celheada (ciliata), na arruda, e chagueira.
Glabra (glabra), se naõ tem pelos alguns (narcizo).
Denticulada de dois, tres, quatro, cinco dentes, (bi-tri-quadri-quinquedentata), como saõ as corollulas das flores compostas, v. g. as da alface, bonina, macella, gyrasol, &c.
Crenada ou crenulada (crenata, s crenulata), se tem na margem crenas ou crenulas Nota
As crenas da corolla saõ
segundo a accepçaõ ordinaria as suas chanfraduras obtusas entre
as lacinulas marginaes; mas por evitar equivocaçoẽs he melhor
seguir o parecer de M. de la Mark, e de outros modernos que as
tomaõ por lacinias marginaes embotadas, para as destinguir dos
denticulos que saõ agudos.
4º Quanto à proporçaõ entre as suas partes, diz-se ser:
Igual (aequalis), quando as petalas, ou lacinias (se he monopetala), saõ todas de igual grandeza e tem todas a mesma figura, como saõ as cruciformes, roseira, pereira, jasmineiro, borragem, quepadilho, consolda maior, &c.
Desigual (inaequalis), quando as suas petalas ou lacinias (se he monopetala) tem todas a mesma figura, mas differem na grandeza, ou comprimento (o butomus, o epilobium angustifolium, e latifolium, e as corollas que se achaõ no rayo da umbrella do coentro.)
Regular (regularis), no sentido em que este termo se toma ordinariamente,
huma corolla regular he a mesma coiza que huma corolla igual Nota
Podéra-se contudo fazer huma distinçaõ entre a regular, e
igual, dizendo que na corolla regular as petalas ou lacinias tem
todas a mesma figura, quer sejaõ iguaes na grandeza quer desiguaes,
e deste modo huma corolla poderia ter petalas ou lacinias desiguaes,
e nem porisso deixar de ser regular, como o butomus, e epilobium
latifolium; todas as corollas iguaes seriaõ regulares mais nem todas
as regulares seriaõ iguaes; Alguns Botanicos admittem so duas sortes
de corollas, regulares e irregulares: elle suppoem hum axe ou arame
recto posto no centro, e prolongado desde a base ou apego da corolla
athe a extremidade das petalas, lacinias ou orla; se todos os cortes
transversaes, que se poderem fazer desde a base athe ao topo de
dicto axe, derem circularmente segmentos iguaes no comprimento ou se
a orla da corolla monopetala naõ for dimidiada nem claudicar de hum
lado, a corolla he regular e Irregular no sentido contrario;
partindo desta supposiçaõ poem no numero das corollas regulares a
afunilada, asalveada, cyathiforme campanulada, globosa, oval,
arrosetada, cravinosa, cruciforme, rosacea, e malvacea, e entre as
irregulares a labiada, borboleta, a das orchideas, as que tem
nectarios esporaûdos e acapellados, e as do Acanthus, Teucrium,
Ajuga, Echium, Aristolochia, &c.
Irregular (irregularis), se as suas petalas, labios, ou lacinias saõ de differente forma e juntamente de diversa grandeza (o geranium papilionaceum, o amor perfeito, aconito, salva, orchideas, labiadas, e leguminosas.
A corolla he taõbem comparada com o calyz, e na falta deste com o pistillo ou estames, e se diz ser: curta, mediocre, comprida, pequena, grande, &c; mas por evitar equivocaçoẽs, o melhor será declarar sempre as partes comparadas, e dizer v. g.: corolla mais comprida do que o calyz, igual ao calyz, mais curta do que o calyz, mais comprida do que os estames, &c.
5º. Quanto à forma a corolla diz-se ser:
Rodada ou arosettada (rotata), figura quasi huma roda ou rosetta de espora; he monopetala, sem tubo notavel, partida em lacinias planas, e muito abertas (a borragem, morriaõ, e verbasco).
Campanulada ou acampainhada (campanulata, seu campaniformis) he petaleada ou monopetala, bojuda, sem tubo, e assemelhada a huma campainha [Página 137] ou choca (a tulipa, verdeselha, campanula, e abobara.)
Afunilada (infundibuliformis), assemelha-se a hum funil; a sua orla tem huma forma turbinada, e termina em hum tubo (a ipomaea, a mirabilis, e herva sancta.)
Cyathiforme (cyathiformis), parece assemelharse a hum copo de calyz; tem hum tubo cylindrico, a orla concava e hum tanto dilatada; taes saõ segundo alguns Botanicos as corollas da buglossa, cerinthe consolda maior, cynoglossa, quejadilho, pulmonaria, &c; mas Linneo reduz estas sortes de corollas ào afuniladas, e às vezes às campanuladas.
Asalveada (hypocrateriformis), assemelha-se de algum modo às nossas antigas salvas de prata; he monopetala, tem hum tubo cylindrico, e a orla plana e muito aberta (o jasmim, e congossa).
Labiada (ringens,
rictiformis, labiata), he monopetala tubulosa, e tem a orla dividida em
dois labios Nota
As vezes tem hum sò labio, como no Acanthus, Teucrium
e Ajuga, e nesta circumstancia he chamada unilabiada
(unilabiata.)Nota
A fauce ou garganta da
corolla he taõbem propria do qualquer corolla tubulosa, ou he o
orificio de hum tubo mais ou menos longo. As vezes diz se ser:
aberta (nuda, aperta, pervia), se naõ tem escamas nem pelos (como na
pulmonaria); fechada (clausa, s. tecta), se he tapada com pelos ou
escamas (como na buglossa, e cynoglossa): coroada (coronata), se tem
alguns rayos, denticulos, ou corpusculos (como na borragem, e
symphytum.)Nota
O collo he proprio taõbem de muitas outras corollas, que naõ saõ labiadas ,
como por ex. da do quejadilho, congossa, &c. Nota
O palato parece sò ser
proprio das corollas mascarinas.Nota
O esporaõ acha se taõbem em outras especies de corollas
como se vè nas esporas, e ainda mesmo no calyz, como nas chagas:
algumas corollas em lugar de esporaõ tem huma especie de capello ou
sacco (cucullus, s. saccus), como a impatiens, e alguns generos das
orchideas.
Rosacea (rosacea), tem cinco petalas regulares concavas, com unhas curtissimas apegadas ao calyz (as roseiras bravas, pereira, e sylva).
Malvacea (malvacea), tem cinco petalas cordiformes com as unhas adunadas (a malva, althea, & outras malvaceas.)
Liliacea (liliacea), tem seis petalas regulares, como a tulipa, açucena, coroa imperial, e outras plantas liliaceas.
Cravinosa (carvophillata), tem cinco petalas regulares, unguiculadas, e as vezes apegadas junto da base (as cravinas, murujem, herva traqueira, &c.) O germe nas flores que tem esta corolla vem a ser huma capsula.
Cruciforme (cruciata, s. cruciformis), tem quatro petalas regulares, unguiculadas, com as laminas patentes, e dispostas em cruz (a couve, goiveiro, e nabo).
Papilionacea ou borboleta (papilionacea), foy assim chamada pela compararem a
huma borboleta voando, he irregular, e consta de quatro petalas
unguiculadas, a superior he chamada estendarte (vexillum e està mais ou
menos levantada, estendida, e encostada anteriormente às outras tres Nota
He raro que huma corolla borboleta tenha mais, ou menos de quatro
petalas; contudo na amorpha aeha,se somente o estendarde e na olaya a
navetta he de duas petalas, o que he rarissimo, porque quando muito em
outras leguminosas so he bifendida ou bipartida.
Gomilosa (urceolata), tem a forma oval ou quasi oval, de modo que se assemelha quasi a huma jarra ou gomil; he bojuda no meyo, e se estreita depois na parte superior e inferior (a basella, e hyacinthus muscari).
Globosa (globosa), tem huma forma quasi espherica (o lirio dos valles, e a escrophularia).
6º. Quanto à composiçaõ diz-se ser:
Simplez (simplea), se pertence a huma flor simplez. A flor simplez (flos simplex), he rigorosamente a que dentro de hum calyz naõ contem muitos flos culos (o meimendro, a salva, e o jasmim). Os floristas chamaõ flor simplez ou singella à que tem sò huma ordem de petalas, e a oppoem à dobrada e polypetala, mas os Botanicos so chamaõ flor simplez aquella, cujo calyz, corolla ou receptaculo naõ saõ communs a muitos flosculos, e Linneo a oppoem à flor composta, aggregada, umbrellada, cymosa, amentilhosa, casulosa, e espadicea.
Corolla composta (composita), he a totalidade das corolullas de muitos
flosculos contidos dentro, de hum perianthio commum, rentes, e com antheras adunadas Nota
Linneo assigna taõbem huma corolla composta às especies de
betula, aindaque os seus flosculos naõ tenhaõ antheras adunadas, mas o termo composta he pouco usado em botanica nesta
extensa accepçaõ.
Corolla universal (universalis), he a totalidade das corollulas de
muitos flosculos relativos a huma umbrella universal (o coentro, salsa,
canabraz, e canafrecha Nota
Linneo da taõbem adequadamente o nome de corolla universal à
totalidade de algumas flores aggregadas, como às da scabiosa,
globularia, &c.
Corolla propria ou parcial (propria, s. partialis), he a que merece propriamente o nome de corolla, e pertence a cada hum dos flosculos da corolla composta ou da universal: daõ-lhe taõbem o nome de corollula ou de pequena corolla (corollula), principalmente quando he relativa a huma corolla composta.
A corolla composta e a universal constaõ de disco e de rayo; o disco (discus), he todo o espaço que vay desde o rayo exclusivamente athe ao centro; o rayo (radius), na corolla composta, he a sua parte mais externa immediata aos foliolos, escamas, ou lacinias do perianthio commum; na corolla universal das umbrelladas o rayo he a ultima ordem dos flosculos, que se achaõ na circumferencia da umbrella universal (o gyrasol, bonina, perpetua, salsa, e coentro).
Corollula ligulosa, ou corolla propria aligulada (p. ligulata), he a que
pertence a hum flosculo da flor composta Nota
Tournefort chamava flosculo (flosculus) ao que Linneo chama
corollula tubulosa, e semiflosculo (semiflosculus) ao que elle
chama corollula ligulosa; a opiniaõ de Linneo parece me ser a
mais acertada, porquanto o nome de flosculo convem naõ so aos
semiflosculos de Tournefort, mais ainda a qualquer pequena flor
congregada em hum receptaculo commum.
Corollula tubulosa, ou corolla propria tubulosa (p. tubulata, s. tubulosa), tem na parte inferior hum tubo, e a sua orla he campanulada, e terminada em cinco denticulos ou cinco lacinulas; estas corollulas algumas vezes saõ afuniladas, e outras vezes as suas lacinulas saõ desiguaes. As corollulas tubulosas achaõ-se na maior parte das flores da classe Syngenesia, e se podem observar nas da macella gallega, losna, gyrasol e perpetua.
Corolla composta ligulosa (c. ligulata) Nota
Semiflosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta tubulosa (c. tubulosa, s. discoidea) Nota
Flosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta radiada (c. radiata), quando as corollulas do rayo saõ ligulosas, e as do disco tubulosas (o gyrasol e bonina). Esta sorte de corolla he irregular, ou difforme; o termo de difforme [Página 143] contudo da-se taõbem ás corollas compostas tubulosas da centaurea, por terem no rayo flosculos com corollulas de forma differente.
Corolla universal radiada (un. radiata), quando as petalas externas dos floculos do rayo da umbrella universal differem das internas, e das mais dos flosculos do disco, sendo mais alongadas (o coentro, e canabraz). Estas corollas saõ taõbem chamadas difformes (difformes).
Corolla composta uniforme (c. uniformis), os seus flosculos tem todos corollulas da mesma forma, e proporçaõ, sendo ou todas tubulosas, ou todas ligulosas (a macella gallega, e a alface).
Corolla universal uniforme (un. uniformis), todos os seus flosculos tanto do disco como do rayo tem petalas da mesma forma e proporçaõ (a salsa, e funcho).
7º Quanto à duraçaõ a corolla diz-se ser:
Murchosa (marcescens), quando se murcha, engilha, e fica depois da florecencia, durante algum tempo, apegada ao fructo (as campanulas, orchideas, e algumas cucurbitaceas.)
Caduca (cuduca), se cahe pouco tempo depois da flor ter desabotoado, ou antes dos estames cahirem e da fecundaçaõ estar completa (videira, actaea, thalictrum).
Decadente (decidua), se cahe juntamente com os organos sexuaes, ou logo depois da fecundaçaõ (a papoila, tulipa, e a maior parte das flores).
Persistente (persistens), se dura e acompanha o fructo athe à sua madureza (o golfam, e helleborus).
[Página 144]8º. Quanto à cor.
A cor das corollas he ordinariamente desprezada pelos Botanicos modernos Nota
O Lord Bute no seu tractado dos generos das plantas da Gr.
Bretanha, que hà pouco publicou, pertende que as flores saõ menos
sujeitas a variar do que Linneo pensava, e que na realidade ha
muitas que jamais variaõ, principalmente às brancas e amarellas de
certas especies. Com effeito alguns Botanicos sexualistas servem-se
destas duas cores para distribuirem as especies dos generos de
anthemis e achillea; e Linneo mesmo naõ põde evitar de empregar as
cores nos destinctivos especificos de algumas cryptogamicas, como
nos agaricos, lichens, &c.
N. B. As flores participaõ de hum grande numero de denominaçoẽs proprias
das corollas, sendo, ordinario achalas decriptas nos autores com os
nomes de flores Nota
As flores radiadas, ligulosas, e tubulosas saõ as
que tem a corolla composta radiada, ligulosa, tubulosa.Nota
Os nossos floristas daõ o nome de flores borboletas a algumas
especies de ranunculus, mas segundo os Botanicos este nome so
compete as que tem huma corolla papilionacea, como a fava, ervilha,
&c.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Pistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
O calyz e corolla de que tractei nos dois capitulos precedentes saõ meramente tegumentos, e ornato dosorganos essensiaes às flores, isto he, dos estames e pistillo. Os modernos persuadidos por experiencias repetidas de que estes delicados organos eraõ destinados aos amores das plantas consideraraõ huns como genitaes masculinos, e outros como femininos. Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido. Na situaçaõ mais natural os estames estaõ postos entre a corolla e o pistillo, como se observa bem claramente numa açucena. A sua origem he supposta em geral ser a mesma que a [Página 147] da corolla. Podem ser considerados ou como completos ou como incompletos; no maior numero de flores saõ completos, isto he, constaõ de duas partes differentes huma superior e outra inferior, a superior he chamada anthera e a inferior filête. O filete he ordinariamente semelhante a hum delgado fio, e serve de esteio à anthera, que he quasi sempre mais grossa do que elle. A anthera acha-se de ordinario na ponta do filete, às vezes contudo succede ser rente, (sessilis), e o filete nullo; nesta circumstancia o estame he incompleto, como se vè na aristolochia. Commumente os estames saõ ferteis (fertilia); mas nalgumas flores, os filetes naõ sostem anthera alguma, ou somente tem huma anthera enfezada, mal apparente, e que naõ medra; nesta circumstancia os estamẽs saõ denominados estereis ou castrados (sterilia, s. castrata), e saõ taõbem incompletos: semelhantes estames rarissimamente saõ contados pesos systematicos sexualistas na classificaçaõ das plantas, em que se observaõ.
Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
O pistillo (pistillum), he huma viscera na qual se acha o principio do novo fructo, e os organos destinados a receber a substancia que o deve fecundar. Os sexualistas suppoem nesta viscera os organos genitaes femininos, e a consideraõ composta de tres partes, a saber, de germe, estylete, e estigma, os quaes se podem ver bem claramente numa açucena. O germe (germen), he a parte inferior do pistillo ou o fructo recêm nascido antes de ser fecundado; contem o principio das sementes e os organos proprios para receber a sua fecundaçaõ e nutriçaõ; e na sua posiçaõ mais natural està situado no centro da flor, com à base apegada ao receptaculo da fructificaçaõ. O estylete (stylus), he a parte do pistillo que medea entre o estigma e o germe. O estigma (stigma), he a parte superior e extrema do pistillo. Os sexualistas reconhecendo huma grande analogia entre estas partes, e às dos animaes, compararaõ o estigma à tuba de Fallopio e vulva, o estylete a vagina, e o germe ao ovario; assegurando segundo as suas observaçoẽs que o estigma se acha sempre [Página 156] humido ou rociado em razaõ de huma lympha genital que nelle se separa.
O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Filiforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Concavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
[Página 163]O fructo (fructus), consiste em huma ou mais sementes fecundadas, e nutridas sobre o seu proprio receptaculo athe ao estado de plena madureza, quer sejaõ cobertas quer descobertas. Quando consta de sementes cobertas o fructo, e o vegetal que o dà saõ denominados angiospermos (angiospermi), e gymnospermos (gymnospermi) se as sementes saõ descobertas. No primeiro cazo o fructo tem alem das sementes hum pericarpo, e no segundo as sementes saõ nuas, e o pericarpo he nullo (pericarpium nallum). Mas definir o que he rigorosamente hum pericarpo, assignar regras para o reconhecer, e para o distinguir sempre dos tegumentos proprios das sementes, dizer quando elle he nullo, ou quando as sementes saõ nuas, naõ he taõ facil como ordinariamente o daõ a entender as obras elementares de Botanica. Todas estas circumstancias requerem hum grande numero de novas obserraçoẽs e talvez muitos seculos se passaraõ ainda sem que se conheca huma sabia theoria pela qual se reduzaõ todos os fructos a hum certo numero de classes bem caracterizadas, e com denominaçoẽs adequadas; tanto he difficil de reconhecer as leys da marcha variada, que a natureza segue por entre o immenso labyrintho dos entes!
Os antigos Gregos e Romanos, e depois delles as naçoẽs modernas deraõ ordinariamente aos fructos [Página 164] nomes differentes, ou o nome da planta que os produzia, sem cuidar de os reduzir a limites certos nem a generalidades, taes saõ por ex. os de azeitona, maçaan, pera, ameixa, marmello, pecego, amora, pepino, melaõ, milho, cevada, trigo, &c. &c. Este modo de nomear os fructos naõ podia agradar aos Botanicos pela razaõ de naõ ser definido nem generalizado, o por conseguinte improprio para poderem delle tirar notas fundamentaes de caracteres genericos; elles cuidaraõ pois de os reduzir a hum certo numero de nomes geraes, dividindo os primeiramente do modo que acima disse em fructos gymnospermos, e angiospermos, e subdividindo depois estes ultimos em hum pequeno numero de especies. Estas divisoẽs, e subdivisoẽs estaõ contudo ainda bem longe da perfeiçaõ que exige huma generalidade conforme à natureza dos fructos; ellas foraõ reformadas por Linneo, e na verdade de todas as theorias que temos a respeito dos fructos a deste sabio he a mais adequada às leys systematicas; como he hoje a mais geralmente seguida, cuidarei quanto me for possivel de me conformar com ella, e começarei pelos fructos angiospermos, ou que consistem em sementes cobertas.
O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Ha capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
Vagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
O numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
O receptaculo Nota
Al. Thalamus, s. placenta.
Diz-se receptaculo da fructificaçaõ (receptaculum fructificationis), quando o
germe e os tegumentos da flor estaõ apegados a elle, como na açucena, cravo,
&c. Receptaculo da flor (recept. floris), quando as partes da flor estaõ
apegadas a elle, e naõ o germe, ou quando ellas estaõ sobrepostas ao germe,
como na abobara, melaõ, murta, hippuris, &c. Receptaculo do fructo
(recept. fructûs), quando tem apegada a si a base do germe Nota
O
receptaculo neste cazo he a extremidade do pedunculo adunada à base
do germe ou do fructo.
Receptaculo proprio ou parcial (proprium, s. partiale), he o lugar, a que
estaõ apegadas somente as partes de hum flosculo relativo, a hum
receptaculo commum, como na saudade Nota
Segundo Linneo, o receptaculo parcial pode ser relativo naõ so a
huma, mas a muitas fructificaçoẽs parciaes, que se achaõ no
mesmo receptaculo commum, como o dos flosculos da oedera,
sphaeranthus, gundelia, straebe, &c.
Receptaculo commum (commune), he o lugar, a que estaõ apegados muitos flosculos, e seus fructos approximados, como o do gyrasol, saudade, echinops, &c.
O receptaculo quanto á sua superficie diz-se ser: ponteado (punctatum), quando esta salpicado de pontos ou cavidades minimas, e he ao mesmo tempo nû (o dente de leaõ, e chrysanthemum); alveolar (alveolatum, s. favosum), quando consta de cellulas ou grandes cavidades hum tanto semelhantes às dos favos de mel, e nellas tem encravadas as sementes (onorpordum); felpudo (villosum), quando he guarnecido de felpa (o absinthio); peludo (pilosum), se tem pelos (a açafroa); sedeûdo (setosum), se he guarnecido de sedas (a bardana e centaurea); palheaceo (paleaceum), se he guarnecido de palhiços (palea), estes saõ humas pequenas laminas lineares, que se achaõ postas entre os flosculos (como na milfolha, almeiraõ, macella, &c.); nû (nudum), quando nelle senaõ achaõ vellos, pelos, sedas nem palhiços alguns (como no dente de leaõ).
Quanto à figura o receptaculo diz-se ser: plano (planum), na milfolha; convexo (convexum), se he quasi semigloboso, como na chamomilla; conico, [Página 205] (conicum) (na bonina, e macella). Elle se diz taõbem ainda ser concavo, assovelado, &c. (concavum, subulatum, &c.)
A naturalidade ou estructura natural das flores (structura naturalis), he segundo Linneo a que se observa na maior parte dellas, e he opposta a estructura singularizada. As flores de huma estructura naturalissima tem o calyz, e corolla divididos em igual numero de lacinias (ordinariamente cinco); o seu calyz he menos aberto, exterior, menor do que a corolla, e involve o receptaculo, ao qual ella está innata; cada hum dos seus filetes he guarnecido na ponta de huma anthera, postos entre a corolla e o pistillo, levantados, e iguaes no comprimento ao pistillo, quando os tegumentos da flor saõ levantados. O pistillo está posto no centro, o germe tem no topo, hum ou mais estyletes levantados, e terminados por estigmas. Cahidos os organos sexuaes, o germe torna-se em hum pericarpo sostido pelo calyz. O receptaculo he acompanhado do calyz, e inferior ou sottoposto ao germe.
A estructura singularizada (structura singularis), he a que se observa em
muito poucos generos de flores, como he por ex. a do pé de bezerro, a da
salva, adoxa, eriocaulon, magnolia, &c. Nota
Taõbem se podem chamar
singularizadas as umbrellas bolbigeras de alguns alhos, as espigas do
polygonum viviparum, &c.
O sexo das flores he estabelecido nos organos da fructificaçaõ chamados
estames e pistillo. As flores, ou flosculos relativamente ao seu sexo, saõ
susceptiveis de quatro destinçoẽs principaes, a saber, de hermaphroditas,
masculas, femininas, e neutras. As flores hermaphroditas (hermaphroditi),
a que alguns chamaõ taõbem bissexuaes Nota
Por terem os dois sexos
dentro da corolla ou calyz, e saõ oppostas ás unisexuaes (ou
relativas) que dentro delles tem organos somente masculos, ou
somente femininos.Nota
Segundo os sexualistas o Autor da natureza
fez a maior parte das flores hermaphroditas por naõ poderem mudar de
lugar, e ir buscar o seu consorte; e se nas dioicas estaõ os sexos
separados, distaõ contudo muito pouco espaço.Nota
O Lord
Bute no seu excellente tractado dos Generos das plantas da Gr.
Bretanha, que imprimio para divertimento das Fidalgas de Inglaterra,
tractou de evitar como delicado cortezaõ os termos de
hermaphroditas, masculas e femininas, e em lugar delles substituio
os nomes de completadas, estaminosas e pistillosas.Nota
Em razaõ de terem este
principio de germe saõ chamados por Linneo flosculos femininos,
assim como o mesmo botanico deo o nome de mascula hermaphrodita á
huma flor hermaphrodita cujo pistillo he abortivo, e o de feminina,
hermaphrodita á for hermaphrodita, cujos estames abortaõ.
Alem das quatro denominaçoẽs mencionadas, Linneo deo ainda ás flores os
nomes das classes do seu systema sexual, e lhes chamou monandras,
diandras, triandras, tetrandras, pentandras, hexandras heptandras,
octandras, enneandras, decandras, dodecandras, icosandras, polyandras,
didynamicas, tetradynamicas, monadelphas, diadelphas, polyadelphas,
syngenésicas ou compostas, gynandras, monoicas ou androgynas, dioicas,
polygamas, e cryptogamicas Nota
Flores mon- di- tri- tetr- pent- hex-
hept- oct- enne- dec- dodec- icos- polyandii; di- tetradynamici;
mon-di- polyadelphi; syngenesii; gynandri; monoici, s. androgyni;
dioici; polygami, e cryptogamici. Taõbem ha flores endecandras
(endecandri) ou de onze estames, como as da brownea; todas estas
denominaçoẽs, como as da nota seguinte, saõ dadas naõ so as flores,
mas taõbem aos vegetaes que as produzem.Nota
Mono- di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- deca- dodeca-
polygyni.
Assim como entre os animaes nascem alguns com huma estructura differente em parte da ordinaria da sua especie, e que por isso lhes daõ o nome de monstros, do mesmo modo entre os vegetaes se encontraõ muitas vezes individuos, os quaes ainda que conservem parte da estructura, e habito externo da sua especie, se desviaõ contudo della em parte, principalmente na flor; e em razaõ disto os Botanicos lhes daõ igualmente o nome de monstros (monstra, seu plantae monstrosae).
Todas as flores viçadas e mutiladas (flores luxuriantes, et mutilati) saõ monstros. Nas primeiras os tegumentos dos organos sexuaes saõ de tal modo multiplicados, que as partes essensiaes da fructificaçaõ ficaõ mais ou menos destruidas; esta producçaõ por mais agradavel que pareça aos floristas, jardineiros, e a quaesquer pessoas em geral, he contudo considerada pelos botanicos como opposta a ordem natural, e como huma verdadeira degradaçaõ causada pela [Página 209] pela redundancia dos succos nutritivos. Nas mutiladas pelo contrario a falta de calor sufficiente e as doenças fazem faltar as partes, que alias costumaõ ter naturalmente sem que porisso outras augmentem.
Nas flores engrandecidas (flores grandificati, s. injuriantes) aindaque a corolla naõ degenera quanto ao numero das petalas ou lacinias, e postoque naõ falta, contudo como em razaõ dos succos abundantes vem a ser maior do que naturalmente devera ser, como se observa na galeopsis, prunella, Etc. semelhantes flores devem porisso ser contadas no numero das viçadas modicamente. No mesmo numero se devem taõbem contar as que tem hum calyz còrado fora do costume natural, como succede às vezes no quejadilho.
As flores, a que chamaõ verdadeiramente viçadas, saõ de tres sortes, a
saber, semidobradas, dobradas, e proliferas Nota
Os floristas dividem as flores somente em singellas e dobradas
desta ou daquella cor, e naõ ha para elles mais dvisoẽs em
Botanica.
A flor semidobrada (flos multiplicatus, s. semiplenus) he aquella, cuja
corolla tem mais ordens de petalas ou maior numero de lacinias do que
costuma ter naturalmente, conserva o pistillo e alguns estames, e dá algumas
sementes fecundas. O perianthio e involucro rarissimamente degeneraõ de
modo que cheguem a constituir huma flor semidobrada, e ainda que o calyz
contra o natural costume possa mudar de cor Nota
Nesta circumstancia o calyz pode fazer parecer a corolla
semidobrada, e porisso deve haver grande cuidado de o naõ
confundir com ella, nem por conseguinte dar erradamente à flor o
nome de emidobrada. Nota
Naõ deixaõ contudo de haver exemplos de calyces consideravelmente
viçados: as escamas do calyz dos cravos augmentaõ as vezes de
tal modo, que formaõ huma espiga de figura particular; na
festuca ovina, e algumas gramas das montanhas alpinas o casulo
das flores degenera em folhas ; na plantago maior a espiga degenera as vezes
em folhas floraes de tal
sorte que as flores ficaõ inteiramente suffocadas, o que succede
taõbem ás escamas do amentilho nalgumas especies de salgueiro,
quando os insectos estragaõ os organos sexuaes. Nota
Donde alguns lhe daõ o nome de flos duplicatus, triplicatus,
quadruplicatus, mas he melhor denominalas flores serie duplici,
triplici, quadruplici, multiplici, s. multiplicatâ. Nota
O viço das flores semidobradas he denominado semidobrêz, ou
multiplicaçaõ (multiplicatio, s. semimpletio); este viço pode ser
propagado por sementes, quando o terreno he cultivado ou
incompetente.
A flor dobrada (flos plenus) propriamente tal he aquella, cuja corolla dobra
de tal modo, que todos os estames ficaõ convertidos em petalas ou lacinias. O pistillo nestas flores ordinariamente ou he transformado assim como
os estames, ou apertado e suffocado de modo que fica esteril Nota
Quando o pistillo e os estames saõ transformados em petalas, a
flor he denominada eunucha (flos ennuchus); se o viço poupou o
pistillo, e hum ou dois estames, e se isso naõ obstante o fructo
fica inteiramente esteril, a flor deve ser contada no numero das
dobradas, e naõ das semidobradas.
A dobrêz (impletio), tem ordinariamente lugar nas flores petaleadas, como v. g. nas da maceira, pereira, pessegueiro, cerejeira, gingeira, amendoeira, romeira, murta, roseira, morangueiro, rainunculo, anemone, papoila, dormideira, craveiro, açucena peonia ou roza albardeira, tulipa, narcizo, jonquilho, violetta, chagas, goiveiro, malva, alcea ou malva da China, hesperis matronalis, hibiscus, caltha, anemone hepatica, aquilegia, nigella, agrostema coronaria, silene, lychnis, fritillaria, &c. Naõ deixaõ [Página 212] contudo de haver alguns exemplos de flores monopetalas sojeitas a dobrar como saõ por ex. as do jacintho, açafraõ, colchico, quejadilho, tuberosa, datura, &c.
As monopetalas dobraõ por meyo do augmento das lacinias, e as petaleadas pelo
augmento do numero das petalas, o qual se faz naõ so à custa dos organos
sexuaes mas ainda por meyo da transformaçaõ dos nectarios, como se vè nas
esporas, nigella, e aquilegia; a dobrez contudo desta ultima segundo se tem
observado pode ser de tres modos; 1º pela transformaçaõ total dos nectarios
em petalas; 2º pela transformaçaõ total das petalas em nectarios; 3º pela
dobrez dos nectarios, conservadas contudo as cinco petalas, e neste cazo os
espaços entre ellas ficaõ occupados cada hum por tres nectarios encravados
huns nos outros. No narcizo as vezes só os nectarios dobraõ, outras vezes
tanto dobraõ as petalas, como os nectarios. A saboeira de Inglaterra
(saponaria officinalis hybrida), os novelos ou rosa de Gueldres (viburnum
opulus globosum, s. roseum), e a peloria (antirrhinum linaria peloria),
subministraõ tres exemplos extraordinarios de dobrez. A primeira he huma
variedade da saboeira ordinaria com a corolla de cinco petalas
transformada em monopetala semelhante á da genciana Nota
Gerardo foy o primeiro que descobrio esta flor, Mortono contudo
assegura que ella ja senaõ acha em Inglaterra no lugar onde
Gerardo a encontrou; dizem que hoje so se da em alguns jardins
que naõ da sementes fecundas, e que so se conserva por meyo de
raizes. Nota
O Dr Gmelin observou contudo algumas cymeiras, em que os
flosculos do rayo naõ eraõ neutros, mas tinhaõ estames, e os
denominou por conseguinte masculos. Nota
Wiggers diz ter observado sementes fecundas nesta planta, e senaõ
houve engano, este facto favorece o parecer dos que pensaõ que
ella deve constituir hum genero á parte. Ha algumas flores femininas que muitas vezes naõ daõ sementes
fecundas, em razaõ de lhes faltar o individuo macho perto
dellas, como se observa nas palmeiras, figueiras, &c.;
semelhantes flores naõ devem porisso ser tidas por viçadas,
porque a sua esterilidade naõ provem de huma structura
viçada.
A semidobrez e a dobrez das flores pode ter lugar tanto nas que saõ simplez, como nas compostas. Huma flor simplez petaleada em estado de viço pode facilmente destinguir-se de huma polypetala natural pelo modo que ja expuz; ella se poderà taõbem destinguir de huma flor composta natural pela razaõ de ter somente o pistillo no centro ou naõ ter pistillo algum, como o rainunculo dobrado; nas flores compostas naturaes, como por ex. nas da alface e chicoria, cada flosculo tem o seu pistillo e estames.
As flores compostas, como ja expliquei fallando da corolla, ou saõ inteiramente ligulosas, ou inteiramente tubulosas, ou radiadas. Nas flores radiadas a dobrez pode ter lugar, 1º em razaõ dos flosculos tubulosos do disco tomarem a forma dos flosculos do rayo, como se ve nalgumas especies de gyrasol, cravo de defuncto, calendula, chrysanthemum, anthemis, matricaria, achillea ptarmica, centaurea cyanus, &c.; 2º quando conservados os flosculos do rayo, os do disco se alargaõ e alongaõ demasiadamente, e tem menos lacinias ou denticulos no seu orificio como se tem visto na serratula arvensis; 3º quando as coróllulas ligulosas do rayo se mudaõ em tubulosas, como se tem observado na bonina, matricaria, e cravo de defuncto. Nas flores compostas inteiramente tubulosas, como por ex. a macella gallega, he rarissimo haver dobrez, e quando existe, he semelhante á do 2º modo com que dobraõ as radiadas. Nas flores inteiramente ligulosas a dobrez so se conhece, e se distingue do estado natural pela razaõ de que os estigmas se alongaõ muito, os germes [Página 215] augmentaõ, saõ mais compridos do que o calyz e divergem, como se tem observado na escorcioneira, lapsana communis, e tragopogon pratense.
Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos. Tem se observado que se huma flor composta natural, como a bonina, cravo de defuncto, matricaria e chrysanthemum, tem no rayo flosculos com pistillos, os flosculos transformados do disco os conservaõ igualmente; mas se os do rayo naõ tem pistillos naõ os tem taõbem os flosculos viçados do disco, como acontece na dobrez do gyrasol, centaurea, e calendula.
Ha muitas familias de plantas que daõ constantemente flores sem dobrez
nem viço algum notavel, taes saõ por ex. as das ordens naturaes, a que
Linneo chama Inundadas e Holeraceas Nota
Inundatae, Holeraceae. Vej.
Lin. Meth. Nat. Fragm. Ord. 48. e 53.Nota
Verticillatae. Ibid. ord. nat. 58.Nota
Personatae. Ib. ord. nat. 59.
Deve-se contudo exceptuar a Linaria, na supposiçaõ de que a peloria
he huma variedade viçada desta planta.Nota
Asperifoliæ. Ib. ord. n. 43.Nota
Stellatæ. Ib. ord. n. 44.Nota
Umbellatae.
Ib. ord. nat. 22. Deve-se contudo exceptuar o viço das umbrellas
proliferas.Nota
Papilionacea. Ib. ord nat. 55.
A flor prolifera (flos prolifer), he a que lança de si outra flor ou
pequenas folhas ; ordinariamente
he dobrada; no primeiro cazo he denominada flor prolifera de flores
(prolifer floriferus), e no segundo flor prolifera de foliolos (prolifer
foliiferus). A prolificaçaõ de flores he de dois modos, ou
originaria do centro ou dos lados; na do centro o pistillo brota de si outra
flor para cima posta sobre hum pedunculo, e tem lugar algumas vezes nas
flores simplez, como nos cravos, ranunculus tuberosus, anemone hortensis,
geum urbanam, rosa gallica, &c; na dos lados, o calyz commum brota de si
muitas outras flores pedunculadas, e tem lugar nas flores compostas e
aggregadas, como na bonina, calendula officinalis, saudade, e no hieracium
falcatum proliferum de Gaspar Bauhino. As flores proliferas de foliolos
saõ raras, observaõ-se contudo algumas vezes nas rozeiras e anemones Nota
Na scrophularia aquatica algumas vezes os organos sexuaes saõ
transformados em fasciculos de foliolos e o mesmo se tem visto no
dipsacus sylvestris, &c. Ha fructos que taõbem saõ proliferos de
foliolos, como as peras, uvas, &c; elles ficaõ nesta
circumstancia sem sementes, por causa destas se terem convertido em
foliolos.
A prolificaçaõ (prolificatio) naõ so tem lugar nas flores, mas ainda nas umbrellas simplez e cymeiras, em razaõ destas brotarem de si outras contra o seu costume natural, do que temos exemplos no cornus suecica, selinum palustre, &c.
A flor mutilada (flos mutilatus), segundo Linneo Nota
Alguns estendem
a accepçaõ deste termo às flores, a que faltaõ quaesquer partes
que costumaõ ter naturalmente, sem porisso augmentarem em
outras; com effeito algumas vezes o numero dos estames e dos
estyletes diminue, e se tem visto flores aggregadas passarem a
ser simplez, quando o terreno he exsucco, e magro.
A Patria ou habitaçaõ das plantas (locus natalis, s. plantarum habitatio), he o lugar em que ellas costumaõ nascer sem soccorro algum de cultura, e he considerada pelos Botanicos debaxo das relaçoẽs de paiz, clima, sitio e terreno.
Pelo termo de paiz (regio) entendem imperios, reynos, provincias, e quaesquer destrictos proprios a certas especies de plantas.
Por clima (clima) os Botanicos entendem três sorte de dimensoẽs terrestres, a saber, latitude, longitude, e altura do lugar. A latitude he a distancia que vay desde o equador athe o polo artico ou antarctico, e comprehende noventa graos tanto da banda do norte como do Sul, o que faz a quarta parte do ambito da terra; e longitude he o ambito da terra, ou espaço de 360 graos, começando do meridiano da Ilha de Ferro athe ao mesmo ponto do dicto meridiano; a altura he a medida perpendicular que medea entre a superficie do mar e o cume de [Página 219] huma elevada montanha; ella se costuma calcular ordinariamente com o soccorro de hum barometro. A altura falha muito menos, do que a latitude e longitude, relativamente a reconhecer a semelhança das plantas, porquanto he bem notorio que muitos lugares que se achaõ na mesma latitude ou longitude daõ plantas inteiramente differentes, ao mesmo tempo que as das montanhas da Suissa, Lapponia, Brasil, Siberia, Pyreneos, Olympo, &c. saõ ordinariamente semelhantes.
Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.
1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs. Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .
2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.
3º. Austral (Australe), comprehende o espaço que vay desde a Ethyopia athe ao Cabo da Boa Esperança, e igualmente o reyno do Peru e grande parte do Brasil, aonde o calor he menos fervido do que no clima Indico. Como o estio deste clima tem lugar exactamente no tempo que corresponde ao nosso inverno, daqui procede que os vegetaes transplantados deste clima florecem na Europa ordinariamente perto do solsticio do inverno.
4º. Europeo meridional (Europaeum meridionale), comprehende Portugal, Hespanha, a França meridional, Italia, Hongria athe á Morêa, e o Archipe-lago. Alguns o dividem em clima do continente e insular, incluindo neste segundo as ilha Europeas do Mediterrano, nas quaes o calor he maior do que o da terra firme; outros ajuntaõ os climas da Syria, Media e Armenia, por acharem nelles as mesmas plantas que se daõ no clima meridional da Europa.
5º. Europeo septentrinal (Europaeum septentrionale), comprehende a Lapponia, Suecia, Dinamarca, Prussia, Allemanha, Suissa, Hollanda, Flandres, Inglaterra, e parte do norte da França.
6º Oriental (Orientale) comprehende o grande Continente da Asia septentrional, a Siberia e Tartaria desde os confins da Syria e Persia athe aos da China; as plantas deste clima florecem ordinariamente logo que a atmosphera começa a aquecer, como entre nos florecem as da primavera.
[Página 221]7º. Occidental (Occidentale) comprehende a America septentrional athe a Carolina, e igualmente o Iapaõ; as plantas deste clima florecem ordinariamente no outono.
8º. Alpino (Alpinum), he proprio das montanhas alpinas, que saõ as mais elevadas que ha no globo terrestre, cobertas de neve em varios lugares, aonde naõ ha primavera nem outono, mas sim hum longo inverno, e curto estio de dois mezes ou menos, como saõ os Alpes da Suissa, as Cordilheiras da America meridional, &c. As plantas deste clima nascem, florecem e fructificaõ dentro de pouco tempo.
O sitio (situs) he o lugar aonde costuma naturalmente nascer e nutrir-se qualquer planta, e he ou terrestre ou aquoso ou parasitico. As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.
1º Sitios aquosos.
O mar, ou agoa marina (mare, s. aqua marina) he hum fluido aquoso naturalmente impregnado de sal commum; as plantas que se dão n'agoa do mar ordinariamente saõ destituidas de raizes, nutrem-se pelas suas porosidades, e naõ supportaõ jamais frios rigorosos nem os gelos do inverno (como o fucus, e ulva); daõ-lhes o nome de plantas marinhas (pl. marinae).
[Página 222]As prayas, e costas maritimas (littora, littorale solum, loca maritima), saõ lugares immediatamente proximos ao mar, cobertos pelas marés, açoitados das ondas e dos ventos, mais ou menos arenosos e salgados. As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c. Estas plantas saõ por alguns botanicos denominadas maritimas (maritimae).
As fontes (fontes), saõ mananciaes de agoa doce Ha fontes de
agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas
que saõ de natureza semelhante á das
maritimas.Nota
Os rios (fluvii), saõ largas e prolongadas correntes de agoa doce e fresca; a terra banhada d'agoa dos rios (solum fluviale) dá taõbem algumas plantas particulares, como v. g. o potamogeton, ranunculus aquaticos, &c.
As ribeiras, margens dos rios e das lagoas (ripae), saõ lugares cobertos de agoa na estaçaõ do inverno, & descobertos no tempo do estio; nellas costumaõ dar-se a salicaria, o lycopus europaeus, a lysimachia vulgaris, &c.
Pégos, lagos limpos (lacus, lacustre solum), saõ lugares que contem agoa pura, e profunda; o seu fundo naõ he lodoso, mas tem huma certa firmeza ou solidez; daõ-se nelles a nymphaea, subularia, isoetes, &c.
[Página 223] Lagoas profundas, paûes, albofeiras Nota
Nos damos o nome de albofeiras (paludes maritimae), ás grandes
lagoas que saõ vizinhas do mar, e contem agoa salgada e doce
misturadas: em alguns lugares costumaõ abrir estas lagoas a fim
de desalagar os campos, e os aproveitar em pastos e searas.
Tanques, charcos, fossos (stagna, paludes, palustre solum), saõ pequenas lagoas baxas, limosas, lodosas, que se seccaõ inteiramente no estio; daõ-se nelles a tabûa, lirios, junças, &c.
Alagadiços (inuadata loca), saõ terrenos alagados pelas chuvas do inverno, & que se seccaõ no veraõ; daõ-se nelles o arroz, canna de assucar, tamargueira, &c.
Pantanos, bréjos, tremedaes (loca uliginosa), saõ terrenos balofos, ensopados d'agoa pôdre, que naõ daõ feno, nem saõ proprios para searas; daõ-se nelles a ulmaria, quejadilho, valeriana dioica, &c.
2º Sitios terrestres.
Montes, oiteiros (montes, colles, solum montanum, s. collinum), saõ lugares elevados, na parte superior lavados dos ventos, sabulosos, e seccos; daõ-se nelles a carlina, arnica, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.
Rochas, penhas (rupes, rupestre solum), saõ lugares alcantilados, pedregosos, e aridissimos; daõ-se nelles a cymbalaria, aloe, mesembryanthemum, sedum, &c.
Campos, campinas (campi, campestre solum), saõ lugares incultos descobertos, seccos, e hum tanto asperos; daõ-se nelles a bisnaga, bonina, e muitas outras plantas ordinariamente herbaceas.
Prados (prata, pratense solum), saõ terras baxas incultas, valles humidos cobertos de plantas herbaceas viçosas, e serrados para que nelles naõ entre o gado no estio; daõ-se nelles o ranunculus acris, o lotus corniculatus, scabiosa succisa, escorcioneiras, trevos, e outras muitas plantas, que constituem o copioso feno que nos paizes do norte da Europa cortaõ no estio, seccaõ, e recolhem para sustentar os gados no inverno.
Pastos (pascua), saõ campina abertas com plantas destinadas a nutrir os gados, hum tanto sabulosas, e menos ferteis do que os prados; daõ-se nelles a prunella, euphrasia, &c.
Searas (agri, segetes, agreste solum), saõ terras lavradas em que se semeão legumes e sementes, de que se costuma fazer paõ; daõ-se nellas as esporas, joyo, verdeselha, hervinha, &c.
Alqueives (arva, arvense solum), saõ terras lavradias, que se deixaõ descançar algum tempo; nas terras alqueivadas costumaõ dar-se o raphanus raphanistrum sinapis alba et arvensis, o murriaõ, algumas especies de macella, o abrolho, a agulha de pastor, &c.
[Página 225]Jardins, hortas (horti, culta, solum hortense), saõ terrenos muito estercados, cavados, regados, e cultivados todo o anno; daõ-se nelles as ortigas, murujem, amor de hortelaõ, &c.
Esterqueiras (fimeta), saõ os lugares em que se accumulaõ os excrementos dos gados, misturados com alguns estragos de vegetaes; daõ-se nelles as ortigas, o estramonio, asperugo, &c.
Bordas dos caminhos (versurae), vallados e seves (aggeres, sepes) saõ considerados como lugares estercados, e o mesmo saõ as bordas das cazas, dos muros, ruas, praças e mercados (ruderata, ruderale solum), as plantas proprias destes lugares saõ por ex. a poa annua, erysimum officinale, lolium perenne, almeiraõ, tanchagem, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.
Brenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.
Matto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.
Queimadas (ambusta), saõ os lugares, cujo matto foy destruido com fogo, a fim de os fertilizar com as cinzas dos vegetaes queimados, e de os dispor para pastos, ou searas.
3º Sitios parasiticos.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.
Por terreno (terra, solum), os botanicos entendem a natureza do chaõ proprio a qualquer planta, e o destinguem ordinariamente em quatro sortes, a saber, arêa, argilla, greda, e terra vegetosa.
A area (arena), he hum composto de pequenos graõs seccos, duros, quarzozos, e desadunados; ella varia quanto a grandeza dos seus graõs, como se vê na area das empulhetas, na das escrivaninhas, na das prayas, e na area grossa a que chamamos saibro. Ordinariamente acha-se misturada com alguma das outras terras, e he neste estado misto de terreno que nasce e vegeta bem hum grande numero de plantas, como a canneira, pinheiros, urzes, digital, serpaõ, tojo, espargo, herva turca, &c.
[Página 227]A argilla (argilla), he huma terra unctuosa e de grande tenacidade quando humedicida, susceptivel de endurecer consideravelmente, e naõ faz effervecencia com os acidos; acha-se sempre misturada mais ou menos com outras terras, e lhe damos algumas vezes o nome de piçarra. Quando ella se acha misturada com huma boa porçaõ de cré, daõ-lhe o nome de marga (marga), e neste estado costuma servir para fertilizar as terras. Os terrenos argillosos saõ favoraveis á vegetaçaõ de hum grande numero de plantas, taes como os papoilas, verbascos, bolsa de pastor, &c.
A greda ou cré (creta), he huma terra arida, que se acha nos oiteiros seccos e pouco fecundos; quando he para faz effervescencia com os acidos; suppoem-se ter a mesma origem, que as pedras calcareas; acha-se ordinariamente misturada com outras terras, e neste estado he conveniente á vegetaçaõ da verbena, esferro cavallo ou ferradurina, da reseda, e muitos outros vegetaes.
A terra vegetosa (humus), acha-se por toda a superficie do globo terrestre em
mais ou menos quantidade, e deve a sua origem á descomposiçaõ dos vegetaes e
animaes. E sua cor varia em razaõ das terras, com que se acha misturada,
parece contudo que a mais pura he a que tem huma cor denigrida. He
summamente fertil Nota
Kylbel he de opiniaõ que o principal alimento dos vegetaes
consiste nas particulas finissimas, e subtis da terra
vegetosa. ( Dissert sobre a causa da fertilidade das
terras. )Nota
Se nos tempos primitivos do globo terrestre cada hum dos vegetaes
teve o seu clima, sitio, e terreno proprio, a natureza parece
ter-se eximido deste habito pouco a pouco, porquanto vemos hoje
plantas, que se daõ igualmente bem por toda a parte.
Do que tenho exposto athe aqui sobre a habitaçaõ natural dos vegetaes se
collige claramente, que differindo ella segundo os diversos climas, sitios,
e terrenos, toda a habitaçaõ artificial deve imitar as suas diversidade o
mais que for possível. A habitaçaõ artificial, de que fallo aqui, saõ todos
os jardins botanicos, em que ha hum grande numero de plantas exoticas, ou
aquaticas naturaes do paiz e de terrenos particulares, e que porisso mesmo
requerem os soccorros da arte para se poderem conservar. Estes soccorros
consistem principalmense em que cada
canteiro ou alegrette do jardim naõ conste so de huma casta de terra mas
de muitas differentes, de maneira que cada planta tenha a terra que lhe
he propria. As que saõ naturaes dos bosques, e requerem sombra devem ser guarnecidas
de huma sombrella Nota
He hum vazo de barro, huma grande choca de lata, ou hum cesto
cylindrico de vime, abertos de ilharga, que servem para fazer
sombra ou para abrigar a planta dos ventos. Nota
Saõ campanas de vidro, ou pequenas guaritas envidraçadas, com as
quaes se costumaõ nos jardins cobrir as plantas indigenas dos
paizes quentes a Asia, Africa, e America. Nota
Naõ faço aqui mençaõ de muitas outras circumstancias relativas
aos jardins botanicos por me parecem menos proprias do presente
tractado, e demais disso ellas saõ hoje bastantemente conhecidas
em Portugal, o sabio Naturalista que tem a inspecçaõ do Jardim
Real do Palacio da Ajuda, e do da Universidade de Coimbra naõ
nos deixou nada que dezejar nesta materia.
O Habito de huma planta parece naõ ser outra coiza, no rigor do termo, senaõ
a sua estructura considerada externa, e internamente durante o tempo da sua
vida; estructura, por meyo da qual ella differe de todos os individos de
diverso genero, diversa especie ou variedade, e se conforma pelo contrario
com todos os que pertencem ao mesmo genero, especie ou variedade, a que ella
he relativa. Esta estructura considerada exteriormente he a configuraçaõ, e
face externa das partes da planta presentadas aos nossos sentidos, sem
estrago anatomico, sem soluçaõ de continuidade, nem descomposiçaõ chymica:
considerada internamente he a sua organizaçaõ e constituiçaõ, em que se
comprehendem as partes organicas e constitutivas, escondida a nossos
sentidos pela continuidade de superficie, e sò patenteadas por meyo de
estragos anatomicos, roturas, e descomposiçoẽs chymicas. Estes dous modos de
considerar a estructura de hum vegetal indicaõ, que o seu habito devera por
conseguinte ser dividido em externo e interno, estabelecendo-se o primeiro
sobre [Página 231] tudo o que diz respeito à estructura externa, e o segundo no que respeita
somente á interna. Mas os Botanicos naõ costumaõ fazer estas differenças,
nem seguir este rigor, elles fazem so mençaõ do habito externo (habitus,
s. facies externa), e huns entendem por elle toda a configuraçaõ
exterior que hum vegetal prezenta á primeira vista, ou toda a razaõ de
semelhança e dessemelhança que elle tem com outros nas suas partes, sem
exceptuar as da fructificaçaõ, outros daõ o nome de habito externo
somente ás razoẽs de affinidade ou desconformidade, que os vegetaes tem
entre si em hum certo numero de partes, comprehendem promiscuamente no
habito externo algumas relaçoẽs, que rigorosamente so pertencem Nota
Como saõ a succulentia e sabores. Nota
Linneo fallando do habito dos vegetaes naõ fez mençaõ alguma da
fructificaçaõ, e nos exemplos que deo do caracter habitual se vê
claramente tela excluído do habito externo dos vegetaes. Vej. Phil. Bot- num. 168.
TODOS os vegetaes que hoje existem saõ originarios ou de bolbos, ou de
gomos, ou de sementes; huns foraõ continuados Nota
As plantas dizem-se continuadas por qualquer sorte de raizes e ou
pelos gomos, e propagadas pelas sementes; pelo que hum bacelo ou arvore enxertada naõ he
rigorosamente huma nova planta, mas sim huma planta continuada,
do mesmo modo os bolbos caulinos, e as folhas , que cahindo por terra nella
brotaõ, continuaõ a sua especie e naõ a propagaõ; porque as
plantas verdadeiramente novas ou propagadas saõ as que naceraõ
de sementes. Nota
As sementes taõbem saõ semeadas artificialmente pelos homens como
he notorio, ou casualmente pelos animaes quando ellas se
apegaraõ aos seus pelos, ou depois de terem sido engolidas, mas
neste segundo cazo nem sempre conservaõ o seu principio vital,
potencial e germinativo, porque o calor do ventriculo, e
intestinos lhes destroe o dicto principio. As toupeiras, minhocas, porcos, coelhos, e outros animaes que
mechem, fossaõ, e cavaõ a terra contribuem taõbem por
casualidade a cobrir hum grande numero de semente. Nota
Miller distribue as semente quanto á
sua duraçaõ em tres clas-ses; na 1º poem as que germinaõ no outono,
ou logo depois da sua madureza; na segunda as que germinaõ no anno
seguinte; e na 3º as que se podem semear no segundo anno, ou mais
tarde. A differente duraçaõ ou conservaçaõ da virtude germinativa
das sementes depende de muitas circunstancias, como por ex. da sua
natureza mais ou menos oleosa, farinhosa, e resinosa, da solidez ou
da debil contextura da sua casca, da profundidade em que estaõ na
terra sepultadas e protegidas contra o calor, frio, humidade, estado
de fermentaçaõ, de fricçaõ, vermes, &c. &c. Ha algumas que
apenas estaõ maduras germinaõ logo ainda mesmo dentro das suas
capsulas, como as da avicennia tomentosa; ha outras que pouco tempo
depois que cahem da planta materna perdem a virtude germinativa,
como o caffé, e ha outras em fim que a conservaõ muitos annos tanto
na terra como fora della. Norbergio observou que as sementes da
herva sancta germinaõ, depois de estarem oito annos debaxo da terra:
Munchausio assegura, que as do chrysanthemum segetum se conservaraõ
debaixo da terra vinte annos ferteis, segundo Olmi as da malva
crispa conservaraõ a sua fertilidade prolifica desasette annos.
Brockio attesta que as dos goiveiros encarnados germinaraõ, passados
dez annos, e deraõ flores dobradas. Du Hamel diz que as de huma
especie de mimosa se conservaraõ ferteis vinte annos: segundo
Triewal (Philos. Transact. vol. XLII) as do melaõ germinaraõ depois
de 42 annos; e segundo Home as do centeio guardadas 140 annos naõ
perderaõ a sua fertilidade. Nestas assersoẽs poderá haver
exaggeraçaõ, mas ellas indicaõ ao menos que a virtude germinativa
pode conservar-se muitos annos nas sementes; e por meyo dellas se
poderaõ explicar as maravilhosas reproducçoẽs de algumas plantas,
cuja raça se julgava de todo extincta. Entre as sementes que mais
tempo podem conservar a sua vis germinativa as de algumas
cryptogamicas tem o primeiro lugar, porque podem durante algus
seculos resistir aos frios, e aos mais intensos calores sem a menor
alteraçaõ.Nota
Alguns physiologistas dizem que as sementes, ainda fora da
terra, e desde o tempo que se separaraõ da planta materna athe ao
momento primario da fermentaçaõ, naõ deixaõ de ter vida, mas isto so
se pode conceder tomando o termo vida em hum sentido extenso por
potencia intrinseca germinativa.
A disposiçaõ e forma das cotylédones no estado da germinaçaõ he chamada
cotyledonismo (placentacio, s. cotyledonismus); mas antes de tractar
desta disposiçaõ em particular he precizo advertir, que as sementes
humas saõ chamadas acotyledones (acotyledones), quando parecem constar
somente de corculo, por naõ serem nellas as cotyledones bem sensiveis,
como saõ as dos musgos Nota
Em todas as sementes ha cotyledones , ainda
mesmo nos musgos, segundo Meese, e Hedwig; mas como nestas e
outras sementes semelhantes as cotyledones naõ saõ
bem apparentes, e ou se consomem na terra sem jamais se verem,
ou precizaõ de hum microscopio para se poderem destinguir no
periodo da germinaçaõ, continuar-lhes-hemos a dar o nome de
acotyledones, conforme o uso de muitos Botanicos. Nota
Eu uso aqui deste termo na accepçaõ que lhe dá
Linneo; porque segundo alguns Botanicos modernos as polycotyledones
saõ todas dicotyledones divididas em lacinias. Adanson diz que as
sementes do pinheiro saõ dicotyledones com duas cotyledones partidas
em lacinias profundas, e que as do pinus cedrus tem seis lacinias, e
as do pinus strobus seis athe dez.Nota
O
Dr. Jussieu, e alguns outros Botanicos applicaõ estes termos naõ so
ás sementes, mas taõbem as plantas que daõ semente acotyledones,
monocotyledones, e dicotyledones; pelo que o polytrichum he
acotyledone, a cebola monocotyledone, e o feijoeiro e pinus
dicotyledone. Segundo o dicto Botanico as classes primitivas
naturaes, devem ser fundadas no numero das cotyledones . Linneo contudo naõ parece ser desta opiniaõ, porquanto diz que no
mesmo genero natural podem haver especies com sementes, que
diffiraõ no numero das cotyledones , como saõ
por ex. as especies de cactus e pinus .
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes. No trigo, cevada, e todas as mais gramineas a cotyledone he furada pela [Página 236] plumula e radicula (perforata), e igualmente o tegumento, o qual vem por fim a ficar sem cotyledone, occo e exsucco; ella he unilateral nas palmeiras (unilateralis) e reductosa (reducta), na cebola.
Nas sementes dicotyledones no estado de germinaçaõ as duas cotyledones
contribuem para a preparaçaõ dos succos nutritivos da plumula e
radicula, e ordinariamente passaõ depois a ser folhas seminaes bastardas Nota
Segundo Linneo (Philos. Botan. n. 136), cotyledones et folia
seminalia sunt synonyma in plantis; eu ja expuz o que pensava a
este respeito, quando tractei das sementes; esta assersaõ
applicada ás cotyledones de todas as semente dicotyledones
parece ser sujeita a algumas excepçoẽs, ainda mesmo no cazo que
lhes queiramos dar o nome de folhas seminaes bastardas; porquanto ha algumas que
em lugar de tomarem a apparencia de folhas saõ caduças, ou se engilhaõ
dentro de pouco tempo, como se vê nas das ervilhas, e nas de
algumas especies de feijaõ.
O principio de vida, por meyo do qual se conservaõ perennemente as especies
vegetaes, reside na sementes, nos gomos, e bolbos. Alguns physicos pensaõ
que estes tres meyos de que se serve a natureza para perpetuar a vida
dos vegetaes saõ essensialmente a mesma coiza, e lhes daõ o nome de
gomos seminaes, radicaes, e caulinos: elles observaõ que em alguns
alhos, e ainda em algumas plantas Cryptogamicas a a natureza no lugar
onde costuma produzir flores, dá bolbos ou gomos os quaes reproduzem as
especies taõ perfeitamente como as sementes, que nas axillas das folhas ou ramos, lugar proprio dos
gomos, se vem algumas vezes bolbos decadentes, os quaes cahindo [Página 238] na terra reproduzem a sua especie, como os bolbos radicaes
ordinarios; que a estructura dos bolbos radicaes he summamente analoga à
dos gomos caulinos; que os gomos radicaes das plantas vivaces, e os
bolbos ordinarios saõ de huma natureza identica; que nalgumas sementes
como v. g. nas das nymphaea nelumbo se vem antes da germinaçaõ algumas folhas perfeitas assim como
se observaõ nos gomos, e que se ha gomos floraes, ha do mesmo modo
taõbem bolbos floraes, como v. g. saõ os da tulipa Nota
Este bolbo com effeito contem no seu centro huma flor bem visivel
sem soccorro algum de lente; todas as vezes que no outono ou
inverno dessequei com cautella os seus cascos externos e
internos, sempre nelle observei bem destinctamente as petalas, antheras e pistillo da flor. Alguns asseguraõ
taõbem ter observado o mesmo em muitos outros bolbos, e ainda mesmo
nas raizes da anemone hepatica, e d'algumas especies de
pedicularis.
Os gomos (gemmae) Nota
Nos taõbem damos aos gomos o nome de olhos (oculi)
novedios, grelos, botoẽs, e borbulhas, mas o termo de gomo he o mais
proprio, e o mais geral; o termo olhos he ordinariamente so
applicado a vide; novedios e grelos parece-me que se devéram
reservar para os gomos das plantas herbaceas; botam, somente se deve
applicar aos gomos floraes, e a qualquer flor antes de desabotoar:
borbulha so se diz dos gomos dos enxertos, e na phrase enxertar de
borbulha: o vulgo costuma dar aos bagos da laranja e limaõ o nome de
gomos, mas basta ter humas leves noçoẽs de Botanica para conhecer
que isto he huma impropriedade, e corrupçaõ de termo.
Os gomos da mesma sorte que os bolbos saõ hum verdadeiro abrigo contra os
rigores do inverno ao [Página 240] embryaõ que envolvem, e porisso Linneo lhes chamou com propriedade
invernadoiros (hybernacula) Nota
Hebenstreit diz contudo que as sementes taõbem saõ invernadoiros,
porque as cotyledones e tegumentos abrigaõ a plantula nelles
reclusa durante hum ou mais invernos.
Os gomos dizem-se terminaes (terminales), quando se achaõ situados nas pontas do tronco ou ramos: ordinariamente saõ solitarios, contudo na syringa vulgares achaõ-se dois a dois, e no aesculus pavia tres a tres.
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .
Oppostos (oppositae), quando se achaõ dois no tronco ou ramos, fronteiros hum ao outro, e saõ ou peciolares (petiolares), como no buxo, medronheiro, freixo, loireiro, sabugueiro, madresylva, &c. ou estipulares (stipulares), como no rhamnus catharticus, e cephalanthus.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.
Nullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.
Folheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus. Estes gomos saõ mais agudos do que os seguintes.
Floraes (florales, s. floriferae) quando somente contem flores, como os do damasqueiro, pessagueiro, [Página 242] amendoeira, &c. Estes gomos saõ hum tanto obtusos, e verdadeiros botoẽs, elles contem ou flores femininas como na aveleira e carpe, ou masculas como no pinheiro e abeto, ou emfim flores hermaphroditas como no ulmeiro, amendoeira, pessegueiro, &c. Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)
Ha muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares. Hum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse. Os arbustos plantados em vazos, ou caxas daõ todos os annos gomos floraes e fructos, mas se os tiramos fora dellas, e os plantamos numa terra pingue, e á larga, naõ daraõ durante muito tempo senaõ gomos folheres; se os tornamos a metter em caxas ou vazos recomeçaraõ a dar, como dantes, gomos floraes e fructos. Hum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia. Sobre esta observaçaõ fundaraõ os antigos a cultura das videiras, podando-as e empando-as, porque por meyo da poda a empa se diminue a [Página 243] seiva, e se modera o seu movimento nimiamente accelerado, que aliás nutriria a planta em demasia, e lhe faria viçar todos ou quasi todos os seus gomos floraes, tornando-os em folheares.
A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Revolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Imbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Frondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
A petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
O tempo de vela das folhas (foliorum vigiliae), segundo os botanicos, he o espaço, diurno em que
ellas tem as suas folhas abertas, e o de sono pelo contrario he ordinariamente todo o espaço da
noyte. Este estado de sono das folhas (somnus foliorum), consiste em hum collapso ou mudança de posiçaõ, que [Página 247] ellas costumaõ ter durante o tempo de vela. Hum grande numero de plantas he susceptivel desta mudança nas suas folhas Nota
E igualmente nas suas flores, como ja disse; eu naõ fiz mençaõ
das differentes posiçoẽs, que constitue o sono das flores,
porque facilmente se podem entender pelas que exponho aqui
relativamente às folhas . Nota
A materia electrica da atmosphera em tempo de trovoadas basta
para fazer fechar as folhas e flores; isto he confirmado pelas
experiencias feitas na sensitiva, a qual sendo artificialmente
electrisada fecha as suas folhas do mesmo modo que no tempo de trovoada. Esta planta contudo, segundo se tem observado, abre ainda mesmo
numa perfeita obscuridade as sua folhas pela manhaan, e as fecha à
noyte.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.
1º As simplez saõ denominadas:
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).
Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)
Folhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)
Folhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)
2º. As compostas saõ denominadas:
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)
Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)
Folhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)
Folhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)
Folhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).
Folhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).
[Página 250]Por intorsaõ (intorsio, s. torsio) os Botanicos entendem as curvaturas, reviramentos, ou enroscamentos das partes dos vegetaes, e a denominaõ uniforme (conformis), se as dictas partes se curvaõ ou enrolaõ todas para a mesma banda, e difforme (difformis), se nem todas se curvaõ, ou quando se enrolaõ e curvaõ para differentes lados indeterminadamente.
Huma das principaes especies de intorsaõ he a volubilidade, ou enroscamento dos troncos e gavinhas, ora para a direita, ora para a esquerda, como ra expuz em seu lugar.
A intorsaõ pode ter taõbem lugar nas flores Nota
O torcimento das
corollas deve ser observado no estado da flor fechada, ou no periodo
em que a flor começa a desabotoar.
Pode taõbem haver intorsaõ nos pistillos, como se vê na silene, cucubalus, spiraea ulmaria, e helicteres.
As espigas das plantas asperifolias, taes como a [Página 251] cynoglossa, heliotropium, myosotis, echium, &c. tem todas huma intorsaõ espiral na sua extremidade, em forma de voluta.
As fibras da base das praganas da avena, e stipa, as da cauda das capsulas do geranium, e das valvulas da capsula da impatiens, &c costumaõ formar longitudinalmente hum intorsaõ espiral semelhante á de hum fio torcido.
Debaxo dos nomes de glandulaçaõ, e escabrosidade (glandulatio, scabrities) os Botanicos comprehendem as excrescencias destinadas as secreçoẽs dos vegetaes, e muitas producçoẽs que fazem a sua superficie aspera, escabrosa. Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.
As glandulas (glandulae), segundo toda a extensaõ do termo, saõ qualquer excrescencia
ou porosidade superficial, que serve a alguma secreçaõ; mas huma
accepçaõ restricta, as glandulas saõ pequenas excrescencias
ordinariamente globulares, que se achaõ na superficie das plantas, e saõ
destinadas a filtrar e preparar os succos proprios da especie, a que [Página 252] pertencem; algumas saõ guarnecida de pelos, outras naõ tem pelos
alguns; humas saõ assaz viziveis à vista simplez, outras precizaõ de
lente para bem se destinguirem. As que naõ precizaõ de lente saõ as mais proprias para notas
caracteristicas; daõ se nos peciolos das folhas como no martyrio, nas serraturas, ou
dente das folhas serreadas como
no salgueiro e amendoeira, nas antheras como na adenanthera, junto da bas dose estames como no goivo e couve, por toda a flor e
por todo o corpo da planta (menos na raiz ), como na
fraxinella Nota
Quanto à forma, e outras circumstancias relativas as
glandulas, Vej. o Cap. dos Gland da Prim. Parte deste
Comp.
Verrugas (verrucae), saõ glandulas grossas e hum tanto chatas ou
concavas, com as que se vem nos peciolos das folhas do noveleiro, e ricinus Nota
Taõbem se da o nome verrugas a certos tuberculos ou receptaculos de algumas especies de
lichen.
Callos (calli) saõ pequenas glandulas, pontos, ou globulos duros, contudo algumas vezes este termo he usado taõbem para significar a mesma coiza que cicatrizes ou fossulas superficiaes (pedicularis palustris, protea hirta, obliqua, &c.)
Pontos (puncta), saõ salpicos minimos glandulosos, taes como os que se vem nas flores da fraxinella. Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.
Graõs (granula, s. grana), saõ certas [Página 253] excrescencias globulosas, e callosas que se daõ nos tegumentos das flores da labaça, e outras especies de rumex.
Vesiculas (vesicula, papulae), saõ excrescencias cellulosas ou pequenas
bolhas coradas, e transparentes, que contem dentro em si alguns succos
proprios, como saõ as que se vem na superficie de huma laranja, e que
contem o seu oleo essensial Nota
Taõbem se da o nome de vesiculas as pequenas cellulas succulentas , de que consta qualquer bago de laranja
ou limaõ, e ás fructificaçoẽs gelatinosas do fucus.
Mamillos ou tuberculos (mamilli, s. tubercula), saõ
pontos carnudos, pontudos, e ordinariamente mais largos na base, como os
do cactus mamillaris, e algumas euphorbias Nota
Os tuberculos em algumas especies de
lichen saõ pontos escabrosos e pulverulentos, que constituem o
receptaculo da sua fructificaçaõ. Nas folhas da pulmonaria
e outras asperifolias os pontas asperos, que as salpicaõ saõ
taõbem chamados tuberculos .
Utriculos (utriculi) Nota
Os utriculos considerados em geral podem ser divididos
em internos e externos; os internos dependem da dissecçaõ, e
microscopio para se poderem observar, elles saõ destinados à
preparaçaõ dos succos proprios, e digestaõ dos succos
nutritivos; os externos saõ os que se achaõ na superficie dos
vegetaes, huns saõ pouco apparentes, dos quaes ja fiz mençaõ
debaixo do nome glandulas utriculares, outros saõ assaz
apparentes de modo que ainda mesmo sem lente se podem observar,
e saõ os de que tracto presentemente.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.
Poros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).
Fossulas (fossulae, s. foveae), saõ pequenas cavidades excretorias, como v. g. as que se achaõ na base das petalas da coroa imperial, e outras especies de fritillaria.
Cicatrizes ou pustulas Nota
Taõbem se da o nome de pustulas a huma
especie de enfermidade dos fructos feridos pelo granizo, como
saõ as que se vem nas pera a que o vulgo chama peras
pedradas.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos. Como a preparaçaõ deste fluido pertence igualmente a vasos internos, e o costumaõ extrahir de muitas plantas por meyo de incisoẽs, pareceme ser mais proprio de tractar da sua natureza no capitulo seguinte.
[Página 256]Por succulencia (succulentia, s. lactescentia), os botanicos entendem a qualidade, e cor dos succos que vertem os vasos de huma planta, quando a ferimos ou quebramos.
Os succos das plantas dizem-se ser: aquosos (aquosi succi), quando naõ saõ corados e se assemelhaõ á agoa commua (a videira), lacteos (lactei, albi), se saõ da cor de leite, como nas euphorbias e papoila, amarellos (lutei), como na celidonia; vermelhos (rubri), como os do rumex sanguineus, e os dos ramos tenros do carthamus lanatus.
O succos preparados pelos vasos proprios dos vegetaes que sejaõ extrahidos por meyo de huma incisaõ artificial, quer derramados na casca por ex- sudaçaõ ou rotura, adquirem muitas vezes huma consistencia mais ou menos densa, e saõ chamados neste estado resinas, gommas, e gomas-resinas. As re- sinas (resinae), podem facilmente reconhecer-se, e distinguir-se das gomas pela razaõ de arderem rapi- damente no fogo, e de se dissolverem em espirito de vinho e naõ em agoa, como saõ o pez, thereben- tinas, &c. A gomma (gummi), pelo contrario, naõ arde no fogo, e dissolve-se em agoa e naõ em espirito de vinho, como se vê na goma arabia e na das gin- geiras e amexieiras; a goma-resina (gummi-resina), dissolve-se parte em espirito de vinho e parte em agoa, como se vê na que he extrahida da aloe.
[Página 257]O Sexo das plantas he fundado sobre o das suas flores, e por conseguinte
quasi todas as denominaçoẽs, que se costumaõ dar a estas relativamente ao
sexo, se podem com propriedade dar taõbem ás plantas que as produzem. Pelo que as plantas dizem-se masculinas (plantae mares), quando daõ
somente flores masculas; femininas (feminae), se daõ somente flores
femininas; hermaphoditas (hermaphroditae), se daõ flores hermaphroditas;
monoicas (monoicae), quando no seu tronco ou ramos daõ flores humas
masculinas outras femininas, como o milho, melaõ, e abobara; dioicas
(dioicae), quando em dois individuos da mesma especie ha hum que dà
flores masculinas e outro femininas Nota
O nome de dioica he neste cazo
somente dado a especie, porque os individuos saõ plantas ou
masculinas ou femininas, e o mesmo se deve entender do nome
polygama, quando he dado as plantas proprias da Polygamia dioecia e
trioecia.
Os modernos costumaõ dar o nome de hybridas, ou mulinas (hybridae) a certas
plantas, que procedem de duas especies diversas, assim como no reyno animal
os mulos procedem do coito do jumento e egoa, individos especificamente
differentes. Este effeito tem lugar nos vegetaes em razaõ de cahir o po fecundante das flores de huma especie sobre o pistillo
das flores de outra; as sementes que provêm desta fecundaçaõ saõ as que
produzem as plantas hybridas Nota
Segundo a opiniaõ de alguns Botanicos
todas as especies de plantas que ha hoje na face do globo terreatre
saõ as mesmas que haviaõ nos dias primitivos da terra; elles so
admittem novas variedades e jamais novas especies; outros pelo
contrario saõ de parecer que ha muitas novas especies procedidas do
coito entre individuas especificamente differentes. Esta ultima
opiniaõ naõ me parece ser bem fundada, e as plantas hybridas provaõ
contra ella. As differentes plantas que procedem de differentes
individos ou saõ mestiças, ou mulinas, As mestiças saõ as que provem
de duas especies ou variedades, e daõ sementes fecundas; se cortamos
v. g. os estames a huma tulipa vermelha, e apolvilhamos o seu
pistillo com o po dos estames de huma tulipa brança, as sementes da
dicta tulipa vermelha produziraõ tulipas humas vermelhas, outra
brancas, outras variegadas de vermelho e branco, as suas sementes
seraõ fecundas, e semelhantes plantas por conseguinte devem ser
chamadas mestiças. As plantas mulinas rigorosamente taes saõ as que
procedem de duas especies analogas, ou do mesmo genero, e daõ
sementes sempre estereis ou incapazes de reproduzir individuo algum.
Tanto as mestiças como as mulinas naõ saõ outra coiza mais do que
variedades, a pezar de que algumas tenhaõ sido consideradas como
verdadeiras especies; as mulinas tem quasi todo o habito externo
d'alguma das plantas de que descendem, ou naõ differem da especie
senaõ no viço e infecundidade da flor. Vej. O termo Hybridae
plantae, no Dicc. Bot. vol. 2.
O viço dos vegetaes (luxariatio), he considerado por alguns botanicos ou como floral ou como habitual; o floral he relativo às partes da fructificaçaõ, e delle fallei jà em seu lugar; o habitual consiste na mudança que algumas causas occasionaes fazem nas partes da vegeteçaõ, isto he, em quaesquer partes que naõ saõ flor nem fructo, e como esta alteraçaõ tem lugar nas plantas da mesma especie e as faz variar, e degenerar costumaõ taõbem dar-lhe o nome de variaçaõ ou de degeneraçaõ (variatio, s. degeneratio); mas estes dois termos tem huma accepcaõ mais extensa.
O viço tem lugar ás vezes no tronco,quando as plantas vem a ser cespitosas
(cespitosae) lançando da mesma raiz em hum terreno pingue
muitos troncos, aindaque aliás no terreno que lhes he natural somente
lançaõ hum Nota
Basta muitas vezes cortar o tronco pela base para fazer huma
planta cespitosa.
A degeneraçaõ das plantas pode ter lugar de muitos modos, em razaõ da cultura, mudança de terreno, clima, idade, &c. A cultura naõ amansa menos as feras do que as plantas; ella lhes faz perder os seus espinhos, hispidez, e toda a sorte de pelos, amacia a aspereza dos seus succos, e adoça muitas vezes o amargo e acidez dos seus fructos; as plantas que cultivamos em nossos jardins, hortas, e pomares daõ disro huma clara prova; o estado inculto ou bravio era o seu estado natural; parecenos que lho melhoramos pelas enxertias e amanhos, e pensamos que degeneraõ todas as vezes que por falta da devida cultura [Página 261] tornaõ a ser bravas; mas na realidade aos olhos de hum sabio naturalista he huma verdadeira degeneraçaõ o que chamamos estado de melhoramento; huma amexieira, huma alcachofa hortense, ás quaes a cultura fez perder os seus espinhos, vivem dege- neradas em quanto se conservaõ neste estado; mas logo que abandonadas á revelia da natureza recobraõ seus espinhos, devem ser consideradas como restitui- das ao seu estado natural.
O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs. O clima naõ deixa taõbem de fazer degenerar as plantas quanto à sua duraçaõ, e as plantas que nos paizes quentes saõ vivaces, taes com as chagas, boa noyte, man- jerona, ricinus, &c. transplantadas nos paizes frios vem a ser annuaes. A idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.
O viço e degeneraçaõ podem fazer variar de muitos modos huma mesma especie, mas delles naõ resultaõ jamais novas especies, e he erro crer por ex. que a avea cortada antes da florecencia degenere de tal modo que no anno seguinte se converta em senteio, ou que o trigo em huma terra magra degenere em senteio, este em cerada, a cevada em joyo, &c. O corculo das semente he sempre huma plantula propria, segundo as leys da natureza, para continuar a forma especifica do ente que a produzio, porque aliás teriamos novas creaçoẽs; elle he formado [Página 262] da medulla da planta materna, ou de huma substancia similar de modo, que naõ pode perpetuar senaõ Individuos especificamente semelhantes aquelle a quem esteve apegado no tempo, em que foy gerado e nutrido. Do mesmo modo os ramos, gomos, e bolbos por mais variedades, que possaõ dar, sempre conservaõ os caracteres e essencia da sua especie, porque saõ della meros pedaços vitaes. Pelo que dizer, que hum ramo ou colmo de avea v. g. pode dar huma espiga com sementes de senteio, he querer mudar a natureza das vegetes e fingir chimeras.
Os differentes estados da atmosphera, os excessivos calores ou frios,
qualquer vicio notavel da transpiraçaõ, a obstrucçaõ dos vazos, a plenitude
e condensaçaõ dos succos, e as corrosoẽs e picadas dos insectos saõ as
principaes causas das doenças dos vegetaes (morbi). Ellas saõ taõ
numerosas que podiaõ formar o sujeito de hum bom tractado pathologico Nota
Athe ao presente naõ temos ainda huma boa pathologia nem
therapeuteia dos vegetaes, semelhantes tractados seriaõ
summamente uteis á agricultura, e naõ deixariaõ taõbem de ser
proveitosos á Botanica fundamental.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.
Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.
Cravagem (clavus), saõ pontas denigridas que se observaõ as vezes nas sementes do senteio e junças.
Fogagem (ustilago, uredo), he huma especie de carie das sementes de maneira que a planta, em vez de dar sementes, da huma farinha negra: observa-se muitas vezes nas espigas da cevada, avea, trigo e outras gramas, como taõbem nalgumas especies de escorcioneira, e tragopogon.
Crestamento do sol (aestus, s. aestuatio), quando saõ crestadas pelos grandes
calores, e desmayaõ de tal sorte que ordinariamente perecem. Os antigos
quando viaõ desmaiar huma planta e morrer por hum golpe de sol Nota
Chamaõ
golpe de sol aos raros solares subitamente descortinados de huma nuvem
espessa, e vibrados ardentemente sobre a terra.
Ensoamento (sitis), quando por falta de agoa ou de sufficiente humidade desmayaõ hum tanto, mas tornaõ a restabelecerse, sendo regadas, ou sobrevindo chuvas.
Friagem (pernio), quando saõ em parte crestadas do frio, ou feridas pelo granizo.
[Página 264]Geladura (congelatio), quando todos os seus succos saõ congelados, ou que o movimento destes he de tal modo estorvado e suspendido pelo frio, que morrem.
Marasmo ou atrophia (fames, marasmus, s. atrophia), quando por falta de terra, de succos competentes, ou qualquer outra causa emagrecem summamente ou perecem de magreza.
Corpulencia (polysarchia), quando engrossaõ mais do natural em razaõ dos demasiados succos, e nimia nutriçaõ.
Cancro (cancer), he hum grande inchaço causado pela extravasaçaõ dos succos, sem contudo rebentar a epiderme.
Plethòra ou plenitude (plethora), segundo alguns naturalistas he huma demasiada abundancia de succos de modo que se extravasaõ por meyo de algumas roturas da epiderme, o que constitue hemorrhagias mais ou menos consideraveis; as resinas, gomas, gomas-resinas saõ, segundo elles, especies de hemorrhagias vegetaes occasionadas por huma plenitude de succos.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c. Os insectos causaõ taõbem algumas monstruosidades nas flores, fazendo-as dobrar, prolificar, &c como ja notei em seu lugar.
A grandeza ou medida (magnitudo, s. mensura), he como a notei, ou relativa ou obsoluta; a relativa he a largura, ou comprimento das partes dos vegetaes comparadas humas com as outras; a absoluta consiste nas dimensoẽs conhecidas, ou nas que saõ deduzidas das partes e estatura do corpo humano, que se reduzem as seguintes.
Hum cabello (capillus) he o diametro ou grossura de hum cabello, que se suppoem ser a duodecima parte de huma linha, e neste sentido as partes dos vegetaes dizem-se ser verdadeiramente capillares, (capillares) quando saõ da grossura de hum cabello.
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).
[Página 266]Huma unha (unguis), he o comprimento della, que se suppoem ser seis linhas ou meya pollegada, e neste sentido a grandeza diz-se ser de huma unha (unguicularis).
Huma pollegada (pollex, s. uncia), he o diametro do dedo pollegar ou taõbem o espaço que vay desde a sua ultima junta athe à ponta, que se suppoem ser doze linhas, e neste sentido a grandeza diz-se ser de meya pollegada (semiuncialis) de huma pollegada (uncialis, s. pollicaris), de pollegada e meya (sesquiuncialis, s. sesquipollicaris) de duas pollegadas, &c. (biuncialis, &c.).
Huma maõ travessa (palmus), he a largura de quatro dedos reunidos, excepto o pollegar, e se suppoem ser tres pollegadas; neste sentido a grandeza diz-se ser de meya maõ travessa, de huma maõ travessa, e de maõ travessa e meya (semipalmaris, palmaris, sesquipalmaris).
Hum palmo de craveira, hum palmo maior (dodrans), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do minimo bem estendidos, o que se suppoem ser nove pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo de craveira (dodrantalis).
Hum palmo bastado ou palmo menor (spithama), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do dedo mostrador, seu immediato, bem estendidos, o que se suppoem ser sette pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo bastardo (spithamea).
Hum pe (pes), he pouco mais ou menos o espaço que medea desde o sangradoiro do braço athe á bado dedo pollegar, o que se suppoem ser doze [Página 267] pollegadas, donde a grandeza se diz ser de meyo pe (semipedalis de hum pe (pedalis), de pe e meyo (sesquipedalis) de dois pés, &c. (bipedalis, &c.)
Hum covado natural (cubitus), he o espaço que vay desde o cotovelo athe a ponta do dedo grande, que se suppoem ser desasette pollegadas; a grandeza diz-se ser de hum, dois, tres covados naturaes, &c. (cubitalis, bicubitalis, tricubitalis, &c.)
Hum braço (brachium), he o espaço que vay desde o sovaco athe á ponta do dedo grande, o que se suppoem ser dois pez, donde a grandeza se diz ser de hum braço (brachialis).
Huma braça, ou a altura de hum homem (orgya, altitudo humana, s. hexapoda), he o espaço que vay da extremidade de huma maõ athe a da outra, estando os braços abertos, o que se suppoem ser seis pès, donde a grandeza se diz ser de huma braça (orgyalis, s. sexpedalis).
As cores dos vegetaes (colores), de que tracto presentemente neste artigo, naõ somente saõ as que respeitaõ ás partes da fructificaçaõ, aonde costumaõ ser infinitamente variadas, mas taõbem as que saõ relativas a toda a superficie de qualquer das suas partes. Os antigos consideravaõ as cores como huma das principaes notas do habito externo, com que [Página 268] se podiaõ destinguir as especies; Linneo criticou fortemente este sentimento, dizendo que se bem que ellas podiaõ servir para fazer destinguir as variedades, naõ subministravaõ caracteres seguros para estabelecer especies; alguns modernos contudo naõ admittem inteiramente este parecer, e pensaõ que elle he sojeito a excepçoẽs, como direi em outro lugar. Os differentes gráos de intensidade, com que a natureza còra as flores naõ se podem perfeitamente exprimir nem com vozes, nem com penna, e raras vezes ainda mesmo o pincel as bem imita. Alguns pensaõ que se podiaõ dar sufficientes idéas de muitas dellas, comparando-as com as cores fixas das substancias de que usaõ os pintores e tintureiros; este parecer podia ser adoptado se os Botanicos julgassem ser necessario empregar os nomes exactos das cores na descripçaõ de qualquer planta, mas commumente desprezaõ esta circumstancia, e porisso bastará fazer so mençaõ aqui das cores ordinarias, de que elles costumaõ usar algumas vezes, as quaes se podem reduzir ás seguintes.
Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.
De cor vidrenta ou de cristal (hyalinus, s. vitreus); cor d'agoa (aqueus, s. undulatus) estas cores observão-se muitas vezes nos filetes dos estames e no estylete do pistillo.
Cinzento (cinereus); cor de chumbo (plumbeus, lividus.)
[Página 269]Negro (niger); fusco, pardo (fuscus); fullo, baço (fullus); a cor negra observa-se muitas vezes nas raizes o sementes, mas he raro de a ver nos fructos e ainda muito mais raro na corolla.
Pallido (luridus); cor de pêz (piceus, ater).
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.
Açafroado (croceus); cor de fogo (flammeus, fulvus).
Gris ou griseo (gilvus) cor de tejolho (testaceus).
De cor da ferrugem do ferro (ferruginens).
Vermelho (ruber); as flores do estio, e bagas azedas tem ordinariamente esta cor; vermelho cor de sangue (sanguineus); vermelho cor de carne, ou encarnado (incarnatus); escarlatino, cor de escarlata (coccineus, puniceus); cor de rosa (roseus).
Purpureo, cor de purpura (purpureus, phaeniceus, s. tyrianthinus); purpureo claro (diluté purpureus); purpureo escuro (saturatè purpureus, s. atropurpureus); roxo (violaceus, janthynus, caeruleo-purpureus).
Azul (caeruleus); azul celeste (cyaneus); estas cores saõ mui frequentes nas corollas.
Verde (viridis); verde cor de alho porro (prasi- nus); verdemar (thalassinus); verdenegro (atroviridis). A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.
Garço (glaucus, glaucinus, caesius); a cor garça participa da verde e da azulada, e porisso muitos a [Página 270] comparaõ com propriedade á cor da pedra preciosa chamada beryllo.
O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
Em quanto o numero dos vegetaes geralmente conhecidos foy facil de reter de memoria, ou reduzido somente aos curtos limites de huma materia medica, naõ conhecemos que houvesse destribuiçaõ alguma, que merecesse o nome de systema ou methodo; tal foy o estado da Botanica entre os antigos Gregos e Romanos, e na idade media athe à restauraçaõ das lettras na Europa. Depois desta epoca o numero dos vegetaes conhecidos tendo consideravelmente augmentado, Cesalpino vendo claramente que sem huma disposiçaõ methodica senaõ podia adiantar o estudo dos entes do reyno vegetal, imaginou hum systema, com que os tirou do informe cahos em que jaziaõ; outros sabios seguiraõ depois o seu exemplo, e hoje os systemas em Botanica saõ de huma necessidade absoluta.
A Botanica no estado actual, em que se acha, naõ so costuma tractar dos termos technicos, que conduzem a fazer conhecer hum vegetal por meyo deste ou daquelle systema, mas igualmente ensina em geral o que he hum systema ou methodo Botanico, [Página 277] e como elle se costuma destribuir segundo as regras da boa critica. Estas relaçoẽs e partes didacticas parecem ser inseparaveis em qualquer bom tractado elementar desta sciencia; porque se hum verdadeiro Botanico naõ somente se deve achar em estado de poder entender todos os systemas relativos aos vegetaes, mas taõbem de poder traçar novos; a Botanica por conseguinte deve naõ menos empregarse no que contribue a comprehendelos do que a formalos.
Hum systema ou methodo em Botanica (systema, s. methodus) he hum corpo de
doutrina composto de certo numero de generos supremos, e subalternos que
conduzem gradativamente ao destincto conhecimento das especies vegetaes. Os
generos supremos saõ chamados classes; os subalternos ordinariamente saõ
dois, huns medios chamados ordens, e outros infimos denominados simplezmente
generos; estes ultimos contem as especies, e estas as suas variedades. Em
certo modo hum systema pode comparar-se Nota
Esta comparaçaõ, ainda que naõ
he em tudo exacta, naõ deixa contudo de contribuir para fazer conhecer a
progressaõ das destribuiçoẽs dos systemas.
Mas para proceder com mais clareza, e dar ideas mais exactas dos systemas
Botanicos, devo advertir que todos os que athe agora se tem imaginado podem
ser reduzidos a tres sortes, a saber, systemas naturaes, artificiaes, e
mixtos de naturaes e artificiaes. No systema natural Nota
Este methodo
he chamado natural por conservar as affinidades das plantas do modo
que a natureza nolas prezenta aos olhos; mas nenhum dos que athe
agora se tem publicado he livre de defeitos, nem merece no rigor do
termo o home de methodo da natureza. Os me thodos e systemas, diz
acertadamente M. de la Mark, saõ como os nomes, nem huns nem outros
se achaõ naturalmente nas plantas.Nota
Esta clave dos systemas naturaes deve ser o catalogo
dos titulos das familias naturaes; mas ordinariamente como as
familias saõ numerosas os systematicos Naturistas por querer
simplilicala e abbreviala, reunem as classes naturaes a hum pequeno
numero de classes primarias, as quaes de ordinario saõ fundadas em
huma so nota caracteristica, e por este modo o seu methodo vem a
ficar mixto.Nota
A
clave de qualquer systema, segundo alguns botanicos, he
rigorosamente huma tabella synoptica, e requer esta condiçaõ para
ser boa; mas se o numero das classes he pequeno, a clave pode ser
facil sem ser distribuida synopticamente.Nota
Este systema naõ he puramente artificial, o seu Autor
trabalhou primeiramente nos generos, a que chama naturaes, e depois
servio-se delles empregando-os em classes e ordens artificiaes;
donde nasce hum dos grandes defeitos do dicto systema, havendo
muitos generos, cujas especies naõ tem geralmente o caracter da
ordem ou da classe, e ás vezes mesmo nem o da classe nem o da ordem
(como v. g. o polygonum persicaria.) Alem disso a classe cryptogamia
naõ tem relaçaõ com as demais; os caracteros naõ saõ tirados dos
organos sexuaes, nesta classe, e algumas das suas ordens saõ
proprias de hum methodo natural.
O methodo synthetico he o que conserva mais as affinidades, e o que se chega mais à natureza, mas as suas divisoẽs saõ sujeitas a serem longas e difficeis; nos seus titulos parece haver falta de nexo, os caracteres dos generos parecem obscuros e confusos; as razoẽs de affinidade saõ tiradas de muitas partes, e jamais de huma so ou de poucas, donde resulta que elle so costuma agradar aos que estaõ ja adiantados em Botanica. O methodo analytico ou artificial he opposto à natureza, dissolve e sacrifica ás suas leys as affinidades, e as plantas de huma classe ou ordem natural se achaõ nelle misturadas com as da artificial ou arbitraria. Sem embargo disto, he o mais simplez e facil, serve de hum grande soccorro á memoria e conduz ao conhecimento das plantas por hum caminho plano e abbreviado. Por esta razaõ, e porque as suas divisoẽs genericas saõ estabelecidas sobre o exame de huma das partes das plantas, e agrada mais aos principiantes (que naõ gostaõ nem entendem ordinariamente as grandes combinaçoẽs de caracteres) sem deixar contudo de agradar taõbem e de ser bastantemente util ainda mesmo aos Botanicos consumados; mas para agradar a estes he precião que elle guarde exactamente as suas leys.
[Página 281]Ha taõbem huma sorte de distribuiçaõ analytica chamada synoptica (divisio
synoptica, s. synopsis), que consta de divisoẽs semelhantes ás ramificaçoẽs
das taboas genealogiças, mais ou menos longas, mais ou menos numerosas, sem
limites certos genericos, ou sem se limitarem a classes, ordens, generos e
especies, como as dos systemas ou methodos artificiaes ordinarios. Linneo Nota
Lin. Phil. Botan. n. 153 et 154.Nota
A destribuiçaõ synoptica he taõbem empregada na clave dos
systemos para facilitar a achar as classes.
Todos os methodos e systemas que athe agora se tem imaginado em Botanica saõ mais ou menos defeituosos, e naõ me parece possivel que possa haver algum sem imperfeiçoẽs. Alguns Botanicos saõ de parecer que todos os entes do reino vegetal, que se achaõ proxima, ou remotamente dispersos sobre a face do nosso Globo, formao entre si huma cadea, e fazem parte de hum todo progressivo; que cada individuo pertence a esta cadea em geral, e ao mesmo tempo em particular a huma especie, as especies a generos naturaes, estes a familias naturaes, e que estas familias formaõ gradativamente hum todo encadeado que constitue à clave do verdadeiro methodo natural, em cuja investigaçaõ se devem occupar todos os botanicos, por naõ haver outro na natureza. Elles accrescentaõ que este methodo fora traçado pelo Autor da natureza, cuja profunda sabedoria vinculou todos os entes do universo huns com os outros, e cada hum delles com o todo; que se por ora o naõ podemos plena e perfeitamente perceber, o descobriremos quando tivermos as descripçoes de todas as plantas, que ha no [Página 283] globo terrestre; que prezentemente basta para nos convencer disto observar a gradaçaõ das plantas imperfeitas ás perfeitas, e os fragmentos do dicto methodo natural assaz bem reconhecidos nas familias naturaes das gramas, labiadas, leguminosas, umbrelladas, cruciferas, e algumas outras de que tractaõ os systemas naturaes, os quaes segundo elles naõ saõ outra coiza mais do que pequenos esforços que dirigem a descobrir o verdadeiro methodo natural. Contudo na opiniaõ de outros Botanicos semelhante methodo he o mesmo que a pedra philosophica: admittindo, dizem elles, que senaõ tenhaõ perdido especies nas vastas inundaçoẽs, volcanos e outras revoluçoes do nosso Globo, e que os entes do todo o reyno vegetal se achem encadeados huns com os outros, e cada hum delles com o todo, nem porisso podemos esperar de chegar a ter esse perfeito methodo denominado o unico da natureza; antes pelo contrario isso mesmo parece opporse a obtelo. Essa cadea, ou laço com que os entes vegetaes saõ viculados, naõ saõ outra coiza mais do que as suas affinidades; ora estas affinidades, seraõ sempre irremediaveis obstaculos á perfeiçaõ de qualquer methodo ou systema.
A progressaõ das affinidades, em qualquer me thodo que se pode idear, ou he
synthetica ou anaIytica, em linha de ascenso ou de descenso: a progressaõ
analytica naõ pode ter lugar em hum methodo natural, e a synthetica sera
sempre insufficiente á sua perfeiçaõ. Na supposiçaõ dada, a natureza poz
laços naõ equivocos entre todos os entes vegetaes: por conseguinte naõ poz
balizas nas classes nem em generos alguns, e os seus limites seraõ sempre [Página 284] inconstantes. Se olhamos attentamente para cada hum dos caractéres das
plantas de classes assaz analogaa entre si, e denominadas naturaes, vemos
que posto que existem na maior parte dellas, faltaõ contudo em algumas, que
saõ muito poucas as que tem todos os caracteres constantemente O
lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as
plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla
alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as
labiadas, tem a corolla de hum so labio. As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia
natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames
senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes
Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados
como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha
tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos
pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a
vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim,
ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha
plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto
ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum,
phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.Nota
Sem embargo de que este ultimo sentimento seja assaz provavel, contudo naõ se
segue que devamos abandonar inteiramente o projecto de trabalhar em hum
methodo natural o mais perfeito que nos for possivel. Todos os grandes
Botanicos saõ deste parecer Nota
Haller, Adanson, Jussieu, e Linneo saõ
entre os modernos os que fizeraõ as melhores tentativas, que dirigem a
este methodo; mas desgraçadamente naõ saõ inteirameite concordes nas
metas e generos das suas familias naturaes.
Naõ se segue igualmente que devamos desterrar de Botanica qualquer sorte de systema artificial, e que devamos so occuparnos em fazer methodos naturaes que conduzaõ à perfeiçaõ do methodo dezejado. Os principiantes naõ podem passar sem hum systema artificial, elles naõ se embaraçaõ com affinidades, nem com gradaçoẽs naturaes, e so dezejaõ saber por meyo de poucas operaçoẽs o nome da planta, que encontraõ misturada com outros individios numerosos [Página 286] e de formas differentes. Pelo que sera sempre necessario nas escolas naõ empregar outra sorte de systemas para os introduzir ao estudo de Botanica. Os diversos systemas artificiaes foraõ a causa do progresso que tem feito a Bolanica; cada systematico foy obrigado a observar de novo todos os vegetaes ja observados, a verificar os caracteres conhecidos, e a forcejar por descobrir outros adequados ao seu systema; donde resultou que muitas partes e notas caracteristicas, que dantes tinhaõ sido desprezadas, foraõ bem descriptas, contribuiraõ para melhor fazer reconhecer as affinidades, e enriqueceraõ a Botanica. Os systemas analyticos asem de contribuirem para o adiantamento da Botanica seraõ sempre huns catalogos judiciozos e uteis, pela sua simplicidade, pela brevidade das suas gradaçoẽs, e por ajuntarem os materiaes destinados á construcçaõ de hum bom methodo natural, os quaes hum genio feliz enriquecido de observaçoẽs podera algum dia vir a por em execuçaõ; e ainda mesmo no cazo de termos hum bom methodo natural naõ deixaraõ de servir de ajudarnos juntamente com elle para achar os nomes das plantas com maior certeza e segurança. Eu naõ sou do parecer dos que dizem que basta que haja hum so systema artificial em Botanica, e que os Botanicos deveraõ cuidar em aperfeiçoar hum dos que existem e seguilo geralmente, abando nados todos os outros, por mais aperfeiçoado que seja hum systema artificial tera sempre seus lugares obscuros, seus lados fracos, e naõ sera izento de difficuldades. Nem sempre as partes, que vemos em huma planta, que queremos conhecer, saõ as que servem de fundamento ao systema que seguimos; as [Página 287] que nos podiaõ servir, muitas vezes naõ se achaõ em madureza, ou tem passado; contudo as dictas partes que vemos saõ assaz sufficientes em outro systema para nos fazer conhecer a planta. As notas caracteristicas de hum genero saõ muitas vezes assaz custosas de se perceberem por hum systema, ao mesmo tempo que os caracteres do mesmo genero saõ bastantemente claros e faceis em outro systema. Hum estame abortado, ou supranumerario basta para embaraçar os que usaõ de hum systema sexual, e naõ sabem valerse de outro; em summa, as difficuldades que se achaõ em hum systema podem vencerse com o uso de muitos juntos. Donde resulta, que sem embargo de que demos a preferencia a hum systema, naõ devemos deprezar os mais, principalmente se elles seguem exactamente as suas leys, e saõ formados segundo as regras da boa critica.
Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente. Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes. As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.
[Página 288] Huma classe (classis), no parecer dos Botanicos modernos, he hum
aggregado de muitos generos medios conformes nas partes da fructificaçaõ Nota
Alguns Botanicos modernos saõ de parecer que as classes naturaes
devem tirar os seus caracteres naõ so da fructificaçaõ, mas
ainda de todo o habito externo, e da mesma sorte os generos
infimos, como depois exporei mais extensamente.
As classes humas saõ naturaes outras artificiaes. As naturaes saõ formadas syntheticamente, e constaõ de muitos generos
naturaes Nota
Eu naõ me embaraço aqui com a grande questaõ dos naturalistas, se
ha ou na naõ generos naturaes, e tomo os termos na accepçaõ, em
que Linneo os tomou, segundo a qual hum genero natural he hum
aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural. Nota
Esta circumstancia he rara, e so tem lugar quando huma familia
natural succede ter entre as muitas notas caracteristicas huma
essensial e perpetua, da qual o systema artifcial ou mixto se
vale para fundar huma classe, como se vê na Monadelphia de
Linneo.
As ordens, como subdivisoẽs das classes, devem seguir a sua formalidade
methodica; por conseguinte as das classes naturaes devem ser fundadas em
muitas notas caracteristicas, e as das artificiaes em huma so Nota
Ha alguns methodos denominados naturaes, que devem ser con
siderados como mixtos; nelles ha duas, ou tres sortes de
classes, como he por ex. o do Dr. Jussieu, as primeiras, e as
vezes as segundas quando ha tres sortes de classes,
rigorosamente saõ artificiaes, e as ultimas subalternas, a que
os seus autores chamaõ ordens, saõ as que verdadeiramente
merecem o nome de classes naturaes. Muitas das ordens, que Linneo nos deixou nos seus Fragmenta
Methodi Naturalis, devem taõbem ser consideradas como classes
naturaes ou fragmentos dellas. Daqui se pode colligir que hum verdadeiro methodo natural, que
seguir as suas leys com exactidaõ, deve constar de hum grande
numero de classes, e que no dicto methodo ha bastante
difficuldade em formar devidamente as ordens. Os autores de methodos naturaes, que estabelecerem as classes em
muitos caracteres e fundarem as ordens em hum so, faltaraõ as
leys da uniformidade methodica, pela razaõ de que os seus
generos medios naõ ficaraõ uniformes aos infimos e supremos, e
se assemelharaõ ás ordens artificiaes.
Alguns Botanicos costumavaõ dividir em duas grandes classes primarias
todos os entes do reyno vegetal, a saber, em plantas herbaceas e
lenhosas, ou em hervas e arvores ; mas a doutrina da fructificaçaõ fez
abolir esta sorte de distribuiçaõ primaria que parecia pertencer mais
aos troncos Nota
Esta divisaõ naõ me parece ter sido fundada em nota alguma
constante; porquanto vemos hervas annuaes e biennaes que tem o
tronco de huma consistencia lenhosa; sabemos que a mesma especie
de planta pode ser berbacea na Europa, e lenhosa na America; que
ha hervas que saõ mais altas do que as arvores ; e ainda mesmo a
presença dos gomos he insufficiente, porque na Europa ha arvores que naõ tem gomos, como os naõ tem taõbem as dos paizes situados
debaxo da Zona Torrida. Nota
Quando as hervas, arbustos, e arvores parecem formar huma gradaçaõ de
menor a maior nas especies do mesmo genero infimo, pode-se sem
duvida fundar nellas huma distribuiçaõ; mas esta distribuiçaõ he
so parcial, e naõ a de que fallo presentemente.
Nos systemas artificiaes e mixtos quanto mais [Página 291] longas saõ as classes, tanto mais oppostas saõ á natureza, e difficultozas, como saõ por exemplo a Pentandria e Syngenesia do systema de Linneo, e porisso alguns Botanicos lhes preferem o uso das taboas synopticas que observaõ fielmente as suas leys methodicas. As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos. Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade.
Todas as ideas precedentes saõ relativas á disposiçaõ das classes e
ordens. Quanto á sua denominaçaõ, devo advertir primeiramente que os nomes que ha
em Botanica podem ser reduzidos a duas sortes ou technicos ou
systematicos. Os nomes technicos saõ os que servem para descrever todas as partes dos
vegetaes, elles devem ser immutaveis em todos os systemas, e formar a
linguagem da Botanica Nota
Desgradaçamente nos naõ temos ainda hum bom tractado elementar
que fixe a accepçaõ de todos estes termos; alguns delles saõ
obscuros por se naõ acharem ainda definidos, e outros em
prejuizo do progresso da Botanica tem accepçoẽs inconstantes
segundo as differentes opinioẽ se caprichos dos systematicos, ou segundo as differentes partes a
que saõ applicados; o que he defeituoso, porque nas sciencias
vale mais usar de muitos termos ou de periphrases, do que de
equivocos; à força de querer-mos muito abbreviar, confundimos;
os termos imbricatus, nudus, simplex, &c. saõ disto huma
evidente prova; hum mesmo termo devera sempre ter a mesma
accepçaõ, quer fosse applicado à raiz , quer as folhas , flores,
fructos, &c. Nota
Os nomes dos generos infimos saõ menos sujeitos a mudancas do que
os das ordens e classes. Os nomes das especies, ou saõ triviaes, ou differenciaes
especificos aggregados em huma phrase; huns e outros saõ
sujeitos a mudança no cazo que se descubraõ novas especies, ou
as descobertas, e ja conhecidas se mudem para outros generos; os
triviaes contudo podiaõ, como direi em outro tractado, ser
fixados como os technicos e servir a todos os systemas; deste
modo somente as phrases especificas, e os nomes genericos
intimos e simperiores ficariaõ sujeitos ás mudanças
systematicas.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes. Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.
Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c. De mais disso naõ so devem ser tirados das partes da fructificaçaõ, mas devem taõbem ser fundados em huma nota caracteristica essensial, como saõ por ex. os titulos de cruciformes, siliquosas, papilionaceas, leguminosas, &c.
Cada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.
Alguns Botanicos costumaõ dar a huma familia ou classe natural o nome de
hum genero infimo mais conhecido na dicta familia ou classe, pondo o
dicto nome no plural, dizendo, V. g. as abobaras, as açucenas, as
malvas, &c. ou usaõ de hum termo derivado do nome dos, dictos
generos infimos, dizendo v. g. as cucurbitaceas, as liliaceas, as
malvaceas, &c. Estes titulos saõ proprios dos methodos naturaes, e se achaõ as vezes
taõbem nos systemas mixtos Nota
Como saõ v. g. os titulos das familias da cryptogamia de Linneo
fetos, musgos, algas, e fungos. Nota
Palma, fungus, alga, muscus, filix.
Eu podera tractar aqui ainda de muitas outras circumstancias relativas á boa disposiçaõ e denominaçaõ das classes e ordens; mas como as classes saõ consideradas como generos das ordens, as ordens como generos dos generos infimos, e por conseguinte sujeitas quasi em tudo às mesmas regras methodicas destes ultimos, o leitor entendera facilmente o que falta aqui pelo que direi no capitulo seguinte.
[Página 295]Os generos, como ja adverti, huns saõ superiores outros infimos; no capitulo precedente dei as noçoẽs geraes relativas aos superiores, restame illuminar estas noçoẽs por meyo de huma mais extensa theoria, ou pelas leys didacticas dos generos infimos, que devem fazer o objecto do prezente capitulo.
Hum genero infimo (genus), segundo alguns Botanicos he hum aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural fundado na fructificaçaõ; mas como ha muitos generos infimos que constaõ de huma so especie, outros pensaõ que hum genero infimo naõ he outra coiza mais do que huma divisaõ systematica que comprehende debaxo de huma palavra e caracter, muitas especies de plantas conformes na fructificaçaõ, ou huma so de fructificaçaõ desconforme das especies vizinhas. Esta ultima definiçaõ naõ agrada contudo geralmente, querendo alguns que a conformidade ou desconformidade deve consistir naõ so na fructificaçaõ, mas nas mais partes relativas ao habito externo, e outros accrescentaõ que he improprio dizer que os generos infimos saõ huma divisaõ systematica, quando todos saõ huma obra da natureza, assim como as especies.
Todas estas ideas tem por objecto as duas mais famosas questoẽs debatidas em Botanica: 1º se os caracteres genericos devem somente ser tirados das [Página 296] partes da fructificaçaõ, excluidas todas as mais do habito externo? 2º. Se todos os generos saõ arbitrarios, ou se ha alguns que sejaõ obra da natureza, como são todas as especies?
Gesnero, Cesalpino, Columna e outros foraõ de opiniaõ que os generos somente
deviaõ ser estabele cidos sobre as partes da fructificaçaõ; Linneo seguio
este parecer, e a sua grave authoridade o fez seguir por hum grande numero
de modernos, mas nem todos adoptaraõ este sentimento, elles opposeraõ a esta
theoria o exemplo dos zoologistas, que no reyno animal omittem
ordinariamente os caracteres que a natureza poz nos genitaes, e julgaõ
sufficientes os que se deduzem dos outros organos. Opposeraõ demais disso
que os organos sexuaes e outras partes da fructificaçaõ dos vegetaes, a
que se dava a prerogativa, naõ lhes eraõ mais essensiaes do que aquellas
em que residia a sua vida, como a casca e medulla; que haviaõ muitas
plantas, principalmente cryptogamicas, em que as partes da fructificaçaõ
eraõ muito pouco apparentes, incommodas, e insufficientes para nellas se
estabelecer bons destinctivos genericos, os quaes pelo contrario se
achavaõ nas outras partes e que por conseguinte se devia recorrer a
ellas; que os caracteres habituaes bastavaõ muitas vezes sem a inspecçaõ
da flor para determinar a familia (a que pertencia hum individuo) e
algumas vezes taõbem o seu genero; que era muito util em hum methodo
natural, e em medecina reconhecer, as plantas sem flor, porque esta era
muito menos duravel do que as mais partes, e que por conseguinte os
caracteres fundados nestas partes valiaõ mais neste respeito [Página 297] do que os da fructificaçaõ; que naõ se devia desprezar parte alguma
dos vegetaes, porque todas contribuiaõ a fazelos reconhecer com mais
certeza; que a theoria da fructificaçaõ desprezadora do habito externo Nota
O habito externo neste sentido indica todas as partes de hum
vegetal que naõ pertencem à flor e fructo; de modo que as
bractéas e pedunculos fazem já parte do habito externo.
Quanto à segunda questaõ, Linneo e outros modernos saõ de parecer que todos
os generos saõ naturaes, que naõ saõ obra da arte, mas sim do Autor da
natureza, que os formou nos primitivos dias do globo terrestre, e que por
conseguinte senaõ devem deslacerar, ampliar, contrahir como cada hum quizer
ou conforme a theoria de qualquer Botanico; daõ por ex. os generos
ranunculus, acónitum, nigella, claytonia, passiflora, hybiscus, e outros
semelhantes, que bem examinados parecem indicar que os vegetaes foraõ
formados no principio huns segundo a forma dos outros. Esta opiniaõ tem
contra si a autoridade de muitos celebres Naturalistas e Botanicos Nota
O
Conde de Buffon, o Dr. Daubenton, Oeder, La Mark, &c.Nota
A natureza, diz o Conde
de Buffon, caminha a occultos passos; naõ se sobmette a nossas divisoẽs,
antes parece zombar dellas; passa de especie em especie, e às vezes de
genero a genero por modos imperceptiveis, e porisso se achaõ muitas
vezes especies, que saõ como hum genero intermedio, ou passagem das do
anteoedente ao subsequente: esta he a principal razaõ porque he
impossivel de formar hum perfeito methodo ou systema geral de toda a
Histotia Natural, e ainda mesmo das suas partes.Nota
Vej. as primeiras ediçoẽs do seu Genera plantarum, aonde
consulta os Botanicos a respeito da reuniaõ das especies destes e outros
generos.Nota
Ha especies (diz Mr. de la Mark,
Flor. Franc. vol. 1.) que sendo como gradaçoẽs naõ pertencem nem a hum
nem a outro genero vizinho, sem embargo de serem inclusas em hum delles.
Talvez virá tempo, em que, deseobertas todas as plantas que ha no nosso
Globo, cada genero fique so com huma espeoe, e cada especie com tantas
variedades, quantos forem os individuos. Entre os generos, que Linneo
formou, ha mais de quatro centos que tem so huma especie, elle se vio
obrigado algumas vezes por novas observaçoẽs a mudar muitas especies dos
generos em que dantes as tinha posto, e se hoje fosse vivo, e quizesse
attender ainda às que naõ tem o caracter do seu genero, e às que naõ
seguem as leys da classe e ordem em que estaõ postas, talvez naõ
deixaria de fazer bastantes mudanças.
Taes saõ as principaes reflexoẽs que se costumaõ de ordinario oppor ao parecer de Linneo, e dos que seguem que todos os generos saõ naturaes, mas ainda que dellas resuste que todos os generos tem limites arbitrarios, e que neste sentido naõ merecem rigorosamente o nome de naturaes, contudo como algumas vezes penetramos felismente as verdadeiras affinidades de hum certo numero de especies [Página 305] vegetaes, e formamos generos e familias de antes assaz analogos na sua estructura natural quando isto tem lugar parece me que semelhantes generos e familias podem conservar a denominaçaõ de naturaes em huma accepçaõ menos rigorosa, pela razaõ das suas especies terem entre si huma intima semelhança natural, reconhecida por todos os Botanicos.
Sendo os generos infimos huma divisaõ systematica, que comprehende, debaxo de hum caracter e palavra, huma ou mais especies, do modo que acima expuz, he precizo explicar o que os Botanicos entendem por caracteres genericos e as suas leys didacticas, sem desprezar as que respeitaõ às denominaçoẽs de cada genero.
O caracter de hum genero (character) he a sua definiçaõ, ou qualquer idea
geral deduzida de huma ou de muitas notas, capaz de bem o destinguir de
qualquer outro. Segundo Linneo ha quatro sortes de caracteres genericos, a
saber, o habitual, facticio, essensial e natural. O caracter habitual he
tirado das notas do habito externo, e exprime huma conformidade geral
nas partes vegetaes, que naõ dizem respeito à fructificaçaõ; os antigos
costumavaõ servir se desta sorte de caracter Nota
Elles comprehendiaõ neste caraeter todas as partes das plantas,
ainda mesmo as fiores e fructos, e reconheciaõ às vezes as
affinidades das congeneres melhor do que alguns systematicos; os
hervolarios ainda hoje, somente por meyo do habito externo,
sabem destinguir hum grande numero de plantas. Nota
Alguns Botanicos modernos, como ja disse, saõ de opiniaõ que
aindaque senaõ deva preferir o caracter habitual a todo o que he
tirado da fructificaçaõ, se podem contudo ajuntar a este algumas
notas tiradas, do habito externo para mais o facilitar e tornar
seguro. Nota
Todos os caracteres genericos abbreviados que se achaõ no Systema
Vegetabilium de Linneo ou saõ essensiaes ou facticios. Nota
Linneo foy o primeiro que ideou caracteres naturaes, e os
publicos no seu Genera plantarum, saõ o fundamento dos generos,
no seu parecer, mas rigorocamente o fundamento dos generos he o
caracter natural de cada especie considerado separadamente.
AÇUCENA Nota
Lilium. A traducçaõ, que dou aqui ao publico do caracter generico
natural da Açucena, podia ser menos concisa; mas os que conhecem
o quanto a lingua Portuguesa se chega à matema latina, tanto no
didactico como em qualquer outro estylo, certamente naõ me
notaraõ aqui de ousado: aproveitei-me do favor que o seu proprio
genio me offereceo.
Calyz. Nullo.
Corolla. De seis petalas, campanulada, e estreitada na parte inferior. Pecalas levantadas, encostadas humas as outras, com huma quilha obtusa no dorso, mais largas e mais patentes na parte superior as suas pontas saõ obtusas, grossas, e recurvadas para fora.
O Nectario: he hum rego longitudinal, que se acha gravado em cáda huma das petalas, do meyo para baxo.
[Página 308]Estames. Seis filetes, assovelados, levantados, e mais curtos do que a corolla. Antheras oblongas, e vacillantes.
Pistillo. O germe oblongo, hum tanto cylindrico o com seis estrias. O estylete cylindrico, e do comprimento da corolla. O estigma hum tanto mais grosso do que o estylete, e triangular.
Pericarpo. Huma capsula oblonga, e com seis regos; obtusa, concava, e trigòna, no cume; composta de tres cellulas, e tres valvulas, reunidas com pelos tecidos em grade.
Sementes. Saõ numerosas, encostadas em duas ordens, chatas, e semi circulares pelo lado externo.
N. B. As petalas em algumas especies tem as pontas nimiamente recurvadas de modo que ficam encaracolladas: O nectario em algumas especies he acompanhado de felpa, e em outras glabro.
[Página 309]Todos os caracteres genericos devem, segundo Linneo, ser tirados do numero,
figura, proporção e situaçaõ de todas as partes da fructificaçaõ. Quanto as
mais partes, que constituem o habito externo da planta, o seu parecer foy,
que postoque se deviaõ passar em silencio, mereciaõ sempre de ser bem
observadas e attendidas por naõ multiplicarmos os generos por leves causas,
e nos arriscarmos a fazer generos erroneos. Na formaçaõ dos caracteres
devemSe examinar em todas as especies anasogas todas as partes da
fructificaçaõ, ainda as mais miudas, e as que escapaõ á vista, ou precizaõ
de lente para serem observadas; devem se considerar as notas em que ellas
convem e desconvem, combinar a primeira especie com todas as mais, e todas
com a primeira, porque naõ ha caracter infallivel sem primeiramente ser
conferido e verificado em todas as especies. Na formaçaõ do caracter
natural devem-se somente mencionar as notas em que convem todas as
especies, e excluir como superfluas aquellas em que as dictas especies
desconvem; estas notas devem ser desertptas com termos technicos Nota
Demais disso devem ser escritas em difterentes paragraphos,
segundo as differentes partes da fructificaçaõ, e ter por titulo
em cima o nome do genero, como se vè no exemplo dado do caracter
generico da Açucena. Nota
Os termos tirados de semelhanças sempre presuppoem ideas claras
do primeiro simile, que nem todos podem ter, e porisso se devem
evitar o mais que for possivel; devem-se contudo exceptuar os
que se achaõ bem defindos, e adoptados pela arte, ou tirados
decentemente das partes externas do corpo humano, como dedo,
maõ, orelha, etc. Quanto aos obscenos deduzidos de vulva, penis, scrotum,
praeputium, testiculi, &c. devemos evitalos, ou para melhor
dizer abolilos inteiramente em Botanica, porque temos outros que
podem explicar sufficientemente as mesmas ideas sem ferir a
modestia. A Botanica he hoje cultivada por muitas pessoas modestas de hum e
outros sexo, que naõ podem tolerar semelhante abuso; elle teve
origem no pessimo gosto de alguns medicos dos seculos passados e
principio deste, os quaes por toda a parte naõ viaõ senaõ
objectos e termos anatomicos ainda os mais obscenos e sordidos;
a Botanica que elles sós professavaõ naõ podia escapar a esta
corrupçaõ, e com aquella mesma frivolidade, com que os
applicavaõ a mais nobre entranha do homem (testes enim et nates
cerebro tribuerunt) os applicaraõ taõbem ás mais bellas partes
dos vegetaes. Linneo adoptou este mesmo gosto de termos, e com razaõ o Dr.
Boehmer e outros modernos o censuraõ de os ter muitas vezes
prodigalizado; porquanto podramos muito bem passar na descripcaõ
das escamas cordiformes, e convergentes das sementes do
melampodium sem os termos de formam vulvae, sem o de calyx
peniformis no caracter especifico da datura metel, sem o do
receptaculo elongato in praeputium no fructo do teixo, sem o de
capsula scrotiformis no fructo da mercurial, &c. &c. Nota
Linneo (Phil. Bot. p. 123 diz que todas as vezes que em huma
planta as flores diversificaõ no numero das suas partes, so se deve
attender ao da primeira flor, isto he, ao das flores terminaes, e
porisso classou a ruta, chrysosptenium, monotropa, tetragonia, evonymus,
philadelphus, e adoxa em classes ou ordens contrarias ás que indica o
namero dos organos sexuaes das flores dos lados; mais isto naõ tem sido
adoptado por todos os modernos, e com justo motivo; supponhamos por ex.
que huma planta da quiuze flores, a terminal com cinco estames e todas
as mais que se seguem lateralmente ou desabotoaõ depois, tem todas
quatro estames, se a classamos antes na Pentandria do que na Terrandria,
a flor terminal sendo huma so e dosflorecendo primeiro que todas as
outras porá certamente hum grande obstaculo aos que quizerem achar a
classe da planta pelas fiores fateraes que observaõ, pois lhes he
necessario estar sempre presentes no periodo em que desabotoa &
dicta primeira flor, para poder reconhecer a sua classe; pelo contrario
se a classamos na Tetrandria, ninguem duvida que em todo o tempo em que
ella der flores, todos poderaõ descobrir facilmente a sua classe. He
verdade que a natureza mostra de ordinario nas primeiras fiores todo o
Seu vigor e perfeiçaõ, mas às vezes este vigor passa a ser viço, e por
conseguinte o mais seguro sera sempre guiarmos pela maior parte das
flores, quando quizermos determinar o numero das suas
partes.
A figura da flor he hum guia mais seguro, e mais digno de attender-se em
geral na formaçaõ dos generos do que a do fructo. Sem embargo de que os
antigos parecem ter feito maior cazo da estructura do fructo, contudo
todas as vezes que as flores convem, e os fructos differem (concorrendo
aliás todas as mais condiçoẽs requisitas) em hum certo numero de
especies, todas estas devem ser reunidas Nota
Este parecer he de Linneo, e como o mais methodico e proprio para
evitar multiplicidade de generos fundados em leves motivos,
parece me que devera ser seguido por todos os Botanicos; contudo
o Dr. Jussieu se desviou delle, adoptando a opiniaõ dos antigos,
e desunindo por conseguinte em differentes generos as especies
ou falsos generos, que Linneo tinha reunido em hum so no
rhamnus, pyrus, e prunus, deste modo segundo elle, a pereira,
maceira, e marmeleiro çaõ tres generos, e naõ especies de hum
so. Nota
O Dr. Jussieu e alguns outros modernos querem (contra Linneo) que
as especies de geranium, principalmente em razaõ da regularidade
e irregulidade da corolla, devem ser divididas em dois generos;
mas a anologia das mais partes da fructificaçaõ provaõ a favor
do parecer di Linneo.
As flores viçadas, monstruosas, e mutiladas naõ devem jamais ser fundamento de caracteres genericos, que sò devem ser tirados das flores naturaes. A prole, no cazo de prolificaçaõ, nos fara reconhecer o estado de viço; o calyz, e ultima ordem de petalas podem contribuir para dar-nos idea do estado de huma flor viçada, mas para melhor o reconhecer-mos sera precizo semear ou transplantar a planta viçada no seu terreno natural ou em hum chaõ magro. O calyz he menos sujeito a viço do que os estames e corolla, e os estames menos sujeitos a elle do que as petalas. O nectario, aindaque em algumas flores he sujeito a viçar, naõ deixa contudo de ser hum bom fundamento de caracteres genericos.
Pode haver huma nota singular commua a muitas especies, mas nem porisso se segue que devaõ sempre pertencer a hum so genero; pelo contrario, pode haver na maior parte das espocies de hum genero huma nota singular, que falte nas outras taõbem proprias do dicto genero, e naõ se segue porisso que se devaõ desmembrar, e com ellas constituir dois generos. [Página 313] Nestas circunstancias he precizo attender muito a analogia de todas as partes da fructificaçaõ, sem desprezar contudo o habito externo, e ter sempre presentes estas leys fundamentaes "que naõ se devem reunir plantas que convem so em poucas notas, sendo aliás muito dessemelhantes em todas as mais; nem taõbem que huma planta se deve separar das suas analogas em razaõ de huma nota, quando aliàs convem com ellas em todas as mais ou na maior parte."
No catalogo dos generos de huma ordem ou divisaõ systematica, deve haver cuidado de dispor proximos huns aos outros os que tem mais affinidade entre si, porque esta disposiçaõ naõ so facilita a achar os nomes das especies, mas presenta taõbem commodamente ao leytor as ideas de anologia, e encadeamento dos generos huns com outros, as quaes lhe saõ muitas vezes necessarias.
Tenho exposto em geral o que pertence às leys didacticas de huma disposiçaõ generica, restame tractar das que dizem respeito à denominaçaõ. Depois que hum Botanico descobrio ou formou hum genero, ou depois que observou que hum certo numero de especies convinhaõ no mesmo caracter natural, e por conseguinte pertenciaõ a hum so genero, segue-se imporlhe o nome. Este nome he chamado generico por ser geral e commum a muitas especies, ou idoneo a se lo no cazo que o genero tenha huma so especie; poem-se como titulo sobre huma descripçaõ generica ou caracter natural do genero, e se costuma taõbem pôr antes de qualquer nome trivial ou phrase especifica. Portanto todas as [Página 314] especies que convem no mesmo caracter generico, ou que formaõ hum so e mesmo genero, devem ter hum so e mesmo nome generico, e por conseguinte as que differem em genero devem ter hum nome generico differente.
Como o idioma universal, de que se servem os Botanicos, he o latino, o leytor entendera facilmente que eu somente me occuparei aqui em mencionar as regras relativas aos nomes genericos escriptos em latim, as quaes ce podem reduzir às seguintes.
Todo o nome generico genuino deve convir com igual propriedade a qualquer das
especies; a sua significaçam ou idea etymologica nam deve ser adequada a
humas especies e inadequada as outras congéneres: porisso os melhores nomes
genericos sam aquelles, cuja etymologia he desconhecida, ou cuja
significaçam nam allude á estructura, propriedades, usos vegetaes, &c.
mas so serve de conservar a memoria de alguma personagem benemerita
principalmente dos grandes Botanicos, e dos que se assinalaram em
protegelos, ou em promover a Botanica. Segundo Linneo os nomes genericos,
cuja significaçaõ envolve hum caracter essensial, ou hum destinctivo
habitual, podem ser considerados no numero dos melhores, taes como v. v.
o de adenanthera, e glycyrrhiza, o primeiro indicando o caracter
essensial de hum genero, cujas especies tem todas huma glandula nas antheras , e
o segundo indicando o destinctivo habitual de outro, cujas especies tem
todas a raiz doce: mas na supposiçaõ Nota
Esta hypòthese
he assaz possivel e conforme à doutrina de Linneo, que confessa que
hum caracter essensial pode deixar de o ser, descobertas novas
especies, e que huma nota singular pode convir ora a muitos generos,
ora somente á maior parte das especies de hum so genero. Vej. Phil.
Bot. de Charact.Nota
Chrysanthemum v. g. significa
etymologicamente flor cor d'oiro mas como a especie leucathemum he
hranca, se confiamos na etymologia, diremos: flor cor d'oiro branca,
o que he absurdo.
Donde se segue que senaõ devem usar nomes genericos fundados em
semelhanças das partes Nota
Principalmente as obscenas, e porisso senaõ devem imitar os
termos phallus, clitoria, orchis, &c.
O nome generico deve ser inteiro e naõ constituido por duas palavras separadas como v. g. dens leonis, porque esta separaçaõ he contraria á facilidade e simplicidade methodica. Linneo he de parecer que os nomes genericos substantivos saõ melhores do que os adjectivos, e que os diminutivos ainda que toleraveis naõ saõ os melhores, mas todos elles me parecem igualmente bons quando convem adequadamente a todas as suas especies, e guardaõ as mais leys necessarias.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto. Os nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies. He pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos. Naõ se devem taõbem formar dos nomes technicos [Página 319] ajuntandolhes huma ou duas syllabas como v. g. terminalia.
Os nomes genericos naõ devem ser escritos com lettras gregas, mas latinas;
naõ devem ser longos, difficeis de pronunciar-se ou malsoantes, como v.
g. callophyllodendron, acrochordodendros, caráxeron, mas curtos Nota
Naõ devem ter mais de doze lettras, segundo Linneo; no meu
parecer, nenhum nome generico ou especifico deve ter mais de cinco
syllabas.
Segundo Linneo os nomes genericos que se achaõ adoptados naõ se devem mudar
por outros mais competentes ou melhores, porque todos os dias achariamos
ainda outros mais adequados e jamais cessariamos de innovalos, se tivessemos
autoridade para isso. Esta idea parece-me ser acertada quanto aos bons
nomes genericos, que hoje se achaõ adoptados, e que [Página 320] competem com igual propriedade a todas as suas respectivas especies;
mas quanto aos que saõ maos ou vierem a selo, naõ vejo razaõ forte que
empeça de mudalos, em hum bom systema de nomenclatura, que fixe os nomes
de todos os vegetaes Nota
Este meu sentimento talves parecera estranho
a alguns Botanicos, mas eu espero de publicar em outro tractado o
modo com que elle se podera pôr em execuçaõ sem os inconvenientes
que se costumaõ commumente objectar.
Cada novo genero deve ter hum novo nome; mas se for preciso partir hum genero antigo em dois ou mais, o nome do antigo ficará, ás especies mais conhecidas, medicinaes, ou ás que melhor competir a sua significaçaõ etymologica, e as de mais especies do dicto antigo genero seraõ destribuidas debaxo de outro nome generico ou formado enteiramente de novo, ou tirado da synonymia das dictas especies, que se devem sempre preferir no cazo que seja bom.
[Página 321]As especies saõ a subdivisaõ do genero, assim como esta subdivide a ordem.
Toda a especie (species) he huma forma vegetal creada nos primitivos dias da
terra pelo Deos da natureza, e conservada em successivas reproducçoẽs de
plantas hermaphroditas, monoicas, dioicas, ou polygamas sempre
essensialmente semelhante. Esta semelhança naõ deve ser tomada em hum
sentido exactissimo, e em todos os accidentes, mas somente na estructura
essensial, porquanto he sujeita a variedades ou a certas differenças
accidentaes e de pouca duraçaõ. Donde se deduz que tantas saõ as formas
essensialmente diversas que hoje vemos, quantas saõ as especies. Estas
formas foraõ dadas no principio aos primeiros individuos de cada especie
juntamente com certas leys generativas; em razaõ destas leys tem sido
conservadas athe agora e seraõ perpetuadas em quanto existir a prole dos
dictos individuos; ellas jazem, pelo assim dizer, potencialmente retractadas
na estructura intima do corculo das suas sementes; este corculo ou conserva
a sua estructura propria e força germinativa, ou naõ; se naõ conserva estas
condiçoẽs perecerá infallivelmente, e se as conserva dara o producto que se
achava retractado na sua intima estructura, isto he, hum individuo que tenha
a mesma forma da planta materna que o gerou. O terreno e algumas outras
causas [Página 322] externas poderaõ fazelo desviar hum pouco da forma costumada, mas elle
seguira sempre as leys da sua estructura essensial ou conservará sempre
sufficientes notas caracteristicas da sua especie original. Se huma
planta por ex. varia nos fructos ou divisaõ das folhas , a forma do tronco, flores, sementes,
&c. apontaraõ a especie a que elle pertence. Donde resulta que podem haver muitas novas variedades, mas naõ especies
novas, nem Nota
As transformaçoẽs das sementes saõ assaz desmentidas pelas razoẽs
mencionadas; alem disso naõ consta que nos jardins Botanicos
aonde ha muitas mil plantas jamais se tenhaõ observado; as
disseminaçoẽs clandestinas e a germinaçaõ das sementes que
estiveraõ alguns annos occultas illesamente debaxo da terra saõ
certamente a causa occasional de semelhantes enganos.
As especies tem seus caracteres, assim como os generos; estes caracteres saõ
chamados especificos: os dos generos devem, segundo Limneo, ser tirados so
das partes da fructificaçaõ, mas os das especies podem ser deduzidos de
todas as partes da planta. Os caracteres especificos saõ de tres sortes ou
essensiaes, ou synopticos, ou naturaes; os dois primeiros presentaõ em huma
phrase (posta depois do nome generico) as principaes notas constantes, pelas
quaes huma planta differe de todas as outras conhecidas no mesmo genero; o
ultimo contem em muitas phrases o de talhe exacto de todas as partes de huma
planta quer seja solitaria no seu genero, quer acompanhada de outras
congeneres conhecidas. O caracter essensial he fundado em huma nota
singular differencial, propria de huma so especie, e enunciada em duas
ou tres [Página 323] palavras, como v.g. tanchagem de hastea uniflora, betula de folhas redondas, e crenuladas;
quando se pode descobrir este caracter, deve-se extinguir o synoptico,
como mais extenso, e se nos o podessemos obter em todas as especies, a
sua brevidade, facilidade e certeza poriaõ certamente a Botanica no seu
summo grao de perfeiçaõ. O caracter synoptico he fundado em huma aggregaçaõ de notas
destributivas, das quaes humas convem ás especies proximas, outras
differem dellas, mas achando-se reunidas em huma somente a fazem
destinguir de todas as mais congeneres conhecidas, como v.g. quando
dizemos: salgueiro de folhas serreadas, glabras, ovadas, agudas, e quasi rentes. Vêse claramente
que este caracter he sempre mais extenso do que o essencial, mas quanto
menos extenso for, tanto melhor sera, contanto que a sua brevidade o naõ
faça ficar insufficiente, defeito que alguns Botanicos notaõ nalguns das
especies do systema de Linneo. Ordinariamente costuma ser annunciado por
doze athe quatorze vocabulos quando muito, e com effeito parece que este
numero he sufficiente aos caracteres synopticos ainda considerados na
sua maior extensaõ; porquanto supponhamos por ex. que hum genero he
vastissimo e consta de cem especies (o que he rarissimo); todas estas
especies por hum methodo synoptico seraõ quando muito divididas 1º em
duas vezes 50 Nota
Se ellas saõ susceptiveis de se dividir 1º. v. g. em tres partes
como 26, 34, 40, he claro que as subdivisoẽs daraõ ainda menos
vocabulos. Nota
Ponho 13 em lugar de 13 mais 12 por evitar prolixidade nas
subdivisoẽs posteriores, entendendo-se facilmente que 13 deve
ser dividido em 7 e 6, e 12 em duas vezes 6 e assim dos
mais. Nota
(N...) lugar do nome generico.Nota
A razaõ que elles costumaõ dar ordinariamente he, que as longas
descripçoẽs saõ fastidiosas e naõ se lêm; mas deveraõ reflectir
que as descripçoẽs breves ou phrases synopticas e essensiaes saõ
sujeitas a mudanças e a serem insufficientes em novos systemas
ou descobertas novas plantas; e que pelo contrario hum caracter
natural especifico bem delineado he immudavel, e como tal se
recorrera sempre a elle, e sera sempre lido por todos os
verdadeiros Botanicos, ainda que o naõ seja pelos que so querem
ter huma noticia superficial de Botanica. Vale mais gastar
muitos annos, e fazer obras solidas do que edificar sobre a area
apressadamente só por granjear em pouco tempo o nome de
architecto. Nota
Como v. g. Mathiola de folhas asperas, hum tanto redondas, e de fructo
denigrido: assim especificada pelo Padre Plumier, celebre
botanico d'Elrey de França no serviço da America. Nota
Como saõ o Species plantarum, e o Systema vegetabilium de
Linneo. Nota
Este caracter como involvendo em si todas as
notas da fructificaçaõ e mais partes do habito externo, satisfaz
completamente a ambas as relaçoẽs de genero e especie, debaxo das
quaes se podem considerar semelhantes plantas solitarias. Eu
tractarei mais particularmente deste sujeito na minha Specinomia
vegetabilium.
As notas differenciaes, em que se costumaõ fundar os caracteres essensial e
synoptico, saõ tiradas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ das partes
constantes ou menos sujeitas a variar. As raizes podem subministrar
excellentes notas destinctivas, mas como ordinariamente senaõ podem metter
nos hervarios, e que para as poder observar he precizo sempre arrancar a
planta, o que senaõ deve fazer nos jardins, naõ devemos recorrer a ellas
senaõ no cazo urgente de naõ ter outros meyos de bem destinguir as especies,
como succede por ex. nas orchideas. Podemos, em lugar dellas, servirnos
dos troncos, ramos, pedunculos, peciolos, e principalmente das folhas , as quaes fornecem
ordinariamente as mais bellas, e naturaes differenças. Os gomos,
bolbilhos sobreradicaes, as armas, bracteas, estipulas, glandulas, e a [Página 328] inflorescencia ou disposiçaõ das flores podem taõbem dar-nos muitas vezes
excellentes sinaes destinctivos. O cotanilho, felpa e pêlos saõ
ordinariamente empregados nos caracteres synopticos como notas
concomitantes; ellas saõ contudo as menos seguras, porque costumaõ
falhar ás vezes em razaõ da cultura, terrenos e idade das plantas Nota
Todas as vezes que os individuos naõ tiverem outra differença
mais do que os pêlos, naõ se devem reputar por differentes especies,
assim o Thymus serpillum e glabrum saõ sò variedades da mesma
especie; a Herniaria glabra e hisurta, de que Linneo fez duas
especies, parecem taõbem ser somente variedades, e talvez ainda
muitas outras.Nota
A viola mirabilis ainda que dá
na primavera flores radicaes petaleadas, como no estio todas as suas
flores caulinas saõ despetaleadas e dellas resulta o fructo, a falta
de corolla foy julgada ser huma excellente nota para a caracterizar
especificamente.Nota
Os sexos separados saõ postos no numero das variedades
naturaes pelos Botanicos modernos. Os antigos antes de Camerario naõ
tendo hum exacto conhecimento dos sexos, davaõ ás vezes o nome de
macho á planta, que pensavaõ ter mais virtude medicinal ou ser mais
vigorosa do que outra intimamente analoga, e esta porisso mesmo que
tinha menos virtude, vigor, ou extensaõ era segundo elles denominada
femea; daqui procederaõ os erros de darem os dictos nomes ás
hermaphroditas, e ás cryptogamicas de sexo obscuro, como v. g.
paeonia mas, paeonia faemina, filix mas, filix faemina, &c, e de
chamarem masculas as que eraõ femininas e vice versâ, como se vê no
canamo e mercurial.
A cor varia muito na mesma especie; a raiz da cenoira ora he
amarella ora vermelha ou branca; as do rabaõ radisio huma vezes he
branca outras denigrida; as folhas da mesma especie de aquifolio, buxo, persicaria,
amarantho papagayo, &c. ora saõ inteiramente verdes ora variegadas;
na faya, na alface e armoles hortense saõ ou verdes ou vermelhas, e nas
couves naõ deixaõ taõbem de haver exemplos de [Página 330] mudança de cor nas folhas . Mas nenhuma parte be mais sujeita a variar de cor na mesma especie do que
a corolla passando ora a cores mixtas ora a cores simplez, de que temos
exemplos nos jacinthos, tulipas, rainunculos Nota
Tournefort contou em huma sò especie de jacintho 36 variedades,
93 em huma especie de tulipa, e mais de 200 em huma de
rainunculo. Nota
Esta regra geral he sujeita a algumas excepçoẽs no parecer de
alguns Botanicos; algumas especies de Lichen e Agaricus segundo
elles, naõ se podem bem destinguir sem empregar os caracteres
fundados nas cores, e as divisoẽs synopticas das especies de
gnaphalium e achillea, fundadas na cor branca e amarella das
flores, saõ bem acertadas, e seguras; elles pensaõ que ha flores
de cores fixas, e muitas que rarissimamente mudaõ de cor; que
por conseguinte naõ ha razaõ sufficiente para naõ as empregarmos
nos caracteres synopticos; segundo elles, Linneo estabeleceo a
este respeito huma regra nimiamente severa, e devera attender
que muitas das notas tiradas da determinaçaõ das folhas , e direcçaõ do
tronco, que elle admittio geralmente como excellentes, saõ
algumas vezes menos seguras do que as cores de algumas flores.
Os cheiros como variaõ segundo os olfactos de differentes individuos, e naõ saõ susceptiveis de se poderem bem definir, naõ podem subministrar destinctivos claros das especies, nem ainda mesmo os que saõ denominados cheiros comparativos ou allusivos aos das plantas mais conhecidas; como v. g. ao do limaõ, herva doce, herva cidreira, cravo, canella, &c. Os sabores variaõ taõbem naõ so segundo os diversos organos gustativos, e idades de cada individuo, mas ainda segundo os terrenos e climas, e emfim podem ser adoçados e abrandados pela cultura: donde se collige que devem ser excluidos dos caracteres synopticos e essensiaes; demais disso as observaçoẽs gustativas saõ arriscadas, havendo algumas plantas, de que basta que hum modico succo toque a lingua para envenenar.
Os defeitos procedidos de enfermidade, mutilaçaõ, de viço ou monstruosidade em qualquer parte que se achem nas plantas saõ incapazes de poder servir de notas em caracter algum especifico; as flores dobradas, semidobradas, proliferas e mutiladas devem somente ser consideradas como notas naõ naturaes, que so podem caracterizar huma variedade de especie: alem disso as plantas, a que ellas pertencem, sendo originarias das especies naturaes, conservaõ sempre os sufficientes destinctivos da sua propria [Página 332] especie, e da mesma sorte que hum monstro naõ constitue especie entre os animaes, assim taõbem entre os vegetaes.
As virtudes e tisos diéteticos, medicinaes, e economicos, como naõ constituem partes das plantas, nao devem ser fundamento de caracteres especificos, ainida que possaõ entrar nas descripçoẽs historicas das es pecies; donde se segue que saõ erroneos todos os termos empregados nas phrases especificas destinados a indicar as virtudes e ussos, como v. g. purgativo, antiscorbutico, officinal, usual, venenoso, mortal, sadio, saudavel, dormideira, furioso, alimentar comestivel, bom para bassoiras, penteador, usado dos tintureiros, bom para tintas, &c., &c.
Os diversos climas, paizes e quaesquer lugares relativos á habitaçaõ das
plantas, como sendo-lhes accidentaes, naõ podem subministrar boas notas
especificas. Alem disso as plantas que se daõ em huma parte do nosso globo
podem-se dar em outra; temos exemplos de muitas especies naturaes da
Lapponia e Siberia, as quaes se achaõ igualmente no Canadá, outras que naõ
saõ mais particulares á Europea do que á Africa, e outras emfim que sendo
indigenas da Asia nascem naturalmente taõbem na America; as mesmas especies,
que se daõ nas lagoas, achaõ-se ás vezes nas altas montanhas; ha algumas que
se daõ tanto nos charcos como nos bosques, e outras que saõ raras em hum
paiz e abundantes em outro. Os que vem huma grande collecçaõ de plantas de
todas as partes da terra em hum jardim Botanico, ou em hum copioso hervario
de plantas seccas ou estampadas, e dezejaõ descobrir o nome de huma planta [Página 333] ou estudala por hum systema, so se podem servir dos termos relativos à sua
estructura, ficando-lhes indifferentes ou superfluos todos os que dizem
respeito, á sua habitaçaõ. Donde resulta que os termos geographicos, e todos
os que saõ relativos á habitaçaõ das plantas, naõ devem entrar em caracter
algum especifico, e que por conseguinte saõ erroneos os de Africana,
Europêa, Asiatica, Americana, occidental, oriental, austral, Portugueza,
Hespanhola Nota
Este defeito ficou nos nomes triviaes.
Os tempos de crescer, e florecer, como sujeitos a mudar e accidentaes ás plantas, naõ podem ser fundamento de notas especificas, e por conseguinte se empregariaõ erradamente nos caracteres especificos os termos de serodeo, temporaõ, da primavera, outono, estio, inverno, de Março, Mayo, de todos os mezes, de huma hora, que florece de noyte, &c.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura. Pelo contrario, a grandeza relativa, por meyo da qual as partes da mesma planta saõ comparadas humas com as outras, subministra notas assaz seguras, e se pode adequadamente empregar nos caracteres essensiaes e [Página 334] synopticos, pode-se por ex. caracterizar muito bem huma especie de lobelia, dizendo que ella tem pedunculos curtissimos e o tubo da corolla compridissimo. A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c. Donde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c. Da mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c. Nem sera menos vicioso usar de diminutivos e das termimçoẽs em oide ou forme, como v. g. genciana gencianella, isto he, pequena genciana que se assemelha á grande, couve asparagoide ou asparagiforme, isto he, couve que se asselha na forma ao espargo.
Todos os termos empregados nas phrases especificas, ou destinados a
exprimir as notas caracteristicas, devem ser claros, breves, e proprios
naõ se de vem por conseguinte usar os figurados, como v. g. dizer urtiga
morta ou fatua, em lugar de inerme, gentil por muito cheiroso, de flor
ou de folha por flores ou folhas , &c. Saõ igualmente improprios todos os que
saõ deduzidos de huma ordem numeral, como v. g. rainunculo primeiro,
segundo, terceiro, &c. e os que exprimem o nome de alguma personagem
como v. g. trevo de Gaston, narcizo de Tradescancio, &c., porque
semelhantes nomes naõ daõ ideas de nota alguma que se acha na planta. Da
mesma sorte os que saõ fundados em hypotheses, como v. g. dictamno
verdadeiro, falso, ou bastardo, e os que daõ ideas vagas e muito
arbitrarias, como v. g.. flores lindas, feas, &c. Nenhum adiectivo deve
ser usado sem ter antes hum substantivo technico Nota
A technelogia viria
por este modo a ser inconstante e muito vaga, o que seria defeito;
porquanto deve ser fixa, em razaõ de se oppor á corrupçaõ da sciencia,
conservando a certeza e clareza da sua linguagem.Nota
Este e outros muitos defeitos ficaraõ nos triviaes, de que usa
Linneo no seu Species plantarum, nomen clatura, que
ordinariamente se oppoem a que as leys da boa critica
estabelecidas pelo mesmo Botanico naõ sejaõ uniformes.
Ha contudo alguns nomes compostos das particulas privativas latinas e,
in, ou do a priativo grego Nota
Como v. g. enervis, enodis, eglandulosus, inermis, indivisus,
impunctatus, inarticulatus, acaulis, &c; alguns destes
termos podem traduzir-se pelas palavras Portuguesas compostas da
particula des. Nota
Como v. g. muticus, nudus.
Todos os termos assimilativos, isto he, destinados a exprimir
semelhanças, naõ devem ser usados nas phrases especificas, porque he
rarissimo que o asse melhado represente o seu simile perfeitamente, e
demais disso este fica muitas vezes sendo obscuro como v.g. se
dicessemos: folhas semelhantes
ás segures Romanas. Devem-se contudo exceptuar os que se achaõ definidos ou geralmente
adoptados, e os que saõ decentemente Nota
Vej. a Nota relativa aos termos assimilativos destinados á
descripçaõ dos caracteres genericos.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro. Naõ devem constar de termos superfluos, como seriaõ por ex. os que indicassem todas as variedades, ou se opposessem a ellas; nem ser taõ succinctas, que lhes faltem [Página 339] os termos sufficientes para bem caracterizar a especie. Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces. A conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas. Quando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa. O parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem. Como o caracter natural de qualquer especie exige ser descripto em muitas phrases, segundo as differentes partes de que consta; cada phrase deve ser posta separadamente para maior clareza, como exporei mais particularmente, quando tractar da descripçaõ das plantas.
Antes de Linneo as especies eraõ somente nomeadas com o seu caracter
synoptico ou essensial, posto immediatamente depois do nome generico; e em
razaõ disto todos os termos que nelles entravaõ, e ainda os mesmos
caracteres eraõ chamados nomes especificos (nomina specifica). Elle
conservou a mesma accepçaõ, e uso; mas vendo que naõ era possivel de
retelos de còr, e que eraõ sujeitos a mudança, descobertas novas
especies, imaginou de pôr entre elles e o nome [Página 340] generico hum termo Nota
As vezes saõ mais, como v. g. Impatiens noli me tangere: Panicum
crus galli, &c; mas isto he raro. Nota
Eu publicarei na minha Specinomia vegetabilium as regras, a que
os triviaes se podem sujeitar, e proporei hum systema de
nomenelatura invariavel em todas as destribuiçoẽs methodicas ou
systemicas, que se possaõ imaginar em Botanica.
Quanto á disposiçaõ das especies, facilmente se entende pelo que tenho dicto neste capitulo, que as que tiverem mais affinidade entre si devem estar mais conchegadas.
[Página 342]Huma variedade em Botanica (varietas), he huma forma vegetal desviada accidentalmente, por alguma causa occasional, da forma primitiva creada de que he originaria; ou para o dizer mais breve, he a especie accidentalmente mudada depois da creaçaõ. Eu não incluo nestas definiçoẽs as variedades naturaes creadas, que consistem nos sexos, mas fallo taõ somente das variedades casuaes que tem havido, ha, e podem ter lugar nas reproducçoẽs das especies primitivas. As variedades naturaes creadas saõ huma estructura vegetal creada em tudo identica a outra, mas differente no sexo ou n'alguns accidentes. Suppondo pois, como he provavel, que o Autor da natureza creasse no principio n'algumas especies vegetaes os dois sexos individualmente separados, assim como nas especies dos animaes; as variedades naturaes creadas saõ por conseguinte taõ antigas como a sua especie; porquanto consistindo a especie nas partes da estructura em tudo identicas e commuas aos dois sexos, e sendo as variedades naturaes creadas fundadas nestas mesmas partes acompanhadas da differença sexual, estas so por abtracçaõ methaphysica e naõ por ordem de tempo se podem perceber separadas da sua especie. Mas na hypothese de que todas as especies, que saõ hoje dioicas, foraõ creadas hermaphroditas, e [Página 343] que huma causa occasional, alguns seculos depois da creaçaõ, as tornou dioicas, neste cazo a unisexualidade somente deve constituir huma variedade casual, e naõ na tural creada.
As variedades saõ taõ proprias do reyno vegetal, como do animal; porque assim
como vemos na mesma especie canina, caẽs d'agoa, de fila, perdigueiros,
galgos, sabujos, &c., &c. assim taõbem opservamos na mesma especie
de pereira, as que daõ peras bojardas, carvalhaes, flamengas, do conde,
gervasias, pardas, &c.; e notamos na mesma especie de murriaõ plantas de
flores escarlatas e outras de flores azues. Todas estas variedades saõ
reputadas em hum e outro reyno por casuaes Nota
Se admittissemos a
hypòthese (que se tem por improvavel) de que algumas das variedades
de caens, pereiras, e as duas dos murrioẽs acima mencionadas
existiraõ em diversos lugares da terra no mesmo tempo primitivo da
creaçaõ da sua especie, ou de que saõ taõ antigas como ella, neste
cazo ficariaõ sendo variedades naturaes creadas pela razaõ de terem
sahido das maõs do Autor da natureza taes como as vemos hoje, ou
terem nascido immediatamente taes dos germes que elle creara, e naõ
serem occasionadas pelos terrenos, climas, &c. nas consecutivas
reproducçoẽs.Nota
Os ventos, chamados pelos sexualistas, conductores dos prazeres
ou dos amores das plantas, podem taõbem ser contados entre as
causas das variedades, e ainda mesmo as abelhas (segundo Hales)
pela razaõ de levarem comsigo de flor em flor o po fecundante de differentes especies de antheras . Nota
Na sua idade vigorosa tem as folhas lobadas , e
algumas ovadas, mas na velhice todas saõ ovadas, e o tronco he
arboreo.
Os Botanicos ordinariamente naõ costumaõ fazer mençaõ nos seus catalogos systematicos das variedades de cada especie, e apenas indicaõ algumas: elles pensaõ que jamais poderiaõ terminar os dictos catalogos, se emprehendessem de mencionar todas as variedades do reyno vegetal, e que ainda no cazo que fosse possivel terminalos, o estudo de Botanica ficaria summamente longo e fastidioso. Naõ negaõ contudo 1º, que se devaõ bem conhecer e conservar as que saõ uteis e agradaveis; 2º que se deva saber, destinguir o que he variedade do que he especie. Quanto ao primeiro artigo, deixaõ esse trabalho aos Autores que tractaõ da Botanica applicada às artes de pharmacia, de materia medica, horticultura, jar dinagem, e qualquer outra parte de agricultura, quanto ao segundo artigo confessaõ que sem a dicta distinçaõ se multiplicaria erroneamente o numero das especies, o que se opporia á clareza e brevidade methodica, que exige o estudo dos vegetaes; elles deraõ por conseguinte algumas regras tendentes a destinguir as variedades das especies, as quaes da mesma sorte que as que foraõ referidas no capitulo precedente, aindaque estaõ talvez bem desviadas da perfeiçaõ, a que hum mais profundo estudo da natureza as poderá conduzir, devem contudo ser presentadas aos que se daõ à Botanica, por naõ terem por especies entes, que dellas so differem levemente.
Todo o viço ou monstruosidade, que tem lugar no [Página 345] numero, figura, proporçaõ ou situaçaõ das partes de qualquer vegetal,
constitue huma variedade; e assim como no reyno animal hum monstro ou hum
eunucho somente saõ individuos imperfeitos da sua especie, assim taõbem o
saõ as plantas monstruosas e eunuchas, como as que daõ flores dobradas,
semidobradas, proliferas, e mutiladas. Todas as plantas enfermas,
mestiças, ou mulinas, Nota
Vej. o que disse a respeito destas plantas nos seus Cap.
respectivos.
Reduzir as differentes variedades á mesma especie he hum trabalho algumas
vezes muito mais difficil do que ajuntar as especies debaxo do mesmo genero.
Muitas vezes basta o caracter da especie para fazer reconhecer a variedade;
mas ha algumas variedades que exigem muitas reflexoẽs e experiencia,
requerem hum attento exame de todas as suas partes, ainda as mais miudas, e
huma combinaçaõ destas com as das suas congeneres e às vezes com as das
especies do genero vizinho, para se poderem reduzir á especie de que emanaõ. Ha algumas especies e ainda mesmo familias inteiras, em que os
individuos so costumaõ variar na raiz ; ha outras, em que
elles variaõ nas folhas ,
grandeza do tronco e ramos, na cor e pelos; e ha outras emfim, cujos
individuos somente soffrem mudanças nas flores ou fructos. Naõ se
devem jamais perder de vista as causas occasionaes; muitas plantas [Página 346] indigenas das montanhas, e que nessas costumaõ ter o tronco postrado, se
encontraõ muitas vezes em outros lugares differentes com o tronco levantado;
algumas amphibias saõ curvadas dentro d'agoa e levantadas fora della; o
rainunculo bolboso tem o tronco levantado, quando habita nas encostas dos
oiteiros expostas ao sol, e he pelo contrario reptante nos lugares humidos e
sombrios. Os sitios montanhosos fazem que as folhas inferiores sejaõ mais inteiras e as
superiores mais divididas; os lugares humidos fazem de ordinario fender
as folhas inferiores, e os
seccos as superiores. Ha alguns terrenos que fazem as folhas rugosas, bolhosas, e franzidas; outros que lhes fazem
perder os pelos. De todas as causas occasionaes a cultura he a que me parece contribuir
mais para à producçaõ das variedades; ella muda as folhas em crespas, ondeadas, e repolhudas, falas
maiores, abranda o seu amargor, e igualmente o acido e acerbo dos
fructos, torna-os succulentos de quasi exsuccos, e faz
perder os pelos aos troncos e ramos, a sua escabrosidade, e ainda mesmo
os seus espinhos. He precizo pois remontar a estas e outras causas
occasionaes para podermos, em cazo de duvida, decifrar huma variedade; se
conjecturamos v. g. ser a cultura e terreno a causa da mudança accidental da
especie, semeemos ou transplantemos a planta degenerada no seu terreno
natural, e veremos que abandonada ao estado inculto tornarà mais cedo ou
mais tarde à sua estructura e condiçaõ especifica. Esta experiencia he
necessaria algumas vezes relativamente áquellas variedades, que saõ
constantes em muitas geraçoẽs, e se continuaõ por sementes, de maneira
que parecem [Página 347] especies, como saõ v. g. as que daõ em nossos jardins e hortas flores
semidobradas, folhas repolhudas,
crespas, Nota
Ha plantas contudo, cujas folhas no terreno natural saõ crespas, e Linneo se
servio dellas no caracter synoptico da malva crispa, mentha
crispa, &c.; mas ha outras que elle julgou variaveis, e por
conseguinte so proprias para constituir variedades, como as da
chicoria crespa, tanacetum crispum, a matricaria crespa,
&c. Nota
As pereiras, maceiras, amexieiras, &c. sendo plantadas nos
matos, e deixadas á ley da natureza costumaõ dar fructos menos bons
do que as cultivadas; e aindaque naõ temos hum sufficiente numero de
experiencias que nos demostre o seu estado retrògrado sendo semeadas
repetidas vezes nos matos, ha contudo grande probabilidade que
depois de varias geraçoẽs tornariaõ á sua especie primitiva
sylvestre, de que tinhaõ emanado.
Os Botanicos quando querem indicar as partes ou notas variaveis que
constituem as variedades de huma especie, costumaõ algumas vezes
mencionalas depois do caracter especifico vistoque as differenças
especificas Nota
As especies e variedades, que a natureza lança do seu
seyo fecundo, tem caracteres, que se devem considerar como geraes
nas primeiras, e particulares nas segundas; porque se posessemos hum
caracter variavel por especifico, seguirse-hia que apparecendo-nos
hum individuo, que naõ tivesse o dicto caracter variavel, aindaque
fosse da mesma especie original, naõ o poderiamos reconhecer antes o
teriamos por huma nova especie, donde resultaria multiplicarmos
entes sem necessidade, e formarmos muitas especies falsas. Pelo que
todas as vezes que hum Botanico tiver a menor duvida, se huma planta
he especie ou variedade, deverá sempre indicar a sua duvida, quando
fizer mençaõ della, por ver se a experiencia de outros o
illumina.
M. dos alqueives. Com folhas indivisas; caule estirado. Varia nas flores, sendo as suas corollas ora escarlatas, ora azues, e algumas vezes tambem variegadas de branco e purpureo.
Em lugar de dizer:
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.
Donde se vê que às notas variaveis devem ser pospostas ás especificas, no cazo que dellas se haja de fazer mençaõ. Os nomes que exprimem estas notas nas phrases especificas saõ por alguns Botanicos chamados variantes (variantia); mas para fallar com propriedade, o nome variante so me parece devera ser chamado aquelle, que se posesse depois do trivial, [Página 349] como v. g. seriaõ os termos verde, repolhuda, e murciana na nomenclatura seguinte:
Couve hortense verde.
Couve hortense repolhuda.
Couve hortense murciana.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.
A descripçaõ das pantas ou he analytica ou historica. Descrever huma planta analyticamente he dar ideas expressivas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ de todas as partes, de que consta o seu caracter natural; descrevela historicamente he dar a descripçaõ analytica e alem disso tudo o que diz respeito à mesma planta, sem embargo de naõ ser parte constitutiva do seu caracter natural Botanico.
A descripçaõ analytica deve ser feita no lugar, em que a planta nasce e
habita naturalmente, e naõ nos jardins, aonde a cultura a pode fazer variar
ella abrange todo o estado progressivo da planta [Página 350] desde a sua germinaçaõ athe à madureza e quéda das sementes, sem
desprezar a menor parte do habito externo nem as minimas da fructificaçaõ,
que precizaõ de huma lente para bem se divisarem (o que succede poucas
vezes). Cada huma das dictas partes deve ser exposta com termos technicos, e
em paragraphos separados por evitar confusaõ. Quando observarmos alguma
variedade, notala-hemos no paragrapho da parte, a que ella for relativa. Devem-se omittir as circumstancias que dizem respeito á physiologia,
e historia da planta, por serem consideradas como superfluidades nas
phrases de huma descripçaõ puramente analytica Nota
Estas circumstancias devem reservar-se para a descripçaõ
historica; ha contudo algumas, que sem embargo de pertencerem
rigorosamente á descripcaõ historica naõ deixaõ de ser por
alguns Botanicos mencionadas de passagem na analytica, como saõ
por ex. a irritabilidade da Dionaea muscipula e Sensitiva, as
cores dos succos, e a consistencia destes mesmos succos, ou
resinas e gomas, quando saõ vertidas da casca sem aberturas
artificiaes. Nota
O
Philos. Botan. Num. 326-330.
Descripçam Analytica da Tilha da Europa Nota
Tilia Europaea, Lin. Nos damos taõbem a esta arvore o nome de til e de telha.
Germinaçam********* Nota
Linneo naõ fez mençaõ da disposiçaõ das cotyledones, da figura
das folhas seminaes, e
de tudo o que pertence ao estado da germinacaõ das sementes;
isto he hum defeito, porque toda a descripçaõ analytica deve
começar por este estado da planta, e quando naõ houver occasiaõ
de o observar, deve-se indicar do modo acima expresso, para que
outros que tiverem esta occasiaõ nolo descrevaõ.
Radicaçam. Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.
Tronqueadura. Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.
Gomoscencia. Gomos alternos, covados, estipularesfolheares, formados de quatro ou cinco escamas ovadas, obtusas, levemente enroladas para dentro, e hum tanto carnudas na base; as duas externas saõ menores e desiguaes.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.
[Página 352]FOLHEATURA. Nota
Eu tomo aqui este termo em huma accepçaõ mais extensa do que Linneo
lhe costumava dar, entendendo por ella naõ so a disposiçaõ, que tem
as folhas tenras dentro dos
gomos e no seu brotamento, mas ainda todo o estado das folhas adultas e seus
peciolos.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.
Peciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .
Inflorecencia Nota
As bracteas e pedunculos, como partes as mais chegadas ás flores, e
fundamento da sua diversa disposiçaõ, saõ com propriedade postos
aqui debaxo da divisaõ da Inflorecencia.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.
Pedunculos solitarios, laterifolios, mais compridos do que o pecioso,
filiformes, recompostos; os communs ou primarios tripartidos, os
secundarios lateraes taõbem ordinariamente tripartidos, e o medio [Página 353] indiviso, de modo que todos vem a soster sette flores Nota
Estas divisoẽs do pedunculo commum, e o numero das flores variaõ
muito.
Flores racimosas, e elevadas quasi á mesma altura.
Fructificaçaõ.
Calys. Perianthio partido em cinco lacinias concavas, de cor aloirada, quasi da grandeza das petalas, e decadentes.
Corolla. De cinco petalas oblongas, obtusas, pallidas, e crenadas no cume.
Estames. Filetes numerosos, de trinta athe quarenta, assovelados, do comprimento da corolla, e apegados ao receptaculo. Antheras hum tanto globosas.
Pistillo. Germe hum tanto globoso e cotanilhoso. Estylete filiforme, e da altura dos estames. Estigma obtuso e pentágono.
Pericarpo. Huma capsula cotanilhosa, globosa pentagona, de cinco cellulas, e cinco valvulas coriaceas, as quaes costumaõ arbrtrse pela base.
Sementes. Solitarias e hum tanto globosas: saõ dycotylẽdones, e contem no centro o corculo guarnecido de hum asterisco de cinco lacinias quasi iguaes.
N. B. Ordinariamente quatro sementes abortam, de modo que a capsula fica sendo de huma so cellula e contem sò em si a unica semente, que costuma medrar.
[Página 354] A descripçaõ historica de huma planta, ou segundo outros a historia
natural de huma planta comprehende alem da sua descripçaõ analytica, a
synonymia, etymologia do seu nome usual, habitaçaõ cultura, o tempo
vegetativo, o tempo de sono e vigilias das suas folhas e flores, a sua estructura interna ou
natureza considerada physiologica e chymicamente, os seus usos
mediornaes e economicos, e emfim a sua figura bem estampada. He verdade que ordinariamente huma descripçaõ historica naõ contem todas
estas circumstancias, e se limita so em conter a descripçaõ analytica,
synonymia, habitaçaõ Nota
A synonymia e habitaçaõ, como circumstancias as mais necessarias,
costumaõ taõbem por se nos catalogos das especies depois dos
caracteres synopticos ou essensiaes.
A synonymia he hum aggregado de citaçoẽs dispostas em paragraphos
separados e successivos, nos quaes se indicaõ naõ so os diversos nomes,
caracteres synopticos, essensiaes, ou Nota
A synonymia he ordinariamente muito limitida e imperfeita nos
catalogos systematicos a respeito das variedades, o que
certamente he hum defeito, porquanto a noticia das variedades
serve de conservar o verdadeiro caraeter da especie sem
obecuridade nem consusaõ, e contribue para fazer evitar enganos
de ter por especie o que so he variedade. Nota
O infatigavel Gaspar Bauhino vendo que muitos nomes davaõ ideas
de muitas differentes plantas, e que por conseguinte causavaõ
huma grande confusaõ no estudo dos vegetaes, emprehendeo de se
oppor a este inconvemente, e nos deo no seu Pinax hum bom
tractado de synonymos, o qual foy depois continuado por
Sherardo, Dillenio, e Sibthorpio; mas este tractado esta ainda
bem distante da sua perfeiçaõ.
A noticia da habitaçaõ das plantas he taõbem de grande utilidade; ella serve de indicarnos o lugar aonde as podemos ir buscar para os nossos herva rios, afim de conservarmos o claro conhecimento dellas em successivos tempos, mostra nos aonde as podemos ir colher para os differentes usos medicinaes e economicos, instrue nos sobre a qualidade do terreno que lhes he proprio (estabelecendo nisto o principal fundamento da agricultura), e emfim conven cenos que naõ ha na terra lugar algum inteiramente esteril, ou que taõ somente ha lugares estereis relativamente a esta ou aquella planta, mas naõ a todas. Donde resulta que na deseripeaõ historica de qualquer planta a noticia da sua habitaçaõ he absolutamente necessaria.
O tempo vegetativo inclue 1º o espaço de tempo em que a semente de huma
planta jaz debaxo da terra, desde o dia em que foy semeada athe áquelles
em que a plantula seminal, rebentados os tegumentos, brota fora delles,
e a sua plumula começa a apontar á flor da terra; este espaço he chamado
por alguns Botanicos tempo da germinaçaõ ou incubaçaõ das sementes Nota
Germinatio, seu incubatus seminum. Alguns Botanicos assignaõ
tres sortes de vida ao germe ou corculo das sementes: huma
comaterna, que elle recebeo e conservou na planta que o produzio,
vegetando com ella athe ao estado de plena madureza; outra inactiva
por meyo da qual conserva illesa a sua estructura, a vis productiva
e vegetativa, sem contudo vegetar pela razaõ de que o movimento dos
seus fluidos he nimiamente lento, e as suas funçoẽs vitaes estaõ
muito entropecidas e adormentadas em certo modo como as das cobras,
lagartos, formigas, &c. durante o inverno, no qual parecem
mortos; esta sorte de vida, segundo elles, he a que tem o germe
desde a quéda das sementes athe á germinaçaõ exclusivamente; outra
emfim germinativa, que começa na germinaçaõ. Zullingero admitte
nestes tres differentes estados das sementes huma especie de
fermentaçaõ continuada, querendo que ella comece na fecundaçaõ, e
que no segundo estado sirva de aperfeiçoalas e dispolas para receber
os succos da terra, que contribuem para à germinaçaõ, accrescentando
que se este entrevallo for longo ou a fermentaçaõ nimiamente
prolongada destruirá a vis vegetativa dilatando-lhes os vazos athe
rompelos e fazendo evaporar as particulas oleosas. Mas este segundo
estado vital, e de fermentaçaõ parecem ser demasiadamente
hypotheticos; a dureza e seccura, que observamos entaõ nas sementes,
naõ nos indicaõ que nellas haja movimento de succos nem funçoẽs
vitaes, e por conseguinte so se lhes pode admittir vida, tomando a
idea desta palavra em hum sentido nimiamente amplo. Pelos mesmos
motivos naõ parece que haja antes da germinaçaõ movimento algum
intestino, e se o houvesse concorreria tanto para a fermentaçaõ como
para a putrefacçaõ. Portanto todo o movimento fermentativo que tem
lugar na germinaçaõ he inteiramente novo. Quando as sementes se
achaõ debaxo da terra, e que a humidade penetrando pelos poros dos
seus tegumentos, ou pela sua cicatriz umbilical, faz amollecer o
corculo e as cotylédones, ajudada do calor conveniente, a sua
substancia farinosa tornase pouco a pouco em lactea, e se percebe
nelles hum sabor mais doce e hum cheiro particular; todos estes
phenomenos indicaõ huma mistura interna das suas partes
constitutivas occasionada por hum movimento intestino, e como elles
senaõ observaõ de modo algum antes que a humidade e phlogisto
competentes tivessem entrado no germe e cotylédones, o movimento,
que he hum effeito destas causas, he inteiramente novo assim como
ellas o saõ nas sementes.Nota
Na preflorescencia se deverá taõbem fazer mençaõ, se a planta
florece duas ou mais vezes no anno, e em que dias e mezes. Nota
Notar-se-ha taõbem na frutescencia, se a planta da duas ou mais
vezes fructos no anno, e em que mezes. Nota
A circumstancia de huma planta conservar as suas folhas todo o anno, ou de
naõ perder humas sem que comecem a nascerlhe outras, pode ser
referida tanto no tractado da desfolha como da
enfolhescencia.
A noticia dos differentes oleos, leves, pezados, liquidos, concretos,
tirados por destillaçaõ ou expressaõ, a dos diversos saes alcalinos, do
sal commum, nitro, assucar, tartaro, acidos, differentes gazes, &c. Nota
Das substancias que entraõ na composiçaõ dos vegetaes humas
saõ commûas a todos, como v. g os oleos, os alcalis fixos, os gazes,
a agoa, e terra; outras saõ menos geraes e somente proprias a hum
certo numero, como v. g. o alcali volatil que se acha nos cogumelos,
mostarda, trigo, &c. o alcali mineral que se dá nas especies de
salsola, de salicornìa, e outras plantas maritimas, o sal commum que
se acha na salsola soda, o nitro na alfavaca de cobra, gyrasol,
&c, o sal de Glauber na tamargueira, o tartaro nas uvas, o sal
ammoniaco na cigude, o enxofre na inula helenium, e rumex patientia,
o alcanfor no alcanforeiro, hortelaan apimentada, labiaes e algumas
compostas (segundo Gaubio e Neuman), os oleos essensiaes, como o que
se dá nas cellulas vesiculares da casca da laranga, flores
fragrantes e partes cheirosas das plantas, os oleos corados, como o
oleo azul que se tira da camomilla, os oleos pezados ou que vaõ ao
fundo d'agoa como o do cravo da India, os acidos particulares a
certos fructos, raizes e sobreraizes; a materia saccharina que se dà
em hum grande numero de flores, fructos, e em todas as gramas (e
talvez em todos os vegetaes) &c, &c.
Os usos economicos e médicinaes naõ devem ser omittidos em qualquer descripçaõ historica por mais incompleta que seja a respeito de outras circumstancias; a Botanica deve a elles a gua origem, e desde os primitivos dias da especie humana athe hoje o estudo dos vegetaes foy sempre dirigido à sua utilidade. Eu darei algumas breves noçoẽs sobre estes usos no Capitulo XL.
Como a Botanica naõ pode demonstrar a fé dos caracteres por hum rigor
mathematico Nota
A certeza que adquirimos do nome de huma planta por meyo dos
caracteres, que lemos nos livros dos Botanicos, naõ pode jamais
chegar ao grao de evidencia mathematica, ou vir a ter força de
demonstraçaõ, por muitas razoẽs, principalmente porque nas
descripçoẽs que se costumaõ dar de qualquer planta sempre falta
alguma circumstancia, e como pode haver no globo terreste huma
especie em tudo semelhante nos caracteres dados a outra, e
dessemelhante nos omittidos, podemos por conseguinte facilmente
enganar-nos dandolhe o nome de estoutra. Nota
Vej. Estampa XXIX
e XXX deste Compendio, vol. 2.Nota
Vej. a Estampa XXX
deste Compendio.Nota
Vej. a Estampa XXIX
deste Compendio.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.
[Página 362] GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
O chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
III. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
[Página 407]Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
As infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
[Página 424]Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
[Página 428]Em todos os tempos o homem procurou sempre nos vegetaes meyos de restabelecer
a sua saude, de se alimentar, de se reparar dos frios ou calmas, e de muitas
outras precizoẽs; a necessidade e o acazo lhe fizeraõ reconhecer pouco a
pouco as propriedades de alguns destes entes enteressantes; estas
propriedades conservadas ou por tradiçaõ ou escritas chegaraõ emfim a servir
de fundamento de tractados mais ou menos perfeitos segundo as differentes
graos de progresso do espirito humano; sobre ellas fundaraõ os antigos
Gregos e Romanos tractados de materia medica e de agricultura, e ainda hoje
as propriedades dos vegetaes saõ as notas caracteristicas em que os autores
de materia medica fundaõ as suas destribuiçoẽs methodicas Nota
Nos Methodos
de materia medica as classes, ordens e outras divisoẽs saõ fundadas
sobre as propriedades medicinaes das plantas,e nos methodos botanicos as
classes, ordens, &c: saõ fundadas nas notas da fructificaçaõ e
habito externo, independentemente das suas virtudes, e usos.
Os methodos botanicos, o lugar de habitaçaõ, os succos, nectarios, as qualidades de cheiro, sabor, e cores dos vegetaes e as suas analjses chymicas tem sido os meyos investigativos, de que os sabios se tem servido nestes ultimos tempos para indicar nelles a uniformidade e dessemelhança de virtudes, e estabelecer regras geraes a respeito dellas.
Os methodos, ou systemas botanicos saõ ou artificiaes, ou naturaes, como jà
mencionei nos capitulos precedentes. Os systemas artificiaes, como sujeitos
a leys nimiamente arbitrarias, e a reunir plantas ordinariamente differentes
no habito externo, naõ podem, senaõ por acaso, offerecer divisoẽs genericas
de plantas de uniformes virtudes; os methodos na turaes saõ por conseguinte
os unicos que podem subministrar divisoẽs menos sujeitas a engano
relativamente à dicta uniformidade. Linneo assignou pois a este respeito a
regra seguinte: todas as plantas que sam do mesmo genero natural, sam tambem
da mesma virtude; e as que sam da mesma familia ou divisoens naturaes,
participam mais ou menos da mesma virtude Nota
Plantae, quae genere
convenìunt, virtute ettam conventunt; quae in ordine naturali
continentur etiam virtute proprius accedunt, quaeque classe naturali
congruunt etiam viribus quodam modo congruunt. Lin. Philos Botan. p.
278.Nota
Este parecer he seguido por muitos sabios Naturalistas e famosos
Medieos, como Daubenton, Cullen, &c. Vej. Lectures on the Materia Medica, by Villiam Cullen, p. 158,
169. Lond. in-4. donde copiei huma grande parte das reflexoẽs,
que opponho aqui aos sentimentos de Linneo. Nota
Como por ex. comparar os fructos de huma especie com os de
outras, as folhas com folhas , raizes com
raizes, flores com flores, a casca do tronco de huma especie com
a casca do tronco de outras congeneres naturaes, &c. Nota
A figueira por ex. he huma arvore venenosa, e os seus fructos saõ saudaveis. Nota
A idade, e constituiçaõ do sujeito, e igualmente a
dose das substaucias vegetaes fazem taõbem
algumas vezes variar a acçaõ das suas virtudes; o que he somente hum
purgativo ao homem robucto, he venenoso ao homem debil e de vida
sedentaria, como se tem visto algumas, vezes na Euphorbia.
Muitos Botanicos modernos, principalmente, os que saõ apaxonados pelos
methodos naturaes, pensaõ que naõ so senaõ devem desprezar as affinidades
dos caracteres botanicos na investigaçaõ das qualidades e virtudes
medicinaes das plantas, mas taõbem que ellas nos dirigem com segurança a
substituir huma planta a outra em hum grande numero de familias naturaes.
Linneo parece ter sido deste parecer, e nos deixou a este respeito na sua
Philosophia Botaniça Nota
Vej. Phil. Bot. p. 279-282.
As Gramineas (Graminea, Ordo Naturalis IV.) Nota
Quanto as ordens,
naturaes estabelecidas por Linneo, e igualmente quanto aos generos
aqui citados Vej. Lin. Genera plantarum, edit, novissima, cur. J. J.
Reichard.
As Estrelladas (Stellatae, ord. nat. XLVII.) saõ diureticas, como a ruiva dos tintureiros, amor de hortelaõ, asperula, galium, &c.
As Borragineas ou Asperifolias (Asperifoliæ, ord nat. XLl) podem servir de hortaliças, e saõ mais ou menos mucilaginosas e glutinosas, como a buglossa, borragem, e consolda maior.
As Luridas (Lurida, ord. nat. XXVIII.) saõ suspeitas de venenosas e narcoticas, como a belladona, stramonio, meimendro, mandragora, nicotiana, as solaneas, bringelas, e ainda mesmo os tomates. O pimentaõ he summamente acre.
As Umbrelladas (Umbellatae, ord. nat. XLV) quando vegetaõ nos lugares seccos saõ aromaticas, calefactivas, proprias para excitar o suor, ourinas, menstruos, leite, e dissipar as flatulencias, como saõ por. ex. o levisticum, assa faetida, angelica, imperatoria pimpinella, peucedanum, opopanax, galbanum, carvi, [Página 435] cuminum, daucus, meum, faniculum, &c; as que nascem em lugares aquosos saõ venenosas, como a cicuta, aenanthe, sison, phellandrium, e apium palustre; as suas virtudes residem nas raizes e sementes.
As raizes das plantas da classe Hexandria, que saõ inodoras, costumaõ usar-se em algums paizes como alimento, v. g. as da tulipa, tilium martagon, e ornithogalum; mas as que tem hum cheiro viroso saõ venenosas, como as da cebola alvarraan, jacintho narcizo, coroa imperial, leucojum, goriosa, e anthericum.
As Bigornes (Bicornes, ord. nat. XVIII.) saõ astringentes, como a urze, pyrola, vaccinium, e principalmente o arbutus urva ursi; em alguns paizes costumaõ comer-se as suas bagas acidas, como as do medronheiro, as do arbutus uva ursi, vaccinium uityr tillus e exycoccus, diospyros virginiana, e melastoma.
Os fructos polposos da classe Icosandria saõ usados como alimentos, taes saõ v. g. as maçaans, peras, marmelos, romaans, fructos do pirliteiro, as nesperas, sorvas, groselhas, pessegos, damascos, ameixas, ginjas e cerejas na familia das Pomaceas (Pomaceae, ord. nat. XXXVI.); os morangos, amoras de sylva, e bagas da roseira de caõ nas Senticosas (Senticosae, ord. nal. XXXV.); emfim os fructos da eugenia e psidium nas Hesperideas (Hesperideae, ord nat. XIX.)
As plantas da classe Polyandria ordinariamente saõ venenosas; como saõ o
aconitum, Nota
Linneo conta taõbem entre as plantas venenosas o aconitum
anthora; outros autores contudo duvidaõ das suas qualidades nocivas, e
lhe chamaõ pelo contrario o aconito saudavel, dizendo que elle he hum
contraveneno do ranunculus thora.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.
As Cruciferas ou Siliquosas (Siliquosae, ord. natXXXIX) saõ acres, incisivas, detersivas e diureticas; como saõ os agrioẽs, a cochlearia, a armoracia, &c.; ellas perdem muito da sua virtude no estado de seccas, e porisso devem ser usadas em quanto verdes.
As Malvaceas (Columniferae, ord. nat. XXXVII.) saõ mucilaginosas, lubrificantes, embotaõ a acrimonìa dos humores, e saõ suppurativas em razaõ da sua virtude emolliente; taes saõ por ex. a malva, a althea, &c.
As Leguminosas (Papilionaceae, ord. nat. XXXII.) saõ excellentes para pastos ou alimento dos quadrupedes, como v. g. o trevo, medicago, trigonella, hedysarum, vicia, loeus, e lathyrus: as suas sementes saõ farinhosas e flatulentas, e servem de alimento aos homens e varios animaes, taes saõ principalmente as favas, ervilhas, feijoẽs, graõs, lentilhas, e chixaros.
[Página 437]As Compostas (Compositae, ord. nat XLIV.) saõ muito usadas em medicina, e commumente saõ amargosas, como sao v. g. o cardo sancto, a chicoria, o almeiraõ, o cardo mariano, a pilosella, o dente de leaõ, a losna, a matricaria, a chamomilla, as macellas, a tanasia, a balsamitta, eupatorium, achil lea ageratum, santolina, abrotanum, carlina, acmella, artemisia, &c.
As Orchideas (Orchideae, ord. nat. VII.) saõ aphrodisiacas, taes saõ principalmente a orchis bifolia, orchis morio, e o epidendron vanilla.
As Estrobilosas (Coniferae, ord. nat. LI.) saõ resinosas, e diureticas, como, saõ v. g. os pinheiros, o abeto, acipreste, sabina, zimbro, e juniperus lycia.
A Classe Cryptogamia contem muitos vegetaes suspeitos; os fetos tem hum cheiro desagradavel: os musgos do mesmo modo; das algas saõ rarissimas as que se comem, e muitas saõ purgativas; e os fungos saõ segundo Plinio huma perigosa comida.
Taes saõ em geral os sentimentos de Linneo sobre as familias naturaes; mas todas estas, generalidades saõ sujeitas a mais ou menos excepçoẽs, que seria prolixo expor aqui. Direi somente que os grãos das qualidades dos vegetaes variaõ infinitamente, e talvez à proporçaõ do numero dos individuos: nas Gramineas, por ex, as sementes cerealinas servem de alimento ao homem, mas que differença naõ ha entre o paõ de trigo e o de milho, e cevada? Quanto naõ differe o alimento do arroz do que fornece o paõ de trigo? Quanto naõ differem entre si os fructos polposos, que se usaõ como alimento? Que desigualdades naõ há algumas vezes entre as plantas [Página 438] aromaticas, amargosas, acidas, acres, e astringentes do meSmo genero? As vezes o principio nutritivo está separado de todo o veneno, como nas sementes cerealinas, outras vezes misto com hum principio amargozo ou combinado com huma substancia mais ou menos venenosa, como nalgumas solaneas e na mandioca; quanto naõ variaõ as quantidades dos principios saborosos, odorantes, e outras partes constitutivas de cada hum dos individuos vegetaes, e que variedade no modo, e circumstancias com que se achaõ combinados? Eu confesso ingenuamente a fraqueza das minhas luzes a este respeito; peloque deixo aos que se occupaõ de Materia Medica, e practica de Medicina o decidir athe onde seja justo o sentimento "de que se pode em algumas familias naturaes substituir humas plantas a outras."
O lugar de habitaçaõ dos vegetaes tem parecido taõbem a alguns botanicos hum
meyo de poder descobrir as suas incognitas virtudes. Linneo assignou a
este respeito a regra seguinte Nota
Locus siccus sapidiores,
succulentus insipidas magis, aquosas (sapius) corrosivas reddit.
Liu. Phil. Bot. p. 283.Nota
Vej. pag.
430.Nota
Debaxo do
nome de exposicaõ (expositio) devem entender-se os lugares expostos ao
sol, os sombrios, encostas, lugares altos e lavados dos ventos, os
valles, fugares que ficaõ ao norte, sul, nascente ou poente,
&c.Nota
A alface em razaõ da cultura he incomparavelmente menos
narcotica, o almeiraõ muito menos amargoso, e a escorcioneira
summamente adoçada e amaciada.
Os succos lacteos das plantas saõ de ordinario hum indicio de màs
qualidades, e he por esse motivo que Linneo estabeleceo a este respeito
a regra seguinte Nota
Lactescentes plantae communiter veneuatae sunt,
minus autem semiflosculosae et campanulacea. Lin. Phil. Bot. p. 282,
283.Nota
Linneo conta entre as
plantas de succos lacteos, que saõ venenosas, as seguintes; a
rauwolfia, thevetia, cerbera, plumieria, tabernamon-tana, periploca,
apocynum, cynanchum, ceropegia, e asclepias na familia das Contortas
ou de corolla retorcida (Contortae); a bocconia, sanguinaira,
papaver, argemoue, chelidouìum, nas Papaveraceas (Rhaeades); a
cambogia, dalechampia, euphorbia, e jatropha, nas Tricóxcas
(Tricoccae); e alem nisso varias outras, como a melia, ficus, thus,
acer, e agaricus.Nota
Nas especies de alface ha algumas que saõ reputadas venenosas,
como a Lactuca virosa, mas segundo as observaçoẽs de alguns
practicos modernos o extracto, desta planta pode ser dado mesmo
em grande dose como hum excellente aperitivo, e sedativo, e o
Dr. Joze Collin a recommenda nas hydropisias; ainda mesmo as
cultivadas nos paizes quentes saõ hum tanto venenosas, segundo
Galeno (Vej. Cullen Mater. Med. p. 306. ed. de Lond. in-4.) O Dr. Macquer pensava que ainda mesmo nas alfaces das nossas
hortas ha huma qualidade narcotica, como lhe ouvi muitas vezes
dizer nas suas liçoẽs.
Linneo pertendeo ter achado nos nectarios hum meyo para poder taõbem
reconhecer as màs qualidades de algumas plantas, e estabeleceo a este
respeito o aphorismo seguinte; as plantas, que dam flores com hum
nectario destincto das petalas, commumente sam venenosas Nota
Plantae floribus nectario a petalis distincto
cnmmuniter venenatae sunt Lin. Phil. Bot. p. 282. Os
exemplos que aponta saõ os seguintes: aconitum, helleborus,
aquilegia nigella, parnassia, epimedium, clutia, keggellaria,
hyacinthus, stapelia, ascleplas, mirabilis, nerium, narcissus,
zygophyllum, dictamnus, e melianthus.
O cheiro, sabor, e cores saõ os principaes meyos de que os medicos se servem
para conhecer as virtudes medicinaes de qualquer substancia vegetal. O
primeiro aphorismo a este respeito he, que todas as substancias vegetaes
insipidas, e inodoras tem muito pouca ou nenhuma virtuade em medicina Nota
Insipida et inodora vim medicam vix
exercent. Lin. Philos. Bot. p. 283.Nota
Entre estas algumas foraõ conservadas como alimentos, e naõ como
medicamentos. Nota
Sapidissima et odoratissima semper maximam vim possident.
LinPhil. Bot. p. 283Nota
Cullen, Mat. Med p. 161, 162, ed de Lond.
in-4.Nota
Sapidae et
suaveolentes bonae sunt; nauseosae et graveolentes venenatæ sunt.
Lin. Phil. Bot. p. 284Nota
Cullen Mat. Med. p. 162.Nota
O Dr. Cullen parece entender, aqui a fragrancia das flores; eu
conjecturo contudo que Linneo quiz dar a entender a fragrancia,
que existe em todo o corpo das plantas, comprehendendo as folhas , ramos, tronco e raiz ; e neste sentido o seu aphorismo parece
ter muito poucas excepçoẽs. O Dr. Cullen naõ admitte taõbem
a assersaõ de Linneo. Sapida non agunt in nervos, nec olida in
fibras musculares; pensando que o que obra sobre os nervos obra
taõbem sobre as fibras musculares e vice versá, em razaõ das dictas
fibras serem em parte huma continuaçaõ dos fios nervosos, ou ao
menos intimamente adunadas a elles e sujeitas á sua acçaõ. Diz alem
disso que o aphorismo do mesmo Botanico: Ambrosiaca analeptica,
Fragrantia orgastica, Aromatica excitantia, Tetra stupefacientia,
Nanseosa corrosiva: he ambiguo, obscuro, e pouco fundado na
natureza. Ibid. p. 163.Nota
Color pallidus insipidum, viridis crudum, luteus
amarum, ruber acidum, albus delce, niger ingratum indicat. Lin. Phil.
Bot. p. 286.Nota
Os exemplos, que Linneo aponta nesta ultima regra,
saõ: baccae atropae, actaeae, coriariæ, solani, tini, enpetri et
padi. As bagas negras de algumas urzes e do ribes nigrum aindaque
desagradaveis naõ contem contudo veneno algum.
As operaçoẽs chymicas tem parecido a muitos sabios hum dos melhores meyos de
investigar as virtudes dos vegetaes; foraõ por conseguinte tractados por
expressoẽs, trituraçoẽs em agoa, infusoẽs em espirito de vinho ou agoa,
distillaçoẽs a fogo brando ou forte, e por todos os meyos que conduzem a
analysar os seus principios; a sua analyse tem dado a conhecer as suas
partes extractivas, gomosas, mucilaginosas, saccharinas, amilaceas,
resinosas oleosas, stipticas, aromaticas, e os differentes saes e terras,
que entraõ na sua composiçaõ. Naõ se pode negar que todos estes
conhecimentos reunidos com alguns dos que acima mencionei saõ
bastantemente uteis para nos fazer discorrer sobre a natureza dos
vegetaes com maior segurança do que os antigos discorriaõ; com estas
luzes podemos taõbem melhor do que elles julgar das suas virtudes; mas
quem attender bem ao muito que variaõ os acidos e alcalis mos
differentes vegetaes quanto à quantidade e qualidade, o muito que os
seus outros principios variaõ taõbem nas proporçoẽs, e saõ alterados
pelo fogo, a grande difficuldade, ou impossibilidade que ha algumas
vezes de obter os seus principios subtis e volateis, nos quaes contudo
consistem as suas principaes virtudes, naõ estranhara certamente a
asserçaõ de alguns grandes [Página 448] medicos Nota
From chemical investigation much has been expected; but
it is now known littte can be obtained. Cullen Mat. Med. pag. 167
ed. de Lond. in-4.
Depois do descobrimento do Dr. Ingen-Rouz Nota
Vej. Experiences sur les
Vegetaux, par M. Ingen. Houz. Paris, 1780, in-8, ou a ultima ediçaõ,
aonde esta materia he tractada com todos os detalhes, que o leytor
pode dezejar.Nota
Ha a
este respeito huma experiencia bem simples; ponha-se hum ramilhete
de flores em hum copo dagoa, cubra se com huma campanula de vidro de
modo que o ar ambiente naõ entre pela base da dicta campanula; as
flores corromperaõ o ar interno de tal modo que se no dia seguinte
mettermos hum pardal dentro da campanula (immediatamente que a
levantarmas) o animal morrera dentro de poucos minutos, e se
mettermos taõbem hum coto de vela accesa no sendo da dicta campanula
se apagara em continente. Veja-se Experiences sur les Vegetaux, que
acima citei. Huma planta ordinariamente vicia huma quantidade de ar
dez vezes maior do que ella.
A idade, e o tempo em que as plantas e suas differentes partes devem ser
colhidas, e o modo de as [Página 449] seccar, e conservar para os usos medicinaes são circumstancias que
naõ devo passar aqui em silencio, viso que podem influir muito sobre as
suas virtudes Nota
Vej. Iacobi Silvii Opera Medica. Colon. Allobrog.
1630. in-fol.; et Georg. Rud. Boehmeri De collectione simplicium
Disput, &c.Nota
As cruciferas e labiadas parecem exceptuar-se desta
regra em razaõ de melhorarem nas suas quasidades por meyo da
cultura.Nota
He
por este motivo que o viscum e polypodium, que se daõ nos carvalhos,
saõ melhores para os usos medicinaes, em razaõ de terem mais
astringencia.
As raizes bolbosas e tuberosas devem ser colhidas na outono; quanto às
outras, muitos pertendem que devem ser arrancadas na primavera, logo que
começaõ a brotar folhas ,
porquanto a seiva que conservaraõ e adquiriraõ no inverno he entaõ
elaborada e lhes dà hum grande vigor, sendo neste periodo succulentas , tenras, carnudas, e bem nutridas; quando pelo
contrario, no outono saõ duras, quasi exsuccas e nimiamente
enfraquecidas de terem nutrido o troço [Página 450] ascendente e suas partes. He difficil de assignar regras geraes a este repeito, sendo certo que
quasi em todas as estaçoes do anno se podem colher boas raizes Nota
As raizes carnudas das plantas annuaes, como as dos rabaõs,
nabos, cenoiras, &c. que se usaõ como hortaliças, podem ser
colhidas em todas as estaçoẽs, contanto que sejaõ tenras e antes
da florecencia, porque neste periodo ficaõ occas ou
esponjosas. As malvaceas, em razaõ de serem usadas como emollientes, devem
taõbem ser colhidas tenras.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas. A casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.
Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar. Os ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ. As folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c. As avenças, polypodios e outras plantas da familia dos fetos devem ser colhidas durante o tempo da florecencia.
O melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica. As antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.
Os fructos ou pericarpos devem apanhar;se no estado de madureza, que naõ seja demasiada, como he a do [Página 452] periodo em que delles cahem as sementes; ha alguns fructos contudo que se apanhaõ verdes, e saõ assim usados em Medicina, mas saõ em pequemo numero ou huma pequena excepçaõ da regra geral.
As sementes devem ser colhidas gradas, e em plena madureza Nota
As excepçoẽs
a esta regra saõ muito poucas em medicina: ha algumas sementes que
servem de alimento, e se apanhaõ indifferentemente verdes ou maduras,
como saõ por ex. as ervilhas e favas; mas estas nutrem menos quando
verdes, aindaque nesse estado saõ menos flatulentas e melhor digeridas.
As sementes que se colherem para semear devem naõ so ser maduras, mas a
sua plantula seminal naõ ter, dano algum sensivel; as melhores saõ as
mais pezadas ou que lançadas em hum copo d'agoa vaõ ao fundo, porquanto
as que ficaõ ao lume d'agoa raras vezes saõ boas; naõ devem ter começado
a grelar, nem ter as cotylédones quebradas, porque aindaque estas duas
condiçoẽs naõ ponhaõ obstaculo á germinaçaõ futura, fazem contudo que o
vegetal que dellas nasce seja pouco vigoroso.
Naõ basta so saber o tempo proprio da colheita dos simples, he precizo taõbem
attender ao modo de os seccar e conservar. Ná desiccaçaõ ou modo de seccar
as plantas o principal objecto he privalas da humidade redundante, a fim de
as podermos guardar hum certo tempo para os usos de medicina. Alguns
recommendaõ de as seccar á sombra, principalmente as que saõ aromaticas,
para que menos percaõ do seu cheiro; mas a experiencia tem mostrado que
quando as seccamos rapidamente ao sol, ou nas estufas, ellas conservaõ assaz
bem o seu cheiro, propriedades, e muito melhor a suas cores; as que tem na
sua [Página 453] composiçaõ muito pouco do principio resinoso, como v. g. as borragineas,
veronica, e herva cidreira, perdem muito da sua virtude sendo seccas á
sombra lentamente, e ficaõ denigridas, por causa da fermentaçaõ que nellas
se estabelece, o que naõ succede quando saõ seccas promptamente ao sol ou
numa estufa Nota
As estufas, ou cubiculos, que se aquecem athe certo grao
por meyo de fornalhas tubuladas, saõ de grande utilidade nos paizes do
norte da Europa para seccar as plantas rapidamente em tempos humidos ou
chuvosos; as melhores, que tenho visto nas cazas dos Boticarios de
Paris, saõ hum cubiculo com tecto e paredes de tabique bem rebocado e de
seis pés quadrados; tem huma porta e janella de vidraças de grandeza
proporcionada; á esquerda da porta está situada a fornalha de ferro ou
barro (a que chamaõ poële) guarnecida de hum tubo de lata de cinco dedos
de diametro, que serve juntamente com a fornalha para estufar o ar do
cubiculo; este tubo he suspendido com arames no tecto do cubiculo, e a
sua extremidade superior sahe por hum buraco aberta na janella para
botar fora o fumo; na porta esta pendurado hum thermometro de mercurio
dividido em 80 graos desde o de congelaçaõ athe o grao de agoa fervendo.
Este instrumento serve para regular o calor da estufa que de ordinario
monta athe 55 ou 60 graos; ha nas paredes, em distancias iguaes de 8 ou
10 pollegadas, varias travessas de pao pregadas, que servem de soster
dois varoẽs de ferro, sobre os quaes se poem as plantas a seccar dentro
de cestas de vime compridas, medeando contudo entre as plantas e as
cestas algumas folhas de papel.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas. Nas estufas ou sobre hum forno de padeira, em que [Página 454] successivamente se coze paõ, a dessiccaçaõ he mais rapida e melhor, por naõ ser interrompida; neste cazo as serapilheiras devem ficar penduradas, para que o ar possa circular livremente, o que naõ sera desacertado practicar taõbem, quando a dessiccaçaõ for feita ao sol.
As raizes, troncos lenhosos, e cascas requerem huma dessicaçaõ mais appressada, em razaõ de conterem mais humidade; quanto às raizes, he precizo antes de as por a seccar alimparlhes a terra com huma serapilheira ou lavando-as rapidamente, cortar-lhes as raigotas filamentosas, partilas longitudinalmente ou transversalmente sendo grossas, e depois polas enfiadas a seccar; as que saõ delgadas naõ precizaõ de se cortar. Ha algumas que costumaõ guardar-se mettidas em area ou terra, como as da althea, escorcioneira, e armoracia, a fim de as conservar frescas; mas deve se advertir que guardadas muito tempo neste estado saõ sujeitas a vegetar e endurecer, e nesta circumstancia devem rejeitar-se como muito pouco efficazes. As raizes bolbosas compostas de cascos, como v. g. a cebola alvaraan, saõ difficeis de bem se seccar ao sol; o melhor sera se parar os seus cascos e mettelos a seccar no banho maria, a querelos ter perfeitamente privados de humidade.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas. As plantas aromaticas saõ susceptiveis de huma rapida dessiccaçaõ; mas he precizo saber regular os graos de calor e proporcionalos á volatilidade dos seus principios odorantes, e à quantidade da humidade. Ellas perdem na verdade [Página 455] durante a dessiccaçaõ, huma pequena porçaõ do seu aroma, e immediatamente depois parecem ter pouco cheiro, mas passados alguns dias amollecem hum tanto e ficaõ bastantemente cheirosas; as que saõ seccas à sombra saõ hum pouco mais aromaticas; porem ficaõ mais humidas, e a sua humidade costuma destruirlhes a cor, e he pouco favoravel à sua conservaçaõ.
As flores costumaõ perder ordinariamente as suas cores na dessiccaçaõ, e para melhor lhas conservar he precizo, embrulhalas em papel e polas assim a seccar; deve-se-lhes conservar o calys, e arrancalo somente depois de passada a dessiccaçaõ, quando assim for necessario como nas violettas; os cravos, e rosas vermelhas parecem ser huma excepçaõ desta regra, porquanto so se costumaõ seccar as suas petalas, e ainda estas mesmas saõ antes privadas das unhas. Os fructos ordinariamente costumaõ por-se a seccar naõ muito maduros.
As sementes consideradas relativamente aos principios, e consistencia das
suas cotylédones podem ser divididas em oleosas, farinhosas e resinosas; as
oleosas propriamente saõ aquellas de que se pode tirar oleo por expressaõ,
como v. g. as do melaõ, melancia, abobara, pepino, nogueira, amendoeiras,
nabos, &c.; as farinhosas saõ as que naõ daõ oleo por expressaõ, e se
reduzem facilmente em po ou farinha, como o trigo, cevada, milho, favas,
ervilhas, tramoços, e outras da familia das gramineas, e das leguminosas; as
resinosas saõ aquellas em que o principio resinoso he predominante. As
sementes contem em geral menos humidade do que as demais partes das plantas,
e porisso basta polas a seccar em lugar secco e hum [Página 456] pouco quente; as farinhosas Nota
Em alguns paizes do norte da Europa
costumaõ seccar o trigo em estufas afim de o poderem bem conservar para
o uso domestico, e ainda mesmo para semear.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor. Ha muitos simples, que podem conservar-se muitos annos sem corrupçaõ, principalmente quando foraõ colhidos em annos favoraveis, mas os melhores em geral seraõ sempre aquelles que se renovarem todos os annos.
As sementes em geral conservaõ-se bem nos lugares seccos c frescos; as
oleosas costumaõ nos lugares humidos germinar dentro de pouco tempo, e
apanhar [Página 457] môfo, e nos lugares quentes adquirem ranço; porisso he necessario
conservalas em lugares seccos e temperados; as farinhosas saõ sujeitas às
mesmas alteraçoẽs nos lugares humidos, e nos quentes seccaõ-se
demasiadamente porisso sera acertado de as conservar quasi do mesmo modo; as
resinosas aindaque resistaõ mais tempo à humidade e se alterem menos com o
calor, contudo o melhor sera conservalas em lugares temperados. Guardaõ-se
embrulhadas em papel, em cabaços, saccos, frascos bem tapados,
&c. Nota
As sementes, que se guardaõ muito tempo em frascos tapados
sem serem barradas de cebo ou cera, saõ ordinariamente inuteis para a
vegetaçaõ; a humidade e gaz, que ellas exhalaõ dentro do frasco, e a
falta de renovaçaõ do ar interno saõ, segundo Pullein, a principal causa
da sua corrupçaõ.
Para se poderem conservar para a vegetaçaõ e remetter a paizes remotos, sem
que sejaõ alteradas nas longas viagens de mar, Linneo aconselha de as metter
em hum frasquinho cylindrico de vidro tapado com huma rolha de cortiça
envolta em hum boccado de pelle, e que depois disso se ponha este frasquinho
dentro de outro hum tanto mais largo, havendo o cuidado de encher o espaço,
que medea entre hum e outro, com hum misto feito de partes iguaes de sal
commum, e sal ammoniaco com o quadobro de [Página 458] nitro, assegurando que desta maneira o calor naõ pode de modo algum chegar
a penetralas. Alguns costumaõ cobrilas de assucar quando ellas tem hum
pericarpo polposo; outros cobrem-nas de cera, e barraõ-nas depois com
argilla amassada em huma dissoluçaõ forte de goma Arabia, embrulhaõ-nas
emfim em hum encerado, e as remettem dentro de huma caxa ou barril. Alguns
aconselhaõ taõbem de as cobrir de cebo ou de hum misto de partes iguaes de
cera e cebo, quando saõ grossas, e sendo miudas, de as involver primeiro em
argilla e depois em cebo, cera, &c.; a operaçaõ consiste em tomalas com
huma pequena tenaz e mettelas em cera ou cebo que nade derretido na
superficie de agoa quente, tirando-as immediatamente e lançando-as em agoa
fria. A cera ou qualquer tegumento artificial, com que as sementes forem
cobertas, naõ devem ser despegados, senaõ quando estas se quizerem semear;
neste periodo raspar-se-haõ às mais grossas os dictos tegumentos com toda a
cautella, e lavar-se-haõ as mais miudas em sabaõ e area fina, athe que a
casca fique livremente exposta ao contacto do ar e capaz de embeber a
humidade, e semear-se-haõ sem mais demora Os que dezejarem ter mais
extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados
seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the
East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on
the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis
pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel.
- Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della
perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens
traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio
frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi.
Viennae. 1765. As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente
preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em
agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em
as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da
electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado,
principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia
de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo
individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a
este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum
semine.Nota
Eu devera passar actualmente a tractar dos usos [Página 459] economicos dos vegetaes, mas como a extensaõ desta materia ainda mesmo
tractada em geral me faria exceder os curtos limites de hum Compendio,
deixala-hei aos que se occupaõ dos differentes ramos da Botanica applicada
ás artes. Ninguem ignora que os vegetaes, alem dos usos que tem em Medicina,
saõ empregados nos da Architectura civil, militar, e naval, subministraõ ao
homem huma grande diversidade de alimentos e bebidas, nutrem muitos animaes
que lhe saõ uteis, saõ a materia de que elle forma innumeraveis trastes
domesticos, instrumentos, vasilhas, &c servem nas tinturarias, e
manufacturas, em huma palavra saõ, como ninguem duvida, o fundamento da
Agricultura, a mais preciosa de todas as artes Nota
He huma maxima hoje
assaz bem reconhecida, que a Agricultura sendo animada he o verdadeiro
fundamento da provoacaõ e força dos Imperios; o solido esteio em que se
sostem as manufacturas, artes, e commercio, a fonte de que emana a sua
firme prosperidade; o thesoiro e verdadeiras minas de qualquer estado; o
unico meyo de enriquecer de contino tanto o vassalo como o soberano; e
emfim o melhor regresso para poder pagar as dividas publicas, e naõ
contrahir outras. Quesnay, Bandini, Boisgillebert, &c.
HUM hervario (herbarium) he huma collecçaõ de plantas seccas estendidas sobre
papel, ou nelle estampadas bem ao natural, e dispostas methodicamente. O
primeiro pode ser chamado hervario naturas e o segundo artificial, como he o
das plantas de França que M. Bulliard publicou e vay continuando. Hum e
outro saõ summamente uteis e necessarios a todos os que cultivaõ o estudo
dos vegetaes. Elles servem de nos fazer conservar por hum meyo commodo as
ideas das plantas, que ja temos observado, e nos conduzem com os systemas a
reconhecer sem hesitaçaõ os nomes das plantas, que jamais se tinhaõ
presentado vivas a nossos olhos. Alguns Botanicos preferem os herbarios
naturaes aos artificiaes; huns e outros tem suas vantagens e seus
inconvenientes; a maior parte das raizes, os fructos, e sementes, hum
grande numero de especies da familia do fungos, e plantas succulentas Nota
Ha algumas plantas succulentas , que se podem
conservar nos hervarios naturaes, mas ficaõ summamente
desfiguradas. Nota
Aindaque as flores e suas partes podem ser conservadas em
espirito de vinho, este modo naõ me parece contudo merecer de
ser perferido ao das estampas fieis, porquanto estas saõ mais
duraveis e mais livres de engano.
Todos os que se propoem de estudar Botanica devem começar por fazer huma
collecçaõ de plantas seccas: depois de terem ajuntado hum certo numero
nas herborizaçoẽs Nota
As herborizaçoẽs (herbationes, s. herborizationes) saõ passeios
ou caminhadas, que se fazem para apanhar ou observar plantas;
dizemse publicas, quando saõ feitas (hum dia na semana) na
companhia de hum professor de Botanica; e particulares, quando
naõ saõ presididas pelo dicto professor, como quando alguem
herboriza so, ou com hum hervolario, jardineiro, dois ou tres
amigos instruidos em Botanica, &c. Este era o principal divertimento do celebre philosopho Rousseau,
e de muitos outros; com effeito as plantas e flores dos campos
seraõ sempre o mais aprazivel objecto de meditaçoẽs do homem
sabio, que nellas encontra de contino evidentes provas da
immensa sabedoria do Deos da natureza. Nota
Nomenclar huma planta he dar-lhe o seu nome generico e especifico
(ou trivial) segundo hum systema adoptado; os principiantes
deveraõ para este fim consultar o seu professor, ou algum dos
seus condiscipulos bastantemente instruidos no conhecimento das
plantas do paiz, e naõ confiar na nomenclatura dos jardins
botanicos, que muitas vezes he errada por incuria ou ignorancia
dos jardineiros.
Ninguem deve esperar de poder conservar huma planta com toda a sua natural
belleza, seja qual for o modo de dessiccaçaõ que se haja de practicar;
porquanto ainda às mais bem dessiccadas perdem muito da sua fresca
apparencia. As dessiccaçoẽs, de que se servem os botanicos para conservar as
plantas no mais perfeito estado, que lhes he possivel, saõ feitas ou em area
ou por compressaõ. A dessiccaçaõ em area, attribuida a Joaõ Rodolpho
Camerario, consiste na operaçaõ seguinte. Lave-se huma sufficiente
quantidade de area fina afim de a privar de materias heterogeneas,
seque-se depois, e peneire-se para separar as partes grosseiras, de que
a lavagem a naõ pôde privar; feito isto, escolha-se para cada [Página 463] planta hum vaso de barro de forma e grandeza competente; escolha-se
taõbem a mais bella especie das plantas que se tiver ápanhado com flor,
em tempo secco e com hum tronco sufficiente: lance-se no fundo do vaso
huma pouca de area secca e quente e metta-se nelle a base do tronco da
planta destinada á dessiccaçaõ, sostentando-a com a area de modo que
nenhuma das partes da planta toque nas paredes lateraes do vazo,
continue-se a lançar area pouco a pouco athe cobrir a planta de maneira
que fique por cima della quasi a grossura de dois dedos de area; á
proporçaõ que esta se for lançando, ter-sehá o cuidado de estender os
ramos, folhas , e flores, sem
contudo as constranger, e de modo que fiquem na sua configuraçaõ, e
postura natural. Concluido este trabalho, ponha-se o vaso em huma estufa de cincoenta
graos de calor ou pouco menos Nota
Alguns em lugar de metter os vazos
em estufas costumaõ expolos ao ardor do sol, mas o calor das estufas
merece de ser preferido em razaõ de fazer a dessiccaçaõ mais
rapidamente. Nesta sorte de operaçaõ huma grande parte da materia
colorante das flores he ordinariamente bem conservada: as petalas
algumas vezes costumaõ despegar-se, principalmente quando o germe he
grosso como na tulipa, e porisso muitos costumaõ cortalo antes de
enterrar a flor na area, assegurando que por este meyo ellas
conservaõ bem a sua adherencia.
Aindaque as plantas assim dessiccadas conservem bem a sua forma de maneira
que porisso alguns lhes chamaõ mumias vegetaes, contudo tem o defeito de
ficarem mais volumosas e quebradiças, do que as [Página 464] dessiccadas por compressaõ, e porisso este segundo meyo he
ordinariamente hoje preferido, principal mente por ser mais simples, e
capaz de conservar as cores Nota
Ha algumas flores, de que he difficil
poder conservar a substancia colorante; as violettas saõ deste
numero, e o melhor modo, de que alguns se servem para lhes conservar
a cor, he escaldando-as em agoa fervendo, retirando-as
immediatamente, espremendo-as e seccando-as depois
rapidamente.Nota
O modo de seccar as plantas que proponho he exactamente
o mesmo que practicava o celebre Joaõ Jacques Rousseau, cujos
hervarios foraõ summamente admirados em Paris pela bella dessiccaçaõ
de suas plantas. Ha ainda outros modos mais simples, mas naõ me
parecem satisfazer ao intento taõ perfeitamente como o que exponho
aqui.Nota
Este papel he destinado para
estender as plantas depois de seccas e servir no hervario; e porisso
deve ser preparado do modo sobredicto a fim de contribuir para
preservar as plantas de serem roidas pelos insectos. Alguns molhaõ
este papel em huma preparaçaõ de aloe, alcanfor, plantas amargosas,
aromaricas, &c. e preferem esta preparaçaõ á da pedra hume, que
segundo elles altera a cor das flores mas eu naõ pude ainda observar
esta mudança, quando as flores tem sido antes bem
dessicadas.Nota
Alguns costumaõ em lugar das duas taboas servir-se do prelo em
que os livreiros costumaõ levemente apertar os livros somente
cozidos, a que chamaõ em França brochures; e na verdade este
instrumento he assaz commodo para regular a compressaõ. Nota
Assim como ha plantas que basta mudalas duas vezes de papel para
ficarem seccas, ha taõbem outras que precizaõ de ser mudadas ao
menos seis vezes para perderem a sua humidade; as que saõ succulentas precizaõ de ser mudadas de papel mais a
miudo, e requerem huma dessiccaçaõ tanto mais accelerada, quanto
maior he a abundancia dos seus succos.
Depois que as partes da planta tiverem perdido a sua flexibilidade por meyo
das operaçoẽs feitas no papel pardo e papelloẽs, e que nos parecerem estar
seccas, passar-se-ha a dicta planta a huma folha de papel branco (n. 3º), e
se deixará ficar nelle ainda alguns dias a fim de perder completamente a
humidade, que nos pode ter escapado de perceber. Terminada assim a
dessiccaçaõ por-se há a planta em huma folha de papel branco competente
(n. 4º), e nelle se firmará o seu tronco, ramos, e ainda mesmo as folhas maiores, com fittinhas, ou
pequenas tiras estreitas de papel pegadas com colla de peixe Nota
Alguns naõ usaõ das tiras de papel, ou pedacinhos de fitta, e
collaõ na folha todo o corpo da planta com colla de peixe; mas
este modo naõ deixa o papel taõ aceado como o sobredicto. Os organos da fructificaçaõ, que convem de ajuntar (sendo
possivel) a cada planta, devem ser dessiccados á parte, e se
collaraõ depois, ao lado da planta a que pertencem.Nota
A descripçaõ
historica trabalhada em toda a extensaõ, de que he susceptivel, deve
ser feita em cadernos separados, por naõ fazer os hervarios
demasiadamente volumosos.
Tanto que se houver dessiccado do modo sobredicto hum certo numero de
plantas sufficiente para começar a fazer hum hervario, distribuir-se-haõ
me thodicamente, isto he, por-se-haõ todas as congeneres seguidas
successivamente Nota
No cazo que se hajaõ dessiccado algumas
variedades, terse-ha o cuidado de as por immediatamente depois da
sua especie respectiva.Nota
Os generos de cada
ordem, que tiverem mais affinidade, devem ficar approximados.Nota
As brochuras (do Franc. brochure) saõ, como
ja indiquei, livros somente cozidos, e levemente apertados; as suas
folhas naõ foraõ batidas nem aparadas, e se usaõ assim em Franca
cobertos com huma capa de duas folhas de papel colladas.Nota
Elle podera conter dobrado numero de plantas, se lhe derem
dobrada largura da que proponho aqui, como se entende
facilmente.
O vaõ, ou espaço interno do armario deve ter de altura cinco pés e dez pollegadas (medida de Paris), quasi dois pés de largo, e pouco mais de hum pé de fundo. Repartir-se-ha este vaõ em duas metades iguaes ao alto por meyo de duas taboas aprumadas, formar-se-haõ nas dictas duas metades vinte e quatro parteleiras por meyo de travessas ou taboinhas horizontaes da grossura de meya pollegada. No lado direito haveraõ onze parteleiras e dez travessas. Cada huma destas parteleiras he destinada a receber as bocetas de plantas relativas a cada huma das vinte e quatro classes do systema mencionado, e devem ter mais ou menos pollegadas de altura, segundo o menor ou maior numero de vegetaes que costumaõ ter as dictas classes. A sua destribuiçaõ e altura adequada deve ser da maneira seguinte.
[Página 469]A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6Este armario sera fechado com duas portas correspondentes aos dois lados sobredictos, e em cada huma dellas se poraõ tantos lettreiros quantas forem as parteleiras do seu lado. Cada lettreiro deve conter o nome de huma das vinte e quatro classes do systema de Linneo, ser escrito com lettras bem legiveis, e collado exactamente defronte da parteleira, que deve conter a boceta notada com outro lettreiro semelhante.
Reclusas as pantas seccas nas bocetas, e estas nas parteleiras respectivas do
Armario construido do modo que fica exposto, naõ havera difficuldade alguma
em achar dentro de poucos minutos huma planta que dezejamos mostrar. Supponhamos por ex. que quero mostrar a hum Botanico a Cleonia
lusitanica; se me esqueço da classe, consulto o Genera plantarum de
Linneo, e pelo index venho em continente a conhecer que esta planta
pertence á Didynamia; lanço por conseguinte a vista sobre os lettreiros
collados nas portas do armario Nota
Pode-se abbreviar ainda esta
pesquiza procurando directamente a Didynamia gymnospermia nos
lettreiros postos na face anterior das bocetas, no cazo que sejaõ
escritos com lettras taõ grandes, como as dos lettreiros das portas
do armario; demais disso hum pouco de uso bastará para fazer
derepente lançar maõ da boceta relatira à classe e ordem que
buscamos.
Fim do Tomo primeiro.
COMPENDIO DE BOTANICA , ou Noções elementares d'esta sciencia, segundo os melhores escriptores modernos, expostas na Lingua Portugueza Por FELIX AVELLAR BROTERO . TOMO PRIMEIRO.Perfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor.
PARIS . Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros. M,DCC,LXXXVIII. COMPENDIO DE BOTANICA , ou Noções elementares d'esta sciencia, segundo os melhores escriptores modernos, expostas na Lingua Portugueza Por FELIX AVELLAR BROTERO . TOMO PRIMEIRO.Perfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor.
PARIS . Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros. M,DCC,LXXXVIII. COMPENDIO DE BOTANICA , ou Noções elementares d'esta sciencia, segundo os melhores escriptores modernos, expostas na Lingua Portugueza COMPENDIO DE BOTANICA, ou Noções elementares d'esta sciencia, segundo os melhores escriptores modernos, expostas na Lingua PortuguezaPor FELIX AVELLAR BROTERO . TOMO PRIMEIRO.FELIX AVELLAR BROTEROPerfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor.
Perfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor.
Perfectio Botanices ab individuorum singulorum inter se affinium, eorumque identicorum characterum notitiâ essentialiter pendet. Necker. Physiol. Muscor. PARIS . Vende-se em Lisboa, em caza de Paulo Martin, mercador de livros. M,DCC,LXXXVIII. PARISM,DCC,LXXXVIII. [Página iii]AO ILLUSTRISSIMO E EXCELLENTISSIMO SENHOR D. VICENTE DE SOUSA COUTINHO, Do Conselho de S. Magestade Fidelissima, Seu Embaxador na Côrte de Versalhes, Senhor de Alva, etc. etc.
EXC.mo SENHOR,
Aindaque nam concorressem em V. Exc. o esplendor do emprego, a consumada pericia nos negocios politicos, e a gloria de illustres Ascendentes, bastara à grande humanidade para com os desgraçados, o agradavel acolhimento que costuma fazer â todos os seus Compatriotas, os generosos sentimentos com que se digna favorecer os homens de Lettras, às quaes V. Exc. faz tanta honra, bastaram muitas outras admiraveis virtudes, que ornam o espirito de V. Exc. para dar-lhe hum nome preclaro, recommendavel à [Página iv] posteridade, e digno das homenagens de todos os sabios. Dezejara ser assaz feliz para achar em meus talentos hum obsequio adequado a tam bellas qualidades: mas sendo V. Exc. servido de acceitar o que présentemente lhe faço na dedicaçam dos fructos do meu trabalho sobre a Sciencia dos Vegetaes, permittirà hum fraco testemunho à minha gratidam, augmentarà o numero das demonstraçoens de benevolencia, com que costuma acolher tudo o que o zelo e amor do bem publico fazem emprehender, e protegerà ao mesmo tempo huma Sciencia, cuja utilidade he bem reconhecida pela frequencia com que he applicada à Medecina, Agricultura, e Artes.
DE V. EXC. O mais affectuoso e reverente servo, Felix Avellar Brotero.
[Página v]Quæso, ne hæc legentes, quoniam ex his spernunt multa, etiam relata fastidio damnent, cum in contemplatione naturæ nihil possit videri supervacuum, Plin.
A Botanica como todas as mais partes de Historia natural sam hoje em toda a Europa summamente cultivadas pelo muito que sam uteis ao progresso dos conhecimentos humanos, e às commodidades da vida social. O estudo botanico reune à sua utilidade hum superior grao de agradavel, a immensidade dos entes vegetativos, que de contino renovam a face da Terra, sendo hum dos mais bellos e amenos expectaculos, que nos prezenta a natureza, hum vastissimo campo, em que os olhos de hum attento observador encontram a cada passo maravilhas sem numero variadas, objectos de profundas meditaçoens, que engrandecem o espirito, e o elevam athé à firme persuasam de hum Deos, Autor do Universo. Grandes homens tem cultivado este campo com cuidado, e os seus trabalhos fizeram que os conhecimentos botanicos, algum dia tam limitados e confusos, tem adquirido huma nam pequena extensam e clareza. Conhecemos hoje mais da metade das plantas do globo terrestre, e temos prezentemente muitos methodos ou systemas, e muitas obras elementares de Botanica tanto em latim, como em quasi todas as linguas modernas da Europa.
Entre nòs contudo os principios desta Sciencia tem sido athe agora somente conhecidos em latim, e daqui resulta que todos os que ignoram esta lingua, ou tem fracas luzes della, ficam privados de adquirir as noçoens de huma Sciencia, que [Página vi] muitas vezes em razam do seu estado lhes sam absolutamente necessarias.
Dezejando pois obviar este obstaculo, e facilitar geralmente o estudo dos vegetaes entre nos, cuidei de escrever o prezente Compendio fundado nos tractados dos melhores Botanicos modernos e nas minhas proprias observacoens, o qual, segundo me parece, poderà ser util nam so aos que ignoram a lingua latina, mas ainda aos que a sabem e tem ja alguns conhecimentos em Botanica .
No principio do primeiro Volume tracto da origem, progresso, e estado actual da Botanica , e dou humas breves noçoens da physiologia e anatomia dos vegetaes. Explico depois os termos technicos mais usados na descripçam das partes relativas ao seu habito externo e fructificaçam, sem desprezar contudo os que dizem respeito à sua habitaçam. Passo na parte seguinte a fazer mençam do que me pareceo ser sufficiente para entender qualquer systema botanico e suas partes, como tambem da theoria critica, que devem saber os que se proposerem de formar esta sorte de destribuiçoens methodicas. Ajuntei a esta parte alguns exemplos de practica sobre a descripçam das especies, por querer facilitar hum trabalho, que considero como base dos Methodos, e o mais digno dos principaes cuidados de todo o Naturalista Botanico. Termino o volume com algumas reflexoens sobre as virtudes, propriedades, e usos dos vegetaes em geral, e com hum capitulo sobre o modo de fazer hum hervario.
No Segundo Tomo exponho o systema de Linneo, e dou huma idea geral da sua praxe, por ser hoje o mais seguido na Europa, e o que se adoptou na nossa Universidade. Esta exposiçam em alguns lugares he muito mais ampla do que ordinariamente se costuma dar; porquanto tive o cuidado de nada omittir do que as minhas proprias observaçoens e as de [Página vii] outros botanicos modernos me subministraram de mais interessante para illuminala. Ajuntei depois os sentimenots de muitos celebres Botanicos a respeito do mesmo systema para que o Leitor tendo conhecido as suas engenhosas vantagens nam ignorasse os seus defeitos, e podesse estima-lo segundo o seu justo valor.
As difficuldades, que encontram os que começam a cultivar a Sciencia botanica, seram diminuidas por meyo do Diccionario immediatamente adjuncto; e a fim de que o prezente tractado fosse ainda mais proveitoso, ajuntei tambem no fim deste segundo Tomo hum catalogo dos principaes autores botanicos, hum sufficiente numero de Estampas tiradas das obras de Linneo e outros modernos para clara intelligencia de muitos termos, hum index dos nomes usuaes Portuguezes de plantas, os quaes se acham nos livros escritos na lingua nacional, e em Grisley, Pisam, Marcgrave, Rheede, Rumphio, etc, com os nomes latinos genericos e triviaes, a que correspondem segundo o systema de Linneo; outro em fim dos termos technicos Portuguezes.
Cuidei de distribuir todas as partes do primeiro Tomo o mais methodicamente que me foy possivel, nam me querendo por ora desviar muito do plano que costuma seguirse hoje nas escolas de Botanica. Nam posso contudo deixar de confessar que este plano nam he o que mais me agrada, e espero algum dia de o mudar, se poder chegar a publicar os Elementos de Phytologia , que preparo em latim.
Na traducçam dos termos latinos segui os nossos Diccionarios, e me aproveitei de algumas palavras dispersas pelas nossas Provincias, que senam acham ainda em Diccionario algum; muitas vezes fui obrigado a formar novas do latim, como faziam os antigos Romanos do Grego, e como fez Barnades em Hespanhol, Lée em Inglez, Dalibard e La Mark [Página viii] em Francez, etc. Talvez serei em algumas notado pelo vulgo; mas pouco importa; todos os termos que formei tem o cunho Portuguez, e foram innovados segundo o genio da Lingua; demais disso as linguas das Sciencias sam hum puro effeito da convençam dos sabios, e nam poderam jamais ser a linguagem do vulgo, que nam as estuda e so as conhece athe hum certo ponto: a necessidade de explicar com clareza, concisam, e propriodade huma infinidade de ideas, que elle nam tem, farà sempre em todas as Sciencias termos barbaros aos seus ouvidos, e indespensaveis aos sabios ou aos que sam nellas iniciados.
Depois de ter vendido o Manuscripto da prezente Obra, achei acertado acerescentarlhe algumas notas para lhe dar o complemento necessario, e nam receyo actualmente de assegurar que sem embargo de ser hum Compendio, o Leitor nam acharà tractado algum elementar de Botanica mais completo de quantos se tem athe agora publicado.
[Página ix] O Estudo dos vegetaes he tam antigo como a especie humana, ella parece ter
sido obrigada a adquirir ideas particulares destes entes antes de todos os
mais conhecimentos da natureza. Se consultamos a Sagrada Historia, ella nos presenta o primeiro homem no meyo
de hum delicioso jardim, nutrindo-se de hervas As folhas da bananeira
(Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e
Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ
figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o
sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez
e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura
proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ
facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ
foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil,
visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e
tres de largo. Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super
terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem
generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes
herbas terræ, (Genes. Cap. 3.). Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens
usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta
permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca,
quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit
vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ
menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta
estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ
podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e
d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar
das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros. Nota
Nota
Nota
Nota
Panis erant primis virides mortalibus herbæ. Ovid Fast. L. 4. Cum
hontines pastoriciam vitam agerent, neque scirent etiam arare terram....
ut ex arboribus, ac virguliis decerpendo glandem, arbutum, mora, pomaque
colligerent ad usum. Varro de Re rust. L. 1. 2. Alguns philosophos da
antiguidade naõ se contentaraõ meramente de seguir esta opiniaõ,
elles foraõ de parecer que o homem tinha sido formado para se nutrir
somente de vegetaes, e que elle devia respeitar a vida de todos os
animaes; estes sentimentos passaraõ mesmo a ser hum artigo de
Religiaõ entre algumas naçoens, e delles vemos ainda hoje alguns
restos na India.
Mas os alimentos nam foram o unico motivo, que obrigou os primeiros homens a
familiarizar-se com os vegetaes; as suas enfermidades deram ainda novas
razoens para isso, e nam menos forçosas. He verdade que a historia e antigos Poetas Nota
Vej. Entre outros Hesiodo e
Ovidio.Nota
Naõ consta que tenha havido athe agora povo algum civilizado, ou
selvagem, em que deixassem mais ou menos de haver contendas sanguinarias
ou entre si ou contra seus vizinhos: nos vemos ainda dissensoẽs mais ou
menos fortes entre irmaõs, e familias que vivem nas cidades policiadas,
e apezar dos innocentes costumes attribuidos às familias primitivas, naõ
deixamos de ver na primeira hum dos mais funestos exemplos das paxoẽs
humanas.Nota
Naõ so quanto ao moral, mas ainda quanto ao physico, sendo assaz
conhecido pela experiencia que a colera, medo, tristeza ou alegria
demasiadas, e outras paxoẽs podem causar na economia animal
desordens consideraveis, e ainda mesmo funestas.
Nos seculos antediluvianos o pequeno progresso, que o espirito humano fez nas
artes, foy sempre a par com o conhecimento dos vegetaes. Se consideramos as primeiras famílias na vida pastoril ou errando em bandos,
nam se pode negar que esse estado fosse favoravel a hum semelhante
conhecimento; ellas eram entam obrigadas a converter differentes plantas em
cabanas, para se reparar das chuvas e injurias da atmosphera, e à proporçam
que mudavam de lugares se viam precisadas a fazer tentativas de novas
producçoens vegetaes para nutrirse e curarse, guiadas ora pela semelhança
das que jà conheciam, ora pelo instincto Nota
O instincto dos animaes,
aindaque limitado a suas absolutas precisoẽs e susceptivel de pouco
progresso, parece às vezes ser superior ao juizo dos homens; estes se
serviraõ delle com felicidade em algumas occasioẽs naõ so para fazer
escolha de alimentos, mas ainda para reconhecer as virtudes de alguns
vegetaes. Plinio foy de parecer que o caõ tinha ensinado a vomitar o
homem. Nota
O primeiro
Lavrador, segundo lemos no Genesis - foy Cain: Cain fuit agricola &
terrem etiam arare primus excogitavit. Os Egypicos, que se jactavaõ
de ser os mais antigos povos da terra, e descender de Entes Divinos,
veneraraõ a Isis como inventora da cultura do trigo e cevada, e ao
Arabe Osiris por lhes ter primeiro ensinado o uso do arado e
agricultura. Os antigos Gregos e Romanos pertendiaõ que a agricultura succedera a
vida pastoril, em que as primitivas geraçoẽs se occuparaõ durante
muitos seculos; e criaõ que fora Ceres quem a ensinara na Grecia
depois de ter vindo do Egypto; outros contudo seguiraõ que Buzyges
ou Triptolemo fora o que a estabeceo entre os Gregos. Nota
As mesmas plantas
venenosas podiaõ ainda nesse tempo ser aproveitadas para hervar as
settas e outros usos vingativos, da mesma sorte que as vemos hoje
empregadas entre as naçoens selvagens.
Depois da grande e lastimosa catastrophe dos povos do antigo Globo vemos Noé plantar huma vinha, e na tentativa com que descobrio o vinho, mostra ter conservado o espirito investigador dos usos dos vegetaes e seus productos, que tinha havido nos seculos antediluvianos. Nem se pode duvidar que na sua familia se salvasse huma grande parte das antigas tradiçoens botanicas, e que estas passassem depois igualmente aos seus vindoiros. O grande empenho de Rachel por obter huma [Página xiv] das mandràgoras, que Reuben tinha trazido do campo, provavelmente procedeo da persuasam em que ella estava da efficacia desta planta contra a esterilidade, o que suppoem por conseguinte noçoens estabelecidas das virtudes de alguns vegetaes. Os Egypcios, huma das mais antigas naçoens civilizadas, sam representados na historia como tendo vivido do Lotus (de que faziam huma especie de pam), e dos talos do Papyrus. A agricultura, a arte de embalsamar os cadaveres com substancias resinosas e aromaticas usada por este povo desde hum tempo immemorial, ocustume de expor os seus doentes à vista publica, a fim de que as pessoas que junto delles passassem lhes subministrassem os soccorros que para suas enfermidades reconheciam nos vegetaes, indicam claramente que as tradiçoens botanicas se tinham conservado no Egypto, e adiantado. Estas tradiçoens poderiam ter diminuido entre as naçoens menos cultas e entre os povos de vida errante, mas ellas nam podiam ser de todo extinctas, visto serem sumamente interessantes à sua subsistencia e à sua saude.
A historia nam nos assegura de que as tradiçoens sobre os usos tanto
economicos como medicinaes das plantas passassem a ser escriptos nos primeiros seculos depois da horrivel
catastrophe do diluvio. Parece contudo que a Botanica medicinal traditiva nam tardou muitos seculos
depois da dispersam das gentes em ser escripta entre as naçoens civilizadas,
principalmente no Egypto. Neste paiz as plantas efficazes sendo ja conhecidas em grande numero, os
sacerdotes tractaram de redigir os seus nomes a huma certa ordem ou
catalogo, e o depositaram nos templos. Os doentes começaram entam a recorrer a elles, como depositarios dos remedios
proprios para suas enfermidades, e pouco a pouco a arte de curar com os
vegetaes, a que todo o curativo das doenças estava entam limitado, veyo a
ficar somente aos sacerdotes, e a fazer parte do seu sistema [Página xv] religioso. Elles tractaram quanto lhes foy possivel de adiantar os seus conhecimentos na
Botanica medicinal; e com effeito ella foy entre os antigos Egypcios huma
das artes mais cultivadas e honrosas. Hermes, a quem os Gregos chamaram Mercurio, e de quem a mercurial deriva o
nome, foy hum dos mais antigos e famosos sabios nesta arte. A rainha Isis foy nella tam instruida e por meyo della fez curas tam
admiraveis, que os povos depois da sua morte lhe erigiram templos,
adorando-a como a melhor advogada nas suas enfermidades. Ella foy a que instruio a Horo ou o Apollo dos Gregos, ao qual elles
attribuiram a invençam da Medicina. Esculapio Nota
Este Esculapio viveo dois mil annos antes de Hjppocrates, e naõ deve
ser confundido com o Esculapio dos Gregos, que dizem fora discipulo
de Chiron o Centauro, e ter servido na expediçaõ Argonautica. Nota
Esta
persuasaõ foy depois bem geral em todo o antigo paganismo, e Celso a
idica claramente, quando diz: morbos vero iram
deorum immortalium relatos & ab eisdem opem posci
solitam.
Os Magos na Persia, os Gymnosophistas na India, e os Caldeos na Assyria e
Babylonia applicados no principio a observar puramente o que lhes offerecia
a candida natureza nos vegetaes introduziram tambem, como os Egypcios, em
botanica hum grande número de superstiçoens. As colonias, que emigraram destes paizes nam podiam deixar de levar comsigo
mais ou menos noçoens de hum semelhante abuso. Estas noçoens com effeito passaram athe à extremidade gelada do antigo
continente oriental e de là a America com o nome de superstiçam de Chemis,
Orchis, e outras divindades. Do Egypto nam so passaram a toda a Africa, mas caminhando ao longo das costas
do Mediterrâneo entraram na Phenicia e depois na Grecia, aonde augmentando
pouco a pouco tomaram emfim o nome de superstiçam de Esculapio. Ellas se espalharam igualmente nas Gallias, e dellas correram athe ao norte
da Europa com o titulo de Druidismo Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes
muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio
hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ
ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca,
mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e
passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se
fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava
vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses
huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era
taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e
extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de
colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido
lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em
razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as
ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que
pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex.
contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa
contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra
toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque
consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de
visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os
destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa
estrea. Nota
Lemos na historia destes obscuros, e supersticiosos tempos que hum certo
numero de plantas fora entam consagrado aos
Deoses por motivos religiosos Felices gentes, queis dî nascuntur in
hortis! Nota
Como foraõ por ex. a artemisia,
consagrada a Artemis ou Diana (porque naõ derivou o nome de Artemisia
mulher de Mausolo, rey de Caria, como Plinio e outros disseraõ); a hera
a Osiris e a Bacho; o pinheiro a Neptuno; o loireiro a Apollo, a sua
baga a Bacho, donde lhe veyo o nome de bacca; a videira ao mesmo deos
Bacho; a oliveira e matricaria a Pallas; o trigo a Ceres,
&c.Nota
Como foraõ por ex. os alhos e cebolas entre os Egypcios cujas
divindades eraõ ainda adoradas no tempo de Iuvenal, como - se collige do
satyrico verso, com que as ridicularizou e aos seus adoradores:
Portanto a botanica supersticiosa, cuja origem pode em [Página xviii] geral ser attribuida à ignorancia, temor, e embuste, parece ter-se
introduzido progressivamente entre todas as antigas naçoens, e nos
observamos ainda hoje hum resto della nos pòvos selvagens, e na plebe de
alguns paizes civilizados Nota
Tal e por ex. o uso de passar por entre hum vime fendido as creanças
com enfermidades herniaes [ou quebradas, segundo a expressaõ vulgar]
de ligar depois o dicto vime om as tiras da sua camizinha a fim de
as curar; como taõbem o uso de colher plantas medicinaes, em certas noytes de Junho, noytes
famosas na antiguidade antechristaã pelas fogueiras que nellas se
faziaõ a Ceres, deosa das searas, com palha de faveiras, ervilhas,
&c, e pelo costume de saltar por cima das dictas fogueiras para
assim expiar os peccados sobre o fogo, como diz expressamente
Plutarcho. Nota
Como foy taõbem a das Druidezas nas ilhas das
Gallias, e a das Cuthites em alguns lugares da costa do
Mediterraneo.Nota
Do ministerio supersticioso, que estas personagens exerciaõ com os
vegetaes, principalmente os que obraõ com força sobre o systema
nervoso, se originou provavelmente o grande numero de metamorphoses
e muitas fabulas, e prestigios, que a Poesia nos transmittio. Quem bem reflectir no que a credulidade de muitas pessoas attribue
ainda hoje as ànacardinas, e attender aos effeitos dos aromas, do
vinho, opio e outros narcoticos, á singularidade de huma especie de
Arum, que segundo Sloane faz emmudecer, &c., naõ acharà estranho
este meu parecer.
Perto da famosa epoca da guerra de Troya, Chiron o Centauro, do qual a planta
Centaurea obteve o nome, parece ter practicado sem superstiçam a botanica
curativa, em que tinha grandes conhecimentos. Elle formou muitos illustres alumnos, entre os quaes se contam alguns
Princepes; porquanto naquelles heroicos tempos a Botanica curativa tinha
parte na educaçam dos soberanos, e todos os grandes homens cuidavam entam
summamente de grangear a estima a amor dos- povos buscando meyos de os
aliviar nas suas enfermidades Nota
Naõ so nesta epoca, mas ainda antes
della, e em outros seculos seguintes, muitos principes e grandes
personagens cultivarão o estudo dos vegetaes, descobriraõ e poseraõ em
uso as virtudes de alguns, como foraõ, por ex. Teucro Rey de Troya,
Helena raynha de Lacedemonia, Ptolomeo Philadelpho Rey do Egypto,
Telepho Rey de Misia, Eupator Rey do Ponto, Lysimacho Rey de Thracia,
Gencio Rey de Esclavonia, Pharnaces Rey do Ponto, &c., dos quaes
tomaraõ o nome as plantas Teucrium, Helenium, Philadelphus Telephium,
Eupatorium, Lysimachia, Gentiana, e Pharnaceum. Cyro Rey dos Persas teve
hum jardim de toda a sorte de plantas, que cultivava por sua propria
maõ, Attalo Rey dos Pergamenos mandou plantar no seu jardim toda a casta
de plantas medicinaes e venenosas para as apprender a destinguir.
Mithridates, Rey do Ponto, cultivou muito este estudo, e Cratevas lhe
dedicou a planta Mithridatia. Evax, Rey dos Árabes, escreveo sobre as
plantas medicinaes. Iuba, Rey da Mauritania, escreveo da Euphorbia
contra os venenos, e lhe deo o nome do seu medico Euphorbo, que a tinha
descoberto, no tempo em que Augusto Cesar tinha mandado erigir huma
estatua a Antonio Musa, irmaõ do dicto Euphorbo, pelo ter curado huma
perigosa enfermidade.
Durante a guerra de Troya Nota
Esta famosa guerra succedeo quasi doze seculos antes da Era
Christaã. Nota
Foy o Esculapio dos Gregos, cuja sciencia na arte de curar lhe
grangeou honras divinas, como ella tinha grangeado ao dos
Egypcios.
No espaço entre a guerra de Troya e de Peloponeso, que envolve hum periodo de
mais de sette centos annos, Thales e Pythagoras trazendo a philosophia à
Grecia, a Botanica começou a ser melhor cultivada, como o foram as demais
artes; e as substancias vegetaes, como medicamentos internos Nota
Alguns autores saõ de parecer que as subftancias vegetaes começaraõ a
ser empregadas no uso interno somente neste periodo, e que ainda
mesmo no tempo da guerra de Troya se practicasse somente a botanica
cirurgica, e naõ a medicinal; que a bebida de Machaon devia ser
considerada como nutritiva e naõ como medicinal; que os doentes
estavaõ taõ fora de confiarem entaõ em remedios internos, que nos
cazos em que estes deviaõ ser tomados, so tinhaõ fé em amuletos, e
prestigios ou na articulaçaõ de certas palavras proferidas por seus
sacerdotesve sacerdotizas, as quaes às vezes eraõ acompanhadas de
remedios externos vegetaes; que todas as feridas dos heroes Gregos
na guerra Troyana foraõ curadas com remedios applicados
exteriormente, a saber, succos, resinas, e oleos vegetaes, e que por
conseguinte todo o curativo fora meramente cirurgico; que o vinho
que Agamemnaõ bebia em jejum naõ era no intuito de se preserva da peste [sem embargo de que vemos
este uso nos Gregos modernos] porquanto a peste do exercito Grego
fora considerada como hum flagello celeste, e naõ pôde ainda nesta
epoca ser curada por meyos physicos, recorrendo-se somente a
propiciar o Deos irado. Outros pelo contrario pertendem que junto da guerra de Troya a
Medicina do Egypto começara a ser cultivada entre os Gregos; que
fora entaõ que o acazo fizera descobrir ao pastor Melampo a virtude
do helleboro negro, notando que as cabras tendo comido desta planta
eraõ purgadas, o que o moveo a dar o leite dellas às filhas de Rey
Proeto, que eraõ hystericas e se julgavaõ mudadas em vaccas; que a
preparaçaõ, que Hellena fazia da herva entaõ denominada Nepenthes,
era o ópio, &c. Sem embargo de que estas opinioẽs tenhaõ sido seguidas por pessoas de
grande merecimento, as razoẽs em que ellas saõ fundadas naõ me
parecem sufficientes para persuadirme que a Medicina entre os Gregos
naõ date de mais alta antiguidade, ou que fosse filha da
Cirurgia. Eu penso que estas artes foraõ contemporaneas entre todas as nações,
e tiveraõ taõ alta origem como a Botanica, que na infancia das
dictas naçoẽs e durante numerosos seculos naõ foy outra coiza senaõ
hum conhecimento dos vegetaes applicado às artes. A intemperie do ar, mudança das estaçoẽs, venenos, maos fructos,
&c. em todas as epocas da existencia humana, e em todos os
paizes deviaõ causar aos seus habitantes molestias internas que
exigissem medicamentos internos ou da Medicina assim como as
contusoẽs, feridas, &c. exigiaõ os da Cirurgia, e naõ he
verosimil que o homem taõ familiarizado com o uso dos vegetaes naõ
cuidasse de buscar nelles remedios internos nos cazos desesperados,
tentando de tomar cozimentos, gomas, sumos de hervas, &c., assim
como os tentara nas molestias denominadas externas. Eu naõ duvido que as primitivas geraçoẽs usassem primeiramente como
medicamentos internos so das partes daquellas mesmas plantas, de que
se serviaõ como alimentos, e que elles muitas vezes fossem
inefficazes; mas basta que elles as tomassem como medicamentos para
considerarmos a Medicina contemporanea da Cirurgia ou como sendo a
mesma arte entaõ reunida. No descobrimento que fez Noé do vinho vemos huma clara prova das
tentativas que os homens faziaõ por descobrir novos usos nutritivos
nos vegetaes; e porque naõ fariaõ elles em todo o tempo as mesmas
por descobrir os seus usos curativos internos por escapar à dor, e á
morte? O uso dos medicamentos internos, que se tem observado nalgumas naçoẽs
selvagens, naõ nos indica o contrario. Nota
Nos perdemos nam so os escritos deste philosopho, mas ainda os de
muitos outros que tinham tractado dos vegetaes, como foram Lino e
Orpheo seu discipulo, Museo, Zoroastres, Euriphantes, Solon,
Dieuches, Praxagoras, Diocles, Herophilo, Metrodoro, Diagoras,
Epimenides que pela paxam pelo estudo das plantas viveo muitos annos
retirado nas montanhas, os de Archigenes, Androcides, Philippe,
Chrisippo, Callimacho, Asclepiades, Archilocho, Evax rey dos Arabes,
Temison, Dionysio, Glauco, Glaucias, Erasiatrato, Plistonico,
Sosimenes, Androcio, &c. como lemos em Theophrasto, Celso,
Herodoto, Plinio, e Galeno.
Quatro centos e tantos annos antes da Era Christaan appareceo o illustre
Hippocrates Nota
Hippocrates nasceo 459 annos antes de Christo.Nota
Este botanico, a que alguns chamaram tambem Cratevas, nam deve ser
confundido com oCratevas, de que falla Plinio que denominara huma
planta Liliacea (Erythronium dens canis Lin.) com o nome de
Methridates. Os escritos tanto de hum como de outro foram perdidos. Nota
Theophrasto escreveo no terceiro seculo antes da era Christaan. Os Gregos nam foram rigorosamente os fundadores da Botanica escrita
applicada as artes, como se pode colligir do que tenho dicto; mas
elles foram reconhecidos como taes pela razam dos seus escritos
nesta arte serem os mais antigos que chegaram athe nossos dias,
tendo-se perdido os dos Egypcios e Asiaticos por differentes
circumstancias.
Com effeito Theophrasto servindo-se dos trabalhos de Aristoteles Nota
Aristoteles cita em muitos lugares das suas obras os seus dois livros
sobre as Plantas; mas delles apenas temos alguns pedaços
deslustrados pela inepta falsificaçam de hum Arabe pouco versado em
Botanica. Nota
O que Hesiodo, Nicandro, Xenophonte, Basso e outros antigos Gregos
mencionaram dos vegetaes nam he comparavel com os escritos de
Theophrasto. Nota
Theophrasto parece ter seguido nisto os sentimentos de seu mestre,
cuja destinçam a respeito dos sexos vegetaes era muito vaga em
geral, e consistia em julgar que o individuo masculino era mais
forte e mais amplo do que o feminino, posto que esse fosse mais
fructifero. Nota
"Se o pò das flores de hum ramo de palmeira masculina, diz
Aristóteles, for sacudido sobre as da feminina, os fructos desta
amadureceram promptamente; e se o pò das masculinas for conduzido de
longe pelos ventos às femininas, seguir-se ha o mesmo effeito, como
se o ramo da masculina se tivesse dependurado sobre a feminina". Theophrasto diz, que se o pò da palmeira masculina nam for sacudido
sobre o fructo da feminina, este nam amadurecerà jamais, mas cahirà;
porem como depois diz que senam pode assignar razam deste facto de
apolvilhaçam ou aspersam do pò, parece que nam teve ideas de que os
ovarios vegetaes eram fecundados como os dos animaes. Talvez tanto elle como seu mestre nam referiram mais do que as
observaçoens dos Egypcios e Babilonios, entre os quaes a
apolvilhaçam das palmeiras era practicada desde hum tempo
immemoravel, segundo Herodoto.
O botanico de reputaçam, de que temos noticia, depois de Theophrasto foy
Dioscorides Nota
Dioscorides escreveo no tempo do Imperador Nero.
No tempo dos antigos Romanos, à Botanica fez
muito pouco progresso. A traducçam dos escritos de Methridates sobre as
plantas, os quaes Pompeo tinha trazido da Asia, excitaram na verdade alguma
curiosidade em Roma, mas passou-se muito tempo sem que sabio algum se occupasse
de adiantar os conhecimentos que haviam entam na Grecia sobre os vegetaes. He
verdade que delles escreveo Catam, Virgilio, Varro, Collumella, e Palladio, mas
os seus tractados postoque nam deixem de ser estimaveis quanto a agricultura e
usos economicos parecem so ter sido meras copias dos escritos Gregos. Plinio foy
somente o que entre os Romanos adiantou hum pouco a Botanica, tractando-a como
historiador naturalista, a pezar do uso do seu tempo. A sua grande liçam dos
autores coétaneos e da antiguidade, e o caracter observador, de que era dotado
nam exigiam menos. Elle augmentou o catalogo das plantas dos antigos com quasi
duzentas, e nos deixou a sua [Página xxvi] historia; mas he justamente arguido de ter equivocado muitos dos seus nomes,
adulterado varias passagens dos originaes que copiara, e de ter misturado
algumas vezes o verdadeiro com o fabuloso. Fazendo mençam dos figuras de algumas
plantas, que Cratevas, Deniz e Metrodoro tinham feito, parece ter menos estimado
semelhantes retractos do que boas descripçoens; mas as que elle nos deixou ainda
mesmo sobre a estructura das plantas, que tinha observado, rarissimas vezes sam
mais circumstanciadas do que as dos seus predecessores; elle foy ainda muito
menos methodico do que elles, e como dizem alguns Methodistas de hoje, tudo
nelle he huma bella desordem. As noçoens dos Gregos e Romanos naturalistas a
respeito dos sexos vegetaes nam lhe foram desconhecidas; elle nos diz com
effeito que alguns admittiam os dois sexos nas arvores e plantas herbaceas Nota
Arboribus, imo potius omnibus quae terra gignit herbisque etiam
utrumque sexum esse diligentissimi naturae tradunt. Plin. Hist. Nat.
lib. 13. Cap. 4.Nota
Ibid. et alibi.
Depois de Plinio athe à ruina do Imperio do Occidente, a Botanica nam deo passo algum, e muito menos ainda depois della athe ao seculo XV, postoque muitos celebres medicos se occupassem deste estudo. Galeno parece ter-se nelle destinguido mais do que Rufo, Apuleio e outros, e foy o primeiro que invectivou contra a inutilidade das descripçoens dos autores Gregos e Romanos. Confiando mais nos seus olhos cuidou de estudar os vegetaes a seu modo, fazendo muitas viagens nos paizes do Levante, afim de conhecer os que eram de uso medicinal, e nos deixou nos seus livros os nomes de quinhentas especies; mas nam emendou contudo os defeitos que tinha notado nas [Página xxvii] descripçoens dos outros. Ecio, Egineta, Tralliano, e Oribasio nam foram mais felizes.
Invadido e desmembrado o Imperio do Occidente, o destino da Botanica foy quasi
semelhante ao das bellas artes da Italia. He verdade que alguns seculos
depois, os Arabes tendo estendido as suas conquistas pela costa
septentrional da Africa athe às Hespanhas tentaram de acolher as sciencias
deste Imperio, e que os seus medicos Nota
Mesué, Serapiaõ, Raxis, Avicenna,
Averrhoes, Avenzoar, Abenguefit, Albenbeithar, Abul Fadl, &c.Nota
Myrepso,
Quiricio, Bosco, Hildegarde, Sylvatico, Dondis, Suardo, Villanova,
Plateario, &c.
Tomada a capital do Imperio do Oriente por Mahumet II, quasi no meyo do seculo XV, muitos sabios Gregos, que entam se expatriaram fugindo do barbaro jugo mahometano, sendo bem acolhidos na Italia deram principio ao restabelecimento das lettras no Occidente. A invençam da arte de imprimir, que succedeo quasi no mesmo tempo, e as grandes investigaçoens que entam se fizeram em toda a sorte de manuscriptos da antiguidade contribuiram para completar esta feliz revoluçam da litteratura. [Página xxviii] Ella veyo a redundar em proveito das artes e sciencias, e a Botanica nam podia por conseguinte deixar tambem de ter nella alguma parte. O primeiro ardor de trabalho entam, assim como nas mais sciencias, foy a liçam e explicaçam dos antigos escriptores. Theodoro Gaza, e Hermolao Barbaro sam considerados como os primeiros que começaram a restauraçam da Botanica, traduzindo em latim as obras de Theophrasto e Dioscorides. Muitos outros seguiram o seu exemplo, e todos os Tractados da antiguidade sobre os vegetaes, que se poderam achar nas bibliothecas, foram pouco a pouco interpretados.
A necessidade, que a Medicina tinha da Botanica, requeria absolutamente, que se
continuasse o seu estudo e se aper feiçoasse; mas elle nam pode obter perfeiçam
nestes primeiros tempos, nam consistindo entam mais do que na grande liçam dos
monumentos Gregos e Romanos, e de alguns da idade media. Demais disso, nam menos
pela razam do espirito de disputa, que entam dominava, do que por causa das
vagas e obscuras descripçoens, que os antigos tinham dado dos vegetaes, os
commentadores nam so se contrariavam em suas opinioens, mas pelo menor pretexto
davam às plantas dos paizes em que viviam os nomes das mencionadas pelos
escriptores que commentavam, sem reflectir na grande diversidade que havia entre
os terrenos e climas frios do norte da Europa, aonde escreviam, e os da Grecia e
Italia patria dos antigos Autores. Ainda mesmo os que viviam, nos paizes
quentes e meridionaes da Europa nam deixaram de cahir em muitos enganos Nota
Esta erronea applicaçam dos nomes e igualmente dos usos das plantas
foy a principal causa, porque a Materia Medica daquelles tempos se
acha tam carregada de um farrago de substancias inuteis, e ainda
mesmo nocivas; porquanto succedeo que os commentadores algumas vezes
tiveram por saudaveis as plantas venenosas, intendendo mal os nomes
mencionados nos antigos escritos. Nota
Devemos com effeito confessar ingenuamente que nam sabemos qual era o
verdadeiro helleboro, a verdadeira cegude, nem a maior parte das
plantas de que tractaram os antigos Gregos e Romanos. Ainda mesmo depois das sabias investigaçoens, que fez Tournefort por
todo o Levante, e patria dos antigos Gregos, apenas consta que se
ache bem verificada a decima parte dos 600 nomes de plantas, de que
elles fizeraõ mençaõ. Eu nam tractarei jamais o nosso Amato de ignorante de Botanica, como
fez Mathiolo, porisso que nam soube decifrar as verdadeiras plantas
indicadas pelos nomes, e incompletas descripçoens, que se acham nos
livros de Dioscorides, nem censurarei taõbem Mathiolo de nam as ter
decifrado muito melhor, notando-o, como alguns fizeram, de nam ter
comparado as plantas que a natureza produz com as descripçoens de
Dioscorides, mas de ter sobre ellas imaginado as que a natureza
devera produzir, ou tinha mal feito de nam produzir; nem igualmente
cuidarei de o desculpar, como outros fizeram, dizendo, que as
plantas descriptas por Dioscorides tinham mudado hum tanto de figura
desde o seu tempo athe ao do dicto commentador; porquanto attribuo
unicamente toda a difficuldade de reconhecer as plantas dos antigos
às suas màs descripçoens, e esta he a melhor desculpa que se pode
dar a Mathiolo e outros commentadores dos antigos Gregos e
Romanos.
Portanto o modo ordinario de estudar os vegetaes nestes primeiros tempos
differia muito pouco do que tinham usado os antigos fundado na tradiçam Nota
Os que conhecem huma planta meramente de vista, ou porque tendo
ouvido o seu nome de alguma pessoa, que lha mostrasse, ficaraõ
somente com certas noçoẽs do seu habito externo, que elles naõ sabem
explicar, aindaque contudo bastem às vezes para lha fazer destinguir
de qualquer outra, so a conhecem por tradiçaõ ou impiricamente; tal
he por ex. o conhecimento que os nossos hervolarios tem de algumas
plantas. Os Antigos suppunhaõ as plantas conhecidas por este modo, e porisso
cuidaraõ muito pouco de dar boas descripçoẽs dellas, nem na verdade
o sabiaõ como nos.
Este impirico e fastidioso modo de apprender a conhecer os vegetaes nam podia subsistir por muito tempo, e sem duvida poucas reflexoens bastavam aos botanicos para julgar entam que [Página xxx] era indispensavel começar quasi tudo de novo, e estabelecer a botanica, estudando as plantas nam nos livros dos antigos, como era costume, mas sim no grande livro da natureza, que ante elles estava aberto e pedindo a sua attençam. A liçam dos antigos, e o dezejo de reconhecer as plantas, de que elles tinham tractado, requerendo absolutamente a comparaçam das descripçoens com as partes dos vegetaes, a que ellas se suppunham pertencer, necessariamente deviam conduzir a fazer pouco a pouco descobrir novos, e foy com effeito o que succedeo no seculo XVI.
O descobrimento de hum grande numero de plantas, que succedeo nesse seculo, estava exigindo huma destribuiçam methodica capaz de auxiliar a memoria e facilitar o estudo tanto dos antigos vegetaes como dos que novamente se tinham descoberto e se hiam descobrindo. As descripçoens começaram a parecer insufficientes, e o deviam ser na verdade pela razam de serem pouco circumstanciadas, nam obstante todo o trabalho que alguns tiveram de melhor as traçar do que os antigos. Cuidou-se pois de ajuntar as descripçoens estampas semelhantes às que Corbichon e Cuba tinham publicado no seculo XV, e fizeram-se tentativas de destribuiçoens methodicas.
Trago ou Bock foy dos modernos o primeiro, que emprehendeo de dispor os vegetaes
em Methodo; mas o seu plano differe muito pouco do modo destributivo que tinham
seguido Dioscorides e Theophrasto, e se pode dizer que elle somente renovou as
ideas destes antigos Botanicos. Lonicero, Dodoneo, Lobel, Clusio, Dalechampio,
Zaluziano, e muitos outros seguiram igualmente quasi o mesmo plano methodico dos
antigos. A grandeza, duraçam, lugar de nascimento, qualidades, virtudes Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em
que diz: existimandum est autem nullas
propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in
duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci
describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ;
2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo
considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os
generos: - Ex his enim (flore, fructu et
semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes
apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel
Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde
ego cognationes stirpium indicare soleo, figura
differt. Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos
relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657,
seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos
vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde
Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio
Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome
generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem
determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar.
Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo
fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas
todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente
incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos
caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de
Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as
especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados
em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.Nota
Os antigos nam tractaram senam das plantas, em que conheciam alguma
utilidade na Medicina e artes, e porisso os seus conhecimentos
botanicos foram limitados a hum pequeno numero de plantas; elles
cuidaram mais de indagar os seus usos e virtudes, do que os seus
verdadeiros caracteres fundados na estructura e fructificaçam, por
cujo motivo as suas destribuiçoens nam merecem rigorosamente o nome
de Methodo ou Systema, na accepçam em que se tomam hoje estas
palavras entre os Botanicos. As virtudes, e qualidades das plantas sam na verdade ainda hoje
adoptadas pelos autores de Materia Medica, como fundamento das suas
destribuiçoens; mas estas destribuiçoens por mais toleraveis que
sejam em Materia Medica, pela razam do seu differente fim, e por
supporem as plantas ja conhecidas seram sempre improprias em
Botanica, e faram nella confundir o que merece de ser
destinguido. A mesma planta succede as vezes ter differentes virtudes, segundo as
suas differentes partes, de maneira que se os botanicos seguissem os
Autores de Materia Medica, a raiz de huma planta
muitas vezes deveria ser posta em huma classe, a sua flor em outra,
as suas folhas e tronco em
outra, em fim ainda algumas vezes o mesmo fructo, como v. g. a
laranja, mereceria de ser posto em differentes Classes. Nota
O Dr. Porta na sua Phytognomica publicada em Napoles no anno de 1588
dividio os vegetaes em sette classes, considerando-os segundo o seu
lugar de nascimento, segundo as relaçoens que elles tem com os
homens e animaes tanto na figura de suas partes como nos costumes, e
em fim pela relaçaõ que elles tem com os astros. No seu parecer, as plantas em que ha alguma parte que representa o
figado, sam boas para as doenças do figado; as que representam
olhos, sam boas para os olhos; as que representam dedos sam boas
para a gotta; as que tem a forma de testiculos saõ boas para as
doenças dos testiculos, &c. &c. He bem facil de perceber quanto este denominado Methodo he improprio,
cheio de falsidades, e ridiculo, a pezar de todos os elogios que lhe
fizeram de engenhoso. Nota
Nota
Gaspar Bauhino publicou no anno de 1596, no seu Pinax, os nomes e
synonymia de seis mil plantas conhecidas athe ao seu tempo, e as
destribuio em 12 Classes pelas suas qualidades e algumas partes do
habito externo indeterminadamente. Seu irmaõ Joaõ Bauhino na sua
Historia geral das plantas publicada e m três Vol. in-fol. no anno de
1650 deo as figuras de 3428 plantas, e descreveo 5266, destribuindo-as
em 40 livros ou classes segundo as suas qualidades, duraçam, grandeza, e
algumas das suas partes. Estas duas Obras, apezar da sua mà ordem
methodica, mereceram sempre pela vasta erudiçam, que contem, huma
especial estima de todos os Botanicos. As Obras de Guilherme Lauremberg,
Hernandes, Jonston, Rheede, Rumphio, Burman e muitos outros, que
seguiram falsos planos methodicos, semelhantes aos dos antigos, ou pouco
differentes, nam deixam tambem de ter hum particular merecimento quanto
à descripçam historica das plantas; mas os curtos limites deste discurso
nam me dam lugar de mencionar todos os tractados uteis que se tem
publicado em Botanica: demais disso este objecto so me parece ter
proprio dos que escreverem a Historia geral e chronologica da Botanica,
ou Catalogos geraes dos Autores Botanicos.
André Cesalpino, celebre professor de Piza, foy o primeiro que imaginou huma
destribuiçam toleravel quanto à propriedade das partes fundamentaes das suas
divisoens, e porisso mereceo o titulo de primeiro Systematico entre os
Botanicos. Valendo-se do seu descanço e da facilidade de comparar e observar, que lhe
offereciam os jardins botanicos da Italia fundados no seu seculo Nota
Em
Padua, Piza, e Bolonha; o primeiro, que he o mais antigo da Europa, foy
fundado em 1540 pela illustre caza de Medicis; os outros dois foram
estabelecidos em 1547. Depois destes fundaraõ-se muitos outros, como o
de Mompelher em 1598; o de Paris em 1626; o de Edimburgo em 1675; o de
Upsal em 1657; o de Oxeford em 1683; o de Leyde em 1677; os de Berlim e
Leipsique em 1680; o de Amsterdam em 1688; o de Petresburgo no tempo de
Pedro I; o de Madrid em 1756; os de Lisboa e Coimbra no glorioso reynado
do Senhor D. Jozé I; em fim nam ha hoje Estado algum na Europa, por
pequeno que seja, que deixe de ter jardins botanicos, e em alguns elles
sam bastantemente multiplicados, pertencendo nam so às Universidades e
Academias, como também a particulares ricos. Elles foram no principio
instituidos somente para serviço da Medicina; mas os seus Inspectores
vendo que os estreitos limites das plantas medicinaes lhes nam davam
lugar de fazer extensas observaçoens, nem de tirar grande proveito,
introduziram nelles pouco a pouco toda a sorte de plantas, o que deo
occasiam de bem examinar as suas affinidades e de fundar o grande numero
de Methodos que tem havido. A sua utilidade fez tambem que algumas
naçoens Européas os estabeleceram ainda mesmo nos seus dominios
ultramarinos, como fizeram os Hollandezes no Cabo da Boa Esperança, os
Francezes nas Ilhas Mauricias &c. e se nos os tivessemos tambem
estabelecido nas nossas colonias, como nas Cortes de Thomar se havia
proposto, a agricultura, commercio, e artes certamente disso teriam
tirado nam pequenos enteresses.Nota
Cesalpino he na verdade desculpavel neste respeito por ter sido o
primeiro que fundou hum systema na fructificaçam, e o seria com effeito
ainda mais se elle tivesse nas suas divisoens escolhido os destinctivos
tirados do habito externo por attender as affinidades naturaes; mas em
todas as suas divisoens apenas vemos huma sò familia natural, que he a
das Umbrelladas posta na sexta Classe do seu systema.
Joaquim Jungio, Allemam, foy dos primeiros que adoptaram as ideas de
Cesalpino; mas os calamitozos tempos da Allemanha, em que viveo, nam lhe
permittiram de publicar hum melhor Methodo, postoque merecesse de ser
reconhecido pelo primeiro Botanico dogmatico em razam dos muitos sabios
aphorismos, que estabeleceo em Botanica Nota
Jungio faleceo no anno de
1657; a sua Izagoge Phytoscopica, que foy publicada 22 annos depois da
sua morte, contem hum grande numero dos principios criticos, que Ray e
Linneo seguiram. Haller parece ter feito hum grande cazo desta Obra,
como se collige da passagem seguinte. (Praef. Helv. S. pag. 21.): habentur hoc Libro (Jungii) de Plantis
fragmenta satis luculenta, ubi passim leges sancit Linnaeanis
simillimas, deinde stirpes ad genera naturalia revocat, & a
consuetis familiis separat, suas etiam observationes interponit....
incredibile est, quàm profunde in minutias staminum, tubarum,
florumque introspexerit, quantâ etiam perspicacitate, et ingenii
methodica indole definitiones primus fixerit.
Em 1680 Roberto Morisono, Escossez, sendo professor de Botanica em Oxeford publicou huma Historia geral de plantas com pequenas figuras gravadas em cobre, na qual seguio as ideas de Cesalpino debaxo de huma nova forma, dividindo o seu Methodo em 18 Classes fundadas no fructo, corolla, e partes do habito externo. Este Methodo foy com razam censurado de ter mao nexo, e a clave mal feita, e nam sei que fosse seguido mais do que por Bobart, que o completou publicando o seu terceiro volume depois da morte de Morisono.
Em 1682, Joam Rai, theologo Inglez de grande engenho e erudiçam, publicou a mais
extensa Historia do reyno vegetal que se tinha visto, comprehendendo 18655
plantas entre especies e variedades. Os trabalhos desta vasta Obra nam [Página xxxvi] foram dirigidos sò à Medicina, como era costume, mas a tudo o que podesse
ser util à vida humana, e Rai foy com effeito o primeiro depois de Plinio,
que se esforçou paraque a Botanica fosse estudada, como huma parte da
Historia natural Nota
Boerhaave, e Linneo foram do mesmo parecer, e este ultimo tornou a
pôr a Botanica na Historia natural; mas o prejuizo de a considerar
meramente como huma parte da Medicina tem prevalecido de sorte, que
ainda hoje por toda a parte os Medicos e Boticarios sam
privativamente os professores de Phytologia , como senaõ houvesse outra Phytologia mais do que a applicada a
usos medicinaes, nem outras pessoas capazes de a ensinar senam
Medicos e Boticarios. Nota
Rai publicou huma segunda ediçaõ do seu Methodo em 1700, com hum
grande numero de emendas, que elle se vio obrigado a fazer depois de
ter visto o Methodo de Tournefort, seu digno rival.
Christovam Knaut no seu Tractado geral das plantas de Halla na Saxonia, publicado em 1687, tentou de seguir hum novo plano destribuindo as dictas plantas em 17 classes fundadas principalmente na corolla, e fructo, e subdivididas em 62 secçoens pela fructificaçam e habito externo, mas o seu Methodo foy com razam notado de ser summamente composto e difficil.
Pedro Magnol, professor da Universidade de Mompelher, imaginou tambem hum novo
plano de destribuiçam, que alguns consideram como a primeira tentativa do
Methodo natural. Porem o seu intuito nam foy de investigar o Methodo natural,
mas tam somente mostrar que haviam familias nam menos nos animaes do que nos
vegetaes, e que ellas se deviam caracterizar nam puramente pela
fructificaçam, mas por todas as demais partes, porque nenhuma dellas era
accidental, e que em todas se deviam [Página xxxvii] indagar as affinidades ou relaçoens possiveis de semelhança Nota
O Conde
de Buffon foy do mesmo parecer; Linneo, Royen, Haller, Wachendorf,
Adanson, Jussieu, e muitos outros celebres Botanicos do nosso seculo
todos reconheceram, que haviam familias naturaes fundadas em affinidades
naturaes, como Magnol tinha indicado; alguns delles, como Adanson e
Jussieu, admittiram demais disso huma serie ou gradaçoens entre as
differentes familias começando pelas plantas mais
imperfeitas.Nota
Este segundo Methodo de Magnol foy
impresso depois da sua morte em 1720: consta de 15 Classes fundadas nos
caracteres do calys combinados com os corolla, e subdivididas em 55
secçoens relativamente ao lugar de nascimento, disposiçam das flores,
sexo, calys, corolla, e fructo. M. Adanson estranha com razam que Magnol
depois de ter imaginado hum Methodo razoavel composesse este, que lhe he
na verdade inferior e no qual parece querer evitar as familias ou
Classes naturaes, buscando por toda a parte hum calys athe chegar a dar
este nome aos tegumentos das sementes, quando lhe era precizo hum calys
para satisfazer às suas ideas systematicas
Paulo Herman, professor de Botanica em Leyde, seguio as ideas do Cesalpino debaxo de huma nova forma, e dividio as 5600 plantas, de que tractou em 2J Classes fundadas principalmente nas differentes sortes de fructos ou sementes cobertas e descobertas, subdividindo as dictas Classes em 82 secçoens pela disposiçam das flores, e pela corolla e fructo. O seu Methodo he complicado; elle foy seguido de Rudbeck e Zumbach que o aperfeiçoou e imprimio no anno de 1690.
Augusto Quirino Rivino, professor de Botanica em Leipsik, tractou de descobrir
hum Methodo mais facil e mais conforme aos principios systematicos do que nenhum
dos seus predecessores. Elle dividio o pequeno numero de plantas, que conhecia,
em 18 classes fundadas principalmente nas relaçoens da corolla, e subdivididas
em 91 secçoens relativamente ao fructo, figura do calys e corolla, situaçam, e
disposiçam ou falta das flores. Este Methodo publicado pouco a pouco desde o
anno de 1690 athe 1696, nam he tam regular, como alguns pensaram; porquanto
vemos que o seu Autor considerou na clave das suas Classes nam so a regularidade
e irregularidade da corolla e numero das suas petalas, mas ainda a perfeiçam das
flores, e a sua disposiçam. Elle foy contudo durante alguns annos o mais
seguido em Allemanha; Koenig, Welsch, Heucher, Gemeinhart, Hebenstreit, e
Hecher o adoptaram nos seus tractados de plantas; Kramer, Christiano Knaut Nota
Ludwig no anno de 1737 ajuntou duas classes demais ao Methodo de
Rivino, deduzidas da presença ou falta da corolla, e Wedel e Boehmer o
seguiram neste estado de reforma; no anno de 1747 aperfeiçoou segunda
vez o dicto Methodo, reunindolhe demais a relaçam dos sexos das flores,
e foy a melhor emenda que delle se publicou.Nota
Christiano Knaut foy hum dos Botanicos, cujos paradoxos tem
impedido o progresso da Botanica; elle seguio que havia tantos generos
como especies, que a corolla era a parte essensial da flor, e que nam
haviam sementes nuas.
José Pitton Tournefort, que tam destinctamente orna o numero dos grandes
Botanicos da França, foy de todos os seus contemporaneos e predecessores o que
mais aperfeiçoou a [Página xxix] Botanica systematica. Persuadido de que todos os Methodos seriam sempre
demasiadamente imperfeitos em quanto as suas infimas divisoens, ou generos, nam
fossem melhor determinadas, cuidou de lhes dar huma nova forma e fez para este
fim hum grande numero de observaçoens tanto em França como em diversos paizes
estrangeiros, ajudado da munificencia do seu Soberano e pessoas ricas. Concluio
esta difficil empreza no anno de 1694, no qual introduzio em Botanica muitos
principios sábios, e sobre elles fundou hum Methodo que foy reconhecido por
claro, conciso, e facil. Destribuio neste Methodo 10146 plantas (especies ou
variedades) em 22 classes, dividio estas em 122 secçoens, e subdividio as dictas
secçoens em 696 generos. As suas classes foram deduzidas, 1°. da grandeza e
duraçam, ou da consideraçam das plantas como hervas ou arvores ; 2° da presença ou nullidade
da corolla e da flor; 3°. da disposiçam das flores, ou das relaçoens de
simplices e compostas; 4°. do numero das petalas da corolla; 5°. da figura
regular ou irregular da corolla Nota
M. Adanson reconheceo nas Classes de Tournefort seis familias
naturaes, e 48 nas suas secçoens, e assegura com razam que de todos
os Methodos artificiaes o de Tournefort foy o que menos turbou as
affinidades, ou melhor se conformou com a marcha da natureza. Nota
Gouan, Adanson, Jussieu, e outros modernos adoptaraõ esta
doutrina. Nota
Rai tinha sido do mesmo parecer: Notae (dizia elle) obviae sint,
manifestae & cuilibet facile observabiles; nam cùm Methodi usus
praecipuus sit rudes et tyrones in stirpium cognitionem compendio
absque taedio & difficultate inducere, non oportet ejusmodi
notas proponere, quae attentum & sollicitum requirunt
expectatorem, cuique ut microscopium secum ferat necesse est. Rai, Tournefort parecem ter reservado o uso do microscopio somente
para a Botanica physica, persuadidos de que elle se oppunha a
facilidade dos Methodos da Botanica pura. Alguns modernos contudo pensam que o uso do microscopio he
indespensavel a todo o botanico, visto ter a experiencia mostrado
que ha nos vegetaes da mesma sorte que nos animaes quasi tantas
partes imperceptiveis (ou talvez mais) como ha de volumosas ou
perceptiveis sem microscopio, e que os nectarios, partes da
fructificaçam, e muitas notas caracteristicas de algumas plantas
jamais se poderaõ bem reconhecer senaõ usarmos do microscopio ou ao
menos de huma boa lente.
Aindaque Tournefort nam tivesse pensado em traçar hum plano, capaz de classar
adequadamente todas as plantas do globo terrestre, o que elle julgava
impossivel em qualquer destribuiçam systematica, contudo o seu systema tanto
pela novidade dos generos como pela sua facilidade obteve huma grande
acceitaçam, e nelle se alistaram durante alguns annos todas as especies e
generos, que se descobriram Nota
Principalmente as novas plantas da
America, que o douto religioso Carlos Plumier havia descoberto e
descripto por ordem de Luiz XIV., que lhe tinha dado tença e o titulo de
seu Botanico.Nota
Ponho Seguier entre os que seguiram Tournefort, porque o seu Methodo
relativo às plantas de Verona differe muito pouco do Methodo deste
Botanico, e o mesmo se deve entender do de Durande, que hoje se
ensina na Universidade de Dijon. Nota
Todos os Botanicos depois de Linneo tem evitado essa falsa divisaõ; e
Bergen sem embargo de ter seguido Tournefort no seu Tractado das
plantas de Francfort, publicado em 1750, naõ deixou de diminuir as
suas Classes reunindo as arboreas com as herbaceas.
Passados alguns annos depois da publicacam do systema de Tournefort appareceram
alguns outros, que nam sendo nem mais faceis nem mais perfeitos nam lhe poderam
usurpar a maior acceitaçam. Boerhaave, celebre professor de Botanica, Chimica, e
Medicina, publicou em Leyde no anno de 1710 huma divisam de seis mil plantas em
84 Classes, considerando-as relativamente à sua grandeza, duraçam,
fructificaçam, e habito externo: subdividio as dictas classes em 104 secçoens ou
ordens fundadas na substancia e figura das folhas, do calys, corolla, sementes,
e tronco, no numero das petalas, capsulas e sementes; na situaçam das flores e
germe; e em fim nos organos sexuaes das flores, que elle empregou tambem algumas
vezes para caracterizar os generos. O seu Methodo foy huma combinaçam dos
systemas de Cesalpino, Rai, Herman, e Tournefort, e por ser muito difficil e
complicado foy apenas seguido na sua escola e por Emsting e Morandi Nota
Morandi no seu Tractado das plantas medicinaes, publicado em 1744,
reunio as arvores com as hervas, e em quasi tudo o mais seguio o
Methodo de Boerhaave.
Em 1720, Pontedera nas suas dissertaçoens, em que descreveo 272 especies novas de plantas, negando os seus sexos [Página xliii] em geral, imaginou de emendar às imperfeiçoens do Methodo de Tournefort, e augmentou as suas 22 classes athe 37, considerando-as debaxo das mesmas relaçoens, e alem disso segundo a presença ou nullidade dos gomos; mas elle nam chegou a pôr em execuçam o seu plano systematico, nem o applicou aos diversos generos de plantas.
Trinta e tantos annos depois da ediçam do Methodo de Tournefort, Carlos
Linneo, sabio Naturalista Sueco Nota
Carlos Linneo foy filho de hum pobre
Ecclesiastico de Smolandia na Suecia. Tendo-se applicado ao estudo de
Historia natural fez nesta sciencia tam rapidos progressos, que na idade
de 22 annos se achava ja capaz de ajudar e substituir Rudbeck, que entaõ
a professava em Upsal. Huma das suas primeiras tentativas em Historia
natural foy de fazer hum systema Botanico, que podesse prevalecer ao de
Tournefort, e o qual dizem que elle chegara a introduzir no jardim
botanico de Upsal no anno de 1731. Depois disto foy empregado pela
Sociedade da dicta cidade para fazer huma viagem na Lapponia, Noruega e
outros paizes do Norte por objectos de Historia natural. Em 1735, e
annos seguintes protegido por Amigos viajou pela Dinamarca, Suecia,
Allemanha, Inglaterra, e Hollanda, aonde publicou o seu Systema Naturae.
Tendo tornado à Suecia, sua patria, a reputaçam que por fora tinha
grangeado lhe suscitou a inveja de Rozen e outros Membros da
Universidade de Upsal de maneira, que tendo aberto hum curso de Liçoens
de Historia natural, foy por decreto da dicta Universidade suspendido de
o continuar, debaxo do pretexto de que somente os doutores aggregados a
ella podiaõ ensinar. Mas vencida esta dificuldade no anno de 1741, em
que foy nomeado professor de Medicina e Botanica, continuou durante
muitos annos as suas liçoens com grande celebridade athe que em fim
victima da sua applicaçam demasiadamente sostida veyo a ficar privado
quasi de todas as suas faculdades intellectuaes no ultimo anno da sua
vida, e a morrer de huma hydropisia de peito. Elle contribuio tanto
pelos seus extensos trabalhos como pelos sabios Alumnos, que formou,
para adiantar todas as partes de Historia natural mais ou menos, e se
lhe deve com effeito esta justiça, a pezar das suas opinioens.
A noticia dos sexos das plantas nam tinha sido inteiramente desconhecida aos antigos Gregos e Romanos; nos escritos de [Página xliv] Herodoto, Aristoteles, Theophrasto, Dioscorides, e Plinio achamos provas disso, como ja disse fazendo mençam destes Autores; mas as suas ideas a este respeito foram obscuras, conjecturaes, e nam fundadas em conhecimentos anatomicos das flores. Demais disso, ainda estas mesmas ideas parecem ter sido limitadas às palmeiras e de alguma sorte às figueiras; porquanto se bem que attribuiram sexos a muitas outras plantas, isso nam foy mais do que por hum mero motivo de destinçam estabelecida humas vezes na força ou fraqueza dos individuos, outras vezes na maior ou menor perfeiçam dos seus fructos, na maior ou menor efficacia das suas virtudes.
Em toda a idade media athe quasi ao seculo passado, a doutrina dos sexos das
plantas foy muito incerta e indeterminada, nam tendo os botanicos outras
noçoens della mais do que as dos antigos, donde procederam muitas falsas
destinçoens, que lemos nas obras dos autores desses tempos Nota
Como saõ as de Feto macho, Feto femea; Peonia macha, Peonia femea;
Cornus mas, Cornus. faemina, &c. &c. Elles chamavaõ em algumas especies herbaceas dioicas, taes como o
Canamo e Mercurial, plantas machas as que eraõ femeas, e vice versâ,
so pela razam da sua grandeza ou virtudes medicinaes; (Mercurialis
testiculata, sive mas; & spicata, sive faemina. G. Bauh.) Nota
Gesnero, Grew, Malpighi, e Feldmand foram os que principalmente
restauraram a Botanica physica, e a adiantaram; este agradavel
estudo foy continuado por Hales, Ludwig, Leuvenhoek, Hill, Linne ,
Duhamel, Guettard, Bonnet, Saussure e muitos outros. Nota
J. Bauhino citou em 1650 as principaes passagens de Zaluzianski a
respeito dos sexos, mas nam parece ter feito maiores
investigaçoens.
A frequencia de ver das sementes de hum so individuo nascer masculinos e
femininos, isto he, hum esteril outro fructifero, devia necessariamente conduzir
a comparar os vegetaes com os animaes no modo de produzirse, e a investigar cada
vez mais este curioso objecto. Com effeito nam tardou muito tempo que o Dr.
Nehemias Grew Nota
Idea of a Philological History of Plants, &c. Lond.
1682, fol.
A opiniam de Grew foy adoptada por hum grande numero de Botanicos. Malpighi
seu contemporaneo nam contribuio pouco para a confirmar Nota
Anatome
plantarum. Lond. 1686, fol.Nota
"Em todos os flosculos das Compostas, dia este celebre
physiologista (na sua Epistola de Sexu Plantar. Tubingia, 1694), em que
falta o estigma ao pistillo, ha abortamento nas sementes; se no milho,
na amoreira, e muitas outras plantas cortamos as antheras das flores
masculinas, e os estyletes das femininas, naõ ha fecundaçaõ, nem por
conseguinte geraçaõ, e se pomos o individuo masculino da mercurial
distante do feminino, este naõ dará fructo, ou se o der, as suas
sementes naõ germinarão" Elle confessou contudo que as suas experiencias
tinhaõ falhado no canamo. Camerario naõ so foy o que melhor estabeleceo
o sexualismo dos vegetaes, mas o que ensinou a substituir por analogia
as plantas indigenas às exoticas, ideas, que Petiver e outros depois
seguiraõ. Elle foy taõbem o primeiro que fez mençaõ do numero dos
estames, e parece ter suggerido a Linneo os principios do seu systema:
Magnol tinha taõbem ja antes de Linneo empregado os organos sexuaes das
plantas em algumas das divisoẽs do seu Methodo Calylino, e Boerhaave nos
generos: Burchard medico de Brunswick tinha imaginado de fundar nelles
hum Methodo, como se collige da sua carta escrita a Leibnitz em 1702, e
reimpressa em 1758 por Heister em Helmstad: "Hic disserere constitui an
ex partibus istis, quas ab officio genitales dicturus sum, Plantarum
comparationes institui possint".Nota
Wolfio, Burchard, Logan, Blair, Bradley, Ludwig, Royen, Jussieu,
Needham, Monro, &c., &c.. Esta investigaçaõ passou athe à
plantas menos perfeitas e Jussieu descobrio estames no Fetos,
Micheli nos Fungos, Reaumur nas Algas e Hedwig nos Musgos. Sem embargo disto, a doutrina dos sexos naõ tem sido athe ao presente
universalmente recebida. Tournefort considerou as partes sexuaes das flores meramente, como
vasos excretorios destinados a separar a redundantia dos succos
nutritivos do novo fructo, e naõ lhes deo lugar no seu systema. Pontedera, Siegesbeck, Bénneman, e Moeller seguiraõ, que o pò das
antheras era somente huma materia proveitosa ao novo fructo. Alguns naõ admittiraõ sexos nas plantas Cryptogamicas (Vej. a Expos.
da Cl. Cryptog. vol. 2.) O Padre Spalanzani assegura com muitas experiencias, que no canamo e
muitas outras plantas perfeitas podem haver fructos perfeitos ou
sementes capazes de propagar a sua especie sem o concurso das
antheras. O Dr. Alston, professor de Edimburgo, o Conde de Buffon, e outros
Epigenesistas naõ admittem o sexualismo em todo o reyno vegetal. Vej. a Palavra Sexus no Diccionario Botanico, Vol. 2.
Linneo completou em fim a doutrina dos sexos, e lhe deo toda a extensam, de que
ella era susceptivel, compilando a seu favor todos os argumentos de que se
tinham servido os seus predecessores, ajuntando algumas novas observaçoens, e
fundando nella hum novo Systema, que em razam disso denominou sexual. Publicou este Systema no anno de 1787 e o dividio em 24 Classes
estabelecidas relativamente ao numero, ponto de apego, proporçam, adunaçam,
situaçam, e occultaçam dos estames; subdividio cada huma destas Classes em
differentes Ordens deduzidas do numero dos pistillos, do numero, adunaçam e
situaçam dos estames, e da figura do fructo Nota
As Ordens do Systema sexual sam algumas vezes subdivididas em
secçoens entremedias, fundadas em diversas relaçoens do calys,
corolla e outras partes da fructificaçam. M. Adanson diz (Pref. p. XX.) que as subdivisoens das classes deste
systema sam algumas vezes fundadas tambem em notas do habito
externo; eu penso que elle falla das Ordens da Classe Cryptogamia,
porque todas as mais subdivisoens sam puramente estabelecidas em
notas da fructificaçam. Nota
Tournefort tinha feito
mençam de 698 generos; depois delle athe Linneo muitos outros Botanicos
ajuntaram quasi mil, e Linneo athe o anno de 1759 descreveo 1174
generos. O Dr. Murray, na ultima ediçam do Systema Vegetabilium de
Linneo publicada em 1784, fez mençam de 1436 generos; mas o numero dos
generos conhecidos, e classados no systema de Linneo he mais
consideravel, como se pode ver nas Obras de Jacquin, Forster, Aublet,
&c.
Este systema teve no principio pouco séguito Nota
Milne (Dict. Bot.) diz que
Linneo estando em Londres proposera o seu systema a Sloane, entam
presidente da Sociedade Real da dicta cidade, e que este nam fizera cazo
delle.Nota
Vej. a Exposiçam
deste Systema, e o Cap. V. do Tom. II. desta Obra.Nota
Boerhaave tinha na verdade fundado antes de Linneo caracteres
genericos nas partes da fructificaçaõ; mas por hum modo abbreviado,
e bem differente do plano de Linneo. Nota
Heister pensava que as
folhas podiaõ algumas vezes servir como parte essensial para
caracterisar os generos. Gouan na maior parte dos generos do seu Hortus
Monspeliensis ajuntou aos caracteres da fructificaçaõ (adoptados de
Linneo) outros a que elle chama secundarios, e que saõ tirados de
diversas partes do habito externo. Jussieu servio-se das cores, e das
notas do habito externo mixtas com as da fructificaçaõ em muitos
caracteres dos generos do seu Methodo. Adanson nas suas familias de
plantas naõ estabeleceo caracter algum generico puramente na
fructificaçaõ, e advertio que o mesmo, que Linneo tinha dicto de
Tournefort "Tournefortianis nihil detraho meritis optimis, nego tamen
ejus characteres perfectos esse, nego ex iis destingui posse genera" se
lhe podia adequadamente applicar relativamente a huma grande parte dos
seus generos; porquanto os caracteres de muitos delles, principalmente
dos exoticos, eraõ muito defeituosos, de maneira que os viajantes naõ
podiaõ nelles confiar, e que elles algumas vezes o teriaõ conduzido na
sua viagem do Senegal a tomar humas plantas por outras, se naõ se
tivesse servido dos destinctivos das folhas, disposiçaõ das flores,
&c. Haller taõbem admittio entre as notas genericas as do habito
externo, e chegou ainda mesmo a dizer, que Linneo as tinha seguido na
praxe, a pezar dos principios que tinha estabelecido: Id tamen
fundamentum jeci, cui soli Methodus naturalis potest superstrui, ut
vicinae sint stirpes, quae notis plurimis sibi similes sunt, etiam si
aliquâ quam longissime differant, eae plantae sint dissimiles, quae
plurimis notis diversae sunt, etiam si unâ notâ quam vicinissimae
fuerint. Neglectus hujus axiomatis Methodos non naturales genuit. Inter
notas habitum posui, quem excludit quidem ex legibus Linnaeus in praxi
vero ubique revocat, suisque legibus praefert, exemplo Convalartae,
Tussilaginis, &c. (Hal. Stirp. Helv. praef. p. 14.Nota
Os
generos (diz o Dr. Oeder Elem. Botan.) naõ saõ definidos pela natureza;
elles ficaraõ ao arbitrio dos homens, os seus limites saõ ambiguos, e
dependem das relaçoẽs arbitrarias, que cada hum adoptou por definiçaõ,
ou se propoz de seguir com preferencia rejeitando outras. Naõ me parece
que haja Autor algum, que tenha fundado generos invariaveis, por mais
disputas e por mais defensores que tivesse de que seguio as affinidades
naturaes. Que Botanico ha que deixe de conhecer a grande diversidade que
existe entre os generos da maior parte dos Methodistas, sem embargo de
todos terem pertendido seguir a natureza? Daqui tem procedido a
differença e multiplicidade de nomes, que daõ motivos de queixas aos que
estaõ acostumados a hum systema, e que fazem perder o gosto de cultivar
a Sciencia, oppondo-se por conseguinte ao seu progresso. As innovaçoẽs,
que Linneo fez na nomenclatura, a pezar de muitas queixas, foraô
adoptadas, e saõ hoje seguidas; mas talvez nos seculos seguintes,
crescendo o numero dos generos, e apparecendo outro famoso e ousado
systematico, se queixaraõ outros de que lhes mudaraõ os nomes de Linneo.
Alguns tem sido de parecer que deviaõ haver poucos generos por evitar o
incommodo do grande numero de nomes genericos, outros pelo contrario
seguiraõ que deviaõ haver muitos a fim de que os nomes das especies
fossem menos variaveis, e mais facil a practica methodica; mas nenhum
destes pareceres se dirige a arrancar a raiz do mal, que procede de naõ
haver em Botanica huma nomenclatura fixa, como ha em Astronomia.
No parecer de Adanson os generos de Linneo sam mais proprios dos systemas artificiaes fundados na fructificaçam, do que dos que sam estabelecidos em outras partes, e do que do Methodo natural, em cujos generos os caracteres devem ser tirados de todas as partes das plantas; outros contudo tem pensado que elles sam mais proprios do Methodo natural do que dos artificiaes ou ao menos do que systema do Sexual, porquanto dizem, que todos os Autores, que athe agora tem feito tentativas do Methodo natural, desuniram incomparavelmente muito menos dos generos de Linneo, do que seria precizo desmembrar, se todas as especies citadas no Systema [Página lii] sexual fossem destribuidas nas Classes e Ordens, a que rigorosamente pertencem conforme as leys do dicto systema.
Nam obstante todos os defeitos, que se censuraram nas differentes divisoens
desta destribuiçam systematica, ella nam deixou contudo de ser adoptada por
hum grande numero de Autores Botanicos, e de vir a ser hoje a mais seguida
na Europa Nota
A França he de todos os paizes da Europa aonde os systemas
de Linneo saõ menos seguidos. No jardim Real de Paris ensina-se o
Methodo de Jussieu, e em Dijon e muitas outras Universidades segue-se o
Methodo de Tournefort reformado.
No anno de 1738 Linneo publicou outro plano systematico, ao qual deo o nome de Methodo Calycino, por ser destribuido em 18 Classes deduzidas principalmente das relaçoens do calys; mas elle nam completou a execuçam deste Methodo por lhe ter preferido o primeiro fundado nos organos sexuaes.
No mesmo anno publicou huma terceira destribuiçam dos vegetaes, com o titulo de Fragmentos do Methodo natural.
Esta destribuiçam continha entam 746 generos em 65 divisoens, que elle
denominou Ordens naturaes sem lhes dar titulos alguns; mas em 1751 na ediçam
da sua Philosophia Botanica augmentou os dictos generos athe ao numero de
1026, e as suas Ordens a 68, dando-lhes differentes nomes tirados das obras
dos seus predecessores, ou imaginados por [Página liii] elle algumas vezes com bem pouca propriedade Nota
Segundo Royen, os
titulos das familias dos vegetaes devem ser tirados de hum genero, que
nellas he o mais conhecido; Adanson e Jussieu seguiraõ esta maxima, e
ella me parece na verdade ser a mais razoavel.Nota
Primum & ultimum in parte systematicâ Botanices quaesitum est
Methodus naturalis. Clas. Plantar. Methodus naturalis ultimus finis
Botanices est et erit. Philos. Botan. pag. 137.Nota
Isto naõ parecerà
estranho aos que conhecem a grande dificuldade que ha de vencer os
obstaculos, que se oppoem ao descobrimento do Methodo natural. Estes
obstaculos no parecer de Linneo (Phil. Bot. p. 137) saõ, 1.º o desprezo,
que se havia feito do habito externo das plantas, depois que se tinha
começado a cultivar a doutrina da fructificaçaõ; 2.º a falta de generos
exoticos, que restavaõ para defcobrir; 3.º a affinidade que tinhaõ os
generos com os que lhes ficavaõ lateralmente contiguos; 4.º (Gener.
Plant.) a difficuldade ou quasi impossibildade de estabelecer a clave do
Methodo natural, sem a qual as familias naturaes naõ podem constituir
Methodo. Estas difficuldades foraõ a causa porque elle deo o nome de
Pedaços do Methodo natural às Ordens que publicou, confessando que ellas
eraõ dirigidas a fazer conhecer a natureza das plantas, e naõ a sua
nomenclatura; porquanto pensava que so os Methodos artificiaes podiaõ
servir para bem fazer conhecer os seus nomes, e que todos os que para
este fim destribuiaõ as plantas em Fragmentos do Methodo natural,
rejeitando o artificial, lhe pareciaõ ser semelhantes aos que deitaõ
abaxo humas cazas de abobada e de bons commodos, para em seu lugar
reedificar outras, de que naõ podem fechar a abobada.Nota
Em vaõ, diz o Dr. Oeder (Elem. Bot.), se tentara de
explicar ou indagar o caracter de huma familia natural, em quanto houver
a preoccupaçam de que sò das partes da fructificaçaõ se devem tirar
caracteres geraes: examinemos toda a estructura, ou habito das especies,
todas as affinidades em qualquer parte que as poz a natureza, e podemos
estar certos de que descobriremos bons caracteres. ... . Sem embargo de
que Linneo fosse hum dos maiores defensores da doutrina da
fructificacam, nam me persuado que os caracteres das Ordens, que nos
deixou nos seus Fragmentos do Methodo natural, fossem puramente nella
estabelecidos.
Os trabalhos de Linneo em Botanica nam se limitaram somente a fazer huma
revolucam nos generos, e a formar com elles novas destribuiçoens; elle
publicou hum grande numero de novas observaçoens e de tractados de plantas
de muitos paizes, simplificou a nomenclatura dos vegetaes, inventou alguns
termos technicos, emendou e fixou os antigos, e estendeo os dogmas de
Botanica Nota
Estes dogmas estaõ reunidos na sua Philosophia Botanica:
muitos delles sam compilados de Jungio, Paulo Hamman e Tournefort:
alguns saõ demasiadamente generalizados ou applicados sem destinçam
tanto aos Methodos artificiaes como ao natural; em fim alguns foram
tractados de paradoxos, de principios contradictos pela practica do seu
mesmo autor, e rejeitados por Siegesbeck, Heister, Hebenstreit, Alstoa,
Ludwig, Haller, Adanson, Jussieu, &c.
Adriano Royen, professor de Botanica na Universidade de Leyde, deo no anno de
1740 hum plano de destribuiçam de 2700 plantas com o nome de Preludio do
Methodo [Página lv] natural, dividido em 20 classes relativamente ao numero das cotyledones,
partes da fructificaçam, disposiçam das flores, e substancia herbacea ou
pétrea (porque no seu tempo ainda se nam tinham excluido de Botanica Nota
As esponjas, coraes, corallinas, madreporas, e outras producçoens
marinhas denominadas lythophytos foram classadas no Reyno vegetal quasi
athe o meyo do nosso seculo. Imperati em 1599 teve algumas leves ideas
da animalidade destes entes; Peyssonel renovou as mesmas ideas em 1727,
mas sem provas convincentes; o Dr. Bernardo de Jussieu em huma Memoria
presentada a Academia de Sciencias de Paris em 1741 foy o primeiro que
provou com razoens decisivas, que elles deviam ser classados no reyno
animal por serem relativos aos polypos, cujos corpos se ramificaõ e tem
grande analogia com os vegetaes. Depois deste tempo os lithophytos foram
inteiramente excluidos do reyno vegetal.Nota
Hinc patet,
cur nullis a quocunque demum autore datis principiis adhaserim, sed
solis naturae legibus adstrictus.... Unde factum est, ut classes, quas
ante me pauci dederant, naturales servaverim, plures introduxerim, et
reliquas seorsim exhibuerim. Pr. Florae Leid.
Alberto Hailer, na sua Enumeraçam das plantas da Suissa impressa em 1742, e
das de Gottinga publicada em 1753 fez tambem huma nova tentativa do Methodo
natural, destribuindo duas mil especies, que descreveo, em 13 Classes Nota
Linneo reconheceo 15 Classes neste Methodo; Adanson confessa
contudo nam ter podido descobrir nelle mais do que 13; eu nam pude
taõbem decifrar hum maior numero; ellas sam com effeito difficeis de bem
se destinguirem, por se encadearem de ordinario estreitamente com as
subdivisoens subalternas, segundo o plano, que o seu Autor se tinha
proposto, e que elle seguio o mais que lhe foy possivel. Ego, qui non
universalem stirpium Historiam molior, non tenebar perfectam dare
generum distributionem. Sufficere credidi, si quamlibet familiam inter
duas familias disponerem, à quibus proximè distat et difficiliùs
distinguitur. Detegent fortè hoc meum studium gnari, in graminibus, in
transitionibus, quibus classes conjunguntur &c... id ubique non
obtinui, neque fortè licet, cùm affinitates naturales mihi non simplices
esse videantur, sed ab uno genere ad alia muita ex diversis notis
perinde possit legitimè transire. (Hall. Pr. Stirp. Helvet.
Francisco Sauvages, Medico de Mompelher, deo em 1743 o projecto de hum Methodo fundado nas differentes relaçoens das folhas, o qual, a pezar da reforma que o dicto botanico nelle fez em 1751, he muito defeituoso, principalmente pela razam das suas divisoens conterem de ordinario plantas que lhes nam convem com propriedade.
Everardo Wachendorf imprimio no anno de 1747 hum catalogo, das plantas do jardim botanico de Utrech, no qual citou quasi quatro mil especies simplesmente com as phrases de Linneo, e destribuidas em 16 Classes principalmente pela fructificaçam. Este botanico he contado no numero dos que fizeram tentativas sobre o Methodo natural; mas as divisoens do Methodo, que elle imaginou, pela maior parte nam sam [Página lvii] naturaes, e os seus titulos de ordinario sam viciosos pela sua demasiada extensam.
O Methodo geral publicado pur Lourenço Heister em 1748 contem 35 Classes fundadas na fructificaçam, habito externo e grandeza arborea ou hebracea; subdivididas em 93 Ordens relativamente ao sexo das flores, à sua disposiçam e das folhas, numero das petalas e sementes. Este Methodo parece ter sido trabalhado sobre o de Rai, e he mais facil do que elle.
Joam Gleditsch deo no anno de 1749 Nota
Vej. a Histor. da Acad. Real de
Scienc. de Berlim. in 4.º, pag. 109, e seg.
M. Duhamel no seu Tractado das arvores e arbustos, que se cultivam em França sem estufas, impresso em 1755, cuidou de combinar o Systema de Linneo com o de Tournefort, e destribuio as mil especies, de que fez mençam, em tres Classes relativamente aos sexos, e ao numero das petalas. Elle deo ainda na mesma Obra mais dois outros Methodos, hum composto de sette Classes estabelecidas na substancia e figura do pericarpo, e na substancia, figura, e nudez das sementes; outro de quatro Classes fundadas na figura, situaçam, e duraçam das folhas. O intuito de M. Duhamel foy de facilitar, o mais que lhe foy possivel, o conhecimento das plantas de que tractou, considerando-as nestes tres Methodos relativamente ao estado da florecencia, da frutescencia, e do [Página lviii] periodo em que ellas se acham sem, flor nem fructo, e so com folhas: elle conhecia muito bem, que todos os Methodos artificiaes sendo mais ou menos defeituosos, o seu primeiro Methodo nam podia ser livre de defeitos, e lhe ajuntou por esse motivo os dois outros para supprir às suas imperfeiçoens. Hum semelhante plano he digno de ser imitado, e o seria ainda muito mais, se M . Duhamel lhe tivesse ajuntado hum quarto Methodo ou Catalogo, no qual as plantas, que citou, se achassem dispostas em familias naturaes.
M. Adanson, sabio Botanico da Academia de Sciencias de Paris, no seu Tractado das
Familias de Plantas publicado em 1763 seguiu hum plano do Methodo natural
inteiramente diverso dos que tinham imaginado os seus predecessores. Elle
destribuio as 18 mil plantas (especies e variedades) conhecidas athe ao dicto
anno, em 1615 generos, a que chamou linhas de separaçam primarias e bem
assignaladas pela natureza. Assignou a cada huma destas Familias e generos o
seu caracter particular deduzido da fructificaçam e habito externo, porque
no seu parecer os verdadeiros caractéres genericos naturaes, ou proprios das
divisoens do Methodo natural devem ser tirados de todas as partes dos
vegetaes, vistoque ha algumas, que sam mais essensiaes para este fim em
certas Familias do que as da fructificaçam, como por ex. sam as folhas na
familia das Estrelladas e Leguminosas, e a disposiçam das flores nas
Labiadas. Nam estabeleceo clave alguma às 58 familias, a que limitou o
reyno vegetal conhecido, pensando que era muito difficil, e mesmo impracticavel,
reduzir as familias naturaes a huma boa clave classica, por falta da
generalidade competente de notas caracteristicas. Em lugar de clave dispoz as
dictas familias por huma serie gradativa, começando pelas dos vegetaes menos
perfeitos, e encadeando-as [Página lix] humas com outras conforme as affinidades, com que ellas lhe pareceram ter
sido approximadas pela natureza. Este Methodo nam deixa de ter bastantes
imperfeiçoens, como o seu mesmo Autor confessa; muitos dos caracteres dos seus
generos e familias sam incompletos, e precisam de ser correctos (este defeito
contudo nem sempre deve ser attribuido ao Autor, elle procede muitas vezes das
omissoens dos seus predecessores ou das estampas e descripçoens incompletas, que
elles publicaram, e que M. Adanson seguio, sendo-lhe impossivel de tudo
verificar); algumas plantas referidas às familias das dicotyledones sam
monocotyledones; algumas familias parecem desligadas, outras tem transiçoens
muito arbitrarias e mesmo improprias, como he por ex., a dos Pinheiros aos
Musgos, que o Autor poz no fim de todas as suas gradaçoens methodicas; outras
nam tem a sufficiente uniformidade de caracteres nos seus generos para merecerem
o nome de naturaes; em fim algumas plantas podem referir-se a duas familas
vizinhas, sem que nota alguma caracteristica decida mais a favor de huma do que
de outra. A pezar destes e outros defeitos, o Methodo de M. Adanson nam deixa de
ser muito mais bem trabalhado nas familias naturaes do que os dos seus
predecessores; elle chegua-se muito mais ao Methodo natural, e pode servir de
grande soccorro aos que se occupam na sua investigaçam. M. Adanson publicou alem
disso na mesma obra hum grande numero de reflexoens sabias sobre a Botanica
dogmatica e methodica, que o dam bem a conhecer pur hum botanico erudito e
profundo. Eu adoptei neste Tractado muitas das suas ideas, todas as vezes que as
achei conformes ao que me tem ensinado o estudo de muitos annos subre os
vegetaes, porque nem sempre me pareceram bem fundadas. Algumas das suas
assersoens relativas às partes da [Página lx] fructificaçam das plantas denominadas Cryptogamicas discordam muito das
minhas observaçoens e das do Dr. Hedwig de Leipsik Nota
O Dr. Kedwig he de
todos os modernos o que me parece ter melhor indagado as plantas
Cryptogamicas. A Academia de Petresburgo coroou huma das suas obras, na
qual elle demonstrou com huma grande sagacidade as miudas partes da
fructificaçaõ naõ so dos Musgos, mas ainda dos Fetos, Algas e Fungos.
Elle referio a Cavallinha a Tetandria monogynia: os organos masculinos
do Agarico, segundo as suas observaçoens, estam na parte interna da
volva, que cobre as laminas, e que vem depois a formar o annel a roda do
espique; os pistillos da mesma planta estam situados nas laminas. Elle
pensa que os escudilhos dos Lichens sam capsulas, que enserram sementes,
e que os tuberculos dos Lichens tuberculosos foraõ escudilhos antes de
tomar a forma tuberculosa. Julga que as celhas do Lichen ciliaris sam
raizes, assim como outras partes analogas em muitas outras espécies de
Lichen. O seu prezado axioma he que — omnis planta ex semine — assim
como o de Harvey era, omne animal ex ovo —. Segue que os fluidos
circulaõ, nos vazos dos vegetaes, assim como nos dos animaes, e que os
Reynos Vegetal e Animal se podem bem distinguir hum do outro pelos
organos masculos, os quaes em todos os vegetaes perecem depois de ter
operado a fecundaçaõ, e pelo contrario subsistem nos animaes depois
desta operaçaõ, e podem repetila muitas vezes.
O Dr. Antonio Luiz de Jussieu, celebre Botanico da Academia de Sciencias de
Paris, em duas Memorias prezentadas à dicta Academia nos annos de 1773 e de
1774, indicou hum novo plano methodico universal, e nelle adoptou a nomenclatura
de Linneo, e quasi geralmente os seus generos, reduzindo-os a 92 Familias
estabelecidas em differentes relaçoens collectivamente tiradas de todas as
partes das plantas, e dispondo as dictas familias conforme as suas affinidades
em huma serie methodica, começando pelas dos vegetaes menos perfeitos, como
tinha feito M. Adanson. Elle nam seguio contudo as ideas deste Botanico nem as
de Linneo a respeito da clave [Página lxi] classica das familias naturaes; porquanto persuadido de que nellas haviam
algumas relaçoens geraes e invariaveis capazes de servir de base para
estabelecela, reduzio as do seu Methodo (que considerou como naturaes) a huma
clave de 14 Classes fundadas principalmente na privaçam ou numero das
cotyledones das sementes, e no mediato ou immediato apego dos estames ao calys,
receptaculo, ou pistillo. Mas esta clave tem algumas imperfeiçoens e he muito
diffcil na practica: o titulo de acotylédones (ou sem cotyledones) dado a
todas as Cryptogamicas, às Nayades e Parasitas he improprio e desmentido
pela natureza; nestas duas ultimas familias ha algumas plantas Nota
Como
saõ por ex. o Myriophyllum, e Ceratophyllum.Nota
Como por ex. no Cactus, no qual algumas especies saõ
monocotyledones e outras dicotyledones.Nota
O Methodo sobredicto foy imaginado pelo Dr.
Bernardo de Jussieu, e estabelecido primeiramente no Real Jardim de
Trianon, sito no Parque de Versalhes; depois da sua morte o Dr. Antonio
Luiz de Jussieu cuidou de lhe dar huma melhor forma, e o introduzio no
jardim Real de Paris, aonde hoje he ensinado publicamente aos nacionaes
e estrangeiros.Nota
O Real Jardim Botanico de Paris contem quasi cinco mil
differentes especies de plantas de diversos climas do globo terrestre, e
este numero he todos os dias augmentado pelas novas remessas, que o
douto Thouin, Jardineiro mòr do dicto Jardim, recebe de paizes
estrangeiros.
Por evitar de ser prolixo, nam faço aqui mençam de alguns outros Methodos modernos, relativos às plantas de differentes paizes do Globo, como o do Dr. Allioni sobre as plantas do Piemonte, o de Oeder sobre as de Dinamarca, o do Cavalheiro de la Mark sobre as da França, o do Lord Bute sobre as da Gr. Bretanha, o de Thunbergio sobre as do Japam, nem os de outros, que se [Página lxiii] acham indicados no nosso Catalogo dos Autores Botanicos: todos estes Methodos nam sam outra coiza mais, do que combinaçoens ou correcçoens dos precedentes, de que tenho summariamente tractado.
Alem dos Methodos universaes, e geraes, tem havido ainda alguns outros
denominados parciaes, e relativos a huma so Classe ou Familia de plantas; taes
sam por ex. os de Dillenio, Michelli, Gledits, Batarra, e Bladts sobre os
Fungos; os de Dillenio, Michelli e Hedwig sobre os Musgos; os de Monti,
Michelli, e Schenzer sobre as Gramas; os de Morison, e Artedi sobre as
Umbrelladas; e os de Vaillant, e Pontedera sobre as Compostas. Alguns publicaram
Tractados particulares de hum genero infimo, que pelas numerosas especies, que
contem, parece constituir huma Familia, como por ex. Klein, Donati, e Gmelin do
Fucus ou Alga, Burman do Geranto, e Haller do Alho. Muitos emprehenderam
viagens nam so pela Europa, mas por todos os lugares do Globo, aonde ha
colonias de Europeos, e,aonde o commercio e navegaçam lhes franquea a
entrada Nota
As viagens, que desde o seculo passado athe ao presente se tem
emprehendido por differentes sabios a fim de augmentar os conhecimentos
em Botanica e outras partes de Historia natural, saõ summamente
numerosas; as principaes entre as modernas saõ: a de Gmelin pela Siberia
athe aos confins da China: a de Shaw na Africa; Colden na Virginia;
Brown na Jamaica; Adanson no Senegal; Kalmio e Jacquin na America; Osbek
na India; Hasselquist na Palestina; Loeffling e Alstroemer na Hespanha;
Amman na Russia; Burman em Ceilaõ e Cabo da Boa Esperança; Bergio taõbem
no Cabo da Boa Esperança; Forskoll no Egypto e Arabia; Pallas nos
Estados da Russia; Sparman na Africa austral; Sonerato na nova Guiné e
India; Aublet na Ilha de França e Guianna; Thunbergio na Africa austral,
Ceilaõ, Java e Japaõ; Solander com o celebre cavalheiro Banks, e os dois
Forsteros no mar austral, &c.Nota
Como a Sociedade de Allemanha estabelecida em 1670, a de
Londres em 16S2, a Academia de Sciencias de Paris em 1699, a de Upsal em
1720, a Imperial de Petresburgo em 1728, a de Noremberg em 1731, a de
Stokolmo em 1739, e muitas outras que foraõ fundadas no seculo actual
para servirem de Archivos às Sciencias, e contribuirem para o seu
progresso.
Das destribuiçoens dos entes do reyno vegetal, que athe agora se tem
publicado quer sejam denominadas Systemas ou Methodos artificiaes Nota
Os
Systemas artificiaes saõ fundados em huma so parte ou em poucas: o
Methodo natural pelo contrario he fundado em muitas, e considerado como
hum composto de muitas familias, nas quaes cada especie se acha por taõ
intimas affinidades ligada com outras, que nenhuma dellas se pode
separar sem fazer violencia à natureza.Nota
Como
foraõ Morison, Ray, Tournefort, Magnol, Boerhaave, Ludwig, Adanson,
Jussieu, &c.
" A Botanica, diz hum celebre Naturalista moderno Nota
M. Adanson, cujas ideas transcrevo aqui por me parecerem ser as mais
exactas, e adequadas para instruir o Leytor sobre o estado actual da
Botanica. Nota
Segundo o mesmo sabio Naturalista, a Botanica he susceptivel de
muitos problemas sobre as linhas de separaçaõ entre as Familias e
generos, sobre as relaçoẽs que os encadeaõ, sobre as affinidades que
fazem que hum vegetal pertença mais a hum genero, ou familia, do que
a outros &c. O Dr. Ant. L. de Jussieu he do mesmo sentimento, accrescentando que
ella preciza às vezes de huma especulaçaõ, que equivale à das
Sciencias mais abstractas. Nota
Naturalem
et perfectissimam Methodum, in quá nullæ anomaliæ occurrunt deprehendi
vix, posse opinamur, cum varietas characterum nimia sit, & ex
consensu omnium signorum characteres veró naturales exurgant, hinc uno
signo variante vera dispositionis ratio turbatur. Ludwig. Instit. Botan.
§. 190.Nota
Ray, que no fim do seculo passado fez mençaõ de 18655 plantas,
ontando especies e variedades, dizia que a metade dos vegetaes do
globo terrestre não estava ainda conhecida. Oeder em 1753
julgava que haviaõ 7320 especies conhecidas sem contar as variedades, e
que na Europa, aonde haviaõ tres mil e tantas especies, eraõ poucas as
que naõ se conheciaõ, mas que isto era bem differente a respeito das
outras partes do Globo. M. Adanson pensa que ha 16 mil especies
conhecidas, e que restaõ ao menos 25 mil para descobrir. M. Le Monier,
Professor de Botanica em Paris pertende que ha hoje 25 mil plantas
conhecidas entre especies e variedades, e que cohecemos mais da metade
das plantas do globo terrestre. Linneo dizia que o numero das plantas de
todo o Globo era menos do que se pensava, e que segundo o seu calculo
ellas montavaõ quando muito a dez mil [numerum plantarum totius Orbis
longé pauciorem esse, quam vulgó creditur, satis certo calculo
intellexi, utpote qui vix ac ne vix 10,000 attingat] [Spec. Plant. ad.
Præf. edit 1754]: mas o seu calculo naõ tem a certeza que elle
pertendia; os Hervarios de Adanson, Jussieu, e Sloane contem 8 mil
especies, o de Vaillant nove mil, o de Sherard dez mil, e quantas mil
alem destas naõ contem os sertoẽs de Africa, Asia, e America, e outros
paizes da Terra aonde nenhum Botanico tem ainda penetrado?Nota
Em todos os tres reinos de natureza ha formas tao particulares a
certos paizes, que se naõ achaõ fora delles: no reino vegetal a
experiencia tem mostrado que ha muitas especies e generos, que saõ
proprios huns da Asia, outros da Africa, e outros da America
exclusivamente; que na Europa ha hum grande numero de generos de
Cruciferas e Umbrelladas, muito poucos de Malvaceas, e apenas duas
especies de Palmeiras (as quaes segundo alguns conjecturaõ foraõ
nella naturalizadas por transplantaçaõ) que na Zona torrida ha muito
poucas Umbrelladas, e rarissimas Cruciferas. Portanto assim como ha Familias quasi inteiras na Europa, outras
quasi inteiras fora della, he muito provavel que hajaõ taõbem fora
della algumas Familias, das quaes naõ conhecemos ainda planta alguma
ou apenas conhecemos hum ou poucos generos, que os viajantes nos tem
descripto. Nota
Porquanto ha, segundo o mesmo Botanico, algumas plantas, que tendo
variedades saõ consideradas como especies, e outras vice versá, que
sendo especies saõ reputadas por variedades. Nota
Diz-se ordinariamente, que ha muitas coizas
minuciosas, que se devem omittir e désprezar nas descripçoẽs dos
vegetaes; que as descripçoẽs longas naõ se lêm, e que nellas se naõ
percebe com facilidade e brevidade as differenças caracteristicas; em
fim que as abbreviadas saõ as melhores, e o que nellas falta deve ser
supprido pelas Estampas. Pelo contrario vejo ainda mesmo alguns
daquelles, que tem seguido este parecer, queixarem-se de que naõ poderaõ
aperfeiçoar seus Methodos pela razaõ de naõ terem achado nos Autores
descripçoẽs mais extensas e completas. Plinio dizia, que nada podia
parecer superfluo nos olhos de hum attento observador da natureza; com
effeito naõ me parece que haja coiza alguma em huma especie vegetal, que
deixe de merecer de ser observada, e descripta na sua Historia Natural;
o que em hum seculo he reputado por superfluo e minucioso, naõ o he em
outro, e nos temos varios exemplos disto nas estipulas, nectarios,
glandulas, situaçaõ do corculo, ponto de apego dos estames, figura do
pollen das antheras, &c. As Estampas saõ na verdade de grande
soccorro, mas he rarissimo de encontrar alguma em que naõ hajaõ defeitos
e descuidos; demais disso ha muitas circumstancias que naõ se podem
nellas bem exprimir, as quaes se podem pelo contrario bem expor nas
descripçoẽs. Huma descripçaõ, na qual se mencionasse completissimamente
a forma exterior, estado organico, e toda a natureza de huma planta,
dando-se della huma boa estampa, seria hum fixo monumento da dicta
planta, e naõ deixaria para observar a respeito della o que huma
descripçaõ abbreviada, aindaque reunida a numa boa Estampa, costuma
deixar. As descripçoẽs abbreviadas prezentaõ com effeito os finaes
caracteristicos com facilidade; mas como os sinaes caracteristicos
differem segundo os differentes Methodos, a facilidade, he igualmente
sujeita a differir, succedendo muitas vezes que a mesma descripçaõ, que
he facil a respeito, de huns, fica sendo difficil a respeito de outros,
ou pelo dizer de outro modo, a descripçaõ abbreviada, que he boa
conforme as ideas deste ou daquelle Botanico, he mà para a Botanica,
como a sua historia desde a restauraçaõ das lettras athe ao presente
nolo attesta. Em summa, a perfeiçaõ da Botanica depende da comparaçaõ de
todas as partes e sinaes quaesquer que se podem divisar na forma e
estructura dos individuos vegetaes, e para este fim so as descripçoẽs
vastamente circumstanciadas podem ser de hum adequado soccorro.Nota
Rai foi de parecer, que naõ era necessario nos Methodos indicar parte
alguma, que exigisse o uso do microscopio, como ja notei (pag. XL,
not. b.). Alguns Methodistas seguem ainda hoje este parecer; outros
rarissimamente assignaõ caracteres fundados no uso do microscopio;
outros em fim estabelecem Familias inteiras em notas
caracteristicas, que dependem absolutamente do uso delle. M. Adanson pensa que ha nos animaes e vegetaes quasi tantas partes
insensiveis ou microscopicas, como ha de bem apparentes á vista
simples, e que todas ellas saõ igualmente dignas da attençaõ de hum
Naturalista, julgando por erronea a opiniaõ de Rai. Nota
Seria acertado que huma Academia protegida por algum Soberano ou
pessoas ricas e com artistas tencionados emprehendesse de dar todos
os annos hum certo numero de Estampas completas dos vegetaes
conhecidos athe chegar a publicar todas as suas especies e
principaes variedades: este trabalho daria a Historia Natural hum
precioso Archivo, e contribuiria summamente para o seu
progresso. M. Adanson, e outtos modernos criticaraõ com justo
motivo a Linneo de ter dicto (Gener. Piantar. 1743) icones pro
determinandis generibus non commendo, sed absolute rejicio, licet fateor
has magis gratas esse pueris, iisque, qui plus habent capitis quam
cerebri... ab iconibus enim quis potest unquam aliquid argumentum fixum
desumere; sed ab scriptis facillime; sendo notorio que o mesmo celebre
Botanico Sueco se servio das Estampas de Rheede, de Tournefort, Plumier,
Dillenio, Micheli & outros para caracterizar alguns generos e
especies, nao deixou de ajuntar sempre huma Estampa às descripçoes das
plantas novas, que descobrio. He verdade, diz M. Adanson, que ha muitas
coizas nosentes organicos, que nao se podem exprimir nas Estampas, e saõ
so proprias das descripçoẽs; mas naõ se pode duvidar taõbem que ha
algumas nos dictos entes, e hum nao sei que nas suas physionomias, que
sò he privativo à pintura ou desenho de exprimir e de que nenhuma
descripçaõ pode dar noçoẽs claras. He por esta razaõ que sera sempre
necessario reunir as figuras as descripçoẽs, e as descripçoẽs ás
figuras, como servindo humas às outras de hum reciproco
soccorro.
Taes sam os passos, que tem dado a Botanica, e o seu estado actual nos
differentes paizes da Europa. O seu progresso entre nos tem sido ora
proporcionado e em parte superior ao das outras Naçoens Européas, ora mais
lento. No tempo, em que a Lusitania esteve debaxo do dominio dos Romanos,
lemos nos antigos Autores Nota
Segundo Plinio, Strabo, Justino, Athenco, Columela, e outros, as
plantas frumentaceas e hortaliças eraõ copiosamente cultivadas entre
os Lusitanos; elles extrahiaõ muito azeite naõ so das azeitonas, mas
ainda das bagas de loiro e fructos de outros vegetaes, e os Romanos
exportavaõ delles trigo, azeite, vinhos, cardos hortenses, tuberas
da terra, linhos, esparto, bettonica, &c. &c. Nota
A Bettonica ou Vettonica diz-se ser assim denominada pela razaõ dos
seus usos medicinaes terem sido descobertos pelos povos Vettones ou
Vetones. Estes povos habitavaõ huma parte das provincias orientaes do Portugal
moderno e a provincia da Extremadura da Hespanha moderna; a sua
Capital segundo Prudencio, era Merida (Emerita), a qual fazia parte
do Portugal antigo ou Lusitania. André de Rezende seguindo a opiniaõ de Plinio extende a habitaçaõ dos
Vettoens athe ao Doiro.
A restauraçam das lettras tendo feito mudar em Portugal o plano de estudos,
Theophrasto, Dioscorides e outros antigos, que tinham tractado dos vegetaes,
começaram a ser melhor interpretados do que o tinham feito os Arabes e os que
athe esta famosa epoca haviam adoptado as suas ideas; a nossa Universidade tinha
na Botanica (que entam se ensinava) professores tam instruidos como as melhores
da Europa. Com intuitos de commercio e de engrandecimento do Estado,
acompanhados da paxam de investigar, descobrimos novos paizes navegando
pelos mares meridionaes da Africa e India athe à China, e fomos à proporçam
que os conhecemos dando à Europa tanto em Geographia como em differentes
partes de Historia natural Nota
Garcia de Horta, celebre Professor da nossa Universidade de Coimbra,
tendo deixado a sua cadeira de Medicina em 1534, e passado à India e
China publicou em Goa o seu Tractado das Especierias do Oriente, o
qual foy depois tradurido do Portuguez em varias linguas pela sua
novidade e exactidaõ. Thomé Péres e Joaõ Fragoso tractaraõ taõbem das drogas e plantas do
Oriente; Fernaõ Mendes Pinto, Barros e outros fizeraõ mençaõ de
muitas arvores e producçoẽs da India, China, Moluccas e outras ilhas
do mar da India. Pero Magalhaẽs, amigo do nosso Camoẽs, na sua Historia de S. Cruz ou
Brasil tractou da herva sancta (depois chamada herva do tabacco ou
da ilha Tabago, e herva de M. Nicot), da mandioca, da arvore do
balsamo de copaïva e algumas outras produccoẽs da America
Meridional.
Se o mesmo plano de estudos, e a mesma instrucçam se houvesse sustentado e
promovido entre nos, a Botanica e outras Sciencias e artes deveram certamente
aos Portuguezes hum explendor progressivo; mas differentes circumstancias assaz
expressas na nossa Historia se opposeram a isso. Cahimos debaxo do poder de
Hespanha, e fomos durante muitos annos com pezados grilhoens sopeados e
enfraquecidos; fomos, depois de os ter felizmente espedaçado, obrigados a
soster longas guerras; e em quanto as artes e Sciencias floreciam entre os
estrangeiros, e estes se serviam ainda mesmo de nossas terras Nota
Tournefort adiantou a Botanica com algumas plantas, que descobrio em
Portugal; Grisley no seu Viridarium Lusitanum fez taõbem mençaõ de
algumas, de que nenhum autor Portuguez tinha tractado. Rheede e Rumphio enriqueceraõ a Botanica com a noticia de novas
plantas de muitos lugares da India e ilhas adiacentes, que os
Hollandezes nos tinhaõ conquistado em quanto estivemos debaxo da
dominaçaõ dos Reys Philippes. Marcgrave e Pisam tractaraõ da Historia Natural do Brasil mais ampla
e circumstanciadamente do que nenhum dos nossos Autores.
Os primeiros tempos pacificos foram empregados em reparar os danos, que
principalmente a Politica e armas de Hespanha nos tinham causado; mas nam se
pode remediar a todos; a degenerada situaçam das lettras prevaleceo, e as
Sciencias nam poderam ser ainda geralmente reformadas. O Ceo tinha destinado
esta gloriosa empreza a hum dos mais illuminados Soberanos que tem occupado o
throno Portuguez, o Senhor D. Joseph I.: no seu reynado a reforma do bom [Página lxxiv] gosto em Litteratura foy seguida pela das Sciencias. Inclytos sabios
estrangeiros foram chamados para professar algumas dellas entre nos, e elles nos
introduziram subitamente aos mais essenciaes conhecimentos, que a Europa,
durante a nossa decadencia, tinha nellas alcançado. A Botanica nam podia
deixar de merecer a attençam de hum Princepe Nota
O estudo dos vegetaes tem
sido promovido por muitos Soberanos. Alexandre Magno mandou remetter a
seu Mestre Aristoteles (ao qual tinha incumbido o cuidado das Sciencias
naturaes na Grecia) as mais singulares produicçoẽs vegetaes, que haviaõ
nos paizes que tinha conquistado, e se diz que mandara a Socotorà huma
colonia Grega para ter cuidado de colher e enviar ao Egypto o albe desta
ilha. Os Imperadores Romanos mantiveraõ sabios em varias partes dos seus
vastos dominios para conservar os conhecimentos botanicos e os
adiantarem. Maximiliano II. e Rodolpho seu filho, Imperadores de
Allemanha, honraraõ e ennobreceraõ a Clusio pela sua grande erudiçaõ em
Botanica. Philippe II. mandou Hernandes à America investigar as suas
producçoẽs vegetaes e outros objectos de Historia Natural, e despendeo
nisso mais de trezentos mil ducados. Luiz XIV. manteve muitos annos o
douto P. Plumier na America para descrever as suas plantas, e mandou
Tournefort viajar por todo o Levante principalmente no intuito de
reconhecer os vegetaes, de que os antigos Gregos e Romanos tinhaõ feito
mençaõ. Pedro I, Czar da Russia, e seus successores fizeraõ indagar as
plantas dos seus grandes estados athe à China. Fernando VI. mandou vir a
Hespanha o sabio Loefling, e estabecer por elle em 1756 o jardim
Botanico de Madrid. Elrey de Dinamarca em 1761 enviou a Arabia nove
sabios, e entre elles Forskohl para se occupar de observaçoẽs botanicas.
O Imperador actual mandou o celebre Jacquin as Antilhas para observar e
descrever as suas producçoẽs vegetaes. A protecçaõ com que hoje todos os
Soberanos e muitas pessoas ricas promovem por toda a Europa a Botanica
he he assaz conhecida.Nota
O Real Jardim botanico sito junto do Pallacio Real de N. Senhora da
Ajuda, e o Jardim da Universidade de Coimbra. Nota
O Dr. Domingos Vandelli, cujo merecimento he bem conhecido nas
principaes Academias da Europa. Este sabio restabeleceo naõ so a Botanica em Portugal, mas ainda a Zoologia , Mineralogia, e Chimica de que foy
igualmente nomeado professor pelo Senhor D. Joseph I.
Por terminar este Epitome historico da Botanica ajuntarei somente as reflexoens
seguintes. O reyno vegetal he huma fonte inexhaurivel de novos conhecimentos,
hum thesoiro copiosissimo de preciosidades. A estructura infinitamente variada
dos entes deste reyno, as combinaçoens de differentes principios, que constituem
a sua natureza, sam huma das mais bellas maravilhas da composiçam do Globo, que
habitamos. Nam ha vegetal algum, que nam mereça de occupar a attençam de hum
verdadeiro sabio; nenhum ha, por mais desprezivel que pareça, de que se nam
possa esperur alguma utilidade Nota
Na supposiçaõ de que somente hum certo numero de vegetaes fosse util,
o seu estudo seria recommendavel a fim de que se naõ confundissem os
uteis com os inuteis; mas a experiencia desmente todos os dias esta
supposiçaõ, mostrando que huma planta tida por inutil em huma arte
he util em outra, e bastarà citar a este respeito o Recueil
d'Expériences sur les teintures, que les végétaux indigènes de
France communiquent aux laines, por. M. Dambourney. Nota
Nos antigos tempos os que practicavaõ a arte de curar costumavaõ
subministrar aos seus doentes os medicamentos, e como estes eraõ quasi
todos tirados dos vegetaes, a Botanica medicinal era hum dos seus
principaes estudos. Este costume tem ainda hoje lugar entre os Asiaticos
e Africanos. Entre os Europeos os Medicos e Cirurgioẽs foraõ
determinados por diversas circumstancias a occupar-se puramente do
curativo clinico dos enfermos, e deixaraõ o cuidado de preparar e
distribuir os medicamentos a differentes sortes de pessoas, como
Boticarios, Hervolarios, Droguistas, e Especieiros. Mas deste abandôno
ou tranfacçaõ naõ se pode tirar fundamento de que elles naõ devaõ
apprender a conhecer os medicamentos, tanto relativamente à sua
preparaçaõ e composiçaõ, instruindo-se na Chimica e Pharmacia, como no
seu estado simples e taes como sahem do seyo da natureza, instruindo-se
em Botanica e outras partes de Historia Natural. Hum Medico ou Cirurgiaõ
que sabe Botanica esta habil para descobrir nas plantas indigenas do
lugar, em que practica, virtudes identicas ou semelhantes às das
exoticas; para fazer hum grande bem aos pobres habitantes das aldeas
(quando nellas practica) mostrando lhes medicamentos frescos e sem
despeza; para poder destinguir o Boticario ignorante do que he instruido
no conhecimento das plantas medicinaes, e decernir (sendo perguntado na
caza do seu enfermo) se o Boticario ou Hervolario, vendeo ou naõ à
verdadeira planta, que elle tinha ordenado; para poder julgar, se huma
planta subministrada por hum Boticario ou qualquer outra pessoa, à qual
se attribue hum homicidio, era ou naõ venenosa; em fim està habilitado
para poder descrever huma planta nova, de que observou as virtudes, e
poder seguramente verificar as que se assignaõ às antigas. Os que
ignoraõ a Botanica, pelo contrario, ficaõ privados de todas estas
vantagens; elles confiaõ nos Boticarios ou Hervolarios, que muitas vezes
saõ pouco instruidos no seu estado, e daõ hum simples por outro, e dahi
resulta huma das razoẽs porque ha tantos enfermos mal tractados, e
tantas falsas observaçoẽs em Medicina.
Todos os corpos compostos, que existem no globo terreste, podem ser reduzidos
a tres grandes classes primarias, a que os Naturalistas chamam os tres
reynos da Natureza, a saber, o reyno mineral, vegetal, e animal. No primeiro consideraõ-se as terras, pedras, e metaes, que se distinguem dos
entes dos outros dois reinos, pela rasaõ de naõ viverem, ou nam terem huma
organizaçaõ e contextura destinada às funçoẽs da vida, segundo o modo com
que fisicamente se entende esta palavra; as pedras e metaes naõ deixaõ sem
embargo disso de ter crescimento. O segundo comprehende os vegetais (vegetabilia) ou entes organizados que
crescem e vivem, sem contudo serem dotados de sensibilidade, nem de potencia
locomotiva. O terceiro contem os animais ou entes que crecem, vivem, sentem, e tem
potencia locomotiva; ainda que nas suas extremas gradaçoẽs (começando no
homem e quadrpedes) se achem alguns que parecem ter a sua sensibilidade e
faculdade [Página 2] locomotiva em hum grande embotamento e inatividade Nota
Muitos Naturalistas achaõ grande difficuldade em declarar com
evidencia onde termina o ser vegetal e começa o animal: eu tractarei
mais extensamente desta materia nos meus Elementos de Botanica.
A sciencia que tracta dos entes destes tres reynos he chamada Historia Natural. Quando so se emprega na consideraçaõ dos mineraes tem o nome de Mineralogia; se so tracta dos vegetaes he chamada Phytologia ou Botanica ( Phytologia, seu Botanica ), mas este segundo nome he o mais usado. Em fim quando somente tracta dos animaes he chamada Zoologia .
A Botanica segundo o diverso modo com que tracta dos vegetaes pode ser dividida em Botanica applicada, physiologica, e pura ou fundamental. A applicada tracta do uso dos vegetaes tanto medicinal como economico, isto he, de todas as utilidades que o homem pode tirar dos vegetaes; donde resulta que todos os tractados de materia medica, de agricultura, das differentes madeiras, das tintas vegetaes, &c. naõ saõ outra coiza mais do que huma Botanica applicada. A Botanica physiologica tracta das funçoẽs vitaes e estructura organica dos entes do reyno vegetal, e para este fim se vale da anatomia, chymica, e physica; a patologia dos vegetaes, ou tractado das suas doenças, ainda que devera ser separada, he comprehendida ordinariamente tanto na Botanica physiologica como na pura, e ainda mesmo nos tractados de agricultura. A Botanica pura ou fundamental tracta do modo de destinguir hum vegetal de todos os mais, por meyo dos seus caracteres, ou sinaes externos, com certeza, facilidade, e brevidade. Ella he [Página 3] a que deve fazer o objecto deste tractado e della dependem as duas precedentes.
Ainda que o meu fim naõ he tractar neste epitome senaõ dos principios relativos á Botanica pura, naõ me parece contudo desacertado dar aqui algumas breves noçoẽs sobre a organizaçaõ ou estructura interna dos vegetaes por facilitar a intelligencia de alguns termos a ella respectivos, que se achaõ nas obras de Linneo e de muitos outros Botanicos.
Os vegetaes tanto pela sua organizaçaõ como pelas suas funçoẽs vitaes tem
huma grande analogia com os entes do reino animal; nascem, perecem,
reproduzem por sementes ou ovos vegetaes a sua mesma especie; continuaõ-na
taõbem por gomos, ramos cortados, e enxertias, circumstancias que se achaõ
igualmente em alguns animaes Nota
Nos polypos.
O corpo dos vegetaes em geral consta de epiderme (epidermis) ou cuticula
exterior apegada á casca (cortex) produççoẽs assaz conhecidas; a ultima
lamina interna da casca, hum tanto mais compacta do que ella, [Página 4] he chamada livrilho ou alburno (liber, alburnum Nota
Alguns Botanicos fazem differença entre estas duas palavras,
relativamente a algumas arvores , dizendo que o alburno medea entre
o lenho e livrilho, e tem huma consistencia diversa de ambos,
constituindo as primeiras camadas concentricas do corpo
ordinariamente chamado lenho.
O systema vascular dos vegetaes he menos conhecido que o dos animaes; a anatomia e observaçoẽs microscopicas tem contudo descoberto quatro sortes de vasos, a saber, os seivosos, proprios, aereos, e os utriculos . Os vasos seivosos (vasa sapacea) chamados taõbem fibras lenhosas e vasos lymphaticos contem a seiva, chamada vulgarmente agoadilha ou chorume (sapa, humor plantarum) que he hum fluido aquoso, sem cor, sem cheiro nem sabor. Ella passa por ser o succo nutritivo dos vegetaes, que se aperfeiçoa nos utriculos e alguns outros vasos delgados; ella se observa bem destinctamente nos ramos das videiras cortados na primavera; estes vasos correm longitudinalmente ao lado das tracheas, saõ fasciculados, cruzaõ-se algumas veses, outras veses desviaõ-se mutuamente, deixando entre si espaços cheyos de utriculos : podem-se observar bem destinctamente nas raizes das caneiras e lirios. Os vasos proprios (vasa propria) saõ taõbem fibras lenhosas e succosas como os precedentes, mas saõ em menos numero, contem Succos mais espessos, còrados, lacteos, vermelhos, amarellos, saborosos, cheirosos, &c. e delles dependem [Página 5] as qualidades proprias de cada vegetal; alguns physiologistas pensaõ que elles saõ analogos ao chilo e sangue dos animaes; elles estaõ dispostos circularmente á roda do axe do tronco, mas achaõ-se em maior numero na casca, e se podem observar nas euphorbias, celidonia, çarthamus lunatus, &c. Os vasos aereos, chamados ordinariamente tracheas (tracheœ) saõ tubos formados de huma lamina elastica, espiral, ou semelhante a hum arame enroscado á roda de hum vime. Achaõ-se em todo o corpo do vegetal, correm ordinariamente parallelas aos vasos seivosos, e parecem ter maior diametro ou calibre do que os outros vasos. Saõ destinados a conter o ar, ou pelo assim dizer, servem á respiraçaõ dos vegetas, e se observaõ rasgando com brandura transversalmente em duas partes as folhas da vide, roseira e escabiosa. Os utriculos (utriculi) chamados taõbem tecido cellular, ou parenchyma, (parenchyma) saõ huma espécie de saccos ovaes, esponjozos, de varia grandeza, situados transversalmente e occupando as malhas ou entrevallos que deixaõ entre si os vasos longitudinaes. Saõ destinados á elaboraçaõ dos succos nutritivos, achaõ-se em maior numero na casca do que no lenho; a medulla contem os maiores e naõ parece ser outra coiza mais do que hum montaõ desta substancia vesicular ou vesiculas membranosas que communicaõ entre si. Podem observar-se no sabugueiro, choupo, carvalho, &c, por meyo de hum microscopio. Os rayos medullares, muitas raizes , frutos, e algumas plantas marinhas parecem ser quasi inteiramente utriculos , segundo as observaçoẽs repetidas vezes feitas por muitos sabios physiologistas. Alem destes vazos ha taõbem nos vegetaes muitos outros [Página 6] destinados a secreçoẽs, e as differentes sortes de glandulas os indicaõ.
Nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem circulaçaõ; o movimento dos seus succos he
chamado propulsaõ (propulsio), o calor, frio ou frescura alternados, ou a
acçaõ do ar ambiente sobre a lamina das tracheas parece ser a causa da
propulsaõ dos succos, ao menos ha grande probabilidade que a sua dilataçaõ e
condensaçaõ ajuda muito o jogo dos vasos. Nestes naõ ha valvulas algumas; o que hoje he raiz em hum
bacelo por ex., se arrancamos e reviramos a planta, dentro de pouco tempo
virá a ser cume, tendo pelo contrario o antigo sido convertido em raiz . Os succos passaõ da raiz ao tronco pelas fibras internas do
lenho, vaõ athe às ultimas ramificaçoẽs vasculares das folhas e descem para a raiz pelos
vasos da casca, de modo que a raiz tira succos do tronco e este
da raiz ; alem disto os ramos tiraõ taobem a sua nutriçaõ pelas folhas , e as raizes pelas radiculas fibrosas ou capillares. As folhas absorbem como a pelle dos
animaes, e em muitas plantas a maior parte da
substancia nutritiva lhes entra pelas folhas ; segundo alguns physiologistas os vegetaes em geral
nutremse de dia pela via das folhas e de noyte pelas raizes , e no inverno
aquellas plantas que nelle perdem inteiramente
as suas folhas so se nutrem pela raiz . O movimento da seiva e dos succos proprios tem lugar em todas as estaçoẽs do
anno, mas no inverno he mais lento. Este movimento como ja indiquei he ascendente e descendente como se prova
pelas enxertias. Se na primavera cortamos hum ramo das videiras ou hervas maleitas, o ramo
separado lança menos succos, e a sua effusaõ cessa e se esgota muito tempo [Página 7] antes que a do ramo ou tronco cortado que communica com a raiz ; isto parece provar alem dos dois movimentos, que ha huma
especie de communicaçaõ da seiva descendente, e ascendente na raiz , mas isso naõ obstante naõ merece o nome de
circulaçaõ, porquanto nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem primeiro motor
intrinseco dos succos, nem valvulas em quaesquer dos seus vazos Nota
Alguns physiologistas, que admittem a circulaçaõ nos vegetaes, dizem
que ella he assaz analoga á circulaçaõ que existe nos polypos.
As tracheas achaõ-se em grande numero nas folhas , ás quaes por isso mesmo alguns Botanicos chamaraõ bofes dos vegetaes. Os orificios destes vazos aindaque se reconheçaõ em ambas as duas faces das folhas , numa dellas sempre saõ em menor numero do que na outra. A observaçaõ tem mostrado que a substancia aeriforme, que dellas exhala durante a noyte, he muito nociva, ao mesmo tempo que de dia exhalaõ outra, com que se purifica a atmosphera: nellas parece residir a irritabilidade da sensitiva, e de outros vegetaes, cujas folhas e flores se contrahem por estimulos externos.
Nas enxertias quaesquer que sejaõ, tanto de garfo como de escudo, flauta, entalhe, &c. os succos passaõ do enxerto ao enxertado, e do enxertado ao enxerto alternativamente em rasaõ da anastomose, ou reuniaõ dos vazos de hum e outro. Esta reuniaõ he [Página 8] tanto mais duravel quanto mais perfeita; a sua perfeiçaõ consiste na grande analogia do garfo com o tronco enxertado, ou na grande affinidade de organizaçaõ e dos succos. O garfo deve vir a ser hum tronco do enxertado, e porisso quanto maior for a dicta affinidade tanto mais depressa, e firmemente se encorporará com elle, e tanto mais tempo viverá.
Os vegetaes, assim como os animaes, tendem todos naturalmente a reproduzir-se.
Toda a sua vegetaçaõ se dirige a este fim, chamado ordinariamente fructificaçaõ,
que tem principio nas flores e acaba no fructo. O grande numero de vegetaes
relativamente á sua fructificaçaõ he reduzido a duas grandes classes, a saber, a
plantas perfeitas, e plantas imperfeitas, (plantae perfectae aut imperfectae.)
As perfeitas saõ aquellas em cujas flores se observaõ estames, ou pistillos, ou
ambos estes dois organos; as imperfeitas saõ aquellas que rigorosamente fallando
naõ tem estes organos, ou se os tem naõ saõ bem apparentes á vista nuã, de sorte
que a sua fructificaçaõ tem lugar por hum modo differente do das plantas
perfeitas; saõ as que Linneo classou na sua Cryptogamia, e as que os
physiologistas chamaõ plantas microscopicas. No tempo da florecencia das plantas
perfeitas, as observãçoẽs dos modernos descobriraõ em suas flores hum coito
summamente analogo ao dos animaes, e reconheceraõ que nellas haviaõ genitaes de
dois sexos, envoltos em certos tegumentos, a que daõ ordinariamente o nome de
calyz ou corolla segundo as circumstancias. Os genitaes masculinos saõ chamados
estames, e os femininos pistillo, o qual se acha ordinariamente no centro da
flor, como se observa bem destinctamente [Página 9] em huma açucena. Cada estame he composto de duas partes inferior e
superior, a primeira tem o nome de filete, e a segunda ou superior que
termina o filete he chamada anthéra . O pistillo consta, em hum grande numero de flores, de tres partes, a saber,
germe, estylete, e estigma; o germe he a parte inferior do pistillo, ou o
fructo recêm nascido e nelle se achaõ ja as sementes Nota
Vej. no §.
Sementes a nota quarta (d).Nota
Elle constitue a cera
bruta, que as abelhas tiraõ das flores.Nota
Adanson naõ quer que
seja o po seminal dos globulos o que entra no estylete, mas sim hum
espirito volatil, envolto nelle (bem comparavel á materia electrica que
se acha envolta nos corpos electricos) e proprio para penetrar pelas
tracheas do estylete. Com effeito he raro ver estyletes que sejaõ
tubulosos, e a Anatomia naõ tem mostrado athe agora nos estyletes, e
germes cortados na florecencia, o menor indicio do po dos globulos. Eu
fallarei mais extensamente nesta materia nos meus Elementos de
Botanica.
Nas plantas imperfeitas naõ se conhecem a olhos nûs os organos sexuaes; o microscopio os tem feito descobrir em algumas, mas ha outras em que nenhum observador ainda mesmo com este instrumento os tem podido devisar athe agora, nem me parece que existaõ. He certo contudo que todas daõ sementes; os cogumelos, e o bolor podem, segundo a experiencia, ser semeados como as plantas perfeitas; quanto aos fetos e musgos as sementes saõ ainda mais bem conhecidas, e senaõ podem negar ainda mesmo aos limos, fucos, e outros generos de Algas, se bem que pareçaõ ser de huma forma exquisita em algumas especies.
Taes saõ em summa as principaes noções relativas á physiologia dos vegetaes. A
Botanica pura tractando, como disse, do modo de destinguir com certeza os
vegetaes huns dos outros, he o fundamento de todos os tractados de plantas de
qualquer sorte que sejaõ considerados. Ella se serve para este fim dos sinaes
caracteristicos que se achaõ em cada individuo do [Página 11] reyno vegetal, ajuntando, semelhantes com semelhantes, e separando os
dessemelhantes. Desta reuniaõ de plantas ou especies conformes em caracteres
resultaõ os generos infimos, que reunidos de novo, do modo que depois
exporei em seu lugar Nota
Vej. A Quarta Parte deste Compendio.
Os systemas saõ com justo motivo considerados, como hum fio de Ariadnes no
immenso labyrintho vegetal; elles saõ hum grande soccorro da memoria, conduzem
ao conhecimento do nome da planta, e nos mostraõ se ella tem ou naõ sido
conhecida dos Botanicos que nos tem precedido. Os sinaes caracteristicos, que se
achaõ nas especies do reyno vegetal, saõ os meyos de que nelles se vale a
Botanica, como disse, para nos encaminhar a este conhecimento. Todos estes
sinaes saõ exprimidos por termos technicos, que reunidos formaõ o idioma
Botanico, cuja exposiçaõ he o principal objecto deste tractado. Antes de
Linneo os termos facultativos de Botanica, naõ tinhaõ huma accepçaõ taõ
determinada como hoje tem, elle a fixou em hum grande numero; e se bem que
alguns delles parecem ter ainda huma significaçaõ vaga e ambigua Nota
Eu
demonstrarei em outro tractado estas ambiguidades, e proporei as
definiçoẽs com que semelhantes termos se podem fixar.
A raiz he hum organo nutritivo apegado a terra Nota
As lentilhas d'agoa (lemna) naõ costumaõ estar apegadas a terra;
saõ fluctuantes, e as suas raizes encravadas n'agoa mudaõ a cada instante de
lugar. Em hum grande numero de algas naõ se sabe o que deve ter o nome
de raiz , nem pela forma nem pela estructura
interna, e semelhantes plantas tiraõ igual nutriçaõ por toda a
sua superficie. Algumas plantas parasitas (plantae parasiticae), taes como a
cuscuta, viscum, &c. naõ saõ apegadas a terra, ellas estaõ
aferradas a outros vegetaes, delles tiraõ a sua nutriçaõ, e ás
vezes os fazem morrer de marasmo. Em fim ha plantas que passaõ por ser destituidas inteiramente de raiz , sem embargo de estarem todas cobertas de
terra como a maçan de porco: a lemna arhira, que esta encostada
ao lume d'agoa, taõbem naõ tem raiz alguma. Nota
Nas raizes lenhosas ha
alburno da mesma sorte que no tronco, mas nas plantas herbaceas
annuaes, em que naõ ha aros concentricos, naõ se devisa alburno
algum, e o nome de lenho naõ me parece proprio das raizes que se corrompem
annualmente, em algumas o denominado lenho he verdadeiramente
huma substancia medullar.
As raizes em geral constaõ de
cuticula, casca, lenho, e medulla. Ordinariamente humas saõ mais
delgadas do que o tronco, outras saõ consideravelmente mais grossas. Humas e
outras podem ser consideradas, ou como simplices ou como compostas. Toda
a raiz simples (simplex), he indivisa e naõ lança
ramificaçoẽs algumas nos lados do seu troço; pelo contrario a composta
(composita) lança muitos ramos ao longo do seu troço: para disto se
poder formar clara idea, he precizo reconhecer no commum das plantas
duas sortes de troços continuados hum com outro, a saber, o troço
descendente e ascendente. O troço descendente das plantas (caudex descendens), em huma accepçaõ
extensa he qualquer raiz ; em hum sentido estricto, he a
parte mais grossa [Página 14] da raiz , a que alguns chamaõ taõbem o troço materno, do
qual nascem lateralmente ramos, que lançaõ varias radiculas Nota
Fibrillae, radiculae, taõbem se dá o nome de radicula á parte
inferior da plantula seminal, ou corculo quando começa a
germinar.
1º. A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:
Horizontal (horizontalis), quando se estende transversalmente ou corre quasi parallela com a superficie da terra (como a dos lirios e escalracho.)
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.
Perpendicular ou aprumada (perpendicularis), quando se encrava a prumo pela terra abaxo (a cenoira, e rabaõ.)
Obliqua (obliqua, inclinata), quando tem huma direcçaõ esguelhada, ou se encrava obliquamente ao horizonte ou superficie da terra (o cravo romano.)
[Página 15]2º. Quanto á sua divisaõ, e forma diz-se:
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.
Fibrosa (fibrosa, fibrata), quando consta somente de radiculas delgadas, e se diz capillar (capillacea, capillata, schirrata, comosa), se as radiculas saõ finissimas e bastas, como nas lentilhas d'agoa e alguns gramineos; filiforme (filamentosa, filiformis), se as dictas radiculas saõ como fios hum tanto grossos, como as da violetta e quejadilho. Alguns lhes daõ o nome de retiformes (retiformes), se ellas se enredaõ a maneira de rede.
Fusiforme (fusiformis), se he polposa, perpendicular, oblonga, adelgaçando pouco a pouco para a sua extremidade inferior, de modo que se assemelha a hum fuso (a cenoira e rabaõ). Turbinada (turbinata) quando he conica verticalmente, ou se assemelha a hum piaõ bailando (como alguns nabos).
Globosa (globosa), quando tem huma forma quasi espherica (ranunculus bulbosus). Pode ser tanto bolbosa como tuberosa.
Troncada (truncata, praemorsa), quando he simplez, e naõ termina em ponta, mas antes parece como retraçada ou cortada transversalmente (scabiosa succisa.)
Fasciculada (fascicularis, fasciculata), quando consta de partes carnudas, bolbosas, ou tuberosas approximadas, e adunadas na extremidade superior [Página 16] junto da base do tronco (orchis abortiva, ranunculus ficaria, paeonia). Alguns lhe chamaõ taõbem grumosa (grumosa), como sendo disposta por grumos quer sejaõ rentes quer dependurados, como nos ranunculos, anemones, e abrotea.
Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia). Todas estas raizes saõ bolbos bastardos.
Articulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata). Nodosa (nodosa), quando he carnuda e tem varias protuberancias (scrophularia nodosa). Alguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.
Escamosa (squamosa), quando he guarnecida de tunicas ou producções
escamosas quer estas sejaõ obtusas quer pontudas, ou imbricadas, ou
distantes, ou finas e membranosas , ou cascos da consistencia da raiz , e hum tanto succulentos (dentaria pentaphyllos). Nota
A raiz denteada (dentata), que se diz ordinariamente
ter producçoẽs pontudas, direitas, curtas, da consistencia da raiz , laxas e distantes, he huma verdadeira raiz escamosa, e a Oxalis acetosella que se dà
por exemplo, o demostra evidentemente: assim como as escamas
pontudas dos caules senaõ chamaõ dentes, do mesmo modo devem ser
as das raizes , e este he
o meyo de evitar termos desnecessarios.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata). Estes graõs saõ pequenos bolbos bastardos.
Entre as raizes herbaceas
ordinariamente mais grossas do que o tronco ha humas a que se deo o nome
de tuberosas, e a outras o de bolbosas. A raiz tuberosa (tuberosa) he a que consta de huma ou mais
tuberas (tubera); as tuberas saõ corpos carnudos, farinhosos, de varia
figura Nota
Ordinariamente saõ hum tanto globosas.
A raiz bolbosa (bulbosa) he a que Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao
lado dos antigos. Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ
dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum
tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos,
patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos,
aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto
fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so
merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da
natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos
nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de
muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas
bolbosas. Nota
Vej. as palayras bulbus e bulbosus no nosso Diccion. Nota
Nota
O termo caput significa taõbem nos escritos de alguns Botanicos a
cabeça ou golla da raiz , que he a parte extrema
superior que se acha hum pouco fora da terra, donde nascem as folhas radicaes, e
comeca o tronco; esta golla he assaz bem distincta no rabaõ, e
algumas outras raizes ;
porem em hum grande numero dellas naõ se distingue golla alguma,
e o ponto de separaçaõ entre o tronco e a raiz he
muito arbitrario.
3º. Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:
Annual (annua), quando perece com o seu tronco annualmente, devendo-se tanto ella como a sua especie propagar por meyo de sementes, tal he a do trigo, feijoeiro, &c. Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎. Biennal (biennis) quando vegeta no primeiro anno, no segundo o seu tronco fructifica, e ambos nelle [Página 20] perecem (tragopogon), ella he indicada com o sinal ♂. Vivace ou perennal (perennis), quando dura viva na terra mais de dois annos, lançando ou brotando de seus gomos troncos novos, como he a da hera terreste, a da violetta, &c.: he indicada pelo sinal ♃. Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .
O tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.
Os antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.
Em hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla. Quando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.
As especies de tronco saõ: caule, hastea, colmo, espique, e surculo Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os
peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ
para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ
flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus),
e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a
que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos
radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das
hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco;
so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou
especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser
inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda,
se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como
senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do
Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que
tem com o espique do bolor (mucor mucedo). Nota
O caule (caulis) he huma especie de tronco ordinariamente guarnecido de folhas Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo
postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas
nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da
definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de
Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta. Nota
A hastea (scapus) he huma especie de tronco herbaceo ou levantado ou
obliquo, e inteiramente [Página 22] desguarnecido de folhas Nota
A hastea pode terminar em huma ou muitas flores, em espigas,
racimos e paniculas, e por conseguinte ser ramosa. Lê-se nalgumas descripçoẽs de plantas herbaceas e levantadas:
caule sem folhas , ou nu
de folhas (caulis
aphyllus, s. nudus) hastea bifolia, hastea folhosa; mas estes
termos saõ ambiguos e improprios, porque no primeiro cazo o
tronco he huma hastea, e no segundo he hum caule. Pela mesma razaõ me parece taõbem ser desnecessario dizer: hastea
sem folhas (scapus
aphyllus). Ha plantas que podem ter duas sortes de troncos, isto he, caule e
hastea como a pilosella e morangueiro. Algumas especies de Osmunda tem hastea e espique ao mesmo tempo,
segundo alguns autores, mas como neste cazo a folha naõ fructifica, parece que se deve conservar o nome de peciolo
ao seu pé, dar o nome de hasteas aos pedunculos radicaes, e
chamar simplesmente pedunculos aos que nascem do espique muito
acima da superficie da terra.
O colmo (culmus) he huma especie de tronco proprio dos gramineos, e
plantas analogas a elles, como he o do trigo, caneira, junco, &c. em
humas plantas he occo, em outras esponjoso, ou geniculado ou sem nos,
com folhas ou sem ellas,
ramoso, ou simplicissimo, herbaceo ou arbustivo; em huma palavra, he
huma hastea ou caule a que os Botanicos quizeraõ dar o nome de colmo por
ser hum tronco dos grames, e plantas que lhes saõ naturalmente analogas Nota
Donde resulta que para naõ errarmos nas descripçoẽs que fizermos,
dando o nome de caule ou hastea a huma planta que tem colmo, he
precizo termos ideas claras dos caracteres principaes que
constituem a familia natural dos gramineos; ainda que naõ he
este o proprio lugar de fallar nesta materia, direi contudo de
passagem que os principaes caractéres desta familia consistem
nas folhas planas,
lineares, pontudas, flexiveis, em forma de fitta, compostas de
fibras parallelas, e ordinariamente envaginantes; os tegumentos
dos organos sexuaes, chamados casulos, saõ certas escamas
paleaceas denominadas valvulas, o calyx tem duas ordinariamente,
e raras vezes huma, tres ou mais; a corolla tem ordinariamente
duas valvulas, das quas a interior he menor, e raras vezes tem
huma so; o fructo he huma semente sem pericarpo
(excepto o esparto, segundo Linneo), e a sua substancia he
farinhosa.
O espique (stipes) he huma especie de tronco proprio dos fetos e fungos;
nos primeiros he semelhante a hum peciolo, e nos segundos a hum
pedunculo radical ou hastea Nota
Linneo da taõbem o nome de espique aos peciolos das folhas das palmeiras, mas
como ellos naõ elevaõ de modo algum a fructificaçaõ destes
vegetaes, alguns modernos naõ admittem nellas esta especie de
tronco, e conservaraõ o nome de peciolo aos seus pés, dando o
nome de caule simplez ao troço, que se eleva sobre a terra,
terminado no cume por folhas e fructificaçaõ em espadice.
O surculo (surculus) he huma especie de tronco proprio dos musgos, o seu troço he filiforme, guarnecido sempre de foliolos, ou de escamas persistentes e de varia forma; ás vezes he simplez, outras vezes ramoso, ora he reptante ou estirado ora levantado. Ha algumas especies de jungermannia, nas quaes o tronço he hum surculo, e nisto saõ verdadeiramente analogas aos musgos.
Toda a planta que tem tronco he denominada entronquecida (caulescens), e destronquecida (acaulis) senaõ tem tronco algum (carlina acaulis). Muitas [Página 24] vezes se da taõbem este ultimo nome às que tem hum tronco curtissimo, e quasi cozido com a terra
1º. O tronco em geral pode ser considerado segundo differentes relaçoẽs; quanto à sua duraçaõ e substancia diz-se ser:
Herbaceo (herbaceus), se naõ he lenhoso e perece annualmente (a chicoria, e o ranunculo).
Subarbusteo (suffruticosus), quando os seus ramos annualmente se seccaõ, e naõ tem gomos alguns athe a base, ou so a sua parte inferior junto della persiste viva, donde brota na primavera (a dulcamára, tomilho, gilbarbeira, salva, e alfazema). Este tronco he quasi lenhoso.
Arbusteo ou arbustivo (fruticosus), quando pertence a huma raiz lenhosa, da qual todos os annos brotaõ muitos
troncos, que senaõ secçaõ nem morrem annualmente nem se elevaõ a altura
das arvores ordinarias Nota
He difficil de dar huma boa definicaõ dos arbustos e arvores ,
nascendo isto de que a divisaõ das plantas lenhosas em arbustos
e arvores naõ he natural porquanto a naturera naõ poz limites entre elles,
mas taõ somente a opiniaõ do vulgo. Linneo diz que a unica destinçaõ que pode haver he de dar o nome
de arvores ás que tem gomos, e o de arbustos ás que os
naõ tem; a seguir este parecer, muitas arvores ficariaõ sendo
arbustos, e muitos arbustos seriaõ arvores , o que naõ tem
sido athe agora adoptado nas descripçoẽs botanicas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c. Quando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.
Compacto ou mociço (solidus), que naõ he tubuloso, nem consta de huma substancia porosa, encortiçada, e balofa, nem tem huma medulla esponjosa, mas antes mal se lhe pode divisar a medulla (o acipreste, e oliveira).
Esponjoso (inanis, s. spongiosus), quando consta de huma substancia balofa e esponjosa, ou tem huma larga medulla esponjosa (o milho e o sabugueiro).
Repleto (farctus), quando he compacto, ou esponjoso, de modo que se lhe naõ divisa tubo algum (o acipreste e sabugueiro).
Tubuloso (fistulosus, s. tubulosus), quando he occo como hum canudo (o phellandrium aquaticum, conium maculatum, e a cebola.)
2º Considerado quanto à sua medida diz-se ser:
De meya pollegada de alto (unguicularis, semiuncialis, s. unguem longus); de
huma pollegada de alto (uncialis, s. pollicaris); de pollegada e meya de
alto (sesquiuncialis); de maõ travessa de alto (palmaris, palmum longus); de
hum palmo (dodrantalis, dodrantem longus); de sette pollegadas (spithameus);
de hum pé (pedalis); de desasette pollegadas, ou de hum covado natural
(cubitalis); do comprimento de hum braço, ou de vinte o quatro [Página 26] pollegadas (brachialis); de huma braça, ou de seis pés (orgyalis). Quanto
á sua grossura diz-se ser: da grossura de hum cabello ou da duodecima parte
de huma linha (capillaris); de huma linha de diametro ou da duodecima parte
de huma pollegada (linearis); de duas, tres linhas, &c. de largo; de
meya pollegada, de huma pollegada de largo, &c. Todas estas medidas se
podem augmentar á proporçaõ da altura e grossura do tronco, dizendo-se por
ex. ser de trez, oito, vinte braças de alto, &c. Todas ellas se devem
entender na razaõ de pouco mais ou menos, vistoque as plantas
relativamente a ellas variaõ muito, segundo o terreno, clima, lugares
mais ou menos abrigados, &c. Nota
Alguns o denominaõ grosso, delgado, curto, muito alto, grande,
pequeno, comparando-o idealmente com as folhas e outras partes da planta; mas
estas ideas saõ vagas, a naõ declararmos juntamente a parte com
que o comparamos.
3º Quanto á direcçaõ he denominado:
Levantado (erectus, arrectus), quando he quasi perpendicular ao plano da terra, ou forma com elle quasi hum angulo recto (o verbasco): he o contrario de obliquo, postrado, e voluvel.
Direito (rectus, strictus), quando he impertigado, sem tortuosidades algumas, e forma com o plano da terra hum angulo recto (o junco, e o helianthus altissimus). He hum tronco perfeitamente levantado, e alem disso he opposto ao caule tortuoso, fraco, e a quaesquer outros que tem curvaturas.
Fraco (laxus, flaccidus, debilis), quando por ser delgado ou de flexivel contextura bambolea, e abana facilmente em varias direcçoẽs.
[Página 27]Rijo (rigidus), he firme, naõ bambolea facilmente, e tem huma tezidaõ hum tanto elastica de maneira que se o curvamos, se levanta immediatamente (algumas junças).
Obliquo ou esguelhado (obliquus), quando esta posto de esguelha, apartando-se quasi tanto do plano da terra, como da linha perpendicular ao dicto plano (lathyrus aphaca).
Remontante ou realçado (ascendens), quando sendo primeiramente obliquo, postrado, ou parallelo á terra se revira para cima em arco (vicia cracca, viola canina).
Reclinado (reclinatus, declinatus, inclinatus), quando levantando-se primeiramente hum tanto de es guelha começa a descahir para a terra, prolongando-se em arco, ou formando huma curva assaz aberta; mas a sua ponta fica levantada de maneira que figura quasi hum postrado 𝆗 (convolvulus tricolor, potentilla aurea).
Incurvado (incurvatus, inflexus), quando se levanta direito e arquea na parte superior (juncus inflexus).
Acenoso (nutans), quando tem a ponta dobrada para baxo, ou dependurada perpendicularmente (juncus filiformis).
Postrado ou estirado (procumbens), quando em rasaõ da sua fraqueza jaz deitado horizontalmente sobre a terra, sem contudo nella lançar raizes (o murriaõ, a parietaria lusitanica, a semprenoiva.)
Descahido (decumbens), quando primeiramente se eleva hum pouco, e depois cahe sobre a terra, onde alastra mais ou menos (o serpaõ).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).
Sarmentoso (sarmentosus), quando lança muitas varas nodosas (chamadas sarmentos), as quaes tocando na terra, ou corpos vizinhos, nelles arraigaõ pelas suas juntas (a videira, legacam, e clematis vitalba).
Reptante ou serpentante (reptans, repens) quando he postrado, longo, mais ou menos ramoso, e lança amiudo sobre a terra varias radiculas (a potentilla, e a lysimachia nummularia). Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c. A hera humas vezes he reptante, outras raigotosa; donde resulta que estes dois termos indicaõ a mesma coiza em differentes lugares.
Articulado (articulatus), quando tem juntas destribuidas de distancia em
distancia Nota
Este termo toma-se ás vezes taõbem por geniculado, mas o
melhor he applicalo somente aos caules que tem juntas sem serem
nodosas, e taõbem quando so dependem do tacto para se reconhecerem,
(como as do juncus articulatus, e cyperus articulatus). As juntas
saõ chamadas articulationes, articuli, juncturae, e quando, saõ
nodosas genicula, nodi. Linneo da ordinariamente o nome de articulus
ás entrejuntas, mas hum grande numero de Botanicos antigos e
modernos daõ a este termo a significaçaõ de junta.
Tortuoso (flexuosus), quando he ondeado ou como colombrino, formando nas juntas ou lugar dos gomos pontas angulosas, e alternadas ora para hum ora para outro lado (o legacam, e dulcamára).
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba). Quando elle chupa a substancia da planta em que se segura ou por meyo de suas radiculas, ou de qualquer modo que seja, daõ-lhe o nome de parasito (parasiticus) como he o da hera e cuscuta. Se elle se enrosca á roda dos corpos vizinhos, prolongando-se sempre espiralmente, daõ-lhe o nome de voluvel ou encaracolado (volubilis), e o dizem ser encaracollado á direita, (dextrorsum, s. contra motum solis) se a primeira rosca inferior começa pela banda direita, da direita para á esquerda ou do poente para o nascente (o feijoeiro, e a verdeselha); encaracollado à esquerda (sinistrorsum, s. secundum motum solis), se a sua primeira rosca segue huma direcçaõ contraria á precedente (o luparo, madresylva, e norça preta). Para podermos determinar estas direcçoẽs he precizo suppormo-nos estar dentro das roscas com a cara para o sul.
4º Quanto á figura diz-se ser:
Cylindrico ou roliço (teres, cylindricus), quando [Página 30] se assemelha a hum rolo, naõ tendo angulos alguns (a tulipa, e pinheiro); quasi cylindrico (subcylindricus), quando se approxima quasi á figura de hum rolo (allium molly); semicylindrico (semiteres) se he plano de huma banda e convexo da outra, ou como a metade de hum rolo partido longitudinalmente (allium ursinum).
Comprimido (compressus), se he hum tanto chato de duas bandas em todo o seu comprimento, ou parece como esmagado nos dois lados oppostos (poa compressa, potamogetum compressum).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).
Anguloso (angulatus), se tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos
angulos, diz-se ser triangular, quadrangular, de cinco, seis, ou muitos
angulos (tri- quadr- quinq- sex- mult- angularis Nota
Os termos de
trigonus - polygonus tem ordinariamente huma accepçaõ synonyma de
triangularis - multangularis; mas alguns botanicos usaõ dos
primeiros para significar angulos hum tanto embotados.
Segundo o numero dos lados planos que tem, diz-se ser: de tres, quatro, cinco lados, &c. [Página 31] (tri-quadri-quinqueter, &c. ou taõbem tri-quadri-quinquelaterus, &c.)
5º. Considerado quanto á sua superficie diz-se ser:
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.
Esfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.
Nû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias. Este termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem. Diz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .
Envaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).
Escamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).
Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).
Encortiçado (suberosus), quando a sua casca he branda, elastica, toda cortiça ou semelhante a ella na qualidade (o sobereiro, e passiflora suberosa).
Gretado (rimosus), quando tem no exterior da sua casca muitas gretas abertas irregularmente.
Entunicado (tunicatus), quando a sua casca he [Página 32] coberta de differentes membranas applicadas humas sobre outras.
Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).
Estriado ou riscado (striatus), quando tem longitudinalmente muitos riscos na superficie da sua casca; estas estrias saõ superfiçiaes, e mais ou menos distantes (genista tinctoria).
Regoado (sulcatus), quando tem longitudinalmente regos, ou riscos largos e profundos na sua casca (a milfolha, e aipo).
Glabro (glaber), quando a sua superficie naõ tem escabrosidades nem pelos
alguns, mas he liza ou polida (a abrotea, e cebolla alvarran) Nota
He a
mesma coiza que lizo, e nû de pelos e excrescencias.
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).
Echinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).
Cotanoso ou cotanilhoso (tomentosus) se a sua superficie esta coberta de hum cotaõ ordinariamente branco, finissimo, curtissimo, e de tal sorte tecido que os seus pelos mal se podem separadamente distinguir sem lente (a cineraria maritima).
Lanudo (lanatus), quando a sua superficie esta [Página 33] coberta de pelos longos, bastos, curvados, e tecidos huns com outros á maneira de huma tea de aranha, como visivelmente se conhece sem lente (na ballota lanata, e onopordum acanthium).
Peludo ou hirsuto (pilosus, hirsutus, s. hirtus) Nota
As differenças, que
se fazem ordinariamente destes tres termos, so servem de embarassar
os principiantes, e porisso os naõ distingui aqui.
Felpudo ou aveludado (villosus), quando tem pelos bastos, approximados, macios ao tacto, naõ entrelaçados, e assaz bem visiveis sem lente (o çumagre.)
Hispido (hispidus), quando he salpicado de sedas finas, hum tanto rijas, rectas, distantes mais ou menos entre si, e mui quebradiças (echium vulgare).
Ardentoso (urens), he hispido, mas as suas sedas saõ venenosas, e chamadas ferroẽs, em razaõ de que penetrando a pelle nua causaõ nella ardor e inflammaçaõ (a urtiga.)
Aculeado (aculeatus), quando tem aculeos, ou espinhos, bastardos, na sua casca (a sylva, e roseira).
Espinhoso ou abrolhoso (spinosus), quando lança do seu lenho abrolhos ou espinhos proprios (o pirliteiro, e o abrunheiro bravo).
[Página 34]Estipuloso (stipulatus), quando he guarnecido de estipulas (o martyrio, todas as especies de polygonum, e a maior parte das leguminosas.)
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).
Bolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).
6º. Quanto á sua composiçaõ ou divisaõ diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se prolonga athe á ponta quasi sem ramos, ou tem ramos rarissimos quer na parte superior quer nos lados (a açucena, e scabiosa succisa): simplicissimo (simplicissimus, integer), quando he inteiramente indiviso, prolongando-se sem ter absolutamente ramo algum (o alho, e paris quadrifolia).
O tronco he composto todas as vezes que merece de ter o nome de subramoso ou ramoso. O subramoso (subramosus), he hum tronco quasi simplez em razaõ de ter poucos ramos lateraes (as esporas, e aquilegia); o ramoso (ramosus), tem muitos ramos lateraes (a beccabunga, e sherardia arvensis). Diz-se ramosissimo (ramosissimus), quando tem ramos numerosissimos, subdivididos, e amontoados sem ordem (gallium saxatile, e thalictrum faetidum); se todo elle naõ parece outra coiza mais do que huma panicula, ou que todos os seus ramos formaõ huma [Página 35] panicula, daõ-lhe o nome de paniculado (paniculatus), como he o da saxifraga cotyledon.
Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).
Patente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto. (Este termo he muitas vezes usado em lugar do seguinte). Derramado ou diffuso (diffusus), quando se divide em muitos ramos que formaõ entre si angulos quasi rectos (a fumaria, e hesperis tristis.)
Copado (fastigiatus), quando os seus ramos saõ approximados ou empilhados, chegaõ a igual altura, e formaõ huma copa anivelada, e fechada como huma moita (santolina chamaeciparissus).
Açarilhado (brachiatus), quando tem ramos oppostos, e o par superior cruza o inferior, como os braços de hum çarilho (a mercurial).
Forquilhoso ou forqueado (dichotomus), quando se divide sempre em dois ramos, em forma de forcado (valeriana locusta). Alguns o denominaõ triramoso (trechotomus), quando se divide sempre em tres ramos (o cardo penteador, e a verbena mexicana). A divisura ou ponta angular das divisoẽs do tronco forquilhoso he chamada bifurcaçaõ ou forqueadura (bifurcatio, s. dichotomia).
Vergonteado (virgatus), quando he delgado, fraco, flexivel, e se prolonga lançando muitas varinhas [Página 36] bastas, desiguaes, e da sua mesma qualidade ou fraqueza (artemisia campestris).
Prolifero (prolifer), quando he, pelo assim dizer, pontaramudo, lançando
ramos verticillados so na ponta, os quaes
saõ taõbem proliferos (como o pinheiro, e scabiosa prolifera Nota
Nestes dois exemplos se vê que o tronco prolifero pode ser ou
lenhoso ou herbaceo; mas ordinariamente o termo prolifero sò se
applica aos troncos lenhosos que daõ muitos gomos nas
pontas.
Diz-se em fim ser disticado (distichus), se tem ramos disticados; e esteiado (fulcratus), quando se esteia em seus ramos ou tem ramos esteiados: estes termos seraõ melhor explicados no artigo seguinte.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Levantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos. Nascem da casca, e della lhes provêm os muitos vazos de que saõ compostas. Estes vazos saõ sufficientemente visiveis, e [Página 39] estaõ cobertos da epiderme, que he a continuaçaõ da epiderme da casca. As suas ramificacoẽs formaõ huma especie de rede, a que chamaõ tecido reticular (rete s. opus reticulare), cujas malhas saõ occupadas pelo tecido cellular ou parenchyma. Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.
As folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes. A parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex). Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus). E sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco. Os vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente. O mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro. Os veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes.
As folhas saõ consideradas naõ so
relativamente a estas circumstancias, mas ainda quanto à sua duraçaõ,
grandeza, situaçaõ, inserçaõ, direcçaõ, circumscripçaõ, sinuosidades,
angulos, lados, substancia, simplicidade, e compoziçaõ. A duraçaõ he o tempo em que ellas subsistem apegadas á planta. A grandeza consiste nas dimensoẽs de comprimento e largura, e he ou
absoluta ou relativa; a primeira consiste em huma medida determinada de
linhas, pollegadas, palmos, &c. e a segunda na extensaõ da sua
superficie comparada, com o comprimento dos seus peciolos, do tronco ou
das articulaçoẽs deste. Na insersaõ naõ so se considera o ponto de apego da folha ,
mas ainda o modo com que he apegada. A situaçaõ he o modo com que as folhas so achaõ dispostas no tronco da planta. A direcçaõ he a posiçaõ particular, em que se achaõ as folhas no tempo diurno
relativamente ao tronco, aos differentes polos da terra e sua
superficie, ou em fim, respectivamente á superficie d'agoa. Na circumscripçaõ considera-se a figura da folha circumscripta no disco, e he supposta inteira, precidindo-se dos
angulos, sinuosidades, margens e ponta. Nas sinuosidades suppoem-se a folha dividida no seu disco, e [Página 41] como tendo, partes nelle cortadas, ou na base, ou no topo, ou nos
lados, ou em qualquer parte que for. Os angulos saõ partes da folha mais ou menos prolongadas ou
prominentes, e se suppoem a folha inteira e em huma posiçaõ
horizontal. Os lados do modo com que os consideraõ os botanicos saõ os angulos
longitudinaes da folha , ou as esquinas que ella tem ao
comprido. Na substancia entende-se a polpa entre as superficies. A simplicidade da folha consiste em ser huma so em hum so
peciolo; considerada lateralmente as suas lacinias (laciniae) naõ chegaõ
a ser rasgadas athe á nervura dorsal do meyo para cima, e
ordinariamente o naõ saõ mesmo athe á base; naõ he articutada, e
considerando-a verticalmente, as suas lacinias naõ formaõ foliolos
perfeitos, nem he rasgada inteiramente athe ao cume do peciolo, mas taõ
somente athe certa distancia acima delle. Pelo contrario a composiçaõ da folha consiste em ter muitas
em hum so peciolo commum; he rasgada por conseguinte inteiramente athe
ao topo do peciolo, ou lateralmente athe á nervura dorsal ,
que nesta sorte de folhas he o
peciolo commum Nota
Nas folhas , a que Linneo
chama decursive-pinnata, a base da ala decursiva diminue, e se
estreita de tal modo, que deixa ver o peciolo commum descarnado,
ou quasi sem ala no porsto onde começaõ os foliolos inferiores,
no que se distinguem das pinnatifidas (a aroeira.)
Os antigos davaõ o nome de folhas ainda mesmo ás petalas das flores. Linneo fez huma destinçaõ entre folhas e frondes, e deo o nome de frondes (frondes) ás folhas dos fetos e plantas da
mesma ordem, ás folhas das
palmeiras, ás folhas aggregadas
de alguns aciprestes, e a algumas producçoẽs semelhantes a folhas , que se achaõ na ordem das
algas; mas naõ nos deixou huma definicaõ exacta em que se funde esta
differença Nota
Daqui procede que muitos Botanicos ainda hoje lhes chamaõ
geralmente folhas ; eu
penso que a querer fazer destinçaõ, o nome de fronde so compete
propriamente a huma folha , ou producçaõ anologa a
ella, que dá flores ou fructifica. O ruscus, muitos fetos, e
muitas algas nesta circumstancia teriaõ frondes bem caracterizadas.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Caulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
Innatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
Dispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Levantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Huma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Angulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Rhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Fendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Apalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Sinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Celheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Laceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
Obtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Troncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Nuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Viscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Cotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Concavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Bojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Aquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Dolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
[Página 73]1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Binadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
Bigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Trigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
O peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.
Algumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).
Contudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas . Peciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha. Peciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas. Peciolo commum (communis) he o que tem no topo ou nos lados muitos foliolos, ou muitos peciolos parciaes. Peciolo parcial (partialis) he o que nasce do peciolo commum; os peciolos parciaes às vezes saõ immediatos ao peciolo commum, outras vezes ramificaõse mais ou menos variamente; nesta circumstancia os ultimos saõ chamados immediatos, e os que medeaõ entre elles, e o peciolo commum tem o nome de mediatos.
O peciolo distingue-se facilmente do pedunculo Nota
He rarissimo que esta distinçaõ falhe, contudo na turnera, e
nalgumas especies de hibiscus, o pé da folha achase
confundido com o da flor. Elle eleva às vezes folhas que daõ flores, como se vê nas especies de
ruscus.
1º. Quanto á sua figura, diz-se ser:
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .
Alado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).
Aclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).
Roliço (teres) he cylindrico, ou semelhante a hum rolo: semiroliço (semiteres) he semicylindrico, ou semelhante à metade de hum rolo partido longitudinalmente.
Adelgaçado (attenuatus), quando se adelgaça ou he comprimido junto da ponta (populus tremula)
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.
Trigumeo (triquete) tem tres angulos ou gumes, e tres faces planas.
[Página 82]Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).
2º. Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:
Curto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.
Mediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.
Comprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .
Quanto á grandeza absoluta (vej. pag. 23, art. 2º)
3º. Considerado relativamente ao seu apego, diz-se ser:
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).
Innato (adnatus), tem a base larga, e se apega taõ fortemente ao tronco ou ramos, que parece confundir-se com a sua substancia; naõ se pode arrancar sem se espedaçar a casca do tronco, o que naõ succede nos peciolos inseridos.
Decursivo ou decurrente (decurrens), quando a sua base se prolonga sobre o tronco ou ramos, e corre por elles abaxo.
[Página 83]Amplexicaule ou abarcantes (amplexicaulis), quando abarca com a sua base o tronco ou ramos.
Appendiculado (appendiculatus), quando tem na base alguns appendiculos, orelhas, ou producçoẽs folheaceas (dipsacus pilosus).
Envaginante (vaginans), quando com a sua base reveste e cerca o tronco ou ramos a modo de bainha.
4º. Quanto á direcçaõ, diz-se ser:
Levantado (erectus, s. arrectus), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, chegando-se muito à poziçaõ perpendicular.
Patente (patens), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto.
Remontante (assurgens), quando ao sahir do tronco ou ramos he horizontal ou abaxa hum tanto, mas levanta-se depois com a ponta para cima, vindo assim a formar huma especie de arco.
Recurvado (recurvatus) he o contrario do precedente; ergue-se hum tanto em arco ao sahir do tronco, e se curva depois para baxo.
5º. Quanto á superficie, diz-se ser:
Nu (nudus) quando naõ tem pelos, nem glandulas, excrescencias, espinhos, nem sorte alguma de armas.
Glabro (glaber) se he nu, e a sua superficie he liza. Aculeado (aculeatus),
quando tem aculeos (a sylva, e roseiras). Espinescido (spinescens), se
tem espinhos muito raros e fracos, ou taõbem quando he rijo, endurecido,
e picante na ponta Nota
Nesta circumstancia so pode ter lugar nas folhas pinnuladas.
Articulado (articulatus), se tem huma ou mais articulaçoẽs.
As partes accessivas das plantas a que Linneo dá Nota
Sigo nesta divisaõ a sua Phil. Bot. n. 84, porque o mesmo Autor
no seu tractado dos termos Botanicos estendeo taõbem o nome de
esteios aos peciolos e pedunculos.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Nullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Intrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Rentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
Fêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Pelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Quando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
[Página 95]As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
Dizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
O pedunculo (pedunculus) he a parte do tronco ou ramos que serve de esteio á flor, e a que chamaõ vulgarmente o pé da flor. Elle tem huma intima analogia com os ramos, e lhe daõ por esse motivo muitas das suas denominaçoẽs.
Diz-se ser: commum (communis), quando sostem muitas flores ou se divide em pedunculos parciaes.
Parcial (partialis), quando nasce do pedunculo commum ramificado; subdivide-se as vezes ainda em outros menores, a que chamaõ pedicellos ou pedunculos immediatos (pedicelli).
1º. Os pedunculos considerados, quanto ao lugar a que estaõ apegados na planta, dizem-se ser:
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco). Estes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.
Caulinos (caulini), quando nascem do caule.
Rameos (ramei), se nascem dos ramos.
Peciolares (petiolares), se nascem dos peciolos (o hibiscus moscheutos, e algumas especies de turnera). [Página 97] Alguns daõ-lhes taõbem o nome de folheares (foliares) nesta mesma accepçaõ.
Gavinhosos (cirrhiferi, s. cirrhosi), quando lançaõ huma gavinha na ponta (vitis indica, cardiospermum). Alguns daõ-lhes taõbem este nome e o de voluveis, ou enroscados (volubiles), se elles se enroscaõ como huma gavinha.
Terminaes (terminales), quando se achaõ na ponta do tronco ou ramos (a tulipa, e o alfeneiro).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).
Contrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).
Lateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem). Alguns daõ contudo o nome de lateraes aos que nascem nos lados do tronco ou dos ramos, e os oppoem aos terminaes.
Unilateraes (unilaterales), se tem todos o seu ponto de apego em hum mesmo lado, seja qual for a sua direcçaõ: segundinos (secundi), quando estaõ todos inclinados para a mesma banda, ainda que o seu ponto de apego naõ seja exactamente no mesmo lado.
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).
Sobrefolheaceos (suprafoliacei, seu supini) Nota
O termo supinus usa-se taõbem em lugar de resupinatus.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.
2º Quanto á sua situaçaõ, dizem-se ser:
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas. Oppostos (oppositi), quando na mesma altura se acha hum defronte do outro.
Dispersos (sparsi), saõ raleados, copiosos, postos em distancias desiguaes nos lados do tronco ou ra mos, sem guardar ordem alguma.
Conglomerados (conglomerati), quando pertencem a huma panicula apertada; saõ dispostos sem ordem, mas approximados estreitamente (os amaranthos).
Conglobados (conglobati), quando formaõ huma especie de globo; as umbrellas da angelica e algumas flores capitozas tem pedunculos bem visivelmente conglobados. Alguns botanicos usaõ contudo deste termo em lugar de conglomerados.
Capitosos (capitati), se sostêm flores dispostas em cabeça, como os de alguns trevos.
Espigosos (spicati), se saõ dispostos em espiga.
Paniculados (panniculati), se saõ dispostos em panicula: thyrsosos (thyrsiflori), se saõ dispostos em thyrso.
Corymbosos (corymbosi), se saõ dispostos em corymbo.
[Página 99]Fasciculados ou copados (fasciculati, s. fastigiati), se saõ dispostos em fasciculo.
Racimosos (racemosi), se saõ dispostos em racimo.
Umbrellados (umbellati), se saõ dispostos em umbrella.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.
3º Quanto ao numero, o pedunculo diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se divide em rarissimos pedicellos; simplicissimo (simplicissimus) se he unifloro, naõ se dividindo em pedunculos alguns. Multifloro (multiflorus), se sostem muitas flores; unifloro, bifloro, trifloro, quadrifloro, &c se sostem huma, duas, tres, quatro flores, &c.
Composto ou ramoso (compositus, s. ramosus), quando se ramifica em muitos pedunculos parciaes.
Solitario (solitarius), se naõ tem outro ao seu lado no mesmo ponto de apego.
Dois a dois (gemini, geminati, bini), quando se achaõ dois no mesmo ponto de apego ou quasi ao lado hum de outro, e deste modo continuaõ nas mais partes do tronco ou ramos: neste mesmo sentido se dizem ser taõbem: tres a tres, quatro a quatro, &c. (terni, quaterni, &c.)
Numerosos (numerosi, multiplices), quando saõ em grande numero, ou sejaõ situados nas umbrellas e verticillos, ou ao longo dos ramos, receptaculos communs, &c.
4º Quanto a direcçaõ, dizem-se ser:
Encostados (appressi), quando em quasi todo o [Página 100] seu comprimento jazem encostados ao tronco ou ramos.
Levantados (erecti), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, estando muito pouco desviados delles.
Patentes (patentes), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto: horizontaes (horizontales), se formaõ hum angulo recto com o tronco ou ramos.
Coarctados (coarctati), quando se achaõ muitos juntos, approximados, e quasi parallelos.
Resupinados (resupinati), quando sostem flores, que tem corollas resupinadas.
Acenosos (cernui, nutantes), quando em razaõ da sua debilidade, e pezo da sua flor se survaõ na ponta virando esta ou para a terra ou para a ilharga (o gyrasol, o geum rivale, e carduus nutans).
Fracos (flaccidi), quando saõ taõ debeis que basta o pezo da sua flor para os fazer curvar ou ficar pendentes.
Pendentes ou verticaes (penduli, s. verticales), quando estaõ dependurados perpendicularmente para a terra (convallaria polygonatum).
Recurvados (recurvati), quando se elevaõ hum pouco, e depois se curvaõ para baxo.
Remontantes (ascendentes), saõ hum tanto arqueados perto da base, e depois se indireitaõ levantando a ponta para cima.
Irtos ou rectos (stricti), quando naõ tem tortuosidades nem curvatura alguma.
Tortuosos ou ondeados (flexuosi, s. undulati), [Página 101] quando tem tortuosidades ou dobras alternativas, á maneira de huma espada columbrina (aira flexuosa).
Requebrados (retrofracti), quando saõ quasi pendentes, e tem articulaçoẽs angulozas, parecendo como quebrados.
5º Quanto á sua medida relativa, saõ comparados com a flor, e se dizem: curtos, curtissimos, mediocres, compridos e compridissimos. Quanto à sua medida absoluta, veja-se pag. 25, art. 2º.
6º. Quanto á sua superficie e estructura, dizem-se:
Roliços (teretes), se saõ semelhantes na forma a hum rolo: trigumeos (triquetri), se tem tres gumes agudos: trigònos (trigoni), se tem tres gumes hum tanto embotados: quadrigumeos (quadriquetri), se tem quatro gumes afiados: tetragonos (tetragoni), se tem quatro gumes embotados.
Filiformes (filiformes), saõ delgados e de igual grossura, semelhantes a hum fio de linhas ordinario.
Adelgaçados (attenuati, s. acuminati), quando se adelgaçaõ, para a ponta.
Engrossados (incrassati), quando engrossaõ para a ponta ou junto do caliz da flor: se junto da flor engrossaõ á maneira de huma massa, dizem-se: aclavados (clavati).
Articulados (articulati), se tem huma junta ou ainda mais geniculados ou nodosos (geniculati), se as juntas saõ tumidas á maneira de nòs.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.
Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.
Nûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.
Alguns os denominaõ ainda: estereis (steriles); se sostem flores abortivas, que naõ daõ fructo: ferteis ou fecundos (fertiles), se estas daõ fructo.
A disposiçaõ das flores chamada por Linneo inflorescencia (inflorescencia), he o modo com que ellas saõ apegadas aos pedunculos ou a qualquer parte do tronco.
As flores em geral ou saõ rentes ou pedunculadas; as rentes (sessiles), saõ as que estaõ apegadas ao tronco ou a qualquer parte da planta, sem terem pedunculo algum; as pedunculadas (pedunculati), saõ estejadas em hum pedunculo.
A disposiçaõ das flores sendo analoga á dos pedunculos, conhece-se claramente que ellas devem [Página 103] participar de hum grande numero de denominaçoẽs em tudo semelhantes, como por ex. saõ as de terminaes, lateraes, unilateraes, segundinas, dispersas, solitarias, duas a duas, tres a tres, levantadas, patentes, horizontaes, verticaes, acenosas, &c. termos que ficão explicados no capitulo precedente. As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.
A flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c). Eu fallarei mais circumstanciadamente desta sorte de flores em outro lugar.
Aggregada Nota
Linneo estende o nome de flor aggregada ainda a muitas
outras, mas rigorosamente a flor aggregada he a sobredicta.
Espadicea ou enrocada (spadiceus), consta de muitos flosculos rentes ou pedunculados, nascidos de hum receptaculo commum oblongo, contido em huma espatha. Este receptaculo he chamado roca ou espadice (spadix); elle diz-se simplez (simplex) no pe de bezerro, em razaõ de se naõ ramificar, e ramoso [Página 104] (ramosus) nas palmeiras, por se dividir em alguns ramos.
Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan. O verticillo diz-se: rente (sessilis), se as flores que o formaõ naõ tem pedunculo; pedunculado (pedunculatus), se ellas saõ pedunculadas: involucrado (involucratus), se tem hum involucro: bracteado (bracteatus), se he acompanhado de alguma bractea: nu (nudas), se naõ tem involucro nem bractea alguma: basto (confertus), se os flosculos que o compoem estaõ, approximados densamente: raleado (distans), se os seus flosculos estaõ hum tanto distantes entre si: semicircular (dimidiatus), quando, os seus flosculos naõ formaõ á roda do tronco hum annel completo, mas somente metade delle.
Flor capitosa (capitatus), he a que representa huma especie de cabeça, ou que se acha conglomerada em cabeça (capitulum); esta consta de muitos flosculos densamente conchegados em huma forma mais ou menos globular. A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.
[Página 105]Flor espigosa (spicatus), consta de muitos flosculos dispostos em espiga. A
espiga (spica) he huma flor congregada, que consta de muitos flosculos
alternos rentes ou com curtissimos pedicellos levantados. Os seus flosculos
saõ apegados a hum receptaculo commum oblongo, chamado carolim ou carolo
(rachis), como se vê na tanchagem, cevada, trigo, milho, e muitos outros
grames. A flor casulosa (flos glumosus), he verdadeiramente huma especie de
flor espigosa propria das gramineas, e he assim denominado pela razaõ de ser
hum casulo o caliz commum ou particular dos seus flosculos. A espiga-diz se
ser: simplez (simplex), quando consta de flores solitarias, e o seu
receptaculo commum naõ se divide em pedunculos nem receptaculos menores, que
formem pequenas espigas, (a tanchagem). Composta (composita), quando o
receptaculo commum se divide e lança pequenas espiguettas (spiculae, s.
spicillae), como se vê no joyo. Conglomerada (glomerata), quando he composta
ou recomposta, e que as suas espiguettas estaõ muito apertadas e variamente
amontoadas (a alpista, e dactylis glomerata). Disticada (disticha), se os
seus flosculos ou espiguettas estaõ em dois renques oppostos (o bolebole).
Segundina (secunda), quando os seus flosculos estaõ apegados, e virados
todos para shuma so e mesma banda (nardus stricta). Ovada (ovata), se tem
huma figura ovada (o bolebole). Bojuda (ventricosa), se he tumida no meyo, e
estreita nas duas extremidades superior e inferior. Cylindrica (cylindrica),
se tem a forma roliça em todo o seu comprimento. Interrompida (interrupta),
quando o pedunculo commum ou receptaculo commum tem [Página 106] alternativamente alguns intervallos calvos de flosculos ou espiguettas (a
alfazema). Imbricada (imbricata), se os seus flosculos saõ imbricados
longitudinalmente Nota
Estes flosculos saõ ordinariamente segundinos ou unilateraes. Nota
As vezes o tronco naõ da mais do que huma so espiga e lhe chamaõ
por isso unispigado (monostachyus), quando porem produz muitas
espigas daõlhe o nome do multispigado (polystachyus).
Flor amentilhosa ou caudilhosa (flos amentaceus), consta de muitos flosculos dispostos em amentilho ou caudilho (amentum) o qual he huma particular especie de espiga simplez, que consta de flores rentes, [Página 107] ordinariamente unisexuaes, acompanhadas de escamas, e pegadas a hum carolim ou axe commum que lhes serve de receptaculo; taes saõ por ex. os que se observaõ na nogueira, ortiga romana, junça, tabûa, choupo, salgueiro, sabina, pinheiro, acypreste, castanheiro, aveleira, &c. Os amentilhos nascem ordinariamente de gomos e o seu carolim he filiforme; quando elles tem hum carolim grosso e escamas lenhosas, huma forma conica, e produzem somente flores femininas, daõ-lhes o nome de pinhas (coni, s. stobili), como no pinheiro e acypreste. O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.
Flor corymbosa (flos corymbosus), he diaposta em corymbo. O corymbo (corymbus), he huma disposiçaõ de flores aniveladas, os seus pedunculos tem differentes pontos de apego, elevaõ-se gradualmente quasi todos a mesma altura, formando angulos agudos entre si (a milfolha, achillea aggeratum, e chrysanthemum corymbosum). O corymbo he simplez (simplex), se os pedunculos naõ se dividem; composto (compositus), se elles se dividem em muitos outros menores.
Flores paniculadas (flores paniculati), saõ dispostas em panicula. A panicula (panicula), he huma ramificaçaõ vaga e dispersa, na qual os pedunculos [Página 108] communs, e parciaes saõ notavelmente mais compridos do que as flores e fructos (a caneira, o milho painço, e gypsophylla paniculata). A panicula diz-se: diffusa (diffusa), quando os seus pedunculos parciaes saõ esparralhados e divergem entre si; contrahida ou coarctada (coarctata), se os dictos pedunculos estaõ muito conchegados e quasi parallelos. Ella tem ainda muitas outras denominaçoõs, que se entendem facilmente e ficaõ ja explicadas principalmente no capitulo do tronco, e ramos.
Flores thyrsosas (flores thyrsosi, s. thyrsoidei), saõ dispostas em thyrso. O thyrso, ou ramilhete (thyrsus), he huma especie de panicula contrahida, de forma ovada e conica, que se assemelha muito bem aos nossos ramilhetes compridos (syringa vulgarìs, aesculus hippocastanum, tussilago petasites). O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.
Flores racimosas (flores racemosi), saõ disposta em racimo. O racimo ou cacho
(racemus), he huma disposiçaõ de flores com pedunculos curtos, penden tes, e
ordinariamente apegados a hum axe ou pedunculo commum (a videira, azereiro,
uva espim, sylva, groselheira, &c. O racimo diz-se ser: simplez
(simplex), se o ramo ou pedunculo commum sò tem pedunculos indivisos (o
azereiro, e phytolacca); composto (compositus), se os seus pedunculos,
parciaes saõ divididos (a videira, e sylva) Nota
Nos damos o nome de engaço a qualquer cacho depois de despojado
do seu fruto, e o de escadea a huma pequena porçaõ dos seus
pedunculos parciaes guarnecidos de frutos. Nota
O mesmo racimo pode ser levantado no tempo da
florecencia, e pendente no da frutescencia em razaõ do pezo dos seus
fructos como e vê v. g. no ribes petræum.
Flores fasciculadas (flores fasciculati), saõ dispostas em fasciculo. O fasciculo (fasciculus); he huma pilha de flores longas, levantadas, parallelas, approximadas, copadas ou elevadas á mesma altura, e de curtos pedunculos (dianthus barbatus, silene armeria).
[Página 110]Flores umbrelladas (flores umbellati), saõ dispostas em umbrella Nota
Fallo das flores umbrelladas em geral, e em toda a extensaõ do
termo; porquanto particularmente, as flores umbrelladas saõ as
das plantas que formaõ huma familia natural, que saõ dispostas
em umbrella, e tem huma coralla de cinco petalas, cinco estames,
o germe sottoposto á corolla, dois estyletes, e duas sementes
reunidas, como saõ as do coentro, e salsa. Nota
Os seus pedunculos saõ taõbem algumas vezes chamados rayos
(radii). Nota
Diz-se taõbem difforme, se nella se observaõ bolbos entre as
flores, como no allium pallasii.
Flores cymosas (flores cymosi), saõ dispostas em cymeira. A cymeira ou
umbrella bastarda (cyma, s. umbella spuria), he huma disposiçaõ de
flores, cujos pedunculos primarios nascem do mesmo centro, e depois se
ramificaõ irregularmente e sem ordem Nota
As ramificaçoẽs da cymeira, saõ quasi sempre dirigidas para à
banda do dicco, ou da parte interior.
A natureza segundo as leys, que lhe foraõ dadas, prezenta-nos todos os annos
nas flores hum extenso quadro summamente variado e agradavel. Se
exceptuamos os polos sempre gelados, os seus proximos [Página 113] climas, e os profundos mares Nota
No fundo do mar naõ ha planta
alguma perfeita, e só se achaõ algumas especies de fucus, e ulva que
saõ do numero dos mais imperfeitos vegetaes, que se
conhecem.Nota
Vej. Lin. Phil. Bot. art. 335.Nota
Horologium Florae.Nota
Vigiliæ
florum.
Daqui procedeo a origem de hum certo numero [Página 114] de termos, que se achaõ em suas obras dados ás flores, e igualmente às plantas, a que saõ relativas, os quaes se podem reduzir principalmente aos seguintes.
Flores de inverno (flores hybernales, s. brumales), saõ as que desabotoaõ ordinariamente durante o inverno. Algumas plantas cryptogamicas, e a rosa, de todos os mezes saõ deste numero, algumas dos paizes meridionaes da America, e Africa transplantadas na Europa taõbem florecem durante o inverno nas estufas.
Flores da primavera (vernales, s. verni), saõ as que desabotoaõ nos mezes desta estaçaõ; taes saõ por ex. as dos salgueiros, quejadilho, amendoeira, pereira, damasqueiro, narcizo, &c. As plantas, exoticas dos climas frios, e das montanhas transplantadas em nossos pardins ordinariamente taõbem florecem na primavera.
Flores do estio ou veraõ (aestivales, s. aestivi), saõ as que desabotoaõ durante o veraõ, como saõ por ex. as da althéa, malva, feijoeiro, saudade, milfolha, meloeiro, &c.
Flores do outono (autumnales), saõ as que desabotoaõ durante o outono, como v. g. o colchico. As plantas da America septemptrional, principalmente as que saõ vivazes transplantadas em nossos jardins taõbem florecem nesta estaçaõ.
As vigilias ou tempo de vela das flores contem o espaço que medea entre o seu
abrimento e a reclusaõ, quer seja durante o dia, quer de noyte; pelo
contrario o somno das flores (somnus florum), he o espaço que medea desde a
sua reclusaõ athe ao seu abrimento. O abrimento de huma flor (apertio
floris), [Página 115] he o ponto de tempo em que ella se abre Nota
Este termo tem huma significaçaõ mais extensa do que o de
desabotoamento (exgemmatio floris), porquanto todo o
desabotoamento he abrimento, mas nem todo o abrimento de huma
flor he desabotoamento; a primeira vez que huma flor abre do seu
botaõ, diz-se desabotoar ou ter desabotoamento, mas na segunda
vez, no segundo dias e mais vezes diz-se ter abrimento e naõ
desabotoamento.
Quanto ao tempo de vela ou de somno, as flores saõ denominadas diurnas ou
golares (diurni, s. solares) Nota
Alguns Botanicos comprehendem taõbem debaxo do termo solares as
flores nocturnas.
Flores meteoricas (meteorici), saõ as que naõ tem hora determinada de abrir-se, e de se fechar, porquanto o abrimento e reclusaõ saõ desordenados em razaõ da sombra, humidade, seccura, e maior ou menor pressaõ da atmosphera; o martyrio por ex que costuma abrir-se ao meyo dia em tempo claro, naõ se abre senaõ às tres horas quando o ceo està espessamente nublado.
Flores tropicas (tropici), saõ as que se abrem todos os dias constantemente de manhaan, e se fechaõ quasi [Página 116] ao sol posto, mas o tempo de vela he maior, ou menor á proporçaõ que os dias augmentaõ ou diminuem.
Flores equinoxiaes (aequinoctiales), saõ as que se abrem todos os dias em huma hora certa e determinada, e se fechaõ taõbem em huma hora certa, de modo que o seu tempo de vela he todos os dias igual ou quasi igual.
[Página 117]ASSIM como todos os animaes tendem naturalmente à sua reproducçaõ, da mesma sorte
os vegetaes á proporçaõ que crescem se encaminhaõ ao estado de fructificaçaõ, e
tanto que fructificaraõ, ou perecem dentro de breve tempo ou cessaõ de crescer
no lugar que deraõ o fructo, sendo-lhes precisos novos gomos para poderem
lateralmente prolongar-se. Donde se collige que a fructificaçaõ (fructificatio)
he huma parte transitoria em que termina o vegetal dentro de hum certo periodo
de tempo, destinada a dar principio a novos entes da sua espécie. Ella
consiste essensialmente na flor e fructo: a flor he hum a parte da
fructificaçaõ, que no seu estado completo e perfeito consta de organos
sexuaes envoltos em tegumentos; a sua essensia consiste em ter anthera ou estigma Nota
Em razaõ de comprehender ainda as flores cryptogamicas geralmente se
poderia melhor dizer: consiste em ter anthera , ou estigma, ou hum principio de semente .
O CALYZ e corolla saõ os tegumentos dos organos sexuaes, ou para me explicar segundo o modo de alguns sexualistas, o calyz he o thalamo nupcial das flores, e a corolla a rica armaçaõ delle. Cesalpino pensava que o calyz era hum prolongamento da casca e a corlla huma prodcçaõ do livrilho ou alburno.
As flores nem sempre saõ acompanhadas destes tegumentos; quando huma flor
tem calyz e corolla hé chamada completa (flos completus) e incompleta
(incompletus) se lhe falta algum dos dictos Nota
Alguns daõ taõbem o nome de perfeita (perfectus) á completa e o
de imperfeita (imperfectus) á incompleta; porem o melhor sera
reservar o nome de flor imperfeita para as cryptogamicas, e o de
perfeita para as das outras classes.
A natureza naõ poz limites certos entre o calyz e corolla, e daqui procede
que os Botanicos tem differentes opinioes relativamente á denominaçaõ destes
tegumentos; huns querem que o tegumento immediato aos organos sexuaes deva
ser chamado corolla em todas as circumstancias, e por conseguinte todas as
vezes que a flor tem hum so tegumento [Página 119] daõ-lhe o nome de corolla; outros seguem em parte este parecer, e em
parte a cor, á qual daõ a preferencia. Linneo vendo que algumas corollas
se tornaõ verdes, e alguns calyces saõ bastantemente corados,
estabeleceo a differença entre o calyz, e corolla na posiçaõ dos
estames, dizendo que estes nas flores descalycinas e muitas completas
saõ alternos com as petalas ou lacinias da corolla ficando situados
entre as suas aberturas, que nas descorolladas pelo contrario saõ
fronteiros aos foliolos ou segmentos do calyz, ficando encostados ou
postos defronte delles, como se pode observar no cardo penteador,
cerejeira brava, coentro, sabugueiro, consolda maior, alchemilla,
potamogeton, e muitas outras plantas das classes Terandria e Pentrandria Nota
Sem embargo destas condiçoẽs naõ deixa as vezes de haver
difficuldade na decisaõ do nome destes tegumentos, e Linneo o dà
a entender quando diz: calyz a naõ chamar-lhe corolla; corolla a
naõ charmar lhe calyz; corolla calycina; calyz acorollado: cujos
exemplos se vem no loireiro, garidella, commelina, monotropa,
tetragonia, &c.
O CALYZ (calyx), no maior numero de flores heo tegumento externo dos organos sexuaes, de cor verde ou menos corado do que a corolla (o jasmim, cravo, e goivo). Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.
Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva. Antigamente so o primeiro tinha o nome de calyz, e com effeito os mais mereciaõ antes ser chamados calyces bastardos (calyces spurii).
O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.) O perianthio pode ser taõbem contiguo a outro (como na malva), a huma corolla ou a muitas, como no gyrasol; quando elle recobre muitos flosculos, estes ou saõ rentes ou quasi rentes, Nas flores casulosas e amentilhosas o calyz ordinariamente naõ he circular; a estructura escamosa, paleacea e outras circumstancias relativas à sua forma poderaõ contribuir a destinguilo do perianthio. Os foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas . Nas flores compostas os foliolos saõ ordinariamente chamados escamas (squamae), principalmente se saõ imbricados, como nas perpetuas. Se na flor naõ ha perianthio, como na tulipa e açucena, daõ lhe o nome de nullo (nullum).
Diz-se: perianthio da fructificaçaõ (perianthium fructificationis), quando
contem ou enserra os estames e o germe; nesta circumstancia sempre esta
immediatamente sottoposto ao germe (a sylva, peonia, morangueiro, masva,
jasmineiro craveiro, faveira, &e.) Perianthio da flor (perianthium
floris), se em si contem os estames sem germe Nota
Este calyz tem o seu ponto de apego sobre o germe ou fructo
tenrinho, no cazo que o haja; os calyces das flores masculas
aindaque naõ saõ apegados ao topo do germe (porque o naõ ha),
devem contudo ser considerados como perianthios da flor, por
conterem estames e naõ germe algum, como saõ os da amoreira,
mercurial, amaranthos, &c. Nota
O calyz neste cazo esta sottoposto ao germe; às vezes ha huma
corolla sobreposta ou outro calyz sobreposto ao germe, o que naõ
tem lugar no cazo do perianthio da fructificaçaõ, em que o germe
naõ fica situado immediatamente debaxo da corolla, nem entre o
calyz e corolla, como succede no prezente; no perianthio da
fructificaçaõ os estames naõ estaõ apegados ao germe, mas sim ao
receptaculo que Sostem a base do germe, ou ao dicto perianthio,
ou a huma corolla ou nectario que naõ tem o ponto de apego no
germe. Ha flores que tem o periantio do fructo diverso do da flor como a
Linnæa e Morina, ha outras que tem perianthio do fructo e naõ da
flor, como as femininas da aveleira, poterium, &c, outras
tem perianthio da flor e naõ do fructo, como a murta, romeira,
pereira, sorveira, &c, ha outras emfim que naõ tem
perianthio algum, aindaque tenhaõ hum receptaculo da flor, como
v.g. a hippuris, orchideas, valeriana, aristolochia, &c. Vej. Linn. Meth, Calyc.
Perianthio superior ou sobreposto (superum), he o que se acha posto sobre o germe ou tenrinho fructo, como o da romeira, pereira, e outros muitos perianthios da flor.
Perianthio inferior ou sottoposto (inferum), he o que cinge a base do germe ou tenrinho fructo, como saõ os perianthios da fructificaçaõ e do fructo.
Commum (commune) Nota
As vezes das lhe taõbem o nome de composto ou universal
(compositum, s. universale). Segundo Linneo este calyz pode ser dobrado como se vê no
micropus.
Parcial ou particular (proprium, S. partiale), he [Página 122] relativo a hum flosculo contido em hum perianthio, commum, ou a
qualquer flosculo congregado, rente ou quasi rente (a saudade, e
gyrasol) Nota
Ordinariamente este termo so se applica aos calyculos das
flores compostas e aggregadas. O perianthio parcial pode segundo
Linneo conter mais de huma flor, como se vẽ no sphaerantus, e
elephanthopus.
Calyculado (auctum, s. calyculatum), quando tem na sua base huma serie de
escamas ou foliolos curtos, differentes delle, e que constituem quasi
hum segundo calyz menor ou calyculo (calyculus) Nota
Da-se taõbem o
nome de calyculos a alguns perianthios parciaes, como aos da
saudade, pela razaõ de serem pequenos ou menores do que o
commum.
Unico (unicum), quando a flor tem hum so, como v. g. o alecrim: simplez (simplex) he unico, naõ calyculado, nem dobrado nem triplicado (sida). Este termo parece ser synonymo do precedente; Linneo contudo deo-lhe mais extensa significaçaõ, e o applicou ainda para denotar hum calyz quasi inteiro, de foliolos naõ imbricados, quasi do mesmo comprimento, ou adunados na base, como o da tagetes, bellis, e o calyz interior da crepis.
Dobrado ou triplicado (duplex, geminum, triplex), quando Nota
Estes
calyces saõ ordinariamente differentes no numero, e forma de suas
partes; encontraõ se tanto nas flores simplez, como nas compostas e
aggregadas; as vezes estaõ dois approximados, ou apegados hum ao
outro debaxo do germe, ou no topo outras vezes saõ remotos, estando
hum na base outro no topo do germe, outras vezes emfim hum commum na
base, e dois no topo do germe, como se podem observar na malva,
althaea, craniolaria, morina, linnaea, scabiosa, caryophyllus,
&c.
Caduco (caducum), se cahe logo que a flor desabotoa, como o da papoila, e epimedium.
Decadente ou simulcadente (deciduum), se cahe juntamente com a corolla, como o da uva espim, mostarda, e outras flores da Tetradynamia.
Persistente (persistens) se persiste athe à madureza do fructo, como o da salva, alecrim, e outras flores da Didynamia.
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitas escamas ou foliolos destinetos na base (a alface). Monophyllo (monophyllum), quando he de huma so peça ou inteiriço na base, ainda que seja partido ou fendido (a salva, romeira, pereira, pimentaõ, &c.); de dois foliolos (diphyllum) na papoila, celidonia e fumaria; de tres foliolos (triphyllum), na tradescantia e ranunculus ficaria; de quatro foliolos (tetraphylhum) na couve, e goiveiro; de cinco (pentaphyllum), no linho; elle diz-se ser ainda de seis, sette, oito, nove, dez foliolos, &c. (hexa- hepta- octo- ennea- decaphyllum, &c.)
Fendido (fissum), se he monophyllo, e rasgado athe ao meyo pouco mais ou menos, e as sinuosi dades entre os segmentos saõ lineares ou de igual largura; segundo o numero das lacinas diz-se ser: multifendido (multifidum), fendido em duas, tres, quatro, cinco lacinias, &c. (bi-tri-quadri-quinquefidum, &c.); se as lacinias saõ curtas ou marginaes, daõ-lhes. o nome de dentes, e se diz por conseguinte denteado (dentatum s. ferratum); segundo o numero destas curtas lacinias diz-se ser: denteado de muitos dentes (multidentatum), de dois, tres, quatro, cinco dentes, &c. (bi-tri-quadri-quinquedentatum, &c.)
[Página 124]Partido (partitum), he monophyllo e dividido athe abaxo do meyo ou quasi athe à base; segundo o numero das lacinias diz-se ser; multipartido (multipartitum), bipartido (bipartitum), tripartido (tripartitum), quadripartido (quadripartitum), partido em cinco, seis lacinias, &c. (quinque-sexpartitum, &c.)
Inteiro (integrum), he monophyllo sem ser fendido, nem partido em lacinias algumas.
Celheado (ciliatum), se os seus foliolos ou lacinias saõ celheadas Nota
As celhas rigorosamente saõ os pelos ou sedas que se achaõ no
fio marginal; mas aqui os botanicos comprehendem taõbem o
disco.
Tubuloso (tubulosum), se he roliço e occo (a neveda e hortelaan).
Infunado (inflatum), quando he concavo, e parece soprado como huma bexiga (a herva traqueira).
Levantado (erectum), se os seus foliolos ou lacinias saõ levantadas (jasmim).
Patente (patens), quando as suas lacinias ou foliolos saõ abertos largamente, ou formaõ com o pedunculo hum angulo obtuso pouco desviado do angulo recto.
Reflexo (reflexum), quando a extremidade dos seus foliolos ou lacinias se curvaõ hum tanto para traz, ou para baxo.
Igual (aequale), quando os seus foliolos, lacinias ou dentes saõ iguaes: desigual (inaequale); se elles saõ desiguaes (cistus).
Curto (abbreviatum), se he mais curto do que a corolla, ou do que o seu tubo, ou unhas das petalas: comprido (longum), se he mais comprido do que ella.
[Página 125]Globoso (globosum), se tem a forma globosa (a perpetua e bardana); aclavado (clavatum), quando se prolonga engrossando pouco a pouco, e reprezenta a forma de huma massa (silene).
Troncado (truncatum), se ne sua parte superior parece como decotado: obtuso (obtusum), se os seus foliosos ou segmentos saõ obtusos; agudo (acutum), se elles saõ agudos; as vezes diz-se taõbem agudo ou obtuso na base.
Espinhoso (spinosum), se tem espinhos (a calcitrapa, e cardo sancto); aculeado (aculeatum), se tem aculeos (a bringela).
Imbricado (imbricatum), se consta de foliolos ou escamas imbricadas (o gyrasol, milfolha, e alface).
Esquarroso (sguarrosum), se tem foliolos ou escamas imbricadas, desviadas, e abertas entre si principalmente nas pontas (conyza squarrosa)
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).
Turbinado (turbinatum), se he verticalmente conico tendo a forma de hum piaõ bailando (moluccella)
Involucro (involucrum), he huma especie de calyz remoto da flor Nota
He
hum calyz bastardo, proprio naõ so das flores umbrelladas mas de
muitas outras; naõ se rasga ao alto como as espathas, e o estar mais
ou menos distante da flor contribue a fazelo distinguir das outras
especies de calyz; ordinariamente parece ser hum composto de
bracteas.
Diz-se ser; universal (universale), se esta situado na, base dos rayos de huma umbrella univeroal (a cenoira, bisnaga, e cardo, corredor): parcial (partiale), [Página 126] quando acompanha a base dos rayos de huma umbrella parcial (salsa, coentro, cerofolho); chamaõ-lhe: involucello (involucellum), ou pequeno involucro parcial, se tem poucos foliolos curtos, como nas euphorbias e buplevrum; proprio (proprium), se acompanha o pedunculo da flor de huma umbrella parcial, ou ainda o de huma so flor, como na pulsatilla.
Semicircular (dimidiatum), se acompanha somente metade do topo do pedunculo que sostem a umbrella, faltando na outra metade (o coentro, e aethusa).
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitos foliolos, como na canafrecha, e peucedarium; momophyllo (monophyllum), se consta de hum so foliolo, he inteiriço na base, e acompanha o pedunculo circularmente (a pulsatilla); de dois, tres, quatro, cinco, seis foliolos, &c. (di-tri-tetra-penta-hexaphyllum, etc.) como se ve nas euphorbias e umbrelladas.
Casulo (gluma), he huma especie de calyz Nota
O nome de casûlo he taõbem
dado a corolla das gramas; mas aqui so se deve entender o casulo
externo, porque do interno fallarei quando tractar da corolla.
Alguns para os distinguir chamaõ-lhes casulo calycino, casulo
corollino; talvez melhor fora dar somente ao calyz o nome de
casulo.
As escamas ou folhiços paleaceos, de que consta o casûlo, saõ chamados
valvulas (valvulae, s. valvae); ellas saõ de varia forma e estructura,
planas, concavas, aquilhadas, assoveladas, iguaes, desiguaes, &c. O
casûlo, em razaõ do numero das valvulas de que he composto, diz-se ser:
univalve (alvis), se [Página 127] consta de huma so (o joyo); bivalve,(bivalvis), se consta de duas (o
trigo e milho): trivalve (trivalvis), se consta de tres (o escalracho,
milhaan, e milho painço); multivalve (multivalvis), se consta, de muitas
valvulas ou mais de trez (a uniola, as maçarocas de milho Nota
Linneo chama folhas ás
valvulas destas maçarocas, mas a sua estructura, e modo de
envolver as fores me fazem decidir a consideralas como hum
casulo commum multivalve.
Unifloro (uniflora), se inclue somente hum flosculo como o milho painço, a alpista, e milho ordinario: biflora (biflora), se contem duas flores (a avea, e aira) trifloro (triflora), se contem tres flores (algumas especies de trago) multifloro (multiflora), se contem muitos flosculos, ou mais de tres (o joyo, e bolebole).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).
Glabro (glabra), se naõ tem pelos, nem celhas, nem sedas algumas: peludo, lanudo, felpudo, celheado e hispido, se as suas valvulas constaõ de producçoẽs proprias a merecer estas denominaçoẽs (vej. o § Do trichismo e hispidez).
Aristado (aristata), se as suas valvulas tem praganas (o trigo tremez): desaristado (mutica), se ellas saõ destituidas, de praganas (o escalracho, e milho).
A pragana (arista), he hum fio mais ou menos comprido, hum tanto rijo, e apegado a alguma das valvulas do casulo calycino ou corollino das gramas. Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).
Amentilho (amentum), segundo Linneo he hum calyz formado do receptaculo
commum ou carolim filiforme, guarnecido de escamas paleaceas, e originario
de hum gomo. Eu ja fallei do amentilho como huma especie de espiga Nota
O amentilho rigorosamente he huma especie de espiga simplez,
que consta de flores unisexuaes; o nome de calyz sò pode competir às
suas escamas, mas algumas vezes o amentilho he nu e sem escamas, e
neste cazo seremos obrigados a chamar calyz a hum receptaculo, o que
me parece assaz improprio, a naõ querer chamar amentilho somente às
escamas do gomo.
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).
He univalve ou monophylla (univalvis, s. monophylla), quando consta de huma so peça que se raaga de ilharga (o narcizo, e pe de bezerro): bivalve ou diphylla (bivalvis, s. diphylla), quando he rasgada em duas partes ou em dois foliolos (as palmeiras): Mediada (dimidiata), se he monophylla, aberta e concava, como a metade de hum ovo cortado ao [Página 129] alto, e guarnece a fructificaçaõ somente com a parte inferior: imbricada (imbricata), como nas bananeiras.
Trunfa (calyptra), he huma especie de calyz membranoso ,
acapellado, posto immediatamente sobre a fructificaçaõ dos musgos
chamada anthera, urna, ou capsula (o polytrichum, e bryum) Nota
Hedwigio e alguns outros Botanicos, que seguem que a corolla he o
tegumento immediato dos organos sexuaes, consideraõ a trunfa dos
musgos como huma corolla, e so daõ o nome de calyz ao
perichecio.
Volva (volva), he huma membrana que cobre os cogumelos e algumas outras plantas da familia dos fungos, susceptivel de ser lacerada. Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo. A volva incompleta he a que somente cobre parte do individuo; daõ-lhe taõbem o nome de veo (velum); observa-se na face superior e inferior do umbraculo dos cogumelos, e continua athe ao espique, ao qual humas vezes se afferra, outras vezes somente se encosta sem contudo se apegar a elle. Quando depois de rota fica rodeando o espique em forma de calça, daõ-lhe o nome [Página 130] de annel (annulus), como se ve no agaricus campestris). A volva incompleta e o annel parecem merecer mais propriamente o nome de casyz do que a completa, que tem ordinariamente huma grande analogia com as cascas das sementes.
A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe. O annel diz-se; remoto (remotus se fica distante do umbraculo no tempo que este abrio; approximado (approximatus), se no dicto tempo jaz conchegado ao umbrgeulo; caduco (caducas) se cahe logo que a volva incompleta se rompe; persistente (persistens), quando rota a volva persiste aferrado ao espique. Elle se diz ainda; amarello, alvadio, &c. segundo as suas differentes cores.
A corolla (corolla), he hum tegumento dos organos sexuaes da flor immediatamente contiguo a elles, e de ordinario mais corado e mais delicado [Página 131] do que o calyz; tal he por ex. a do jasmim, açucena, rosa, cravo, &c.
Quando a flor naõ tem corolla diz,se despetaleada ou descorollada, como já expuz, e nesta circumstancia a corolla he denominada nulla (nulla); como v. g. nas flores femininas dos carvalhos e aveleiras.
1º Quanto à divisaõ:
A corolla ou he de huma so pera e inteiriça na base, ou consta de duas ou
mais peças assaz destinctas na base; no primeiro cazo dizse: monopétala
(monopetala), e no pegundo petaleada ou polypétala (polypetala) Nota
Este
termo da-se taõbem ás corollas, que tem hum grande numero de petalas,
como as do golfaõ, cactus, &c.
Na corolla monopetala em geral podem se considerar duas partes, a superior chamada orla (limbus) e a inferior, pela qual ella se apega, denominada base (basis); esta parte inferior muitas vezes he cylindrica, e nesta circumstancia daõ-lhe o nome de tubo (tubus), como se vè no alecrim, jasmineiro e colchico. A orla humas vezes he inteira, outras vezes he fendida ou partida, e neste segundo cazo os segmentos saõ chamados lacinias (laciniae), como no jasmim, congossa, borragem, &c.
As peças ou foliolos còrados de que consta a corolla petaleada saõ chamados petalas (petala); em cada huma destas pode se em geral suppor duas partes, a superior larga, aberta e dilatada tem o nome de lamina (lamina), e a inferior estreita, e aguda [Página 132] na extremidade he chamada unha da petala (unguis) como saõ as que se vem nas petalas do cravo, goivo, &c.; as vezes a unha da petala he curtissima como nas rozas e rainunculos; outras vezes observa-selhes huma base larga, que mal merece o nome de unha, e porisso alguns lhes chamaõ petalas rentes (sessilia).
A corolla petaleada, segundo o numero das suas petalas, diz-se ser: de duas, trez, quatro, cinco, seis, sette, oito, nove, dez, ou muitas petalas (di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- octo- ennea- deca- polypetala.)
Na familia das gramineas a corolla, ou casulo corollino em lugar de petalas diz se ter valvulas (valvulae), que saõ certas escamas paleaceas, concavas, approximadas immediatamente ao germe, como se ve no trigo, e centeyo. Ordinariamente saõ duas, e as vezes persistem e ficaõ servindo de casca à semente, como se vè na cevada.
Fendida (fissa), quando he rasgada em lacinias athe ao meyo ou menos (o
quejadilho) Nota
Se he monopetala; na petaleada as petalas podem se
dizer fendidas ou partidas na mesma accepçaõ, que tem estes termos
relativamente as corollas monopetalas.
Partida (partita), quando he rasgada em lacinias athe abaxo do meyo ou quasi athe à base (a semprenoiva, e borragem); diz-se partida em muitas lacinias (multipartita), bipartida, tripartida, quadripartida, &c. (bi-tri-quadripartita, &c.).
[Página 133]2º. Quanto à direcaõ diz-se ser:
Levantada (erecta), quando tem as suas petalas, valvulas, ou lacinias levantadas, isto he, formando hum angulo agudissimo com o estylete supposto prosongado rectamente (o colchico, e cevada.)
Patente (patens), se as suas petalas, valvulas, ou lacinias formaõ hum angulo quasi recto com o estylete supposto prolongado no centro rectamente (a papoila); patentissima (patentissima), se ellas formaõ hum angulo recto com o estylete.
Plana (plana), quando as suas petalas ou lacinìas saõ planas, e nella naõ
ha tubo Nota
Quando ha tubo, este termo e o de patente devem ser applicados á
orla ou suas lacinias.
Concava (concava), quando tem a sua orla concava.
Recurvada (reflexa, recurva), as suas petalas ou lacinias tem a ponta curvada para traz ou para fora (o espargo); revolutosa (revoluta), he hum grao de mais, tem as petalas ou lacinias recurvadas, e quasi enroladas (algumas especies de lilium).
Incurvada (incurva, s. inflexa), as suas petalas ou lacinias tem as pontas curvadas para dentro, isto he, para a banda do centro da flor (o funcho).
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)
[Página 134]3º Quanto ao ponto de apego.
A corolla ou he apegada ao calyz (calyci inserta), como na roseira e romeira, ou ao receptaculo (recentaculo inserta), como na papoila, cravo e rainunculo.
Sottoposta ou inferior (infera), quando se acha posta debaxo do germe, como na açucena, e cebola: sobreposta ou superior (supera), se esta apegada á parte superior do germe, como no narcizo.
Innata ao calyz (calyci adnata), se està pela sua face inferior intimamente adunada ao calya (a abobara, pepino, e outras cucurbitaceas.)
4º. Quanto à superficie, e margem diz-se ser:
Lanuda (lanata), se tem lanugem (hyacinthus lanatus).
Felpuda (villosa), se tem felpa (menyanthes).
Barbuda ou hirsurta (barbata, s. hirsurta), como no, hypericum bacciferum.
Celheada (ciliata), na arruda, e chagueira.
Glabra (glabra), se naõ tem pelos alguns (narcizo).
Denticulada de dois, tres, quatro, cinco dentes, (bi-tri-quadri-quinquedentata), como saõ as corollulas das flores compostas, v. g. as da alface, bonina, macella, gyrasol, &c.
Crenada ou crenulada (crenata, s crenulata), se tem na margem crenas ou crenulas Nota
As crenas da corolla saõ
segundo a accepçaõ ordinaria as suas chanfraduras obtusas entre
as lacinulas marginaes; mas por evitar equivocaçoẽs he melhor
seguir o parecer de M. de la Mark, e de outros modernos que as
tomaõ por lacinias marginaes embotadas, para as destinguir dos
denticulos que saõ agudos.
4º Quanto à proporçaõ entre as suas partes, diz-se ser:
Igual (aequalis), quando as petalas, ou lacinias (se he monopetala), saõ todas de igual grandeza e tem todas a mesma figura, como saõ as cruciformes, roseira, pereira, jasmineiro, borragem, quepadilho, consolda maior, &c.
Desigual (inaequalis), quando as suas petalas ou lacinias (se he monopetala) tem todas a mesma figura, mas differem na grandeza, ou comprimento (o butomus, o epilobium angustifolium, e latifolium, e as corollas que se achaõ no rayo da umbrella do coentro.)
Regular (regularis), no sentido em que este termo se toma ordinariamente,
huma corolla regular he a mesma coiza que huma corolla igual Nota
Podéra-se contudo fazer huma distinçaõ entre a regular, e
igual, dizendo que na corolla regular as petalas ou lacinias tem
todas a mesma figura, quer sejaõ iguaes na grandeza quer desiguaes,
e deste modo huma corolla poderia ter petalas ou lacinias desiguaes,
e nem porisso deixar de ser regular, como o butomus, e epilobium
latifolium; todas as corollas iguaes seriaõ regulares mais nem todas
as regulares seriaõ iguaes; Alguns Botanicos admittem so duas sortes
de corollas, regulares e irregulares: elle suppoem hum axe ou arame
recto posto no centro, e prolongado desde a base ou apego da corolla
athe a extremidade das petalas, lacinias ou orla; se todos os cortes
transversaes, que se poderem fazer desde a base athe ao topo de
dicto axe, derem circularmente segmentos iguaes no comprimento ou se
a orla da corolla monopetala naõ for dimidiada nem claudicar de hum
lado, a corolla he regular e Irregular no sentido contrario;
partindo desta supposiçaõ poem no numero das corollas regulares a
afunilada, asalveada, cyathiforme campanulada, globosa, oval,
arrosetada, cravinosa, cruciforme, rosacea, e malvacea, e entre as
irregulares a labiada, borboleta, a das orchideas, as que tem
nectarios esporaûdos e acapellados, e as do Acanthus, Teucrium,
Ajuga, Echium, Aristolochia, &c.
Irregular (irregularis), se as suas petalas, labios, ou lacinias saõ de differente forma e juntamente de diversa grandeza (o geranium papilionaceum, o amor perfeito, aconito, salva, orchideas, labiadas, e leguminosas.
A corolla he taõbem comparada com o calyz, e na falta deste com o pistillo ou estames, e se diz ser: curta, mediocre, comprida, pequena, grande, &c; mas por evitar equivocaçoẽs, o melhor será declarar sempre as partes comparadas, e dizer v. g.: corolla mais comprida do que o calyz, igual ao calyz, mais curta do que o calyz, mais comprida do que os estames, &c.
5º. Quanto à forma a corolla diz-se ser:
Rodada ou arosettada (rotata), figura quasi huma roda ou rosetta de espora; he monopetala, sem tubo notavel, partida em lacinias planas, e muito abertas (a borragem, morriaõ, e verbasco).
Campanulada ou acampainhada (campanulata, seu campaniformis) he petaleada ou monopetala, bojuda, sem tubo, e assemelhada a huma campainha [Página 137] ou choca (a tulipa, verdeselha, campanula, e abobara.)
Afunilada (infundibuliformis), assemelha-se a hum funil; a sua orla tem huma forma turbinada, e termina em hum tubo (a ipomaea, a mirabilis, e herva sancta.)
Cyathiforme (cyathiformis), parece assemelharse a hum copo de calyz; tem hum tubo cylindrico, a orla concava e hum tanto dilatada; taes saõ segundo alguns Botanicos as corollas da buglossa, cerinthe consolda maior, cynoglossa, quejadilho, pulmonaria, &c; mas Linneo reduz estas sortes de corollas ào afuniladas, e às vezes às campanuladas.
Asalveada (hypocrateriformis), assemelha-se de algum modo às nossas antigas salvas de prata; he monopetala, tem hum tubo cylindrico, e a orla plana e muito aberta (o jasmim, e congossa).
Labiada (ringens,
rictiformis, labiata), he monopetala tubulosa, e tem a orla dividida em
dois labios Nota
As vezes tem hum sò labio, como no Acanthus, Teucrium
e Ajuga, e nesta circumstancia he chamada unilabiada
(unilabiata.)Nota
A fauce ou garganta da
corolla he taõbem propria do qualquer corolla tubulosa, ou he o
orificio de hum tubo mais ou menos longo. As vezes diz se ser:
aberta (nuda, aperta, pervia), se naõ tem escamas nem pelos (como na
pulmonaria); fechada (clausa, s. tecta), se he tapada com pelos ou
escamas (como na buglossa, e cynoglossa): coroada (coronata), se tem
alguns rayos, denticulos, ou corpusculos (como na borragem, e
symphytum.)Nota
O collo he proprio taõbem de muitas outras corollas, que naõ saõ labiadas ,
como por ex. da do quejadilho, congossa, &c. Nota
O palato parece sò ser
proprio das corollas mascarinas.Nota
O esporaõ acha se taõbem em outras especies de corollas
como se vè nas esporas, e ainda mesmo no calyz, como nas chagas:
algumas corollas em lugar de esporaõ tem huma especie de capello ou
sacco (cucullus, s. saccus), como a impatiens, e alguns generos das
orchideas.
Rosacea (rosacea), tem cinco petalas regulares concavas, com unhas curtissimas apegadas ao calyz (as roseiras bravas, pereira, e sylva).
Malvacea (malvacea), tem cinco petalas cordiformes com as unhas adunadas (a malva, althea, & outras malvaceas.)
Liliacea (liliacea), tem seis petalas regulares, como a tulipa, açucena, coroa imperial, e outras plantas liliaceas.
Cravinosa (carvophillata), tem cinco petalas regulares, unguiculadas, e as vezes apegadas junto da base (as cravinas, murujem, herva traqueira, &c.) O germe nas flores que tem esta corolla vem a ser huma capsula.
Cruciforme (cruciata, s. cruciformis), tem quatro petalas regulares, unguiculadas, com as laminas patentes, e dispostas em cruz (a couve, goiveiro, e nabo).
Papilionacea ou borboleta (papilionacea), foy assim chamada pela compararem a
huma borboleta voando, he irregular, e consta de quatro petalas
unguiculadas, a superior he chamada estendarte (vexillum e està mais ou
menos levantada, estendida, e encostada anteriormente às outras tres Nota
He raro que huma corolla borboleta tenha mais, ou menos de quatro
petalas; contudo na amorpha aeha,se somente o estendarde e na olaya a
navetta he de duas petalas, o que he rarissimo, porque quando muito em
outras leguminosas so he bifendida ou bipartida.
Gomilosa (urceolata), tem a forma oval ou quasi oval, de modo que se assemelha quasi a huma jarra ou gomil; he bojuda no meyo, e se estreita depois na parte superior e inferior (a basella, e hyacinthus muscari).
Globosa (globosa), tem huma forma quasi espherica (o lirio dos valles, e a escrophularia).
6º. Quanto à composiçaõ diz-se ser:
Simplez (simplea), se pertence a huma flor simplez. A flor simplez (flos simplex), he rigorosamente a que dentro de hum calyz naõ contem muitos flos culos (o meimendro, a salva, e o jasmim). Os floristas chamaõ flor simplez ou singella à que tem sò huma ordem de petalas, e a oppoem à dobrada e polypetala, mas os Botanicos so chamaõ flor simplez aquella, cujo calyz, corolla ou receptaculo naõ saõ communs a muitos flosculos, e Linneo a oppoem à flor composta, aggregada, umbrellada, cymosa, amentilhosa, casulosa, e espadicea.
Corolla composta (composita), he a totalidade das corolullas de muitos
flosculos contidos dentro, de hum perianthio commum, rentes, e com antheras adunadas Nota
Linneo assigna taõbem huma corolla composta às especies de
betula, aindaque os seus flosculos naõ tenhaõ antheras adunadas, mas o termo composta he pouco usado em botanica nesta
extensa accepçaõ.
Corolla universal (universalis), he a totalidade das corollulas de
muitos flosculos relativos a huma umbrella universal (o coentro, salsa,
canabraz, e canafrecha Nota
Linneo da taõbem adequadamente o nome de corolla universal à
totalidade de algumas flores aggregadas, como às da scabiosa,
globularia, &c.
Corolla propria ou parcial (propria, s. partialis), he a que merece propriamente o nome de corolla, e pertence a cada hum dos flosculos da corolla composta ou da universal: daõ-lhe taõbem o nome de corollula ou de pequena corolla (corollula), principalmente quando he relativa a huma corolla composta.
A corolla composta e a universal constaõ de disco e de rayo; o disco (discus), he todo o espaço que vay desde o rayo exclusivamente athe ao centro; o rayo (radius), na corolla composta, he a sua parte mais externa immediata aos foliolos, escamas, ou lacinias do perianthio commum; na corolla universal das umbrelladas o rayo he a ultima ordem dos flosculos, que se achaõ na circumferencia da umbrella universal (o gyrasol, bonina, perpetua, salsa, e coentro).
Corollula ligulosa, ou corolla propria aligulada (p. ligulata), he a que
pertence a hum flosculo da flor composta Nota
Tournefort chamava flosculo (flosculus) ao que Linneo chama
corollula tubulosa, e semiflosculo (semiflosculus) ao que elle
chama corollula ligulosa; a opiniaõ de Linneo parece me ser a
mais acertada, porquanto o nome de flosculo convem naõ so aos
semiflosculos de Tournefort, mais ainda a qualquer pequena flor
congregada em hum receptaculo commum.
Corollula tubulosa, ou corolla propria tubulosa (p. tubulata, s. tubulosa), tem na parte inferior hum tubo, e a sua orla he campanulada, e terminada em cinco denticulos ou cinco lacinulas; estas corollulas algumas vezes saõ afuniladas, e outras vezes as suas lacinulas saõ desiguaes. As corollulas tubulosas achaõ-se na maior parte das flores da classe Syngenesia, e se podem observar nas da macella gallega, losna, gyrasol e perpetua.
Corolla composta ligulosa (c. ligulata) Nota
Semiflosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta tubulosa (c. tubulosa, s. discoidea) Nota
Flosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta radiada (c. radiata), quando as corollulas do rayo saõ ligulosas, e as do disco tubulosas (o gyrasol e bonina). Esta sorte de corolla he irregular, ou difforme; o termo de difforme [Página 143] contudo da-se taõbem ás corollas compostas tubulosas da centaurea, por terem no rayo flosculos com corollulas de forma differente.
Corolla universal radiada (un. radiata), quando as petalas externas dos floculos do rayo da umbrella universal differem das internas, e das mais dos flosculos do disco, sendo mais alongadas (o coentro, e canabraz). Estas corollas saõ taõbem chamadas difformes (difformes).
Corolla composta uniforme (c. uniformis), os seus flosculos tem todos corollulas da mesma forma, e proporçaõ, sendo ou todas tubulosas, ou todas ligulosas (a macella gallega, e a alface).
Corolla universal uniforme (un. uniformis), todos os seus flosculos tanto do disco como do rayo tem petalas da mesma forma e proporçaõ (a salsa, e funcho).
7º Quanto à duraçaõ a corolla diz-se ser:
Murchosa (marcescens), quando se murcha, engilha, e fica depois da florecencia, durante algum tempo, apegada ao fructo (as campanulas, orchideas, e algumas cucurbitaceas.)
Caduca (cuduca), se cahe pouco tempo depois da flor ter desabotoado, ou antes dos estames cahirem e da fecundaçaõ estar completa (videira, actaea, thalictrum).
Decadente (decidua), se cahe juntamente com os organos sexuaes, ou logo depois da fecundaçaõ (a papoila, tulipa, e a maior parte das flores).
Persistente (persistens), se dura e acompanha o fructo athe à sua madureza (o golfam, e helleborus).
[Página 144]8º. Quanto à cor.
A cor das corollas he ordinariamente desprezada pelos Botanicos modernos Nota
O Lord Bute no seu tractado dos generos das plantas da Gr.
Bretanha, que hà pouco publicou, pertende que as flores saõ menos
sujeitas a variar do que Linneo pensava, e que na realidade ha
muitas que jamais variaõ, principalmente às brancas e amarellas de
certas especies. Com effeito alguns Botanicos sexualistas servem-se
destas duas cores para distribuirem as especies dos generos de
anthemis e achillea; e Linneo mesmo naõ põde evitar de empregar as
cores nos destinctivos especificos de algumas cryptogamicas, como
nos agaricos, lichens, &c.
N. B. As flores participaõ de hum grande numero de denominaçoẽs proprias
das corollas, sendo, ordinario achalas decriptas nos autores com os
nomes de flores Nota
As flores radiadas, ligulosas, e tubulosas saõ as
que tem a corolla composta radiada, ligulosa, tubulosa.Nota
Os nossos floristas daõ o nome de flores borboletas a algumas
especies de ranunculus, mas segundo os Botanicos este nome so
compete as que tem huma corolla papilionacea, como a fava, ervilha,
&c.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Pistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
O calyz e corolla de que tractei nos dois capitulos precedentes saõ meramente tegumentos, e ornato dosorganos essensiaes às flores, isto he, dos estames e pistillo. Os modernos persuadidos por experiencias repetidas de que estes delicados organos eraõ destinados aos amores das plantas consideraraõ huns como genitaes masculinos, e outros como femininos. Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido. Na situaçaõ mais natural os estames estaõ postos entre a corolla e o pistillo, como se observa bem claramente numa açucena. A sua origem he supposta em geral ser a mesma que a [Página 147] da corolla. Podem ser considerados ou como completos ou como incompletos; no maior numero de flores saõ completos, isto he, constaõ de duas partes differentes huma superior e outra inferior, a superior he chamada anthera e a inferior filête. O filete he ordinariamente semelhante a hum delgado fio, e serve de esteio à anthera, que he quasi sempre mais grossa do que elle. A anthera acha-se de ordinario na ponta do filete, às vezes contudo succede ser rente, (sessilis), e o filete nullo; nesta circumstancia o estame he incompleto, como se vè na aristolochia. Commumente os estames saõ ferteis (fertilia); mas nalgumas flores, os filetes naõ sostem anthera alguma, ou somente tem huma anthera enfezada, mal apparente, e que naõ medra; nesta circumstancia os estamẽs saõ denominados estereis ou castrados (sterilia, s. castrata), e saõ taõbem incompletos: semelhantes estames rarissimamente saõ contados pesos systematicos sexualistas na classificaçaõ das plantas, em que se observaõ.
Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
O pistillo (pistillum), he huma viscera na qual se acha o principio do novo fructo, e os organos destinados a receber a substancia que o deve fecundar. Os sexualistas suppoem nesta viscera os organos genitaes femininos, e a consideraõ composta de tres partes, a saber, de germe, estylete, e estigma, os quaes se podem ver bem claramente numa açucena. O germe (germen), he a parte inferior do pistillo ou o fructo recêm nascido antes de ser fecundado; contem o principio das sementes e os organos proprios para receber a sua fecundaçaõ e nutriçaõ; e na sua posiçaõ mais natural està situado no centro da flor, com à base apegada ao receptaculo da fructificaçaõ. O estylete (stylus), he a parte do pistillo que medea entre o estigma e o germe. O estigma (stigma), he a parte superior e extrema do pistillo. Os sexualistas reconhecendo huma grande analogia entre estas partes, e às dos animaes, compararaõ o estigma à tuba de Fallopio e vulva, o estylete a vagina, e o germe ao ovario; assegurando segundo as suas observaçoẽs que o estigma se acha sempre [Página 156] humido ou rociado em razaõ de huma lympha genital que nelle se separa.
O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Filiforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Concavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
[Página 163]O fructo (fructus), consiste em huma ou mais sementes fecundadas, e nutridas sobre o seu proprio receptaculo athe ao estado de plena madureza, quer sejaõ cobertas quer descobertas. Quando consta de sementes cobertas o fructo, e o vegetal que o dà saõ denominados angiospermos (angiospermi), e gymnospermos (gymnospermi) se as sementes saõ descobertas. No primeiro cazo o fructo tem alem das sementes hum pericarpo, e no segundo as sementes saõ nuas, e o pericarpo he nullo (pericarpium nallum). Mas definir o que he rigorosamente hum pericarpo, assignar regras para o reconhecer, e para o distinguir sempre dos tegumentos proprios das sementes, dizer quando elle he nullo, ou quando as sementes saõ nuas, naõ he taõ facil como ordinariamente o daõ a entender as obras elementares de Botanica. Todas estas circumstancias requerem hum grande numero de novas obserraçoẽs e talvez muitos seculos se passaraõ ainda sem que se conheca huma sabia theoria pela qual se reduzaõ todos os fructos a hum certo numero de classes bem caracterizadas, e com denominaçoẽs adequadas; tanto he difficil de reconhecer as leys da marcha variada, que a natureza segue por entre o immenso labyrintho dos entes!
Os antigos Gregos e Romanos, e depois delles as naçoẽs modernas deraõ ordinariamente aos fructos [Página 164] nomes differentes, ou o nome da planta que os produzia, sem cuidar de os reduzir a limites certos nem a generalidades, taes saõ por ex. os de azeitona, maçaan, pera, ameixa, marmello, pecego, amora, pepino, melaõ, milho, cevada, trigo, &c. &c. Este modo de nomear os fructos naõ podia agradar aos Botanicos pela razaõ de naõ ser definido nem generalizado, o por conseguinte improprio para poderem delle tirar notas fundamentaes de caracteres genericos; elles cuidaraõ pois de os reduzir a hum certo numero de nomes geraes, dividindo os primeiramente do modo que acima disse em fructos gymnospermos, e angiospermos, e subdividindo depois estes ultimos em hum pequeno numero de especies. Estas divisoẽs, e subdivisoẽs estaõ contudo ainda bem longe da perfeiçaõ que exige huma generalidade conforme à natureza dos fructos; ellas foraõ reformadas por Linneo, e na verdade de todas as theorias que temos a respeito dos fructos a deste sabio he a mais adequada às leys systematicas; como he hoje a mais geralmente seguida, cuidarei quanto me for possivel de me conformar com ella, e começarei pelos fructos angiospermos, ou que consistem em sementes cobertas.
O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Ha capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
Vagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
O numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
O receptaculo Nota
Al. Thalamus, s. placenta.
Diz-se receptaculo da fructificaçaõ (receptaculum fructificationis), quando o
germe e os tegumentos da flor estaõ apegados a elle, como na açucena, cravo,
&c. Receptaculo da flor (recept. floris), quando as partes da flor estaõ
apegadas a elle, e naõ o germe, ou quando ellas estaõ sobrepostas ao germe,
como na abobara, melaõ, murta, hippuris, &c. Receptaculo do fructo
(recept. fructûs), quando tem apegada a si a base do germe Nota
O
receptaculo neste cazo he a extremidade do pedunculo adunada à base
do germe ou do fructo.
Receptaculo proprio ou parcial (proprium, s. partiale), he o lugar, a que
estaõ apegadas somente as partes de hum flosculo relativo, a hum
receptaculo commum, como na saudade Nota
Segundo Linneo, o receptaculo parcial pode ser relativo naõ so a
huma, mas a muitas fructificaçoẽs parciaes, que se achaõ no
mesmo receptaculo commum, como o dos flosculos da oedera,
sphaeranthus, gundelia, straebe, &c.
Receptaculo commum (commune), he o lugar, a que estaõ apegados muitos flosculos, e seus fructos approximados, como o do gyrasol, saudade, echinops, &c.
O receptaculo quanto á sua superficie diz-se ser: ponteado (punctatum), quando esta salpicado de pontos ou cavidades minimas, e he ao mesmo tempo nû (o dente de leaõ, e chrysanthemum); alveolar (alveolatum, s. favosum), quando consta de cellulas ou grandes cavidades hum tanto semelhantes às dos favos de mel, e nellas tem encravadas as sementes (onorpordum); felpudo (villosum), quando he guarnecido de felpa (o absinthio); peludo (pilosum), se tem pelos (a açafroa); sedeûdo (setosum), se he guarnecido de sedas (a bardana e centaurea); palheaceo (paleaceum), se he guarnecido de palhiços (palea), estes saõ humas pequenas laminas lineares, que se achaõ postas entre os flosculos (como na milfolha, almeiraõ, macella, &c.); nû (nudum), quando nelle senaõ achaõ vellos, pelos, sedas nem palhiços alguns (como no dente de leaõ).
Quanto à figura o receptaculo diz-se ser: plano (planum), na milfolha; convexo (convexum), se he quasi semigloboso, como na chamomilla; conico, [Página 205] (conicum) (na bonina, e macella). Elle se diz taõbem ainda ser concavo, assovelado, &c. (concavum, subulatum, &c.)
A naturalidade ou estructura natural das flores (structura naturalis), he segundo Linneo a que se observa na maior parte dellas, e he opposta a estructura singularizada. As flores de huma estructura naturalissima tem o calyz, e corolla divididos em igual numero de lacinias (ordinariamente cinco); o seu calyz he menos aberto, exterior, menor do que a corolla, e involve o receptaculo, ao qual ella está innata; cada hum dos seus filetes he guarnecido na ponta de huma anthera, postos entre a corolla e o pistillo, levantados, e iguaes no comprimento ao pistillo, quando os tegumentos da flor saõ levantados. O pistillo está posto no centro, o germe tem no topo, hum ou mais estyletes levantados, e terminados por estigmas. Cahidos os organos sexuaes, o germe torna-se em hum pericarpo sostido pelo calyz. O receptaculo he acompanhado do calyz, e inferior ou sottoposto ao germe.
A estructura singularizada (structura singularis), he a que se observa em
muito poucos generos de flores, como he por ex. a do pé de bezerro, a da
salva, adoxa, eriocaulon, magnolia, &c. Nota
Taõbem se podem chamar
singularizadas as umbrellas bolbigeras de alguns alhos, as espigas do
polygonum viviparum, &c.
O sexo das flores he estabelecido nos organos da fructificaçaõ chamados
estames e pistillo. As flores, ou flosculos relativamente ao seu sexo, saõ
susceptiveis de quatro destinçoẽs principaes, a saber, de hermaphroditas,
masculas, femininas, e neutras. As flores hermaphroditas (hermaphroditi),
a que alguns chamaõ taõbem bissexuaes Nota
Por terem os dois sexos
dentro da corolla ou calyz, e saõ oppostas ás unisexuaes (ou
relativas) que dentro delles tem organos somente masculos, ou
somente femininos.Nota
Segundo os sexualistas o Autor da natureza
fez a maior parte das flores hermaphroditas por naõ poderem mudar de
lugar, e ir buscar o seu consorte; e se nas dioicas estaõ os sexos
separados, distaõ contudo muito pouco espaço.Nota
O Lord
Bute no seu excellente tractado dos Generos das plantas da Gr.
Bretanha, que imprimio para divertimento das Fidalgas de Inglaterra,
tractou de evitar como delicado cortezaõ os termos de
hermaphroditas, masculas e femininas, e em lugar delles substituio
os nomes de completadas, estaminosas e pistillosas.Nota
Em razaõ de terem este
principio de germe saõ chamados por Linneo flosculos femininos,
assim como o mesmo botanico deo o nome de mascula hermaphrodita á
huma flor hermaphrodita cujo pistillo he abortivo, e o de feminina,
hermaphrodita á for hermaphrodita, cujos estames abortaõ.
Alem das quatro denominaçoẽs mencionadas, Linneo deo ainda ás flores os
nomes das classes do seu systema sexual, e lhes chamou monandras,
diandras, triandras, tetrandras, pentandras, hexandras heptandras,
octandras, enneandras, decandras, dodecandras, icosandras, polyandras,
didynamicas, tetradynamicas, monadelphas, diadelphas, polyadelphas,
syngenésicas ou compostas, gynandras, monoicas ou androgynas, dioicas,
polygamas, e cryptogamicas Nota
Flores mon- di- tri- tetr- pent- hex-
hept- oct- enne- dec- dodec- icos- polyandii; di- tetradynamici;
mon-di- polyadelphi; syngenesii; gynandri; monoici, s. androgyni;
dioici; polygami, e cryptogamici. Taõbem ha flores endecandras
(endecandri) ou de onze estames, como as da brownea; todas estas
denominaçoẽs, como as da nota seguinte, saõ dadas naõ so as flores,
mas taõbem aos vegetaes que as produzem.Nota
Mono- di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- deca- dodeca-
polygyni.
Assim como entre os animaes nascem alguns com huma estructura differente em parte da ordinaria da sua especie, e que por isso lhes daõ o nome de monstros, do mesmo modo entre os vegetaes se encontraõ muitas vezes individuos, os quaes ainda que conservem parte da estructura, e habito externo da sua especie, se desviaõ contudo della em parte, principalmente na flor; e em razaõ disto os Botanicos lhes daõ igualmente o nome de monstros (monstra, seu plantae monstrosae).
Todas as flores viçadas e mutiladas (flores luxuriantes, et mutilati) saõ monstros. Nas primeiras os tegumentos dos organos sexuaes saõ de tal modo multiplicados, que as partes essensiaes da fructificaçaõ ficaõ mais ou menos destruidas; esta producçaõ por mais agradavel que pareça aos floristas, jardineiros, e a quaesquer pessoas em geral, he contudo considerada pelos botanicos como opposta a ordem natural, e como huma verdadeira degradaçaõ causada pela [Página 209] pela redundancia dos succos nutritivos. Nas mutiladas pelo contrario a falta de calor sufficiente e as doenças fazem faltar as partes, que alias costumaõ ter naturalmente sem que porisso outras augmentem.
Nas flores engrandecidas (flores grandificati, s. injuriantes) aindaque a corolla naõ degenera quanto ao numero das petalas ou lacinias, e postoque naõ falta, contudo como em razaõ dos succos abundantes vem a ser maior do que naturalmente devera ser, como se observa na galeopsis, prunella, Etc. semelhantes flores devem porisso ser contadas no numero das viçadas modicamente. No mesmo numero se devem taõbem contar as que tem hum calyz còrado fora do costume natural, como succede às vezes no quejadilho.
As flores, a que chamaõ verdadeiramente viçadas, saõ de tres sortes, a
saber, semidobradas, dobradas, e proliferas Nota
Os floristas dividem as flores somente em singellas e dobradas
desta ou daquella cor, e naõ ha para elles mais dvisoẽs em
Botanica.
A flor semidobrada (flos multiplicatus, s. semiplenus) he aquella, cuja
corolla tem mais ordens de petalas ou maior numero de lacinias do que
costuma ter naturalmente, conserva o pistillo e alguns estames, e dá algumas
sementes fecundas. O perianthio e involucro rarissimamente degeneraõ de
modo que cheguem a constituir huma flor semidobrada, e ainda que o calyz
contra o natural costume possa mudar de cor Nota
Nesta circumstancia o calyz pode fazer parecer a corolla
semidobrada, e porisso deve haver grande cuidado de o naõ
confundir com ella, nem por conseguinte dar erradamente à flor o
nome de emidobrada. Nota
Naõ deixaõ contudo de haver exemplos de calyces consideravelmente
viçados: as escamas do calyz dos cravos augmentaõ as vezes de
tal modo, que formaõ huma espiga de figura particular; na
festuca ovina, e algumas gramas das montanhas alpinas o casulo
das flores degenera em folhas ; na plantago maior a espiga degenera as vezes
em folhas floraes de tal
sorte que as flores ficaõ inteiramente suffocadas, o que succede
taõbem ás escamas do amentilho nalgumas especies de salgueiro,
quando os insectos estragaõ os organos sexuaes. Nota
Donde alguns lhe daõ o nome de flos duplicatus, triplicatus,
quadruplicatus, mas he melhor denominalas flores serie duplici,
triplici, quadruplici, multiplici, s. multiplicatâ. Nota
O viço das flores semidobradas he denominado semidobrêz, ou
multiplicaçaõ (multiplicatio, s. semimpletio); este viço pode ser
propagado por sementes, quando o terreno he cultivado ou
incompetente.
A flor dobrada (flos plenus) propriamente tal he aquella, cuja corolla dobra
de tal modo, que todos os estames ficaõ convertidos em petalas ou lacinias. O pistillo nestas flores ordinariamente ou he transformado assim como
os estames, ou apertado e suffocado de modo que fica esteril Nota
Quando o pistillo e os estames saõ transformados em petalas, a
flor he denominada eunucha (flos ennuchus); se o viço poupou o
pistillo, e hum ou dois estames, e se isso naõ obstante o fructo
fica inteiramente esteril, a flor deve ser contada no numero das
dobradas, e naõ das semidobradas.
A dobrêz (impletio), tem ordinariamente lugar nas flores petaleadas, como v. g. nas da maceira, pereira, pessegueiro, cerejeira, gingeira, amendoeira, romeira, murta, roseira, morangueiro, rainunculo, anemone, papoila, dormideira, craveiro, açucena peonia ou roza albardeira, tulipa, narcizo, jonquilho, violetta, chagas, goiveiro, malva, alcea ou malva da China, hesperis matronalis, hibiscus, caltha, anemone hepatica, aquilegia, nigella, agrostema coronaria, silene, lychnis, fritillaria, &c. Naõ deixaõ [Página 212] contudo de haver alguns exemplos de flores monopetalas sojeitas a dobrar como saõ por ex. as do jacintho, açafraõ, colchico, quejadilho, tuberosa, datura, &c.
As monopetalas dobraõ por meyo do augmento das lacinias, e as petaleadas pelo
augmento do numero das petalas, o qual se faz naõ so à custa dos organos
sexuaes mas ainda por meyo da transformaçaõ dos nectarios, como se vè nas
esporas, nigella, e aquilegia; a dobrez contudo desta ultima segundo se tem
observado pode ser de tres modos; 1º pela transformaçaõ total dos nectarios
em petalas; 2º pela transformaçaõ total das petalas em nectarios; 3º pela
dobrez dos nectarios, conservadas contudo as cinco petalas, e neste cazo os
espaços entre ellas ficaõ occupados cada hum por tres nectarios encravados
huns nos outros. No narcizo as vezes só os nectarios dobraõ, outras vezes
tanto dobraõ as petalas, como os nectarios. A saboeira de Inglaterra
(saponaria officinalis hybrida), os novelos ou rosa de Gueldres (viburnum
opulus globosum, s. roseum), e a peloria (antirrhinum linaria peloria),
subministraõ tres exemplos extraordinarios de dobrez. A primeira he huma
variedade da saboeira ordinaria com a corolla de cinco petalas
transformada em monopetala semelhante á da genciana Nota
Gerardo foy o primeiro que descobrio esta flor, Mortono contudo
assegura que ella ja senaõ acha em Inglaterra no lugar onde
Gerardo a encontrou; dizem que hoje so se da em alguns jardins
que naõ da sementes fecundas, e que so se conserva por meyo de
raizes. Nota
O Dr Gmelin observou contudo algumas cymeiras, em que os
flosculos do rayo naõ eraõ neutros, mas tinhaõ estames, e os
denominou por conseguinte masculos. Nota
Wiggers diz ter observado sementes fecundas nesta planta, e senaõ
houve engano, este facto favorece o parecer dos que pensaõ que
ella deve constituir hum genero á parte. Ha algumas flores femininas que muitas vezes naõ daõ sementes
fecundas, em razaõ de lhes faltar o individuo macho perto
dellas, como se observa nas palmeiras, figueiras, &c.;
semelhantes flores naõ devem porisso ser tidas por viçadas,
porque a sua esterilidade naõ provem de huma structura
viçada.
A semidobrez e a dobrez das flores pode ter lugar tanto nas que saõ simplez, como nas compostas. Huma flor simplez petaleada em estado de viço pode facilmente destinguir-se de huma polypetala natural pelo modo que ja expuz; ella se poderà taõbem destinguir de huma flor composta natural pela razaõ de ter somente o pistillo no centro ou naõ ter pistillo algum, como o rainunculo dobrado; nas flores compostas naturaes, como por ex. nas da alface e chicoria, cada flosculo tem o seu pistillo e estames.
As flores compostas, como ja expliquei fallando da corolla, ou saõ inteiramente ligulosas, ou inteiramente tubulosas, ou radiadas. Nas flores radiadas a dobrez pode ter lugar, 1º em razaõ dos flosculos tubulosos do disco tomarem a forma dos flosculos do rayo, como se ve nalgumas especies de gyrasol, cravo de defuncto, calendula, chrysanthemum, anthemis, matricaria, achillea ptarmica, centaurea cyanus, &c.; 2º quando conservados os flosculos do rayo, os do disco se alargaõ e alongaõ demasiadamente, e tem menos lacinias ou denticulos no seu orificio como se tem visto na serratula arvensis; 3º quando as coróllulas ligulosas do rayo se mudaõ em tubulosas, como se tem observado na bonina, matricaria, e cravo de defuncto. Nas flores compostas inteiramente tubulosas, como por ex. a macella gallega, he rarissimo haver dobrez, e quando existe, he semelhante á do 2º modo com que dobraõ as radiadas. Nas flores inteiramente ligulosas a dobrez so se conhece, e se distingue do estado natural pela razaõ de que os estigmas se alongaõ muito, os germes [Página 215] augmentaõ, saõ mais compridos do que o calyz e divergem, como se tem observado na escorcioneira, lapsana communis, e tragopogon pratense.
Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos. Tem se observado que se huma flor composta natural, como a bonina, cravo de defuncto, matricaria e chrysanthemum, tem no rayo flosculos com pistillos, os flosculos transformados do disco os conservaõ igualmente; mas se os do rayo naõ tem pistillos naõ os tem taõbem os flosculos viçados do disco, como acontece na dobrez do gyrasol, centaurea, e calendula.
Ha muitas familias de plantas que daõ constantemente flores sem dobrez
nem viço algum notavel, taes saõ por ex. as das ordens naturaes, a que
Linneo chama Inundadas e Holeraceas Nota
Inundatae, Holeraceae. Vej.
Lin. Meth. Nat. Fragm. Ord. 48. e 53.Nota
Verticillatae. Ibid. ord. nat. 58.Nota
Personatae. Ib. ord. nat. 59.
Deve-se contudo exceptuar a Linaria, na supposiçaõ de que a peloria
he huma variedade viçada desta planta.Nota
Asperifoliæ. Ib. ord. n. 43.Nota
Stellatæ. Ib. ord. n. 44.Nota
Umbellatae.
Ib. ord. nat. 22. Deve-se contudo exceptuar o viço das umbrellas
proliferas.Nota
Papilionacea. Ib. ord nat. 55.
A flor prolifera (flos prolifer), he a que lança de si outra flor ou
pequenas folhas ; ordinariamente
he dobrada; no primeiro cazo he denominada flor prolifera de flores
(prolifer floriferus), e no segundo flor prolifera de foliolos (prolifer
foliiferus). A prolificaçaõ de flores he de dois modos, ou
originaria do centro ou dos lados; na do centro o pistillo brota de si outra
flor para cima posta sobre hum pedunculo, e tem lugar algumas vezes nas
flores simplez, como nos cravos, ranunculus tuberosus, anemone hortensis,
geum urbanam, rosa gallica, &c; na dos lados, o calyz commum brota de si
muitas outras flores pedunculadas, e tem lugar nas flores compostas e
aggregadas, como na bonina, calendula officinalis, saudade, e no hieracium
falcatum proliferum de Gaspar Bauhino. As flores proliferas de foliolos
saõ raras, observaõ-se contudo algumas vezes nas rozeiras e anemones Nota
Na scrophularia aquatica algumas vezes os organos sexuaes saõ
transformados em fasciculos de foliolos e o mesmo se tem visto no
dipsacus sylvestris, &c. Ha fructos que taõbem saõ proliferos de
foliolos, como as peras, uvas, &c; elles ficaõ nesta
circumstancia sem sementes, por causa destas se terem convertido em
foliolos.
A prolificaçaõ (prolificatio) naõ so tem lugar nas flores, mas ainda nas umbrellas simplez e cymeiras, em razaõ destas brotarem de si outras contra o seu costume natural, do que temos exemplos no cornus suecica, selinum palustre, &c.
A flor mutilada (flos mutilatus), segundo Linneo Nota
Alguns estendem
a accepçaõ deste termo às flores, a que faltaõ quaesquer partes
que costumaõ ter naturalmente, sem porisso augmentarem em
outras; com effeito algumas vezes o numero dos estames e dos
estyletes diminue, e se tem visto flores aggregadas passarem a
ser simplez, quando o terreno he exsucco, e magro.
A Patria ou habitaçaõ das plantas (locus natalis, s. plantarum habitatio), he o lugar em que ellas costumaõ nascer sem soccorro algum de cultura, e he considerada pelos Botanicos debaxo das relaçoẽs de paiz, clima, sitio e terreno.
Pelo termo de paiz (regio) entendem imperios, reynos, provincias, e quaesquer destrictos proprios a certas especies de plantas.
Por clima (clima) os Botanicos entendem três sorte de dimensoẽs terrestres, a saber, latitude, longitude, e altura do lugar. A latitude he a distancia que vay desde o equador athe o polo artico ou antarctico, e comprehende noventa graos tanto da banda do norte como do Sul, o que faz a quarta parte do ambito da terra; e longitude he o ambito da terra, ou espaço de 360 graos, começando do meridiano da Ilha de Ferro athe ao mesmo ponto do dicto meridiano; a altura he a medida perpendicular que medea entre a superficie do mar e o cume de [Página 219] huma elevada montanha; ella se costuma calcular ordinariamente com o soccorro de hum barometro. A altura falha muito menos, do que a latitude e longitude, relativamente a reconhecer a semelhança das plantas, porquanto he bem notorio que muitos lugares que se achaõ na mesma latitude ou longitude daõ plantas inteiramente differentes, ao mesmo tempo que as das montanhas da Suissa, Lapponia, Brasil, Siberia, Pyreneos, Olympo, &c. saõ ordinariamente semelhantes.
Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.
1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs. Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .
2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.
3º. Austral (Australe), comprehende o espaço que vay desde a Ethyopia athe ao Cabo da Boa Esperança, e igualmente o reyno do Peru e grande parte do Brasil, aonde o calor he menos fervido do que no clima Indico. Como o estio deste clima tem lugar exactamente no tempo que corresponde ao nosso inverno, daqui procede que os vegetaes transplantados deste clima florecem na Europa ordinariamente perto do solsticio do inverno.
4º. Europeo meridional (Europaeum meridionale), comprehende Portugal, Hespanha, a França meridional, Italia, Hongria athe á Morêa, e o Archipe-lago. Alguns o dividem em clima do continente e insular, incluindo neste segundo as ilha Europeas do Mediterrano, nas quaes o calor he maior do que o da terra firme; outros ajuntaõ os climas da Syria, Media e Armenia, por acharem nelles as mesmas plantas que se daõ no clima meridional da Europa.
5º. Europeo septentrinal (Europaeum septentrionale), comprehende a Lapponia, Suecia, Dinamarca, Prussia, Allemanha, Suissa, Hollanda, Flandres, Inglaterra, e parte do norte da França.
6º Oriental (Orientale) comprehende o grande Continente da Asia septentrional, a Siberia e Tartaria desde os confins da Syria e Persia athe aos da China; as plantas deste clima florecem ordinariamente logo que a atmosphera começa a aquecer, como entre nos florecem as da primavera.
[Página 221]7º. Occidental (Occidentale) comprehende a America septentrional athe a Carolina, e igualmente o Iapaõ; as plantas deste clima florecem ordinariamente no outono.
8º. Alpino (Alpinum), he proprio das montanhas alpinas, que saõ as mais elevadas que ha no globo terrestre, cobertas de neve em varios lugares, aonde naõ ha primavera nem outono, mas sim hum longo inverno, e curto estio de dois mezes ou menos, como saõ os Alpes da Suissa, as Cordilheiras da America meridional, &c. As plantas deste clima nascem, florecem e fructificaõ dentro de pouco tempo.
O sitio (situs) he o lugar aonde costuma naturalmente nascer e nutrir-se qualquer planta, e he ou terrestre ou aquoso ou parasitico. As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.
1º Sitios aquosos.
O mar, ou agoa marina (mare, s. aqua marina) he hum fluido aquoso naturalmente impregnado de sal commum; as plantas que se dão n'agoa do mar ordinariamente saõ destituidas de raizes, nutrem-se pelas suas porosidades, e naõ supportaõ jamais frios rigorosos nem os gelos do inverno (como o fucus, e ulva); daõ-lhes o nome de plantas marinhas (pl. marinae).
[Página 222]As prayas, e costas maritimas (littora, littorale solum, loca maritima), saõ lugares immediatamente proximos ao mar, cobertos pelas marés, açoitados das ondas e dos ventos, mais ou menos arenosos e salgados. As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c. Estas plantas saõ por alguns botanicos denominadas maritimas (maritimae).
As fontes (fontes), saõ mananciaes de agoa doce Ha fontes de
agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas
que saõ de natureza semelhante á das
maritimas.Nota
Os rios (fluvii), saõ largas e prolongadas correntes de agoa doce e fresca; a terra banhada d'agoa dos rios (solum fluviale) dá taõbem algumas plantas particulares, como v. g. o potamogeton, ranunculus aquaticos, &c.
As ribeiras, margens dos rios e das lagoas (ripae), saõ lugares cobertos de agoa na estaçaõ do inverno, & descobertos no tempo do estio; nellas costumaõ dar-se a salicaria, o lycopus europaeus, a lysimachia vulgaris, &c.
Pégos, lagos limpos (lacus, lacustre solum), saõ lugares que contem agoa pura, e profunda; o seu fundo naõ he lodoso, mas tem huma certa firmeza ou solidez; daõ-se nelles a nymphaea, subularia, isoetes, &c.
[Página 223] Lagoas profundas, paûes, albofeiras Nota
Nos damos o nome de albofeiras (paludes maritimae), ás grandes
lagoas que saõ vizinhas do mar, e contem agoa salgada e doce
misturadas: em alguns lugares costumaõ abrir estas lagoas a fim
de desalagar os campos, e os aproveitar em pastos e searas.
Tanques, charcos, fossos (stagna, paludes, palustre solum), saõ pequenas lagoas baxas, limosas, lodosas, que se seccaõ inteiramente no estio; daõ-se nelles a tabûa, lirios, junças, &c.
Alagadiços (inuadata loca), saõ terrenos alagados pelas chuvas do inverno, & que se seccaõ no veraõ; daõ-se nelles o arroz, canna de assucar, tamargueira, &c.
Pantanos, bréjos, tremedaes (loca uliginosa), saõ terrenos balofos, ensopados d'agoa pôdre, que naõ daõ feno, nem saõ proprios para searas; daõ-se nelles a ulmaria, quejadilho, valeriana dioica, &c.
2º Sitios terrestres.
Montes, oiteiros (montes, colles, solum montanum, s. collinum), saõ lugares elevados, na parte superior lavados dos ventos, sabulosos, e seccos; daõ-se nelles a carlina, arnica, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.
Rochas, penhas (rupes, rupestre solum), saõ lugares alcantilados, pedregosos, e aridissimos; daõ-se nelles a cymbalaria, aloe, mesembryanthemum, sedum, &c.
Campos, campinas (campi, campestre solum), saõ lugares incultos descobertos, seccos, e hum tanto asperos; daõ-se nelles a bisnaga, bonina, e muitas outras plantas ordinariamente herbaceas.
Prados (prata, pratense solum), saõ terras baxas incultas, valles humidos cobertos de plantas herbaceas viçosas, e serrados para que nelles naõ entre o gado no estio; daõ-se nelles o ranunculus acris, o lotus corniculatus, scabiosa succisa, escorcioneiras, trevos, e outras muitas plantas, que constituem o copioso feno que nos paizes do norte da Europa cortaõ no estio, seccaõ, e recolhem para sustentar os gados no inverno.
Pastos (pascua), saõ campina abertas com plantas destinadas a nutrir os gados, hum tanto sabulosas, e menos ferteis do que os prados; daõ-se nelles a prunella, euphrasia, &c.
Searas (agri, segetes, agreste solum), saõ terras lavradas em que se semeão legumes e sementes, de que se costuma fazer paõ; daõ-se nellas as esporas, joyo, verdeselha, hervinha, &c.
Alqueives (arva, arvense solum), saõ terras lavradias, que se deixaõ descançar algum tempo; nas terras alqueivadas costumaõ dar-se o raphanus raphanistrum sinapis alba et arvensis, o murriaõ, algumas especies de macella, o abrolho, a agulha de pastor, &c.
[Página 225]Jardins, hortas (horti, culta, solum hortense), saõ terrenos muito estercados, cavados, regados, e cultivados todo o anno; daõ-se nelles as ortigas, murujem, amor de hortelaõ, &c.
Esterqueiras (fimeta), saõ os lugares em que se accumulaõ os excrementos dos gados, misturados com alguns estragos de vegetaes; daõ-se nelles as ortigas, o estramonio, asperugo, &c.
Bordas dos caminhos (versurae), vallados e seves (aggeres, sepes) saõ considerados como lugares estercados, e o mesmo saõ as bordas das cazas, dos muros, ruas, praças e mercados (ruderata, ruderale solum), as plantas proprias destes lugares saõ por ex. a poa annua, erysimum officinale, lolium perenne, almeiraõ, tanchagem, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.
Brenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.
Matto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.
Queimadas (ambusta), saõ os lugares, cujo matto foy destruido com fogo, a fim de os fertilizar com as cinzas dos vegetaes queimados, e de os dispor para pastos, ou searas.
3º Sitios parasiticos.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.
Por terreno (terra, solum), os botanicos entendem a natureza do chaõ proprio a qualquer planta, e o destinguem ordinariamente em quatro sortes, a saber, arêa, argilla, greda, e terra vegetosa.
A area (arena), he hum composto de pequenos graõs seccos, duros, quarzozos, e desadunados; ella varia quanto a grandeza dos seus graõs, como se vê na area das empulhetas, na das escrivaninhas, na das prayas, e na area grossa a que chamamos saibro. Ordinariamente acha-se misturada com alguma das outras terras, e he neste estado misto de terreno que nasce e vegeta bem hum grande numero de plantas, como a canneira, pinheiros, urzes, digital, serpaõ, tojo, espargo, herva turca, &c.
[Página 227]A argilla (argilla), he huma terra unctuosa e de grande tenacidade quando humedicida, susceptivel de endurecer consideravelmente, e naõ faz effervecencia com os acidos; acha-se sempre misturada mais ou menos com outras terras, e lhe damos algumas vezes o nome de piçarra. Quando ella se acha misturada com huma boa porçaõ de cré, daõ-lhe o nome de marga (marga), e neste estado costuma servir para fertilizar as terras. Os terrenos argillosos saõ favoraveis á vegetaçaõ de hum grande numero de plantas, taes como os papoilas, verbascos, bolsa de pastor, &c.
A greda ou cré (creta), he huma terra arida, que se acha nos oiteiros seccos e pouco fecundos; quando he para faz effervescencia com os acidos; suppoem-se ter a mesma origem, que as pedras calcareas; acha-se ordinariamente misturada com outras terras, e neste estado he conveniente á vegetaçaõ da verbena, esferro cavallo ou ferradurina, da reseda, e muitos outros vegetaes.
A terra vegetosa (humus), acha-se por toda a superficie do globo terrestre em
mais ou menos quantidade, e deve a sua origem á descomposiçaõ dos vegetaes e
animaes. E sua cor varia em razaõ das terras, com que se acha misturada,
parece contudo que a mais pura he a que tem huma cor denigrida. He
summamente fertil Nota
Kylbel he de opiniaõ que o principal alimento dos vegetaes
consiste nas particulas finissimas, e subtis da terra
vegetosa. ( Dissert sobre a causa da fertilidade das
terras. )Nota
Se nos tempos primitivos do globo terrestre cada hum dos vegetaes
teve o seu clima, sitio, e terreno proprio, a natureza parece
ter-se eximido deste habito pouco a pouco, porquanto vemos hoje
plantas, que se daõ igualmente bem por toda a parte.
Do que tenho exposto athe aqui sobre a habitaçaõ natural dos vegetaes se
collige claramente, que differindo ella segundo os diversos climas, sitios,
e terrenos, toda a habitaçaõ artificial deve imitar as suas diversidade o
mais que for possível. A habitaçaõ artificial, de que fallo aqui, saõ todos
os jardins botanicos, em que ha hum grande numero de plantas exoticas, ou
aquaticas naturaes do paiz e de terrenos particulares, e que porisso mesmo
requerem os soccorros da arte para se poderem conservar. Estes soccorros
consistem principalmense em que cada
canteiro ou alegrette do jardim naõ conste so de huma casta de terra mas
de muitas differentes, de maneira que cada planta tenha a terra que lhe
he propria. As que saõ naturaes dos bosques, e requerem sombra devem ser guarnecidas
de huma sombrella Nota
He hum vazo de barro, huma grande choca de lata, ou hum cesto
cylindrico de vime, abertos de ilharga, que servem para fazer
sombra ou para abrigar a planta dos ventos. Nota
Saõ campanas de vidro, ou pequenas guaritas envidraçadas, com as
quaes se costumaõ nos jardins cobrir as plantas indigenas dos
paizes quentes a Asia, Africa, e America. Nota
Naõ faço aqui mençaõ de muitas outras circumstancias relativas
aos jardins botanicos por me parecem menos proprias do presente
tractado, e demais disso ellas saõ hoje bastantemente conhecidas
em Portugal, o sabio Naturalista que tem a inspecçaõ do Jardim
Real do Palacio da Ajuda, e do da Universidade de Coimbra naõ
nos deixou nada que dezejar nesta materia.
O Habito de huma planta parece naõ ser outra coiza, no rigor do termo, senaõ
a sua estructura considerada externa, e internamente durante o tempo da sua
vida; estructura, por meyo da qual ella differe de todos os individos de
diverso genero, diversa especie ou variedade, e se conforma pelo contrario
com todos os que pertencem ao mesmo genero, especie ou variedade, a que ella
he relativa. Esta estructura considerada exteriormente he a configuraçaõ, e
face externa das partes da planta presentadas aos nossos sentidos, sem
estrago anatomico, sem soluçaõ de continuidade, nem descomposiçaõ chymica:
considerada internamente he a sua organizaçaõ e constituiçaõ, em que se
comprehendem as partes organicas e constitutivas, escondida a nossos
sentidos pela continuidade de superficie, e sò patenteadas por meyo de
estragos anatomicos, roturas, e descomposiçoẽs chymicas. Estes dous modos de
considerar a estructura de hum vegetal indicaõ, que o seu habito devera por
conseguinte ser dividido em externo e interno, estabelecendo-se o primeiro
sobre [Página 231] tudo o que diz respeito à estructura externa, e o segundo no que respeita
somente á interna. Mas os Botanicos naõ costumaõ fazer estas differenças,
nem seguir este rigor, elles fazem so mençaõ do habito externo (habitus,
s. facies externa), e huns entendem por elle toda a configuraçaõ
exterior que hum vegetal prezenta á primeira vista, ou toda a razaõ de
semelhança e dessemelhança que elle tem com outros nas suas partes, sem
exceptuar as da fructificaçaõ, outros daõ o nome de habito externo
somente ás razoẽs de affinidade ou desconformidade, que os vegetaes tem
entre si em hum certo numero de partes, comprehendem promiscuamente no
habito externo algumas relaçoẽs, que rigorosamente so pertencem Nota
Como saõ a succulentia e sabores. Nota
Linneo fallando do habito dos vegetaes naõ fez mençaõ alguma da
fructificaçaõ, e nos exemplos que deo do caracter habitual se vê
claramente tela excluído do habito externo dos vegetaes. Vej. Phil. Bot- num. 168.
TODOS os vegetaes que hoje existem saõ originarios ou de bolbos, ou de
gomos, ou de sementes; huns foraõ continuados Nota
As plantas dizem-se continuadas por qualquer sorte de raizes e ou
pelos gomos, e propagadas pelas sementes; pelo que hum bacelo ou arvore enxertada naõ he
rigorosamente huma nova planta, mas sim huma planta continuada,
do mesmo modo os bolbos caulinos, e as folhas , que cahindo por terra nella
brotaõ, continuaõ a sua especie e naõ a propagaõ; porque as
plantas verdadeiramente novas ou propagadas saõ as que naceraõ
de sementes. Nota
As sementes taõbem saõ semeadas artificialmente pelos homens como
he notorio, ou casualmente pelos animaes quando ellas se
apegaraõ aos seus pelos, ou depois de terem sido engolidas, mas
neste segundo cazo nem sempre conservaõ o seu principio vital,
potencial e germinativo, porque o calor do ventriculo, e
intestinos lhes destroe o dicto principio. As toupeiras, minhocas, porcos, coelhos, e outros animaes que
mechem, fossaõ, e cavaõ a terra contribuem taõbem por
casualidade a cobrir hum grande numero de semente. Nota
Miller distribue as semente quanto á
sua duraçaõ em tres clas-ses; na 1º poem as que germinaõ no outono,
ou logo depois da sua madureza; na segunda as que germinaõ no anno
seguinte; e na 3º as que se podem semear no segundo anno, ou mais
tarde. A differente duraçaõ ou conservaçaõ da virtude germinativa
das sementes depende de muitas circunstancias, como por ex. da sua
natureza mais ou menos oleosa, farinhosa, e resinosa, da solidez ou
da debil contextura da sua casca, da profundidade em que estaõ na
terra sepultadas e protegidas contra o calor, frio, humidade, estado
de fermentaçaõ, de fricçaõ, vermes, &c. &c. Ha algumas que
apenas estaõ maduras germinaõ logo ainda mesmo dentro das suas
capsulas, como as da avicennia tomentosa; ha outras que pouco tempo
depois que cahem da planta materna perdem a virtude germinativa,
como o caffé, e ha outras em fim que a conservaõ muitos annos tanto
na terra como fora della. Norbergio observou que as sementes da
herva sancta germinaõ, depois de estarem oito annos debaxo da terra:
Munchausio assegura, que as do chrysanthemum segetum se conservaraõ
debaixo da terra vinte annos ferteis, segundo Olmi as da malva
crispa conservaraõ a sua fertilidade prolifica desasette annos.
Brockio attesta que as dos goiveiros encarnados germinaraõ, passados
dez annos, e deraõ flores dobradas. Du Hamel diz que as de huma
especie de mimosa se conservaraõ ferteis vinte annos: segundo
Triewal (Philos. Transact. vol. XLII) as do melaõ germinaraõ depois
de 42 annos; e segundo Home as do centeio guardadas 140 annos naõ
perderaõ a sua fertilidade. Nestas assersoẽs poderá haver
exaggeraçaõ, mas ellas indicaõ ao menos que a virtude germinativa
pode conservar-se muitos annos nas sementes; e por meyo dellas se
poderaõ explicar as maravilhosas reproducçoẽs de algumas plantas,
cuja raça se julgava de todo extincta. Entre as sementes que mais
tempo podem conservar a sua vis germinativa as de algumas
cryptogamicas tem o primeiro lugar, porque podem durante algus
seculos resistir aos frios, e aos mais intensos calores sem a menor
alteraçaõ.Nota
Alguns physiologistas dizem que as sementes, ainda fora da
terra, e desde o tempo que se separaraõ da planta materna athe ao
momento primario da fermentaçaõ, naõ deixaõ de ter vida, mas isto so
se pode conceder tomando o termo vida em hum sentido extenso por
potencia intrinseca germinativa.
A disposiçaõ e forma das cotylédones no estado da germinaçaõ he chamada
cotyledonismo (placentacio, s. cotyledonismus); mas antes de tractar
desta disposiçaõ em particular he precizo advertir, que as sementes
humas saõ chamadas acotyledones (acotyledones), quando parecem constar
somente de corculo, por naõ serem nellas as cotyledones bem sensiveis,
como saõ as dos musgos Nota
Em todas as sementes ha cotyledones , ainda
mesmo nos musgos, segundo Meese, e Hedwig; mas como nestas e
outras sementes semelhantes as cotyledones naõ saõ
bem apparentes, e ou se consomem na terra sem jamais se verem,
ou precizaõ de hum microscopio para se poderem destinguir no
periodo da germinaçaõ, continuar-lhes-hemos a dar o nome de
acotyledones, conforme o uso de muitos Botanicos. Nota
Eu uso aqui deste termo na accepçaõ que lhe dá
Linneo; porque segundo alguns Botanicos modernos as polycotyledones
saõ todas dicotyledones divididas em lacinias. Adanson diz que as
sementes do pinheiro saõ dicotyledones com duas cotyledones partidas
em lacinias profundas, e que as do pinus cedrus tem seis lacinias, e
as do pinus strobus seis athe dez.Nota
O
Dr. Jussieu, e alguns outros Botanicos applicaõ estes termos naõ so
ás sementes, mas taõbem as plantas que daõ semente acotyledones,
monocotyledones, e dicotyledones; pelo que o polytrichum he
acotyledone, a cebola monocotyledone, e o feijoeiro e pinus
dicotyledone. Segundo o dicto Botanico as classes primitivas
naturaes, devem ser fundadas no numero das cotyledones . Linneo contudo naõ parece ser desta opiniaõ, porquanto diz que no
mesmo genero natural podem haver especies com sementes, que
diffiraõ no numero das cotyledones , como saõ
por ex. as especies de cactus e pinus .
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes. No trigo, cevada, e todas as mais gramineas a cotyledone he furada pela [Página 236] plumula e radicula (perforata), e igualmente o tegumento, o qual vem por fim a ficar sem cotyledone, occo e exsucco; ella he unilateral nas palmeiras (unilateralis) e reductosa (reducta), na cebola.
Nas sementes dicotyledones no estado de germinaçaõ as duas cotyledones
contribuem para a preparaçaõ dos succos nutritivos da plumula e
radicula, e ordinariamente passaõ depois a ser folhas seminaes bastardas Nota
Segundo Linneo (Philos. Botan. n. 136), cotyledones et folia
seminalia sunt synonyma in plantis; eu ja expuz o que pensava a
este respeito, quando tractei das sementes; esta assersaõ
applicada ás cotyledones de todas as semente dicotyledones
parece ser sujeita a algumas excepçoẽs, ainda mesmo no cazo que
lhes queiramos dar o nome de folhas seminaes bastardas; porquanto ha algumas que
em lugar de tomarem a apparencia de folhas saõ caduças, ou se engilhaõ
dentro de pouco tempo, como se vê nas das ervilhas, e nas de
algumas especies de feijaõ.
O principio de vida, por meyo do qual se conservaõ perennemente as especies
vegetaes, reside na sementes, nos gomos, e bolbos. Alguns physicos pensaõ
que estes tres meyos de que se serve a natureza para perpetuar a vida
dos vegetaes saõ essensialmente a mesma coiza, e lhes daõ o nome de
gomos seminaes, radicaes, e caulinos: elles observaõ que em alguns
alhos, e ainda em algumas plantas Cryptogamicas a a natureza no lugar
onde costuma produzir flores, dá bolbos ou gomos os quaes reproduzem as
especies taõ perfeitamente como as sementes, que nas axillas das folhas ou ramos, lugar proprio dos
gomos, se vem algumas vezes bolbos decadentes, os quaes cahindo [Página 238] na terra reproduzem a sua especie, como os bolbos radicaes
ordinarios; que a estructura dos bolbos radicaes he summamente analoga à
dos gomos caulinos; que os gomos radicaes das plantas vivaces, e os
bolbos ordinarios saõ de huma natureza identica; que nalgumas sementes
como v. g. nas das nymphaea nelumbo se vem antes da germinaçaõ algumas folhas perfeitas assim como
se observaõ nos gomos, e que se ha gomos floraes, ha do mesmo modo
taõbem bolbos floraes, como v. g. saõ os da tulipa Nota
Este bolbo com effeito contem no seu centro huma flor bem visivel
sem soccorro algum de lente; todas as vezes que no outono ou
inverno dessequei com cautella os seus cascos externos e
internos, sempre nelle observei bem destinctamente as petalas, antheras e pistillo da flor. Alguns asseguraõ
taõbem ter observado o mesmo em muitos outros bolbos, e ainda mesmo
nas raizes da anemone hepatica, e d'algumas especies de
pedicularis.
Os gomos (gemmae) Nota
Nos taõbem damos aos gomos o nome de olhos (oculi)
novedios, grelos, botoẽs, e borbulhas, mas o termo de gomo he o mais
proprio, e o mais geral; o termo olhos he ordinariamente so
applicado a vide; novedios e grelos parece-me que se devéram
reservar para os gomos das plantas herbaceas; botam, somente se deve
applicar aos gomos floraes, e a qualquer flor antes de desabotoar:
borbulha so se diz dos gomos dos enxertos, e na phrase enxertar de
borbulha: o vulgo costuma dar aos bagos da laranja e limaõ o nome de
gomos, mas basta ter humas leves noçoẽs de Botanica para conhecer
que isto he huma impropriedade, e corrupçaõ de termo.
Os gomos da mesma sorte que os bolbos saõ hum verdadeiro abrigo contra os
rigores do inverno ao [Página 240] embryaõ que envolvem, e porisso Linneo lhes chamou com propriedade
invernadoiros (hybernacula) Nota
Hebenstreit diz contudo que as sementes taõbem saõ invernadoiros,
porque as cotyledones e tegumentos abrigaõ a plantula nelles
reclusa durante hum ou mais invernos.
Os gomos dizem-se terminaes (terminales), quando se achaõ situados nas pontas do tronco ou ramos: ordinariamente saõ solitarios, contudo na syringa vulgares achaõ-se dois a dois, e no aesculus pavia tres a tres.
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .
Oppostos (oppositae), quando se achaõ dois no tronco ou ramos, fronteiros hum ao outro, e saõ ou peciolares (petiolares), como no buxo, medronheiro, freixo, loireiro, sabugueiro, madresylva, &c. ou estipulares (stipulares), como no rhamnus catharticus, e cephalanthus.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.
Nullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.
Folheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus. Estes gomos saõ mais agudos do que os seguintes.
Floraes (florales, s. floriferae) quando somente contem flores, como os do damasqueiro, pessagueiro, [Página 242] amendoeira, &c. Estes gomos saõ hum tanto obtusos, e verdadeiros botoẽs, elles contem ou flores femininas como na aveleira e carpe, ou masculas como no pinheiro e abeto, ou emfim flores hermaphroditas como no ulmeiro, amendoeira, pessegueiro, &c. Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)
Ha muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares. Hum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse. Os arbustos plantados em vazos, ou caxas daõ todos os annos gomos floraes e fructos, mas se os tiramos fora dellas, e os plantamos numa terra pingue, e á larga, naõ daraõ durante muito tempo senaõ gomos folheres; se os tornamos a metter em caxas ou vazos recomeçaraõ a dar, como dantes, gomos floraes e fructos. Hum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia. Sobre esta observaçaõ fundaraõ os antigos a cultura das videiras, podando-as e empando-as, porque por meyo da poda a empa se diminue a [Página 243] seiva, e se modera o seu movimento nimiamente accelerado, que aliás nutriria a planta em demasia, e lhe faria viçar todos ou quasi todos os seus gomos floraes, tornando-os em folheares.
A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Revolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Imbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Frondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
A petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
O tempo de vela das folhas (foliorum vigiliae), segundo os botanicos, he o espaço, diurno em que
ellas tem as suas folhas abertas, e o de sono pelo contrario he ordinariamente todo o espaço da
noyte. Este estado de sono das folhas (somnus foliorum), consiste em hum collapso ou mudança de posiçaõ, que [Página 247] ellas costumaõ ter durante o tempo de vela. Hum grande numero de plantas he susceptivel desta mudança nas suas folhas Nota
E igualmente nas suas flores, como ja disse; eu naõ fiz mençaõ
das differentes posiçoẽs, que constitue o sono das flores,
porque facilmente se podem entender pelas que exponho aqui
relativamente às folhas . Nota
A materia electrica da atmosphera em tempo de trovoadas basta
para fazer fechar as folhas e flores; isto he confirmado pelas
experiencias feitas na sensitiva, a qual sendo artificialmente
electrisada fecha as suas folhas do mesmo modo que no tempo de trovoada. Esta planta contudo, segundo se tem observado, abre ainda mesmo
numa perfeita obscuridade as sua folhas pela manhaan, e as fecha à
noyte.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.
1º As simplez saõ denominadas:
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).
Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)
Folhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)
Folhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)
2º. As compostas saõ denominadas:
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)
Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)
Folhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)
Folhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)
Folhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).
Folhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).
[Página 250]Por intorsaõ (intorsio, s. torsio) os Botanicos entendem as curvaturas, reviramentos, ou enroscamentos das partes dos vegetaes, e a denominaõ uniforme (conformis), se as dictas partes se curvaõ ou enrolaõ todas para a mesma banda, e difforme (difformis), se nem todas se curvaõ, ou quando se enrolaõ e curvaõ para differentes lados indeterminadamente.
Huma das principaes especies de intorsaõ he a volubilidade, ou enroscamento dos troncos e gavinhas, ora para a direita, ora para a esquerda, como ra expuz em seu lugar.
A intorsaõ pode ter taõbem lugar nas flores Nota
O torcimento das
corollas deve ser observado no estado da flor fechada, ou no periodo
em que a flor começa a desabotoar.
Pode taõbem haver intorsaõ nos pistillos, como se vê na silene, cucubalus, spiraea ulmaria, e helicteres.
As espigas das plantas asperifolias, taes como a [Página 251] cynoglossa, heliotropium, myosotis, echium, &c. tem todas huma intorsaõ espiral na sua extremidade, em forma de voluta.
As fibras da base das praganas da avena, e stipa, as da cauda das capsulas do geranium, e das valvulas da capsula da impatiens, &c costumaõ formar longitudinalmente hum intorsaõ espiral semelhante á de hum fio torcido.
Debaxo dos nomes de glandulaçaõ, e escabrosidade (glandulatio, scabrities) os Botanicos comprehendem as excrescencias destinadas as secreçoẽs dos vegetaes, e muitas producçoẽs que fazem a sua superficie aspera, escabrosa. Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.
As glandulas (glandulae), segundo toda a extensaõ do termo, saõ qualquer excrescencia
ou porosidade superficial, que serve a alguma secreçaõ; mas huma
accepçaõ restricta, as glandulas saõ pequenas excrescencias
ordinariamente globulares, que se achaõ na superficie das plantas, e saõ
destinadas a filtrar e preparar os succos proprios da especie, a que [Página 252] pertencem; algumas saõ guarnecida de pelos, outras naõ tem pelos
alguns; humas saõ assaz viziveis à vista simplez, outras precizaõ de
lente para bem se destinguirem. As que naõ precizaõ de lente saõ as mais proprias para notas
caracteristicas; daõ se nos peciolos das folhas como no martyrio, nas serraturas, ou
dente das folhas serreadas como
no salgueiro e amendoeira, nas antheras como na adenanthera, junto da bas dose estames como no goivo e couve, por toda a flor e
por todo o corpo da planta (menos na raiz ), como na
fraxinella Nota
Quanto à forma, e outras circumstancias relativas as
glandulas, Vej. o Cap. dos Gland da Prim. Parte deste
Comp.
Verrugas (verrucae), saõ glandulas grossas e hum tanto chatas ou
concavas, com as que se vem nos peciolos das folhas do noveleiro, e ricinus Nota
Taõbem se da o nome verrugas a certos tuberculos ou receptaculos de algumas especies de
lichen.
Callos (calli) saõ pequenas glandulas, pontos, ou globulos duros, contudo algumas vezes este termo he usado taõbem para significar a mesma coiza que cicatrizes ou fossulas superficiaes (pedicularis palustris, protea hirta, obliqua, &c.)
Pontos (puncta), saõ salpicos minimos glandulosos, taes como os que se vem nas flores da fraxinella. Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.
Graõs (granula, s. grana), saõ certas [Página 253] excrescencias globulosas, e callosas que se daõ nos tegumentos das flores da labaça, e outras especies de rumex.
Vesiculas (vesicula, papulae), saõ excrescencias cellulosas ou pequenas
bolhas coradas, e transparentes, que contem dentro em si alguns succos
proprios, como saõ as que se vem na superficie de huma laranja, e que
contem o seu oleo essensial Nota
Taõbem se da o nome de vesiculas as pequenas cellulas succulentas , de que consta qualquer bago de laranja
ou limaõ, e ás fructificaçoẽs gelatinosas do fucus.
Mamillos ou tuberculos (mamilli, s. tubercula), saõ
pontos carnudos, pontudos, e ordinariamente mais largos na base, como os
do cactus mamillaris, e algumas euphorbias Nota
Os tuberculos em algumas especies de
lichen saõ pontos escabrosos e pulverulentos, que constituem o
receptaculo da sua fructificaçaõ. Nas folhas da pulmonaria
e outras asperifolias os pontas asperos, que as salpicaõ saõ
taõbem chamados tuberculos .
Utriculos (utriculi) Nota
Os utriculos considerados em geral podem ser divididos
em internos e externos; os internos dependem da dissecçaõ, e
microscopio para se poderem observar, elles saõ destinados à
preparaçaõ dos succos proprios, e digestaõ dos succos
nutritivos; os externos saõ os que se achaõ na superficie dos
vegetaes, huns saõ pouco apparentes, dos quaes ja fiz mençaõ
debaixo do nome glandulas utriculares, outros saõ assaz
apparentes de modo que ainda mesmo sem lente se podem observar,
e saõ os de que tracto presentemente.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.
Poros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).
Fossulas (fossulae, s. foveae), saõ pequenas cavidades excretorias, como v. g. as que se achaõ na base das petalas da coroa imperial, e outras especies de fritillaria.
Cicatrizes ou pustulas Nota
Taõbem se da o nome de pustulas a huma
especie de enfermidade dos fructos feridos pelo granizo, como
saõ as que se vem nas pera a que o vulgo chama peras
pedradas.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos. Como a preparaçaõ deste fluido pertence igualmente a vasos internos, e o costumaõ extrahir de muitas plantas por meyo de incisoẽs, pareceme ser mais proprio de tractar da sua natureza no capitulo seguinte.
[Página 256]Por succulencia (succulentia, s. lactescentia), os botanicos entendem a qualidade, e cor dos succos que vertem os vasos de huma planta, quando a ferimos ou quebramos.
Os succos das plantas dizem-se ser: aquosos (aquosi succi), quando naõ saõ corados e se assemelhaõ á agoa commua (a videira), lacteos (lactei, albi), se saõ da cor de leite, como nas euphorbias e papoila, amarellos (lutei), como na celidonia; vermelhos (rubri), como os do rumex sanguineus, e os dos ramos tenros do carthamus lanatus.
O succos preparados pelos vasos proprios dos vegetaes que sejaõ extrahidos por meyo de huma incisaõ artificial, quer derramados na casca por ex- sudaçaõ ou rotura, adquirem muitas vezes huma consistencia mais ou menos densa, e saõ chamados neste estado resinas, gommas, e gomas-resinas. As re- sinas (resinae), podem facilmente reconhecer-se, e distinguir-se das gomas pela razaõ de arderem rapi- damente no fogo, e de se dissolverem em espirito de vinho e naõ em agoa, como saõ o pez, thereben- tinas, &c. A gomma (gummi), pelo contrario, naõ arde no fogo, e dissolve-se em agoa e naõ em espirito de vinho, como se vê na goma arabia e na das gin- geiras e amexieiras; a goma-resina (gummi-resina), dissolve-se parte em espirito de vinho e parte em agoa, como se vê na que he extrahida da aloe.
[Página 257]O Sexo das plantas he fundado sobre o das suas flores, e por conseguinte
quasi todas as denominaçoẽs, que se costumaõ dar a estas relativamente ao
sexo, se podem com propriedade dar taõbem ás plantas que as produzem. Pelo que as plantas dizem-se masculinas (plantae mares), quando daõ
somente flores masculas; femininas (feminae), se daõ somente flores
femininas; hermaphoditas (hermaphroditae), se daõ flores hermaphroditas;
monoicas (monoicae), quando no seu tronco ou ramos daõ flores humas
masculinas outras femininas, como o milho, melaõ, e abobara; dioicas
(dioicae), quando em dois individuos da mesma especie ha hum que dà
flores masculinas e outro femininas Nota
O nome de dioica he neste cazo
somente dado a especie, porque os individuos saõ plantas ou
masculinas ou femininas, e o mesmo se deve entender do nome
polygama, quando he dado as plantas proprias da Polygamia dioecia e
trioecia.
Os modernos costumaõ dar o nome de hybridas, ou mulinas (hybridae) a certas
plantas, que procedem de duas especies diversas, assim como no reyno animal
os mulos procedem do coito do jumento e egoa, individos especificamente
differentes. Este effeito tem lugar nos vegetaes em razaõ de cahir o po fecundante das flores de huma especie sobre o pistillo
das flores de outra; as sementes que provêm desta fecundaçaõ saõ as que
produzem as plantas hybridas Nota
Segundo a opiniaõ de alguns Botanicos
todas as especies de plantas que ha hoje na face do globo terreatre
saõ as mesmas que haviaõ nos dias primitivos da terra; elles so
admittem novas variedades e jamais novas especies; outros pelo
contrario saõ de parecer que ha muitas novas especies procedidas do
coito entre individuas especificamente differentes. Esta ultima
opiniaõ naõ me parece ser bem fundada, e as plantas hybridas provaõ
contra ella. As differentes plantas que procedem de differentes
individos ou saõ mestiças, ou mulinas, As mestiças saõ as que provem
de duas especies ou variedades, e daõ sementes fecundas; se cortamos
v. g. os estames a huma tulipa vermelha, e apolvilhamos o seu
pistillo com o po dos estames de huma tulipa brança, as sementes da
dicta tulipa vermelha produziraõ tulipas humas vermelhas, outra
brancas, outras variegadas de vermelho e branco, as suas sementes
seraõ fecundas, e semelhantes plantas por conseguinte devem ser
chamadas mestiças. As plantas mulinas rigorosamente taes saõ as que
procedem de duas especies analogas, ou do mesmo genero, e daõ
sementes sempre estereis ou incapazes de reproduzir individuo algum.
Tanto as mestiças como as mulinas naõ saõ outra coiza mais do que
variedades, a pezar de que algumas tenhaõ sido consideradas como
verdadeiras especies; as mulinas tem quasi todo o habito externo
d'alguma das plantas de que descendem, ou naõ differem da especie
senaõ no viço e infecundidade da flor. Vej. O termo Hybridae
plantae, no Dicc. Bot. vol. 2.
O viço dos vegetaes (luxariatio), he considerado por alguns botanicos ou como floral ou como habitual; o floral he relativo às partes da fructificaçaõ, e delle fallei jà em seu lugar; o habitual consiste na mudança que algumas causas occasionaes fazem nas partes da vegeteçaõ, isto he, em quaesquer partes que naõ saõ flor nem fructo, e como esta alteraçaõ tem lugar nas plantas da mesma especie e as faz variar, e degenerar costumaõ taõbem dar-lhe o nome de variaçaõ ou de degeneraçaõ (variatio, s. degeneratio); mas estes dois termos tem huma accepcaõ mais extensa.
O viço tem lugar ás vezes no tronco,quando as plantas vem a ser cespitosas
(cespitosae) lançando da mesma raiz em hum terreno pingue
muitos troncos, aindaque aliás no terreno que lhes he natural somente
lançaõ hum Nota
Basta muitas vezes cortar o tronco pela base para fazer huma
planta cespitosa.
A degeneraçaõ das plantas pode ter lugar de muitos modos, em razaõ da cultura, mudança de terreno, clima, idade, &c. A cultura naõ amansa menos as feras do que as plantas; ella lhes faz perder os seus espinhos, hispidez, e toda a sorte de pelos, amacia a aspereza dos seus succos, e adoça muitas vezes o amargo e acidez dos seus fructos; as plantas que cultivamos em nossos jardins, hortas, e pomares daõ disro huma clara prova; o estado inculto ou bravio era o seu estado natural; parecenos que lho melhoramos pelas enxertias e amanhos, e pensamos que degeneraõ todas as vezes que por falta da devida cultura [Página 261] tornaõ a ser bravas; mas na realidade aos olhos de hum sabio naturalista he huma verdadeira degeneraçaõ o que chamamos estado de melhoramento; huma amexieira, huma alcachofa hortense, ás quaes a cultura fez perder os seus espinhos, vivem dege- neradas em quanto se conservaõ neste estado; mas logo que abandonadas á revelia da natureza recobraõ seus espinhos, devem ser consideradas como restitui- das ao seu estado natural.
O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs. O clima naõ deixa taõbem de fazer degenerar as plantas quanto à sua duraçaõ, e as plantas que nos paizes quentes saõ vivaces, taes com as chagas, boa noyte, man- jerona, ricinus, &c. transplantadas nos paizes frios vem a ser annuaes. A idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.
O viço e degeneraçaõ podem fazer variar de muitos modos huma mesma especie, mas delles naõ resultaõ jamais novas especies, e he erro crer por ex. que a avea cortada antes da florecencia degenere de tal modo que no anno seguinte se converta em senteio, ou que o trigo em huma terra magra degenere em senteio, este em cerada, a cevada em joyo, &c. O corculo das semente he sempre huma plantula propria, segundo as leys da natureza, para continuar a forma especifica do ente que a produzio, porque aliás teriamos novas creaçoẽs; elle he formado [Página 262] da medulla da planta materna, ou de huma substancia similar de modo, que naõ pode perpetuar senaõ Individuos especificamente semelhantes aquelle a quem esteve apegado no tempo, em que foy gerado e nutrido. Do mesmo modo os ramos, gomos, e bolbos por mais variedades, que possaõ dar, sempre conservaõ os caracteres e essencia da sua especie, porque saõ della meros pedaços vitaes. Pelo que dizer, que hum ramo ou colmo de avea v. g. pode dar huma espiga com sementes de senteio, he querer mudar a natureza das vegetes e fingir chimeras.
Os differentes estados da atmosphera, os excessivos calores ou frios,
qualquer vicio notavel da transpiraçaõ, a obstrucçaõ dos vazos, a plenitude
e condensaçaõ dos succos, e as corrosoẽs e picadas dos insectos saõ as
principaes causas das doenças dos vegetaes (morbi). Ellas saõ taõ
numerosas que podiaõ formar o sujeito de hum bom tractado pathologico Nota
Athe ao presente naõ temos ainda huma boa pathologia nem
therapeuteia dos vegetaes, semelhantes tractados seriaõ
summamente uteis á agricultura, e naõ deixariaõ taõbem de ser
proveitosos á Botanica fundamental.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.
Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.
Cravagem (clavus), saõ pontas denigridas que se observaõ as vezes nas sementes do senteio e junças.
Fogagem (ustilago, uredo), he huma especie de carie das sementes de maneira que a planta, em vez de dar sementes, da huma farinha negra: observa-se muitas vezes nas espigas da cevada, avea, trigo e outras gramas, como taõbem nalgumas especies de escorcioneira, e tragopogon.
Crestamento do sol (aestus, s. aestuatio), quando saõ crestadas pelos grandes
calores, e desmayaõ de tal sorte que ordinariamente perecem. Os antigos
quando viaõ desmaiar huma planta e morrer por hum golpe de sol Nota
Chamaõ
golpe de sol aos raros solares subitamente descortinados de huma nuvem
espessa, e vibrados ardentemente sobre a terra.
Ensoamento (sitis), quando por falta de agoa ou de sufficiente humidade desmayaõ hum tanto, mas tornaõ a restabelecerse, sendo regadas, ou sobrevindo chuvas.
Friagem (pernio), quando saõ em parte crestadas do frio, ou feridas pelo granizo.
[Página 264]Geladura (congelatio), quando todos os seus succos saõ congelados, ou que o movimento destes he de tal modo estorvado e suspendido pelo frio, que morrem.
Marasmo ou atrophia (fames, marasmus, s. atrophia), quando por falta de terra, de succos competentes, ou qualquer outra causa emagrecem summamente ou perecem de magreza.
Corpulencia (polysarchia), quando engrossaõ mais do natural em razaõ dos demasiados succos, e nimia nutriçaõ.
Cancro (cancer), he hum grande inchaço causado pela extravasaçaõ dos succos, sem contudo rebentar a epiderme.
Plethòra ou plenitude (plethora), segundo alguns naturalistas he huma demasiada abundancia de succos de modo que se extravasaõ por meyo de algumas roturas da epiderme, o que constitue hemorrhagias mais ou menos consideraveis; as resinas, gomas, gomas-resinas saõ, segundo elles, especies de hemorrhagias vegetaes occasionadas por huma plenitude de succos.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c. Os insectos causaõ taõbem algumas monstruosidades nas flores, fazendo-as dobrar, prolificar, &c como ja notei em seu lugar.
A grandeza ou medida (magnitudo, s. mensura), he como a notei, ou relativa ou obsoluta; a relativa he a largura, ou comprimento das partes dos vegetaes comparadas humas com as outras; a absoluta consiste nas dimensoẽs conhecidas, ou nas que saõ deduzidas das partes e estatura do corpo humano, que se reduzem as seguintes.
Hum cabello (capillus) he o diametro ou grossura de hum cabello, que se suppoem ser a duodecima parte de huma linha, e neste sentido as partes dos vegetaes dizem-se ser verdadeiramente capillares, (capillares) quando saõ da grossura de hum cabello.
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).
[Página 266]Huma unha (unguis), he o comprimento della, que se suppoem ser seis linhas ou meya pollegada, e neste sentido a grandeza diz-se ser de huma unha (unguicularis).
Huma pollegada (pollex, s. uncia), he o diametro do dedo pollegar ou taõbem o espaço que vay desde a sua ultima junta athe à ponta, que se suppoem ser doze linhas, e neste sentido a grandeza diz-se ser de meya pollegada (semiuncialis) de huma pollegada (uncialis, s. pollicaris), de pollegada e meya (sesquiuncialis, s. sesquipollicaris) de duas pollegadas, &c. (biuncialis, &c.).
Huma maõ travessa (palmus), he a largura de quatro dedos reunidos, excepto o pollegar, e se suppoem ser tres pollegadas; neste sentido a grandeza diz-se ser de meya maõ travessa, de huma maõ travessa, e de maõ travessa e meya (semipalmaris, palmaris, sesquipalmaris).
Hum palmo de craveira, hum palmo maior (dodrans), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do minimo bem estendidos, o que se suppoem ser nove pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo de craveira (dodrantalis).
Hum palmo bastado ou palmo menor (spithama), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do dedo mostrador, seu immediato, bem estendidos, o que se suppoem ser sette pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo bastardo (spithamea).
Hum pe (pes), he pouco mais ou menos o espaço que medea desde o sangradoiro do braço athe á bado dedo pollegar, o que se suppoem ser doze [Página 267] pollegadas, donde a grandeza se diz ser de meyo pe (semipedalis de hum pe (pedalis), de pe e meyo (sesquipedalis) de dois pés, &c. (bipedalis, &c.)
Hum covado natural (cubitus), he o espaço que vay desde o cotovelo athe a ponta do dedo grande, que se suppoem ser desasette pollegadas; a grandeza diz-se ser de hum, dois, tres covados naturaes, &c. (cubitalis, bicubitalis, tricubitalis, &c.)
Hum braço (brachium), he o espaço que vay desde o sovaco athe á ponta do dedo grande, o que se suppoem ser dois pez, donde a grandeza se diz ser de hum braço (brachialis).
Huma braça, ou a altura de hum homem (orgya, altitudo humana, s. hexapoda), he o espaço que vay da extremidade de huma maõ athe a da outra, estando os braços abertos, o que se suppoem ser seis pès, donde a grandeza se diz ser de huma braça (orgyalis, s. sexpedalis).
As cores dos vegetaes (colores), de que tracto presentemente neste artigo, naõ somente saõ as que respeitaõ ás partes da fructificaçaõ, aonde costumaõ ser infinitamente variadas, mas taõbem as que saõ relativas a toda a superficie de qualquer das suas partes. Os antigos consideravaõ as cores como huma das principaes notas do habito externo, com que [Página 268] se podiaõ destinguir as especies; Linneo criticou fortemente este sentimento, dizendo que se bem que ellas podiaõ servir para fazer destinguir as variedades, naõ subministravaõ caracteres seguros para estabelecer especies; alguns modernos contudo naõ admittem inteiramente este parecer, e pensaõ que elle he sojeito a excepçoẽs, como direi em outro lugar. Os differentes gráos de intensidade, com que a natureza còra as flores naõ se podem perfeitamente exprimir nem com vozes, nem com penna, e raras vezes ainda mesmo o pincel as bem imita. Alguns pensaõ que se podiaõ dar sufficientes idéas de muitas dellas, comparando-as com as cores fixas das substancias de que usaõ os pintores e tintureiros; este parecer podia ser adoptado se os Botanicos julgassem ser necessario empregar os nomes exactos das cores na descripçaõ de qualquer planta, mas commumente desprezaõ esta circumstancia, e porisso bastará fazer so mençaõ aqui das cores ordinarias, de que elles costumaõ usar algumas vezes, as quaes se podem reduzir ás seguintes.
Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.
De cor vidrenta ou de cristal (hyalinus, s. vitreus); cor d'agoa (aqueus, s. undulatus) estas cores observão-se muitas vezes nos filetes dos estames e no estylete do pistillo.
Cinzento (cinereus); cor de chumbo (plumbeus, lividus.)
[Página 269]Negro (niger); fusco, pardo (fuscus); fullo, baço (fullus); a cor negra observa-se muitas vezes nas raizes o sementes, mas he raro de a ver nos fructos e ainda muito mais raro na corolla.
Pallido (luridus); cor de pêz (piceus, ater).
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.
Açafroado (croceus); cor de fogo (flammeus, fulvus).
Gris ou griseo (gilvus) cor de tejolho (testaceus).
De cor da ferrugem do ferro (ferruginens).
Vermelho (ruber); as flores do estio, e bagas azedas tem ordinariamente esta cor; vermelho cor de sangue (sanguineus); vermelho cor de carne, ou encarnado (incarnatus); escarlatino, cor de escarlata (coccineus, puniceus); cor de rosa (roseus).
Purpureo, cor de purpura (purpureus, phaeniceus, s. tyrianthinus); purpureo claro (diluté purpureus); purpureo escuro (saturatè purpureus, s. atropurpureus); roxo (violaceus, janthynus, caeruleo-purpureus).
Azul (caeruleus); azul celeste (cyaneus); estas cores saõ mui frequentes nas corollas.
Verde (viridis); verde cor de alho porro (prasi- nus); verdemar (thalassinus); verdenegro (atroviridis). A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.
Garço (glaucus, glaucinus, caesius); a cor garça participa da verde e da azulada, e porisso muitos a [Página 270] comparaõ com propriedade á cor da pedra preciosa chamada beryllo.
O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
Em quanto o numero dos vegetaes geralmente conhecidos foy facil de reter de memoria, ou reduzido somente aos curtos limites de huma materia medica, naõ conhecemos que houvesse destribuiçaõ alguma, que merecesse o nome de systema ou methodo; tal foy o estado da Botanica entre os antigos Gregos e Romanos, e na idade media athe à restauraçaõ das lettras na Europa. Depois desta epoca o numero dos vegetaes conhecidos tendo consideravelmente augmentado, Cesalpino vendo claramente que sem huma disposiçaõ methodica senaõ podia adiantar o estudo dos entes do reyno vegetal, imaginou hum systema, com que os tirou do informe cahos em que jaziaõ; outros sabios seguiraõ depois o seu exemplo, e hoje os systemas em Botanica saõ de huma necessidade absoluta.
A Botanica no estado actual, em que se acha, naõ so costuma tractar dos termos technicos, que conduzem a fazer conhecer hum vegetal por meyo deste ou daquelle systema, mas igualmente ensina em geral o que he hum systema ou methodo Botanico, [Página 277] e como elle se costuma destribuir segundo as regras da boa critica. Estas relaçoẽs e partes didacticas parecem ser inseparaveis em qualquer bom tractado elementar desta sciencia; porque se hum verdadeiro Botanico naõ somente se deve achar em estado de poder entender todos os systemas relativos aos vegetaes, mas taõbem de poder traçar novos; a Botanica por conseguinte deve naõ menos empregarse no que contribue a comprehendelos do que a formalos.
Hum systema ou methodo em Botanica (systema, s. methodus) he hum corpo de
doutrina composto de certo numero de generos supremos, e subalternos que
conduzem gradativamente ao destincto conhecimento das especies vegetaes. Os
generos supremos saõ chamados classes; os subalternos ordinariamente saõ
dois, huns medios chamados ordens, e outros infimos denominados simplezmente
generos; estes ultimos contem as especies, e estas as suas variedades. Em
certo modo hum systema pode comparar-se Nota
Esta comparaçaõ, ainda que naõ
he em tudo exacta, naõ deixa contudo de contribuir para fazer conhecer a
progressaõ das destribuiçoẽs dos systemas.
Mas para proceder com mais clareza, e dar ideas mais exactas dos systemas
Botanicos, devo advertir que todos os que athe agora se tem imaginado podem
ser reduzidos a tres sortes, a saber, systemas naturaes, artificiaes, e
mixtos de naturaes e artificiaes. No systema natural Nota
Este methodo
he chamado natural por conservar as affinidades das plantas do modo
que a natureza nolas prezenta aos olhos; mas nenhum dos que athe
agora se tem publicado he livre de defeitos, nem merece no rigor do
termo o home de methodo da natureza. Os me thodos e systemas, diz
acertadamente M. de la Mark, saõ como os nomes, nem huns nem outros
se achaõ naturalmente nas plantas.Nota
Esta clave dos systemas naturaes deve ser o catalogo
dos titulos das familias naturaes; mas ordinariamente como as
familias saõ numerosas os systematicos Naturistas por querer
simplilicala e abbreviala, reunem as classes naturaes a hum pequeno
numero de classes primarias, as quaes de ordinario saõ fundadas em
huma so nota caracteristica, e por este modo o seu methodo vem a
ficar mixto.Nota
A
clave de qualquer systema, segundo alguns botanicos, he
rigorosamente huma tabella synoptica, e requer esta condiçaõ para
ser boa; mas se o numero das classes he pequeno, a clave pode ser
facil sem ser distribuida synopticamente.Nota
Este systema naõ he puramente artificial, o seu Autor
trabalhou primeiramente nos generos, a que chama naturaes, e depois
servio-se delles empregando-os em classes e ordens artificiaes;
donde nasce hum dos grandes defeitos do dicto systema, havendo
muitos generos, cujas especies naõ tem geralmente o caracter da
ordem ou da classe, e ás vezes mesmo nem o da classe nem o da ordem
(como v. g. o polygonum persicaria.) Alem disso a classe cryptogamia
naõ tem relaçaõ com as demais; os caracteros naõ saõ tirados dos
organos sexuaes, nesta classe, e algumas das suas ordens saõ
proprias de hum methodo natural.
O methodo synthetico he o que conserva mais as affinidades, e o que se chega mais à natureza, mas as suas divisoẽs saõ sujeitas a serem longas e difficeis; nos seus titulos parece haver falta de nexo, os caracteres dos generos parecem obscuros e confusos; as razoẽs de affinidade saõ tiradas de muitas partes, e jamais de huma so ou de poucas, donde resulta que elle so costuma agradar aos que estaõ ja adiantados em Botanica. O methodo analytico ou artificial he opposto à natureza, dissolve e sacrifica ás suas leys as affinidades, e as plantas de huma classe ou ordem natural se achaõ nelle misturadas com as da artificial ou arbitraria. Sem embargo disto, he o mais simplez e facil, serve de hum grande soccorro á memoria e conduz ao conhecimento das plantas por hum caminho plano e abbreviado. Por esta razaõ, e porque as suas divisoẽs genericas saõ estabelecidas sobre o exame de huma das partes das plantas, e agrada mais aos principiantes (que naõ gostaõ nem entendem ordinariamente as grandes combinaçoẽs de caracteres) sem deixar contudo de agradar taõbem e de ser bastantemente util ainda mesmo aos Botanicos consumados; mas para agradar a estes he precião que elle guarde exactamente as suas leys.
[Página 281]Ha taõbem huma sorte de distribuiçaõ analytica chamada synoptica (divisio
synoptica, s. synopsis), que consta de divisoẽs semelhantes ás ramificaçoẽs
das taboas genealogiças, mais ou menos longas, mais ou menos numerosas, sem
limites certos genericos, ou sem se limitarem a classes, ordens, generos e
especies, como as dos systemas ou methodos artificiaes ordinarios. Linneo Nota
Lin. Phil. Botan. n. 153 et 154.Nota
A destribuiçaõ synoptica he taõbem empregada na clave dos
systemos para facilitar a achar as classes.
Todos os methodos e systemas que athe agora se tem imaginado em Botanica saõ mais ou menos defeituosos, e naõ me parece possivel que possa haver algum sem imperfeiçoẽs. Alguns Botanicos saõ de parecer que todos os entes do reino vegetal, que se achaõ proxima, ou remotamente dispersos sobre a face do nosso Globo, formao entre si huma cadea, e fazem parte de hum todo progressivo; que cada individuo pertence a esta cadea em geral, e ao mesmo tempo em particular a huma especie, as especies a generos naturaes, estes a familias naturaes, e que estas familias formaõ gradativamente hum todo encadeado que constitue à clave do verdadeiro methodo natural, em cuja investigaçaõ se devem occupar todos os botanicos, por naõ haver outro na natureza. Elles accrescentaõ que este methodo fora traçado pelo Autor da natureza, cuja profunda sabedoria vinculou todos os entes do universo huns com os outros, e cada hum delles com o todo; que se por ora o naõ podemos plena e perfeitamente perceber, o descobriremos quando tivermos as descripçoes de todas as plantas, que ha no [Página 283] globo terrestre; que prezentemente basta para nos convencer disto observar a gradaçaõ das plantas imperfeitas ás perfeitas, e os fragmentos do dicto methodo natural assaz bem reconhecidos nas familias naturaes das gramas, labiadas, leguminosas, umbrelladas, cruciferas, e algumas outras de que tractaõ os systemas naturaes, os quaes segundo elles naõ saõ outra coiza mais do que pequenos esforços que dirigem a descobrir o verdadeiro methodo natural. Contudo na opiniaõ de outros Botanicos semelhante methodo he o mesmo que a pedra philosophica: admittindo, dizem elles, que senaõ tenhaõ perdido especies nas vastas inundaçoẽs, volcanos e outras revoluçoes do nosso Globo, e que os entes do todo o reyno vegetal se achem encadeados huns com os outros, e cada hum delles com o todo, nem porisso podemos esperar de chegar a ter esse perfeito methodo denominado o unico da natureza; antes pelo contrario isso mesmo parece opporse a obtelo. Essa cadea, ou laço com que os entes vegetaes saõ viculados, naõ saõ outra coiza mais do que as suas affinidades; ora estas affinidades, seraõ sempre irremediaveis obstaculos á perfeiçaõ de qualquer methodo ou systema.
A progressaõ das affinidades, em qualquer me thodo que se pode idear, ou he
synthetica ou anaIytica, em linha de ascenso ou de descenso: a progressaõ
analytica naõ pode ter lugar em hum methodo natural, e a synthetica sera
sempre insufficiente á sua perfeiçaõ. Na supposiçaõ dada, a natureza poz
laços naõ equivocos entre todos os entes vegetaes: por conseguinte naõ poz
balizas nas classes nem em generos alguns, e os seus limites seraõ sempre [Página 284] inconstantes. Se olhamos attentamente para cada hum dos caractéres das
plantas de classes assaz analogaa entre si, e denominadas naturaes, vemos
que posto que existem na maior parte dellas, faltaõ contudo em algumas, que
saõ muito poucas as que tem todos os caracteres constantemente O
lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as
plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla
alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as
labiadas, tem a corolla de hum so labio. As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia
natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames
senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes
Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados
como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha
tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos
pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a
vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim,
ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha
plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto
ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum,
phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.Nota
Sem embargo de que este ultimo sentimento seja assaz provavel, contudo naõ se
segue que devamos abandonar inteiramente o projecto de trabalhar em hum
methodo natural o mais perfeito que nos for possivel. Todos os grandes
Botanicos saõ deste parecer Nota
Haller, Adanson, Jussieu, e Linneo saõ
entre os modernos os que fizeraõ as melhores tentativas, que dirigem a
este methodo; mas desgraçadamente naõ saõ inteirameite concordes nas
metas e generos das suas familias naturaes.
Naõ se segue igualmente que devamos desterrar de Botanica qualquer sorte de systema artificial, e que devamos so occuparnos em fazer methodos naturaes que conduzaõ à perfeiçaõ do methodo dezejado. Os principiantes naõ podem passar sem hum systema artificial, elles naõ se embaraçaõ com affinidades, nem com gradaçoẽs naturaes, e so dezejaõ saber por meyo de poucas operaçoẽs o nome da planta, que encontraõ misturada com outros individios numerosos [Página 286] e de formas differentes. Pelo que sera sempre necessario nas escolas naõ empregar outra sorte de systemas para os introduzir ao estudo de Botanica. Os diversos systemas artificiaes foraõ a causa do progresso que tem feito a Bolanica; cada systematico foy obrigado a observar de novo todos os vegetaes ja observados, a verificar os caracteres conhecidos, e a forcejar por descobrir outros adequados ao seu systema; donde resultou que muitas partes e notas caracteristicas, que dantes tinhaõ sido desprezadas, foraõ bem descriptas, contribuiraõ para melhor fazer reconhecer as affinidades, e enriqueceraõ a Botanica. Os systemas analyticos asem de contribuirem para o adiantamento da Botanica seraõ sempre huns catalogos judiciozos e uteis, pela sua simplicidade, pela brevidade das suas gradaçoẽs, e por ajuntarem os materiaes destinados á construcçaõ de hum bom methodo natural, os quaes hum genio feliz enriquecido de observaçoẽs podera algum dia vir a por em execuçaõ; e ainda mesmo no cazo de termos hum bom methodo natural naõ deixaraõ de servir de ajudarnos juntamente com elle para achar os nomes das plantas com maior certeza e segurança. Eu naõ sou do parecer dos que dizem que basta que haja hum so systema artificial em Botanica, e que os Botanicos deveraõ cuidar em aperfeiçoar hum dos que existem e seguilo geralmente, abando nados todos os outros, por mais aperfeiçoado que seja hum systema artificial tera sempre seus lugares obscuros, seus lados fracos, e naõ sera izento de difficuldades. Nem sempre as partes, que vemos em huma planta, que queremos conhecer, saõ as que servem de fundamento ao systema que seguimos; as [Página 287] que nos podiaõ servir, muitas vezes naõ se achaõ em madureza, ou tem passado; contudo as dictas partes que vemos saõ assaz sufficientes em outro systema para nos fazer conhecer a planta. As notas caracteristicas de hum genero saõ muitas vezes assaz custosas de se perceberem por hum systema, ao mesmo tempo que os caracteres do mesmo genero saõ bastantemente claros e faceis em outro systema. Hum estame abortado, ou supranumerario basta para embaraçar os que usaõ de hum systema sexual, e naõ sabem valerse de outro; em summa, as difficuldades que se achaõ em hum systema podem vencerse com o uso de muitos juntos. Donde resulta, que sem embargo de que demos a preferencia a hum systema, naõ devemos deprezar os mais, principalmente se elles seguem exactamente as suas leys, e saõ formados segundo as regras da boa critica.
Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente. Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes. As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.
[Página 288] Huma classe (classis), no parecer dos Botanicos modernos, he hum
aggregado de muitos generos medios conformes nas partes da fructificaçaõ Nota
Alguns Botanicos modernos saõ de parecer que as classes naturaes
devem tirar os seus caracteres naõ so da fructificaçaõ, mas
ainda de todo o habito externo, e da mesma sorte os generos
infimos, como depois exporei mais extensamente.
As classes humas saõ naturaes outras artificiaes. As naturaes saõ formadas syntheticamente, e constaõ de muitos generos
naturaes Nota
Eu naõ me embaraço aqui com a grande questaõ dos naturalistas, se
ha ou na naõ generos naturaes, e tomo os termos na accepçaõ, em
que Linneo os tomou, segundo a qual hum genero natural he hum
aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural. Nota
Esta circumstancia he rara, e so tem lugar quando huma familia
natural succede ter entre as muitas notas caracteristicas huma
essensial e perpetua, da qual o systema artifcial ou mixto se
vale para fundar huma classe, como se vê na Monadelphia de
Linneo.
As ordens, como subdivisoẽs das classes, devem seguir a sua formalidade
methodica; por conseguinte as das classes naturaes devem ser fundadas em
muitas notas caracteristicas, e as das artificiaes em huma so Nota
Ha alguns methodos denominados naturaes, que devem ser con
siderados como mixtos; nelles ha duas, ou tres sortes de
classes, como he por ex. o do Dr. Jussieu, as primeiras, e as
vezes as segundas quando ha tres sortes de classes,
rigorosamente saõ artificiaes, e as ultimas subalternas, a que
os seus autores chamaõ ordens, saõ as que verdadeiramente
merecem o nome de classes naturaes. Muitas das ordens, que Linneo nos deixou nos seus Fragmenta
Methodi Naturalis, devem taõbem ser consideradas como classes
naturaes ou fragmentos dellas. Daqui se pode colligir que hum verdadeiro methodo natural, que
seguir as suas leys com exactidaõ, deve constar de hum grande
numero de classes, e que no dicto methodo ha bastante
difficuldade em formar devidamente as ordens. Os autores de methodos naturaes, que estabelecerem as classes em
muitos caracteres e fundarem as ordens em hum so, faltaraõ as
leys da uniformidade methodica, pela razaõ de que os seus
generos medios naõ ficaraõ uniformes aos infimos e supremos, e
se assemelharaõ ás ordens artificiaes.
Alguns Botanicos costumavaõ dividir em duas grandes classes primarias
todos os entes do reyno vegetal, a saber, em plantas herbaceas e
lenhosas, ou em hervas e arvores ; mas a doutrina da fructificaçaõ fez
abolir esta sorte de distribuiçaõ primaria que parecia pertencer mais
aos troncos Nota
Esta divisaõ naõ me parece ter sido fundada em nota alguma
constante; porquanto vemos hervas annuaes e biennaes que tem o
tronco de huma consistencia lenhosa; sabemos que a mesma especie
de planta pode ser berbacea na Europa, e lenhosa na America; que
ha hervas que saõ mais altas do que as arvores ; e ainda mesmo a
presença dos gomos he insufficiente, porque na Europa ha arvores que naõ tem gomos, como os naõ tem taõbem as dos paizes situados
debaxo da Zona Torrida. Nota
Quando as hervas, arbustos, e arvores parecem formar huma gradaçaõ de
menor a maior nas especies do mesmo genero infimo, pode-se sem
duvida fundar nellas huma distribuiçaõ; mas esta distribuiçaõ he
so parcial, e naõ a de que fallo presentemente.
Nos systemas artificiaes e mixtos quanto mais [Página 291] longas saõ as classes, tanto mais oppostas saõ á natureza, e difficultozas, como saõ por exemplo a Pentandria e Syngenesia do systema de Linneo, e porisso alguns Botanicos lhes preferem o uso das taboas synopticas que observaõ fielmente as suas leys methodicas. As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos. Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade.
Todas as ideas precedentes saõ relativas á disposiçaõ das classes e
ordens. Quanto á sua denominaçaõ, devo advertir primeiramente que os nomes que ha
em Botanica podem ser reduzidos a duas sortes ou technicos ou
systematicos. Os nomes technicos saõ os que servem para descrever todas as partes dos
vegetaes, elles devem ser immutaveis em todos os systemas, e formar a
linguagem da Botanica Nota
Desgradaçamente nos naõ temos ainda hum bom tractado elementar
que fixe a accepçaõ de todos estes termos; alguns delles saõ
obscuros por se naõ acharem ainda definidos, e outros em
prejuizo do progresso da Botanica tem accepçoẽs inconstantes
segundo as differentes opinioẽ se caprichos dos systematicos, ou segundo as differentes partes a
que saõ applicados; o que he defeituoso, porque nas sciencias
vale mais usar de muitos termos ou de periphrases, do que de
equivocos; à força de querer-mos muito abbreviar, confundimos;
os termos imbricatus, nudus, simplex, &c. saõ disto huma
evidente prova; hum mesmo termo devera sempre ter a mesma
accepçaõ, quer fosse applicado à raiz , quer as folhas , flores,
fructos, &c. Nota
Os nomes dos generos infimos saõ menos sujeitos a mudancas do que
os das ordens e classes. Os nomes das especies, ou saõ triviaes, ou differenciaes
especificos aggregados em huma phrase; huns e outros saõ
sujeitos a mudança no cazo que se descubraõ novas especies, ou
as descobertas, e ja conhecidas se mudem para outros generos; os
triviaes contudo podiaõ, como direi em outro tractado, ser
fixados como os technicos e servir a todos os systemas; deste
modo somente as phrases especificas, e os nomes genericos
intimos e simperiores ficariaõ sujeitos ás mudanças
systematicas.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes. Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.
Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c. De mais disso naõ so devem ser tirados das partes da fructificaçaõ, mas devem taõbem ser fundados em huma nota caracteristica essensial, como saõ por ex. os titulos de cruciformes, siliquosas, papilionaceas, leguminosas, &c.
Cada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.
Alguns Botanicos costumaõ dar a huma familia ou classe natural o nome de
hum genero infimo mais conhecido na dicta familia ou classe, pondo o
dicto nome no plural, dizendo, V. g. as abobaras, as açucenas, as
malvas, &c. ou usaõ de hum termo derivado do nome dos, dictos
generos infimos, dizendo v. g. as cucurbitaceas, as liliaceas, as
malvaceas, &c. Estes titulos saõ proprios dos methodos naturaes, e se achaõ as vezes
taõbem nos systemas mixtos Nota
Como saõ v. g. os titulos das familias da cryptogamia de Linneo
fetos, musgos, algas, e fungos. Nota
Palma, fungus, alga, muscus, filix.
Eu podera tractar aqui ainda de muitas outras circumstancias relativas á boa disposiçaõ e denominaçaõ das classes e ordens; mas como as classes saõ consideradas como generos das ordens, as ordens como generos dos generos infimos, e por conseguinte sujeitas quasi em tudo às mesmas regras methodicas destes ultimos, o leitor entendera facilmente o que falta aqui pelo que direi no capitulo seguinte.
[Página 295]Os generos, como ja adverti, huns saõ superiores outros infimos; no capitulo precedente dei as noçoẽs geraes relativas aos superiores, restame illuminar estas noçoẽs por meyo de huma mais extensa theoria, ou pelas leys didacticas dos generos infimos, que devem fazer o objecto do prezente capitulo.
Hum genero infimo (genus), segundo alguns Botanicos he hum aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural fundado na fructificaçaõ; mas como ha muitos generos infimos que constaõ de huma so especie, outros pensaõ que hum genero infimo naõ he outra coiza mais do que huma divisaõ systematica que comprehende debaxo de huma palavra e caracter, muitas especies de plantas conformes na fructificaçaõ, ou huma so de fructificaçaõ desconforme das especies vizinhas. Esta ultima definiçaõ naõ agrada contudo geralmente, querendo alguns que a conformidade ou desconformidade deve consistir naõ so na fructificaçaõ, mas nas mais partes relativas ao habito externo, e outros accrescentaõ que he improprio dizer que os generos infimos saõ huma divisaõ systematica, quando todos saõ huma obra da natureza, assim como as especies.
Todas estas ideas tem por objecto as duas mais famosas questoẽs debatidas em Botanica: 1º se os caracteres genericos devem somente ser tirados das [Página 296] partes da fructificaçaõ, excluidas todas as mais do habito externo? 2º. Se todos os generos saõ arbitrarios, ou se ha alguns que sejaõ obra da natureza, como são todas as especies?
Gesnero, Cesalpino, Columna e outros foraõ de opiniaõ que os generos somente
deviaõ ser estabele cidos sobre as partes da fructificaçaõ; Linneo seguio
este parecer, e a sua grave authoridade o fez seguir por hum grande numero
de modernos, mas nem todos adoptaraõ este sentimento, elles opposeraõ a esta
theoria o exemplo dos zoologistas, que no reyno animal omittem
ordinariamente os caracteres que a natureza poz nos genitaes, e julgaõ
sufficientes os que se deduzem dos outros organos. Opposeraõ demais disso
que os organos sexuaes e outras partes da fructificaçaõ dos vegetaes, a
que se dava a prerogativa, naõ lhes eraõ mais essensiaes do que aquellas
em que residia a sua vida, como a casca e medulla; que haviaõ muitas
plantas, principalmente cryptogamicas, em que as partes da fructificaçaõ
eraõ muito pouco apparentes, incommodas, e insufficientes para nellas se
estabelecer bons destinctivos genericos, os quaes pelo contrario se
achavaõ nas outras partes e que por conseguinte se devia recorrer a
ellas; que os caracteres habituaes bastavaõ muitas vezes sem a inspecçaõ
da flor para determinar a familia (a que pertencia hum individuo) e
algumas vezes taõbem o seu genero; que era muito util em hum methodo
natural, e em medecina reconhecer, as plantas sem flor, porque esta era
muito menos duravel do que as mais partes, e que por conseguinte os
caracteres fundados nestas partes valiaõ mais neste respeito [Página 297] do que os da fructificaçaõ; que naõ se devia desprezar parte alguma
dos vegetaes, porque todas contribuiaõ a fazelos reconhecer com mais
certeza; que a theoria da fructificaçaõ desprezadora do habito externo Nota
O habito externo neste sentido indica todas as partes de hum
vegetal que naõ pertencem à flor e fructo; de modo que as
bractéas e pedunculos fazem já parte do habito externo.
Quanto à segunda questaõ, Linneo e outros modernos saõ de parecer que todos
os generos saõ naturaes, que naõ saõ obra da arte, mas sim do Autor da
natureza, que os formou nos primitivos dias do globo terrestre, e que por
conseguinte senaõ devem deslacerar, ampliar, contrahir como cada hum quizer
ou conforme a theoria de qualquer Botanico; daõ por ex. os generos
ranunculus, acónitum, nigella, claytonia, passiflora, hybiscus, e outros
semelhantes, que bem examinados parecem indicar que os vegetaes foraõ
formados no principio huns segundo a forma dos outros. Esta opiniaõ tem
contra si a autoridade de muitos celebres Naturalistas e Botanicos Nota
O
Conde de Buffon, o Dr. Daubenton, Oeder, La Mark, &c.Nota
A natureza, diz o Conde
de Buffon, caminha a occultos passos; naõ se sobmette a nossas divisoẽs,
antes parece zombar dellas; passa de especie em especie, e às vezes de
genero a genero por modos imperceptiveis, e porisso se achaõ muitas
vezes especies, que saõ como hum genero intermedio, ou passagem das do
anteoedente ao subsequente: esta he a principal razaõ porque he
impossivel de formar hum perfeito methodo ou systema geral de toda a
Histotia Natural, e ainda mesmo das suas partes.Nota
Vej. as primeiras ediçoẽs do seu Genera plantarum, aonde
consulta os Botanicos a respeito da reuniaõ das especies destes e outros
generos.Nota
Ha especies (diz Mr. de la Mark,
Flor. Franc. vol. 1.) que sendo como gradaçoẽs naõ pertencem nem a hum
nem a outro genero vizinho, sem embargo de serem inclusas em hum delles.
Talvez virá tempo, em que, deseobertas todas as plantas que ha no nosso
Globo, cada genero fique so com huma espeoe, e cada especie com tantas
variedades, quantos forem os individuos. Entre os generos, que Linneo
formou, ha mais de quatro centos que tem so huma especie, elle se vio
obrigado algumas vezes por novas observaçoẽs a mudar muitas especies dos
generos em que dantes as tinha posto, e se hoje fosse vivo, e quizesse
attender ainda às que naõ tem o caracter do seu genero, e às que naõ
seguem as leys da classe e ordem em que estaõ postas, talvez naõ
deixaria de fazer bastantes mudanças.
Taes saõ as principaes reflexoẽs que se costumaõ de ordinario oppor ao parecer de Linneo, e dos que seguem que todos os generos saõ naturaes, mas ainda que dellas resuste que todos os generos tem limites arbitrarios, e que neste sentido naõ merecem rigorosamente o nome de naturaes, contudo como algumas vezes penetramos felismente as verdadeiras affinidades de hum certo numero de especies [Página 305] vegetaes, e formamos generos e familias de antes assaz analogos na sua estructura natural quando isto tem lugar parece me que semelhantes generos e familias podem conservar a denominaçaõ de naturaes em huma accepçaõ menos rigorosa, pela razaõ das suas especies terem entre si huma intima semelhança natural, reconhecida por todos os Botanicos.
Sendo os generos infimos huma divisaõ systematica, que comprehende, debaxo de hum caracter e palavra, huma ou mais especies, do modo que acima expuz, he precizo explicar o que os Botanicos entendem por caracteres genericos e as suas leys didacticas, sem desprezar as que respeitaõ às denominaçoẽs de cada genero.
O caracter de hum genero (character) he a sua definiçaõ, ou qualquer idea
geral deduzida de huma ou de muitas notas, capaz de bem o destinguir de
qualquer outro. Segundo Linneo ha quatro sortes de caracteres genericos, a
saber, o habitual, facticio, essensial e natural. O caracter habitual he
tirado das notas do habito externo, e exprime huma conformidade geral
nas partes vegetaes, que naõ dizem respeito à fructificaçaõ; os antigos
costumavaõ servir se desta sorte de caracter Nota
Elles comprehendiaõ neste caraeter todas as partes das plantas,
ainda mesmo as fiores e fructos, e reconheciaõ às vezes as
affinidades das congeneres melhor do que alguns systematicos; os
hervolarios ainda hoje, somente por meyo do habito externo,
sabem destinguir hum grande numero de plantas. Nota
Alguns Botanicos modernos, como ja disse, saõ de opiniaõ que
aindaque senaõ deva preferir o caracter habitual a todo o que he
tirado da fructificaçaõ, se podem contudo ajuntar a este algumas
notas tiradas, do habito externo para mais o facilitar e tornar
seguro. Nota
Todos os caracteres genericos abbreviados que se achaõ no Systema
Vegetabilium de Linneo ou saõ essensiaes ou facticios. Nota
Linneo foy o primeiro que ideou caracteres naturaes, e os
publicos no seu Genera plantarum, saõ o fundamento dos generos,
no seu parecer, mas rigorocamente o fundamento dos generos he o
caracter natural de cada especie considerado separadamente.
AÇUCENA Nota
Lilium. A traducçaõ, que dou aqui ao publico do caracter generico
natural da Açucena, podia ser menos concisa; mas os que conhecem
o quanto a lingua Portuguesa se chega à matema latina, tanto no
didactico como em qualquer outro estylo, certamente naõ me
notaraõ aqui de ousado: aproveitei-me do favor que o seu proprio
genio me offereceo.
Calyz. Nullo.
Corolla. De seis petalas, campanulada, e estreitada na parte inferior. Pecalas levantadas, encostadas humas as outras, com huma quilha obtusa no dorso, mais largas e mais patentes na parte superior as suas pontas saõ obtusas, grossas, e recurvadas para fora.
O Nectario: he hum rego longitudinal, que se acha gravado em cáda huma das petalas, do meyo para baxo.
[Página 308]Estames. Seis filetes, assovelados, levantados, e mais curtos do que a corolla. Antheras oblongas, e vacillantes.
Pistillo. O germe oblongo, hum tanto cylindrico o com seis estrias. O estylete cylindrico, e do comprimento da corolla. O estigma hum tanto mais grosso do que o estylete, e triangular.
Pericarpo. Huma capsula oblonga, e com seis regos; obtusa, concava, e trigòna, no cume; composta de tres cellulas, e tres valvulas, reunidas com pelos tecidos em grade.
Sementes. Saõ numerosas, encostadas em duas ordens, chatas, e semi circulares pelo lado externo.
N. B. As petalas em algumas especies tem as pontas nimiamente recurvadas de modo que ficam encaracolladas: O nectario em algumas especies he acompanhado de felpa, e em outras glabro.
[Página 309]Todos os caracteres genericos devem, segundo Linneo, ser tirados do numero,
figura, proporção e situaçaõ de todas as partes da fructificaçaõ. Quanto as
mais partes, que constituem o habito externo da planta, o seu parecer foy,
que postoque se deviaõ passar em silencio, mereciaõ sempre de ser bem
observadas e attendidas por naõ multiplicarmos os generos por leves causas,
e nos arriscarmos a fazer generos erroneos. Na formaçaõ dos caracteres
devemSe examinar em todas as especies anasogas todas as partes da
fructificaçaõ, ainda as mais miudas, e as que escapaõ á vista, ou precizaõ
de lente para serem observadas; devem se considerar as notas em que ellas
convem e desconvem, combinar a primeira especie com todas as mais, e todas
com a primeira, porque naõ ha caracter infallivel sem primeiramente ser
conferido e verificado em todas as especies. Na formaçaõ do caracter
natural devem-se somente mencionar as notas em que convem todas as
especies, e excluir como superfluas aquellas em que as dictas especies
desconvem; estas notas devem ser desertptas com termos technicos Nota
Demais disso devem ser escritas em difterentes paragraphos,
segundo as differentes partes da fructificaçaõ, e ter por titulo
em cima o nome do genero, como se vè no exemplo dado do caracter
generico da Açucena. Nota
Os termos tirados de semelhanças sempre presuppoem ideas claras
do primeiro simile, que nem todos podem ter, e porisso se devem
evitar o mais que for possivel; devem-se contudo exceptuar os
que se achaõ bem defindos, e adoptados pela arte, ou tirados
decentemente das partes externas do corpo humano, como dedo,
maõ, orelha, etc. Quanto aos obscenos deduzidos de vulva, penis, scrotum,
praeputium, testiculi, &c. devemos evitalos, ou para melhor
dizer abolilos inteiramente em Botanica, porque temos outros que
podem explicar sufficientemente as mesmas ideas sem ferir a
modestia. A Botanica he hoje cultivada por muitas pessoas modestas de hum e
outros sexo, que naõ podem tolerar semelhante abuso; elle teve
origem no pessimo gosto de alguns medicos dos seculos passados e
principio deste, os quaes por toda a parte naõ viaõ senaõ
objectos e termos anatomicos ainda os mais obscenos e sordidos;
a Botanica que elles sós professavaõ naõ podia escapar a esta
corrupçaõ, e com aquella mesma frivolidade, com que os
applicavaõ a mais nobre entranha do homem (testes enim et nates
cerebro tribuerunt) os applicaraõ taõbem ás mais bellas partes
dos vegetaes. Linneo adoptou este mesmo gosto de termos, e com razaõ o Dr.
Boehmer e outros modernos o censuraõ de os ter muitas vezes
prodigalizado; porquanto podramos muito bem passar na descripcaõ
das escamas cordiformes, e convergentes das sementes do
melampodium sem os termos de formam vulvae, sem o de calyx
peniformis no caracter especifico da datura metel, sem o do
receptaculo elongato in praeputium no fructo do teixo, sem o de
capsula scrotiformis no fructo da mercurial, &c. &c. Nota
Linneo (Phil. Bot. p. 123 diz que todas as vezes que em huma
planta as flores diversificaõ no numero das suas partes, so se deve
attender ao da primeira flor, isto he, ao das flores terminaes, e
porisso classou a ruta, chrysosptenium, monotropa, tetragonia, evonymus,
philadelphus, e adoxa em classes ou ordens contrarias ás que indica o
namero dos organos sexuaes das flores dos lados; mais isto naõ tem sido
adoptado por todos os modernos, e com justo motivo; supponhamos por ex.
que huma planta da quiuze flores, a terminal com cinco estames e todas
as mais que se seguem lateralmente ou desabotoaõ depois, tem todas
quatro estames, se a classamos antes na Pentandria do que na Terrandria,
a flor terminal sendo huma so e dosflorecendo primeiro que todas as
outras porá certamente hum grande obstaculo aos que quizerem achar a
classe da planta pelas fiores fateraes que observaõ, pois lhes he
necessario estar sempre presentes no periodo em que desabotoa &
dicta primeira flor, para poder reconhecer a sua classe; pelo contrario
se a classamos na Tetrandria, ninguem duvida que em todo o tempo em que
ella der flores, todos poderaõ descobrir facilmente a sua classe. He
verdade que a natureza mostra de ordinario nas primeiras fiores todo o
Seu vigor e perfeiçaõ, mas às vezes este vigor passa a ser viço, e por
conseguinte o mais seguro sera sempre guiarmos pela maior parte das
flores, quando quizermos determinar o numero das suas
partes.
A figura da flor he hum guia mais seguro, e mais digno de attender-se em
geral na formaçaõ dos generos do que a do fructo. Sem embargo de que os
antigos parecem ter feito maior cazo da estructura do fructo, contudo
todas as vezes que as flores convem, e os fructos differem (concorrendo
aliás todas as mais condiçoẽs requisitas) em hum certo numero de
especies, todas estas devem ser reunidas Nota
Este parecer he de Linneo, e como o mais methodico e proprio para
evitar multiplicidade de generos fundados em leves motivos,
parece me que devera ser seguido por todos os Botanicos; contudo
o Dr. Jussieu se desviou delle, adoptando a opiniaõ dos antigos,
e desunindo por conseguinte em differentes generos as especies
ou falsos generos, que Linneo tinha reunido em hum so no
rhamnus, pyrus, e prunus, deste modo segundo elle, a pereira,
maceira, e marmeleiro çaõ tres generos, e naõ especies de hum
so. Nota
O Dr. Jussieu e alguns outros modernos querem (contra Linneo) que
as especies de geranium, principalmente em razaõ da regularidade
e irregulidade da corolla, devem ser divididas em dois generos;
mas a anologia das mais partes da fructificaçaõ provaõ a favor
do parecer di Linneo.
As flores viçadas, monstruosas, e mutiladas naõ devem jamais ser fundamento de caracteres genericos, que sò devem ser tirados das flores naturaes. A prole, no cazo de prolificaçaõ, nos fara reconhecer o estado de viço; o calyz, e ultima ordem de petalas podem contribuir para dar-nos idea do estado de huma flor viçada, mas para melhor o reconhecer-mos sera precizo semear ou transplantar a planta viçada no seu terreno natural ou em hum chaõ magro. O calyz he menos sujeito a viço do que os estames e corolla, e os estames menos sujeitos a elle do que as petalas. O nectario, aindaque em algumas flores he sujeito a viçar, naõ deixa contudo de ser hum bom fundamento de caracteres genericos.
Pode haver huma nota singular commua a muitas especies, mas nem porisso se segue que devaõ sempre pertencer a hum so genero; pelo contrario, pode haver na maior parte das espocies de hum genero huma nota singular, que falte nas outras taõbem proprias do dicto genero, e naõ se segue porisso que se devaõ desmembrar, e com ellas constituir dois generos. [Página 313] Nestas circunstancias he precizo attender muito a analogia de todas as partes da fructificaçaõ, sem desprezar contudo o habito externo, e ter sempre presentes estas leys fundamentaes "que naõ se devem reunir plantas que convem so em poucas notas, sendo aliás muito dessemelhantes em todas as mais; nem taõbem que huma planta se deve separar das suas analogas em razaõ de huma nota, quando aliàs convem com ellas em todas as mais ou na maior parte."
No catalogo dos generos de huma ordem ou divisaõ systematica, deve haver cuidado de dispor proximos huns aos outros os que tem mais affinidade entre si, porque esta disposiçaõ naõ so facilita a achar os nomes das especies, mas presenta taõbem commodamente ao leytor as ideas de anologia, e encadeamento dos generos huns com outros, as quaes lhe saõ muitas vezes necessarias.
Tenho exposto em geral o que pertence às leys didacticas de huma disposiçaõ generica, restame tractar das que dizem respeito à denominaçaõ. Depois que hum Botanico descobrio ou formou hum genero, ou depois que observou que hum certo numero de especies convinhaõ no mesmo caracter natural, e por conseguinte pertenciaõ a hum so genero, segue-se imporlhe o nome. Este nome he chamado generico por ser geral e commum a muitas especies, ou idoneo a se lo no cazo que o genero tenha huma so especie; poem-se como titulo sobre huma descripçaõ generica ou caracter natural do genero, e se costuma taõbem pôr antes de qualquer nome trivial ou phrase especifica. Portanto todas as [Página 314] especies que convem no mesmo caracter generico, ou que formaõ hum so e mesmo genero, devem ter hum so e mesmo nome generico, e por conseguinte as que differem em genero devem ter hum nome generico differente.
Como o idioma universal, de que se servem os Botanicos, he o latino, o leytor entendera facilmente que eu somente me occuparei aqui em mencionar as regras relativas aos nomes genericos escriptos em latim, as quaes ce podem reduzir às seguintes.
Todo o nome generico genuino deve convir com igual propriedade a qualquer das
especies; a sua significaçam ou idea etymologica nam deve ser adequada a
humas especies e inadequada as outras congéneres: porisso os melhores nomes
genericos sam aquelles, cuja etymologia he desconhecida, ou cuja
significaçam nam allude á estructura, propriedades, usos vegetaes, &c.
mas so serve de conservar a memoria de alguma personagem benemerita
principalmente dos grandes Botanicos, e dos que se assinalaram em
protegelos, ou em promover a Botanica. Segundo Linneo os nomes genericos,
cuja significaçaõ envolve hum caracter essensial, ou hum destinctivo
habitual, podem ser considerados no numero dos melhores, taes como v. v.
o de adenanthera, e glycyrrhiza, o primeiro indicando o caracter
essensial de hum genero, cujas especies tem todas huma glandula nas antheras , e
o segundo indicando o destinctivo habitual de outro, cujas especies tem
todas a raiz doce: mas na supposiçaõ Nota
Esta hypòthese
he assaz possivel e conforme à doutrina de Linneo, que confessa que
hum caracter essensial pode deixar de o ser, descobertas novas
especies, e que huma nota singular pode convir ora a muitos generos,
ora somente á maior parte das especies de hum so genero. Vej. Phil.
Bot. de Charact.Nota
Chrysanthemum v. g. significa
etymologicamente flor cor d'oiro mas como a especie leucathemum he
hranca, se confiamos na etymologia, diremos: flor cor d'oiro branca,
o que he absurdo.
Donde se segue que senaõ devem usar nomes genericos fundados em
semelhanças das partes Nota
Principalmente as obscenas, e porisso senaõ devem imitar os
termos phallus, clitoria, orchis, &c.
O nome generico deve ser inteiro e naõ constituido por duas palavras separadas como v. g. dens leonis, porque esta separaçaõ he contraria á facilidade e simplicidade methodica. Linneo he de parecer que os nomes genericos substantivos saõ melhores do que os adjectivos, e que os diminutivos ainda que toleraveis naõ saõ os melhores, mas todos elles me parecem igualmente bons quando convem adequadamente a todas as suas especies, e guardaõ as mais leys necessarias.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto. Os nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies. He pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos. Naõ se devem taõbem formar dos nomes technicos [Página 319] ajuntandolhes huma ou duas syllabas como v. g. terminalia.
Os nomes genericos naõ devem ser escritos com lettras gregas, mas latinas;
naõ devem ser longos, difficeis de pronunciar-se ou malsoantes, como v.
g. callophyllodendron, acrochordodendros, caráxeron, mas curtos Nota
Naõ devem ter mais de doze lettras, segundo Linneo; no meu
parecer, nenhum nome generico ou especifico deve ter mais de cinco
syllabas.
Segundo Linneo os nomes genericos que se achaõ adoptados naõ se devem mudar
por outros mais competentes ou melhores, porque todos os dias achariamos
ainda outros mais adequados e jamais cessariamos de innovalos, se tivessemos
autoridade para isso. Esta idea parece-me ser acertada quanto aos bons
nomes genericos, que hoje se achaõ adoptados, e que [Página 320] competem com igual propriedade a todas as suas respectivas especies;
mas quanto aos que saõ maos ou vierem a selo, naõ vejo razaõ forte que
empeça de mudalos, em hum bom systema de nomenclatura, que fixe os nomes
de todos os vegetaes Nota
Este meu sentimento talves parecera estranho
a alguns Botanicos, mas eu espero de publicar em outro tractado o
modo com que elle se podera pôr em execuçaõ sem os inconvenientes
que se costumaõ commumente objectar.
Cada novo genero deve ter hum novo nome; mas se for preciso partir hum genero antigo em dois ou mais, o nome do antigo ficará, ás especies mais conhecidas, medicinaes, ou ás que melhor competir a sua significaçaõ etymologica, e as de mais especies do dicto antigo genero seraõ destribuidas debaxo de outro nome generico ou formado enteiramente de novo, ou tirado da synonymia das dictas especies, que se devem sempre preferir no cazo que seja bom.
[Página 321]As especies saõ a subdivisaõ do genero, assim como esta subdivide a ordem.
Toda a especie (species) he huma forma vegetal creada nos primitivos dias da
terra pelo Deos da natureza, e conservada em successivas reproducçoẽs de
plantas hermaphroditas, monoicas, dioicas, ou polygamas sempre
essensialmente semelhante. Esta semelhança naõ deve ser tomada em hum
sentido exactissimo, e em todos os accidentes, mas somente na estructura
essensial, porquanto he sujeita a variedades ou a certas differenças
accidentaes e de pouca duraçaõ. Donde se deduz que tantas saõ as formas
essensialmente diversas que hoje vemos, quantas saõ as especies. Estas
formas foraõ dadas no principio aos primeiros individuos de cada especie
juntamente com certas leys generativas; em razaõ destas leys tem sido
conservadas athe agora e seraõ perpetuadas em quanto existir a prole dos
dictos individuos; ellas jazem, pelo assim dizer, potencialmente retractadas
na estructura intima do corculo das suas sementes; este corculo ou conserva
a sua estructura propria e força germinativa, ou naõ; se naõ conserva estas
condiçoẽs perecerá infallivelmente, e se as conserva dara o producto que se
achava retractado na sua intima estructura, isto he, hum individuo que tenha
a mesma forma da planta materna que o gerou. O terreno e algumas outras
causas [Página 322] externas poderaõ fazelo desviar hum pouco da forma costumada, mas elle
seguira sempre as leys da sua estructura essensial ou conservará sempre
sufficientes notas caracteristicas da sua especie original. Se huma
planta por ex. varia nos fructos ou divisaõ das folhas , a forma do tronco, flores, sementes,
&c. apontaraõ a especie a que elle pertence. Donde resulta que podem haver muitas novas variedades, mas naõ especies
novas, nem Nota
As transformaçoẽs das sementes saõ assaz desmentidas pelas razoẽs
mencionadas; alem disso naõ consta que nos jardins Botanicos
aonde ha muitas mil plantas jamais se tenhaõ observado; as
disseminaçoẽs clandestinas e a germinaçaõ das sementes que
estiveraõ alguns annos occultas illesamente debaxo da terra saõ
certamente a causa occasional de semelhantes enganos.
As especies tem seus caracteres, assim como os generos; estes caracteres saõ
chamados especificos: os dos generos devem, segundo Limneo, ser tirados so
das partes da fructificaçaõ, mas os das especies podem ser deduzidos de
todas as partes da planta. Os caracteres especificos saõ de tres sortes ou
essensiaes, ou synopticos, ou naturaes; os dois primeiros presentaõ em huma
phrase (posta depois do nome generico) as principaes notas constantes, pelas
quaes huma planta differe de todas as outras conhecidas no mesmo genero; o
ultimo contem em muitas phrases o de talhe exacto de todas as partes de huma
planta quer seja solitaria no seu genero, quer acompanhada de outras
congeneres conhecidas. O caracter essensial he fundado em huma nota
singular differencial, propria de huma so especie, e enunciada em duas
ou tres [Página 323] palavras, como v.g. tanchagem de hastea uniflora, betula de folhas redondas, e crenuladas;
quando se pode descobrir este caracter, deve-se extinguir o synoptico,
como mais extenso, e se nos o podessemos obter em todas as especies, a
sua brevidade, facilidade e certeza poriaõ certamente a Botanica no seu
summo grao de perfeiçaõ. O caracter synoptico he fundado em huma aggregaçaõ de notas
destributivas, das quaes humas convem ás especies proximas, outras
differem dellas, mas achando-se reunidas em huma somente a fazem
destinguir de todas as mais congeneres conhecidas, como v.g. quando
dizemos: salgueiro de folhas serreadas, glabras, ovadas, agudas, e quasi rentes. Vêse claramente
que este caracter he sempre mais extenso do que o essencial, mas quanto
menos extenso for, tanto melhor sera, contanto que a sua brevidade o naõ
faça ficar insufficiente, defeito que alguns Botanicos notaõ nalguns das
especies do systema de Linneo. Ordinariamente costuma ser annunciado por
doze athe quatorze vocabulos quando muito, e com effeito parece que este
numero he sufficiente aos caracteres synopticos ainda considerados na
sua maior extensaõ; porquanto supponhamos por ex. que hum genero he
vastissimo e consta de cem especies (o que he rarissimo); todas estas
especies por hum methodo synoptico seraõ quando muito divididas 1º em
duas vezes 50 Nota
Se ellas saõ susceptiveis de se dividir 1º. v. g. em tres partes
como 26, 34, 40, he claro que as subdivisoẽs daraõ ainda menos
vocabulos. Nota
Ponho 13 em lugar de 13 mais 12 por evitar prolixidade nas
subdivisoẽs posteriores, entendendo-se facilmente que 13 deve
ser dividido em 7 e 6, e 12 em duas vezes 6 e assim dos
mais. Nota
(N...) lugar do nome generico.Nota
A razaõ que elles costumaõ dar ordinariamente he, que as longas
descripçoẽs saõ fastidiosas e naõ se lêm; mas deveraõ reflectir
que as descripçoẽs breves ou phrases synopticas e essensiaes saõ
sujeitas a mudanças e a serem insufficientes em novos systemas
ou descobertas novas plantas; e que pelo contrario hum caracter
natural especifico bem delineado he immudavel, e como tal se
recorrera sempre a elle, e sera sempre lido por todos os
verdadeiros Botanicos, ainda que o naõ seja pelos que so querem
ter huma noticia superficial de Botanica. Vale mais gastar
muitos annos, e fazer obras solidas do que edificar sobre a area
apressadamente só por granjear em pouco tempo o nome de
architecto. Nota
Como v. g. Mathiola de folhas asperas, hum tanto redondas, e de fructo
denigrido: assim especificada pelo Padre Plumier, celebre
botanico d'Elrey de França no serviço da America. Nota
Como saõ o Species plantarum, e o Systema vegetabilium de
Linneo. Nota
Este caracter como involvendo em si todas as
notas da fructificaçaõ e mais partes do habito externo, satisfaz
completamente a ambas as relaçoẽs de genero e especie, debaxo das
quaes se podem considerar semelhantes plantas solitarias. Eu
tractarei mais particularmente deste sujeito na minha Specinomia
vegetabilium.
As notas differenciaes, em que se costumaõ fundar os caracteres essensial e
synoptico, saõ tiradas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ das partes
constantes ou menos sujeitas a variar. As raizes podem subministrar
excellentes notas destinctivas, mas como ordinariamente senaõ podem metter
nos hervarios, e que para as poder observar he precizo sempre arrancar a
planta, o que senaõ deve fazer nos jardins, naõ devemos recorrer a ellas
senaõ no cazo urgente de naõ ter outros meyos de bem destinguir as especies,
como succede por ex. nas orchideas. Podemos, em lugar dellas, servirnos
dos troncos, ramos, pedunculos, peciolos, e principalmente das folhas , as quaes fornecem
ordinariamente as mais bellas, e naturaes differenças. Os gomos,
bolbilhos sobreradicaes, as armas, bracteas, estipulas, glandulas, e a [Página 328] inflorescencia ou disposiçaõ das flores podem taõbem dar-nos muitas vezes
excellentes sinaes destinctivos. O cotanilho, felpa e pêlos saõ
ordinariamente empregados nos caracteres synopticos como notas
concomitantes; ellas saõ contudo as menos seguras, porque costumaõ
falhar ás vezes em razaõ da cultura, terrenos e idade das plantas Nota
Todas as vezes que os individuos naõ tiverem outra differença
mais do que os pêlos, naõ se devem reputar por differentes especies,
assim o Thymus serpillum e glabrum saõ sò variedades da mesma
especie; a Herniaria glabra e hisurta, de que Linneo fez duas
especies, parecem taõbem ser somente variedades, e talvez ainda
muitas outras.Nota
A viola mirabilis ainda que dá
na primavera flores radicaes petaleadas, como no estio todas as suas
flores caulinas saõ despetaleadas e dellas resulta o fructo, a falta
de corolla foy julgada ser huma excellente nota para a caracterizar
especificamente.Nota
Os sexos separados saõ postos no numero das variedades
naturaes pelos Botanicos modernos. Os antigos antes de Camerario naõ
tendo hum exacto conhecimento dos sexos, davaõ ás vezes o nome de
macho á planta, que pensavaõ ter mais virtude medicinal ou ser mais
vigorosa do que outra intimamente analoga, e esta porisso mesmo que
tinha menos virtude, vigor, ou extensaõ era segundo elles denominada
femea; daqui procederaõ os erros de darem os dictos nomes ás
hermaphroditas, e ás cryptogamicas de sexo obscuro, como v. g.
paeonia mas, paeonia faemina, filix mas, filix faemina, &c, e de
chamarem masculas as que eraõ femininas e vice versâ, como se vê no
canamo e mercurial.
A cor varia muito na mesma especie; a raiz da cenoira ora he
amarella ora vermelha ou branca; as do rabaõ radisio huma vezes he
branca outras denigrida; as folhas da mesma especie de aquifolio, buxo, persicaria,
amarantho papagayo, &c. ora saõ inteiramente verdes ora variegadas;
na faya, na alface e armoles hortense saõ ou verdes ou vermelhas, e nas
couves naõ deixaõ taõbem de haver exemplos de [Página 330] mudança de cor nas folhas . Mas nenhuma parte be mais sujeita a variar de cor na mesma especie do que
a corolla passando ora a cores mixtas ora a cores simplez, de que temos
exemplos nos jacinthos, tulipas, rainunculos Nota
Tournefort contou em huma sò especie de jacintho 36 variedades,
93 em huma especie de tulipa, e mais de 200 em huma de
rainunculo. Nota
Esta regra geral he sujeita a algumas excepçoẽs no parecer de
alguns Botanicos; algumas especies de Lichen e Agaricus segundo
elles, naõ se podem bem destinguir sem empregar os caracteres
fundados nas cores, e as divisoẽs synopticas das especies de
gnaphalium e achillea, fundadas na cor branca e amarella das
flores, saõ bem acertadas, e seguras; elles pensaõ que ha flores
de cores fixas, e muitas que rarissimamente mudaõ de cor; que
por conseguinte naõ ha razaõ sufficiente para naõ as empregarmos
nos caracteres synopticos; segundo elles, Linneo estabeleceo a
este respeito huma regra nimiamente severa, e devera attender
que muitas das notas tiradas da determinaçaõ das folhas , e direcçaõ do
tronco, que elle admittio geralmente como excellentes, saõ
algumas vezes menos seguras do que as cores de algumas flores.
Os cheiros como variaõ segundo os olfactos de differentes individuos, e naõ saõ susceptiveis de se poderem bem definir, naõ podem subministrar destinctivos claros das especies, nem ainda mesmo os que saõ denominados cheiros comparativos ou allusivos aos das plantas mais conhecidas; como v. g. ao do limaõ, herva doce, herva cidreira, cravo, canella, &c. Os sabores variaõ taõbem naõ so segundo os diversos organos gustativos, e idades de cada individuo, mas ainda segundo os terrenos e climas, e emfim podem ser adoçados e abrandados pela cultura: donde se collige que devem ser excluidos dos caracteres synopticos e essensiaes; demais disso as observaçoẽs gustativas saõ arriscadas, havendo algumas plantas, de que basta que hum modico succo toque a lingua para envenenar.
Os defeitos procedidos de enfermidade, mutilaçaõ, de viço ou monstruosidade em qualquer parte que se achem nas plantas saõ incapazes de poder servir de notas em caracter algum especifico; as flores dobradas, semidobradas, proliferas e mutiladas devem somente ser consideradas como notas naõ naturaes, que so podem caracterizar huma variedade de especie: alem disso as plantas, a que ellas pertencem, sendo originarias das especies naturaes, conservaõ sempre os sufficientes destinctivos da sua propria [Página 332] especie, e da mesma sorte que hum monstro naõ constitue especie entre os animaes, assim taõbem entre os vegetaes.
As virtudes e tisos diéteticos, medicinaes, e economicos, como naõ constituem partes das plantas, nao devem ser fundamento de caracteres especificos, ainida que possaõ entrar nas descripçoẽs historicas das es pecies; donde se segue que saõ erroneos todos os termos empregados nas phrases especificas destinados a indicar as virtudes e ussos, como v. g. purgativo, antiscorbutico, officinal, usual, venenoso, mortal, sadio, saudavel, dormideira, furioso, alimentar comestivel, bom para bassoiras, penteador, usado dos tintureiros, bom para tintas, &c., &c.
Os diversos climas, paizes e quaesquer lugares relativos á habitaçaõ das
plantas, como sendo-lhes accidentaes, naõ podem subministrar boas notas
especificas. Alem disso as plantas que se daõ em huma parte do nosso globo
podem-se dar em outra; temos exemplos de muitas especies naturaes da
Lapponia e Siberia, as quaes se achaõ igualmente no Canadá, outras que naõ
saõ mais particulares á Europea do que á Africa, e outras emfim que sendo
indigenas da Asia nascem naturalmente taõbem na America; as mesmas especies,
que se daõ nas lagoas, achaõ-se ás vezes nas altas montanhas; ha algumas que
se daõ tanto nos charcos como nos bosques, e outras que saõ raras em hum
paiz e abundantes em outro. Os que vem huma grande collecçaõ de plantas de
todas as partes da terra em hum jardim Botanico, ou em hum copioso hervario
de plantas seccas ou estampadas, e dezejaõ descobrir o nome de huma planta [Página 333] ou estudala por hum systema, so se podem servir dos termos relativos à sua
estructura, ficando-lhes indifferentes ou superfluos todos os que dizem
respeito, á sua habitaçaõ. Donde resulta que os termos geographicos, e todos
os que saõ relativos á habitaçaõ das plantas, naõ devem entrar em caracter
algum especifico, e que por conseguinte saõ erroneos os de Africana,
Europêa, Asiatica, Americana, occidental, oriental, austral, Portugueza,
Hespanhola Nota
Este defeito ficou nos nomes triviaes.
Os tempos de crescer, e florecer, como sujeitos a mudar e accidentaes ás plantas, naõ podem ser fundamento de notas especificas, e por conseguinte se empregariaõ erradamente nos caracteres especificos os termos de serodeo, temporaõ, da primavera, outono, estio, inverno, de Março, Mayo, de todos os mezes, de huma hora, que florece de noyte, &c.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura. Pelo contrario, a grandeza relativa, por meyo da qual as partes da mesma planta saõ comparadas humas com as outras, subministra notas assaz seguras, e se pode adequadamente empregar nos caracteres essensiaes e [Página 334] synopticos, pode-se por ex. caracterizar muito bem huma especie de lobelia, dizendo que ella tem pedunculos curtissimos e o tubo da corolla compridissimo. A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c. Donde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c. Da mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c. Nem sera menos vicioso usar de diminutivos e das termimçoẽs em oide ou forme, como v. g. genciana gencianella, isto he, pequena genciana que se assemelha á grande, couve asparagoide ou asparagiforme, isto he, couve que se asselha na forma ao espargo.
Todos os termos empregados nas phrases especificas, ou destinados a
exprimir as notas caracteristicas, devem ser claros, breves, e proprios
naõ se de vem por conseguinte usar os figurados, como v. g. dizer urtiga
morta ou fatua, em lugar de inerme, gentil por muito cheiroso, de flor
ou de folha por flores ou folhas , &c. Saõ igualmente improprios todos os que
saõ deduzidos de huma ordem numeral, como v. g. rainunculo primeiro,
segundo, terceiro, &c. e os que exprimem o nome de alguma personagem
como v. g. trevo de Gaston, narcizo de Tradescancio, &c., porque
semelhantes nomes naõ daõ ideas de nota alguma que se acha na planta. Da
mesma sorte os que saõ fundados em hypotheses, como v. g. dictamno
verdadeiro, falso, ou bastardo, e os que daõ ideas vagas e muito
arbitrarias, como v. g.. flores lindas, feas, &c. Nenhum adiectivo deve
ser usado sem ter antes hum substantivo technico Nota
A technelogia viria
por este modo a ser inconstante e muito vaga, o que seria defeito;
porquanto deve ser fixa, em razaõ de se oppor á corrupçaõ da sciencia,
conservando a certeza e clareza da sua linguagem.Nota
Este e outros muitos defeitos ficaraõ nos triviaes, de que usa
Linneo no seu Species plantarum, nomen clatura, que
ordinariamente se oppoem a que as leys da boa critica
estabelecidas pelo mesmo Botanico naõ sejaõ uniformes.
Ha contudo alguns nomes compostos das particulas privativas latinas e,
in, ou do a priativo grego Nota
Como v. g. enervis, enodis, eglandulosus, inermis, indivisus,
impunctatus, inarticulatus, acaulis, &c; alguns destes
termos podem traduzir-se pelas palavras Portuguesas compostas da
particula des. Nota
Como v. g. muticus, nudus.
Todos os termos assimilativos, isto he, destinados a exprimir
semelhanças, naõ devem ser usados nas phrases especificas, porque he
rarissimo que o asse melhado represente o seu simile perfeitamente, e
demais disso este fica muitas vezes sendo obscuro como v.g. se
dicessemos: folhas semelhantes
ás segures Romanas. Devem-se contudo exceptuar os que se achaõ definidos ou geralmente
adoptados, e os que saõ decentemente Nota
Vej. a Nota relativa aos termos assimilativos destinados á
descripçaõ dos caracteres genericos.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro. Naõ devem constar de termos superfluos, como seriaõ por ex. os que indicassem todas as variedades, ou se opposessem a ellas; nem ser taõ succinctas, que lhes faltem [Página 339] os termos sufficientes para bem caracterizar a especie. Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces. A conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas. Quando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa. O parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem. Como o caracter natural de qualquer especie exige ser descripto em muitas phrases, segundo as differentes partes de que consta; cada phrase deve ser posta separadamente para maior clareza, como exporei mais particularmente, quando tractar da descripçaõ das plantas.
Antes de Linneo as especies eraõ somente nomeadas com o seu caracter
synoptico ou essensial, posto immediatamente depois do nome generico; e em
razaõ disto todos os termos que nelles entravaõ, e ainda os mesmos
caracteres eraõ chamados nomes especificos (nomina specifica). Elle
conservou a mesma accepçaõ, e uso; mas vendo que naõ era possivel de
retelos de còr, e que eraõ sujeitos a mudança, descobertas novas
especies, imaginou de pôr entre elles e o nome [Página 340] generico hum termo Nota
As vezes saõ mais, como v. g. Impatiens noli me tangere: Panicum
crus galli, &c; mas isto he raro. Nota
Eu publicarei na minha Specinomia vegetabilium as regras, a que
os triviaes se podem sujeitar, e proporei hum systema de
nomenelatura invariavel em todas as destribuiçoẽs methodicas ou
systemicas, que se possaõ imaginar em Botanica.
Quanto á disposiçaõ das especies, facilmente se entende pelo que tenho dicto neste capitulo, que as que tiverem mais affinidade entre si devem estar mais conchegadas.
[Página 342]Huma variedade em Botanica (varietas), he huma forma vegetal desviada accidentalmente, por alguma causa occasional, da forma primitiva creada de que he originaria; ou para o dizer mais breve, he a especie accidentalmente mudada depois da creaçaõ. Eu não incluo nestas definiçoẽs as variedades naturaes creadas, que consistem nos sexos, mas fallo taõ somente das variedades casuaes que tem havido, ha, e podem ter lugar nas reproducçoẽs das especies primitivas. As variedades naturaes creadas saõ huma estructura vegetal creada em tudo identica a outra, mas differente no sexo ou n'alguns accidentes. Suppondo pois, como he provavel, que o Autor da natureza creasse no principio n'algumas especies vegetaes os dois sexos individualmente separados, assim como nas especies dos animaes; as variedades naturaes creadas saõ por conseguinte taõ antigas como a sua especie; porquanto consistindo a especie nas partes da estructura em tudo identicas e commuas aos dois sexos, e sendo as variedades naturaes creadas fundadas nestas mesmas partes acompanhadas da differença sexual, estas so por abtracçaõ methaphysica e naõ por ordem de tempo se podem perceber separadas da sua especie. Mas na hypothese de que todas as especies, que saõ hoje dioicas, foraõ creadas hermaphroditas, e [Página 343] que huma causa occasional, alguns seculos depois da creaçaõ, as tornou dioicas, neste cazo a unisexualidade somente deve constituir huma variedade casual, e naõ na tural creada.
As variedades saõ taõ proprias do reyno vegetal, como do animal; porque assim
como vemos na mesma especie canina, caẽs d'agoa, de fila, perdigueiros,
galgos, sabujos, &c., &c. assim taõbem opservamos na mesma especie
de pereira, as que daõ peras bojardas, carvalhaes, flamengas, do conde,
gervasias, pardas, &c.; e notamos na mesma especie de murriaõ plantas de
flores escarlatas e outras de flores azues. Todas estas variedades saõ
reputadas em hum e outro reyno por casuaes Nota
Se admittissemos a
hypòthese (que se tem por improvavel) de que algumas das variedades
de caens, pereiras, e as duas dos murrioẽs acima mencionadas
existiraõ em diversos lugares da terra no mesmo tempo primitivo da
creaçaõ da sua especie, ou de que saõ taõ antigas como ella, neste
cazo ficariaõ sendo variedades naturaes creadas pela razaõ de terem
sahido das maõs do Autor da natureza taes como as vemos hoje, ou
terem nascido immediatamente taes dos germes que elle creara, e naõ
serem occasionadas pelos terrenos, climas, &c. nas consecutivas
reproducçoẽs.Nota
Os ventos, chamados pelos sexualistas, conductores dos prazeres
ou dos amores das plantas, podem taõbem ser contados entre as
causas das variedades, e ainda mesmo as abelhas (segundo Hales)
pela razaõ de levarem comsigo de flor em flor o po fecundante de differentes especies de antheras . Nota
Na sua idade vigorosa tem as folhas lobadas , e
algumas ovadas, mas na velhice todas saõ ovadas, e o tronco he
arboreo.
Os Botanicos ordinariamente naõ costumaõ fazer mençaõ nos seus catalogos systematicos das variedades de cada especie, e apenas indicaõ algumas: elles pensaõ que jamais poderiaõ terminar os dictos catalogos, se emprehendessem de mencionar todas as variedades do reyno vegetal, e que ainda no cazo que fosse possivel terminalos, o estudo de Botanica ficaria summamente longo e fastidioso. Naõ negaõ contudo 1º, que se devaõ bem conhecer e conservar as que saõ uteis e agradaveis; 2º que se deva saber, destinguir o que he variedade do que he especie. Quanto ao primeiro artigo, deixaõ esse trabalho aos Autores que tractaõ da Botanica applicada às artes de pharmacia, de materia medica, horticultura, jar dinagem, e qualquer outra parte de agricultura, quanto ao segundo artigo confessaõ que sem a dicta distinçaõ se multiplicaria erroneamente o numero das especies, o que se opporia á clareza e brevidade methodica, que exige o estudo dos vegetaes; elles deraõ por conseguinte algumas regras tendentes a destinguir as variedades das especies, as quaes da mesma sorte que as que foraõ referidas no capitulo precedente, aindaque estaõ talvez bem desviadas da perfeiçaõ, a que hum mais profundo estudo da natureza as poderá conduzir, devem contudo ser presentadas aos que se daõ à Botanica, por naõ terem por especies entes, que dellas so differem levemente.
Todo o viço ou monstruosidade, que tem lugar no [Página 345] numero, figura, proporçaõ ou situaçaõ das partes de qualquer vegetal,
constitue huma variedade; e assim como no reyno animal hum monstro ou hum
eunucho somente saõ individuos imperfeitos da sua especie, assim taõbem o
saõ as plantas monstruosas e eunuchas, como as que daõ flores dobradas,
semidobradas, proliferas, e mutiladas. Todas as plantas enfermas,
mestiças, ou mulinas, Nota
Vej. o que disse a respeito destas plantas nos seus Cap.
respectivos.
Reduzir as differentes variedades á mesma especie he hum trabalho algumas
vezes muito mais difficil do que ajuntar as especies debaxo do mesmo genero.
Muitas vezes basta o caracter da especie para fazer reconhecer a variedade;
mas ha algumas variedades que exigem muitas reflexoẽs e experiencia,
requerem hum attento exame de todas as suas partes, ainda as mais miudas, e
huma combinaçaõ destas com as das suas congeneres e às vezes com as das
especies do genero vizinho, para se poderem reduzir á especie de que emanaõ. Ha algumas especies e ainda mesmo familias inteiras, em que os
individuos so costumaõ variar na raiz ; ha outras, em que
elles variaõ nas folhas ,
grandeza do tronco e ramos, na cor e pelos; e ha outras emfim, cujos
individuos somente soffrem mudanças nas flores ou fructos. Naõ se
devem jamais perder de vista as causas occasionaes; muitas plantas [Página 346] indigenas das montanhas, e que nessas costumaõ ter o tronco postrado, se
encontraõ muitas vezes em outros lugares differentes com o tronco levantado;
algumas amphibias saõ curvadas dentro d'agoa e levantadas fora della; o
rainunculo bolboso tem o tronco levantado, quando habita nas encostas dos
oiteiros expostas ao sol, e he pelo contrario reptante nos lugares humidos e
sombrios. Os sitios montanhosos fazem que as folhas inferiores sejaõ mais inteiras e as
superiores mais divididas; os lugares humidos fazem de ordinario fender
as folhas inferiores, e os
seccos as superiores. Ha alguns terrenos que fazem as folhas rugosas, bolhosas, e franzidas; outros que lhes fazem
perder os pelos. De todas as causas occasionaes a cultura he a que me parece contribuir
mais para à producçaõ das variedades; ella muda as folhas em crespas, ondeadas, e repolhudas, falas
maiores, abranda o seu amargor, e igualmente o acido e acerbo dos
fructos, torna-os succulentos de quasi exsuccos, e faz
perder os pelos aos troncos e ramos, a sua escabrosidade, e ainda mesmo
os seus espinhos. He precizo pois remontar a estas e outras causas
occasionaes para podermos, em cazo de duvida, decifrar huma variedade; se
conjecturamos v. g. ser a cultura e terreno a causa da mudança accidental da
especie, semeemos ou transplantemos a planta degenerada no seu terreno
natural, e veremos que abandonada ao estado inculto tornarà mais cedo ou
mais tarde à sua estructura e condiçaõ especifica. Esta experiencia he
necessaria algumas vezes relativamente áquellas variedades, que saõ
constantes em muitas geraçoẽs, e se continuaõ por sementes, de maneira
que parecem [Página 347] especies, como saõ v. g. as que daõ em nossos jardins e hortas flores
semidobradas, folhas repolhudas,
crespas, Nota
Ha plantas contudo, cujas folhas no terreno natural saõ crespas, e Linneo se
servio dellas no caracter synoptico da malva crispa, mentha
crispa, &c.; mas ha outras que elle julgou variaveis, e por
conseguinte so proprias para constituir variedades, como as da
chicoria crespa, tanacetum crispum, a matricaria crespa,
&c. Nota
As pereiras, maceiras, amexieiras, &c. sendo plantadas nos
matos, e deixadas á ley da natureza costumaõ dar fructos menos bons
do que as cultivadas; e aindaque naõ temos hum sufficiente numero de
experiencias que nos demostre o seu estado retrògrado sendo semeadas
repetidas vezes nos matos, ha contudo grande probabilidade que
depois de varias geraçoẽs tornariaõ á sua especie primitiva
sylvestre, de que tinhaõ emanado.
Os Botanicos quando querem indicar as partes ou notas variaveis que
constituem as variedades de huma especie, costumaõ algumas vezes
mencionalas depois do caracter especifico vistoque as differenças
especificas Nota
As especies e variedades, que a natureza lança do seu
seyo fecundo, tem caracteres, que se devem considerar como geraes
nas primeiras, e particulares nas segundas; porque se posessemos hum
caracter variavel por especifico, seguirse-hia que apparecendo-nos
hum individuo, que naõ tivesse o dicto caracter variavel, aindaque
fosse da mesma especie original, naõ o poderiamos reconhecer antes o
teriamos por huma nova especie, donde resultaria multiplicarmos
entes sem necessidade, e formarmos muitas especies falsas. Pelo que
todas as vezes que hum Botanico tiver a menor duvida, se huma planta
he especie ou variedade, deverá sempre indicar a sua duvida, quando
fizer mençaõ della, por ver se a experiencia de outros o
illumina.
M. dos alqueives. Com folhas indivisas; caule estirado. Varia nas flores, sendo as suas corollas ora escarlatas, ora azues, e algumas vezes tambem variegadas de branco e purpureo.
Em lugar de dizer:
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.
Donde se vê que às notas variaveis devem ser pospostas ás especificas, no cazo que dellas se haja de fazer mençaõ. Os nomes que exprimem estas notas nas phrases especificas saõ por alguns Botanicos chamados variantes (variantia); mas para fallar com propriedade, o nome variante so me parece devera ser chamado aquelle, que se posesse depois do trivial, [Página 349] como v. g. seriaõ os termos verde, repolhuda, e murciana na nomenclatura seguinte:
Couve hortense verde.
Couve hortense repolhuda.
Couve hortense murciana.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.
A descripçaõ das pantas ou he analytica ou historica. Descrever huma planta analyticamente he dar ideas expressivas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ de todas as partes, de que consta o seu caracter natural; descrevela historicamente he dar a descripçaõ analytica e alem disso tudo o que diz respeito à mesma planta, sem embargo de naõ ser parte constitutiva do seu caracter natural Botanico.
A descripçaõ analytica deve ser feita no lugar, em que a planta nasce e
habita naturalmente, e naõ nos jardins, aonde a cultura a pode fazer variar
ella abrange todo o estado progressivo da planta [Página 350] desde a sua germinaçaõ athe à madureza e quéda das sementes, sem
desprezar a menor parte do habito externo nem as minimas da fructificaçaõ,
que precizaõ de huma lente para bem se divisarem (o que succede poucas
vezes). Cada huma das dictas partes deve ser exposta com termos technicos, e
em paragraphos separados por evitar confusaõ. Quando observarmos alguma
variedade, notala-hemos no paragrapho da parte, a que ella for relativa. Devem-se omittir as circumstancias que dizem respeito á physiologia,
e historia da planta, por serem consideradas como superfluidades nas
phrases de huma descripçaõ puramente analytica Nota
Estas circumstancias devem reservar-se para a descripçaõ
historica; ha contudo algumas, que sem embargo de pertencerem
rigorosamente á descripcaõ historica naõ deixaõ de ser por
alguns Botanicos mencionadas de passagem na analytica, como saõ
por ex. a irritabilidade da Dionaea muscipula e Sensitiva, as
cores dos succos, e a consistencia destes mesmos succos, ou
resinas e gomas, quando saõ vertidas da casca sem aberturas
artificiaes. Nota
O
Philos. Botan. Num. 326-330.
Descripçam Analytica da Tilha da Europa Nota
Tilia Europaea, Lin. Nos damos taõbem a esta arvore o nome de til e de telha.
Germinaçam********* Nota
Linneo naõ fez mençaõ da disposiçaõ das cotyledones, da figura
das folhas seminaes, e
de tudo o que pertence ao estado da germinacaõ das sementes;
isto he hum defeito, porque toda a descripçaõ analytica deve
começar por este estado da planta, e quando naõ houver occasiaõ
de o observar, deve-se indicar do modo acima expresso, para que
outros que tiverem esta occasiaõ nolo descrevaõ.
Radicaçam. Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.
Tronqueadura. Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.
Gomoscencia. Gomos alternos, covados, estipularesfolheares, formados de quatro ou cinco escamas ovadas, obtusas, levemente enroladas para dentro, e hum tanto carnudas na base; as duas externas saõ menores e desiguaes.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.
[Página 352]FOLHEATURA. Nota
Eu tomo aqui este termo em huma accepçaõ mais extensa do que Linneo
lhe costumava dar, entendendo por ella naõ so a disposiçaõ, que tem
as folhas tenras dentro dos
gomos e no seu brotamento, mas ainda todo o estado das folhas adultas e seus
peciolos.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.
Peciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .
Inflorecencia Nota
As bracteas e pedunculos, como partes as mais chegadas ás flores, e
fundamento da sua diversa disposiçaõ, saõ com propriedade postos
aqui debaxo da divisaõ da Inflorecencia.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.
Pedunculos solitarios, laterifolios, mais compridos do que o pecioso,
filiformes, recompostos; os communs ou primarios tripartidos, os
secundarios lateraes taõbem ordinariamente tripartidos, e o medio [Página 353] indiviso, de modo que todos vem a soster sette flores Nota
Estas divisoẽs do pedunculo commum, e o numero das flores variaõ
muito.
Flores racimosas, e elevadas quasi á mesma altura.
Fructificaçaõ.
Calys. Perianthio partido em cinco lacinias concavas, de cor aloirada, quasi da grandeza das petalas, e decadentes.
Corolla. De cinco petalas oblongas, obtusas, pallidas, e crenadas no cume.
Estames. Filetes numerosos, de trinta athe quarenta, assovelados, do comprimento da corolla, e apegados ao receptaculo. Antheras hum tanto globosas.
Pistillo. Germe hum tanto globoso e cotanilhoso. Estylete filiforme, e da altura dos estames. Estigma obtuso e pentágono.
Pericarpo. Huma capsula cotanilhosa, globosa pentagona, de cinco cellulas, e cinco valvulas coriaceas, as quaes costumaõ arbrtrse pela base.
Sementes. Solitarias e hum tanto globosas: saõ dycotylẽdones, e contem no centro o corculo guarnecido de hum asterisco de cinco lacinias quasi iguaes.
N. B. Ordinariamente quatro sementes abortam, de modo que a capsula fica sendo de huma so cellula e contem sò em si a unica semente, que costuma medrar.
[Página 354] A descripçaõ historica de huma planta, ou segundo outros a historia
natural de huma planta comprehende alem da sua descripçaõ analytica, a
synonymia, etymologia do seu nome usual, habitaçaõ cultura, o tempo
vegetativo, o tempo de sono e vigilias das suas folhas e flores, a sua estructura interna ou
natureza considerada physiologica e chymicamente, os seus usos
mediornaes e economicos, e emfim a sua figura bem estampada. He verdade que ordinariamente huma descripçaõ historica naõ contem todas
estas circumstancias, e se limita so em conter a descripçaõ analytica,
synonymia, habitaçaõ Nota
A synonymia e habitaçaõ, como circumstancias as mais necessarias,
costumaõ taõbem por se nos catalogos das especies depois dos
caracteres synopticos ou essensiaes.
A synonymia he hum aggregado de citaçoẽs dispostas em paragraphos
separados e successivos, nos quaes se indicaõ naõ so os diversos nomes,
caracteres synopticos, essensiaes, ou Nota
A synonymia he ordinariamente muito limitida e imperfeita nos
catalogos systematicos a respeito das variedades, o que
certamente he hum defeito, porquanto a noticia das variedades
serve de conservar o verdadeiro caraeter da especie sem
obecuridade nem consusaõ, e contribue para fazer evitar enganos
de ter por especie o que so he variedade. Nota
O infatigavel Gaspar Bauhino vendo que muitos nomes davaõ ideas
de muitas differentes plantas, e que por conseguinte causavaõ
huma grande confusaõ no estudo dos vegetaes, emprehendeo de se
oppor a este inconvemente, e nos deo no seu Pinax hum bom
tractado de synonymos, o qual foy depois continuado por
Sherardo, Dillenio, e Sibthorpio; mas este tractado esta ainda
bem distante da sua perfeiçaõ.
A noticia da habitaçaõ das plantas he taõbem de grande utilidade; ella serve de indicarnos o lugar aonde as podemos ir buscar para os nossos herva rios, afim de conservarmos o claro conhecimento dellas em successivos tempos, mostra nos aonde as podemos ir colher para os differentes usos medicinaes e economicos, instrue nos sobre a qualidade do terreno que lhes he proprio (estabelecendo nisto o principal fundamento da agricultura), e emfim conven cenos que naõ ha na terra lugar algum inteiramente esteril, ou que taõ somente ha lugares estereis relativamente a esta ou aquella planta, mas naõ a todas. Donde resulta que na deseripeaõ historica de qualquer planta a noticia da sua habitaçaõ he absolutamente necessaria.
O tempo vegetativo inclue 1º o espaço de tempo em que a semente de huma
planta jaz debaxo da terra, desde o dia em que foy semeada athe áquelles
em que a plantula seminal, rebentados os tegumentos, brota fora delles,
e a sua plumula começa a apontar á flor da terra; este espaço he chamado
por alguns Botanicos tempo da germinaçaõ ou incubaçaõ das sementes Nota
Germinatio, seu incubatus seminum. Alguns Botanicos assignaõ
tres sortes de vida ao germe ou corculo das sementes: huma
comaterna, que elle recebeo e conservou na planta que o produzio,
vegetando com ella athe ao estado de plena madureza; outra inactiva
por meyo da qual conserva illesa a sua estructura, a vis productiva
e vegetativa, sem contudo vegetar pela razaõ de que o movimento dos
seus fluidos he nimiamente lento, e as suas funçoẽs vitaes estaõ
muito entropecidas e adormentadas em certo modo como as das cobras,
lagartos, formigas, &c. durante o inverno, no qual parecem
mortos; esta sorte de vida, segundo elles, he a que tem o germe
desde a quéda das sementes athe á germinaçaõ exclusivamente; outra
emfim germinativa, que começa na germinaçaõ. Zullingero admitte
nestes tres differentes estados das sementes huma especie de
fermentaçaõ continuada, querendo que ella comece na fecundaçaõ, e
que no segundo estado sirva de aperfeiçoalas e dispolas para receber
os succos da terra, que contribuem para à germinaçaõ, accrescentando
que se este entrevallo for longo ou a fermentaçaõ nimiamente
prolongada destruirá a vis vegetativa dilatando-lhes os vazos athe
rompelos e fazendo evaporar as particulas oleosas. Mas este segundo
estado vital, e de fermentaçaõ parecem ser demasiadamente
hypotheticos; a dureza e seccura, que observamos entaõ nas sementes,
naõ nos indicaõ que nellas haja movimento de succos nem funçoẽs
vitaes, e por conseguinte so se lhes pode admittir vida, tomando a
idea desta palavra em hum sentido nimiamente amplo. Pelos mesmos
motivos naõ parece que haja antes da germinaçaõ movimento algum
intestino, e se o houvesse concorreria tanto para a fermentaçaõ como
para a putrefacçaõ. Portanto todo o movimento fermentativo que tem
lugar na germinaçaõ he inteiramente novo. Quando as sementes se
achaõ debaxo da terra, e que a humidade penetrando pelos poros dos
seus tegumentos, ou pela sua cicatriz umbilical, faz amollecer o
corculo e as cotylédones, ajudada do calor conveniente, a sua
substancia farinosa tornase pouco a pouco em lactea, e se percebe
nelles hum sabor mais doce e hum cheiro particular; todos estes
phenomenos indicaõ huma mistura interna das suas partes
constitutivas occasionada por hum movimento intestino, e como elles
senaõ observaõ de modo algum antes que a humidade e phlogisto
competentes tivessem entrado no germe e cotylédones, o movimento,
que he hum effeito destas causas, he inteiramente novo assim como
ellas o saõ nas sementes.Nota
Na preflorescencia se deverá taõbem fazer mençaõ, se a planta
florece duas ou mais vezes no anno, e em que dias e mezes. Nota
Notar-se-ha taõbem na frutescencia, se a planta da duas ou mais
vezes fructos no anno, e em que mezes. Nota
A circumstancia de huma planta conservar as suas folhas todo o anno, ou de
naõ perder humas sem que comecem a nascerlhe outras, pode ser
referida tanto no tractado da desfolha como da
enfolhescencia.
A noticia dos differentes oleos, leves, pezados, liquidos, concretos,
tirados por destillaçaõ ou expressaõ, a dos diversos saes alcalinos, do
sal commum, nitro, assucar, tartaro, acidos, differentes gazes, &c. Nota
Das substancias que entraõ na composiçaõ dos vegetaes humas
saõ commûas a todos, como v. g os oleos, os alcalis fixos, os gazes,
a agoa, e terra; outras saõ menos geraes e somente proprias a hum
certo numero, como v. g. o alcali volatil que se acha nos cogumelos,
mostarda, trigo, &c. o alcali mineral que se dá nas especies de
salsola, de salicornìa, e outras plantas maritimas, o sal commum que
se acha na salsola soda, o nitro na alfavaca de cobra, gyrasol,
&c, o sal de Glauber na tamargueira, o tartaro nas uvas, o sal
ammoniaco na cigude, o enxofre na inula helenium, e rumex patientia,
o alcanfor no alcanforeiro, hortelaan apimentada, labiaes e algumas
compostas (segundo Gaubio e Neuman), os oleos essensiaes, como o que
se dá nas cellulas vesiculares da casca da laranga, flores
fragrantes e partes cheirosas das plantas, os oleos corados, como o
oleo azul que se tira da camomilla, os oleos pezados ou que vaõ ao
fundo d'agoa como o do cravo da India, os acidos particulares a
certos fructos, raizes e sobreraizes; a materia saccharina que se dà
em hum grande numero de flores, fructos, e em todas as gramas (e
talvez em todos os vegetaes) &c, &c.
Os usos economicos e médicinaes naõ devem ser omittidos em qualquer descripçaõ historica por mais incompleta que seja a respeito de outras circumstancias; a Botanica deve a elles a gua origem, e desde os primitivos dias da especie humana athe hoje o estudo dos vegetaes foy sempre dirigido à sua utilidade. Eu darei algumas breves noçoẽs sobre estes usos no Capitulo XL.
Como a Botanica naõ pode demonstrar a fé dos caracteres por hum rigor
mathematico Nota
A certeza que adquirimos do nome de huma planta por meyo dos
caracteres, que lemos nos livros dos Botanicos, naõ pode jamais
chegar ao grao de evidencia mathematica, ou vir a ter força de
demonstraçaõ, por muitas razoẽs, principalmente porque nas
descripçoẽs que se costumaõ dar de qualquer planta sempre falta
alguma circumstancia, e como pode haver no globo terreste huma
especie em tudo semelhante nos caracteres dados a outra, e
dessemelhante nos omittidos, podemos por conseguinte facilmente
enganar-nos dandolhe o nome de estoutra. Nota
Vej. Estampa XXIX
e XXX deste Compendio, vol. 2.Nota
Vej. a Estampa XXX
deste Compendio.Nota
Vej. a Estampa XXIX
deste Compendio.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.
[Página 362] GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
O chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
III. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
[Página 407]Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
As infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
[Página 424]Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
[Página 428]Em todos os tempos o homem procurou sempre nos vegetaes meyos de restabelecer
a sua saude, de se alimentar, de se reparar dos frios ou calmas, e de muitas
outras precizoẽs; a necessidade e o acazo lhe fizeraõ reconhecer pouco a
pouco as propriedades de alguns destes entes enteressantes; estas
propriedades conservadas ou por tradiçaõ ou escritas chegaraõ emfim a servir
de fundamento de tractados mais ou menos perfeitos segundo as differentes
graos de progresso do espirito humano; sobre ellas fundaraõ os antigos
Gregos e Romanos tractados de materia medica e de agricultura, e ainda hoje
as propriedades dos vegetaes saõ as notas caracteristicas em que os autores
de materia medica fundaõ as suas destribuiçoẽs methodicas Nota
Nos Methodos
de materia medica as classes, ordens e outras divisoẽs saõ fundadas
sobre as propriedades medicinaes das plantas,e nos methodos botanicos as
classes, ordens, &c: saõ fundadas nas notas da fructificaçaõ e
habito externo, independentemente das suas virtudes, e usos.
Os methodos botanicos, o lugar de habitaçaõ, os succos, nectarios, as qualidades de cheiro, sabor, e cores dos vegetaes e as suas analjses chymicas tem sido os meyos investigativos, de que os sabios se tem servido nestes ultimos tempos para indicar nelles a uniformidade e dessemelhança de virtudes, e estabelecer regras geraes a respeito dellas.
Os methodos, ou systemas botanicos saõ ou artificiaes, ou naturaes, como jà
mencionei nos capitulos precedentes. Os systemas artificiaes, como sujeitos
a leys nimiamente arbitrarias, e a reunir plantas ordinariamente differentes
no habito externo, naõ podem, senaõ por acaso, offerecer divisoẽs genericas
de plantas de uniformes virtudes; os methodos na turaes saõ por conseguinte
os unicos que podem subministrar divisoẽs menos sujeitas a engano
relativamente à dicta uniformidade. Linneo assignou pois a este respeito a
regra seguinte: todas as plantas que sam do mesmo genero natural, sam tambem
da mesma virtude; e as que sam da mesma familia ou divisoens naturaes,
participam mais ou menos da mesma virtude Nota
Plantae, quae genere
convenìunt, virtute ettam conventunt; quae in ordine naturali
continentur etiam virtute proprius accedunt, quaeque classe naturali
congruunt etiam viribus quodam modo congruunt. Lin. Philos Botan. p.
278.Nota
Este parecer he seguido por muitos sabios Naturalistas e famosos
Medieos, como Daubenton, Cullen, &c. Vej. Lectures on the Materia Medica, by Villiam Cullen, p. 158,
169. Lond. in-4. donde copiei huma grande parte das reflexoẽs,
que opponho aqui aos sentimentos de Linneo. Nota
Como por ex. comparar os fructos de huma especie com os de
outras, as folhas com folhas , raizes com
raizes, flores com flores, a casca do tronco de huma especie com
a casca do tronco de outras congeneres naturaes, &c. Nota
A figueira por ex. he huma arvore venenosa, e os seus fructos saõ saudaveis. Nota
A idade, e constituiçaõ do sujeito, e igualmente a
dose das substaucias vegetaes fazem taõbem
algumas vezes variar a acçaõ das suas virtudes; o que he somente hum
purgativo ao homem robucto, he venenoso ao homem debil e de vida
sedentaria, como se tem visto algumas, vezes na Euphorbia.
Muitos Botanicos modernos, principalmente, os que saõ apaxonados pelos
methodos naturaes, pensaõ que naõ so senaõ devem desprezar as affinidades
dos caracteres botanicos na investigaçaõ das qualidades e virtudes
medicinaes das plantas, mas taõbem que ellas nos dirigem com segurança a
substituir huma planta a outra em hum grande numero de familias naturaes.
Linneo parece ter sido deste parecer, e nos deixou a este respeito na sua
Philosophia Botaniça Nota
Vej. Phil. Bot. p. 279-282.
As Gramineas (Graminea, Ordo Naturalis IV.) Nota
Quanto as ordens,
naturaes estabelecidas por Linneo, e igualmente quanto aos generos
aqui citados Vej. Lin. Genera plantarum, edit, novissima, cur. J. J.
Reichard.
As Estrelladas (Stellatae, ord. nat. XLVII.) saõ diureticas, como a ruiva dos tintureiros, amor de hortelaõ, asperula, galium, &c.
As Borragineas ou Asperifolias (Asperifoliæ, ord nat. XLl) podem servir de hortaliças, e saõ mais ou menos mucilaginosas e glutinosas, como a buglossa, borragem, e consolda maior.
As Luridas (Lurida, ord. nat. XXVIII.) saõ suspeitas de venenosas e narcoticas, como a belladona, stramonio, meimendro, mandragora, nicotiana, as solaneas, bringelas, e ainda mesmo os tomates. O pimentaõ he summamente acre.
As Umbrelladas (Umbellatae, ord. nat. XLV) quando vegetaõ nos lugares seccos saõ aromaticas, calefactivas, proprias para excitar o suor, ourinas, menstruos, leite, e dissipar as flatulencias, como saõ por. ex. o levisticum, assa faetida, angelica, imperatoria pimpinella, peucedanum, opopanax, galbanum, carvi, [Página 435] cuminum, daucus, meum, faniculum, &c; as que nascem em lugares aquosos saõ venenosas, como a cicuta, aenanthe, sison, phellandrium, e apium palustre; as suas virtudes residem nas raizes e sementes.
As raizes das plantas da classe Hexandria, que saõ inodoras, costumaõ usar-se em algums paizes como alimento, v. g. as da tulipa, tilium martagon, e ornithogalum; mas as que tem hum cheiro viroso saõ venenosas, como as da cebola alvarraan, jacintho narcizo, coroa imperial, leucojum, goriosa, e anthericum.
As Bigornes (Bicornes, ord. nat. XVIII.) saõ astringentes, como a urze, pyrola, vaccinium, e principalmente o arbutus urva ursi; em alguns paizes costumaõ comer-se as suas bagas acidas, como as do medronheiro, as do arbutus uva ursi, vaccinium uityr tillus e exycoccus, diospyros virginiana, e melastoma.
Os fructos polposos da classe Icosandria saõ usados como alimentos, taes saõ v. g. as maçaans, peras, marmelos, romaans, fructos do pirliteiro, as nesperas, sorvas, groselhas, pessegos, damascos, ameixas, ginjas e cerejas na familia das Pomaceas (Pomaceae, ord. nat. XXXVI.); os morangos, amoras de sylva, e bagas da roseira de caõ nas Senticosas (Senticosae, ord. nal. XXXV.); emfim os fructos da eugenia e psidium nas Hesperideas (Hesperideae, ord nat. XIX.)
As plantas da classe Polyandria ordinariamente saõ venenosas; como saõ o
aconitum, Nota
Linneo conta taõbem entre as plantas venenosas o aconitum
anthora; outros autores contudo duvidaõ das suas qualidades nocivas, e
lhe chamaõ pelo contrario o aconito saudavel, dizendo que elle he hum
contraveneno do ranunculus thora.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.
As Cruciferas ou Siliquosas (Siliquosae, ord. natXXXIX) saõ acres, incisivas, detersivas e diureticas; como saõ os agrioẽs, a cochlearia, a armoracia, &c.; ellas perdem muito da sua virtude no estado de seccas, e porisso devem ser usadas em quanto verdes.
As Malvaceas (Columniferae, ord. nat. XXXVII.) saõ mucilaginosas, lubrificantes, embotaõ a acrimonìa dos humores, e saõ suppurativas em razaõ da sua virtude emolliente; taes saõ por ex. a malva, a althea, &c.
As Leguminosas (Papilionaceae, ord. nat. XXXII.) saõ excellentes para pastos ou alimento dos quadrupedes, como v. g. o trevo, medicago, trigonella, hedysarum, vicia, loeus, e lathyrus: as suas sementes saõ farinhosas e flatulentas, e servem de alimento aos homens e varios animaes, taes saõ principalmente as favas, ervilhas, feijoẽs, graõs, lentilhas, e chixaros.
[Página 437]As Compostas (Compositae, ord. nat XLIV.) saõ muito usadas em medicina, e commumente saõ amargosas, como sao v. g. o cardo sancto, a chicoria, o almeiraõ, o cardo mariano, a pilosella, o dente de leaõ, a losna, a matricaria, a chamomilla, as macellas, a tanasia, a balsamitta, eupatorium, achil lea ageratum, santolina, abrotanum, carlina, acmella, artemisia, &c.
As Orchideas (Orchideae, ord. nat. VII.) saõ aphrodisiacas, taes saõ principalmente a orchis bifolia, orchis morio, e o epidendron vanilla.
As Estrobilosas (Coniferae, ord. nat. LI.) saõ resinosas, e diureticas, como, saõ v. g. os pinheiros, o abeto, acipreste, sabina, zimbro, e juniperus lycia.
A Classe Cryptogamia contem muitos vegetaes suspeitos; os fetos tem hum cheiro desagradavel: os musgos do mesmo modo; das algas saõ rarissimas as que se comem, e muitas saõ purgativas; e os fungos saõ segundo Plinio huma perigosa comida.
Taes saõ em geral os sentimentos de Linneo sobre as familias naturaes; mas todas estas, generalidades saõ sujeitas a mais ou menos excepçoẽs, que seria prolixo expor aqui. Direi somente que os grãos das qualidades dos vegetaes variaõ infinitamente, e talvez à proporçaõ do numero dos individuos: nas Gramineas, por ex, as sementes cerealinas servem de alimento ao homem, mas que differença naõ ha entre o paõ de trigo e o de milho, e cevada? Quanto naõ differe o alimento do arroz do que fornece o paõ de trigo? Quanto naõ differem entre si os fructos polposos, que se usaõ como alimento? Que desigualdades naõ há algumas vezes entre as plantas [Página 438] aromaticas, amargosas, acidas, acres, e astringentes do meSmo genero? As vezes o principio nutritivo está separado de todo o veneno, como nas sementes cerealinas, outras vezes misto com hum principio amargozo ou combinado com huma substancia mais ou menos venenosa, como nalgumas solaneas e na mandioca; quanto naõ variaõ as quantidades dos principios saborosos, odorantes, e outras partes constitutivas de cada hum dos individuos vegetaes, e que variedade no modo, e circumstancias com que se achaõ combinados? Eu confesso ingenuamente a fraqueza das minhas luzes a este respeito; peloque deixo aos que se occupaõ de Materia Medica, e practica de Medicina o decidir athe onde seja justo o sentimento "de que se pode em algumas familias naturaes substituir humas plantas a outras."
O lugar de habitaçaõ dos vegetaes tem parecido taõbem a alguns botanicos hum
meyo de poder descobrir as suas incognitas virtudes. Linneo assignou a
este respeito a regra seguinte Nota
Locus siccus sapidiores,
succulentus insipidas magis, aquosas (sapius) corrosivas reddit.
Liu. Phil. Bot. p. 283.Nota
Vej. pag.
430.Nota
Debaxo do
nome de exposicaõ (expositio) devem entender-se os lugares expostos ao
sol, os sombrios, encostas, lugares altos e lavados dos ventos, os
valles, fugares que ficaõ ao norte, sul, nascente ou poente,
&c.Nota
A alface em razaõ da cultura he incomparavelmente menos
narcotica, o almeiraõ muito menos amargoso, e a escorcioneira
summamente adoçada e amaciada.
Os succos lacteos das plantas saõ de ordinario hum indicio de màs
qualidades, e he por esse motivo que Linneo estabeleceo a este respeito
a regra seguinte Nota
Lactescentes plantae communiter veneuatae sunt,
minus autem semiflosculosae et campanulacea. Lin. Phil. Bot. p. 282,
283.Nota
Linneo conta entre as
plantas de succos lacteos, que saõ venenosas, as seguintes; a
rauwolfia, thevetia, cerbera, plumieria, tabernamon-tana, periploca,
apocynum, cynanchum, ceropegia, e asclepias na familia das Contortas
ou de corolla retorcida (Contortae); a bocconia, sanguinaira,
papaver, argemoue, chelidouìum, nas Papaveraceas (Rhaeades); a
cambogia, dalechampia, euphorbia, e jatropha, nas Tricóxcas
(Tricoccae); e alem nisso varias outras, como a melia, ficus, thus,
acer, e agaricus.Nota
Nas especies de alface ha algumas que saõ reputadas venenosas,
como a Lactuca virosa, mas segundo as observaçoẽs de alguns
practicos modernos o extracto, desta planta pode ser dado mesmo
em grande dose como hum excellente aperitivo, e sedativo, e o
Dr. Joze Collin a recommenda nas hydropisias; ainda mesmo as
cultivadas nos paizes quentes saõ hum tanto venenosas, segundo
Galeno (Vej. Cullen Mater. Med. p. 306. ed. de Lond. in-4.) O Dr. Macquer pensava que ainda mesmo nas alfaces das nossas
hortas ha huma qualidade narcotica, como lhe ouvi muitas vezes
dizer nas suas liçoẽs.
Linneo pertendeo ter achado nos nectarios hum meyo para poder taõbem
reconhecer as màs qualidades de algumas plantas, e estabeleceo a este
respeito o aphorismo seguinte; as plantas, que dam flores com hum
nectario destincto das petalas, commumente sam venenosas Nota
Plantae floribus nectario a petalis distincto
cnmmuniter venenatae sunt Lin. Phil. Bot. p. 282. Os
exemplos que aponta saõ os seguintes: aconitum, helleborus,
aquilegia nigella, parnassia, epimedium, clutia, keggellaria,
hyacinthus, stapelia, ascleplas, mirabilis, nerium, narcissus,
zygophyllum, dictamnus, e melianthus.
O cheiro, sabor, e cores saõ os principaes meyos de que os medicos se servem
para conhecer as virtudes medicinaes de qualquer substancia vegetal. O
primeiro aphorismo a este respeito he, que todas as substancias vegetaes
insipidas, e inodoras tem muito pouca ou nenhuma virtuade em medicina Nota
Insipida et inodora vim medicam vix
exercent. Lin. Philos. Bot. p. 283.Nota
Entre estas algumas foraõ conservadas como alimentos, e naõ como
medicamentos. Nota
Sapidissima et odoratissima semper maximam vim possident.
LinPhil. Bot. p. 283Nota
Cullen, Mat. Med p. 161, 162, ed de Lond.
in-4.Nota
Sapidae et
suaveolentes bonae sunt; nauseosae et graveolentes venenatæ sunt.
Lin. Phil. Bot. p. 284Nota
Cullen Mat. Med. p. 162.Nota
O Dr. Cullen parece entender, aqui a fragrancia das flores; eu
conjecturo contudo que Linneo quiz dar a entender a fragrancia,
que existe em todo o corpo das plantas, comprehendendo as folhas , ramos, tronco e raiz ; e neste sentido o seu aphorismo parece
ter muito poucas excepçoẽs. O Dr. Cullen naõ admitte taõbem
a assersaõ de Linneo. Sapida non agunt in nervos, nec olida in
fibras musculares; pensando que o que obra sobre os nervos obra
taõbem sobre as fibras musculares e vice versá, em razaõ das dictas
fibras serem em parte huma continuaçaõ dos fios nervosos, ou ao
menos intimamente adunadas a elles e sujeitas á sua acçaõ. Diz alem
disso que o aphorismo do mesmo Botanico: Ambrosiaca analeptica,
Fragrantia orgastica, Aromatica excitantia, Tetra stupefacientia,
Nanseosa corrosiva: he ambiguo, obscuro, e pouco fundado na
natureza. Ibid. p. 163.Nota
Color pallidus insipidum, viridis crudum, luteus
amarum, ruber acidum, albus delce, niger ingratum indicat. Lin. Phil.
Bot. p. 286.Nota
Os exemplos, que Linneo aponta nesta ultima regra,
saõ: baccae atropae, actaeae, coriariæ, solani, tini, enpetri et
padi. As bagas negras de algumas urzes e do ribes nigrum aindaque
desagradaveis naõ contem contudo veneno algum.
As operaçoẽs chymicas tem parecido a muitos sabios hum dos melhores meyos de
investigar as virtudes dos vegetaes; foraõ por conseguinte tractados por
expressoẽs, trituraçoẽs em agoa, infusoẽs em espirito de vinho ou agoa,
distillaçoẽs a fogo brando ou forte, e por todos os meyos que conduzem a
analysar os seus principios; a sua analyse tem dado a conhecer as suas
partes extractivas, gomosas, mucilaginosas, saccharinas, amilaceas,
resinosas oleosas, stipticas, aromaticas, e os differentes saes e terras,
que entraõ na sua composiçaõ. Naõ se pode negar que todos estes
conhecimentos reunidos com alguns dos que acima mencionei saõ
bastantemente uteis para nos fazer discorrer sobre a natureza dos
vegetaes com maior segurança do que os antigos discorriaõ; com estas
luzes podemos taõbem melhor do que elles julgar das suas virtudes; mas
quem attender bem ao muito que variaõ os acidos e alcalis mos
differentes vegetaes quanto à quantidade e qualidade, o muito que os
seus outros principios variaõ taõbem nas proporçoẽs, e saõ alterados
pelo fogo, a grande difficuldade, ou impossibilidade que ha algumas
vezes de obter os seus principios subtis e volateis, nos quaes contudo
consistem as suas principaes virtudes, naõ estranhara certamente a
asserçaõ de alguns grandes [Página 448] medicos Nota
From chemical investigation much has been expected; but
it is now known littte can be obtained. Cullen Mat. Med. pag. 167
ed. de Lond. in-4.
Depois do descobrimento do Dr. Ingen-Rouz Nota
Vej. Experiences sur les
Vegetaux, par M. Ingen. Houz. Paris, 1780, in-8, ou a ultima ediçaõ,
aonde esta materia he tractada com todos os detalhes, que o leytor
pode dezejar.Nota
Ha a
este respeito huma experiencia bem simples; ponha-se hum ramilhete
de flores em hum copo dagoa, cubra se com huma campanula de vidro de
modo que o ar ambiente naõ entre pela base da dicta campanula; as
flores corromperaõ o ar interno de tal modo que se no dia seguinte
mettermos hum pardal dentro da campanula (immediatamente que a
levantarmas) o animal morrera dentro de poucos minutos, e se
mettermos taõbem hum coto de vela accesa no sendo da dicta campanula
se apagara em continente. Veja-se Experiences sur les Vegetaux, que
acima citei. Huma planta ordinariamente vicia huma quantidade de ar
dez vezes maior do que ella.
A idade, e o tempo em que as plantas e suas differentes partes devem ser
colhidas, e o modo de as [Página 449] seccar, e conservar para os usos medicinaes são circumstancias que
naõ devo passar aqui em silencio, viso que podem influir muito sobre as
suas virtudes Nota
Vej. Iacobi Silvii Opera Medica. Colon. Allobrog.
1630. in-fol.; et Georg. Rud. Boehmeri De collectione simplicium
Disput, &c.Nota
As cruciferas e labiadas parecem exceptuar-se desta
regra em razaõ de melhorarem nas suas quasidades por meyo da
cultura.Nota
He
por este motivo que o viscum e polypodium, que se daõ nos carvalhos,
saõ melhores para os usos medicinaes, em razaõ de terem mais
astringencia.
As raizes bolbosas e tuberosas devem ser colhidas na outono; quanto às
outras, muitos pertendem que devem ser arrancadas na primavera, logo que
começaõ a brotar folhas ,
porquanto a seiva que conservaraõ e adquiriraõ no inverno he entaõ
elaborada e lhes dà hum grande vigor, sendo neste periodo succulentas , tenras, carnudas, e bem nutridas; quando pelo
contrario, no outono saõ duras, quasi exsuccas e nimiamente
enfraquecidas de terem nutrido o troço [Página 450] ascendente e suas partes. He difficil de assignar regras geraes a este repeito, sendo certo que
quasi em todas as estaçoes do anno se podem colher boas raizes Nota
As raizes carnudas das plantas annuaes, como as dos rabaõs,
nabos, cenoiras, &c. que se usaõ como hortaliças, podem ser
colhidas em todas as estaçoẽs, contanto que sejaõ tenras e antes
da florecencia, porque neste periodo ficaõ occas ou
esponjosas. As malvaceas, em razaõ de serem usadas como emollientes, devem
taõbem ser colhidas tenras.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas. A casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.
Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar. Os ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ. As folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c. As avenças, polypodios e outras plantas da familia dos fetos devem ser colhidas durante o tempo da florecencia.
O melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica. As antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.
Os fructos ou pericarpos devem apanhar;se no estado de madureza, que naõ seja demasiada, como he a do [Página 452] periodo em que delles cahem as sementes; ha alguns fructos contudo que se apanhaõ verdes, e saõ assim usados em Medicina, mas saõ em pequemo numero ou huma pequena excepçaõ da regra geral.
As sementes devem ser colhidas gradas, e em plena madureza Nota
As excepçoẽs
a esta regra saõ muito poucas em medicina: ha algumas sementes que
servem de alimento, e se apanhaõ indifferentemente verdes ou maduras,
como saõ por ex. as ervilhas e favas; mas estas nutrem menos quando
verdes, aindaque nesse estado saõ menos flatulentas e melhor digeridas.
As sementes que se colherem para semear devem naõ so ser maduras, mas a
sua plantula seminal naõ ter, dano algum sensivel; as melhores saõ as
mais pezadas ou que lançadas em hum copo d'agoa vaõ ao fundo, porquanto
as que ficaõ ao lume d'agoa raras vezes saõ boas; naõ devem ter começado
a grelar, nem ter as cotylédones quebradas, porque aindaque estas duas
condiçoẽs naõ ponhaõ obstaculo á germinaçaõ futura, fazem contudo que o
vegetal que dellas nasce seja pouco vigoroso.
Naõ basta so saber o tempo proprio da colheita dos simples, he precizo taõbem
attender ao modo de os seccar e conservar. Ná desiccaçaõ ou modo de seccar
as plantas o principal objecto he privalas da humidade redundante, a fim de
as podermos guardar hum certo tempo para os usos de medicina. Alguns
recommendaõ de as seccar á sombra, principalmente as que saõ aromaticas,
para que menos percaõ do seu cheiro; mas a experiencia tem mostrado que
quando as seccamos rapidamente ao sol, ou nas estufas, ellas conservaõ assaz
bem o seu cheiro, propriedades, e muito melhor a suas cores; as que tem na
sua [Página 453] composiçaõ muito pouco do principio resinoso, como v. g. as borragineas,
veronica, e herva cidreira, perdem muito da sua virtude sendo seccas á
sombra lentamente, e ficaõ denigridas, por causa da fermentaçaõ que nellas
se estabelece, o que naõ succede quando saõ seccas promptamente ao sol ou
numa estufa Nota
As estufas, ou cubiculos, que se aquecem athe certo grao
por meyo de fornalhas tubuladas, saõ de grande utilidade nos paizes do
norte da Europa para seccar as plantas rapidamente em tempos humidos ou
chuvosos; as melhores, que tenho visto nas cazas dos Boticarios de
Paris, saõ hum cubiculo com tecto e paredes de tabique bem rebocado e de
seis pés quadrados; tem huma porta e janella de vidraças de grandeza
proporcionada; á esquerda da porta está situada a fornalha de ferro ou
barro (a que chamaõ poële) guarnecida de hum tubo de lata de cinco dedos
de diametro, que serve juntamente com a fornalha para estufar o ar do
cubiculo; este tubo he suspendido com arames no tecto do cubiculo, e a
sua extremidade superior sahe por hum buraco aberta na janella para
botar fora o fumo; na porta esta pendurado hum thermometro de mercurio
dividido em 80 graos desde o de congelaçaõ athe o grao de agoa fervendo.
Este instrumento serve para regular o calor da estufa que de ordinario
monta athe 55 ou 60 graos; ha nas paredes, em distancias iguaes de 8 ou
10 pollegadas, varias travessas de pao pregadas, que servem de soster
dois varoẽs de ferro, sobre os quaes se poem as plantas a seccar dentro
de cestas de vime compridas, medeando contudo entre as plantas e as
cestas algumas folhas de papel.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas. Nas estufas ou sobre hum forno de padeira, em que [Página 454] successivamente se coze paõ, a dessiccaçaõ he mais rapida e melhor, por naõ ser interrompida; neste cazo as serapilheiras devem ficar penduradas, para que o ar possa circular livremente, o que naõ sera desacertado practicar taõbem, quando a dessiccaçaõ for feita ao sol.
As raizes, troncos lenhosos, e cascas requerem huma dessicaçaõ mais appressada, em razaõ de conterem mais humidade; quanto às raizes, he precizo antes de as por a seccar alimparlhes a terra com huma serapilheira ou lavando-as rapidamente, cortar-lhes as raigotas filamentosas, partilas longitudinalmente ou transversalmente sendo grossas, e depois polas enfiadas a seccar; as que saõ delgadas naõ precizaõ de se cortar. Ha algumas que costumaõ guardar-se mettidas em area ou terra, como as da althea, escorcioneira, e armoracia, a fim de as conservar frescas; mas deve se advertir que guardadas muito tempo neste estado saõ sujeitas a vegetar e endurecer, e nesta circumstancia devem rejeitar-se como muito pouco efficazes. As raizes bolbosas compostas de cascos, como v. g. a cebola alvaraan, saõ difficeis de bem se seccar ao sol; o melhor sera se parar os seus cascos e mettelos a seccar no banho maria, a querelos ter perfeitamente privados de humidade.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas. As plantas aromaticas saõ susceptiveis de huma rapida dessiccaçaõ; mas he precizo saber regular os graos de calor e proporcionalos á volatilidade dos seus principios odorantes, e à quantidade da humidade. Ellas perdem na verdade [Página 455] durante a dessiccaçaõ, huma pequena porçaõ do seu aroma, e immediatamente depois parecem ter pouco cheiro, mas passados alguns dias amollecem hum tanto e ficaõ bastantemente cheirosas; as que saõ seccas à sombra saõ hum pouco mais aromaticas; porem ficaõ mais humidas, e a sua humidade costuma destruirlhes a cor, e he pouco favoravel à sua conservaçaõ.
As flores costumaõ perder ordinariamente as suas cores na dessiccaçaõ, e para melhor lhas conservar he precizo, embrulhalas em papel e polas assim a seccar; deve-se-lhes conservar o calys, e arrancalo somente depois de passada a dessiccaçaõ, quando assim for necessario como nas violettas; os cravos, e rosas vermelhas parecem ser huma excepçaõ desta regra, porquanto so se costumaõ seccar as suas petalas, e ainda estas mesmas saõ antes privadas das unhas. Os fructos ordinariamente costumaõ por-se a seccar naõ muito maduros.
As sementes consideradas relativamente aos principios, e consistencia das
suas cotylédones podem ser divididas em oleosas, farinhosas e resinosas; as
oleosas propriamente saõ aquellas de que se pode tirar oleo por expressaõ,
como v. g. as do melaõ, melancia, abobara, pepino, nogueira, amendoeiras,
nabos, &c.; as farinhosas saõ as que naõ daõ oleo por expressaõ, e se
reduzem facilmente em po ou farinha, como o trigo, cevada, milho, favas,
ervilhas, tramoços, e outras da familia das gramineas, e das leguminosas; as
resinosas saõ aquellas em que o principio resinoso he predominante. As
sementes contem em geral menos humidade do que as demais partes das plantas,
e porisso basta polas a seccar em lugar secco e hum [Página 456] pouco quente; as farinhosas Nota
Em alguns paizes do norte da Europa
costumaõ seccar o trigo em estufas afim de o poderem bem conservar para
o uso domestico, e ainda mesmo para semear.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor. Ha muitos simples, que podem conservar-se muitos annos sem corrupçaõ, principalmente quando foraõ colhidos em annos favoraveis, mas os melhores em geral seraõ sempre aquelles que se renovarem todos os annos.
As sementes em geral conservaõ-se bem nos lugares seccos c frescos; as
oleosas costumaõ nos lugares humidos germinar dentro de pouco tempo, e
apanhar [Página 457] môfo, e nos lugares quentes adquirem ranço; porisso he necessario
conservalas em lugares seccos e temperados; as farinhosas saõ sujeitas às
mesmas alteraçoẽs nos lugares humidos, e nos quentes seccaõ-se
demasiadamente porisso sera acertado de as conservar quasi do mesmo modo; as
resinosas aindaque resistaõ mais tempo à humidade e se alterem menos com o
calor, contudo o melhor sera conservalas em lugares temperados. Guardaõ-se
embrulhadas em papel, em cabaços, saccos, frascos bem tapados,
&c. Nota
As sementes, que se guardaõ muito tempo em frascos tapados
sem serem barradas de cebo ou cera, saõ ordinariamente inuteis para a
vegetaçaõ; a humidade e gaz, que ellas exhalaõ dentro do frasco, e a
falta de renovaçaõ do ar interno saõ, segundo Pullein, a principal causa
da sua corrupçaõ.
Para se poderem conservar para a vegetaçaõ e remetter a paizes remotos, sem
que sejaõ alteradas nas longas viagens de mar, Linneo aconselha de as metter
em hum frasquinho cylindrico de vidro tapado com huma rolha de cortiça
envolta em hum boccado de pelle, e que depois disso se ponha este frasquinho
dentro de outro hum tanto mais largo, havendo o cuidado de encher o espaço,
que medea entre hum e outro, com hum misto feito de partes iguaes de sal
commum, e sal ammoniaco com o quadobro de [Página 458] nitro, assegurando que desta maneira o calor naõ pode de modo algum chegar
a penetralas. Alguns costumaõ cobrilas de assucar quando ellas tem hum
pericarpo polposo; outros cobrem-nas de cera, e barraõ-nas depois com
argilla amassada em huma dissoluçaõ forte de goma Arabia, embrulhaõ-nas
emfim em hum encerado, e as remettem dentro de huma caxa ou barril. Alguns
aconselhaõ taõbem de as cobrir de cebo ou de hum misto de partes iguaes de
cera e cebo, quando saõ grossas, e sendo miudas, de as involver primeiro em
argilla e depois em cebo, cera, &c.; a operaçaõ consiste em tomalas com
huma pequena tenaz e mettelas em cera ou cebo que nade derretido na
superficie de agoa quente, tirando-as immediatamente e lançando-as em agoa
fria. A cera ou qualquer tegumento artificial, com que as sementes forem
cobertas, naõ devem ser despegados, senaõ quando estas se quizerem semear;
neste periodo raspar-se-haõ às mais grossas os dictos tegumentos com toda a
cautella, e lavar-se-haõ as mais miudas em sabaõ e area fina, athe que a
casca fique livremente exposta ao contacto do ar e capaz de embeber a
humidade, e semear-se-haõ sem mais demora Os que dezejarem ter mais
extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados
seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the
East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on
the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis
pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel.
- Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della
perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens
traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio
frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi.
Viennae. 1765. As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente
preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em
agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em
as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da
electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado,
principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia
de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo
individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a
este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum
semine.Nota
Eu devera passar actualmente a tractar dos usos [Página 459] economicos dos vegetaes, mas como a extensaõ desta materia ainda mesmo
tractada em geral me faria exceder os curtos limites de hum Compendio,
deixala-hei aos que se occupaõ dos differentes ramos da Botanica applicada
ás artes. Ninguem ignora que os vegetaes, alem dos usos que tem em Medicina,
saõ empregados nos da Architectura civil, militar, e naval, subministraõ ao
homem huma grande diversidade de alimentos e bebidas, nutrem muitos animaes
que lhe saõ uteis, saõ a materia de que elle forma innumeraveis trastes
domesticos, instrumentos, vasilhas, &c servem nas tinturarias, e
manufacturas, em huma palavra saõ, como ninguem duvida, o fundamento da
Agricultura, a mais preciosa de todas as artes Nota
He huma maxima hoje
assaz bem reconhecida, que a Agricultura sendo animada he o verdadeiro
fundamento da provoacaõ e força dos Imperios; o solido esteio em que se
sostem as manufacturas, artes, e commercio, a fonte de que emana a sua
firme prosperidade; o thesoiro e verdadeiras minas de qualquer estado; o
unico meyo de enriquecer de contino tanto o vassalo como o soberano; e
emfim o melhor regresso para poder pagar as dividas publicas, e naõ
contrahir outras. Quesnay, Bandini, Boisgillebert, &c.
HUM hervario (herbarium) he huma collecçaõ de plantas seccas estendidas sobre
papel, ou nelle estampadas bem ao natural, e dispostas methodicamente. O
primeiro pode ser chamado hervario naturas e o segundo artificial, como he o
das plantas de França que M. Bulliard publicou e vay continuando. Hum e
outro saõ summamente uteis e necessarios a todos os que cultivaõ o estudo
dos vegetaes. Elles servem de nos fazer conservar por hum meyo commodo as
ideas das plantas, que ja temos observado, e nos conduzem com os systemas a
reconhecer sem hesitaçaõ os nomes das plantas, que jamais se tinhaõ
presentado vivas a nossos olhos. Alguns Botanicos preferem os herbarios
naturaes aos artificiaes; huns e outros tem suas vantagens e seus
inconvenientes; a maior parte das raizes, os fructos, e sementes, hum
grande numero de especies da familia do fungos, e plantas succulentas Nota
Ha algumas plantas succulentas , que se podem
conservar nos hervarios naturaes, mas ficaõ summamente
desfiguradas. Nota
Aindaque as flores e suas partes podem ser conservadas em
espirito de vinho, este modo naõ me parece contudo merecer de
ser perferido ao das estampas fieis, porquanto estas saõ mais
duraveis e mais livres de engano.
Todos os que se propoem de estudar Botanica devem começar por fazer huma
collecçaõ de plantas seccas: depois de terem ajuntado hum certo numero
nas herborizaçoẽs Nota
As herborizaçoẽs (herbationes, s. herborizationes) saõ passeios
ou caminhadas, que se fazem para apanhar ou observar plantas;
dizemse publicas, quando saõ feitas (hum dia na semana) na
companhia de hum professor de Botanica; e particulares, quando
naõ saõ presididas pelo dicto professor, como quando alguem
herboriza so, ou com hum hervolario, jardineiro, dois ou tres
amigos instruidos em Botanica, &c. Este era o principal divertimento do celebre philosopho Rousseau,
e de muitos outros; com effeito as plantas e flores dos campos
seraõ sempre o mais aprazivel objecto de meditaçoẽs do homem
sabio, que nellas encontra de contino evidentes provas da
immensa sabedoria do Deos da natureza. Nota
Nomenclar huma planta he dar-lhe o seu nome generico e especifico
(ou trivial) segundo hum systema adoptado; os principiantes
deveraõ para este fim consultar o seu professor, ou algum dos
seus condiscipulos bastantemente instruidos no conhecimento das
plantas do paiz, e naõ confiar na nomenclatura dos jardins
botanicos, que muitas vezes he errada por incuria ou ignorancia
dos jardineiros.
Ninguem deve esperar de poder conservar huma planta com toda a sua natural
belleza, seja qual for o modo de dessiccaçaõ que se haja de practicar;
porquanto ainda às mais bem dessiccadas perdem muito da sua fresca
apparencia. As dessiccaçoẽs, de que se servem os botanicos para conservar as
plantas no mais perfeito estado, que lhes he possivel, saõ feitas ou em area
ou por compressaõ. A dessiccaçaõ em area, attribuida a Joaõ Rodolpho
Camerario, consiste na operaçaõ seguinte. Lave-se huma sufficiente
quantidade de area fina afim de a privar de materias heterogeneas,
seque-se depois, e peneire-se para separar as partes grosseiras, de que
a lavagem a naõ pôde privar; feito isto, escolha-se para cada [Página 463] planta hum vaso de barro de forma e grandeza competente; escolha-se
taõbem a mais bella especie das plantas que se tiver ápanhado com flor,
em tempo secco e com hum tronco sufficiente: lance-se no fundo do vaso
huma pouca de area secca e quente e metta-se nelle a base do tronco da
planta destinada á dessiccaçaõ, sostentando-a com a area de modo que
nenhuma das partes da planta toque nas paredes lateraes do vazo,
continue-se a lançar area pouco a pouco athe cobrir a planta de maneira
que fique por cima della quasi a grossura de dois dedos de area; á
proporçaõ que esta se for lançando, ter-sehá o cuidado de estender os
ramos, folhas , e flores, sem
contudo as constranger, e de modo que fiquem na sua configuraçaõ, e
postura natural. Concluido este trabalho, ponha-se o vaso em huma estufa de cincoenta
graos de calor ou pouco menos Nota
Alguns em lugar de metter os vazos
em estufas costumaõ expolos ao ardor do sol, mas o calor das estufas
merece de ser preferido em razaõ de fazer a dessiccaçaõ mais
rapidamente. Nesta sorte de operaçaõ huma grande parte da materia
colorante das flores he ordinariamente bem conservada: as petalas
algumas vezes costumaõ despegar-se, principalmente quando o germe he
grosso como na tulipa, e porisso muitos costumaõ cortalo antes de
enterrar a flor na area, assegurando que por este meyo ellas
conservaõ bem a sua adherencia.
Aindaque as plantas assim dessiccadas conservem bem a sua forma de maneira
que porisso alguns lhes chamaõ mumias vegetaes, contudo tem o defeito de
ficarem mais volumosas e quebradiças, do que as [Página 464] dessiccadas por compressaõ, e porisso este segundo meyo he
ordinariamente hoje preferido, principal mente por ser mais simples, e
capaz de conservar as cores Nota
Ha algumas flores, de que he difficil
poder conservar a substancia colorante; as violettas saõ deste
numero, e o melhor modo, de que alguns se servem para lhes conservar
a cor, he escaldando-as em agoa fervendo, retirando-as
immediatamente, espremendo-as e seccando-as depois
rapidamente.Nota
O modo de seccar as plantas que proponho he exactamente
o mesmo que practicava o celebre Joaõ Jacques Rousseau, cujos
hervarios foraõ summamente admirados em Paris pela bella dessiccaçaõ
de suas plantas. Ha ainda outros modos mais simples, mas naõ me
parecem satisfazer ao intento taõ perfeitamente como o que exponho
aqui.Nota
Este papel he destinado para
estender as plantas depois de seccas e servir no hervario; e porisso
deve ser preparado do modo sobredicto a fim de contribuir para
preservar as plantas de serem roidas pelos insectos. Alguns molhaõ
este papel em huma preparaçaõ de aloe, alcanfor, plantas amargosas,
aromaricas, &c. e preferem esta preparaçaõ á da pedra hume, que
segundo elles altera a cor das flores mas eu naõ pude ainda observar
esta mudança, quando as flores tem sido antes bem
dessicadas.Nota
Alguns costumaõ em lugar das duas taboas servir-se do prelo em
que os livreiros costumaõ levemente apertar os livros somente
cozidos, a que chamaõ em França brochures; e na verdade este
instrumento he assaz commodo para regular a compressaõ. Nota
Assim como ha plantas que basta mudalas duas vezes de papel para
ficarem seccas, ha taõbem outras que precizaõ de ser mudadas ao
menos seis vezes para perderem a sua humidade; as que saõ succulentas precizaõ de ser mudadas de papel mais a
miudo, e requerem huma dessiccaçaõ tanto mais accelerada, quanto
maior he a abundancia dos seus succos.
Depois que as partes da planta tiverem perdido a sua flexibilidade por meyo
das operaçoẽs feitas no papel pardo e papelloẽs, e que nos parecerem estar
seccas, passar-se-ha a dicta planta a huma folha de papel branco (n. 3º), e
se deixará ficar nelle ainda alguns dias a fim de perder completamente a
humidade, que nos pode ter escapado de perceber. Terminada assim a
dessiccaçaõ por-se há a planta em huma folha de papel branco competente
(n. 4º), e nelle se firmará o seu tronco, ramos, e ainda mesmo as folhas maiores, com fittinhas, ou
pequenas tiras estreitas de papel pegadas com colla de peixe Nota
Alguns naõ usaõ das tiras de papel, ou pedacinhos de fitta, e
collaõ na folha todo o corpo da planta com colla de peixe; mas
este modo naõ deixa o papel taõ aceado como o sobredicto. Os organos da fructificaçaõ, que convem de ajuntar (sendo
possivel) a cada planta, devem ser dessiccados á parte, e se
collaraõ depois, ao lado da planta a que pertencem.Nota
A descripçaõ
historica trabalhada em toda a extensaõ, de que he susceptivel, deve
ser feita em cadernos separados, por naõ fazer os hervarios
demasiadamente volumosos.
Tanto que se houver dessiccado do modo sobredicto hum certo numero de
plantas sufficiente para começar a fazer hum hervario, distribuir-se-haõ
me thodicamente, isto he, por-se-haõ todas as congeneres seguidas
successivamente Nota
No cazo que se hajaõ dessiccado algumas
variedades, terse-ha o cuidado de as por immediatamente depois da
sua especie respectiva.Nota
Os generos de cada
ordem, que tiverem mais affinidade, devem ficar approximados.Nota
As brochuras (do Franc. brochure) saõ, como
ja indiquei, livros somente cozidos, e levemente apertados; as suas
folhas naõ foraõ batidas nem aparadas, e se usaõ assim em Franca
cobertos com huma capa de duas folhas de papel colladas.Nota
Elle podera conter dobrado numero de plantas, se lhe derem
dobrada largura da que proponho aqui, como se entende
facilmente.
O vaõ, ou espaço interno do armario deve ter de altura cinco pés e dez pollegadas (medida de Paris), quasi dois pés de largo, e pouco mais de hum pé de fundo. Repartir-se-ha este vaõ em duas metades iguaes ao alto por meyo de duas taboas aprumadas, formar-se-haõ nas dictas duas metades vinte e quatro parteleiras por meyo de travessas ou taboinhas horizontaes da grossura de meya pollegada. No lado direito haveraõ onze parteleiras e dez travessas. Cada huma destas parteleiras he destinada a receber as bocetas de plantas relativas a cada huma das vinte e quatro classes do systema mencionado, e devem ter mais ou menos pollegadas de altura, segundo o menor ou maior numero de vegetaes que costumaõ ter as dictas classes. A sua destribuiçaõ e altura adequada deve ser da maneira seguinte.
[Página 469]A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6Este armario sera fechado com duas portas correspondentes aos dois lados sobredictos, e em cada huma dellas se poraõ tantos lettreiros quantas forem as parteleiras do seu lado. Cada lettreiro deve conter o nome de huma das vinte e quatro classes do systema de Linneo, ser escrito com lettras bem legiveis, e collado exactamente defronte da parteleira, que deve conter a boceta notada com outro lettreiro semelhante.
Reclusas as pantas seccas nas bocetas, e estas nas parteleiras respectivas do
Armario construido do modo que fica exposto, naõ havera difficuldade alguma
em achar dentro de poucos minutos huma planta que dezejamos mostrar. Supponhamos por ex. que quero mostrar a hum Botanico a Cleonia
lusitanica; se me esqueço da classe, consulto o Genera plantarum de
Linneo, e pelo index venho em continente a conhecer que esta planta
pertence á Didynamia; lanço por conseguinte a vista sobre os lettreiros
collados nas portas do armario Nota
Pode-se abbreviar ainda esta
pesquiza procurando directamente a Didynamia gymnospermia nos
lettreiros postos na face anterior das bocetas, no cazo que sejaõ
escritos com lettras taõ grandes, como as dos lettreiros das portas
do armario; demais disso hum pouco de uso bastará para fazer
derepente lançar maõ da boceta relatira à classe e ordem que
buscamos.
AO ILLUSTRISSIMO E EXCELLENTISSIMO SENHOR D. VICENTE DE SOUSA COUTINHO, Do Conselho de S. Magestade Fidelissima, Seu Embaxador na Côrte de Versalhes, Senhor de Alva, etc. etc.
EXC.mo SENHOR,
Aindaque nam concorressem em V. Exc. o esplendor do emprego, a consumada pericia nos negocios politicos, e a gloria de illustres Ascendentes, bastara à grande humanidade para com os desgraçados, o agradavel acolhimento que costuma fazer â todos os seus Compatriotas, os generosos sentimentos com que se digna favorecer os homens de Lettras, às quaes V. Exc. faz tanta honra, bastaram muitas outras admiraveis virtudes, que ornam o espirito de V. Exc. para dar-lhe hum nome preclaro, recommendavel à [Página iv] posteridade, e digno das homenagens de todos os sabios. Dezejara ser assaz feliz para achar em meus talentos hum obsequio adequado a tam bellas qualidades: mas sendo V. Exc. servido de acceitar o que présentemente lhe faço na dedicaçam dos fructos do meu trabalho sobre a Sciencia dos Vegetaes, permittirà hum fraco testemunho à minha gratidam, augmentarà o numero das demonstraçoens de benevolencia, com que costuma acolher tudo o que o zelo e amor do bem publico fazem emprehender, e protegerà ao mesmo tempo huma Sciencia, cuja utilidade he bem reconhecida pela frequencia com que he applicada à Medecina, Agricultura, e Artes.
DE V. EXC. O mais affectuoso e reverente servo, Felix Avellar Brotero.
AO ILLUSTRISSIMO E EXCELLENTISSIMO SENHOR D. VICENTE DE SOUSA COUTINHO, Do Conselho de S. Magestade Fidelissima, Seu Embaxador na Côrte de Versalhes, Senhor de Alva, etc. etc.
EXC.mo SENHOR,
Aindaque nam concorressem em V. Exc. o esplendor do emprego, a consumada pericia nos negocios politicos, e a gloria de illustres Ascendentes, bastara à grande humanidade para com os desgraçados, o agradavel acolhimento que costuma fazer â todos os seus Compatriotas, os generosos sentimentos com que se digna favorecer os homens de Lettras, às quaes V. Exc. faz tanta honra, bastaram muitas outras admiraveis virtudes, que ornam o espirito de V. Exc. para dar-lhe hum nome preclaro, recommendavel à [Página iv] posteridade, e digno das homenagens de todos os sabios. Dezejara ser assaz feliz para achar em meus talentos hum obsequio adequado a tam bellas qualidades: mas sendo V. Exc. servido de acceitar o que présentemente lhe faço na dedicaçam dos fructos do meu trabalho sobre a Sciencia dos Vegetaes, permittirà hum fraco testemunho à minha gratidam, augmentarà o numero das demonstraçoens de benevolencia, com que costuma acolher tudo o que o zelo e amor do bem publico fazem emprehender, e protegerà ao mesmo tempo huma Sciencia, cuja utilidade he bem reconhecida pela frequencia com que he applicada à Medecina, Agricultura, e Artes.
Aindaque nam concorressem em V. Exc. o esplendor do emprego, a consumada pericia nos negocios politicos, e a gloria de illustres Ascendentes, bastara à grande humanidade para com os desgraçados, o agradavel acolhimento que costuma fazer â todos os seus Compatriotas, os generosos sentimentos com que se digna favorecer os homens de Lettras, às quaes V. Exc. faz tanta honra, bastaram muitas outras admiraveis virtudes, que ornam o espirito de V. Exc. para dar-lhe hum nome preclaro, recommendavel à [Página iv] posteridade, e digno das homenagens de todos os sabios.[Página iv]Dezejara ser assaz feliz para achar em meus talentos hum obsequio adequado a tam bellas qualidades: mas sendo V. Exc. servido de acceitar o que présentemente lhe faço na dedicaçam dos fructos do meu trabalho sobre a Sciencia dos Vegetaes, permittirà hum fraco testemunho à minha gratidam, augmentarà o numero das demonstraçoens de benevolencia, com que costuma acolher tudo o que o zelo e amor do bem publico fazem emprehender, e protegerà ao mesmo tempo huma Sciencia, cuja utilidade he bem reconhecida pela frequencia com que he applicada à Medecina, Agricultura, e Artes.DE V. EXC. O mais affectuoso e reverente servo, Felix Avellar Brotero.
[Página v]Quæso, ne hæc legentes, quoniam ex his spernunt multa, etiam relata fastidio damnent, cum in contemplatione naturæ nihil possit videri supervacuum, Plin.
A Botanica como todas as mais partes de Historia natural sam hoje em toda a Europa summamente cultivadas pelo muito que sam uteis ao progresso dos conhecimentos humanos, e às commodidades da vida social. O estudo botanico reune à sua utilidade hum superior grao de agradavel, a immensidade dos entes vegetativos, que de contino renovam a face da Terra, sendo hum dos mais bellos e amenos expectaculos, que nos prezenta a natureza, hum vastissimo campo, em que os olhos de hum attento observador encontram a cada passo maravilhas sem numero variadas, objectos de profundas meditaçoens, que engrandecem o espirito, e o elevam athé à firme persuasam de hum Deos, Autor do Universo. Grandes homens tem cultivado este campo com cuidado, e os seus trabalhos fizeram que os conhecimentos botanicos, algum dia tam limitados e confusos, tem adquirido huma nam pequena extensam e clareza. Conhecemos hoje mais da metade das plantas do globo terrestre, e temos prezentemente muitos methodos ou systemas, e muitas obras elementares de Botanica tanto em latim, como em quasi todas as linguas modernas da Europa.
Entre nòs contudo os principios desta Sciencia tem sido athe agora somente conhecidos em latim, e daqui resulta que todos os que ignoram esta lingua, ou tem fracas luzes della, ficam privados de adquirir as noçoens de huma Sciencia, que [Página vi] muitas vezes em razam do seu estado lhes sam absolutamente necessarias.
Dezejando pois obviar este obstaculo, e facilitar geralmente o estudo dos vegetaes entre nos, cuidei de escrever o prezente Compendio fundado nos tractados dos melhores Botanicos modernos e nas minhas proprias observacoens, o qual, segundo me parece, poderà ser util nam so aos que ignoram a lingua latina, mas ainda aos que a sabem e tem ja alguns conhecimentos em Botanica .
No principio do primeiro Volume tracto da origem, progresso, e estado actual da Botanica , e dou humas breves noçoens da physiologia e anatomia dos vegetaes. Explico depois os termos technicos mais usados na descripçam das partes relativas ao seu habito externo e fructificaçam, sem desprezar contudo os que dizem respeito à sua habitaçam. Passo na parte seguinte a fazer mençam do que me pareceo ser sufficiente para entender qualquer systema botanico e suas partes, como tambem da theoria critica, que devem saber os que se proposerem de formar esta sorte de destribuiçoens methodicas. Ajuntei a esta parte alguns exemplos de practica sobre a descripçam das especies, por querer facilitar hum trabalho, que considero como base dos Methodos, e o mais digno dos principaes cuidados de todo o Naturalista Botanico. Termino o volume com algumas reflexoens sobre as virtudes, propriedades, e usos dos vegetaes em geral, e com hum capitulo sobre o modo de fazer hum hervario.
No Segundo Tomo exponho o systema de Linneo, e dou huma idea geral da sua praxe, por ser hoje o mais seguido na Europa, e o que se adoptou na nossa Universidade. Esta exposiçam em alguns lugares he muito mais ampla do que ordinariamente se costuma dar; porquanto tive o cuidado de nada omittir do que as minhas proprias observaçoens e as de [Página vii] outros botanicos modernos me subministraram de mais interessante para illuminala. Ajuntei depois os sentimenots de muitos celebres Botanicos a respeito do mesmo systema para que o Leitor tendo conhecido as suas engenhosas vantagens nam ignorasse os seus defeitos, e podesse estima-lo segundo o seu justo valor.
As difficuldades, que encontram os que começam a cultivar a Sciencia botanica, seram diminuidas por meyo do Diccionario immediatamente adjuncto; e a fim de que o prezente tractado fosse ainda mais proveitoso, ajuntei tambem no fim deste segundo Tomo hum catalogo dos principaes autores botanicos, hum sufficiente numero de Estampas tiradas das obras de Linneo e outros modernos para clara intelligencia de muitos termos, hum index dos nomes usuaes Portuguezes de plantas, os quaes se acham nos livros escritos na lingua nacional, e em Grisley, Pisam, Marcgrave, Rheede, Rumphio, etc, com os nomes latinos genericos e triviaes, a que correspondem segundo o systema de Linneo; outro em fim dos termos technicos Portuguezes.
Cuidei de distribuir todas as partes do primeiro Tomo o mais methodicamente que me foy possivel, nam me querendo por ora desviar muito do plano que costuma seguirse hoje nas escolas de Botanica. Nam posso contudo deixar de confessar que este plano nam he o que mais me agrada, e espero algum dia de o mudar, se poder chegar a publicar os Elementos de Phytologia , que preparo em latim.
Na traducçam dos termos latinos segui os nossos Diccionarios, e me aproveitei de algumas palavras dispersas pelas nossas Provincias, que senam acham ainda em Diccionario algum; muitas vezes fui obrigado a formar novas do latim, como faziam os antigos Romanos do Grego, e como fez Barnades em Hespanhol, Lée em Inglez, Dalibard e La Mark [Página viii] em Francez, etc. Talvez serei em algumas notado pelo vulgo; mas pouco importa; todos os termos que formei tem o cunho Portuguez, e foram innovados segundo o genio da Lingua; demais disso as linguas das Sciencias sam hum puro effeito da convençam dos sabios, e nam poderam jamais ser a linguagem do vulgo, que nam as estuda e so as conhece athe hum certo ponto: a necessidade de explicar com clareza, concisam, e propriodade huma infinidade de ideas, que elle nam tem, farà sempre em todas as Sciencias termos barbaros aos seus ouvidos, e indespensaveis aos sabios ou aos que sam nellas iniciados.
Depois de ter vendido o Manuscripto da prezente Obra, achei acertado acerescentarlhe algumas notas para lhe dar o complemento necessario, e nam receyo actualmente de assegurar que sem embargo de ser hum Compendio, o Leitor nam acharà tractado algum elementar de Botanica mais completo de quantos se tem athe agora publicado.
Quæso, ne hæc legentes, quoniam ex his spernunt multa, etiam relata fastidio damnent, cum in contemplatione naturæ nihil possit videri supervacuum, Plin.
Quæso, ne hæc legentes, quoniam ex his spernunt multa, etiam relata fastidio damnent, cum in contemplatione naturæ nihil possit videri supervacuum, Plin.A Botanica como todas as mais partes de Historia natural sam hoje em toda a Europa summamente cultivadas pelo muito que sam uteis ao progresso dos conhecimentos humanos, e às commodidades da vida social. O estudo botanico reune à sua utilidade hum superior grao de agradavel, a immensidade dos entes vegetativos, que de contino renovam a face da Terra, sendo hum dos mais bellos e amenos expectaculos, que nos prezenta a natureza, hum vastissimo campo, em que os olhos de hum attento observador encontram a cada passo maravilhas sem numero variadas, objectos de profundas meditaçoens, que engrandecem o espirito, e o elevam athé à firme persuasam de hum Deos, Autor do Universo. Grandes homens tem cultivado este campo com cuidado, e os seus trabalhos fizeram que os conhecimentos botanicos, algum dia tam limitados e confusos, tem adquirido huma nam pequena extensam e clareza. Conhecemos hoje mais da metade das plantas do globo terrestre, e temos prezentemente muitos methodos ou systemas, e muitas obras elementares de Botanica tanto em latim, como em quasi todas as linguas modernas da Europa.
A Botanica como todas as mais partes de Historia natural sam hoje em toda a Europa summamente cultivadas pelo muito que sam uteis ao progresso dos conhecimentos humanos, e às commodidades da vida social.BotanicaO estudo botanico reune à sua utilidade hum superior grao de agradavel, a immensidade dos entes vegetativos, que de contino renovam a face da Terra, sendo hum dos mais bellos e amenos expectaculos, que nos prezenta a natureza, hum vastissimo campo, em que os olhos de hum attento observador encontram a cada passo maravilhas sem numero variadas, objectos de profundas meditaçoens, que engrandecem o espirito, e o elevam athé à firme persuasam de hum Deos, Autor do Universo.Grandes homens tem cultivado este campo com cuidado, e os seus trabalhos fizeram que os conhecimentos botanicos, algum dia tam limitados e confusos, tem adquirido huma nam pequena extensam e clareza.Conhecemos hoje mais da metade das plantas do globo terrestre, e temos prezentemente muitos methodos ou systemas, e muitas obras elementares de Botanica tanto em latim, como em quasi todas as linguas modernas da Europa.BotanicaEntre nòs contudo os principios desta Sciencia tem sido athe agora somente conhecidos em latim, e daqui resulta que todos os que ignoram esta lingua, ou tem fracas luzes della, ficam privados de adquirir as noçoens de huma Sciencia, que [Página vi] muitas vezes em razam do seu estado lhes sam absolutamente necessarias.
Entre nòs contudo os principios desta Sciencia tem sido athe agora somente conhecidos em latim, e daqui resulta que todos os que ignoram esta lingua, ou tem fracas luzes della, ficam privados de adquirir as noçoens de huma Sciencia, que [Página vi] muitas vezes em razam do seu estado lhes sam absolutamente necessarias.[Página vi]Dezejando pois obviar este obstaculo, e facilitar geralmente o estudo dos vegetaes entre nos, cuidei de escrever o prezente Compendio fundado nos tractados dos melhores Botanicos modernos e nas minhas proprias observacoens, o qual, segundo me parece, poderà ser util nam so aos que ignoram a lingua latina, mas ainda aos que a sabem e tem ja alguns conhecimentos em Botanica .
Dezejando pois obviar este obstaculo, e facilitar geralmente o estudo dos vegetaes entre nos, cuidei de escrever o prezente Compendio fundado nos tractados dos melhores Botanicos modernos e nas minhas proprias observacoens, o qual, segundo me parece, poderà ser util nam so aos que ignoram a lingua latina, mas ainda aos que a sabem e tem ja alguns conhecimentos em Botanica .BotanicaNo principio do primeiro Volume tracto da origem, progresso, e estado actual da Botanica , e dou humas breves noçoens da physiologia e anatomia dos vegetaes. Explico depois os termos technicos mais usados na descripçam das partes relativas ao seu habito externo e fructificaçam, sem desprezar contudo os que dizem respeito à sua habitaçam. Passo na parte seguinte a fazer mençam do que me pareceo ser sufficiente para entender qualquer systema botanico e suas partes, como tambem da theoria critica, que devem saber os que se proposerem de formar esta sorte de destribuiçoens methodicas. Ajuntei a esta parte alguns exemplos de practica sobre a descripçam das especies, por querer facilitar hum trabalho, que considero como base dos Methodos, e o mais digno dos principaes cuidados de todo o Naturalista Botanico. Termino o volume com algumas reflexoens sobre as virtudes, propriedades, e usos dos vegetaes em geral, e com hum capitulo sobre o modo de fazer hum hervario.
No principio do primeiro Volume tracto da origem, progresso, e estado actual da Botanica , e dou humas breves noçoens da physiologia e anatomia dos vegetaes.BotanicaExplico depois os termos technicos mais usados na descripçam das partes relativas ao seu habito externo e fructificaçam, sem desprezar contudo os que dizem respeito à sua habitaçam.Passo na parte seguinte a fazer mençam do que me pareceo ser sufficiente para entender qualquer systema botanico e suas partes, como tambem da theoria critica, que devem saber os que se proposerem de formar esta sorte de destribuiçoens methodicas.Ajuntei a esta parte alguns exemplos de practica sobre a descripçam das especies, por querer facilitar hum trabalho, que considero como base dos Methodos, e o mais digno dos principaes cuidados de todo o Naturalista Botanico.Termino o volume com algumas reflexoens sobre as virtudes, propriedades, e usos dos vegetaes em geral, e com hum capitulo sobre o modo de fazer hum hervario.No Segundo Tomo exponho o systema de Linneo, e dou huma idea geral da sua praxe, por ser hoje o mais seguido na Europa, e o que se adoptou na nossa Universidade. Esta exposiçam em alguns lugares he muito mais ampla do que ordinariamente se costuma dar; porquanto tive o cuidado de nada omittir do que as minhas proprias observaçoens e as de [Página vii] outros botanicos modernos me subministraram de mais interessante para illuminala. Ajuntei depois os sentimenots de muitos celebres Botanicos a respeito do mesmo systema para que o Leitor tendo conhecido as suas engenhosas vantagens nam ignorasse os seus defeitos, e podesse estima-lo segundo o seu justo valor.
No Segundo Tomo exponho o systema de Linneo, e dou huma idea geral da sua praxe, por ser hoje o mais seguido na Europa, e o que se adoptou na nossa Universidade.Esta exposiçam em alguns lugares he muito mais ampla do que ordinariamente se costuma dar; porquanto tive o cuidado de nada omittir do que as minhas proprias observaçoens e as de [Página vii] outros botanicos modernos me subministraram de mais interessante para illuminala.[Página vii]Ajuntei depois os sentimenots de muitos celebres Botanicos a respeito do mesmo systema para que o Leitor tendo conhecido as suas engenhosas vantagens nam ignorasse os seus defeitos, e podesse estima-lo segundo o seu justo valor.sentimenotsAs difficuldades, que encontram os que começam a cultivar a Sciencia botanica, seram diminuidas por meyo do Diccionario immediatamente adjuncto; e a fim de que o prezente tractado fosse ainda mais proveitoso, ajuntei tambem no fim deste segundo Tomo hum catalogo dos principaes autores botanicos, hum sufficiente numero de Estampas tiradas das obras de Linneo e outros modernos para clara intelligencia de muitos termos, hum index dos nomes usuaes Portuguezes de plantas, os quaes se acham nos livros escritos na lingua nacional, e em Grisley, Pisam, Marcgrave, Rheede, Rumphio, etc, com os nomes latinos genericos e triviaes, a que correspondem segundo o systema de Linneo; outro em fim dos termos technicos Portuguezes.
As difficuldades, que encontram os que começam a cultivar a Sciencia botanica, seram diminuidas por meyo do Diccionario immediatamente adjuncto; e a fim de que o prezente tractado fosse ainda mais proveitoso, ajuntei tambem no fim deste segundo Tomo hum catalogo dos principaes autores botanicos, hum sufficiente numero de Estampas tiradas das obras de Linneo e outros modernos para clara intelligencia de muitos termos, hum index dos nomes usuaes Portuguezes de plantas, os quaes se acham nos livros escritos na lingua nacional, e em Grisley, Pisam, Marcgrave, Rheede, Rumphio, etc, com os nomes latinos genericos e triviaes, a que correspondem segundo o systema de Linneo; outro em fim dos termos technicos Portuguezes.Cuidei de distribuir todas as partes do primeiro Tomo o mais methodicamente que me foy possivel, nam me querendo por ora desviar muito do plano que costuma seguirse hoje nas escolas de Botanica. Nam posso contudo deixar de confessar que este plano nam he o que mais me agrada, e espero algum dia de o mudar, se poder chegar a publicar os Elementos de Phytologia , que preparo em latim.
Cuidei de distribuir todas as partes do primeiro Tomo o mais methodicamente que me foy possivel, nam me querendo por ora desviar muito do plano que costuma seguirse hoje nas escolas de Botanica.Nam posso contudo deixar de confessar que este plano nam he o que mais me agrada, e espero algum dia de o mudar, se poder chegar a publicar os Elementos de Phytologia , que preparo em latim.PhytologiaNa traducçam dos termos latinos segui os nossos Diccionarios, e me aproveitei de algumas palavras dispersas pelas nossas Provincias, que senam acham ainda em Diccionario algum; muitas vezes fui obrigado a formar novas do latim, como faziam os antigos Romanos do Grego, e como fez Barnades em Hespanhol, Lée em Inglez, Dalibard e La Mark [Página viii] em Francez, etc. Talvez serei em algumas notado pelo vulgo; mas pouco importa; todos os termos que formei tem o cunho Portuguez, e foram innovados segundo o genio da Lingua; demais disso as linguas das Sciencias sam hum puro effeito da convençam dos sabios, e nam poderam jamais ser a linguagem do vulgo, que nam as estuda e so as conhece athe hum certo ponto: a necessidade de explicar com clareza, concisam, e propriodade huma infinidade de ideas, que elle nam tem, farà sempre em todas as Sciencias termos barbaros aos seus ouvidos, e indespensaveis aos sabios ou aos que sam nellas iniciados.
Na traducçam dos termos latinos segui os nossos Diccionarios, e me aproveitei de algumas palavras dispersas pelas nossas Provincias, que senam acham ainda em Diccionario algum; muitas vezes fui obrigado a formar novas do latim, como faziam os antigos Romanos do Grego, e como fez Barnades em Hespanhol, Lée em Inglez, Dalibard e La Mark [Página viii] em Francez, etc.[Página viii]Talvez serei em algumas notado pelo vulgo; mas pouco importa; todos os termos que formei tem o cunho Portuguez, e foram innovados segundo o genio da Lingua; demais disso as linguas das Sciencias sam hum puro effeito da convençam dos sabios, e nam poderam jamais ser a linguagem do vulgo, que nam as estuda e so as conhece athe hum certo ponto: a necessidade de explicar com clareza, concisam, e propriodade huma infinidade de ideas, que elle nam tem, farà sempre em todas as Sciencias termos barbaros aos seus ouvidos, e indespensaveis aos sabios ou aos que sam nellas iniciados.Depois de ter vendido o Manuscripto da prezente Obra, achei acertado acerescentarlhe algumas notas para lhe dar o complemento necessario, e nam receyo actualmente de assegurar que sem embargo de ser hum Compendio, o Leitor nam acharà tractado algum elementar de Botanica mais completo de quantos se tem athe agora publicado.
Depois de ter vendido o Manuscripto da prezente Obra, achei acertado acerescentarlhe algumas notas para lhe dar o complemento necessario, e nam receyo actualmente de assegurar que sem embargo de ser hum Compendio, o Leitor nam acharà tractado algum elementar de Botanica mais completo de quantos se tem athe agora publicado.[Página ix] O Estudo dos vegetaes he tam antigo como a especie humana, ella parece ter
sido obrigada a adquirir ideas particulares destes entes antes de todos os
mais conhecimentos da natureza. Se consultamos a Sagrada Historia, ella nos presenta o primeiro homem no meyo
de hum delicioso jardim, nutrindo-se de hervas As folhas da bananeira
(Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e
Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ
figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o
sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez
e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura
proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ
facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ
foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil,
visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e
tres de largo. Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super
terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem
generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes
herbas terræ, (Genes. Cap. 3.). Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens
usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta
permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca,
quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit
vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ
menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta
estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ
podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e
d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar
das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros. Nota
Nota
Nota
Nota
Panis erant primis virides mortalibus herbæ. Ovid Fast. L. 4. Cum
hontines pastoriciam vitam agerent, neque scirent etiam arare terram....
ut ex arboribus, ac virguliis decerpendo glandem, arbutum, mora, pomaque
colligerent ad usum. Varro de Re rust. L. 1. 2. Alguns philosophos da
antiguidade naõ se contentaraõ meramente de seguir esta opiniaõ,
elles foraõ de parecer que o homem tinha sido formado para se nutrir
somente de vegetaes, e que elle devia respeitar a vida de todos os
animaes; estes sentimentos passaraõ mesmo a ser hum artigo de
Religiaõ entre algumas naçoens, e delles vemos ainda hoje alguns
restos na India.
Mas os alimentos nam foram o unico motivo, que obrigou os primeiros homens a
familiarizar-se com os vegetaes; as suas enfermidades deram ainda novas
razoens para isso, e nam menos forçosas. He verdade que a historia e antigos Poetas Nota
Vej. Entre outros Hesiodo e
Ovidio.Nota
Naõ consta que tenha havido athe agora povo algum civilizado, ou
selvagem, em que deixassem mais ou menos de haver contendas sanguinarias
ou entre si ou contra seus vizinhos: nos vemos ainda dissensoẽs mais ou
menos fortes entre irmaõs, e familias que vivem nas cidades policiadas,
e apezar dos innocentes costumes attribuidos às familias primitivas, naõ
deixamos de ver na primeira hum dos mais funestos exemplos das paxoẽs
humanas.Nota
Naõ so quanto ao moral, mas ainda quanto ao physico, sendo assaz
conhecido pela experiencia que a colera, medo, tristeza ou alegria
demasiadas, e outras paxoẽs podem causar na economia animal
desordens consideraveis, e ainda mesmo funestas.
Nos seculos antediluvianos o pequeno progresso, que o espirito humano fez nas
artes, foy sempre a par com o conhecimento dos vegetaes. Se consideramos as primeiras famílias na vida pastoril ou errando em bandos,
nam se pode negar que esse estado fosse favoravel a hum semelhante
conhecimento; ellas eram entam obrigadas a converter differentes plantas em
cabanas, para se reparar das chuvas e injurias da atmosphera, e à proporçam
que mudavam de lugares se viam precisadas a fazer tentativas de novas
producçoens vegetaes para nutrirse e curarse, guiadas ora pela semelhança
das que jà conheciam, ora pelo instincto Nota
O instincto dos animaes,
aindaque limitado a suas absolutas precisoẽs e susceptivel de pouco
progresso, parece às vezes ser superior ao juizo dos homens; estes se
serviraõ delle com felicidade em algumas occasioẽs naõ so para fazer
escolha de alimentos, mas ainda para reconhecer as virtudes de alguns
vegetaes. Plinio foy de parecer que o caõ tinha ensinado a vomitar o
homem. Nota
O primeiro
Lavrador, segundo lemos no Genesis - foy Cain: Cain fuit agricola &
terrem etiam arare primus excogitavit. Os Egypicos, que se jactavaõ
de ser os mais antigos povos da terra, e descender de Entes Divinos,
veneraraõ a Isis como inventora da cultura do trigo e cevada, e ao
Arabe Osiris por lhes ter primeiro ensinado o uso do arado e
agricultura. Os antigos Gregos e Romanos pertendiaõ que a agricultura succedera a
vida pastoril, em que as primitivas geraçoẽs se occuparaõ durante
muitos seculos; e criaõ que fora Ceres quem a ensinara na Grecia
depois de ter vindo do Egypto; outros contudo seguiraõ que Buzyges
ou Triptolemo fora o que a estabeceo entre os Gregos. Nota
As mesmas plantas
venenosas podiaõ ainda nesse tempo ser aproveitadas para hervar as
settas e outros usos vingativos, da mesma sorte que as vemos hoje
empregadas entre as naçoens selvagens.
Depois da grande e lastimosa catastrophe dos povos do antigo Globo vemos Noé plantar huma vinha, e na tentativa com que descobrio o vinho, mostra ter conservado o espirito investigador dos usos dos vegetaes e seus productos, que tinha havido nos seculos antediluvianos. Nem se pode duvidar que na sua familia se salvasse huma grande parte das antigas tradiçoens botanicas, e que estas passassem depois igualmente aos seus vindoiros. O grande empenho de Rachel por obter huma [Página xiv] das mandràgoras, que Reuben tinha trazido do campo, provavelmente procedeo da persuasam em que ella estava da efficacia desta planta contra a esterilidade, o que suppoem por conseguinte noçoens estabelecidas das virtudes de alguns vegetaes. Os Egypcios, huma das mais antigas naçoens civilizadas, sam representados na historia como tendo vivido do Lotus (de que faziam huma especie de pam), e dos talos do Papyrus. A agricultura, a arte de embalsamar os cadaveres com substancias resinosas e aromaticas usada por este povo desde hum tempo immemorial, ocustume de expor os seus doentes à vista publica, a fim de que as pessoas que junto delles passassem lhes subministrassem os soccorros que para suas enfermidades reconheciam nos vegetaes, indicam claramente que as tradiçoens botanicas se tinham conservado no Egypto, e adiantado. Estas tradiçoens poderiam ter diminuido entre as naçoens menos cultas e entre os povos de vida errante, mas ellas nam podiam ser de todo extinctas, visto serem sumamente interessantes à sua subsistencia e à sua saude.
A historia nam nos assegura de que as tradiçoens sobre os usos tanto
economicos como medicinaes das plantas passassem a ser escriptos nos primeiros seculos depois da horrivel
catastrophe do diluvio. Parece contudo que a Botanica medicinal traditiva nam tardou muitos seculos
depois da dispersam das gentes em ser escripta entre as naçoens civilizadas,
principalmente no Egypto. Neste paiz as plantas efficazes sendo ja conhecidas em grande numero, os
sacerdotes tractaram de redigir os seus nomes a huma certa ordem ou
catalogo, e o depositaram nos templos. Os doentes começaram entam a recorrer a elles, como depositarios dos remedios
proprios para suas enfermidades, e pouco a pouco a arte de curar com os
vegetaes, a que todo o curativo das doenças estava entam limitado, veyo a
ficar somente aos sacerdotes, e a fazer parte do seu sistema [Página xv] religioso. Elles tractaram quanto lhes foy possivel de adiantar os seus conhecimentos na
Botanica medicinal; e com effeito ella foy entre os antigos Egypcios huma
das artes mais cultivadas e honrosas. Hermes, a quem os Gregos chamaram Mercurio, e de quem a mercurial deriva o
nome, foy hum dos mais antigos e famosos sabios nesta arte. A rainha Isis foy nella tam instruida e por meyo della fez curas tam
admiraveis, que os povos depois da sua morte lhe erigiram templos,
adorando-a como a melhor advogada nas suas enfermidades. Ella foy a que instruio a Horo ou o Apollo dos Gregos, ao qual elles
attribuiram a invençam da Medicina. Esculapio Nota
Este Esculapio viveo dois mil annos antes de Hjppocrates, e naõ deve
ser confundido com o Esculapio dos Gregos, que dizem fora discipulo
de Chiron o Centauro, e ter servido na expediçaõ Argonautica. Nota
Esta
persuasaõ foy depois bem geral em todo o antigo paganismo, e Celso a
idica claramente, quando diz: morbos vero iram
deorum immortalium relatos & ab eisdem opem posci
solitam.
Os Magos na Persia, os Gymnosophistas na India, e os Caldeos na Assyria e
Babylonia applicados no principio a observar puramente o que lhes offerecia
a candida natureza nos vegetaes introduziram tambem, como os Egypcios, em
botanica hum grande número de superstiçoens. As colonias, que emigraram destes paizes nam podiam deixar de levar comsigo
mais ou menos noçoens de hum semelhante abuso. Estas noçoens com effeito passaram athe à extremidade gelada do antigo
continente oriental e de là a America com o nome de superstiçam de Chemis,
Orchis, e outras divindades. Do Egypto nam so passaram a toda a Africa, mas caminhando ao longo das costas
do Mediterrâneo entraram na Phenicia e depois na Grecia, aonde augmentando
pouco a pouco tomaram emfim o nome de superstiçam de Esculapio. Ellas se espalharam igualmente nas Gallias, e dellas correram athe ao norte
da Europa com o titulo de Druidismo Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes
muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio
hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ
ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca,
mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e
passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se
fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava
vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses
huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era
taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e
extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de
colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido
lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em
razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as
ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que
pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex.
contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa
contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra
toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque
consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de
visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os
destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa
estrea. Nota
Lemos na historia destes obscuros, e supersticiosos tempos que hum certo
numero de plantas fora entam consagrado aos
Deoses por motivos religiosos Felices gentes, queis dî nascuntur in
hortis! Nota
Como foraõ por ex. a artemisia,
consagrada a Artemis ou Diana (porque naõ derivou o nome de Artemisia
mulher de Mausolo, rey de Caria, como Plinio e outros disseraõ); a hera
a Osiris e a Bacho; o pinheiro a Neptuno; o loireiro a Apollo, a sua
baga a Bacho, donde lhe veyo o nome de bacca; a videira ao mesmo deos
Bacho; a oliveira e matricaria a Pallas; o trigo a Ceres,
&c.Nota
Como foraõ por ex. os alhos e cebolas entre os Egypcios cujas
divindades eraõ ainda adoradas no tempo de Iuvenal, como - se collige do
satyrico verso, com que as ridicularizou e aos seus adoradores:
Portanto a botanica supersticiosa, cuja origem pode em [Página xviii] geral ser attribuida à ignorancia, temor, e embuste, parece ter-se
introduzido progressivamente entre todas as antigas naçoens, e nos
observamos ainda hoje hum resto della nos pòvos selvagens, e na plebe de
alguns paizes civilizados Nota
Tal e por ex. o uso de passar por entre hum vime fendido as creanças
com enfermidades herniaes [ou quebradas, segundo a expressaõ vulgar]
de ligar depois o dicto vime om as tiras da sua camizinha a fim de
as curar; como taõbem o uso de colher plantas medicinaes, em certas noytes de Junho, noytes
famosas na antiguidade antechristaã pelas fogueiras que nellas se
faziaõ a Ceres, deosa das searas, com palha de faveiras, ervilhas,
&c, e pelo costume de saltar por cima das dictas fogueiras para
assim expiar os peccados sobre o fogo, como diz expressamente
Plutarcho. Nota
Como foy taõbem a das Druidezas nas ilhas das
Gallias, e a das Cuthites em alguns lugares da costa do
Mediterraneo.Nota
Do ministerio supersticioso, que estas personagens exerciaõ com os
vegetaes, principalmente os que obraõ com força sobre o systema
nervoso, se originou provavelmente o grande numero de metamorphoses
e muitas fabulas, e prestigios, que a Poesia nos transmittio. Quem bem reflectir no que a credulidade de muitas pessoas attribue
ainda hoje as ànacardinas, e attender aos effeitos dos aromas, do
vinho, opio e outros narcoticos, á singularidade de huma especie de
Arum, que segundo Sloane faz emmudecer, &c., naõ acharà estranho
este meu parecer.
Perto da famosa epoca da guerra de Troya, Chiron o Centauro, do qual a planta
Centaurea obteve o nome, parece ter practicado sem superstiçam a botanica
curativa, em que tinha grandes conhecimentos. Elle formou muitos illustres alumnos, entre os quaes se contam alguns
Princepes; porquanto naquelles heroicos tempos a Botanica curativa tinha
parte na educaçam dos soberanos, e todos os grandes homens cuidavam entam
summamente de grangear a estima a amor dos- povos buscando meyos de os
aliviar nas suas enfermidades Nota
Naõ so nesta epoca, mas ainda antes
della, e em outros seculos seguintes, muitos principes e grandes
personagens cultivarão o estudo dos vegetaes, descobriraõ e poseraõ em
uso as virtudes de alguns, como foraõ, por ex. Teucro Rey de Troya,
Helena raynha de Lacedemonia, Ptolomeo Philadelpho Rey do Egypto,
Telepho Rey de Misia, Eupator Rey do Ponto, Lysimacho Rey de Thracia,
Gencio Rey de Esclavonia, Pharnaces Rey do Ponto, &c., dos quaes
tomaraõ o nome as plantas Teucrium, Helenium, Philadelphus Telephium,
Eupatorium, Lysimachia, Gentiana, e Pharnaceum. Cyro Rey dos Persas teve
hum jardim de toda a sorte de plantas, que cultivava por sua propria
maõ, Attalo Rey dos Pergamenos mandou plantar no seu jardim toda a casta
de plantas medicinaes e venenosas para as apprender a destinguir.
Mithridates, Rey do Ponto, cultivou muito este estudo, e Cratevas lhe
dedicou a planta Mithridatia. Evax, Rey dos Árabes, escreveo sobre as
plantas medicinaes. Iuba, Rey da Mauritania, escreveo da Euphorbia
contra os venenos, e lhe deo o nome do seu medico Euphorbo, que a tinha
descoberto, no tempo em que Augusto Cesar tinha mandado erigir huma
estatua a Antonio Musa, irmaõ do dicto Euphorbo, pelo ter curado huma
perigosa enfermidade.
Durante a guerra de Troya Nota
Esta famosa guerra succedeo quasi doze seculos antes da Era
Christaã. Nota
Foy o Esculapio dos Gregos, cuja sciencia na arte de curar lhe
grangeou honras divinas, como ella tinha grangeado ao dos
Egypcios.
No espaço entre a guerra de Troya e de Peloponeso, que envolve hum periodo de
mais de sette centos annos, Thales e Pythagoras trazendo a philosophia à
Grecia, a Botanica começou a ser melhor cultivada, como o foram as demais
artes; e as substancias vegetaes, como medicamentos internos Nota
Alguns autores saõ de parecer que as subftancias vegetaes começaraõ a
ser empregadas no uso interno somente neste periodo, e que ainda
mesmo no tempo da guerra de Troya se practicasse somente a botanica
cirurgica, e naõ a medicinal; que a bebida de Machaon devia ser
considerada como nutritiva e naõ como medicinal; que os doentes
estavaõ taõ fora de confiarem entaõ em remedios internos, que nos
cazos em que estes deviaõ ser tomados, so tinhaõ fé em amuletos, e
prestigios ou na articulaçaõ de certas palavras proferidas por seus
sacerdotesve sacerdotizas, as quaes às vezes eraõ acompanhadas de
remedios externos vegetaes; que todas as feridas dos heroes Gregos
na guerra Troyana foraõ curadas com remedios applicados
exteriormente, a saber, succos, resinas, e oleos vegetaes, e que por
conseguinte todo o curativo fora meramente cirurgico; que o vinho
que Agamemnaõ bebia em jejum naõ era no intuito de se preserva da peste [sem embargo de que vemos
este uso nos Gregos modernos] porquanto a peste do exercito Grego
fora considerada como hum flagello celeste, e naõ pôde ainda nesta
epoca ser curada por meyos physicos, recorrendo-se somente a
propiciar o Deos irado. Outros pelo contrario pertendem que junto da guerra de Troya a
Medicina do Egypto começara a ser cultivada entre os Gregos; que
fora entaõ que o acazo fizera descobrir ao pastor Melampo a virtude
do helleboro negro, notando que as cabras tendo comido desta planta
eraõ purgadas, o que o moveo a dar o leite dellas às filhas de Rey
Proeto, que eraõ hystericas e se julgavaõ mudadas em vaccas; que a
preparaçaõ, que Hellena fazia da herva entaõ denominada Nepenthes,
era o ópio, &c. Sem embargo de que estas opinioẽs tenhaõ sido seguidas por pessoas de
grande merecimento, as razoẽs em que ellas saõ fundadas naõ me
parecem sufficientes para persuadirme que a Medicina entre os Gregos
naõ date de mais alta antiguidade, ou que fosse filha da
Cirurgia. Eu penso que estas artes foraõ contemporaneas entre todas as nações,
e tiveraõ taõ alta origem como a Botanica, que na infancia das
dictas naçoẽs e durante numerosos seculos naõ foy outra coiza senaõ
hum conhecimento dos vegetaes applicado às artes. A intemperie do ar, mudança das estaçoẽs, venenos, maos fructos,
&c. em todas as epocas da existencia humana, e em todos os
paizes deviaõ causar aos seus habitantes molestias internas que
exigissem medicamentos internos ou da Medicina assim como as
contusoẽs, feridas, &c. exigiaõ os da Cirurgia, e naõ he
verosimil que o homem taõ familiarizado com o uso dos vegetaes naõ
cuidasse de buscar nelles remedios internos nos cazos desesperados,
tentando de tomar cozimentos, gomas, sumos de hervas, &c., assim
como os tentara nas molestias denominadas externas. Eu naõ duvido que as primitivas geraçoẽs usassem primeiramente como
medicamentos internos so das partes daquellas mesmas plantas, de que
se serviaõ como alimentos, e que elles muitas vezes fossem
inefficazes; mas basta que elles as tomassem como medicamentos para
considerarmos a Medicina contemporanea da Cirurgia ou como sendo a
mesma arte entaõ reunida. No descobrimento que fez Noé do vinho vemos huma clara prova das
tentativas que os homens faziaõ por descobrir novos usos nutritivos
nos vegetaes; e porque naõ fariaõ elles em todo o tempo as mesmas
por descobrir os seus usos curativos internos por escapar à dor, e á
morte? O uso dos medicamentos internos, que se tem observado nalgumas naçoẽs
selvagens, naõ nos indica o contrario. Nota
Nos perdemos nam so os escritos deste philosopho, mas ainda os de
muitos outros que tinham tractado dos vegetaes, como foram Lino e
Orpheo seu discipulo, Museo, Zoroastres, Euriphantes, Solon,
Dieuches, Praxagoras, Diocles, Herophilo, Metrodoro, Diagoras,
Epimenides que pela paxam pelo estudo das plantas viveo muitos annos
retirado nas montanhas, os de Archigenes, Androcides, Philippe,
Chrisippo, Callimacho, Asclepiades, Archilocho, Evax rey dos Arabes,
Temison, Dionysio, Glauco, Glaucias, Erasiatrato, Plistonico,
Sosimenes, Androcio, &c. como lemos em Theophrasto, Celso,
Herodoto, Plinio, e Galeno.
Quatro centos e tantos annos antes da Era Christaan appareceo o illustre
Hippocrates Nota
Hippocrates nasceo 459 annos antes de Christo.Nota
Este botanico, a que alguns chamaram tambem Cratevas, nam deve ser
confundido com oCratevas, de que falla Plinio que denominara huma
planta Liliacea (Erythronium dens canis Lin.) com o nome de
Methridates. Os escritos tanto de hum como de outro foram perdidos. Nota
Theophrasto escreveo no terceiro seculo antes da era Christaan. Os Gregos nam foram rigorosamente os fundadores da Botanica escrita
applicada as artes, como se pode colligir do que tenho dicto; mas
elles foram reconhecidos como taes pela razam dos seus escritos
nesta arte serem os mais antigos que chegaram athe nossos dias,
tendo-se perdido os dos Egypcios e Asiaticos por differentes
circumstancias.
Com effeito Theophrasto servindo-se dos trabalhos de Aristoteles Nota
Aristoteles cita em muitos lugares das suas obras os seus dois livros
sobre as Plantas; mas delles apenas temos alguns pedaços
deslustrados pela inepta falsificaçam de hum Arabe pouco versado em
Botanica. Nota
O que Hesiodo, Nicandro, Xenophonte, Basso e outros antigos Gregos
mencionaram dos vegetaes nam he comparavel com os escritos de
Theophrasto. Nota
Theophrasto parece ter seguido nisto os sentimentos de seu mestre,
cuja destinçam a respeito dos sexos vegetaes era muito vaga em
geral, e consistia em julgar que o individuo masculino era mais
forte e mais amplo do que o feminino, posto que esse fosse mais
fructifero. Nota
"Se o pò das flores de hum ramo de palmeira masculina, diz
Aristóteles, for sacudido sobre as da feminina, os fructos desta
amadureceram promptamente; e se o pò das masculinas for conduzido de
longe pelos ventos às femininas, seguir-se ha o mesmo effeito, como
se o ramo da masculina se tivesse dependurado sobre a feminina". Theophrasto diz, que se o pò da palmeira masculina nam for sacudido
sobre o fructo da feminina, este nam amadurecerà jamais, mas cahirà;
porem como depois diz que senam pode assignar razam deste facto de
apolvilhaçam ou aspersam do pò, parece que nam teve ideas de que os
ovarios vegetaes eram fecundados como os dos animaes. Talvez tanto elle como seu mestre nam referiram mais do que as
observaçoens dos Egypcios e Babilonios, entre os quaes a
apolvilhaçam das palmeiras era practicada desde hum tempo
immemoravel, segundo Herodoto.
O botanico de reputaçam, de que temos noticia, depois de Theophrasto foy
Dioscorides Nota
Dioscorides escreveo no tempo do Imperador Nero.
No tempo dos antigos Romanos, à Botanica fez
muito pouco progresso. A traducçam dos escritos de Methridates sobre as
plantas, os quaes Pompeo tinha trazido da Asia, excitaram na verdade alguma
curiosidade em Roma, mas passou-se muito tempo sem que sabio algum se occupasse
de adiantar os conhecimentos que haviam entam na Grecia sobre os vegetaes. He
verdade que delles escreveo Catam, Virgilio, Varro, Collumella, e Palladio, mas
os seus tractados postoque nam deixem de ser estimaveis quanto a agricultura e
usos economicos parecem so ter sido meras copias dos escritos Gregos. Plinio foy
somente o que entre os Romanos adiantou hum pouco a Botanica, tractando-a como
historiador naturalista, a pezar do uso do seu tempo. A sua grande liçam dos
autores coétaneos e da antiguidade, e o caracter observador, de que era dotado
nam exigiam menos. Elle augmentou o catalogo das plantas dos antigos com quasi
duzentas, e nos deixou a sua [Página xxvi] historia; mas he justamente arguido de ter equivocado muitos dos seus nomes,
adulterado varias passagens dos originaes que copiara, e de ter misturado
algumas vezes o verdadeiro com o fabuloso. Fazendo mençam dos figuras de algumas
plantas, que Cratevas, Deniz e Metrodoro tinham feito, parece ter menos estimado
semelhantes retractos do que boas descripçoens; mas as que elle nos deixou ainda
mesmo sobre a estructura das plantas, que tinha observado, rarissimas vezes sam
mais circumstanciadas do que as dos seus predecessores; elle foy ainda muito
menos methodico do que elles, e como dizem alguns Methodistas de hoje, tudo
nelle he huma bella desordem. As noçoens dos Gregos e Romanos naturalistas a
respeito dos sexos vegetaes nam lhe foram desconhecidas; elle nos diz com
effeito que alguns admittiam os dois sexos nas arvores e plantas herbaceas Nota
Arboribus, imo potius omnibus quae terra gignit herbisque etiam
utrumque sexum esse diligentissimi naturae tradunt. Plin. Hist. Nat.
lib. 13. Cap. 4.Nota
Ibid. et alibi.
Depois de Plinio athe à ruina do Imperio do Occidente, a Botanica nam deo passo algum, e muito menos ainda depois della athe ao seculo XV, postoque muitos celebres medicos se occupassem deste estudo. Galeno parece ter-se nelle destinguido mais do que Rufo, Apuleio e outros, e foy o primeiro que invectivou contra a inutilidade das descripçoens dos autores Gregos e Romanos. Confiando mais nos seus olhos cuidou de estudar os vegetaes a seu modo, fazendo muitas viagens nos paizes do Levante, afim de conhecer os que eram de uso medicinal, e nos deixou nos seus livros os nomes de quinhentas especies; mas nam emendou contudo os defeitos que tinha notado nas [Página xxvii] descripçoens dos outros. Ecio, Egineta, Tralliano, e Oribasio nam foram mais felizes.
Invadido e desmembrado o Imperio do Occidente, o destino da Botanica foy quasi
semelhante ao das bellas artes da Italia. He verdade que alguns seculos
depois, os Arabes tendo estendido as suas conquistas pela costa
septentrional da Africa athe às Hespanhas tentaram de acolher as sciencias
deste Imperio, e que os seus medicos Nota
Mesué, Serapiaõ, Raxis, Avicenna,
Averrhoes, Avenzoar, Abenguefit, Albenbeithar, Abul Fadl, &c.Nota
Myrepso,
Quiricio, Bosco, Hildegarde, Sylvatico, Dondis, Suardo, Villanova,
Plateario, &c.
Tomada a capital do Imperio do Oriente por Mahumet II, quasi no meyo do seculo XV, muitos sabios Gregos, que entam se expatriaram fugindo do barbaro jugo mahometano, sendo bem acolhidos na Italia deram principio ao restabelecimento das lettras no Occidente. A invençam da arte de imprimir, que succedeo quasi no mesmo tempo, e as grandes investigaçoens que entam se fizeram em toda a sorte de manuscriptos da antiguidade contribuiram para completar esta feliz revoluçam da litteratura. [Página xxviii] Ella veyo a redundar em proveito das artes e sciencias, e a Botanica nam podia por conseguinte deixar tambem de ter nella alguma parte. O primeiro ardor de trabalho entam, assim como nas mais sciencias, foy a liçam e explicaçam dos antigos escriptores. Theodoro Gaza, e Hermolao Barbaro sam considerados como os primeiros que começaram a restauraçam da Botanica, traduzindo em latim as obras de Theophrasto e Dioscorides. Muitos outros seguiram o seu exemplo, e todos os Tractados da antiguidade sobre os vegetaes, que se poderam achar nas bibliothecas, foram pouco a pouco interpretados.
A necessidade, que a Medicina tinha da Botanica, requeria absolutamente, que se
continuasse o seu estudo e se aper feiçoasse; mas elle nam pode obter perfeiçam
nestes primeiros tempos, nam consistindo entam mais do que na grande liçam dos
monumentos Gregos e Romanos, e de alguns da idade media. Demais disso, nam menos
pela razam do espirito de disputa, que entam dominava, do que por causa das
vagas e obscuras descripçoens, que os antigos tinham dado dos vegetaes, os
commentadores nam so se contrariavam em suas opinioens, mas pelo menor pretexto
davam às plantas dos paizes em que viviam os nomes das mencionadas pelos
escriptores que commentavam, sem reflectir na grande diversidade que havia entre
os terrenos e climas frios do norte da Europa, aonde escreviam, e os da Grecia e
Italia patria dos antigos Autores. Ainda mesmo os que viviam, nos paizes
quentes e meridionaes da Europa nam deixaram de cahir em muitos enganos Nota
Esta erronea applicaçam dos nomes e igualmente dos usos das plantas
foy a principal causa, porque a Materia Medica daquelles tempos se
acha tam carregada de um farrago de substancias inuteis, e ainda
mesmo nocivas; porquanto succedeo que os commentadores algumas vezes
tiveram por saudaveis as plantas venenosas, intendendo mal os nomes
mencionados nos antigos escritos. Nota
Devemos com effeito confessar ingenuamente que nam sabemos qual era o
verdadeiro helleboro, a verdadeira cegude, nem a maior parte das
plantas de que tractaram os antigos Gregos e Romanos. Ainda mesmo depois das sabias investigaçoens, que fez Tournefort por
todo o Levante, e patria dos antigos Gregos, apenas consta que se
ache bem verificada a decima parte dos 600 nomes de plantas, de que
elles fizeraõ mençaõ. Eu nam tractarei jamais o nosso Amato de ignorante de Botanica, como
fez Mathiolo, porisso que nam soube decifrar as verdadeiras plantas
indicadas pelos nomes, e incompletas descripçoens, que se acham nos
livros de Dioscorides, nem censurarei taõbem Mathiolo de nam as ter
decifrado muito melhor, notando-o, como alguns fizeram, de nam ter
comparado as plantas que a natureza produz com as descripçoens de
Dioscorides, mas de ter sobre ellas imaginado as que a natureza
devera produzir, ou tinha mal feito de nam produzir; nem igualmente
cuidarei de o desculpar, como outros fizeram, dizendo, que as
plantas descriptas por Dioscorides tinham mudado hum tanto de figura
desde o seu tempo athe ao do dicto commentador; porquanto attribuo
unicamente toda a difficuldade de reconhecer as plantas dos antigos
às suas màs descripçoens, e esta he a melhor desculpa que se pode
dar a Mathiolo e outros commentadores dos antigos Gregos e
Romanos.
Portanto o modo ordinario de estudar os vegetaes nestes primeiros tempos
differia muito pouco do que tinham usado os antigos fundado na tradiçam Nota
Os que conhecem huma planta meramente de vista, ou porque tendo
ouvido o seu nome de alguma pessoa, que lha mostrasse, ficaraõ
somente com certas noçoẽs do seu habito externo, que elles naõ sabem
explicar, aindaque contudo bastem às vezes para lha fazer destinguir
de qualquer outra, so a conhecem por tradiçaõ ou impiricamente; tal
he por ex. o conhecimento que os nossos hervolarios tem de algumas
plantas. Os Antigos suppunhaõ as plantas conhecidas por este modo, e porisso
cuidaraõ muito pouco de dar boas descripçoẽs dellas, nem na verdade
o sabiaõ como nos.
Este impirico e fastidioso modo de apprender a conhecer os vegetaes nam podia subsistir por muito tempo, e sem duvida poucas reflexoens bastavam aos botanicos para julgar entam que [Página xxx] era indispensavel começar quasi tudo de novo, e estabelecer a botanica, estudando as plantas nam nos livros dos antigos, como era costume, mas sim no grande livro da natureza, que ante elles estava aberto e pedindo a sua attençam. A liçam dos antigos, e o dezejo de reconhecer as plantas, de que elles tinham tractado, requerendo absolutamente a comparaçam das descripçoens com as partes dos vegetaes, a que ellas se suppunham pertencer, necessariamente deviam conduzir a fazer pouco a pouco descobrir novos, e foy com effeito o que succedeo no seculo XVI.
O descobrimento de hum grande numero de plantas, que succedeo nesse seculo, estava exigindo huma destribuiçam methodica capaz de auxiliar a memoria e facilitar o estudo tanto dos antigos vegetaes como dos que novamente se tinham descoberto e se hiam descobrindo. As descripçoens começaram a parecer insufficientes, e o deviam ser na verdade pela razam de serem pouco circumstanciadas, nam obstante todo o trabalho que alguns tiveram de melhor as traçar do que os antigos. Cuidou-se pois de ajuntar as descripçoens estampas semelhantes às que Corbichon e Cuba tinham publicado no seculo XV, e fizeram-se tentativas de destribuiçoens methodicas.
Trago ou Bock foy dos modernos o primeiro, que emprehendeo de dispor os vegetaes
em Methodo; mas o seu plano differe muito pouco do modo destributivo que tinham
seguido Dioscorides e Theophrasto, e se pode dizer que elle somente renovou as
ideas destes antigos Botanicos. Lonicero, Dodoneo, Lobel, Clusio, Dalechampio,
Zaluziano, e muitos outros seguiram igualmente quasi o mesmo plano methodico dos
antigos. A grandeza, duraçam, lugar de nascimento, qualidades, virtudes Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em
que diz: existimandum est autem nullas
propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in
duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci
describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ;
2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo
considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os
generos: - Ex his enim (flore, fructu et
semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes
apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel
Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde
ego cognationes stirpium indicare soleo, figura
differt. Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos
relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657,
seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos
vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde
Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio
Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome
generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem
determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar.
Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo
fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas
todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente
incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos
caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de
Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as
especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados
em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.Nota
Os antigos nam tractaram senam das plantas, em que conheciam alguma
utilidade na Medicina e artes, e porisso os seus conhecimentos
botanicos foram limitados a hum pequeno numero de plantas; elles
cuidaram mais de indagar os seus usos e virtudes, do que os seus
verdadeiros caracteres fundados na estructura e fructificaçam, por
cujo motivo as suas destribuiçoens nam merecem rigorosamente o nome
de Methodo ou Systema, na accepçam em que se tomam hoje estas
palavras entre os Botanicos. As virtudes, e qualidades das plantas sam na verdade ainda hoje
adoptadas pelos autores de Materia Medica, como fundamento das suas
destribuiçoens; mas estas destribuiçoens por mais toleraveis que
sejam em Materia Medica, pela razam do seu differente fim, e por
supporem as plantas ja conhecidas seram sempre improprias em
Botanica, e faram nella confundir o que merece de ser
destinguido. A mesma planta succede as vezes ter differentes virtudes, segundo as
suas differentes partes, de maneira que se os botanicos seguissem os
Autores de Materia Medica, a raiz de huma planta
muitas vezes deveria ser posta em huma classe, a sua flor em outra,
as suas folhas e tronco em
outra, em fim ainda algumas vezes o mesmo fructo, como v. g. a
laranja, mereceria de ser posto em differentes Classes. Nota
O Dr. Porta na sua Phytognomica publicada em Napoles no anno de 1588
dividio os vegetaes em sette classes, considerando-os segundo o seu
lugar de nascimento, segundo as relaçoens que elles tem com os
homens e animaes tanto na figura de suas partes como nos costumes, e
em fim pela relaçaõ que elles tem com os astros. No seu parecer, as plantas em que ha alguma parte que representa o
figado, sam boas para as doenças do figado; as que representam
olhos, sam boas para os olhos; as que representam dedos sam boas
para a gotta; as que tem a forma de testiculos saõ boas para as
doenças dos testiculos, &c. &c. He bem facil de perceber quanto este denominado Methodo he improprio,
cheio de falsidades, e ridiculo, a pezar de todos os elogios que lhe
fizeram de engenhoso. Nota
Nota
Gaspar Bauhino publicou no anno de 1596, no seu Pinax, os nomes e
synonymia de seis mil plantas conhecidas athe ao seu tempo, e as
destribuio em 12 Classes pelas suas qualidades e algumas partes do
habito externo indeterminadamente. Seu irmaõ Joaõ Bauhino na sua
Historia geral das plantas publicada e m três Vol. in-fol. no anno de
1650 deo as figuras de 3428 plantas, e descreveo 5266, destribuindo-as
em 40 livros ou classes segundo as suas qualidades, duraçam, grandeza, e
algumas das suas partes. Estas duas Obras, apezar da sua mà ordem
methodica, mereceram sempre pela vasta erudiçam, que contem, huma
especial estima de todos os Botanicos. As Obras de Guilherme Lauremberg,
Hernandes, Jonston, Rheede, Rumphio, Burman e muitos outros, que
seguiram falsos planos methodicos, semelhantes aos dos antigos, ou pouco
differentes, nam deixam tambem de ter hum particular merecimento quanto
à descripçam historica das plantas; mas os curtos limites deste discurso
nam me dam lugar de mencionar todos os tractados uteis que se tem
publicado em Botanica: demais disso este objecto so me parece ter
proprio dos que escreverem a Historia geral e chronologica da Botanica,
ou Catalogos geraes dos Autores Botanicos.
André Cesalpino, celebre professor de Piza, foy o primeiro que imaginou huma
destribuiçam toleravel quanto à propriedade das partes fundamentaes das suas
divisoens, e porisso mereceo o titulo de primeiro Systematico entre os
Botanicos. Valendo-se do seu descanço e da facilidade de comparar e observar, que lhe
offereciam os jardins botanicos da Italia fundados no seu seculo Nota
Em
Padua, Piza, e Bolonha; o primeiro, que he o mais antigo da Europa, foy
fundado em 1540 pela illustre caza de Medicis; os outros dois foram
estabelecidos em 1547. Depois destes fundaraõ-se muitos outros, como o
de Mompelher em 1598; o de Paris em 1626; o de Edimburgo em 1675; o de
Upsal em 1657; o de Oxeford em 1683; o de Leyde em 1677; os de Berlim e
Leipsique em 1680; o de Amsterdam em 1688; o de Petresburgo no tempo de
Pedro I; o de Madrid em 1756; os de Lisboa e Coimbra no glorioso reynado
do Senhor D. Jozé I; em fim nam ha hoje Estado algum na Europa, por
pequeno que seja, que deixe de ter jardins botanicos, e em alguns elles
sam bastantemente multiplicados, pertencendo nam so às Universidades e
Academias, como também a particulares ricos. Elles foram no principio
instituidos somente para serviço da Medicina; mas os seus Inspectores
vendo que os estreitos limites das plantas medicinaes lhes nam davam
lugar de fazer extensas observaçoens, nem de tirar grande proveito,
introduziram nelles pouco a pouco toda a sorte de plantas, o que deo
occasiam de bem examinar as suas affinidades e de fundar o grande numero
de Methodos que tem havido. A sua utilidade fez tambem que algumas
naçoens Européas os estabeleceram ainda mesmo nos seus dominios
ultramarinos, como fizeram os Hollandezes no Cabo da Boa Esperança, os
Francezes nas Ilhas Mauricias &c. e se nos os tivessemos tambem
estabelecido nas nossas colonias, como nas Cortes de Thomar se havia
proposto, a agricultura, commercio, e artes certamente disso teriam
tirado nam pequenos enteresses.Nota
Cesalpino he na verdade desculpavel neste respeito por ter sido o
primeiro que fundou hum systema na fructificaçam, e o seria com effeito
ainda mais se elle tivesse nas suas divisoens escolhido os destinctivos
tirados do habito externo por attender as affinidades naturaes; mas em
todas as suas divisoens apenas vemos huma sò familia natural, que he a
das Umbrelladas posta na sexta Classe do seu systema.
Joaquim Jungio, Allemam, foy dos primeiros que adoptaram as ideas de
Cesalpino; mas os calamitozos tempos da Allemanha, em que viveo, nam lhe
permittiram de publicar hum melhor Methodo, postoque merecesse de ser
reconhecido pelo primeiro Botanico dogmatico em razam dos muitos sabios
aphorismos, que estabeleceo em Botanica Nota
Jungio faleceo no anno de
1657; a sua Izagoge Phytoscopica, que foy publicada 22 annos depois da
sua morte, contem hum grande numero dos principios criticos, que Ray e
Linneo seguiram. Haller parece ter feito hum grande cazo desta Obra,
como se collige da passagem seguinte. (Praef. Helv. S. pag. 21.): habentur hoc Libro (Jungii) de Plantis
fragmenta satis luculenta, ubi passim leges sancit Linnaeanis
simillimas, deinde stirpes ad genera naturalia revocat, & a
consuetis familiis separat, suas etiam observationes interponit....
incredibile est, quàm profunde in minutias staminum, tubarum,
florumque introspexerit, quantâ etiam perspicacitate, et ingenii
methodica indole definitiones primus fixerit.
Em 1680 Roberto Morisono, Escossez, sendo professor de Botanica em Oxeford publicou huma Historia geral de plantas com pequenas figuras gravadas em cobre, na qual seguio as ideas de Cesalpino debaxo de huma nova forma, dividindo o seu Methodo em 18 Classes fundadas no fructo, corolla, e partes do habito externo. Este Methodo foy com razam censurado de ter mao nexo, e a clave mal feita, e nam sei que fosse seguido mais do que por Bobart, que o completou publicando o seu terceiro volume depois da morte de Morisono.
Em 1682, Joam Rai, theologo Inglez de grande engenho e erudiçam, publicou a mais
extensa Historia do reyno vegetal que se tinha visto, comprehendendo 18655
plantas entre especies e variedades. Os trabalhos desta vasta Obra nam [Página xxxvi] foram dirigidos sò à Medicina, como era costume, mas a tudo o que podesse
ser util à vida humana, e Rai foy com effeito o primeiro depois de Plinio,
que se esforçou paraque a Botanica fosse estudada, como huma parte da
Historia natural Nota
Boerhaave, e Linneo foram do mesmo parecer, e este ultimo tornou a
pôr a Botanica na Historia natural; mas o prejuizo de a considerar
meramente como huma parte da Medicina tem prevalecido de sorte, que
ainda hoje por toda a parte os Medicos e Boticarios sam
privativamente os professores de Phytologia , como senaõ houvesse outra Phytologia mais do que a applicada a
usos medicinaes, nem outras pessoas capazes de a ensinar senam
Medicos e Boticarios. Nota
Rai publicou huma segunda ediçaõ do seu Methodo em 1700, com hum
grande numero de emendas, que elle se vio obrigado a fazer depois de
ter visto o Methodo de Tournefort, seu digno rival.
Christovam Knaut no seu Tractado geral das plantas de Halla na Saxonia, publicado em 1687, tentou de seguir hum novo plano destribuindo as dictas plantas em 17 classes fundadas principalmente na corolla, e fructo, e subdivididas em 62 secçoens pela fructificaçam e habito externo, mas o seu Methodo foy com razam notado de ser summamente composto e difficil.
Pedro Magnol, professor da Universidade de Mompelher, imaginou tambem hum novo
plano de destribuiçam, que alguns consideram como a primeira tentativa do
Methodo natural. Porem o seu intuito nam foy de investigar o Methodo natural,
mas tam somente mostrar que haviam familias nam menos nos animaes do que nos
vegetaes, e que ellas se deviam caracterizar nam puramente pela
fructificaçam, mas por todas as demais partes, porque nenhuma dellas era
accidental, e que em todas se deviam [Página xxxvii] indagar as affinidades ou relaçoens possiveis de semelhança Nota
O Conde
de Buffon foy do mesmo parecer; Linneo, Royen, Haller, Wachendorf,
Adanson, Jussieu, e muitos outros celebres Botanicos do nosso seculo
todos reconheceram, que haviam familias naturaes fundadas em affinidades
naturaes, como Magnol tinha indicado; alguns delles, como Adanson e
Jussieu, admittiram demais disso huma serie ou gradaçoens entre as
differentes familias começando pelas plantas mais
imperfeitas.Nota
Este segundo Methodo de Magnol foy
impresso depois da sua morte em 1720: consta de 15 Classes fundadas nos
caracteres do calys combinados com os corolla, e subdivididas em 55
secçoens relativamente ao lugar de nascimento, disposiçam das flores,
sexo, calys, corolla, e fructo. M. Adanson estranha com razam que Magnol
depois de ter imaginado hum Methodo razoavel composesse este, que lhe he
na verdade inferior e no qual parece querer evitar as familias ou
Classes naturaes, buscando por toda a parte hum calys athe chegar a dar
este nome aos tegumentos das sementes, quando lhe era precizo hum calys
para satisfazer às suas ideas systematicas
Paulo Herman, professor de Botanica em Leyde, seguio as ideas do Cesalpino debaxo de huma nova forma, e dividio as 5600 plantas, de que tractou em 2J Classes fundadas principalmente nas differentes sortes de fructos ou sementes cobertas e descobertas, subdividindo as dictas Classes em 82 secçoens pela disposiçam das flores, e pela corolla e fructo. O seu Methodo he complicado; elle foy seguido de Rudbeck e Zumbach que o aperfeiçoou e imprimio no anno de 1690.
Augusto Quirino Rivino, professor de Botanica em Leipsik, tractou de descobrir
hum Methodo mais facil e mais conforme aos principios systematicos do que nenhum
dos seus predecessores. Elle dividio o pequeno numero de plantas, que conhecia,
em 18 classes fundadas principalmente nas relaçoens da corolla, e subdivididas
em 91 secçoens relativamente ao fructo, figura do calys e corolla, situaçam, e
disposiçam ou falta das flores. Este Methodo publicado pouco a pouco desde o
anno de 1690 athe 1696, nam he tam regular, como alguns pensaram; porquanto
vemos que o seu Autor considerou na clave das suas Classes nam so a regularidade
e irregularidade da corolla e numero das suas petalas, mas ainda a perfeiçam das
flores, e a sua disposiçam. Elle foy contudo durante alguns annos o mais
seguido em Allemanha; Koenig, Welsch, Heucher, Gemeinhart, Hebenstreit, e
Hecher o adoptaram nos seus tractados de plantas; Kramer, Christiano Knaut Nota
Ludwig no anno de 1737 ajuntou duas classes demais ao Methodo de
Rivino, deduzidas da presença ou falta da corolla, e Wedel e Boehmer o
seguiram neste estado de reforma; no anno de 1747 aperfeiçoou segunda
vez o dicto Methodo, reunindolhe demais a relaçam dos sexos das flores,
e foy a melhor emenda que delle se publicou.Nota
Christiano Knaut foy hum dos Botanicos, cujos paradoxos tem
impedido o progresso da Botanica; elle seguio que havia tantos generos
como especies, que a corolla era a parte essensial da flor, e que nam
haviam sementes nuas.
José Pitton Tournefort, que tam destinctamente orna o numero dos grandes
Botanicos da França, foy de todos os seus contemporaneos e predecessores o que
mais aperfeiçoou a [Página xxix] Botanica systematica. Persuadido de que todos os Methodos seriam sempre
demasiadamente imperfeitos em quanto as suas infimas divisoens, ou generos, nam
fossem melhor determinadas, cuidou de lhes dar huma nova forma e fez para este
fim hum grande numero de observaçoens tanto em França como em diversos paizes
estrangeiros, ajudado da munificencia do seu Soberano e pessoas ricas. Concluio
esta difficil empreza no anno de 1694, no qual introduzio em Botanica muitos
principios sábios, e sobre elles fundou hum Methodo que foy reconhecido por
claro, conciso, e facil. Destribuio neste Methodo 10146 plantas (especies ou
variedades) em 22 classes, dividio estas em 122 secçoens, e subdividio as dictas
secçoens em 696 generos. As suas classes foram deduzidas, 1°. da grandeza e
duraçam, ou da consideraçam das plantas como hervas ou arvores ; 2° da presença ou nullidade
da corolla e da flor; 3°. da disposiçam das flores, ou das relaçoens de
simplices e compostas; 4°. do numero das petalas da corolla; 5°. da figura
regular ou irregular da corolla Nota
M. Adanson reconheceo nas Classes de Tournefort seis familias
naturaes, e 48 nas suas secçoens, e assegura com razam que de todos
os Methodos artificiaes o de Tournefort foy o que menos turbou as
affinidades, ou melhor se conformou com a marcha da natureza. Nota
Gouan, Adanson, Jussieu, e outros modernos adoptaraõ esta
doutrina. Nota
Rai tinha sido do mesmo parecer: Notae (dizia elle) obviae sint,
manifestae & cuilibet facile observabiles; nam cùm Methodi usus
praecipuus sit rudes et tyrones in stirpium cognitionem compendio
absque taedio & difficultate inducere, non oportet ejusmodi
notas proponere, quae attentum & sollicitum requirunt
expectatorem, cuique ut microscopium secum ferat necesse est. Rai, Tournefort parecem ter reservado o uso do microscopio somente
para a Botanica physica, persuadidos de que elle se oppunha a
facilidade dos Methodos da Botanica pura. Alguns modernos contudo pensam que o uso do microscopio he
indespensavel a todo o botanico, visto ter a experiencia mostrado
que ha nos vegetaes da mesma sorte que nos animaes quasi tantas
partes imperceptiveis (ou talvez mais) como ha de volumosas ou
perceptiveis sem microscopio, e que os nectarios, partes da
fructificaçam, e muitas notas caracteristicas de algumas plantas
jamais se poderaõ bem reconhecer senaõ usarmos do microscopio ou ao
menos de huma boa lente.
Aindaque Tournefort nam tivesse pensado em traçar hum plano, capaz de classar
adequadamente todas as plantas do globo terrestre, o que elle julgava
impossivel em qualquer destribuiçam systematica, contudo o seu systema tanto
pela novidade dos generos como pela sua facilidade obteve huma grande
acceitaçam, e nelle se alistaram durante alguns annos todas as especies e
generos, que se descobriram Nota
Principalmente as novas plantas da
America, que o douto religioso Carlos Plumier havia descoberto e
descripto por ordem de Luiz XIV., que lhe tinha dado tença e o titulo de
seu Botanico.Nota
Ponho Seguier entre os que seguiram Tournefort, porque o seu Methodo
relativo às plantas de Verona differe muito pouco do Methodo deste
Botanico, e o mesmo se deve entender do de Durande, que hoje se
ensina na Universidade de Dijon. Nota
Todos os Botanicos depois de Linneo tem evitado essa falsa divisaõ; e
Bergen sem embargo de ter seguido Tournefort no seu Tractado das
plantas de Francfort, publicado em 1750, naõ deixou de diminuir as
suas Classes reunindo as arboreas com as herbaceas.
Passados alguns annos depois da publicacam do systema de Tournefort appareceram
alguns outros, que nam sendo nem mais faceis nem mais perfeitos nam lhe poderam
usurpar a maior acceitaçam. Boerhaave, celebre professor de Botanica, Chimica, e
Medicina, publicou em Leyde no anno de 1710 huma divisam de seis mil plantas em
84 Classes, considerando-as relativamente à sua grandeza, duraçam,
fructificaçam, e habito externo: subdividio as dictas classes em 104 secçoens ou
ordens fundadas na substancia e figura das folhas, do calys, corolla, sementes,
e tronco, no numero das petalas, capsulas e sementes; na situaçam das flores e
germe; e em fim nos organos sexuaes das flores, que elle empregou tambem algumas
vezes para caracterizar os generos. O seu Methodo foy huma combinaçam dos
systemas de Cesalpino, Rai, Herman, e Tournefort, e por ser muito difficil e
complicado foy apenas seguido na sua escola e por Emsting e Morandi Nota
Morandi no seu Tractado das plantas medicinaes, publicado em 1744,
reunio as arvores com as hervas, e em quasi tudo o mais seguio o
Methodo de Boerhaave.
Em 1720, Pontedera nas suas dissertaçoens, em que descreveo 272 especies novas de plantas, negando os seus sexos [Página xliii] em geral, imaginou de emendar às imperfeiçoens do Methodo de Tournefort, e augmentou as suas 22 classes athe 37, considerando-as debaxo das mesmas relaçoens, e alem disso segundo a presença ou nullidade dos gomos; mas elle nam chegou a pôr em execuçam o seu plano systematico, nem o applicou aos diversos generos de plantas.
Trinta e tantos annos depois da ediçam do Methodo de Tournefort, Carlos
Linneo, sabio Naturalista Sueco Nota
Carlos Linneo foy filho de hum pobre
Ecclesiastico de Smolandia na Suecia. Tendo-se applicado ao estudo de
Historia natural fez nesta sciencia tam rapidos progressos, que na idade
de 22 annos se achava ja capaz de ajudar e substituir Rudbeck, que entaõ
a professava em Upsal. Huma das suas primeiras tentativas em Historia
natural foy de fazer hum systema Botanico, que podesse prevalecer ao de
Tournefort, e o qual dizem que elle chegara a introduzir no jardim
botanico de Upsal no anno de 1731. Depois disto foy empregado pela
Sociedade da dicta cidade para fazer huma viagem na Lapponia, Noruega e
outros paizes do Norte por objectos de Historia natural. Em 1735, e
annos seguintes protegido por Amigos viajou pela Dinamarca, Suecia,
Allemanha, Inglaterra, e Hollanda, aonde publicou o seu Systema Naturae.
Tendo tornado à Suecia, sua patria, a reputaçam que por fora tinha
grangeado lhe suscitou a inveja de Rozen e outros Membros da
Universidade de Upsal de maneira, que tendo aberto hum curso de Liçoens
de Historia natural, foy por decreto da dicta Universidade suspendido de
o continuar, debaxo do pretexto de que somente os doutores aggregados a
ella podiaõ ensinar. Mas vencida esta dificuldade no anno de 1741, em
que foy nomeado professor de Medicina e Botanica, continuou durante
muitos annos as suas liçoens com grande celebridade athe que em fim
victima da sua applicaçam demasiadamente sostida veyo a ficar privado
quasi de todas as suas faculdades intellectuaes no ultimo anno da sua
vida, e a morrer de huma hydropisia de peito. Elle contribuio tanto
pelos seus extensos trabalhos como pelos sabios Alumnos, que formou,
para adiantar todas as partes de Historia natural mais ou menos, e se
lhe deve com effeito esta justiça, a pezar das suas opinioens.
A noticia dos sexos das plantas nam tinha sido inteiramente desconhecida aos antigos Gregos e Romanos; nos escritos de [Página xliv] Herodoto, Aristoteles, Theophrasto, Dioscorides, e Plinio achamos provas disso, como ja disse fazendo mençam destes Autores; mas as suas ideas a este respeito foram obscuras, conjecturaes, e nam fundadas em conhecimentos anatomicos das flores. Demais disso, ainda estas mesmas ideas parecem ter sido limitadas às palmeiras e de alguma sorte às figueiras; porquanto se bem que attribuiram sexos a muitas outras plantas, isso nam foy mais do que por hum mero motivo de destinçam estabelecida humas vezes na força ou fraqueza dos individuos, outras vezes na maior ou menor perfeiçam dos seus fructos, na maior ou menor efficacia das suas virtudes.
Em toda a idade media athe quasi ao seculo passado, a doutrina dos sexos das
plantas foy muito incerta e indeterminada, nam tendo os botanicos outras
noçoens della mais do que as dos antigos, donde procederam muitas falsas
destinçoens, que lemos nas obras dos autores desses tempos Nota
Como saõ as de Feto macho, Feto femea; Peonia macha, Peonia femea;
Cornus mas, Cornus. faemina, &c. &c. Elles chamavaõ em algumas especies herbaceas dioicas, taes como o
Canamo e Mercurial, plantas machas as que eraõ femeas, e vice versâ,
so pela razam da sua grandeza ou virtudes medicinaes; (Mercurialis
testiculata, sive mas; & spicata, sive faemina. G. Bauh.) Nota
Gesnero, Grew, Malpighi, e Feldmand foram os que principalmente
restauraram a Botanica physica, e a adiantaram; este agradavel
estudo foy continuado por Hales, Ludwig, Leuvenhoek, Hill, Linne ,
Duhamel, Guettard, Bonnet, Saussure e muitos outros. Nota
J. Bauhino citou em 1650 as principaes passagens de Zaluzianski a
respeito dos sexos, mas nam parece ter feito maiores
investigaçoens.
A frequencia de ver das sementes de hum so individuo nascer masculinos e
femininos, isto he, hum esteril outro fructifero, devia necessariamente conduzir
a comparar os vegetaes com os animaes no modo de produzirse, e a investigar cada
vez mais este curioso objecto. Com effeito nam tardou muito tempo que o Dr.
Nehemias Grew Nota
Idea of a Philological History of Plants, &c. Lond.
1682, fol.
A opiniam de Grew foy adoptada por hum grande numero de Botanicos. Malpighi
seu contemporaneo nam contribuio pouco para a confirmar Nota
Anatome
plantarum. Lond. 1686, fol.Nota
"Em todos os flosculos das Compostas, dia este celebre
physiologista (na sua Epistola de Sexu Plantar. Tubingia, 1694), em que
falta o estigma ao pistillo, ha abortamento nas sementes; se no milho,
na amoreira, e muitas outras plantas cortamos as antheras das flores
masculinas, e os estyletes das femininas, naõ ha fecundaçaõ, nem por
conseguinte geraçaõ, e se pomos o individuo masculino da mercurial
distante do feminino, este naõ dará fructo, ou se o der, as suas
sementes naõ germinarão" Elle confessou contudo que as suas experiencias
tinhaõ falhado no canamo. Camerario naõ so foy o que melhor estabeleceo
o sexualismo dos vegetaes, mas o que ensinou a substituir por analogia
as plantas indigenas às exoticas, ideas, que Petiver e outros depois
seguiraõ. Elle foy taõbem o primeiro que fez mençaõ do numero dos
estames, e parece ter suggerido a Linneo os principios do seu systema:
Magnol tinha taõbem ja antes de Linneo empregado os organos sexuaes das
plantas em algumas das divisoẽs do seu Methodo Calylino, e Boerhaave nos
generos: Burchard medico de Brunswick tinha imaginado de fundar nelles
hum Methodo, como se collige da sua carta escrita a Leibnitz em 1702, e
reimpressa em 1758 por Heister em Helmstad: "Hic disserere constitui an
ex partibus istis, quas ab officio genitales dicturus sum, Plantarum
comparationes institui possint".Nota
Wolfio, Burchard, Logan, Blair, Bradley, Ludwig, Royen, Jussieu,
Needham, Monro, &c., &c.. Esta investigaçaõ passou athe à
plantas menos perfeitas e Jussieu descobrio estames no Fetos,
Micheli nos Fungos, Reaumur nas Algas e Hedwig nos Musgos. Sem embargo disto, a doutrina dos sexos naõ tem sido athe ao presente
universalmente recebida. Tournefort considerou as partes sexuaes das flores meramente, como
vasos excretorios destinados a separar a redundantia dos succos
nutritivos do novo fructo, e naõ lhes deo lugar no seu systema. Pontedera, Siegesbeck, Bénneman, e Moeller seguiraõ, que o pò das
antheras era somente huma materia proveitosa ao novo fructo. Alguns naõ admittiraõ sexos nas plantas Cryptogamicas (Vej. a Expos.
da Cl. Cryptog. vol. 2.) O Padre Spalanzani assegura com muitas experiencias, que no canamo e
muitas outras plantas perfeitas podem haver fructos perfeitos ou
sementes capazes de propagar a sua especie sem o concurso das
antheras. O Dr. Alston, professor de Edimburgo, o Conde de Buffon, e outros
Epigenesistas naõ admittem o sexualismo em todo o reyno vegetal. Vej. a Palavra Sexus no Diccionario Botanico, Vol. 2.
Linneo completou em fim a doutrina dos sexos, e lhe deo toda a extensam, de que
ella era susceptivel, compilando a seu favor todos os argumentos de que se
tinham servido os seus predecessores, ajuntando algumas novas observaçoens, e
fundando nella hum novo Systema, que em razam disso denominou sexual. Publicou este Systema no anno de 1787 e o dividio em 24 Classes
estabelecidas relativamente ao numero, ponto de apego, proporçam, adunaçam,
situaçam, e occultaçam dos estames; subdividio cada huma destas Classes em
differentes Ordens deduzidas do numero dos pistillos, do numero, adunaçam e
situaçam dos estames, e da figura do fructo Nota
As Ordens do Systema sexual sam algumas vezes subdivididas em
secçoens entremedias, fundadas em diversas relaçoens do calys,
corolla e outras partes da fructificaçam. M. Adanson diz (Pref. p. XX.) que as subdivisoens das classes deste
systema sam algumas vezes fundadas tambem em notas do habito
externo; eu penso que elle falla das Ordens da Classe Cryptogamia,
porque todas as mais subdivisoens sam puramente estabelecidas em
notas da fructificaçam. Nota
Tournefort tinha feito
mençam de 698 generos; depois delle athe Linneo muitos outros Botanicos
ajuntaram quasi mil, e Linneo athe o anno de 1759 descreveo 1174
generos. O Dr. Murray, na ultima ediçam do Systema Vegetabilium de
Linneo publicada em 1784, fez mençam de 1436 generos; mas o numero dos
generos conhecidos, e classados no systema de Linneo he mais
consideravel, como se pode ver nas Obras de Jacquin, Forster, Aublet,
&c.
Este systema teve no principio pouco séguito Nota
Milne (Dict. Bot.) diz que
Linneo estando em Londres proposera o seu systema a Sloane, entam
presidente da Sociedade Real da dicta cidade, e que este nam fizera cazo
delle.Nota
Vej. a Exposiçam
deste Systema, e o Cap. V. do Tom. II. desta Obra.Nota
Boerhaave tinha na verdade fundado antes de Linneo caracteres
genericos nas partes da fructificaçaõ; mas por hum modo abbreviado,
e bem differente do plano de Linneo. Nota
Heister pensava que as
folhas podiaõ algumas vezes servir como parte essensial para
caracterisar os generos. Gouan na maior parte dos generos do seu Hortus
Monspeliensis ajuntou aos caracteres da fructificaçaõ (adoptados de
Linneo) outros a que elle chama secundarios, e que saõ tirados de
diversas partes do habito externo. Jussieu servio-se das cores, e das
notas do habito externo mixtas com as da fructificaçaõ em muitos
caracteres dos generos do seu Methodo. Adanson nas suas familias de
plantas naõ estabeleceo caracter algum generico puramente na
fructificaçaõ, e advertio que o mesmo, que Linneo tinha dicto de
Tournefort "Tournefortianis nihil detraho meritis optimis, nego tamen
ejus characteres perfectos esse, nego ex iis destingui posse genera" se
lhe podia adequadamente applicar relativamente a huma grande parte dos
seus generos; porquanto os caracteres de muitos delles, principalmente
dos exoticos, eraõ muito defeituosos, de maneira que os viajantes naõ
podiaõ nelles confiar, e que elles algumas vezes o teriaõ conduzido na
sua viagem do Senegal a tomar humas plantas por outras, se naõ se
tivesse servido dos destinctivos das folhas, disposiçaõ das flores,
&c. Haller taõbem admittio entre as notas genericas as do habito
externo, e chegou ainda mesmo a dizer, que Linneo as tinha seguido na
praxe, a pezar dos principios que tinha estabelecido: Id tamen
fundamentum jeci, cui soli Methodus naturalis potest superstrui, ut
vicinae sint stirpes, quae notis plurimis sibi similes sunt, etiam si
aliquâ quam longissime differant, eae plantae sint dissimiles, quae
plurimis notis diversae sunt, etiam si unâ notâ quam vicinissimae
fuerint. Neglectus hujus axiomatis Methodos non naturales genuit. Inter
notas habitum posui, quem excludit quidem ex legibus Linnaeus in praxi
vero ubique revocat, suisque legibus praefert, exemplo Convalartae,
Tussilaginis, &c. (Hal. Stirp. Helv. praef. p. 14.Nota
Os
generos (diz o Dr. Oeder Elem. Botan.) naõ saõ definidos pela natureza;
elles ficaraõ ao arbitrio dos homens, os seus limites saõ ambiguos, e
dependem das relaçoẽs arbitrarias, que cada hum adoptou por definiçaõ,
ou se propoz de seguir com preferencia rejeitando outras. Naõ me parece
que haja Autor algum, que tenha fundado generos invariaveis, por mais
disputas e por mais defensores que tivesse de que seguio as affinidades
naturaes. Que Botanico ha que deixe de conhecer a grande diversidade que
existe entre os generos da maior parte dos Methodistas, sem embargo de
todos terem pertendido seguir a natureza? Daqui tem procedido a
differença e multiplicidade de nomes, que daõ motivos de queixas aos que
estaõ acostumados a hum systema, e que fazem perder o gosto de cultivar
a Sciencia, oppondo-se por conseguinte ao seu progresso. As innovaçoẽs,
que Linneo fez na nomenclatura, a pezar de muitas queixas, foraô
adoptadas, e saõ hoje seguidas; mas talvez nos seculos seguintes,
crescendo o numero dos generos, e apparecendo outro famoso e ousado
systematico, se queixaraõ outros de que lhes mudaraõ os nomes de Linneo.
Alguns tem sido de parecer que deviaõ haver poucos generos por evitar o
incommodo do grande numero de nomes genericos, outros pelo contrario
seguiraõ que deviaõ haver muitos a fim de que os nomes das especies
fossem menos variaveis, e mais facil a practica methodica; mas nenhum
destes pareceres se dirige a arrancar a raiz do mal, que procede de naõ
haver em Botanica huma nomenclatura fixa, como ha em Astronomia.
No parecer de Adanson os generos de Linneo sam mais proprios dos systemas artificiaes fundados na fructificaçam, do que dos que sam estabelecidos em outras partes, e do que do Methodo natural, em cujos generos os caracteres devem ser tirados de todas as partes das plantas; outros contudo tem pensado que elles sam mais proprios do Methodo natural do que dos artificiaes ou ao menos do que systema do Sexual, porquanto dizem, que todos os Autores, que athe agora tem feito tentativas do Methodo natural, desuniram incomparavelmente muito menos dos generos de Linneo, do que seria precizo desmembrar, se todas as especies citadas no Systema [Página lii] sexual fossem destribuidas nas Classes e Ordens, a que rigorosamente pertencem conforme as leys do dicto systema.
Nam obstante todos os defeitos, que se censuraram nas differentes divisoens
desta destribuiçam systematica, ella nam deixou contudo de ser adoptada por
hum grande numero de Autores Botanicos, e de vir a ser hoje a mais seguida
na Europa Nota
A França he de todos os paizes da Europa aonde os systemas
de Linneo saõ menos seguidos. No jardim Real de Paris ensina-se o
Methodo de Jussieu, e em Dijon e muitas outras Universidades segue-se o
Methodo de Tournefort reformado.
No anno de 1738 Linneo publicou outro plano systematico, ao qual deo o nome de Methodo Calycino, por ser destribuido em 18 Classes deduzidas principalmente das relaçoens do calys; mas elle nam completou a execuçam deste Methodo por lhe ter preferido o primeiro fundado nos organos sexuaes.
No mesmo anno publicou huma terceira destribuiçam dos vegetaes, com o titulo de Fragmentos do Methodo natural.
Esta destribuiçam continha entam 746 generos em 65 divisoens, que elle
denominou Ordens naturaes sem lhes dar titulos alguns; mas em 1751 na ediçam
da sua Philosophia Botanica augmentou os dictos generos athe ao numero de
1026, e as suas Ordens a 68, dando-lhes differentes nomes tirados das obras
dos seus predecessores, ou imaginados por [Página liii] elle algumas vezes com bem pouca propriedade Nota
Segundo Royen, os
titulos das familias dos vegetaes devem ser tirados de hum genero, que
nellas he o mais conhecido; Adanson e Jussieu seguiraõ esta maxima, e
ella me parece na verdade ser a mais razoavel.Nota
Primum & ultimum in parte systematicâ Botanices quaesitum est
Methodus naturalis. Clas. Plantar. Methodus naturalis ultimus finis
Botanices est et erit. Philos. Botan. pag. 137.Nota
Isto naõ parecerà
estranho aos que conhecem a grande dificuldade que ha de vencer os
obstaculos, que se oppoem ao descobrimento do Methodo natural. Estes
obstaculos no parecer de Linneo (Phil. Bot. p. 137) saõ, 1.º o desprezo,
que se havia feito do habito externo das plantas, depois que se tinha
começado a cultivar a doutrina da fructificaçaõ; 2.º a falta de generos
exoticos, que restavaõ para defcobrir; 3.º a affinidade que tinhaõ os
generos com os que lhes ficavaõ lateralmente contiguos; 4.º (Gener.
Plant.) a difficuldade ou quasi impossibildade de estabelecer a clave do
Methodo natural, sem a qual as familias naturaes naõ podem constituir
Methodo. Estas difficuldades foraõ a causa porque elle deo o nome de
Pedaços do Methodo natural às Ordens que publicou, confessando que ellas
eraõ dirigidas a fazer conhecer a natureza das plantas, e naõ a sua
nomenclatura; porquanto pensava que so os Methodos artificiaes podiaõ
servir para bem fazer conhecer os seus nomes, e que todos os que para
este fim destribuiaõ as plantas em Fragmentos do Methodo natural,
rejeitando o artificial, lhe pareciaõ ser semelhantes aos que deitaõ
abaxo humas cazas de abobada e de bons commodos, para em seu lugar
reedificar outras, de que naõ podem fechar a abobada.Nota
Em vaõ, diz o Dr. Oeder (Elem. Bot.), se tentara de
explicar ou indagar o caracter de huma familia natural, em quanto houver
a preoccupaçam de que sò das partes da fructificaçaõ se devem tirar
caracteres geraes: examinemos toda a estructura, ou habito das especies,
todas as affinidades em qualquer parte que as poz a natureza, e podemos
estar certos de que descobriremos bons caracteres. ... . Sem embargo de
que Linneo fosse hum dos maiores defensores da doutrina da
fructificacam, nam me persuado que os caracteres das Ordens, que nos
deixou nos seus Fragmentos do Methodo natural, fossem puramente nella
estabelecidos.
Os trabalhos de Linneo em Botanica nam se limitaram somente a fazer huma
revolucam nos generos, e a formar com elles novas destribuiçoens; elle
publicou hum grande numero de novas observaçoens e de tractados de plantas
de muitos paizes, simplificou a nomenclatura dos vegetaes, inventou alguns
termos technicos, emendou e fixou os antigos, e estendeo os dogmas de
Botanica Nota
Estes dogmas estaõ reunidos na sua Philosophia Botanica:
muitos delles sam compilados de Jungio, Paulo Hamman e Tournefort:
alguns saõ demasiadamente generalizados ou applicados sem destinçam
tanto aos Methodos artificiaes como ao natural; em fim alguns foram
tractados de paradoxos, de principios contradictos pela practica do seu
mesmo autor, e rejeitados por Siegesbeck, Heister, Hebenstreit, Alstoa,
Ludwig, Haller, Adanson, Jussieu, &c.
Adriano Royen, professor de Botanica na Universidade de Leyde, deo no anno de
1740 hum plano de destribuiçam de 2700 plantas com o nome de Preludio do
Methodo [Página lv] natural, dividido em 20 classes relativamente ao numero das cotyledones,
partes da fructificaçam, disposiçam das flores, e substancia herbacea ou
pétrea (porque no seu tempo ainda se nam tinham excluido de Botanica Nota
As esponjas, coraes, corallinas, madreporas, e outras producçoens
marinhas denominadas lythophytos foram classadas no Reyno vegetal quasi
athe o meyo do nosso seculo. Imperati em 1599 teve algumas leves ideas
da animalidade destes entes; Peyssonel renovou as mesmas ideas em 1727,
mas sem provas convincentes; o Dr. Bernardo de Jussieu em huma Memoria
presentada a Academia de Sciencias de Paris em 1741 foy o primeiro que
provou com razoens decisivas, que elles deviam ser classados no reyno
animal por serem relativos aos polypos, cujos corpos se ramificaõ e tem
grande analogia com os vegetaes. Depois deste tempo os lithophytos foram
inteiramente excluidos do reyno vegetal.Nota
Hinc patet,
cur nullis a quocunque demum autore datis principiis adhaserim, sed
solis naturae legibus adstrictus.... Unde factum est, ut classes, quas
ante me pauci dederant, naturales servaverim, plures introduxerim, et
reliquas seorsim exhibuerim. Pr. Florae Leid.
Alberto Hailer, na sua Enumeraçam das plantas da Suissa impressa em 1742, e
das de Gottinga publicada em 1753 fez tambem huma nova tentativa do Methodo
natural, destribuindo duas mil especies, que descreveo, em 13 Classes Nota
Linneo reconheceo 15 Classes neste Methodo; Adanson confessa
contudo nam ter podido descobrir nelle mais do que 13; eu nam pude
taõbem decifrar hum maior numero; ellas sam com effeito difficeis de bem
se destinguirem, por se encadearem de ordinario estreitamente com as
subdivisoens subalternas, segundo o plano, que o seu Autor se tinha
proposto, e que elle seguio o mais que lhe foy possivel. Ego, qui non
universalem stirpium Historiam molior, non tenebar perfectam dare
generum distributionem. Sufficere credidi, si quamlibet familiam inter
duas familias disponerem, à quibus proximè distat et difficiliùs
distinguitur. Detegent fortè hoc meum studium gnari, in graminibus, in
transitionibus, quibus classes conjunguntur &c... id ubique non
obtinui, neque fortè licet, cùm affinitates naturales mihi non simplices
esse videantur, sed ab uno genere ad alia muita ex diversis notis
perinde possit legitimè transire. (Hall. Pr. Stirp. Helvet.
Francisco Sauvages, Medico de Mompelher, deo em 1743 o projecto de hum Methodo fundado nas differentes relaçoens das folhas, o qual, a pezar da reforma que o dicto botanico nelle fez em 1751, he muito defeituoso, principalmente pela razam das suas divisoens conterem de ordinario plantas que lhes nam convem com propriedade.
Everardo Wachendorf imprimio no anno de 1747 hum catalogo, das plantas do jardim botanico de Utrech, no qual citou quasi quatro mil especies simplesmente com as phrases de Linneo, e destribuidas em 16 Classes principalmente pela fructificaçam. Este botanico he contado no numero dos que fizeram tentativas sobre o Methodo natural; mas as divisoens do Methodo, que elle imaginou, pela maior parte nam sam [Página lvii] naturaes, e os seus titulos de ordinario sam viciosos pela sua demasiada extensam.
O Methodo geral publicado pur Lourenço Heister em 1748 contem 35 Classes fundadas na fructificaçam, habito externo e grandeza arborea ou hebracea; subdivididas em 93 Ordens relativamente ao sexo das flores, à sua disposiçam e das folhas, numero das petalas e sementes. Este Methodo parece ter sido trabalhado sobre o de Rai, e he mais facil do que elle.
Joam Gleditsch deo no anno de 1749 Nota
Vej. a Histor. da Acad. Real de
Scienc. de Berlim. in 4.º, pag. 109, e seg.
M. Duhamel no seu Tractado das arvores e arbustos, que se cultivam em França sem estufas, impresso em 1755, cuidou de combinar o Systema de Linneo com o de Tournefort, e destribuio as mil especies, de que fez mençam, em tres Classes relativamente aos sexos, e ao numero das petalas. Elle deo ainda na mesma Obra mais dois outros Methodos, hum composto de sette Classes estabelecidas na substancia e figura do pericarpo, e na substancia, figura, e nudez das sementes; outro de quatro Classes fundadas na figura, situaçam, e duraçam das folhas. O intuito de M. Duhamel foy de facilitar, o mais que lhe foy possivel, o conhecimento das plantas de que tractou, considerando-as nestes tres Methodos relativamente ao estado da florecencia, da frutescencia, e do [Página lviii] periodo em que ellas se acham sem, flor nem fructo, e so com folhas: elle conhecia muito bem, que todos os Methodos artificiaes sendo mais ou menos defeituosos, o seu primeiro Methodo nam podia ser livre de defeitos, e lhe ajuntou por esse motivo os dois outros para supprir às suas imperfeiçoens. Hum semelhante plano he digno de ser imitado, e o seria ainda muito mais, se M . Duhamel lhe tivesse ajuntado hum quarto Methodo ou Catalogo, no qual as plantas, que citou, se achassem dispostas em familias naturaes.
M. Adanson, sabio Botanico da Academia de Sciencias de Paris, no seu Tractado das
Familias de Plantas publicado em 1763 seguiu hum plano do Methodo natural
inteiramente diverso dos que tinham imaginado os seus predecessores. Elle
destribuio as 18 mil plantas (especies e variedades) conhecidas athe ao dicto
anno, em 1615 generos, a que chamou linhas de separaçam primarias e bem
assignaladas pela natureza. Assignou a cada huma destas Familias e generos o
seu caracter particular deduzido da fructificaçam e habito externo, porque
no seu parecer os verdadeiros caractéres genericos naturaes, ou proprios das
divisoens do Methodo natural devem ser tirados de todas as partes dos
vegetaes, vistoque ha algumas, que sam mais essensiaes para este fim em
certas Familias do que as da fructificaçam, como por ex. sam as folhas na
familia das Estrelladas e Leguminosas, e a disposiçam das flores nas
Labiadas. Nam estabeleceo clave alguma às 58 familias, a que limitou o
reyno vegetal conhecido, pensando que era muito difficil, e mesmo impracticavel,
reduzir as familias naturaes a huma boa clave classica, por falta da
generalidade competente de notas caracteristicas. Em lugar de clave dispoz as
dictas familias por huma serie gradativa, começando pelas dos vegetaes menos
perfeitos, e encadeando-as [Página lix] humas com outras conforme as affinidades, com que ellas lhe pareceram ter
sido approximadas pela natureza. Este Methodo nam deixa de ter bastantes
imperfeiçoens, como o seu mesmo Autor confessa; muitos dos caracteres dos seus
generos e familias sam incompletos, e precisam de ser correctos (este defeito
contudo nem sempre deve ser attribuido ao Autor, elle procede muitas vezes das
omissoens dos seus predecessores ou das estampas e descripçoens incompletas, que
elles publicaram, e que M. Adanson seguio, sendo-lhe impossivel de tudo
verificar); algumas plantas referidas às familias das dicotyledones sam
monocotyledones; algumas familias parecem desligadas, outras tem transiçoens
muito arbitrarias e mesmo improprias, como he por ex., a dos Pinheiros aos
Musgos, que o Autor poz no fim de todas as suas gradaçoens methodicas; outras
nam tem a sufficiente uniformidade de caracteres nos seus generos para merecerem
o nome de naturaes; em fim algumas plantas podem referir-se a duas familas
vizinhas, sem que nota alguma caracteristica decida mais a favor de huma do que
de outra. A pezar destes e outros defeitos, o Methodo de M. Adanson nam deixa de
ser muito mais bem trabalhado nas familias naturaes do que os dos seus
predecessores; elle chegua-se muito mais ao Methodo natural, e pode servir de
grande soccorro aos que se occupam na sua investigaçam. M. Adanson publicou alem
disso na mesma obra hum grande numero de reflexoens sabias sobre a Botanica
dogmatica e methodica, que o dam bem a conhecer pur hum botanico erudito e
profundo. Eu adoptei neste Tractado muitas das suas ideas, todas as vezes que as
achei conformes ao que me tem ensinado o estudo de muitos annos subre os
vegetaes, porque nem sempre me pareceram bem fundadas. Algumas das suas
assersoens relativas às partes da [Página lx] fructificaçam das plantas denominadas Cryptogamicas discordam muito das
minhas observaçoens e das do Dr. Hedwig de Leipsik Nota
O Dr. Kedwig he de
todos os modernos o que me parece ter melhor indagado as plantas
Cryptogamicas. A Academia de Petresburgo coroou huma das suas obras, na
qual elle demonstrou com huma grande sagacidade as miudas partes da
fructificaçaõ naõ so dos Musgos, mas ainda dos Fetos, Algas e Fungos.
Elle referio a Cavallinha a Tetandria monogynia: os organos masculinos
do Agarico, segundo as suas observaçoens, estam na parte interna da
volva, que cobre as laminas, e que vem depois a formar o annel a roda do
espique; os pistillos da mesma planta estam situados nas laminas. Elle
pensa que os escudilhos dos Lichens sam capsulas, que enserram sementes,
e que os tuberculos dos Lichens tuberculosos foraõ escudilhos antes de
tomar a forma tuberculosa. Julga que as celhas do Lichen ciliaris sam
raizes, assim como outras partes analogas em muitas outras espécies de
Lichen. O seu prezado axioma he que — omnis planta ex semine — assim
como o de Harvey era, omne animal ex ovo —. Segue que os fluidos
circulaõ, nos vazos dos vegetaes, assim como nos dos animaes, e que os
Reynos Vegetal e Animal se podem bem distinguir hum do outro pelos
organos masculos, os quaes em todos os vegetaes perecem depois de ter
operado a fecundaçaõ, e pelo contrario subsistem nos animaes depois
desta operaçaõ, e podem repetila muitas vezes.
O Dr. Antonio Luiz de Jussieu, celebre Botanico da Academia de Sciencias de
Paris, em duas Memorias prezentadas à dicta Academia nos annos de 1773 e de
1774, indicou hum novo plano methodico universal, e nelle adoptou a nomenclatura
de Linneo, e quasi geralmente os seus generos, reduzindo-os a 92 Familias
estabelecidas em differentes relaçoens collectivamente tiradas de todas as
partes das plantas, e dispondo as dictas familias conforme as suas affinidades
em huma serie methodica, começando pelas dos vegetaes menos perfeitos, como
tinha feito M. Adanson. Elle nam seguio contudo as ideas deste Botanico nem as
de Linneo a respeito da clave [Página lxi] classica das familias naturaes; porquanto persuadido de que nellas haviam
algumas relaçoens geraes e invariaveis capazes de servir de base para
estabelecela, reduzio as do seu Methodo (que considerou como naturaes) a huma
clave de 14 Classes fundadas principalmente na privaçam ou numero das
cotyledones das sementes, e no mediato ou immediato apego dos estames ao calys,
receptaculo, ou pistillo. Mas esta clave tem algumas imperfeiçoens e he muito
diffcil na practica: o titulo de acotylédones (ou sem cotyledones) dado a
todas as Cryptogamicas, às Nayades e Parasitas he improprio e desmentido
pela natureza; nestas duas ultimas familias ha algumas plantas Nota
Como
saõ por ex. o Myriophyllum, e Ceratophyllum.Nota
Como por ex. no Cactus, no qual algumas especies saõ
monocotyledones e outras dicotyledones.Nota
O Methodo sobredicto foy imaginado pelo Dr.
Bernardo de Jussieu, e estabelecido primeiramente no Real Jardim de
Trianon, sito no Parque de Versalhes; depois da sua morte o Dr. Antonio
Luiz de Jussieu cuidou de lhe dar huma melhor forma, e o introduzio no
jardim Real de Paris, aonde hoje he ensinado publicamente aos nacionaes
e estrangeiros.Nota
O Real Jardim Botanico de Paris contem quasi cinco mil
differentes especies de plantas de diversos climas do globo terrestre, e
este numero he todos os dias augmentado pelas novas remessas, que o
douto Thouin, Jardineiro mòr do dicto Jardim, recebe de paizes
estrangeiros.
Por evitar de ser prolixo, nam faço aqui mençam de alguns outros Methodos modernos, relativos às plantas de differentes paizes do Globo, como o do Dr. Allioni sobre as plantas do Piemonte, o de Oeder sobre as de Dinamarca, o do Cavalheiro de la Mark sobre as da França, o do Lord Bute sobre as da Gr. Bretanha, o de Thunbergio sobre as do Japam, nem os de outros, que se [Página lxiii] acham indicados no nosso Catalogo dos Autores Botanicos: todos estes Methodos nam sam outra coiza mais, do que combinaçoens ou correcçoens dos precedentes, de que tenho summariamente tractado.
Alem dos Methodos universaes, e geraes, tem havido ainda alguns outros
denominados parciaes, e relativos a huma so Classe ou Familia de plantas; taes
sam por ex. os de Dillenio, Michelli, Gledits, Batarra, e Bladts sobre os
Fungos; os de Dillenio, Michelli e Hedwig sobre os Musgos; os de Monti,
Michelli, e Schenzer sobre as Gramas; os de Morison, e Artedi sobre as
Umbrelladas; e os de Vaillant, e Pontedera sobre as Compostas. Alguns publicaram
Tractados particulares de hum genero infimo, que pelas numerosas especies, que
contem, parece constituir huma Familia, como por ex. Klein, Donati, e Gmelin do
Fucus ou Alga, Burman do Geranto, e Haller do Alho. Muitos emprehenderam
viagens nam so pela Europa, mas por todos os lugares do Globo, aonde ha
colonias de Europeos, e,aonde o commercio e navegaçam lhes franquea a
entrada Nota
As viagens, que desde o seculo passado athe ao presente se tem
emprehendido por differentes sabios a fim de augmentar os conhecimentos
em Botanica e outras partes de Historia natural, saõ summamente
numerosas; as principaes entre as modernas saõ: a de Gmelin pela Siberia
athe aos confins da China: a de Shaw na Africa; Colden na Virginia;
Brown na Jamaica; Adanson no Senegal; Kalmio e Jacquin na America; Osbek
na India; Hasselquist na Palestina; Loeffling e Alstroemer na Hespanha;
Amman na Russia; Burman em Ceilaõ e Cabo da Boa Esperança; Bergio taõbem
no Cabo da Boa Esperança; Forskoll no Egypto e Arabia; Pallas nos
Estados da Russia; Sparman na Africa austral; Sonerato na nova Guiné e
India; Aublet na Ilha de França e Guianna; Thunbergio na Africa austral,
Ceilaõ, Java e Japaõ; Solander com o celebre cavalheiro Banks, e os dois
Forsteros no mar austral, &c.Nota
Como a Sociedade de Allemanha estabelecida em 1670, a de
Londres em 16S2, a Academia de Sciencias de Paris em 1699, a de Upsal em
1720, a Imperial de Petresburgo em 1728, a de Noremberg em 1731, a de
Stokolmo em 1739, e muitas outras que foraõ fundadas no seculo actual
para servirem de Archivos às Sciencias, e contribuirem para o seu
progresso.
Das destribuiçoens dos entes do reyno vegetal, que athe agora se tem
publicado quer sejam denominadas Systemas ou Methodos artificiaes Nota
Os
Systemas artificiaes saõ fundados em huma so parte ou em poucas: o
Methodo natural pelo contrario he fundado em muitas, e considerado como
hum composto de muitas familias, nas quaes cada especie se acha por taõ
intimas affinidades ligada com outras, que nenhuma dellas se pode
separar sem fazer violencia à natureza.Nota
Como
foraõ Morison, Ray, Tournefort, Magnol, Boerhaave, Ludwig, Adanson,
Jussieu, &c.
" A Botanica, diz hum celebre Naturalista moderno Nota
M. Adanson, cujas ideas transcrevo aqui por me parecerem ser as mais
exactas, e adequadas para instruir o Leytor sobre o estado actual da
Botanica. Nota
Segundo o mesmo sabio Naturalista, a Botanica he susceptivel de
muitos problemas sobre as linhas de separaçaõ entre as Familias e
generos, sobre as relaçoẽs que os encadeaõ, sobre as affinidades que
fazem que hum vegetal pertença mais a hum genero, ou familia, do que
a outros &c. O Dr. Ant. L. de Jussieu he do mesmo sentimento, accrescentando que
ella preciza às vezes de huma especulaçaõ, que equivale à das
Sciencias mais abstractas. Nota
Naturalem
et perfectissimam Methodum, in quá nullæ anomaliæ occurrunt deprehendi
vix, posse opinamur, cum varietas characterum nimia sit, & ex
consensu omnium signorum characteres veró naturales exurgant, hinc uno
signo variante vera dispositionis ratio turbatur. Ludwig. Instit. Botan.
§. 190.Nota
Ray, que no fim do seculo passado fez mençaõ de 18655 plantas,
ontando especies e variedades, dizia que a metade dos vegetaes do
globo terrestre não estava ainda conhecida. Oeder em 1753
julgava que haviaõ 7320 especies conhecidas sem contar as variedades, e
que na Europa, aonde haviaõ tres mil e tantas especies, eraõ poucas as
que naõ se conheciaõ, mas que isto era bem differente a respeito das
outras partes do Globo. M. Adanson pensa que ha 16 mil especies
conhecidas, e que restaõ ao menos 25 mil para descobrir. M. Le Monier,
Professor de Botanica em Paris pertende que ha hoje 25 mil plantas
conhecidas entre especies e variedades, e que cohecemos mais da metade
das plantas do globo terrestre. Linneo dizia que o numero das plantas de
todo o Globo era menos do que se pensava, e que segundo o seu calculo
ellas montavaõ quando muito a dez mil [numerum plantarum totius Orbis
longé pauciorem esse, quam vulgó creditur, satis certo calculo
intellexi, utpote qui vix ac ne vix 10,000 attingat] [Spec. Plant. ad.
Præf. edit 1754]: mas o seu calculo naõ tem a certeza que elle
pertendia; os Hervarios de Adanson, Jussieu, e Sloane contem 8 mil
especies, o de Vaillant nove mil, o de Sherard dez mil, e quantas mil
alem destas naõ contem os sertoẽs de Africa, Asia, e America, e outros
paizes da Terra aonde nenhum Botanico tem ainda penetrado?Nota
Em todos os tres reinos de natureza ha formas tao particulares a
certos paizes, que se naõ achaõ fora delles: no reino vegetal a
experiencia tem mostrado que ha muitas especies e generos, que saõ
proprios huns da Asia, outros da Africa, e outros da America
exclusivamente; que na Europa ha hum grande numero de generos de
Cruciferas e Umbrelladas, muito poucos de Malvaceas, e apenas duas
especies de Palmeiras (as quaes segundo alguns conjecturaõ foraõ
nella naturalizadas por transplantaçaõ) que na Zona torrida ha muito
poucas Umbrelladas, e rarissimas Cruciferas. Portanto assim como ha Familias quasi inteiras na Europa, outras
quasi inteiras fora della, he muito provavel que hajaõ taõbem fora
della algumas Familias, das quaes naõ conhecemos ainda planta alguma
ou apenas conhecemos hum ou poucos generos, que os viajantes nos tem
descripto. Nota
Porquanto ha, segundo o mesmo Botanico, algumas plantas, que tendo
variedades saõ consideradas como especies, e outras vice versá, que
sendo especies saõ reputadas por variedades. Nota
Diz-se ordinariamente, que ha muitas coizas
minuciosas, que se devem omittir e désprezar nas descripçoẽs dos
vegetaes; que as descripçoẽs longas naõ se lêm, e que nellas se naõ
percebe com facilidade e brevidade as differenças caracteristicas; em
fim que as abbreviadas saõ as melhores, e o que nellas falta deve ser
supprido pelas Estampas. Pelo contrario vejo ainda mesmo alguns
daquelles, que tem seguido este parecer, queixarem-se de que naõ poderaõ
aperfeiçoar seus Methodos pela razaõ de naõ terem achado nos Autores
descripçoẽs mais extensas e completas. Plinio dizia, que nada podia
parecer superfluo nos olhos de hum attento observador da natureza; com
effeito naõ me parece que haja coiza alguma em huma especie vegetal, que
deixe de merecer de ser observada, e descripta na sua Historia Natural;
o que em hum seculo he reputado por superfluo e minucioso, naõ o he em
outro, e nos temos varios exemplos disto nas estipulas, nectarios,
glandulas, situaçaõ do corculo, ponto de apego dos estames, figura do
pollen das antheras, &c. As Estampas saõ na verdade de grande
soccorro, mas he rarissimo de encontrar alguma em que naõ hajaõ defeitos
e descuidos; demais disso ha muitas circumstancias que naõ se podem
nellas bem exprimir, as quaes se podem pelo contrario bem expor nas
descripçoẽs. Huma descripçaõ, na qual se mencionasse completissimamente
a forma exterior, estado organico, e toda a natureza de huma planta,
dando-se della huma boa estampa, seria hum fixo monumento da dicta
planta, e naõ deixaria para observar a respeito della o que huma
descripçaõ abbreviada, aindaque reunida a numa boa Estampa, costuma
deixar. As descripçoẽs abbreviadas prezentaõ com effeito os finaes
caracteristicos com facilidade; mas como os sinaes caracteristicos
differem segundo os differentes Methodos, a facilidade, he igualmente
sujeita a differir, succedendo muitas vezes que a mesma descripçaõ, que
he facil a respeito, de huns, fica sendo difficil a respeito de outros,
ou pelo dizer de outro modo, a descripçaõ abbreviada, que he boa
conforme as ideas deste ou daquelle Botanico, he mà para a Botanica,
como a sua historia desde a restauraçaõ das lettras athe ao presente
nolo attesta. Em summa, a perfeiçaõ da Botanica depende da comparaçaõ de
todas as partes e sinaes quaesquer que se podem divisar na forma e
estructura dos individuos vegetaes, e para este fim so as descripçoẽs
vastamente circumstanciadas podem ser de hum adequado soccorro.Nota
Rai foi de parecer, que naõ era necessario nos Methodos indicar parte
alguma, que exigisse o uso do microscopio, como ja notei (pag. XL,
not. b.). Alguns Methodistas seguem ainda hoje este parecer; outros
rarissimamente assignaõ caracteres fundados no uso do microscopio;
outros em fim estabelecem Familias inteiras em notas
caracteristicas, que dependem absolutamente do uso delle. M. Adanson pensa que ha nos animaes e vegetaes quasi tantas partes
insensiveis ou microscopicas, como ha de bem apparentes á vista
simples, e que todas ellas saõ igualmente dignas da attençaõ de hum
Naturalista, julgando por erronea a opiniaõ de Rai. Nota
Seria acertado que huma Academia protegida por algum Soberano ou
pessoas ricas e com artistas tencionados emprehendesse de dar todos
os annos hum certo numero de Estampas completas dos vegetaes
conhecidos athe chegar a publicar todas as suas especies e
principaes variedades: este trabalho daria a Historia Natural hum
precioso Archivo, e contribuiria summamente para o seu
progresso. M. Adanson, e outtos modernos criticaraõ com justo
motivo a Linneo de ter dicto (Gener. Piantar. 1743) icones pro
determinandis generibus non commendo, sed absolute rejicio, licet fateor
has magis gratas esse pueris, iisque, qui plus habent capitis quam
cerebri... ab iconibus enim quis potest unquam aliquid argumentum fixum
desumere; sed ab scriptis facillime; sendo notorio que o mesmo celebre
Botanico Sueco se servio das Estampas de Rheede, de Tournefort, Plumier,
Dillenio, Micheli & outros para caracterizar alguns generos e
especies, nao deixou de ajuntar sempre huma Estampa às descripçoes das
plantas novas, que descobrio. He verdade, diz M. Adanson, que ha muitas
coizas nosentes organicos, que nao se podem exprimir nas Estampas, e saõ
so proprias das descripçoẽs; mas naõ se pode duvidar taõbem que ha
algumas nos dictos entes, e hum nao sei que nas suas physionomias, que
sò he privativo à pintura ou desenho de exprimir e de que nenhuma
descripçaõ pode dar noçoẽs claras. He por esta razaõ que sera sempre
necessario reunir as figuras as descripçoẽs, e as descripçoẽs ás
figuras, como servindo humas às outras de hum reciproco
soccorro.
Taes sam os passos, que tem dado a Botanica, e o seu estado actual nos
differentes paizes da Europa. O seu progresso entre nos tem sido ora
proporcionado e em parte superior ao das outras Naçoens Européas, ora mais
lento. No tempo, em que a Lusitania esteve debaxo do dominio dos Romanos,
lemos nos antigos Autores Nota
Segundo Plinio, Strabo, Justino, Athenco, Columela, e outros, as
plantas frumentaceas e hortaliças eraõ copiosamente cultivadas entre
os Lusitanos; elles extrahiaõ muito azeite naõ so das azeitonas, mas
ainda das bagas de loiro e fructos de outros vegetaes, e os Romanos
exportavaõ delles trigo, azeite, vinhos, cardos hortenses, tuberas
da terra, linhos, esparto, bettonica, &c. &c. Nota
A Bettonica ou Vettonica diz-se ser assim denominada pela razaõ dos
seus usos medicinaes terem sido descobertos pelos povos Vettones ou
Vetones. Estes povos habitavaõ huma parte das provincias orientaes do Portugal
moderno e a provincia da Extremadura da Hespanha moderna; a sua
Capital segundo Prudencio, era Merida (Emerita), a qual fazia parte
do Portugal antigo ou Lusitania. André de Rezende seguindo a opiniaõ de Plinio extende a habitaçaõ dos
Vettoens athe ao Doiro.
A restauraçam das lettras tendo feito mudar em Portugal o plano de estudos,
Theophrasto, Dioscorides e outros antigos, que tinham tractado dos vegetaes,
começaram a ser melhor interpretados do que o tinham feito os Arabes e os que
athe esta famosa epoca haviam adoptado as suas ideas; a nossa Universidade tinha
na Botanica (que entam se ensinava) professores tam instruidos como as melhores
da Europa. Com intuitos de commercio e de engrandecimento do Estado,
acompanhados da paxam de investigar, descobrimos novos paizes navegando
pelos mares meridionaes da Africa e India athe à China, e fomos à proporçam
que os conhecemos dando à Europa tanto em Geographia como em differentes
partes de Historia natural Nota
Garcia de Horta, celebre Professor da nossa Universidade de Coimbra,
tendo deixado a sua cadeira de Medicina em 1534, e passado à India e
China publicou em Goa o seu Tractado das Especierias do Oriente, o
qual foy depois tradurido do Portuguez em varias linguas pela sua
novidade e exactidaõ. Thomé Péres e Joaõ Fragoso tractaraõ taõbem das drogas e plantas do
Oriente; Fernaõ Mendes Pinto, Barros e outros fizeraõ mençaõ de
muitas arvores e producçoẽs da India, China, Moluccas e outras ilhas
do mar da India. Pero Magalhaẽs, amigo do nosso Camoẽs, na sua Historia de S. Cruz ou
Brasil tractou da herva sancta (depois chamada herva do tabacco ou
da ilha Tabago, e herva de M. Nicot), da mandioca, da arvore do
balsamo de copaïva e algumas outras produccoẽs da America
Meridional.
Se o mesmo plano de estudos, e a mesma instrucçam se houvesse sustentado e
promovido entre nos, a Botanica e outras Sciencias e artes deveram certamente
aos Portuguezes hum explendor progressivo; mas differentes circumstancias assaz
expressas na nossa Historia se opposeram a isso. Cahimos debaxo do poder de
Hespanha, e fomos durante muitos annos com pezados grilhoens sopeados e
enfraquecidos; fomos, depois de os ter felizmente espedaçado, obrigados a
soster longas guerras; e em quanto as artes e Sciencias floreciam entre os
estrangeiros, e estes se serviam ainda mesmo de nossas terras Nota
Tournefort adiantou a Botanica com algumas plantas, que descobrio em
Portugal; Grisley no seu Viridarium Lusitanum fez taõbem mençaõ de
algumas, de que nenhum autor Portuguez tinha tractado. Rheede e Rumphio enriqueceraõ a Botanica com a noticia de novas
plantas de muitos lugares da India e ilhas adiacentes, que os
Hollandezes nos tinhaõ conquistado em quanto estivemos debaxo da
dominaçaõ dos Reys Philippes. Marcgrave e Pisam tractaraõ da Historia Natural do Brasil mais ampla
e circumstanciadamente do que nenhum dos nossos Autores.
Os primeiros tempos pacificos foram empregados em reparar os danos, que
principalmente a Politica e armas de Hespanha nos tinham causado; mas nam se
pode remediar a todos; a degenerada situaçam das lettras prevaleceo, e as
Sciencias nam poderam ser ainda geralmente reformadas. O Ceo tinha destinado
esta gloriosa empreza a hum dos mais illuminados Soberanos que tem occupado o
throno Portuguez, o Senhor D. Joseph I.: no seu reynado a reforma do bom [Página lxxiv] gosto em Litteratura foy seguida pela das Sciencias. Inclytos sabios
estrangeiros foram chamados para professar algumas dellas entre nos, e elles nos
introduziram subitamente aos mais essenciaes conhecimentos, que a Europa,
durante a nossa decadencia, tinha nellas alcançado. A Botanica nam podia
deixar de merecer a attençam de hum Princepe Nota
O estudo dos vegetaes tem
sido promovido por muitos Soberanos. Alexandre Magno mandou remetter a
seu Mestre Aristoteles (ao qual tinha incumbido o cuidado das Sciencias
naturaes na Grecia) as mais singulares produicçoẽs vegetaes, que haviaõ
nos paizes que tinha conquistado, e se diz que mandara a Socotorà huma
colonia Grega para ter cuidado de colher e enviar ao Egypto o albe desta
ilha. Os Imperadores Romanos mantiveraõ sabios em varias partes dos seus
vastos dominios para conservar os conhecimentos botanicos e os
adiantarem. Maximiliano II. e Rodolpho seu filho, Imperadores de
Allemanha, honraraõ e ennobreceraõ a Clusio pela sua grande erudiçaõ em
Botanica. Philippe II. mandou Hernandes à America investigar as suas
producçoẽs vegetaes e outros objectos de Historia Natural, e despendeo
nisso mais de trezentos mil ducados. Luiz XIV. manteve muitos annos o
douto P. Plumier na America para descrever as suas plantas, e mandou
Tournefort viajar por todo o Levante principalmente no intuito de
reconhecer os vegetaes, de que os antigos Gregos e Romanos tinhaõ feito
mençaõ. Pedro I, Czar da Russia, e seus successores fizeraõ indagar as
plantas dos seus grandes estados athe à China. Fernando VI. mandou vir a
Hespanha o sabio Loefling, e estabecer por elle em 1756 o jardim
Botanico de Madrid. Elrey de Dinamarca em 1761 enviou a Arabia nove
sabios, e entre elles Forskohl para se occupar de observaçoẽs botanicas.
O Imperador actual mandou o celebre Jacquin as Antilhas para observar e
descrever as suas producçoẽs vegetaes. A protecçaõ com que hoje todos os
Soberanos e muitas pessoas ricas promovem por toda a Europa a Botanica
he he assaz conhecida.Nota
O Real Jardim botanico sito junto do Pallacio Real de N. Senhora da
Ajuda, e o Jardim da Universidade de Coimbra. Nota
O Dr. Domingos Vandelli, cujo merecimento he bem conhecido nas
principaes Academias da Europa. Este sabio restabeleceo naõ so a Botanica em Portugal, mas ainda a Zoologia , Mineralogia, e Chimica de que foy
igualmente nomeado professor pelo Senhor D. Joseph I.
Por terminar este Epitome historico da Botanica ajuntarei somente as reflexoens
seguintes. O reyno vegetal he huma fonte inexhaurivel de novos conhecimentos,
hum thesoiro copiosissimo de preciosidades. A estructura infinitamente variada
dos entes deste reyno, as combinaçoens de differentes principios, que constituem
a sua natureza, sam huma das mais bellas maravilhas da composiçam do Globo, que
habitamos. Nam ha vegetal algum, que nam mereça de occupar a attençam de hum
verdadeiro sabio; nenhum ha, por mais desprezivel que pareça, de que se nam
possa esperur alguma utilidade Nota
Na supposiçaõ de que somente hum certo numero de vegetaes fosse util,
o seu estudo seria recommendavel a fim de que se naõ confundissem os
uteis com os inuteis; mas a experiencia desmente todos os dias esta
supposiçaõ, mostrando que huma planta tida por inutil em huma arte
he util em outra, e bastarà citar a este respeito o Recueil
d'Expériences sur les teintures, que les végétaux indigènes de
France communiquent aux laines, por. M. Dambourney. Nota
Nos antigos tempos os que practicavaõ a arte de curar costumavaõ
subministrar aos seus doentes os medicamentos, e como estes eraõ quasi
todos tirados dos vegetaes, a Botanica medicinal era hum dos seus
principaes estudos. Este costume tem ainda hoje lugar entre os Asiaticos
e Africanos. Entre os Europeos os Medicos e Cirurgioẽs foraõ
determinados por diversas circumstancias a occupar-se puramente do
curativo clinico dos enfermos, e deixaraõ o cuidado de preparar e
distribuir os medicamentos a differentes sortes de pessoas, como
Boticarios, Hervolarios, Droguistas, e Especieiros. Mas deste abandôno
ou tranfacçaõ naõ se pode tirar fundamento de que elles naõ devaõ
apprender a conhecer os medicamentos, tanto relativamente à sua
preparaçaõ e composiçaõ, instruindo-se na Chimica e Pharmacia, como no
seu estado simples e taes como sahem do seyo da natureza, instruindo-se
em Botanica e outras partes de Historia Natural. Hum Medico ou Cirurgiaõ
que sabe Botanica esta habil para descobrir nas plantas indigenas do
lugar, em que practica, virtudes identicas ou semelhantes às das
exoticas; para fazer hum grande bem aos pobres habitantes das aldeas
(quando nellas practica) mostrando lhes medicamentos frescos e sem
despeza; para poder destinguir o Boticario ignorante do que he instruido
no conhecimento das plantas medicinaes, e decernir (sendo perguntado na
caza do seu enfermo) se o Boticario ou Hervolario, vendeo ou naõ à
verdadeira planta, que elle tinha ordenado; para poder julgar, se huma
planta subministrada por hum Boticario ou qualquer outra pessoa, à qual
se attribue hum homicidio, era ou naõ venenosa; em fim està habilitado
para poder descrever huma planta nova, de que observou as virtudes, e
poder seguramente verificar as que se assignaõ às antigas. Os que
ignoraõ a Botanica, pelo contrario, ficaõ privados de todas estas
vantagens; elles confiaõ nos Boticarios ou Hervolarios, que muitas vezes
saõ pouco instruidos no seu estado, e daõ hum simples por outro, e dahi
resulta huma das razoẽs porque ha tantos enfermos mal tractados, e
tantas falsas observaçoẽs em Medicina.
O Estudo dos vegetaes he tam antigo como a especie humana, ella parece ter
sido obrigada a adquirir ideas particulares destes entes antes de todos os
mais conhecimentos da natureza. Se consultamos a Sagrada Historia, ella nos presenta o primeiro homem no meyo
de hum delicioso jardim, nutrindo-se de hervas As folhas da bananeira
(Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e
Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ
figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o
sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez
e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura
proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ
facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ
foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil,
visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e
tres de largo. Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super
terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem
generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes
herbas terræ, (Genes. Cap. 3.). Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens
usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta
permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca,
quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit
vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ
menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta
estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ
podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e
d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar
das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros. Nota
Nota
Nota
Nota
Panis erant primis virides mortalibus herbæ. Ovid Fast. L. 4. Cum
hontines pastoriciam vitam agerent, neque scirent etiam arare terram....
ut ex arboribus, ac virguliis decerpendo glandem, arbutum, mora, pomaque
colligerent ad usum. Varro de Re rust. L. 1. 2. Alguns philosophos da
antiguidade naõ se contentaraõ meramente de seguir esta opiniaõ,
elles foraõ de parecer que o homem tinha sido formado para se nutrir
somente de vegetaes, e que elle devia respeitar a vida de todos os
animaes; estes sentimentos passaraõ mesmo a ser hum artigo de
Religiaõ entre algumas naçoens, e delles vemos ainda hoje alguns
restos na India.
As folhas da bananeira (Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil, visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e tres de largo.
Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes herbas terræ, (Genes. Cap. 3.).
Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca, quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros.
As folhas da bananeira (Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil, visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e tres de largo.
As folhas da bananeira (Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas . Milton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil, visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e tres de largo.
As folhas da bananeira (Musa paradisiaca, Lin.), planta propria dos climas do Tigre e Euphrates, e a cujos fructos alguns autores antigos chamaõ figos, foraõ provavelmente as que Adam empregou para fazer o sayotte com que se cobrio; ellas saõ de huma sufficiente solidez e algumas tem cinco pes de comprido e huma largura proporcionada; os fios tirados do corpo da planta podiaõ facilmente ser empregados para cozer as dictas folhas .folhasfolhasMilton contudo foy de parecer que as folhas com que Adam e Eva se cobriraõ foraõ as da figueira de Bengala; mas isto he menos verosimil, visto que ellas tem, quando muito, oito pollegadas de comprido e tres de largo.folhasarvoresfolhasDixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes herbas terræ, (Genes. Cap. 3.).
Dixitque Deus: ecce dedi vobis omnem herbam afferentem semen super terram & universa ligna, quæ habent in semetipsis sementem generis sui ut sint vobis in escam. (Genes. Cap. I.) Et comedes herbas terræ, (Genes. Cap. 3.).
Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca, quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros.
Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca, quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia. Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros.
Naõ achamos no Genesis hum so lugar expresso de que os homens usassem de alimentos animaes nos seculos antediluvianos; esta permissaõ so lhes foy dada depois de Noé ter sahido da Arca, quando Deos lhe disse: Et omne quod movetur, & vivit erit vobis in cibum: quasi olera virentia tradidi vobis omnia.Alguns autores contudo pensaõ que tendo o homem sido formado naõ menos herbivoro do que carnivoro, como se collige da suta estructura maxillar, o uso simples de alimentos vegetaes naõ podia durar tanto tempo, e que o caracter sanguinario de Cain e d'alguns dos seus descendentes os conduziria facilmente a provar das victimas, e seguir o exemplo dos animaes carnivoros.Segundo os sentimentos de [Página x] hum grande numero de autores da antiguidade pagaan, os costumes dos primeiros homens eram simples, meigos, e innocentes; elles nam sabiam ainda o que era ver com indifferença correr o sangue tanto dos seus semelhantes como o dos animaes, antes pelo contrario o seu coraçam tinha horror a isso; a experiencia nam lhes havia ainda ensinado a arte da caça e pesca; as hervas e fructos da terra eram por conseguinte os seus usuaes alimentos Mas os alimentos nam foram o unico motivo, que obrigou os primeiros homens a
familiarizar-se com os vegetaes; as suas enfermidades deram ainda novas
razoens para isso, e nam menos forçosas. He verdade que a historia e antigos Poetas Nota
Vej. Entre outros Hesiodo e
Ovidio.Nota
Naõ consta que tenha havido athe agora povo algum civilizado, ou
selvagem, em que deixassem mais ou menos de haver contendas sanguinarias
ou entre si ou contra seus vizinhos: nos vemos ainda dissensoẽs mais ou
menos fortes entre irmaõs, e familias que vivem nas cidades policiadas,
e apezar dos innocentes costumes attribuidos às familias primitivas, naõ
deixamos de ver na primeira hum dos mais funestos exemplos das paxoẽs
humanas.Nota
Naõ so quanto ao moral, mas ainda quanto ao physico, sendo assaz
conhecido pela experiencia que a colera, medo, tristeza ou alegria
demasiadas, e outras paxoẽs podem causar na economia animal
desordens consideraveis, e ainda mesmo funestas.
Nos seculos antediluvianos o pequeno progresso, que o espirito humano fez nas
artes, foy sempre a par com o conhecimento dos vegetaes. Se consideramos as primeiras famílias na vida pastoril ou errando em bandos,
nam se pode negar que esse estado fosse favoravel a hum semelhante
conhecimento; ellas eram entam obrigadas a converter differentes plantas em
cabanas, para se reparar das chuvas e injurias da atmosphera, e à proporçam
que mudavam de lugares se viam precisadas a fazer tentativas de novas
producçoens vegetaes para nutrirse e curarse, guiadas ora pela semelhança
das que jà conheciam, ora pelo instincto Nota
O instincto dos animaes,
aindaque limitado a suas absolutas precisoẽs e susceptivel de pouco
progresso, parece às vezes ser superior ao juizo dos homens; estes se
serviraõ delle com felicidade em algumas occasioẽs naõ so para fazer
escolha de alimentos, mas ainda para reconhecer as virtudes de alguns
vegetaes. Plinio foy de parecer que o caõ tinha ensinado a vomitar o
homem. Nota
O primeiro
Lavrador, segundo lemos no Genesis - foy Cain: Cain fuit agricola &
terrem etiam arare primus excogitavit. Os Egypicos, que se jactavaõ
de ser os mais antigos povos da terra, e descender de Entes Divinos,
veneraraõ a Isis como inventora da cultura do trigo e cevada, e ao
Arabe Osiris por lhes ter primeiro ensinado o uso do arado e
agricultura. Os antigos Gregos e Romanos pertendiaõ que a agricultura succedera a
vida pastoril, em que as primitivas geraçoẽs se occuparaõ durante
muitos seculos; e criaõ que fora Ceres quem a ensinara na Grecia
depois de ter vindo do Egypto; outros contudo seguiraõ que Buzyges
ou Triptolemo fora o que a estabeceo entre os Gregos. Nota
As mesmas plantas
venenosas podiaõ ainda nesse tempo ser aproveitadas para hervar as
settas e outros usos vingativos, da mesma sorte que as vemos hoje
empregadas entre as naçoens selvagens.
Depois da grande e lastimosa catastrophe dos povos do antigo Globo vemos Noé plantar huma vinha, e na tentativa com que descobrio o vinho, mostra ter conservado o espirito investigador dos usos dos vegetaes e seus productos, que tinha havido nos seculos antediluvianos. Nem se pode duvidar que na sua familia se salvasse huma grande parte das antigas tradiçoens botanicas, e que estas passassem depois igualmente aos seus vindoiros. O grande empenho de Rachel por obter huma [Página xiv] das mandràgoras, que Reuben tinha trazido do campo, provavelmente procedeo da persuasam em que ella estava da efficacia desta planta contra a esterilidade, o que suppoem por conseguinte noçoens estabelecidas das virtudes de alguns vegetaes. Os Egypcios, huma das mais antigas naçoens civilizadas, sam representados na historia como tendo vivido do Lotus (de que faziam huma especie de pam), e dos talos do Papyrus. A agricultura, a arte de embalsamar os cadaveres com substancias resinosas e aromaticas usada por este povo desde hum tempo immemorial, ocustume de expor os seus doentes à vista publica, a fim de que as pessoas que junto delles passassem lhes subministrassem os soccorros que para suas enfermidades reconheciam nos vegetaes, indicam claramente que as tradiçoens botanicas se tinham conservado no Egypto, e adiantado. Estas tradiçoens poderiam ter diminuido entre as naçoens menos cultas e entre os povos de vida errante, mas ellas nam podiam ser de todo extinctas, visto serem sumamente interessantes à sua subsistencia e à sua saude.
Depois da grande e lastimosa catastrophe dos povos do antigo Globo vemos Noé plantar huma vinha, e na tentativa com que descobrio o vinho, mostra ter conservado o espirito investigador dos usos dos vegetaes e seus productos, que tinha havido nos seculos antediluvianos.Nem se pode duvidar que na sua familia se salvasse huma grande parte das antigas tradiçoens botanicas, e que estas passassem depois igualmente aos seus vindoiros.O grande empenho de Rachel por obter huma [Página xiv] das mandràgoras, que Reuben tinha trazido do campo, provavelmente procedeo da persuasam em que ella estava da efficacia desta planta contra a esterilidade, o que suppoem por conseguinte noçoens estabelecidas das virtudes de alguns vegetaes.[Página xiv]Os Egypcios, huma das mais antigas naçoens civilizadas, sam representados na historia como tendo vivido do Lotus (de que faziam huma especie de pam), e dos talos do Papyrus.A agricultura, a arte de embalsamar os cadaveres com substancias resinosas e aromaticas usada por este povo desde hum tempo immemorial, ocustume de expor os seus doentes à vista publica, a fim de que as pessoas que junto delles passassem lhes subministrassem os soccorros que para suas enfermidades reconheciam nos vegetaes, indicam claramente que as tradiçoens botanicas se tinham conservado no Egypto, e adiantado.Estas tradiçoens poderiam ter diminuido entre as naçoens menos cultas e entre os povos de vida errante, mas ellas nam podiam ser de todo extinctas, visto serem sumamente interessantes à sua subsistencia e à sua saude. A historia nam nos assegura de que as tradiçoens sobre os usos tanto
economicos como medicinaes das plantas passassem a ser escriptos nos primeiros seculos depois da horrivel
catastrophe do diluvio. Parece contudo que a Botanica medicinal traditiva nam tardou muitos seculos
depois da dispersam das gentes em ser escripta entre as naçoens civilizadas,
principalmente no Egypto. Neste paiz as plantas efficazes sendo ja conhecidas em grande numero, os
sacerdotes tractaram de redigir os seus nomes a huma certa ordem ou
catalogo, e o depositaram nos templos. Os doentes começaram entam a recorrer a elles, como depositarios dos remedios
proprios para suas enfermidades, e pouco a pouco a arte de curar com os
vegetaes, a que todo o curativo das doenças estava entam limitado, veyo a
ficar somente aos sacerdotes, e a fazer parte do seu sistema [Página xv] religioso. Elles tractaram quanto lhes foy possivel de adiantar os seus conhecimentos na
Botanica medicinal; e com effeito ella foy entre os antigos Egypcios huma
das artes mais cultivadas e honrosas. Hermes, a quem os Gregos chamaram Mercurio, e de quem a mercurial deriva o
nome, foy hum dos mais antigos e famosos sabios nesta arte. A rainha Isis foy nella tam instruida e por meyo della fez curas tam
admiraveis, que os povos depois da sua morte lhe erigiram templos,
adorando-a como a melhor advogada nas suas enfermidades. Ella foy a que instruio a Horo ou o Apollo dos Gregos, ao qual elles
attribuiram a invençam da Medicina. Esculapio Nota
Este Esculapio viveo dois mil annos antes de Hjppocrates, e naõ deve
ser confundido com o Esculapio dos Gregos, que dizem fora discipulo
de Chiron o Centauro, e ter servido na expediçaõ Argonautica. Nota
Esta
persuasaõ foy depois bem geral em todo o antigo paganismo, e Celso a
idica claramente, quando diz: morbos vero iram
deorum immortalium relatos & ab eisdem opem posci
solitam.
Os Magos na Persia, os Gymnosophistas na India, e os Caldeos na Assyria e
Babylonia applicados no principio a observar puramente o que lhes offerecia
a candida natureza nos vegetaes introduziram tambem, como os Egypcios, em
botanica hum grande número de superstiçoens. As colonias, que emigraram destes paizes nam podiam deixar de levar comsigo
mais ou menos noçoens de hum semelhante abuso. Estas noçoens com effeito passaram athe à extremidade gelada do antigo
continente oriental e de là a America com o nome de superstiçam de Chemis,
Orchis, e outras divindades. Do Egypto nam so passaram a toda a Africa, mas caminhando ao longo das costas
do Mediterrâneo entraram na Phenicia e depois na Grecia, aonde augmentando
pouco a pouco tomaram emfim o nome de superstiçam de Esculapio. Ellas se espalharam igualmente nas Gallias, e dellas correram athe ao norte
da Europa com o titulo de Druidismo Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes
muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio
hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ
ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca,
mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e
passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se
fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava
vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses
huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era
taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e
extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de
colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido
lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em
razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as
ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que
pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex.
contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa
contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra
toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque
consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de
visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os
destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa
estrea. Nota
Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca, mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex. contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa estrea.
Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca, mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex. contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa estrea.
Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio hum pequeno resto. Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca, mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses huma oblaçaõ de paõ e vinho. O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e extravagantes. Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores . Elles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex. contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra toda a sorte de enfermidades. No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa estrea.
Os sacerdotes Druidas costumavaõ ajuntar ao uso dos vegetaes muitos ritos superticiosos, de que a historia nos transmittio hum pequeno resto.Para colher por ex. a planta Selago, que alguns autores pensaõ ser o helleboro negro, naõ se devia entre elles usar de faca, mas devia-se arrancar com a maõ direita coberta com o vestido, e passala depois para a maõ esquerda escondidamente, ou como se fosse surripiada: o sacerdote que a arrancava costumava vestir-se de branco, descalçar-se, e fazer antes aos seus deoses huma oblaçaõ de paõ e vinho.O modo de colher a verbena, planta de grande uso entre elles, era taõbem acompanhado de muitas ceremonias ridiculas e extravagantes.Mas de todas as practicas supersticiosas a mais solemne era a de colher o visgo, planta parasita, que elles julgavaõ ter sido lançada do Ceo por seus deoses, para felicidade dos homens em razaõ de a verem commumente afferrada ao cume ou ramos das arvores .arvoresElles a empregavaõ por conseguinte, depois de terminadas todas as ceremonias, como hum especifico contra certas doenças, que pensavaõ ter sido enviadas por suas divindades, como por ex. contra as vertigens, epilepsia, apoplexia, &c.; a agoa contudo que elles extrahiaõ da mesma planta era applicada contra toda a sorte de enfermidades.No fim do anno, o seu grande sacerdote hia a hum bosque consagrado a seus deoses, cortava hum grande numero de ramos de visgo e os entregava aos Druidas subalternos para os destribuirem ao povo no dia de Annobom como hum prezente de boa estrea.[Página xvii] Lemos na historia destes obscuros, e supersticiosos tempos que hum certo
numero de plantas fora entam consagrado aos
Deoses por motivos religiosos Felices gentes, queis dî nascuntur in
hortis! Nota
Como foraõ por ex. a artemisia,
consagrada a Artemis ou Diana (porque naõ derivou o nome de Artemisia
mulher de Mausolo, rey de Caria, como Plinio e outros disseraõ); a hera
a Osiris e a Bacho; o pinheiro a Neptuno; o loireiro a Apollo, a sua
baga a Bacho, donde lhe veyo o nome de bacca; a videira ao mesmo deos
Bacho; a oliveira e matricaria a Pallas; o trigo a Ceres,
&c.Nota
Como foraõ por ex. os alhos e cebolas entre os Egypcios cujas
divindades eraõ ainda adoradas no tempo de Iuvenal, como - se collige do
satyrico verso, com que as ridicularizou e aos seus adoradores:
Felices gentes, queis dî nascuntur in hortis!
Felices gentes, queis dî nascuntur in hortis!
Felices gentes, queis dî nascuntur in hortis!
Felices gentes, queis dî nascuntur in hortis!Este Princepe teve muitos jardins junto de Ierichò, raro foy odia, em que nam empregou algumas horas em fazer observaçoens nos da sua quinta de Hetta, chegou a estender os seus conhecimentos botanicos desde o humilde hyssopo athe aos cedros do Libano, e compoz alguns livros sobre as virtudes das plantas ; mas diz-se que Ezechias os achara tam cheyos de superstiçoens adoptadas dos Egypcios, que se vio obrigado a supprimilos.plantas Portanto a botanica supersticiosa, cuja origem pode em [Página xviii] geral ser attribuida à ignorancia, temor, e embuste, parece ter-se
introduzido progressivamente entre todas as antigas naçoens, e nos
observamos ainda hoje hum resto della nos pòvos selvagens, e na plebe de
alguns paizes civilizados Nota
Tal e por ex. o uso de passar por entre hum vime fendido as creanças
com enfermidades herniaes [ou quebradas, segundo a expressaõ vulgar]
de ligar depois o dicto vime om as tiras da sua camizinha a fim de
as curar; como taõbem o uso de colher plantas medicinaes, em certas noytes de Junho, noytes
famosas na antiguidade antechristaã pelas fogueiras que nellas se
faziaõ a Ceres, deosa das searas, com palha de faveiras, ervilhas,
&c, e pelo costume de saltar por cima das dictas fogueiras para
assim expiar os peccados sobre o fogo, como diz expressamente
Plutarcho. Nota
Como foy taõbem a das Druidezas nas ilhas das
Gallias, e a das Cuthites em alguns lugares da costa do
Mediterraneo.Nota
Do ministerio supersticioso, que estas personagens exerciaõ com os
vegetaes, principalmente os que obraõ com força sobre o systema
nervoso, se originou provavelmente o grande numero de metamorphoses
e muitas fabulas, e prestigios, que a Poesia nos transmittio. Quem bem reflectir no que a credulidade de muitas pessoas attribue
ainda hoje as ànacardinas, e attender aos effeitos dos aromas, do
vinho, opio e outros narcoticos, á singularidade de huma especie de
Arum, que segundo Sloane faz emmudecer, &c., naõ acharà estranho
este meu parecer.
Perto da famosa epoca da guerra de Troya, Chiron o Centauro, do qual a planta
Centaurea obteve o nome, parece ter practicado sem superstiçam a botanica
curativa, em que tinha grandes conhecimentos. Elle formou muitos illustres alumnos, entre os quaes se contam alguns
Princepes; porquanto naquelles heroicos tempos a Botanica curativa tinha
parte na educaçam dos soberanos, e todos os grandes homens cuidavam entam
summamente de grangear a estima a amor dos- povos buscando meyos de os
aliviar nas suas enfermidades Nota
Naõ so nesta epoca, mas ainda antes
della, e em outros seculos seguintes, muitos principes e grandes
personagens cultivarão o estudo dos vegetaes, descobriraõ e poseraõ em
uso as virtudes de alguns, como foraõ, por ex. Teucro Rey de Troya,
Helena raynha de Lacedemonia, Ptolomeo Philadelpho Rey do Egypto,
Telepho Rey de Misia, Eupator Rey do Ponto, Lysimacho Rey de Thracia,
Gencio Rey de Esclavonia, Pharnaces Rey do Ponto, &c., dos quaes
tomaraõ o nome as plantas Teucrium, Helenium, Philadelphus Telephium,
Eupatorium, Lysimachia, Gentiana, e Pharnaceum. Cyro Rey dos Persas teve
hum jardim de toda a sorte de plantas, que cultivava por sua propria
maõ, Attalo Rey dos Pergamenos mandou plantar no seu jardim toda a casta
de plantas medicinaes e venenosas para as apprender a destinguir.
Mithridates, Rey do Ponto, cultivou muito este estudo, e Cratevas lhe
dedicou a planta Mithridatia. Evax, Rey dos Árabes, escreveo sobre as
plantas medicinaes. Iuba, Rey da Mauritania, escreveo da Euphorbia
contra os venenos, e lhe deo o nome do seu medico Euphorbo, que a tinha
descoberto, no tempo em que Augusto Cesar tinha mandado erigir huma
estatua a Antonio Musa, irmaõ do dicto Euphorbo, pelo ter curado huma
perigosa enfermidade.
Durante a guerra de Troya Nota
Esta famosa guerra succedeo quasi doze seculos antes da Era
Christaã. Nota
Foy o Esculapio dos Gregos, cuja sciencia na arte de curar lhe
grangeou honras divinas, como ella tinha grangeado ao dos
Egypcios.
No espaço entre a guerra de Troya e de Peloponeso, que envolve hum periodo de
mais de sette centos annos, Thales e Pythagoras trazendo a philosophia à
Grecia, a Botanica começou a ser melhor cultivada, como o foram as demais
artes; e as substancias vegetaes, como medicamentos internos Nota
Alguns autores saõ de parecer que as subftancias vegetaes começaraõ a
ser empregadas no uso interno somente neste periodo, e que ainda
mesmo no tempo da guerra de Troya se practicasse somente a botanica
cirurgica, e naõ a medicinal; que a bebida de Machaon devia ser
considerada como nutritiva e naõ como medicinal; que os doentes
estavaõ taõ fora de confiarem entaõ em remedios internos, que nos
cazos em que estes deviaõ ser tomados, so tinhaõ fé em amuletos, e
prestigios ou na articulaçaõ de certas palavras proferidas por seus
sacerdotesve sacerdotizas, as quaes às vezes eraõ acompanhadas de
remedios externos vegetaes; que todas as feridas dos heroes Gregos
na guerra Troyana foraõ curadas com remedios applicados
exteriormente, a saber, succos, resinas, e oleos vegetaes, e que por
conseguinte todo o curativo fora meramente cirurgico; que o vinho
que Agamemnaõ bebia em jejum naõ era no intuito de se preserva da peste [sem embargo de que vemos
este uso nos Gregos modernos] porquanto a peste do exercito Grego
fora considerada como hum flagello celeste, e naõ pôde ainda nesta
epoca ser curada por meyos physicos, recorrendo-se somente a
propiciar o Deos irado. Outros pelo contrario pertendem que junto da guerra de Troya a
Medicina do Egypto começara a ser cultivada entre os Gregos; que
fora entaõ que o acazo fizera descobrir ao pastor Melampo a virtude
do helleboro negro, notando que as cabras tendo comido desta planta
eraõ purgadas, o que o moveo a dar o leite dellas às filhas de Rey
Proeto, que eraõ hystericas e se julgavaõ mudadas em vaccas; que a
preparaçaõ, que Hellena fazia da herva entaõ denominada Nepenthes,
era o ópio, &c. Sem embargo de que estas opinioẽs tenhaõ sido seguidas por pessoas de
grande merecimento, as razoẽs em que ellas saõ fundadas naõ me
parecem sufficientes para persuadirme que a Medicina entre os Gregos
naõ date de mais alta antiguidade, ou que fosse filha da
Cirurgia. Eu penso que estas artes foraõ contemporaneas entre todas as nações,
e tiveraõ taõ alta origem como a Botanica, que na infancia das
dictas naçoẽs e durante numerosos seculos naõ foy outra coiza senaõ
hum conhecimento dos vegetaes applicado às artes. A intemperie do ar, mudança das estaçoẽs, venenos, maos fructos,
&c. em todas as epocas da existencia humana, e em todos os
paizes deviaõ causar aos seus habitantes molestias internas que
exigissem medicamentos internos ou da Medicina assim como as
contusoẽs, feridas, &c. exigiaõ os da Cirurgia, e naõ he
verosimil que o homem taõ familiarizado com o uso dos vegetaes naõ
cuidasse de buscar nelles remedios internos nos cazos desesperados,
tentando de tomar cozimentos, gomas, sumos de hervas, &c., assim
como os tentara nas molestias denominadas externas. Eu naõ duvido que as primitivas geraçoẽs usassem primeiramente como
medicamentos internos so das partes daquellas mesmas plantas, de que
se serviaõ como alimentos, e que elles muitas vezes fossem
inefficazes; mas basta que elles as tomassem como medicamentos para
considerarmos a Medicina contemporanea da Cirurgia ou como sendo a
mesma arte entaõ reunida. No descobrimento que fez Noé do vinho vemos huma clara prova das
tentativas que os homens faziaõ por descobrir novos usos nutritivos
nos vegetaes; e porque naõ fariaõ elles em todo o tempo as mesmas
por descobrir os seus usos curativos internos por escapar à dor, e á
morte? O uso dos medicamentos internos, que se tem observado nalgumas naçoẽs
selvagens, naõ nos indica o contrario. Nota
Nos perdemos nam so os escritos deste philosopho, mas ainda os de
muitos outros que tinham tractado dos vegetaes, como foram Lino e
Orpheo seu discipulo, Museo, Zoroastres, Euriphantes, Solon,
Dieuches, Praxagoras, Diocles, Herophilo, Metrodoro, Diagoras,
Epimenides que pela paxam pelo estudo das plantas viveo muitos annos
retirado nas montanhas, os de Archigenes, Androcides, Philippe,
Chrisippo, Callimacho, Asclepiades, Archilocho, Evax rey dos Arabes,
Temison, Dionysio, Glauco, Glaucias, Erasiatrato, Plistonico,
Sosimenes, Androcio, &c. como lemos em Theophrasto, Celso,
Herodoto, Plinio, e Galeno.
Quatro centos e tantos annos antes da Era Christaan appareceo o illustre
Hippocrates Nota
Hippocrates nasceo 459 annos antes de Christo.Nota
Este botanico, a que alguns chamaram tambem Cratevas, nam deve ser
confundido com oCratevas, de que falla Plinio que denominara huma
planta Liliacea (Erythronium dens canis Lin.) com o nome de
Methridates. Os escritos tanto de hum como de outro foram perdidos. Nota
Theophrasto escreveo no terceiro seculo antes da era Christaan. Os Gregos nam foram rigorosamente os fundadores da Botanica escrita
applicada as artes, como se pode colligir do que tenho dicto; mas
elles foram reconhecidos como taes pela razam dos seus escritos
nesta arte serem os mais antigos que chegaram athe nossos dias,
tendo-se perdido os dos Egypcios e Asiaticos por differentes
circumstancias.
Com effeito Theophrasto servindo-se dos trabalhos de Aristoteles Nota
Aristoteles cita em muitos lugares das suas obras os seus dois livros
sobre as Plantas; mas delles apenas temos alguns pedaços
deslustrados pela inepta falsificaçam de hum Arabe pouco versado em
Botanica. Nota
O que Hesiodo, Nicandro, Xenophonte, Basso e outros antigos Gregos
mencionaram dos vegetaes nam he comparavel com os escritos de
Theophrasto. Nota
Theophrasto parece ter seguido nisto os sentimentos de seu mestre,
cuja destinçam a respeito dos sexos vegetaes era muito vaga em
geral, e consistia em julgar que o individuo masculino era mais
forte e mais amplo do que o feminino, posto que esse fosse mais
fructifero. Nota
"Se o pò das flores de hum ramo de palmeira masculina, diz
Aristóteles, for sacudido sobre as da feminina, os fructos desta
amadureceram promptamente; e se o pò das masculinas for conduzido de
longe pelos ventos às femininas, seguir-se ha o mesmo effeito, como
se o ramo da masculina se tivesse dependurado sobre a feminina". Theophrasto diz, que se o pò da palmeira masculina nam for sacudido
sobre o fructo da feminina, este nam amadurecerà jamais, mas cahirà;
porem como depois diz que senam pode assignar razam deste facto de
apolvilhaçam ou aspersam do pò, parece que nam teve ideas de que os
ovarios vegetaes eram fecundados como os dos animaes. Talvez tanto elle como seu mestre nam referiram mais do que as
observaçoens dos Egypcios e Babilonios, entre os quaes a
apolvilhaçam das palmeiras era practicada desde hum tempo
immemoravel, segundo Herodoto.
O botanico de reputaçam, de que temos noticia, depois de Theophrasto foy
Dioscorides Nota
Dioscorides escreveo no tempo do Imperador Nero.
No tempo dos antigos Romanos, à Botanica fez
muito pouco progresso. A traducçam dos escritos de Methridates sobre as
plantas, os quaes Pompeo tinha trazido da Asia, excitaram na verdade alguma
curiosidade em Roma, mas passou-se muito tempo sem que sabio algum se occupasse
de adiantar os conhecimentos que haviam entam na Grecia sobre os vegetaes. He
verdade que delles escreveo Catam, Virgilio, Varro, Collumella, e Palladio, mas
os seus tractados postoque nam deixem de ser estimaveis quanto a agricultura e
usos economicos parecem so ter sido meras copias dos escritos Gregos. Plinio foy
somente o que entre os Romanos adiantou hum pouco a Botanica, tractando-a como
historiador naturalista, a pezar do uso do seu tempo. A sua grande liçam dos
autores coétaneos e da antiguidade, e o caracter observador, de que era dotado
nam exigiam menos. Elle augmentou o catalogo das plantas dos antigos com quasi
duzentas, e nos deixou a sua [Página xxvi] historia; mas he justamente arguido de ter equivocado muitos dos seus nomes,
adulterado varias passagens dos originaes que copiara, e de ter misturado
algumas vezes o verdadeiro com o fabuloso. Fazendo mençam dos figuras de algumas
plantas, que Cratevas, Deniz e Metrodoro tinham feito, parece ter menos estimado
semelhantes retractos do que boas descripçoens; mas as que elle nos deixou ainda
mesmo sobre a estructura das plantas, que tinha observado, rarissimas vezes sam
mais circumstanciadas do que as dos seus predecessores; elle foy ainda muito
menos methodico do que elles, e como dizem alguns Methodistas de hoje, tudo
nelle he huma bella desordem. As noçoens dos Gregos e Romanos naturalistas a
respeito dos sexos vegetaes nam lhe foram desconhecidas; elle nos diz com
effeito que alguns admittiam os dois sexos nas arvores e plantas herbaceas Nota
Arboribus, imo potius omnibus quae terra gignit herbisque etiam
utrumque sexum esse diligentissimi naturae tradunt. Plin. Hist. Nat.
lib. 13. Cap. 4.Nota
Ibid. et alibi.
Depois de Plinio athe à ruina do Imperio do Occidente, a Botanica nam deo passo algum, e muito menos ainda depois della athe ao seculo XV, postoque muitos celebres medicos se occupassem deste estudo. Galeno parece ter-se nelle destinguido mais do que Rufo, Apuleio e outros, e foy o primeiro que invectivou contra a inutilidade das descripçoens dos autores Gregos e Romanos. Confiando mais nos seus olhos cuidou de estudar os vegetaes a seu modo, fazendo muitas viagens nos paizes do Levante, afim de conhecer os que eram de uso medicinal, e nos deixou nos seus livros os nomes de quinhentas especies; mas nam emendou contudo os defeitos que tinha notado nas [Página xxvii] descripçoens dos outros. Ecio, Egineta, Tralliano, e Oribasio nam foram mais felizes.
Depois de Plinio athe à ruina do Imperio do Occidente, a Botanica nam deo passo algum, e muito menos ainda depois della athe ao seculo XV, postoque muitos celebres medicos se occupassem deste estudo.[Página xxvii]Invadido e desmembrado o Imperio do Occidente, o destino da Botanica foy quasi
semelhante ao das bellas artes da Italia. He verdade que alguns seculos
depois, os Arabes tendo estendido as suas conquistas pela costa
septentrional da Africa athe às Hespanhas tentaram de acolher as sciencias
deste Imperio, e que os seus medicos Nota
Mesué, Serapiaõ, Raxis, Avicenna,
Averrhoes, Avenzoar, Abenguefit, Albenbeithar, Abul Fadl, &c.Nota
Myrepso,
Quiricio, Bosco, Hildegarde, Sylvatico, Dondis, Suardo, Villanova,
Plateario, &c.
Tomada a capital do Imperio do Oriente por Mahumet II, quasi no meyo do seculo XV, muitos sabios Gregos, que entam se expatriaram fugindo do barbaro jugo mahometano, sendo bem acolhidos na Italia deram principio ao restabelecimento das lettras no Occidente. A invençam da arte de imprimir, que succedeo quasi no mesmo tempo, e as grandes investigaçoens que entam se fizeram em toda a sorte de manuscriptos da antiguidade contribuiram para completar esta feliz revoluçam da litteratura. [Página xxviii] Ella veyo a redundar em proveito das artes e sciencias, e a Botanica nam podia por conseguinte deixar tambem de ter nella alguma parte. O primeiro ardor de trabalho entam, assim como nas mais sciencias, foy a liçam e explicaçam dos antigos escriptores. Theodoro Gaza, e Hermolao Barbaro sam considerados como os primeiros que começaram a restauraçam da Botanica, traduzindo em latim as obras de Theophrasto e Dioscorides. Muitos outros seguiram o seu exemplo, e todos os Tractados da antiguidade sobre os vegetaes, que se poderam achar nas bibliothecas, foram pouco a pouco interpretados.
[Página xxviii]A necessidade, que a Medicina tinha da Botanica, requeria absolutamente, que se
continuasse o seu estudo e se aper feiçoasse; mas elle nam pode obter perfeiçam
nestes primeiros tempos, nam consistindo entam mais do que na grande liçam dos
monumentos Gregos e Romanos, e de alguns da idade media. Demais disso, nam menos
pela razam do espirito de disputa, que entam dominava, do que por causa das
vagas e obscuras descripçoens, que os antigos tinham dado dos vegetaes, os
commentadores nam so se contrariavam em suas opinioens, mas pelo menor pretexto
davam às plantas dos paizes em que viviam os nomes das mencionadas pelos
escriptores que commentavam, sem reflectir na grande diversidade que havia entre
os terrenos e climas frios do norte da Europa, aonde escreviam, e os da Grecia e
Italia patria dos antigos Autores. Ainda mesmo os que viviam, nos paizes
quentes e meridionaes da Europa nam deixaram de cahir em muitos enganos Nota
Esta erronea applicaçam dos nomes e igualmente dos usos das plantas
foy a principal causa, porque a Materia Medica daquelles tempos se
acha tam carregada de um farrago de substancias inuteis, e ainda
mesmo nocivas; porquanto succedeo que os commentadores algumas vezes
tiveram por saudaveis as plantas venenosas, intendendo mal os nomes
mencionados nos antigos escritos. Nota
Devemos com effeito confessar ingenuamente que nam sabemos qual era o
verdadeiro helleboro, a verdadeira cegude, nem a maior parte das
plantas de que tractaram os antigos Gregos e Romanos. Ainda mesmo depois das sabias investigaçoens, que fez Tournefort por
todo o Levante, e patria dos antigos Gregos, apenas consta que se
ache bem verificada a decima parte dos 600 nomes de plantas, de que
elles fizeraõ mençaõ. Eu nam tractarei jamais o nosso Amato de ignorante de Botanica, como
fez Mathiolo, porisso que nam soube decifrar as verdadeiras plantas
indicadas pelos nomes, e incompletas descripçoens, que se acham nos
livros de Dioscorides, nem censurarei taõbem Mathiolo de nam as ter
decifrado muito melhor, notando-o, como alguns fizeram, de nam ter
comparado as plantas que a natureza produz com as descripçoens de
Dioscorides, mas de ter sobre ellas imaginado as que a natureza
devera produzir, ou tinha mal feito de nam produzir; nem igualmente
cuidarei de o desculpar, como outros fizeram, dizendo, que as
plantas descriptas por Dioscorides tinham mudado hum tanto de figura
desde o seu tempo athe ao do dicto commentador; porquanto attribuo
unicamente toda a difficuldade de reconhecer as plantas dos antigos
às suas màs descripçoens, e esta he a melhor desculpa que se pode
dar a Mathiolo e outros commentadores dos antigos Gregos e
Romanos.
Portanto o modo ordinario de estudar os vegetaes nestes primeiros tempos
differia muito pouco do que tinham usado os antigos fundado na tradiçam Nota
Os que conhecem huma planta meramente de vista, ou porque tendo
ouvido o seu nome de alguma pessoa, que lha mostrasse, ficaraõ
somente com certas noçoẽs do seu habito externo, que elles naõ sabem
explicar, aindaque contudo bastem às vezes para lha fazer destinguir
de qualquer outra, so a conhecem por tradiçaõ ou impiricamente; tal
he por ex. o conhecimento que os nossos hervolarios tem de algumas
plantas. Os Antigos suppunhaõ as plantas conhecidas por este modo, e porisso
cuidaraõ muito pouco de dar boas descripçoẽs dellas, nem na verdade
o sabiaõ como nos.
Este impirico e fastidioso modo de apprender a conhecer os vegetaes nam podia subsistir por muito tempo, e sem duvida poucas reflexoens bastavam aos botanicos para julgar entam que [Página xxx] era indispensavel começar quasi tudo de novo, e estabelecer a botanica, estudando as plantas nam nos livros dos antigos, como era costume, mas sim no grande livro da natureza, que ante elles estava aberto e pedindo a sua attençam. A liçam dos antigos, e o dezejo de reconhecer as plantas, de que elles tinham tractado, requerendo absolutamente a comparaçam das descripçoens com as partes dos vegetaes, a que ellas se suppunham pertencer, necessariamente deviam conduzir a fazer pouco a pouco descobrir novos, e foy com effeito o que succedeo no seculo XVI.
[Página xxx]O descobrimento de hum grande numero de plantas, que succedeo nesse seculo, estava exigindo huma destribuiçam methodica capaz de auxiliar a memoria e facilitar o estudo tanto dos antigos vegetaes como dos que novamente se tinham descoberto e se hiam descobrindo. As descripçoens começaram a parecer insufficientes, e o deviam ser na verdade pela razam de serem pouco circumstanciadas, nam obstante todo o trabalho que alguns tiveram de melhor as traçar do que os antigos. Cuidou-se pois de ajuntar as descripçoens estampas semelhantes às que Corbichon e Cuba tinham publicado no seculo XV, e fizeram-se tentativas de destribuiçoens methodicas.
Trago ou Bock foy dos modernos o primeiro, que emprehendeo de dispor os vegetaes
em Methodo; mas o seu plano differe muito pouco do modo destributivo que tinham
seguido Dioscorides e Theophrasto, e se pode dizer que elle somente renovou as
ideas destes antigos Botanicos. Lonicero, Dodoneo, Lobel, Clusio, Dalechampio,
Zaluziano, e muitos outros seguiram igualmente quasi o mesmo plano methodico dos
antigos. A grandeza, duraçam, lugar de nascimento, qualidades, virtudes Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em
que diz: existimandum est autem nullas
propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in
duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci
describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ;
2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo
considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os
generos: - Ex his enim (flore, fructu et
semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes
apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel
Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde
ego cognationes stirpium indicare soleo, figura
differt. Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos
relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657,
seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos
vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde
Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio
Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome
generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem
determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar.
Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo
fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas
todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente
incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos
caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de
Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as
especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados
em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.Nota
Os antigos nam tractaram senam das plantas, em que conheciam alguma
utilidade na Medicina e artes, e porisso os seus conhecimentos
botanicos foram limitados a hum pequeno numero de plantas; elles
cuidaram mais de indagar os seus usos e virtudes, do que os seus
verdadeiros caracteres fundados na estructura e fructificaçam, por
cujo motivo as suas destribuiçoens nam merecem rigorosamente o nome
de Methodo ou Systema, na accepçam em que se tomam hoje estas
palavras entre os Botanicos. As virtudes, e qualidades das plantas sam na verdade ainda hoje
adoptadas pelos autores de Materia Medica, como fundamento das suas
destribuiçoens; mas estas destribuiçoens por mais toleraveis que
sejam em Materia Medica, pela razam do seu differente fim, e por
supporem as plantas ja conhecidas seram sempre improprias em
Botanica, e faram nella confundir o que merece de ser
destinguido. A mesma planta succede as vezes ter differentes virtudes, segundo as
suas differentes partes, de maneira que se os botanicos seguissem os
Autores de Materia Medica, a raiz de huma planta
muitas vezes deveria ser posta em huma classe, a sua flor em outra,
as suas folhas e tronco em
outra, em fim ainda algumas vezes o mesmo fructo, como v. g. a
laranja, mereceria de ser posto em differentes Classes. Nota
O Dr. Porta na sua Phytognomica publicada em Napoles no anno de 1588
dividio os vegetaes em sette classes, considerando-os segundo o seu
lugar de nascimento, segundo as relaçoens que elles tem com os
homens e animaes tanto na figura de suas partes como nos costumes, e
em fim pela relaçaõ que elles tem com os astros. No seu parecer, as plantas em que ha alguma parte que representa o
figado, sam boas para as doenças do figado; as que representam
olhos, sam boas para os olhos; as que representam dedos sam boas
para a gotta; as que tem a forma de testiculos saõ boas para as
doenças dos testiculos, &c. &c. He bem facil de perceber quanto este denominado Methodo he improprio,
cheio de falsidades, e ridiculo, a pezar de todos os elogios que lhe
fizeram de engenhoso. Nota
Nota
Gaspar Bauhino publicou no anno de 1596, no seu Pinax, os nomes e
synonymia de seis mil plantas conhecidas athe ao seu tempo, e as
destribuio em 12 Classes pelas suas qualidades e algumas partes do
habito externo indeterminadamente. Seu irmaõ Joaõ Bauhino na sua
Historia geral das plantas publicada e m três Vol. in-fol. no anno de
1650 deo as figuras de 3428 plantas, e descreveo 5266, destribuindo-as
em 40 livros ou classes segundo as suas qualidades, duraçam, grandeza, e
algumas das suas partes. Estas duas Obras, apezar da sua mà ordem
methodica, mereceram sempre pela vasta erudiçam, que contem, huma
especial estima de todos os Botanicos. As Obras de Guilherme Lauremberg,
Hernandes, Jonston, Rheede, Rumphio, Burman e muitos outros, que
seguiram falsos planos methodicos, semelhantes aos dos antigos, ou pouco
differentes, nam deixam tambem de ter hum particular merecimento quanto
à descripçam historica das plantas; mas os curtos limites deste discurso
nam me dam lugar de mencionar todos os tractados uteis que se tem
publicado em Botanica: demais disso este objecto so me parece ter
proprio dos que escreverem a Historia geral e chronologica da Botanica,
ou Catalogos geraes dos Autores Botanicos.
Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em que diz: existimandum est autem nullas propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ; 2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os generos: - Ex his enim (flore, fructu et semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde ego cognationes stirpium indicare soleo, figura differt.
Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657, seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar. Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.
Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em que diz: existimandum est autem nullas propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ; 2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os generos: - Ex his enim (flore, fructu et semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde ego cognationes stirpium indicare soleo, figura differt.
Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657, seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar. Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.
Como se collige 1.º de huma de suas cartas escritas a Fabricio, em que diz: existimandum est autem nullas propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci describunt, mihi decem aut plures species notae sunt ; 2.º de outra escrita a Zwinger, na qual diz, p. 113, que era precizo considerar a flor, fructo, e sementes das plantas para destinguir os generos: - Ex his enim (flore, fructu et semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes apparent. - 3.º de outra escrita a Occon, pag. 65. - Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde ego cognationes stirpium indicare soleo, figura differt.
existimandum est autem nullas propemodum herbas esse, quae non genus aliquod constituant in duas aut plures especies dividendum. Gentianam unam prisci describunt, mihi decem aut plures species notae suntEx his enim (flore, fructu et semine) potiùs quam foliis stirpium naturae et cognationes apparent.Melissa Constantinopolitana ad Lamium vel Urticam mortuam quodamodó videtur accedere, seminis tamen, unde ego cognationes stirpium indicare soleo, figura differt.Columna teve as mesma ideas em 1616, e inventou alguns termos relativos as partes da fructificaçam. Jungio, que faleceo em 1657, seguio tambem, que sem classes, generos e especies o estudo dos vegetaes seria difficillimo e sem limites. Todos os Botanicos desde Clusio athe J. Bauhino seguiram a doutrina de Gesnero e Fabio Columna, dispondo muitas especies de plantas debaxo do mesmo nome generico, tal como o de Iris, Narcizo, Salgueiro, &c. mas sem determinar os generos, nem seguir regra alguma para os limitar. Morison em 1655 tentou de os estabelecer menos vagamente, e o mesmo fez Ray em 1682 (seguindo as ideas de Jungio), e Rivino em 1590; mas todas as tentativas destes botanicos foram demasiadamente incompletas, e Ray nam deixou de reconhecer os grandes defeitos dos caracteres dos generos que tinha publicado, emendando-os pelos de Tournefort, que foy na verdade o primeiro, que assignou a todas as especies conhecidas caracteres genericos assaz plausiveis fundados em boas regras methodicas, na opiniam dos melhores Methodistas.
Mas as ideas que elle tinha apontado nam serviram durante alguns annos de conduzir a grandes progressos, nem quanto aos generos nem quanto aos Methodos. Postoque no seu seculo e parte do seguinte houvessem muitos botanicos recommandaveis por seus trabalhos [Página xxxiii] respectivos nam menos às plantas da Europa do que às exoticas, quasi todos e ainda mesmo os dois celebres irmaons Suissos, Gaspar Bauhino André Cesalpino, celebre professor de Piza, foy o primeiro que imaginou huma
destribuiçam toleravel quanto à propriedade das partes fundamentaes das suas
divisoens, e porisso mereceo o titulo de primeiro Systematico entre os
Botanicos. Valendo-se do seu descanço e da facilidade de comparar e observar, que lhe
offereciam os jardins botanicos da Italia fundados no seu seculo Nota
Em
Padua, Piza, e Bolonha; o primeiro, que he o mais antigo da Europa, foy
fundado em 1540 pela illustre caza de Medicis; os outros dois foram
estabelecidos em 1547. Depois destes fundaraõ-se muitos outros, como o
de Mompelher em 1598; o de Paris em 1626; o de Edimburgo em 1675; o de
Upsal em 1657; o de Oxeford em 1683; o de Leyde em 1677; os de Berlim e
Leipsique em 1680; o de Amsterdam em 1688; o de Petresburgo no tempo de
Pedro I; o de Madrid em 1756; os de Lisboa e Coimbra no glorioso reynado
do Senhor D. Jozé I; em fim nam ha hoje Estado algum na Europa, por
pequeno que seja, que deixe de ter jardins botanicos, e em alguns elles
sam bastantemente multiplicados, pertencendo nam so às Universidades e
Academias, como também a particulares ricos. Elles foram no principio
instituidos somente para serviço da Medicina; mas os seus Inspectores
vendo que os estreitos limites das plantas medicinaes lhes nam davam
lugar de fazer extensas observaçoens, nem de tirar grande proveito,
introduziram nelles pouco a pouco toda a sorte de plantas, o que deo
occasiam de bem examinar as suas affinidades e de fundar o grande numero
de Methodos que tem havido. A sua utilidade fez tambem que algumas
naçoens Européas os estabeleceram ainda mesmo nos seus dominios
ultramarinos, como fizeram os Hollandezes no Cabo da Boa Esperança, os
Francezes nas Ilhas Mauricias &c. e se nos os tivessemos tambem
estabelecido nas nossas colonias, como nas Cortes de Thomar se havia
proposto, a agricultura, commercio, e artes certamente disso teriam
tirado nam pequenos enteresses.Nota
Cesalpino he na verdade desculpavel neste respeito por ter sido o
primeiro que fundou hum systema na fructificaçam, e o seria com effeito
ainda mais se elle tivesse nas suas divisoens escolhido os destinctivos
tirados do habito externo por attender as affinidades naturaes; mas em
todas as suas divisoens apenas vemos huma sò familia natural, que he a
das Umbrelladas posta na sexta Classe do seu systema.
Joaquim Jungio, Allemam, foy dos primeiros que adoptaram as ideas de
Cesalpino; mas os calamitozos tempos da Allemanha, em que viveo, nam lhe
permittiram de publicar hum melhor Methodo, postoque merecesse de ser
reconhecido pelo primeiro Botanico dogmatico em razam dos muitos sabios
aphorismos, que estabeleceo em Botanica Nota
Jungio faleceo no anno de
1657; a sua Izagoge Phytoscopica, que foy publicada 22 annos depois da
sua morte, contem hum grande numero dos principios criticos, que Ray e
Linneo seguiram. Haller parece ter feito hum grande cazo desta Obra,
como se collige da passagem seguinte. (Praef. Helv. S. pag. 21.): habentur hoc Libro (Jungii) de Plantis
fragmenta satis luculenta, ubi passim leges sancit Linnaeanis
simillimas, deinde stirpes ad genera naturalia revocat, & a
consuetis familiis separat, suas etiam observationes interponit....
incredibile est, quàm profunde in minutias staminum, tubarum,
florumque introspexerit, quantâ etiam perspicacitate, et ingenii
methodica indole definitiones primus fixerit.
Em 1680 Roberto Morisono, Escossez, sendo professor de Botanica em Oxeford publicou huma Historia geral de plantas com pequenas figuras gravadas em cobre, na qual seguio as ideas de Cesalpino debaxo de huma nova forma, dividindo o seu Methodo em 18 Classes fundadas no fructo, corolla, e partes do habito externo. Este Methodo foy com razam censurado de ter mao nexo, e a clave mal feita, e nam sei que fosse seguido mais do que por Bobart, que o completou publicando o seu terceiro volume depois da morte de Morisono.
Em 1682, Joam Rai, theologo Inglez de grande engenho e erudiçam, publicou a mais
extensa Historia do reyno vegetal que se tinha visto, comprehendendo 18655
plantas entre especies e variedades. Os trabalhos desta vasta Obra nam [Página xxxvi] foram dirigidos sò à Medicina, como era costume, mas a tudo o que podesse
ser util à vida humana, e Rai foy com effeito o primeiro depois de Plinio,
que se esforçou paraque a Botanica fosse estudada, como huma parte da
Historia natural Nota
Boerhaave, e Linneo foram do mesmo parecer, e este ultimo tornou a
pôr a Botanica na Historia natural; mas o prejuizo de a considerar
meramente como huma parte da Medicina tem prevalecido de sorte, que
ainda hoje por toda a parte os Medicos e Boticarios sam
privativamente os professores de Phytologia , como senaõ houvesse outra Phytologia mais do que a applicada a
usos medicinaes, nem outras pessoas capazes de a ensinar senam
Medicos e Boticarios. Nota
Rai publicou huma segunda ediçaõ do seu Methodo em 1700, com hum
grande numero de emendas, que elle se vio obrigado a fazer depois de
ter visto o Methodo de Tournefort, seu digno rival.
Christovam Knaut no seu Tractado geral das plantas de Halla na Saxonia, publicado em 1687, tentou de seguir hum novo plano destribuindo as dictas plantas em 17 classes fundadas principalmente na corolla, e fructo, e subdivididas em 62 secçoens pela fructificaçam e habito externo, mas o seu Methodo foy com razam notado de ser summamente composto e difficil.
Pedro Magnol, professor da Universidade de Mompelher, imaginou tambem hum novo
plano de destribuiçam, que alguns consideram como a primeira tentativa do
Methodo natural. Porem o seu intuito nam foy de investigar o Methodo natural,
mas tam somente mostrar que haviam familias nam menos nos animaes do que nos
vegetaes, e que ellas se deviam caracterizar nam puramente pela
fructificaçam, mas por todas as demais partes, porque nenhuma dellas era
accidental, e que em todas se deviam [Página xxxvii] indagar as affinidades ou relaçoens possiveis de semelhança Nota
O Conde
de Buffon foy do mesmo parecer; Linneo, Royen, Haller, Wachendorf,
Adanson, Jussieu, e muitos outros celebres Botanicos do nosso seculo
todos reconheceram, que haviam familias naturaes fundadas em affinidades
naturaes, como Magnol tinha indicado; alguns delles, como Adanson e
Jussieu, admittiram demais disso huma serie ou gradaçoens entre as
differentes familias começando pelas plantas mais
imperfeitas.Nota
Este segundo Methodo de Magnol foy
impresso depois da sua morte em 1720: consta de 15 Classes fundadas nos
caracteres do calys combinados com os corolla, e subdivididas em 55
secçoens relativamente ao lugar de nascimento, disposiçam das flores,
sexo, calys, corolla, e fructo. M. Adanson estranha com razam que Magnol
depois de ter imaginado hum Methodo razoavel composesse este, que lhe he
na verdade inferior e no qual parece querer evitar as familias ou
Classes naturaes, buscando por toda a parte hum calys athe chegar a dar
este nome aos tegumentos das sementes, quando lhe era precizo hum calys
para satisfazer às suas ideas systematicas
Paulo Herman, professor de Botanica em Leyde, seguio as ideas do Cesalpino debaxo de huma nova forma, e dividio as 5600 plantas, de que tractou em 2J Classes fundadas principalmente nas differentes sortes de fructos ou sementes cobertas e descobertas, subdividindo as dictas Classes em 82 secçoens pela disposiçam das flores, e pela corolla e fructo. O seu Methodo he complicado; elle foy seguido de Rudbeck e Zumbach que o aperfeiçoou e imprimio no anno de 1690.
Augusto Quirino Rivino, professor de Botanica em Leipsik, tractou de descobrir
hum Methodo mais facil e mais conforme aos principios systematicos do que nenhum
dos seus predecessores. Elle dividio o pequeno numero de plantas, que conhecia,
em 18 classes fundadas principalmente nas relaçoens da corolla, e subdivididas
em 91 secçoens relativamente ao fructo, figura do calys e corolla, situaçam, e
disposiçam ou falta das flores. Este Methodo publicado pouco a pouco desde o
anno de 1690 athe 1696, nam he tam regular, como alguns pensaram; porquanto
vemos que o seu Autor considerou na clave das suas Classes nam so a regularidade
e irregularidade da corolla e numero das suas petalas, mas ainda a perfeiçam das
flores, e a sua disposiçam. Elle foy contudo durante alguns annos o mais
seguido em Allemanha; Koenig, Welsch, Heucher, Gemeinhart, Hebenstreit, e
Hecher o adoptaram nos seus tractados de plantas; Kramer, Christiano Knaut Nota
Ludwig no anno de 1737 ajuntou duas classes demais ao Methodo de
Rivino, deduzidas da presença ou falta da corolla, e Wedel e Boehmer o
seguiram neste estado de reforma; no anno de 1747 aperfeiçoou segunda
vez o dicto Methodo, reunindolhe demais a relaçam dos sexos das flores,
e foy a melhor emenda que delle se publicou.Nota
Christiano Knaut foy hum dos Botanicos, cujos paradoxos tem
impedido o progresso da Botanica; elle seguio que havia tantos generos
como especies, que a corolla era a parte essensial da flor, e que nam
haviam sementes nuas.
José Pitton Tournefort, que tam destinctamente orna o numero dos grandes
Botanicos da França, foy de todos os seus contemporaneos e predecessores o que
mais aperfeiçoou a [Página xxix] Botanica systematica. Persuadido de que todos os Methodos seriam sempre
demasiadamente imperfeitos em quanto as suas infimas divisoens, ou generos, nam
fossem melhor determinadas, cuidou de lhes dar huma nova forma e fez para este
fim hum grande numero de observaçoens tanto em França como em diversos paizes
estrangeiros, ajudado da munificencia do seu Soberano e pessoas ricas. Concluio
esta difficil empreza no anno de 1694, no qual introduzio em Botanica muitos
principios sábios, e sobre elles fundou hum Methodo que foy reconhecido por
claro, conciso, e facil. Destribuio neste Methodo 10146 plantas (especies ou
variedades) em 22 classes, dividio estas em 122 secçoens, e subdividio as dictas
secçoens em 696 generos. As suas classes foram deduzidas, 1°. da grandeza e
duraçam, ou da consideraçam das plantas como hervas ou arvores ; 2° da presença ou nullidade
da corolla e da flor; 3°. da disposiçam das flores, ou das relaçoens de
simplices e compostas; 4°. do numero das petalas da corolla; 5°. da figura
regular ou irregular da corolla Nota
M. Adanson reconheceo nas Classes de Tournefort seis familias
naturaes, e 48 nas suas secçoens, e assegura com razam que de todos
os Methodos artificiaes o de Tournefort foy o que menos turbou as
affinidades, ou melhor se conformou com a marcha da natureza. Nota
Gouan, Adanson, Jussieu, e outros modernos adoptaraõ esta
doutrina. Nota
Rai tinha sido do mesmo parecer: Notae (dizia elle) obviae sint,
manifestae & cuilibet facile observabiles; nam cùm Methodi usus
praecipuus sit rudes et tyrones in stirpium cognitionem compendio
absque taedio & difficultate inducere, non oportet ejusmodi
notas proponere, quae attentum & sollicitum requirunt
expectatorem, cuique ut microscopium secum ferat necesse est. Rai, Tournefort parecem ter reservado o uso do microscopio somente
para a Botanica physica, persuadidos de que elle se oppunha a
facilidade dos Methodos da Botanica pura. Alguns modernos contudo pensam que o uso do microscopio he
indespensavel a todo o botanico, visto ter a experiencia mostrado
que ha nos vegetaes da mesma sorte que nos animaes quasi tantas
partes imperceptiveis (ou talvez mais) como ha de volumosas ou
perceptiveis sem microscopio, e que os nectarios, partes da
fructificaçam, e muitas notas caracteristicas de algumas plantas
jamais se poderaõ bem reconhecer senaõ usarmos do microscopio ou ao
menos de huma boa lente.
Aindaque Tournefort nam tivesse pensado em traçar hum plano, capaz de classar
adequadamente todas as plantas do globo terrestre, o que elle julgava
impossivel em qualquer destribuiçam systematica, contudo o seu systema tanto
pela novidade dos generos como pela sua facilidade obteve huma grande
acceitaçam, e nelle se alistaram durante alguns annos todas as especies e
generos, que se descobriram Nota
Principalmente as novas plantas da
America, que o douto religioso Carlos Plumier havia descoberto e
descripto por ordem de Luiz XIV., que lhe tinha dado tença e o titulo de
seu Botanico.Nota
Ponho Seguier entre os que seguiram Tournefort, porque o seu Methodo
relativo às plantas de Verona differe muito pouco do Methodo deste
Botanico, e o mesmo se deve entender do de Durande, que hoje se
ensina na Universidade de Dijon. Nota
Todos os Botanicos depois de Linneo tem evitado essa falsa divisaõ; e
Bergen sem embargo de ter seguido Tournefort no seu Tractado das
plantas de Francfort, publicado em 1750, naõ deixou de diminuir as
suas Classes reunindo as arboreas com as herbaceas.
Passados alguns annos depois da publicacam do systema de Tournefort appareceram
alguns outros, que nam sendo nem mais faceis nem mais perfeitos nam lhe poderam
usurpar a maior acceitaçam. Boerhaave, celebre professor de Botanica, Chimica, e
Medicina, publicou em Leyde no anno de 1710 huma divisam de seis mil plantas em
84 Classes, considerando-as relativamente à sua grandeza, duraçam,
fructificaçam, e habito externo: subdividio as dictas classes em 104 secçoens ou
ordens fundadas na substancia e figura das folhas, do calys, corolla, sementes,
e tronco, no numero das petalas, capsulas e sementes; na situaçam das flores e
germe; e em fim nos organos sexuaes das flores, que elle empregou tambem algumas
vezes para caracterizar os generos. O seu Methodo foy huma combinaçam dos
systemas de Cesalpino, Rai, Herman, e Tournefort, e por ser muito difficil e
complicado foy apenas seguido na sua escola e por Emsting e Morandi Nota
Morandi no seu Tractado das plantas medicinaes, publicado em 1744,
reunio as arvores com as hervas, e em quasi tudo o mais seguio o
Methodo de Boerhaave.
Em 1720, Pontedera nas suas dissertaçoens, em que descreveo 272 especies novas de plantas, negando os seus sexos [Página xliii] em geral, imaginou de emendar às imperfeiçoens do Methodo de Tournefort, e augmentou as suas 22 classes athe 37, considerando-as debaxo das mesmas relaçoens, e alem disso segundo a presença ou nullidade dos gomos; mas elle nam chegou a pôr em execuçam o seu plano systematico, nem o applicou aos diversos generos de plantas.
[Página xliii] Trinta e tantos annos depois da ediçam do Methodo de Tournefort, Carlos
Linneo, sabio Naturalista Sueco Nota
Carlos Linneo foy filho de hum pobre
Ecclesiastico de Smolandia na Suecia. Tendo-se applicado ao estudo de
Historia natural fez nesta sciencia tam rapidos progressos, que na idade
de 22 annos se achava ja capaz de ajudar e substituir Rudbeck, que entaõ
a professava em Upsal. Huma das suas primeiras tentativas em Historia
natural foy de fazer hum systema Botanico, que podesse prevalecer ao de
Tournefort, e o qual dizem que elle chegara a introduzir no jardim
botanico de Upsal no anno de 1731. Depois disto foy empregado pela
Sociedade da dicta cidade para fazer huma viagem na Lapponia, Noruega e
outros paizes do Norte por objectos de Historia natural. Em 1735, e
annos seguintes protegido por Amigos viajou pela Dinamarca, Suecia,
Allemanha, Inglaterra, e Hollanda, aonde publicou o seu Systema Naturae.
Tendo tornado à Suecia, sua patria, a reputaçam que por fora tinha
grangeado lhe suscitou a inveja de Rozen e outros Membros da
Universidade de Upsal de maneira, que tendo aberto hum curso de Liçoens
de Historia natural, foy por decreto da dicta Universidade suspendido de
o continuar, debaxo do pretexto de que somente os doutores aggregados a
ella podiaõ ensinar. Mas vencida esta dificuldade no anno de 1741, em
que foy nomeado professor de Medicina e Botanica, continuou durante
muitos annos as suas liçoens com grande celebridade athe que em fim
victima da sua applicaçam demasiadamente sostida veyo a ficar privado
quasi de todas as suas faculdades intellectuaes no ultimo anno da sua
vida, e a morrer de huma hydropisia de peito. Elle contribuio tanto
pelos seus extensos trabalhos como pelos sabios Alumnos, que formou,
para adiantar todas as partes de Historia natural mais ou menos, e se
lhe deve com effeito esta justiça, a pezar das suas opinioens.
A noticia dos sexos das plantas nam tinha sido inteiramente desconhecida aos antigos Gregos e Romanos; nos escritos de [Página xliv] Herodoto, Aristoteles, Theophrasto, Dioscorides, e Plinio achamos provas disso, como ja disse fazendo mençam destes Autores; mas as suas ideas a este respeito foram obscuras, conjecturaes, e nam fundadas em conhecimentos anatomicos das flores. Demais disso, ainda estas mesmas ideas parecem ter sido limitadas às palmeiras e de alguma sorte às figueiras; porquanto se bem que attribuiram sexos a muitas outras plantas, isso nam foy mais do que por hum mero motivo de destinçam estabelecida humas vezes na força ou fraqueza dos individuos, outras vezes na maior ou menor perfeiçam dos seus fructos, na maior ou menor efficacia das suas virtudes.
[Página xliv] Em toda a idade media athe quasi ao seculo passado, a doutrina dos sexos das
plantas foy muito incerta e indeterminada, nam tendo os botanicos outras
noçoens della mais do que as dos antigos, donde procederam muitas falsas
destinçoens, que lemos nas obras dos autores desses tempos Nota
Como saõ as de Feto macho, Feto femea; Peonia macha, Peonia femea;
Cornus mas, Cornus. faemina, &c. &c. Elles chamavaõ em algumas especies herbaceas dioicas, taes como o
Canamo e Mercurial, plantas machas as que eraõ femeas, e vice versâ,
so pela razam da sua grandeza ou virtudes medicinaes; (Mercurialis
testiculata, sive mas; & spicata, sive faemina. G. Bauh.) Nota
Gesnero, Grew, Malpighi, e Feldmand foram os que principalmente
restauraram a Botanica physica, e a adiantaram; este agradavel
estudo foy continuado por Hales, Ludwig, Leuvenhoek, Hill, Linne ,
Duhamel, Guettard, Bonnet, Saussure e muitos outros. Nota
J. Bauhino citou em 1650 as principaes passagens de Zaluzianski a
respeito dos sexos, mas nam parece ter feito maiores
investigaçoens.
A frequencia de ver das sementes de hum so individuo nascer masculinos e
femininos, isto he, hum esteril outro fructifero, devia necessariamente conduzir
a comparar os vegetaes com os animaes no modo de produzirse, e a investigar cada
vez mais este curioso objecto. Com effeito nam tardou muito tempo que o Dr.
Nehemias Grew Nota
Idea of a Philological History of Plants, &c. Lond.
1682, fol.
A opiniam de Grew foy adoptada por hum grande numero de Botanicos. Malpighi
seu contemporaneo nam contribuio pouco para a confirmar Nota
Anatome
plantarum. Lond. 1686, fol.Nota
"Em todos os flosculos das Compostas, dia este celebre
physiologista (na sua Epistola de Sexu Plantar. Tubingia, 1694), em que
falta o estigma ao pistillo, ha abortamento nas sementes; se no milho,
na amoreira, e muitas outras plantas cortamos as antheras das flores
masculinas, e os estyletes das femininas, naõ ha fecundaçaõ, nem por
conseguinte geraçaõ, e se pomos o individuo masculino da mercurial
distante do feminino, este naõ dará fructo, ou se o der, as suas
sementes naõ germinarão" Elle confessou contudo que as suas experiencias
tinhaõ falhado no canamo. Camerario naõ so foy o que melhor estabeleceo
o sexualismo dos vegetaes, mas o que ensinou a substituir por analogia
as plantas indigenas às exoticas, ideas, que Petiver e outros depois
seguiraõ. Elle foy taõbem o primeiro que fez mençaõ do numero dos
estames, e parece ter suggerido a Linneo os principios do seu systema:
Magnol tinha taõbem ja antes de Linneo empregado os organos sexuaes das
plantas em algumas das divisoẽs do seu Methodo Calylino, e Boerhaave nos
generos: Burchard medico de Brunswick tinha imaginado de fundar nelles
hum Methodo, como se collige da sua carta escrita a Leibnitz em 1702, e
reimpressa em 1758 por Heister em Helmstad: "Hic disserere constitui an
ex partibus istis, quas ab officio genitales dicturus sum, Plantarum
comparationes institui possint".Nota
Wolfio, Burchard, Logan, Blair, Bradley, Ludwig, Royen, Jussieu,
Needham, Monro, &c., &c.. Esta investigaçaõ passou athe à
plantas menos perfeitas e Jussieu descobrio estames no Fetos,
Micheli nos Fungos, Reaumur nas Algas e Hedwig nos Musgos. Sem embargo disto, a doutrina dos sexos naõ tem sido athe ao presente
universalmente recebida. Tournefort considerou as partes sexuaes das flores meramente, como
vasos excretorios destinados a separar a redundantia dos succos
nutritivos do novo fructo, e naõ lhes deo lugar no seu systema. Pontedera, Siegesbeck, Bénneman, e Moeller seguiraõ, que o pò das
antheras era somente huma materia proveitosa ao novo fructo. Alguns naõ admittiraõ sexos nas plantas Cryptogamicas (Vej. a Expos.
da Cl. Cryptog. vol. 2.) O Padre Spalanzani assegura com muitas experiencias, que no canamo e
muitas outras plantas perfeitas podem haver fructos perfeitos ou
sementes capazes de propagar a sua especie sem o concurso das
antheras. O Dr. Alston, professor de Edimburgo, o Conde de Buffon, e outros
Epigenesistas naõ admittem o sexualismo em todo o reyno vegetal. Vej. a Palavra Sexus no Diccionario Botanico, Vol. 2.
Linneo completou em fim a doutrina dos sexos, e lhe deo toda a extensam, de que
ella era susceptivel, compilando a seu favor todos os argumentos de que se
tinham servido os seus predecessores, ajuntando algumas novas observaçoens, e
fundando nella hum novo Systema, que em razam disso denominou sexual. Publicou este Systema no anno de 1787 e o dividio em 24 Classes
estabelecidas relativamente ao numero, ponto de apego, proporçam, adunaçam,
situaçam, e occultaçam dos estames; subdividio cada huma destas Classes em
differentes Ordens deduzidas do numero dos pistillos, do numero, adunaçam e
situaçam dos estames, e da figura do fructo Nota
As Ordens do Systema sexual sam algumas vezes subdivididas em
secçoens entremedias, fundadas em diversas relaçoens do calys,
corolla e outras partes da fructificaçam. M. Adanson diz (Pref. p. XX.) que as subdivisoens das classes deste
systema sam algumas vezes fundadas tambem em notas do habito
externo; eu penso que elle falla das Ordens da Classe Cryptogamia,
porque todas as mais subdivisoens sam puramente estabelecidas em
notas da fructificaçam. Nota
Tournefort tinha feito
mençam de 698 generos; depois delle athe Linneo muitos outros Botanicos
ajuntaram quasi mil, e Linneo athe o anno de 1759 descreveo 1174
generos. O Dr. Murray, na ultima ediçam do Systema Vegetabilium de
Linneo publicada em 1784, fez mençam de 1436 generos; mas o numero dos
generos conhecidos, e classados no systema de Linneo he mais
consideravel, como se pode ver nas Obras de Jacquin, Forster, Aublet,
&c.
Este systema teve no principio pouco séguito Nota
Milne (Dict. Bot.) diz que
Linneo estando em Londres proposera o seu systema a Sloane, entam
presidente da Sociedade Real da dicta cidade, e que este nam fizera cazo
delle.Nota
Vej. a Exposiçam
deste Systema, e o Cap. V. do Tom. II. desta Obra.Nota
Boerhaave tinha na verdade fundado antes de Linneo caracteres
genericos nas partes da fructificaçaõ; mas por hum modo abbreviado,
e bem differente do plano de Linneo. Nota
Heister pensava que as
folhas podiaõ algumas vezes servir como parte essensial para
caracterisar os generos. Gouan na maior parte dos generos do seu Hortus
Monspeliensis ajuntou aos caracteres da fructificaçaõ (adoptados de
Linneo) outros a que elle chama secundarios, e que saõ tirados de
diversas partes do habito externo. Jussieu servio-se das cores, e das
notas do habito externo mixtas com as da fructificaçaõ em muitos
caracteres dos generos do seu Methodo. Adanson nas suas familias de
plantas naõ estabeleceo caracter algum generico puramente na
fructificaçaõ, e advertio que o mesmo, que Linneo tinha dicto de
Tournefort "Tournefortianis nihil detraho meritis optimis, nego tamen
ejus characteres perfectos esse, nego ex iis destingui posse genera" se
lhe podia adequadamente applicar relativamente a huma grande parte dos
seus generos; porquanto os caracteres de muitos delles, principalmente
dos exoticos, eraõ muito defeituosos, de maneira que os viajantes naõ
podiaõ nelles confiar, e que elles algumas vezes o teriaõ conduzido na
sua viagem do Senegal a tomar humas plantas por outras, se naõ se
tivesse servido dos destinctivos das folhas, disposiçaõ das flores,
&c. Haller taõbem admittio entre as notas genericas as do habito
externo, e chegou ainda mesmo a dizer, que Linneo as tinha seguido na
praxe, a pezar dos principios que tinha estabelecido: Id tamen
fundamentum jeci, cui soli Methodus naturalis potest superstrui, ut
vicinae sint stirpes, quae notis plurimis sibi similes sunt, etiam si
aliquâ quam longissime differant, eae plantae sint dissimiles, quae
plurimis notis diversae sunt, etiam si unâ notâ quam vicinissimae
fuerint. Neglectus hujus axiomatis Methodos non naturales genuit. Inter
notas habitum posui, quem excludit quidem ex legibus Linnaeus in praxi
vero ubique revocat, suisque legibus praefert, exemplo Convalartae,
Tussilaginis, &c. (Hal. Stirp. Helv. praef. p. 14.Nota
Os
generos (diz o Dr. Oeder Elem. Botan.) naõ saõ definidos pela natureza;
elles ficaraõ ao arbitrio dos homens, os seus limites saõ ambiguos, e
dependem das relaçoẽs arbitrarias, que cada hum adoptou por definiçaõ,
ou se propoz de seguir com preferencia rejeitando outras. Naõ me parece
que haja Autor algum, que tenha fundado generos invariaveis, por mais
disputas e por mais defensores que tivesse de que seguio as affinidades
naturaes. Que Botanico ha que deixe de conhecer a grande diversidade que
existe entre os generos da maior parte dos Methodistas, sem embargo de
todos terem pertendido seguir a natureza? Daqui tem procedido a
differença e multiplicidade de nomes, que daõ motivos de queixas aos que
estaõ acostumados a hum systema, e que fazem perder o gosto de cultivar
a Sciencia, oppondo-se por conseguinte ao seu progresso. As innovaçoẽs,
que Linneo fez na nomenclatura, a pezar de muitas queixas, foraô
adoptadas, e saõ hoje seguidas; mas talvez nos seculos seguintes,
crescendo o numero dos generos, e apparecendo outro famoso e ousado
systematico, se queixaraõ outros de que lhes mudaraõ os nomes de Linneo.
Alguns tem sido de parecer que deviaõ haver poucos generos por evitar o
incommodo do grande numero de nomes genericos, outros pelo contrario
seguiraõ que deviaõ haver muitos a fim de que os nomes das especies
fossem menos variaveis, e mais facil a practica methodica; mas nenhum
destes pareceres se dirige a arrancar a raiz do mal, que procede de naõ
haver em Botanica huma nomenclatura fixa, como ha em Astronomia.
No parecer de Adanson os generos de Linneo sam mais proprios dos systemas artificiaes fundados na fructificaçam, do que dos que sam estabelecidos em outras partes, e do que do Methodo natural, em cujos generos os caracteres devem ser tirados de todas as partes das plantas; outros contudo tem pensado que elles sam mais proprios do Methodo natural do que dos artificiaes ou ao menos do que systema do Sexual, porquanto dizem, que todos os Autores, que athe agora tem feito tentativas do Methodo natural, desuniram incomparavelmente muito menos dos generos de Linneo, do que seria precizo desmembrar, se todas as especies citadas no Systema [Página lii] sexual fossem destribuidas nas Classes e Ordens, a que rigorosamente pertencem conforme as leys do dicto systema.
[Página lii] Nam obstante todos os defeitos, que se censuraram nas differentes divisoens
desta destribuiçam systematica, ella nam deixou contudo de ser adoptada por
hum grande numero de Autores Botanicos, e de vir a ser hoje a mais seguida
na Europa Nota
A França he de todos os paizes da Europa aonde os systemas
de Linneo saõ menos seguidos. No jardim Real de Paris ensina-se o
Methodo de Jussieu, e em Dijon e muitas outras Universidades segue-se o
Methodo de Tournefort reformado.
No anno de 1738 Linneo publicou outro plano systematico, ao qual deo o nome de Methodo Calycino, por ser destribuido em 18 Classes deduzidas principalmente das relaçoens do calys; mas elle nam completou a execuçam deste Methodo por lhe ter preferido o primeiro fundado nos organos sexuaes.
No anno de 1738 Linneo publicou outro plano systematico, ao qual deo o nome de Methodo Calycino, por ser destribuido em 18 Classes deduzidas principalmente das relaçoens do calys; mas elle nam completou a execuçam deste Methodo por lhe ter preferido o primeiro fundado nos organos sexuaes.No mesmo anno publicou huma terceira destribuiçam dos vegetaes, com o titulo de Fragmentos do Methodo natural.
No mesmo anno publicou huma terceira destribuiçam dos vegetaes, com o titulo de Fragmentos do Methodo natural. Esta destribuiçam continha entam 746 generos em 65 divisoens, que elle
denominou Ordens naturaes sem lhes dar titulos alguns; mas em 1751 na ediçam
da sua Philosophia Botanica augmentou os dictos generos athe ao numero de
1026, e as suas Ordens a 68, dando-lhes differentes nomes tirados das obras
dos seus predecessores, ou imaginados por [Página liii] elle algumas vezes com bem pouca propriedade Nota
Segundo Royen, os
titulos das familias dos vegetaes devem ser tirados de hum genero, que
nellas he o mais conhecido; Adanson e Jussieu seguiraõ esta maxima, e
ella me parece na verdade ser a mais razoavel.Nota
Primum & ultimum in parte systematicâ Botanices quaesitum est
Methodus naturalis. Clas. Plantar. Methodus naturalis ultimus finis
Botanices est et erit. Philos. Botan. pag. 137.Nota
Isto naõ parecerà
estranho aos que conhecem a grande dificuldade que ha de vencer os
obstaculos, que se oppoem ao descobrimento do Methodo natural. Estes
obstaculos no parecer de Linneo (Phil. Bot. p. 137) saõ, 1.º o desprezo,
que se havia feito do habito externo das plantas, depois que se tinha
começado a cultivar a doutrina da fructificaçaõ; 2.º a falta de generos
exoticos, que restavaõ para defcobrir; 3.º a affinidade que tinhaõ os
generos com os que lhes ficavaõ lateralmente contiguos; 4.º (Gener.
Plant.) a difficuldade ou quasi impossibildade de estabelecer a clave do
Methodo natural, sem a qual as familias naturaes naõ podem constituir
Methodo. Estas difficuldades foraõ a causa porque elle deo o nome de
Pedaços do Methodo natural às Ordens que publicou, confessando que ellas
eraõ dirigidas a fazer conhecer a natureza das plantas, e naõ a sua
nomenclatura; porquanto pensava que so os Methodos artificiaes podiaõ
servir para bem fazer conhecer os seus nomes, e que todos os que para
este fim destribuiaõ as plantas em Fragmentos do Methodo natural,
rejeitando o artificial, lhe pareciaõ ser semelhantes aos que deitaõ
abaxo humas cazas de abobada e de bons commodos, para em seu lugar
reedificar outras, de que naõ podem fechar a abobada.Nota
Em vaõ, diz o Dr. Oeder (Elem. Bot.), se tentara de
explicar ou indagar o caracter de huma familia natural, em quanto houver
a preoccupaçam de que sò das partes da fructificaçaõ se devem tirar
caracteres geraes: examinemos toda a estructura, ou habito das especies,
todas as affinidades em qualquer parte que as poz a natureza, e podemos
estar certos de que descobriremos bons caracteres. ... . Sem embargo de
que Linneo fosse hum dos maiores defensores da doutrina da
fructificacam, nam me persuado que os caracteres das Ordens, que nos
deixou nos seus Fragmentos do Methodo natural, fossem puramente nella
estabelecidos.
Os trabalhos de Linneo em Botanica nam se limitaram somente a fazer huma
revolucam nos generos, e a formar com elles novas destribuiçoens; elle
publicou hum grande numero de novas observaçoens e de tractados de plantas
de muitos paizes, simplificou a nomenclatura dos vegetaes, inventou alguns
termos technicos, emendou e fixou os antigos, e estendeo os dogmas de
Botanica Nota
Estes dogmas estaõ reunidos na sua Philosophia Botanica:
muitos delles sam compilados de Jungio, Paulo Hamman e Tournefort:
alguns saõ demasiadamente generalizados ou applicados sem destinçam
tanto aos Methodos artificiaes como ao natural; em fim alguns foram
tractados de paradoxos, de principios contradictos pela practica do seu
mesmo autor, e rejeitados por Siegesbeck, Heister, Hebenstreit, Alstoa,
Ludwig, Haller, Adanson, Jussieu, &c.
Adriano Royen, professor de Botanica na Universidade de Leyde, deo no anno de
1740 hum plano de destribuiçam de 2700 plantas com o nome de Preludio do
Methodo [Página lv] natural, dividido em 20 classes relativamente ao numero das cotyledones,
partes da fructificaçam, disposiçam das flores, e substancia herbacea ou
pétrea (porque no seu tempo ainda se nam tinham excluido de Botanica Nota
As esponjas, coraes, corallinas, madreporas, e outras producçoens
marinhas denominadas lythophytos foram classadas no Reyno vegetal quasi
athe o meyo do nosso seculo. Imperati em 1599 teve algumas leves ideas
da animalidade destes entes; Peyssonel renovou as mesmas ideas em 1727,
mas sem provas convincentes; o Dr. Bernardo de Jussieu em huma Memoria
presentada a Academia de Sciencias de Paris em 1741 foy o primeiro que
provou com razoens decisivas, que elles deviam ser classados no reyno
animal por serem relativos aos polypos, cujos corpos se ramificaõ e tem
grande analogia com os vegetaes. Depois deste tempo os lithophytos foram
inteiramente excluidos do reyno vegetal.Nota
Hinc patet,
cur nullis a quocunque demum autore datis principiis adhaserim, sed
solis naturae legibus adstrictus.... Unde factum est, ut classes, quas
ante me pauci dederant, naturales servaverim, plures introduxerim, et
reliquas seorsim exhibuerim. Pr. Florae Leid.
Alberto Hailer, na sua Enumeraçam das plantas da Suissa impressa em 1742, e
das de Gottinga publicada em 1753 fez tambem huma nova tentativa do Methodo
natural, destribuindo duas mil especies, que descreveo, em 13 Classes Nota
Linneo reconheceo 15 Classes neste Methodo; Adanson confessa
contudo nam ter podido descobrir nelle mais do que 13; eu nam pude
taõbem decifrar hum maior numero; ellas sam com effeito difficeis de bem
se destinguirem, por se encadearem de ordinario estreitamente com as
subdivisoens subalternas, segundo o plano, que o seu Autor se tinha
proposto, e que elle seguio o mais que lhe foy possivel. Ego, qui non
universalem stirpium Historiam molior, non tenebar perfectam dare
generum distributionem. Sufficere credidi, si quamlibet familiam inter
duas familias disponerem, à quibus proximè distat et difficiliùs
distinguitur. Detegent fortè hoc meum studium gnari, in graminibus, in
transitionibus, quibus classes conjunguntur &c... id ubique non
obtinui, neque fortè licet, cùm affinitates naturales mihi non simplices
esse videantur, sed ab uno genere ad alia muita ex diversis notis
perinde possit legitimè transire. (Hall. Pr. Stirp. Helvet.
Francisco Sauvages, Medico de Mompelher, deo em 1743 o projecto de hum Methodo fundado nas differentes relaçoens das folhas, o qual, a pezar da reforma que o dicto botanico nelle fez em 1751, he muito defeituoso, principalmente pela razam das suas divisoens conterem de ordinario plantas que lhes nam convem com propriedade.
Everardo Wachendorf imprimio no anno de 1747 hum catalogo, das plantas do jardim botanico de Utrech, no qual citou quasi quatro mil especies simplesmente com as phrases de Linneo, e destribuidas em 16 Classes principalmente pela fructificaçam. Este botanico he contado no numero dos que fizeram tentativas sobre o Methodo natural; mas as divisoens do Methodo, que elle imaginou, pela maior parte nam sam [Página lvii] naturaes, e os seus titulos de ordinario sam viciosos pela sua demasiada extensam.
[Página lvii]O Methodo geral publicado pur Lourenço Heister em 1748 contem 35 Classes fundadas na fructificaçam, habito externo e grandeza arborea ou hebracea; subdivididas em 93 Ordens relativamente ao sexo das flores, à sua disposiçam e das folhas, numero das petalas e sementes. Este Methodo parece ter sido trabalhado sobre o de Rai, e he mais facil do que elle.
Joam Gleditsch deo no anno de 1749 Nota
Vej. a Histor. da Acad. Real de
Scienc. de Berlim. in 4.º, pag. 109, e seg.
M. Duhamel no seu Tractado das arvores e arbustos, que se cultivam em França sem estufas, impresso em 1755, cuidou de combinar o Systema de Linneo com o de Tournefort, e destribuio as mil especies, de que fez mençam, em tres Classes relativamente aos sexos, e ao numero das petalas. Elle deo ainda na mesma Obra mais dois outros Methodos, hum composto de sette Classes estabelecidas na substancia e figura do pericarpo, e na substancia, figura, e nudez das sementes; outro de quatro Classes fundadas na figura, situaçam, e duraçam das folhas. O intuito de M. Duhamel foy de facilitar, o mais que lhe foy possivel, o conhecimento das plantas de que tractou, considerando-as nestes tres Methodos relativamente ao estado da florecencia, da frutescencia, e do [Página lviii] periodo em que ellas se acham sem, flor nem fructo, e so com folhas: elle conhecia muito bem, que todos os Methodos artificiaes sendo mais ou menos defeituosos, o seu primeiro Methodo nam podia ser livre de defeitos, e lhe ajuntou por esse motivo os dois outros para supprir às suas imperfeiçoens. Hum semelhante plano he digno de ser imitado, e o seria ainda muito mais, se M . Duhamel lhe tivesse ajuntado hum quarto Methodo ou Catalogo, no qual as plantas, que citou, se achassem dispostas em familias naturaes.
M. Duhamel no seu Tractado das arvores e arbustos, que se cultivam em França sem estufas, impresso em 1755, cuidou de combinar o Systema de Linneo com o de Tournefort, e destribuio as mil especies, de que fez mençam, em tres Classes relativamente aos sexos, e ao numero das petalas.arvores[Página lviii]M. Adanson, sabio Botanico da Academia de Sciencias de Paris, no seu Tractado das
Familias de Plantas publicado em 1763 seguiu hum plano do Methodo natural
inteiramente diverso dos que tinham imaginado os seus predecessores. Elle
destribuio as 18 mil plantas (especies e variedades) conhecidas athe ao dicto
anno, em 1615 generos, a que chamou linhas de separaçam primarias e bem
assignaladas pela natureza. Assignou a cada huma destas Familias e generos o
seu caracter particular deduzido da fructificaçam e habito externo, porque
no seu parecer os verdadeiros caractéres genericos naturaes, ou proprios das
divisoens do Methodo natural devem ser tirados de todas as partes dos
vegetaes, vistoque ha algumas, que sam mais essensiaes para este fim em
certas Familias do que as da fructificaçam, como por ex. sam as folhas na
familia das Estrelladas e Leguminosas, e a disposiçam das flores nas
Labiadas. Nam estabeleceo clave alguma às 58 familias, a que limitou o
reyno vegetal conhecido, pensando que era muito difficil, e mesmo impracticavel,
reduzir as familias naturaes a huma boa clave classica, por falta da
generalidade competente de notas caracteristicas. Em lugar de clave dispoz as
dictas familias por huma serie gradativa, começando pelas dos vegetaes menos
perfeitos, e encadeando-as [Página lix] humas com outras conforme as affinidades, com que ellas lhe pareceram ter
sido approximadas pela natureza. Este Methodo nam deixa de ter bastantes
imperfeiçoens, como o seu mesmo Autor confessa; muitos dos caracteres dos seus
generos e familias sam incompletos, e precisam de ser correctos (este defeito
contudo nem sempre deve ser attribuido ao Autor, elle procede muitas vezes das
omissoens dos seus predecessores ou das estampas e descripçoens incompletas, que
elles publicaram, e que M. Adanson seguio, sendo-lhe impossivel de tudo
verificar); algumas plantas referidas às familias das dicotyledones sam
monocotyledones; algumas familias parecem desligadas, outras tem transiçoens
muito arbitrarias e mesmo improprias, como he por ex., a dos Pinheiros aos
Musgos, que o Autor poz no fim de todas as suas gradaçoens methodicas; outras
nam tem a sufficiente uniformidade de caracteres nos seus generos para merecerem
o nome de naturaes; em fim algumas plantas podem referir-se a duas familas
vizinhas, sem que nota alguma caracteristica decida mais a favor de huma do que
de outra. A pezar destes e outros defeitos, o Methodo de M. Adanson nam deixa de
ser muito mais bem trabalhado nas familias naturaes do que os dos seus
predecessores; elle chegua-se muito mais ao Methodo natural, e pode servir de
grande soccorro aos que se occupam na sua investigaçam. M. Adanson publicou alem
disso na mesma obra hum grande numero de reflexoens sabias sobre a Botanica
dogmatica e methodica, que o dam bem a conhecer pur hum botanico erudito e
profundo. Eu adoptei neste Tractado muitas das suas ideas, todas as vezes que as
achei conformes ao que me tem ensinado o estudo de muitos annos subre os
vegetaes, porque nem sempre me pareceram bem fundadas. Algumas das suas
assersoens relativas às partes da [Página lx] fructificaçam das plantas denominadas Cryptogamicas discordam muito das
minhas observaçoens e das do Dr. Hedwig de Leipsik Nota
O Dr. Kedwig he de
todos os modernos o que me parece ter melhor indagado as plantas
Cryptogamicas. A Academia de Petresburgo coroou huma das suas obras, na
qual elle demonstrou com huma grande sagacidade as miudas partes da
fructificaçaõ naõ so dos Musgos, mas ainda dos Fetos, Algas e Fungos.
Elle referio a Cavallinha a Tetandria monogynia: os organos masculinos
do Agarico, segundo as suas observaçoens, estam na parte interna da
volva, que cobre as laminas, e que vem depois a formar o annel a roda do
espique; os pistillos da mesma planta estam situados nas laminas. Elle
pensa que os escudilhos dos Lichens sam capsulas, que enserram sementes,
e que os tuberculos dos Lichens tuberculosos foraõ escudilhos antes de
tomar a forma tuberculosa. Julga que as celhas do Lichen ciliaris sam
raizes, assim como outras partes analogas em muitas outras espécies de
Lichen. O seu prezado axioma he que — omnis planta ex semine — assim
como o de Harvey era, omne animal ex ovo —. Segue que os fluidos
circulaõ, nos vazos dos vegetaes, assim como nos dos animaes, e que os
Reynos Vegetal e Animal se podem bem distinguir hum do outro pelos
organos masculos, os quaes em todos os vegetaes perecem depois de ter
operado a fecundaçaõ, e pelo contrario subsistem nos animaes depois
desta operaçaõ, e podem repetila muitas vezes.
O Dr. Antonio Luiz de Jussieu, celebre Botanico da Academia de Sciencias de
Paris, em duas Memorias prezentadas à dicta Academia nos annos de 1773 e de
1774, indicou hum novo plano methodico universal, e nelle adoptou a nomenclatura
de Linneo, e quasi geralmente os seus generos, reduzindo-os a 92 Familias
estabelecidas em differentes relaçoens collectivamente tiradas de todas as
partes das plantas, e dispondo as dictas familias conforme as suas affinidades
em huma serie methodica, começando pelas dos vegetaes menos perfeitos, como
tinha feito M. Adanson. Elle nam seguio contudo as ideas deste Botanico nem as
de Linneo a respeito da clave [Página lxi] classica das familias naturaes; porquanto persuadido de que nellas haviam
algumas relaçoens geraes e invariaveis capazes de servir de base para
estabelecela, reduzio as do seu Methodo (que considerou como naturaes) a huma
clave de 14 Classes fundadas principalmente na privaçam ou numero das
cotyledones das sementes, e no mediato ou immediato apego dos estames ao calys,
receptaculo, ou pistillo. Mas esta clave tem algumas imperfeiçoens e he muito
diffcil na practica: o titulo de acotylédones (ou sem cotyledones) dado a
todas as Cryptogamicas, às Nayades e Parasitas he improprio e desmentido
pela natureza; nestas duas ultimas familias ha algumas plantas Nota
Como
saõ por ex. o Myriophyllum, e Ceratophyllum.Nota
Como por ex. no Cactus, no qual algumas especies saõ
monocotyledones e outras dicotyledones.Nota
O Methodo sobredicto foy imaginado pelo Dr.
Bernardo de Jussieu, e estabelecido primeiramente no Real Jardim de
Trianon, sito no Parque de Versalhes; depois da sua morte o Dr. Antonio
Luiz de Jussieu cuidou de lhe dar huma melhor forma, e o introduzio no
jardim Real de Paris, aonde hoje he ensinado publicamente aos nacionaes
e estrangeiros.Nota
O Real Jardim Botanico de Paris contem quasi cinco mil
differentes especies de plantas de diversos climas do globo terrestre, e
este numero he todos os dias augmentado pelas novas remessas, que o
douto Thouin, Jardineiro mòr do dicto Jardim, recebe de paizes
estrangeiros.
Por evitar de ser prolixo, nam faço aqui mençam de alguns outros Methodos modernos, relativos às plantas de differentes paizes do Globo, como o do Dr. Allioni sobre as plantas do Piemonte, o de Oeder sobre as de Dinamarca, o do Cavalheiro de la Mark sobre as da França, o do Lord Bute sobre as da Gr. Bretanha, o de Thunbergio sobre as do Japam, nem os de outros, que se [Página lxiii] acham indicados no nosso Catalogo dos Autores Botanicos: todos estes Methodos nam sam outra coiza mais, do que combinaçoens ou correcçoens dos precedentes, de que tenho summariamente tractado.
[Página lxiii]Alem dos Methodos universaes, e geraes, tem havido ainda alguns outros
denominados parciaes, e relativos a huma so Classe ou Familia de plantas; taes
sam por ex. os de Dillenio, Michelli, Gledits, Batarra, e Bladts sobre os
Fungos; os de Dillenio, Michelli e Hedwig sobre os Musgos; os de Monti,
Michelli, e Schenzer sobre as Gramas; os de Morison, e Artedi sobre as
Umbrelladas; e os de Vaillant, e Pontedera sobre as Compostas. Alguns publicaram
Tractados particulares de hum genero infimo, que pelas numerosas especies, que
contem, parece constituir huma Familia, como por ex. Klein, Donati, e Gmelin do
Fucus ou Alga, Burman do Geranto, e Haller do Alho. Muitos emprehenderam
viagens nam so pela Europa, mas por todos os lugares do Globo, aonde ha
colonias de Europeos, e,aonde o commercio e navegaçam lhes franquea a
entrada Nota
As viagens, que desde o seculo passado athe ao presente se tem
emprehendido por differentes sabios a fim de augmentar os conhecimentos
em Botanica e outras partes de Historia natural, saõ summamente
numerosas; as principaes entre as modernas saõ: a de Gmelin pela Siberia
athe aos confins da China: a de Shaw na Africa; Colden na Virginia;
Brown na Jamaica; Adanson no Senegal; Kalmio e Jacquin na America; Osbek
na India; Hasselquist na Palestina; Loeffling e Alstroemer na Hespanha;
Amman na Russia; Burman em Ceilaõ e Cabo da Boa Esperança; Bergio taõbem
no Cabo da Boa Esperança; Forskoll no Egypto e Arabia; Pallas nos
Estados da Russia; Sparman na Africa austral; Sonerato na nova Guiné e
India; Aublet na Ilha de França e Guianna; Thunbergio na Africa austral,
Ceilaõ, Java e Japaõ; Solander com o celebre cavalheiro Banks, e os dois
Forsteros no mar austral, &c.Nota
Como a Sociedade de Allemanha estabelecida em 1670, a de
Londres em 16S2, a Academia de Sciencias de Paris em 1699, a de Upsal em
1720, a Imperial de Petresburgo em 1728, a de Noremberg em 1731, a de
Stokolmo em 1739, e muitas outras que foraõ fundadas no seculo actual
para servirem de Archivos às Sciencias, e contribuirem para o seu
progresso.
Das destribuiçoens dos entes do reyno vegetal, que athe agora se tem
publicado quer sejam denominadas Systemas ou Methodos artificiaes Nota
Os
Systemas artificiaes saõ fundados em huma so parte ou em poucas: o
Methodo natural pelo contrario he fundado em muitas, e considerado como
hum composto de muitas familias, nas quaes cada especie se acha por taõ
intimas affinidades ligada com outras, que nenhuma dellas se pode
separar sem fazer violencia à natureza.Nota
Como
foraõ Morison, Ray, Tournefort, Magnol, Boerhaave, Ludwig, Adanson,
Jussieu, &c.
" A Botanica, diz hum celebre Naturalista moderno Nota
M. Adanson, cujas ideas transcrevo aqui por me parecerem ser as mais
exactas, e adequadas para instruir o Leytor sobre o estado actual da
Botanica. Nota
Segundo o mesmo sabio Naturalista, a Botanica he susceptivel de
muitos problemas sobre as linhas de separaçaõ entre as Familias e
generos, sobre as relaçoẽs que os encadeaõ, sobre as affinidades que
fazem que hum vegetal pertença mais a hum genero, ou familia, do que
a outros &c. O Dr. Ant. L. de Jussieu he do mesmo sentimento, accrescentando que
ella preciza às vezes de huma especulaçaõ, que equivale à das
Sciencias mais abstractas. Nota
Naturalem
et perfectissimam Methodum, in quá nullæ anomaliæ occurrunt deprehendi
vix, posse opinamur, cum varietas characterum nimia sit, & ex
consensu omnium signorum characteres veró naturales exurgant, hinc uno
signo variante vera dispositionis ratio turbatur. Ludwig. Instit. Botan.
§. 190.Nota
Ray, que no fim do seculo passado fez mençaõ de 18655 plantas,
ontando especies e variedades, dizia que a metade dos vegetaes do
globo terrestre não estava ainda conhecida. Oeder em 1753
julgava que haviaõ 7320 especies conhecidas sem contar as variedades, e
que na Europa, aonde haviaõ tres mil e tantas especies, eraõ poucas as
que naõ se conheciaõ, mas que isto era bem differente a respeito das
outras partes do Globo. M. Adanson pensa que ha 16 mil especies
conhecidas, e que restaõ ao menos 25 mil para descobrir. M. Le Monier,
Professor de Botanica em Paris pertende que ha hoje 25 mil plantas
conhecidas entre especies e variedades, e que cohecemos mais da metade
das plantas do globo terrestre. Linneo dizia que o numero das plantas de
todo o Globo era menos do que se pensava, e que segundo o seu calculo
ellas montavaõ quando muito a dez mil [numerum plantarum totius Orbis
longé pauciorem esse, quam vulgó creditur, satis certo calculo
intellexi, utpote qui vix ac ne vix 10,000 attingat] [Spec. Plant. ad.
Præf. edit 1754]: mas o seu calculo naõ tem a certeza que elle
pertendia; os Hervarios de Adanson, Jussieu, e Sloane contem 8 mil
especies, o de Vaillant nove mil, o de Sherard dez mil, e quantas mil
alem destas naõ contem os sertoẽs de Africa, Asia, e America, e outros
paizes da Terra aonde nenhum Botanico tem ainda penetrado?Nota
Em todos os tres reinos de natureza ha formas tao particulares a
certos paizes, que se naõ achaõ fora delles: no reino vegetal a
experiencia tem mostrado que ha muitas especies e generos, que saõ
proprios huns da Asia, outros da Africa, e outros da America
exclusivamente; que na Europa ha hum grande numero de generos de
Cruciferas e Umbrelladas, muito poucos de Malvaceas, e apenas duas
especies de Palmeiras (as quaes segundo alguns conjecturaõ foraõ
nella naturalizadas por transplantaçaõ) que na Zona torrida ha muito
poucas Umbrelladas, e rarissimas Cruciferas. Portanto assim como ha Familias quasi inteiras na Europa, outras
quasi inteiras fora della, he muito provavel que hajaõ taõbem fora
della algumas Familias, das quaes naõ conhecemos ainda planta alguma
ou apenas conhecemos hum ou poucos generos, que os viajantes nos tem
descripto. Nota
Porquanto ha, segundo o mesmo Botanico, algumas plantas, que tendo
variedades saõ consideradas como especies, e outras vice versá, que
sendo especies saõ reputadas por variedades. Nota
Diz-se ordinariamente, que ha muitas coizas
minuciosas, que se devem omittir e désprezar nas descripçoẽs dos
vegetaes; que as descripçoẽs longas naõ se lêm, e que nellas se naõ
percebe com facilidade e brevidade as differenças caracteristicas; em
fim que as abbreviadas saõ as melhores, e o que nellas falta deve ser
supprido pelas Estampas. Pelo contrario vejo ainda mesmo alguns
daquelles, que tem seguido este parecer, queixarem-se de que naõ poderaõ
aperfeiçoar seus Methodos pela razaõ de naõ terem achado nos Autores
descripçoẽs mais extensas e completas. Plinio dizia, que nada podia
parecer superfluo nos olhos de hum attento observador da natureza; com
effeito naõ me parece que haja coiza alguma em huma especie vegetal, que
deixe de merecer de ser observada, e descripta na sua Historia Natural;
o que em hum seculo he reputado por superfluo e minucioso, naõ o he em
outro, e nos temos varios exemplos disto nas estipulas, nectarios,
glandulas, situaçaõ do corculo, ponto de apego dos estames, figura do
pollen das antheras, &c. As Estampas saõ na verdade de grande
soccorro, mas he rarissimo de encontrar alguma em que naõ hajaõ defeitos
e descuidos; demais disso ha muitas circumstancias que naõ se podem
nellas bem exprimir, as quaes se podem pelo contrario bem expor nas
descripçoẽs. Huma descripçaõ, na qual se mencionasse completissimamente
a forma exterior, estado organico, e toda a natureza de huma planta,
dando-se della huma boa estampa, seria hum fixo monumento da dicta
planta, e naõ deixaria para observar a respeito della o que huma
descripçaõ abbreviada, aindaque reunida a numa boa Estampa, costuma
deixar. As descripçoẽs abbreviadas prezentaõ com effeito os finaes
caracteristicos com facilidade; mas como os sinaes caracteristicos
differem segundo os differentes Methodos, a facilidade, he igualmente
sujeita a differir, succedendo muitas vezes que a mesma descripçaõ, que
he facil a respeito, de huns, fica sendo difficil a respeito de outros,
ou pelo dizer de outro modo, a descripçaõ abbreviada, que he boa
conforme as ideas deste ou daquelle Botanico, he mà para a Botanica,
como a sua historia desde a restauraçaõ das lettras athe ao presente
nolo attesta. Em summa, a perfeiçaõ da Botanica depende da comparaçaõ de
todas as partes e sinaes quaesquer que se podem divisar na forma e
estructura dos individuos vegetaes, e para este fim so as descripçoẽs
vastamente circumstanciadas podem ser de hum adequado soccorro.Nota
Rai foi de parecer, que naõ era necessario nos Methodos indicar parte
alguma, que exigisse o uso do microscopio, como ja notei (pag. XL,
not. b.). Alguns Methodistas seguem ainda hoje este parecer; outros
rarissimamente assignaõ caracteres fundados no uso do microscopio;
outros em fim estabelecem Familias inteiras em notas
caracteristicas, que dependem absolutamente do uso delle. M. Adanson pensa que ha nos animaes e vegetaes quasi tantas partes
insensiveis ou microscopicas, como ha de bem apparentes á vista
simples, e que todas ellas saõ igualmente dignas da attençaõ de hum
Naturalista, julgando por erronea a opiniaõ de Rai. Nota
Seria acertado que huma Academia protegida por algum Soberano ou
pessoas ricas e com artistas tencionados emprehendesse de dar todos
os annos hum certo numero de Estampas completas dos vegetaes
conhecidos athe chegar a publicar todas as suas especies e
principaes variedades: este trabalho daria a Historia Natural hum
precioso Archivo, e contribuiria summamente para o seu
progresso. M. Adanson, e outtos modernos criticaraõ com justo
motivo a Linneo de ter dicto (Gener. Piantar. 1743) icones pro
determinandis generibus non commendo, sed absolute rejicio, licet fateor
has magis gratas esse pueris, iisque, qui plus habent capitis quam
cerebri... ab iconibus enim quis potest unquam aliquid argumentum fixum
desumere; sed ab scriptis facillime; sendo notorio que o mesmo celebre
Botanico Sueco se servio das Estampas de Rheede, de Tournefort, Plumier,
Dillenio, Micheli & outros para caracterizar alguns generos e
especies, nao deixou de ajuntar sempre huma Estampa às descripçoes das
plantas novas, que descobrio. He verdade, diz M. Adanson, que ha muitas
coizas nosentes organicos, que nao se podem exprimir nas Estampas, e saõ
so proprias das descripçoẽs; mas naõ se pode duvidar taõbem que ha
algumas nos dictos entes, e hum nao sei que nas suas physionomias, que
sò he privativo à pintura ou desenho de exprimir e de que nenhuma
descripçaõ pode dar noçoẽs claras. He por esta razaõ que sera sempre
necessario reunir as figuras as descripçoẽs, e as descripçoẽs ás
figuras, como servindo humas às outras de hum reciproco
soccorro.
Taes sam os passos, que tem dado a Botanica, e o seu estado actual nos
differentes paizes da Europa. O seu progresso entre nos tem sido ora
proporcionado e em parte superior ao das outras Naçoens Européas, ora mais
lento. No tempo, em que a Lusitania esteve debaxo do dominio dos Romanos,
lemos nos antigos Autores Nota
Segundo Plinio, Strabo, Justino, Athenco, Columela, e outros, as
plantas frumentaceas e hortaliças eraõ copiosamente cultivadas entre
os Lusitanos; elles extrahiaõ muito azeite naõ so das azeitonas, mas
ainda das bagas de loiro e fructos de outros vegetaes, e os Romanos
exportavaõ delles trigo, azeite, vinhos, cardos hortenses, tuberas
da terra, linhos, esparto, bettonica, &c. &c. Nota
A Bettonica ou Vettonica diz-se ser assim denominada pela razaõ dos
seus usos medicinaes terem sido descobertos pelos povos Vettones ou
Vetones. Estes povos habitavaõ huma parte das provincias orientaes do Portugal
moderno e a provincia da Extremadura da Hespanha moderna; a sua
Capital segundo Prudencio, era Merida (Emerita), a qual fazia parte
do Portugal antigo ou Lusitania. André de Rezende seguindo a opiniaõ de Plinio extende a habitaçaõ dos
Vettoens athe ao Doiro.
A restauraçam das lettras tendo feito mudar em Portugal o plano de estudos,
Theophrasto, Dioscorides e outros antigos, que tinham tractado dos vegetaes,
começaram a ser melhor interpretados do que o tinham feito os Arabes e os que
athe esta famosa epoca haviam adoptado as suas ideas; a nossa Universidade tinha
na Botanica (que entam se ensinava) professores tam instruidos como as melhores
da Europa. Com intuitos de commercio e de engrandecimento do Estado,
acompanhados da paxam de investigar, descobrimos novos paizes navegando
pelos mares meridionaes da Africa e India athe à China, e fomos à proporçam
que os conhecemos dando à Europa tanto em Geographia como em differentes
partes de Historia natural Nota
Garcia de Horta, celebre Professor da nossa Universidade de Coimbra,
tendo deixado a sua cadeira de Medicina em 1534, e passado à India e
China publicou em Goa o seu Tractado das Especierias do Oriente, o
qual foy depois tradurido do Portuguez em varias linguas pela sua
novidade e exactidaõ. Thomé Péres e Joaõ Fragoso tractaraõ taõbem das drogas e plantas do
Oriente; Fernaõ Mendes Pinto, Barros e outros fizeraõ mençaõ de
muitas arvores e producçoẽs da India, China, Moluccas e outras ilhas
do mar da India. Pero Magalhaẽs, amigo do nosso Camoẽs, na sua Historia de S. Cruz ou
Brasil tractou da herva sancta (depois chamada herva do tabacco ou
da ilha Tabago, e herva de M. Nicot), da mandioca, da arvore do
balsamo de copaïva e algumas outras produccoẽs da America
Meridional.
Se o mesmo plano de estudos, e a mesma instrucçam se houvesse sustentado e
promovido entre nos, a Botanica e outras Sciencias e artes deveram certamente
aos Portuguezes hum explendor progressivo; mas differentes circumstancias assaz
expressas na nossa Historia se opposeram a isso. Cahimos debaxo do poder de
Hespanha, e fomos durante muitos annos com pezados grilhoens sopeados e
enfraquecidos; fomos, depois de os ter felizmente espedaçado, obrigados a
soster longas guerras; e em quanto as artes e Sciencias floreciam entre os
estrangeiros, e estes se serviam ainda mesmo de nossas terras Nota
Tournefort adiantou a Botanica com algumas plantas, que descobrio em
Portugal; Grisley no seu Viridarium Lusitanum fez taõbem mençaõ de
algumas, de que nenhum autor Portuguez tinha tractado. Rheede e Rumphio enriqueceraõ a Botanica com a noticia de novas
plantas de muitos lugares da India e ilhas adiacentes, que os
Hollandezes nos tinhaõ conquistado em quanto estivemos debaxo da
dominaçaõ dos Reys Philippes. Marcgrave e Pisam tractaraõ da Historia Natural do Brasil mais ampla
e circumstanciadamente do que nenhum dos nossos Autores.
Os primeiros tempos pacificos foram empregados em reparar os danos, que
principalmente a Politica e armas de Hespanha nos tinham causado; mas nam se
pode remediar a todos; a degenerada situaçam das lettras prevaleceo, e as
Sciencias nam poderam ser ainda geralmente reformadas. O Ceo tinha destinado
esta gloriosa empreza a hum dos mais illuminados Soberanos que tem occupado o
throno Portuguez, o Senhor D. Joseph I.: no seu reynado a reforma do bom [Página lxxiv] gosto em Litteratura foy seguida pela das Sciencias. Inclytos sabios
estrangeiros foram chamados para professar algumas dellas entre nos, e elles nos
introduziram subitamente aos mais essenciaes conhecimentos, que a Europa,
durante a nossa decadencia, tinha nellas alcançado. A Botanica nam podia
deixar de merecer a attençam de hum Princepe Nota
O estudo dos vegetaes tem
sido promovido por muitos Soberanos. Alexandre Magno mandou remetter a
seu Mestre Aristoteles (ao qual tinha incumbido o cuidado das Sciencias
naturaes na Grecia) as mais singulares produicçoẽs vegetaes, que haviaõ
nos paizes que tinha conquistado, e se diz que mandara a Socotorà huma
colonia Grega para ter cuidado de colher e enviar ao Egypto o albe desta
ilha. Os Imperadores Romanos mantiveraõ sabios em varias partes dos seus
vastos dominios para conservar os conhecimentos botanicos e os
adiantarem. Maximiliano II. e Rodolpho seu filho, Imperadores de
Allemanha, honraraõ e ennobreceraõ a Clusio pela sua grande erudiçaõ em
Botanica. Philippe II. mandou Hernandes à America investigar as suas
producçoẽs vegetaes e outros objectos de Historia Natural, e despendeo
nisso mais de trezentos mil ducados. Luiz XIV. manteve muitos annos o
douto P. Plumier na America para descrever as suas plantas, e mandou
Tournefort viajar por todo o Levante principalmente no intuito de
reconhecer os vegetaes, de que os antigos Gregos e Romanos tinhaõ feito
mençaõ. Pedro I, Czar da Russia, e seus successores fizeraõ indagar as
plantas dos seus grandes estados athe à China. Fernando VI. mandou vir a
Hespanha o sabio Loefling, e estabecer por elle em 1756 o jardim
Botanico de Madrid. Elrey de Dinamarca em 1761 enviou a Arabia nove
sabios, e entre elles Forskohl para se occupar de observaçoẽs botanicas.
O Imperador actual mandou o celebre Jacquin as Antilhas para observar e
descrever as suas producçoẽs vegetaes. A protecçaõ com que hoje todos os
Soberanos e muitas pessoas ricas promovem por toda a Europa a Botanica
he he assaz conhecida.Nota
O Real Jardim botanico sito junto do Pallacio Real de N. Senhora da
Ajuda, e o Jardim da Universidade de Coimbra. Nota
O Dr. Domingos Vandelli, cujo merecimento he bem conhecido nas
principaes Academias da Europa. Este sabio restabeleceo naõ so a Botanica em Portugal, mas ainda a Zoologia , Mineralogia, e Chimica de que foy
igualmente nomeado professor pelo Senhor D. Joseph I.
Por terminar este Epitome historico da Botanica ajuntarei somente as reflexoens
seguintes. O reyno vegetal he huma fonte inexhaurivel de novos conhecimentos,
hum thesoiro copiosissimo de preciosidades. A estructura infinitamente variada
dos entes deste reyno, as combinaçoens de differentes principios, que constituem
a sua natureza, sam huma das mais bellas maravilhas da composiçam do Globo, que
habitamos. Nam ha vegetal algum, que nam mereça de occupar a attençam de hum
verdadeiro sabio; nenhum ha, por mais desprezivel que pareça, de que se nam
possa esperur alguma utilidade Nota
Na supposiçaõ de que somente hum certo numero de vegetaes fosse util,
o seu estudo seria recommendavel a fim de que se naõ confundissem os
uteis com os inuteis; mas a experiencia desmente todos os dias esta
supposiçaõ, mostrando que huma planta tida por inutil em huma arte
he util em outra, e bastarà citar a este respeito o Recueil
d'Expériences sur les teintures, que les végétaux indigènes de
France communiquent aux laines, por. M. Dambourney. Nota
Nos antigos tempos os que practicavaõ a arte de curar costumavaõ
subministrar aos seus doentes os medicamentos, e como estes eraõ quasi
todos tirados dos vegetaes, a Botanica medicinal era hum dos seus
principaes estudos. Este costume tem ainda hoje lugar entre os Asiaticos
e Africanos. Entre os Europeos os Medicos e Cirurgioẽs foraõ
determinados por diversas circumstancias a occupar-se puramente do
curativo clinico dos enfermos, e deixaraõ o cuidado de preparar e
distribuir os medicamentos a differentes sortes de pessoas, como
Boticarios, Hervolarios, Droguistas, e Especieiros. Mas deste abandôno
ou tranfacçaõ naõ se pode tirar fundamento de que elles naõ devaõ
apprender a conhecer os medicamentos, tanto relativamente à sua
preparaçaõ e composiçaõ, instruindo-se na Chimica e Pharmacia, como no
seu estado simples e taes como sahem do seyo da natureza, instruindo-se
em Botanica e outras partes de Historia Natural. Hum Medico ou Cirurgiaõ
que sabe Botanica esta habil para descobrir nas plantas indigenas do
lugar, em que practica, virtudes identicas ou semelhantes às das
exoticas; para fazer hum grande bem aos pobres habitantes das aldeas
(quando nellas practica) mostrando lhes medicamentos frescos e sem
despeza; para poder destinguir o Boticario ignorante do que he instruido
no conhecimento das plantas medicinaes, e decernir (sendo perguntado na
caza do seu enfermo) se o Boticario ou Hervolario, vendeo ou naõ à
verdadeira planta, que elle tinha ordenado; para poder julgar, se huma
planta subministrada por hum Boticario ou qualquer outra pessoa, à qual
se attribue hum homicidio, era ou naõ venenosa; em fim està habilitado
para poder descrever huma planta nova, de que observou as virtudes, e
poder seguramente verificar as que se assignaõ às antigas. Os que
ignoraõ a Botanica, pelo contrario, ficaõ privados de todas estas
vantagens; elles confiaõ nos Boticarios ou Hervolarios, que muitas vezes
saõ pouco instruidos no seu estado, e daõ hum simples por outro, e dahi
resulta huma das razoẽs porque ha tantos enfermos mal tractados, e
tantas falsas observaçoẽs em Medicina.
Todos os corpos compostos, que existem no globo terreste, podem ser reduzidos
a tres grandes classes primarias, a que os Naturalistas chamam os tres
reynos da Natureza, a saber, o reyno mineral, vegetal, e animal. No primeiro consideraõ-se as terras, pedras, e metaes, que se distinguem dos
entes dos outros dois reinos, pela rasaõ de naõ viverem, ou nam terem huma
organizaçaõ e contextura destinada às funçoẽs da vida, segundo o modo com
que fisicamente se entende esta palavra; as pedras e metaes naõ deixaõ sem
embargo disso de ter crescimento. O segundo comprehende os vegetais (vegetabilia) ou entes organizados que
crescem e vivem, sem contudo serem dotados de sensibilidade, nem de potencia
locomotiva. O terceiro contem os animais ou entes que crecem, vivem, sentem, e tem
potencia locomotiva; ainda que nas suas extremas gradaçoẽs (começando no
homem e quadrpedes) se achem alguns que parecem ter a sua sensibilidade e
faculdade [Página 2] locomotiva em hum grande embotamento e inatividade Nota
Muitos Naturalistas achaõ grande difficuldade em declarar com
evidencia onde termina o ser vegetal e começa o animal: eu tractarei
mais extensamente desta materia nos meus Elementos de Botanica.
A sciencia que tracta dos entes destes tres reynos he chamada Historia Natural. Quando so se emprega na consideraçaõ dos mineraes tem o nome de Mineralogia; se so tracta dos vegetaes he chamada Phytologia ou Botanica ( Phytologia, seu Botanica ), mas este segundo nome he o mais usado. Em fim quando somente tracta dos animaes he chamada Zoologia .
A Botanica segundo o diverso modo com que tracta dos vegetaes pode ser dividida em Botanica applicada, physiologica, e pura ou fundamental. A applicada tracta do uso dos vegetaes tanto medicinal como economico, isto he, de todas as utilidades que o homem pode tirar dos vegetaes; donde resulta que todos os tractados de materia medica, de agricultura, das differentes madeiras, das tintas vegetaes, &c. naõ saõ outra coiza mais do que huma Botanica applicada. A Botanica physiologica tracta das funçoẽs vitaes e estructura organica dos entes do reyno vegetal, e para este fim se vale da anatomia, chymica, e physica; a patologia dos vegetaes, ou tractado das suas doenças, ainda que devera ser separada, he comprehendida ordinariamente tanto na Botanica physiologica como na pura, e ainda mesmo nos tractados de agricultura. A Botanica pura ou fundamental tracta do modo de destinguir hum vegetal de todos os mais, por meyo dos seus caracteres, ou sinaes externos, com certeza, facilidade, e brevidade. Ella he [Página 3] a que deve fazer o objecto deste tractado e della dependem as duas precedentes.
Ainda que o meu fim naõ he tractar neste epitome senaõ dos principios relativos á Botanica pura, naõ me parece contudo desacertado dar aqui algumas breves noçoẽs sobre a organizaçaõ ou estructura interna dos vegetaes por facilitar a intelligencia de alguns termos a ella respectivos, que se achaõ nas obras de Linneo e de muitos outros Botanicos.
Os vegetaes tanto pela sua organizaçaõ como pelas suas funçoẽs vitaes tem
huma grande analogia com os entes do reino animal; nascem, perecem,
reproduzem por sementes ou ovos vegetaes a sua mesma especie; continuaõ-na
taõbem por gomos, ramos cortados, e enxertias, circumstancias que se achaõ
igualmente em alguns animaes Nota
Nos polypos.
O corpo dos vegetaes em geral consta de epiderme (epidermis) ou cuticula
exterior apegada á casca (cortex) produççoẽs assaz conhecidas; a ultima
lamina interna da casca, hum tanto mais compacta do que ella, [Página 4] he chamada livrilho ou alburno (liber, alburnum Nota
Alguns Botanicos fazem differença entre estas duas palavras,
relativamente a algumas arvores , dizendo que o alburno medea entre
o lenho e livrilho, e tem huma consistencia diversa de ambos,
constituindo as primeiras camadas concentricas do corpo
ordinariamente chamado lenho.
O systema vascular dos vegetaes he menos conhecido que o dos animaes; a anatomia e observaçoẽs microscopicas tem contudo descoberto quatro sortes de vasos, a saber, os seivosos, proprios, aereos, e os utriculos . Os vasos seivosos (vasa sapacea) chamados taõbem fibras lenhosas e vasos lymphaticos contem a seiva, chamada vulgarmente agoadilha ou chorume (sapa, humor plantarum) que he hum fluido aquoso, sem cor, sem cheiro nem sabor. Ella passa por ser o succo nutritivo dos vegetaes, que se aperfeiçoa nos utriculos e alguns outros vasos delgados; ella se observa bem destinctamente nos ramos das videiras cortados na primavera; estes vasos correm longitudinalmente ao lado das tracheas, saõ fasciculados, cruzaõ-se algumas veses, outras veses desviaõ-se mutuamente, deixando entre si espaços cheyos de utriculos : podem-se observar bem destinctamente nas raizes das caneiras e lirios. Os vasos proprios (vasa propria) saõ taõbem fibras lenhosas e succosas como os precedentes, mas saõ em menos numero, contem Succos mais espessos, còrados, lacteos, vermelhos, amarellos, saborosos, cheirosos, &c. e delles dependem [Página 5] as qualidades proprias de cada vegetal; alguns physiologistas pensaõ que elles saõ analogos ao chilo e sangue dos animaes; elles estaõ dispostos circularmente á roda do axe do tronco, mas achaõ-se em maior numero na casca, e se podem observar nas euphorbias, celidonia, çarthamus lunatus, &c. Os vasos aereos, chamados ordinariamente tracheas (tracheœ) saõ tubos formados de huma lamina elastica, espiral, ou semelhante a hum arame enroscado á roda de hum vime. Achaõ-se em todo o corpo do vegetal, correm ordinariamente parallelas aos vasos seivosos, e parecem ter maior diametro ou calibre do que os outros vasos. Saõ destinados a conter o ar, ou pelo assim dizer, servem á respiraçaõ dos vegetas, e se observaõ rasgando com brandura transversalmente em duas partes as folhas da vide, roseira e escabiosa. Os utriculos (utriculi) chamados taõbem tecido cellular, ou parenchyma, (parenchyma) saõ huma espécie de saccos ovaes, esponjozos, de varia grandeza, situados transversalmente e occupando as malhas ou entrevallos que deixaõ entre si os vasos longitudinaes. Saõ destinados á elaboraçaõ dos succos nutritivos, achaõ-se em maior numero na casca do que no lenho; a medulla contem os maiores e naõ parece ser outra coiza mais do que hum montaõ desta substancia vesicular ou vesiculas membranosas que communicaõ entre si. Podem observar-se no sabugueiro, choupo, carvalho, &c, por meyo de hum microscopio. Os rayos medullares, muitas raizes , frutos, e algumas plantas marinhas parecem ser quasi inteiramente utriculos , segundo as observaçoẽs repetidas vezes feitas por muitos sabios physiologistas. Alem destes vazos ha taõbem nos vegetaes muitos outros [Página 6] destinados a secreçoẽs, e as differentes sortes de glandulas os indicaõ.
Nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem circulaçaõ; o movimento dos seus succos he
chamado propulsaõ (propulsio), o calor, frio ou frescura alternados, ou a
acçaõ do ar ambiente sobre a lamina das tracheas parece ser a causa da
propulsaõ dos succos, ao menos ha grande probabilidade que a sua dilataçaõ e
condensaçaõ ajuda muito o jogo dos vasos. Nestes naõ ha valvulas algumas; o que hoje he raiz em hum
bacelo por ex., se arrancamos e reviramos a planta, dentro de pouco tempo
virá a ser cume, tendo pelo contrario o antigo sido convertido em raiz . Os succos passaõ da raiz ao tronco pelas fibras internas do
lenho, vaõ athe às ultimas ramificaçoẽs vasculares das folhas e descem para a raiz pelos
vasos da casca, de modo que a raiz tira succos do tronco e este
da raiz ; alem disto os ramos tiraõ taobem a sua nutriçaõ pelas folhas , e as raizes pelas radiculas fibrosas ou capillares. As folhas absorbem como a pelle dos
animaes, e em muitas plantas a maior parte da
substancia nutritiva lhes entra pelas folhas ; segundo alguns physiologistas os vegetaes em geral
nutremse de dia pela via das folhas e de noyte pelas raizes , e no inverno
aquellas plantas que nelle perdem inteiramente
as suas folhas so se nutrem pela raiz . O movimento da seiva e dos succos proprios tem lugar em todas as estaçoẽs do
anno, mas no inverno he mais lento. Este movimento como ja indiquei he ascendente e descendente como se prova
pelas enxertias. Se na primavera cortamos hum ramo das videiras ou hervas maleitas, o ramo
separado lança menos succos, e a sua effusaõ cessa e se esgota muito tempo [Página 7] antes que a do ramo ou tronco cortado que communica com a raiz ; isto parece provar alem dos dois movimentos, que ha huma
especie de communicaçaõ da seiva descendente, e ascendente na raiz , mas isso naõ obstante naõ merece o nome de
circulaçaõ, porquanto nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem primeiro motor
intrinseco dos succos, nem valvulas em quaesquer dos seus vazos Nota
Alguns physiologistas, que admittem a circulaçaõ nos vegetaes, dizem
que ella he assaz analoga á circulaçaõ que existe nos polypos.
As tracheas achaõ-se em grande numero nas folhas , ás quaes por isso mesmo alguns Botanicos chamaraõ bofes dos vegetaes. Os orificios destes vazos aindaque se reconheçaõ em ambas as duas faces das folhas , numa dellas sempre saõ em menor numero do que na outra. A observaçaõ tem mostrado que a substancia aeriforme, que dellas exhala durante a noyte, he muito nociva, ao mesmo tempo que de dia exhalaõ outra, com que se purifica a atmosphera: nellas parece residir a irritabilidade da sensitiva, e de outros vegetaes, cujas folhas e flores se contrahem por estimulos externos.
Nas enxertias quaesquer que sejaõ, tanto de garfo como de escudo, flauta, entalhe, &c. os succos passaõ do enxerto ao enxertado, e do enxertado ao enxerto alternativamente em rasaõ da anastomose, ou reuniaõ dos vazos de hum e outro. Esta reuniaõ he [Página 8] tanto mais duravel quanto mais perfeita; a sua perfeiçaõ consiste na grande analogia do garfo com o tronco enxertado, ou na grande affinidade de organizaçaõ e dos succos. O garfo deve vir a ser hum tronco do enxertado, e porisso quanto maior for a dicta affinidade tanto mais depressa, e firmemente se encorporará com elle, e tanto mais tempo viverá.
Os vegetaes, assim como os animaes, tendem todos naturalmente a reproduzir-se.
Toda a sua vegetaçaõ se dirige a este fim, chamado ordinariamente fructificaçaõ,
que tem principio nas flores e acaba no fructo. O grande numero de vegetaes
relativamente á sua fructificaçaõ he reduzido a duas grandes classes, a saber, a
plantas perfeitas, e plantas imperfeitas, (plantae perfectae aut imperfectae.)
As perfeitas saõ aquellas em cujas flores se observaõ estames, ou pistillos, ou
ambos estes dois organos; as imperfeitas saõ aquellas que rigorosamente fallando
naõ tem estes organos, ou se os tem naõ saõ bem apparentes á vista nuã, de sorte
que a sua fructificaçaõ tem lugar por hum modo differente do das plantas
perfeitas; saõ as que Linneo classou na sua Cryptogamia, e as que os
physiologistas chamaõ plantas microscopicas. No tempo da florecencia das plantas
perfeitas, as observãçoẽs dos modernos descobriraõ em suas flores hum coito
summamente analogo ao dos animaes, e reconheceraõ que nellas haviaõ genitaes de
dois sexos, envoltos em certos tegumentos, a que daõ ordinariamente o nome de
calyz ou corolla segundo as circumstancias. Os genitaes masculinos saõ chamados
estames, e os femininos pistillo, o qual se acha ordinariamente no centro da
flor, como se observa bem destinctamente [Página 9] em huma açucena. Cada estame he composto de duas partes inferior e
superior, a primeira tem o nome de filete, e a segunda ou superior que
termina o filete he chamada anthéra . O pistillo consta, em hum grande numero de flores, de tres partes, a saber,
germe, estylete, e estigma; o germe he a parte inferior do pistillo, ou o
fructo recêm nascido e nelle se achaõ ja as sementes Nota
Vej. no §.
Sementes a nota quarta (d).Nota
Elle constitue a cera
bruta, que as abelhas tiraõ das flores.Nota
Adanson naõ quer que
seja o po seminal dos globulos o que entra no estylete, mas sim hum
espirito volatil, envolto nelle (bem comparavel á materia electrica que
se acha envolta nos corpos electricos) e proprio para penetrar pelas
tracheas do estylete. Com effeito he raro ver estyletes que sejaõ
tubulosos, e a Anatomia naõ tem mostrado athe agora nos estyletes, e
germes cortados na florecencia, o menor indicio do po dos globulos. Eu
fallarei mais extensamente nesta materia nos meus Elementos de
Botanica.
Nas plantas imperfeitas naõ se conhecem a olhos nûs os organos sexuaes; o microscopio os tem feito descobrir em algumas, mas ha outras em que nenhum observador ainda mesmo com este instrumento os tem podido devisar athe agora, nem me parece que existaõ. He certo contudo que todas daõ sementes; os cogumelos, e o bolor podem, segundo a experiencia, ser semeados como as plantas perfeitas; quanto aos fetos e musgos as sementes saõ ainda mais bem conhecidas, e senaõ podem negar ainda mesmo aos limos, fucos, e outros generos de Algas, se bem que pareçaõ ser de huma forma exquisita em algumas especies.
Taes saõ em summa as principaes noções relativas á physiologia dos vegetaes. A
Botanica pura tractando, como disse, do modo de destinguir com certeza os
vegetaes huns dos outros, he o fundamento de todos os tractados de plantas de
qualquer sorte que sejaõ considerados. Ella se serve para este fim dos sinaes
caracteristicos que se achaõ em cada individuo do [Página 11] reyno vegetal, ajuntando, semelhantes com semelhantes, e separando os
dessemelhantes. Desta reuniaõ de plantas ou especies conformes em caracteres
resultaõ os generos infimos, que reunidos de novo, do modo que depois
exporei em seu lugar Nota
Vej. A Quarta Parte deste Compendio.
Os systemas saõ com justo motivo considerados, como hum fio de Ariadnes no
immenso labyrintho vegetal; elles saõ hum grande soccorro da memoria, conduzem
ao conhecimento do nome da planta, e nos mostraõ se ella tem ou naõ sido
conhecida dos Botanicos que nos tem precedido. Os sinaes caracteristicos, que se
achaõ nas especies do reyno vegetal, saõ os meyos de que nelles se vale a
Botanica, como disse, para nos encaminhar a este conhecimento. Todos estes
sinaes saõ exprimidos por termos technicos, que reunidos formaõ o idioma
Botanico, cuja exposiçaõ he o principal objecto deste tractado. Antes de
Linneo os termos facultativos de Botanica, naõ tinhaõ huma accepçaõ taõ
determinada como hoje tem, elle a fixou em hum grande numero; e se bem que
alguns delles parecem ter ainda huma significaçaõ vaga e ambigua Nota
Eu
demonstrarei em outro tractado estas ambiguidades, e proporei as
definiçoẽs com que semelhantes termos se podem fixar.
Todos os corpos compostos, que existem no globo terreste, podem ser reduzidos
a tres grandes classes primarias, a que os Naturalistas chamam os tres
reynos da Natureza, a saber, o reyno mineral, vegetal, e animal. No primeiro consideraõ-se as terras, pedras, e metaes, que se distinguem dos
entes dos outros dois reinos, pela rasaõ de naõ viverem, ou nam terem huma
organizaçaõ e contextura destinada às funçoẽs da vida, segundo o modo com
que fisicamente se entende esta palavra; as pedras e metaes naõ deixaõ sem
embargo disso de ter crescimento. O segundo comprehende os vegetais (vegetabilia) ou entes organizados que
crescem e vivem, sem contudo serem dotados de sensibilidade, nem de potencia
locomotiva. O terceiro contem os animais ou entes que crecem, vivem, sentem, e tem
potencia locomotiva; ainda que nas suas extremas gradaçoẽs (começando no
homem e quadrpedes) se achem alguns que parecem ter a sua sensibilidade e
faculdade [Página 2] locomotiva em hum grande embotamento e inatividade Nota
Muitos Naturalistas achaõ grande difficuldade em declarar com
evidencia onde termina o ser vegetal e começa o animal: eu tractarei
mais extensamente desta materia nos meus Elementos de Botanica.
A sciencia que tracta dos entes destes tres reynos he chamada Historia Natural. Quando so se emprega na consideraçaõ dos mineraes tem o nome de Mineralogia; se so tracta dos vegetaes he chamada Phytologia ou Botanica ( Phytologia, seu Botanica ), mas este segundo nome he o mais usado. Em fim quando somente tracta dos animaes he chamada Zoologia .
A sciencia que tracta dos entes destes tres reynos he chamada Historia Natural.Quando so se emprega na consideraçaõ dos mineraes tem o nome de Mineralogia; se so tracta dos vegetaes he chamada Phytologia ou Botanica ( Phytologia, seu Botanica ), mas este segundo nome he o mais usado.PhytologiaBotanicaPhytologia, seu BotanicaEm fim quando somente tracta dos animaes he chamada Zoologia .ZoologiaA Botanica segundo o diverso modo com que tracta dos vegetaes pode ser dividida em Botanica applicada, physiologica, e pura ou fundamental. A applicada tracta do uso dos vegetaes tanto medicinal como economico, isto he, de todas as utilidades que o homem pode tirar dos vegetaes; donde resulta que todos os tractados de materia medica, de agricultura, das differentes madeiras, das tintas vegetaes, &c. naõ saõ outra coiza mais do que huma Botanica applicada. A Botanica physiologica tracta das funçoẽs vitaes e estructura organica dos entes do reyno vegetal, e para este fim se vale da anatomia, chymica, e physica; a patologia dos vegetaes, ou tractado das suas doenças, ainda que devera ser separada, he comprehendida ordinariamente tanto na Botanica physiologica como na pura, e ainda mesmo nos tractados de agricultura. A Botanica pura ou fundamental tracta do modo de destinguir hum vegetal de todos os mais, por meyo dos seus caracteres, ou sinaes externos, com certeza, facilidade, e brevidade. Ella he [Página 3] a que deve fazer o objecto deste tractado e della dependem as duas precedentes.
A Botanica segundo o diverso modo com que tracta dos vegetaes pode ser dividida em Botanica applicada, physiologica, e pura ou fundamental.A applicada tracta do uso dos vegetaes tanto medicinal como economico, isto he, de todas as utilidades que o homem pode tirar dos vegetaes; donde resulta que todos os tractados de materia medica, de agricultura, das differentes madeiras, das tintas vegetaes, &c. naõ saõ outra coiza mais do que huma Botanica applicada.A Botanica physiologica tracta das funçoẽs vitaes e estructura organica dos entes do reyno vegetal, e para este fim se vale da anatomia, chymica, e physica; a patologia dos vegetaes, ou tractado das suas doenças, ainda que devera ser separada, he comprehendida ordinariamente tanto na Botanica physiologica como na pura, e ainda mesmo nos tractados de agricultura.A Botanica pura ou fundamental tracta do modo de destinguir hum vegetal de todos os mais, por meyo dos seus caracteres, ou sinaes externos, com certeza, facilidade, e brevidade.Ella he [Página 3] a que deve fazer o objecto deste tractado e della dependem as duas precedentes.[Página 3]Ainda que o meu fim naõ he tractar neste epitome senaõ dos principios relativos á Botanica pura, naõ me parece contudo desacertado dar aqui algumas breves noçoẽs sobre a organizaçaõ ou estructura interna dos vegetaes por facilitar a intelligencia de alguns termos a ella respectivos, que se achaõ nas obras de Linneo e de muitos outros Botanicos.
Ainda que o meu fim naõ he tractar neste epitome senaõ dos principios relativos á Botanica pura, naõ me parece contudo desacertado dar aqui algumas breves noçoẽs sobre a organizaçaõ ou estructura interna dos vegetaes por facilitar a intelligencia de alguns termos a ella respectivos, que se achaõ nas obras de Linneo e de muitos outros Botanicos. Os vegetaes tanto pela sua organizaçaõ como pelas suas funçoẽs vitaes tem
huma grande analogia com os entes do reino animal; nascem, perecem,
reproduzem por sementes ou ovos vegetaes a sua mesma especie; continuaõ-na
taõbem por gomos, ramos cortados, e enxertias, circumstancias que se achaõ
igualmente em alguns animaes Nota
Nos polypos.
O corpo dos vegetaes em geral consta de epiderme (epidermis) ou cuticula
exterior apegada á casca (cortex) produççoẽs assaz conhecidas; a ultima
lamina interna da casca, hum tanto mais compacta do que ella, [Página 4] he chamada livrilho ou alburno (liber, alburnum Nota
Alguns Botanicos fazem differença entre estas duas palavras,
relativamente a algumas arvores , dizendo que o alburno medea entre
o lenho e livrilho, e tem huma consistencia diversa de ambos,
constituindo as primeiras camadas concentricas do corpo
ordinariamente chamado lenho.
O systema vascular dos vegetaes he menos conhecido que o dos animaes; a anatomia e observaçoẽs microscopicas tem contudo descoberto quatro sortes de vasos, a saber, os seivosos, proprios, aereos, e os utriculos . Os vasos seivosos (vasa sapacea) chamados taõbem fibras lenhosas e vasos lymphaticos contem a seiva, chamada vulgarmente agoadilha ou chorume (sapa, humor plantarum) que he hum fluido aquoso, sem cor, sem cheiro nem sabor. Ella passa por ser o succo nutritivo dos vegetaes, que se aperfeiçoa nos utriculos e alguns outros vasos delgados; ella se observa bem destinctamente nos ramos das videiras cortados na primavera; estes vasos correm longitudinalmente ao lado das tracheas, saõ fasciculados, cruzaõ-se algumas veses, outras veses desviaõ-se mutuamente, deixando entre si espaços cheyos de utriculos : podem-se observar bem destinctamente nas raizes das caneiras e lirios. Os vasos proprios (vasa propria) saõ taõbem fibras lenhosas e succosas como os precedentes, mas saõ em menos numero, contem Succos mais espessos, còrados, lacteos, vermelhos, amarellos, saborosos, cheirosos, &c. e delles dependem [Página 5] as qualidades proprias de cada vegetal; alguns physiologistas pensaõ que elles saõ analogos ao chilo e sangue dos animaes; elles estaõ dispostos circularmente á roda do axe do tronco, mas achaõ-se em maior numero na casca, e se podem observar nas euphorbias, celidonia, çarthamus lunatus, &c. Os vasos aereos, chamados ordinariamente tracheas (tracheœ) saõ tubos formados de huma lamina elastica, espiral, ou semelhante a hum arame enroscado á roda de hum vime. Achaõ-se em todo o corpo do vegetal, correm ordinariamente parallelas aos vasos seivosos, e parecem ter maior diametro ou calibre do que os outros vasos. Saõ destinados a conter o ar, ou pelo assim dizer, servem á respiraçaõ dos vegetas, e se observaõ rasgando com brandura transversalmente em duas partes as folhas da vide, roseira e escabiosa. Os utriculos (utriculi) chamados taõbem tecido cellular, ou parenchyma, (parenchyma) saõ huma espécie de saccos ovaes, esponjozos, de varia grandeza, situados transversalmente e occupando as malhas ou entrevallos que deixaõ entre si os vasos longitudinaes. Saõ destinados á elaboraçaõ dos succos nutritivos, achaõ-se em maior numero na casca do que no lenho; a medulla contem os maiores e naõ parece ser outra coiza mais do que hum montaõ desta substancia vesicular ou vesiculas membranosas que communicaõ entre si. Podem observar-se no sabugueiro, choupo, carvalho, &c, por meyo de hum microscopio. Os rayos medullares, muitas raizes , frutos, e algumas plantas marinhas parecem ser quasi inteiramente utriculos , segundo as observaçoẽs repetidas vezes feitas por muitos sabios physiologistas. Alem destes vazos ha taõbem nos vegetaes muitos outros [Página 6] destinados a secreçoẽs, e as differentes sortes de glandulas os indicaõ.
O systema vascular dos vegetaes he menos conhecido que o dos animaes; a anatomia e observaçoẽs microscopicas tem contudo descoberto quatro sortes de vasos, a saber, os seivosos, proprios, aereos, e os utriculos .utriculosOs vasos seivosos (vasa sapacea) chamados taõbem fibras lenhosas e vasos lymphaticos contem a seiva, chamada vulgarmente agoadilha ou chorume (sapa, humor plantarum) que he hum fluido aquoso, sem cor, sem cheiro nem sabor.Ella passa por ser o succo nutritivo dos vegetaes, que se aperfeiçoa nos utriculos e alguns outros vasos delgados; ella se observa bem destinctamente nos ramos das videiras cortados na primavera; estes vasos correm longitudinalmente ao lado das tracheas, saõ fasciculados, cruzaõ-se algumas veses, outras veses desviaõ-se mutuamente, deixando entre si espaços cheyos de utriculos : podem-se observar bem destinctamente nas raizes das caneiras e lirios.utriculosutriculosraizes[Página 5]Saõ destinados a conter o ar, ou pelo assim dizer, servem á respiraçaõ dos vegetas, e se observaõ rasgando com brandura transversalmente em duas partes as folhas da vide, roseira e escabiosa.folhasOs utriculos (utriculi) chamados taõbem tecido cellular, ou parenchyma, (parenchyma) saõ huma espécie de saccos ovaes, esponjozos, de varia grandeza, situados transversalmente e occupando as malhas ou entrevallos que deixaõ entre si os vasos longitudinaes.utriculosSaõ destinados á elaboraçaõ dos succos nutritivos, achaõ-se em maior numero na casca do que no lenho; a medulla contem os maiores e naõ parece ser outra coiza mais do que hum montaõ desta substancia vesicular ou vesiculas membranosas que communicaõ entre si.membranosasOs rayos medullares, muitas raizes , frutos, e algumas plantas marinhas parecem ser quasi inteiramente utriculos , segundo as observaçoẽs repetidas vezes feitas por muitos sabios physiologistas.raizesplantasutriculos[Página 6] Nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem circulaçaõ; o movimento dos seus succos he
chamado propulsaõ (propulsio), o calor, frio ou frescura alternados, ou a
acçaõ do ar ambiente sobre a lamina das tracheas parece ser a causa da
propulsaõ dos succos, ao menos ha grande probabilidade que a sua dilataçaõ e
condensaçaõ ajuda muito o jogo dos vasos. Nestes naõ ha valvulas algumas; o que hoje he raiz em hum
bacelo por ex., se arrancamos e reviramos a planta, dentro de pouco tempo
virá a ser cume, tendo pelo contrario o antigo sido convertido em raiz . Os succos passaõ da raiz ao tronco pelas fibras internas do
lenho, vaõ athe às ultimas ramificaçoẽs vasculares das folhas e descem para a raiz pelos
vasos da casca, de modo que a raiz tira succos do tronco e este
da raiz ; alem disto os ramos tiraõ taobem a sua nutriçaõ pelas folhas , e as raizes pelas radiculas fibrosas ou capillares. As folhas absorbem como a pelle dos
animaes, e em muitas plantas a maior parte da
substancia nutritiva lhes entra pelas folhas ; segundo alguns physiologistas os vegetaes em geral
nutremse de dia pela via das folhas e de noyte pelas raizes , e no inverno
aquellas plantas que nelle perdem inteiramente
as suas folhas so se nutrem pela raiz . O movimento da seiva e dos succos proprios tem lugar em todas as estaçoẽs do
anno, mas no inverno he mais lento. Este movimento como ja indiquei he ascendente e descendente como se prova
pelas enxertias. Se na primavera cortamos hum ramo das videiras ou hervas maleitas, o ramo
separado lança menos succos, e a sua effusaõ cessa e se esgota muito tempo [Página 7] antes que a do ramo ou tronco cortado que communica com a raiz ; isto parece provar alem dos dois movimentos, que ha huma
especie de communicaçaõ da seiva descendente, e ascendente na raiz , mas isso naõ obstante naõ merece o nome de
circulaçaõ, porquanto nos vegetaes naõ ha coraçaõ nem primeiro motor
intrinseco dos succos, nem valvulas em quaesquer dos seus vazos Nota
Alguns physiologistas, que admittem a circulaçaõ nos vegetaes, dizem
que ella he assaz analoga á circulaçaõ que existe nos polypos.
As tracheas achaõ-se em grande numero nas folhas , ás quaes por isso mesmo alguns Botanicos chamaraõ bofes dos vegetaes. Os orificios destes vazos aindaque se reconheçaõ em ambas as duas faces das folhas , numa dellas sempre saõ em menor numero do que na outra. A observaçaõ tem mostrado que a substancia aeriforme, que dellas exhala durante a noyte, he muito nociva, ao mesmo tempo que de dia exhalaõ outra, com que se purifica a atmosphera: nellas parece residir a irritabilidade da sensitiva, e de outros vegetaes, cujas folhas e flores se contrahem por estimulos externos.
As tracheas achaõ-se em grande numero nas folhas , ás quaes por isso mesmo alguns Botanicos chamaraõ bofes dos vegetaes.folhasOs orificios destes vazos aindaque se reconheçaõ em ambas as duas faces das folhas , numa dellas sempre saõ em menor numero do que na outra.folhasA observaçaõ tem mostrado que a substancia aeriforme, que dellas exhala durante a noyte, he muito nociva, ao mesmo tempo que de dia exhalaõ outra, com que se purifica a atmosphera: nellas parece residir a irritabilidade da sensitiva, e de outros vegetaes, cujas folhas e flores se contrahem por estimulos externos.folhasNas enxertias quaesquer que sejaõ, tanto de garfo como de escudo, flauta, entalhe, &c. os succos passaõ do enxerto ao enxertado, e do enxertado ao enxerto alternativamente em rasaõ da anastomose, ou reuniaõ dos vazos de hum e outro. Esta reuniaõ he [Página 8] tanto mais duravel quanto mais perfeita; a sua perfeiçaõ consiste na grande analogia do garfo com o tronco enxertado, ou na grande affinidade de organizaçaõ e dos succos. O garfo deve vir a ser hum tronco do enxertado, e porisso quanto maior for a dicta affinidade tanto mais depressa, e firmemente se encorporará com elle, e tanto mais tempo viverá.
[Página 8]Os vegetaes, assim como os animaes, tendem todos naturalmente a reproduzir-se.
Toda a sua vegetaçaõ se dirige a este fim, chamado ordinariamente fructificaçaõ,
que tem principio nas flores e acaba no fructo. O grande numero de vegetaes
relativamente á sua fructificaçaõ he reduzido a duas grandes classes, a saber, a
plantas perfeitas, e plantas imperfeitas, (plantae perfectae aut imperfectae.)
As perfeitas saõ aquellas em cujas flores se observaõ estames, ou pistillos, ou
ambos estes dois organos; as imperfeitas saõ aquellas que rigorosamente fallando
naõ tem estes organos, ou se os tem naõ saõ bem apparentes á vista nuã, de sorte
que a sua fructificaçaõ tem lugar por hum modo differente do das plantas
perfeitas; saõ as que Linneo classou na sua Cryptogamia, e as que os
physiologistas chamaõ plantas microscopicas. No tempo da florecencia das plantas
perfeitas, as observãçoẽs dos modernos descobriraõ em suas flores hum coito
summamente analogo ao dos animaes, e reconheceraõ que nellas haviaõ genitaes de
dois sexos, envoltos em certos tegumentos, a que daõ ordinariamente o nome de
calyz ou corolla segundo as circumstancias. Os genitaes masculinos saõ chamados
estames, e os femininos pistillo, o qual se acha ordinariamente no centro da
flor, como se observa bem destinctamente [Página 9] em huma açucena. Cada estame he composto de duas partes inferior e
superior, a primeira tem o nome de filete, e a segunda ou superior que
termina o filete he chamada anthéra . O pistillo consta, em hum grande numero de flores, de tres partes, a saber,
germe, estylete, e estigma; o germe he a parte inferior do pistillo, ou o
fructo recêm nascido e nelle se achaõ ja as sementes Nota
Vej. no §.
Sementes a nota quarta (d).Nota
Elle constitue a cera
bruta, que as abelhas tiraõ das flores.Nota
Adanson naõ quer que
seja o po seminal dos globulos o que entra no estylete, mas sim hum
espirito volatil, envolto nelle (bem comparavel á materia electrica que
se acha envolta nos corpos electricos) e proprio para penetrar pelas
tracheas do estylete. Com effeito he raro ver estyletes que sejaõ
tubulosos, e a Anatomia naõ tem mostrado athe agora nos estyletes, e
germes cortados na florecencia, o menor indicio do po dos globulos. Eu
fallarei mais extensamente nesta materia nos meus Elementos de
Botanica.
Nas plantas imperfeitas naõ se conhecem a olhos nûs os organos sexuaes; o microscopio os tem feito descobrir em algumas, mas ha outras em que nenhum observador ainda mesmo com este instrumento os tem podido devisar athe agora, nem me parece que existaõ. He certo contudo que todas daõ sementes; os cogumelos, e o bolor podem, segundo a experiencia, ser semeados como as plantas perfeitas; quanto aos fetos e musgos as sementes saõ ainda mais bem conhecidas, e senaõ podem negar ainda mesmo aos limos, fucos, e outros generos de Algas, se bem que pareçaõ ser de huma forma exquisita em algumas especies.
Taes saõ em summa as principaes noções relativas á physiologia dos vegetaes. A
Botanica pura tractando, como disse, do modo de destinguir com certeza os
vegetaes huns dos outros, he o fundamento de todos os tractados de plantas de
qualquer sorte que sejaõ considerados. Ella se serve para este fim dos sinaes
caracteristicos que se achaõ em cada individuo do [Página 11] reyno vegetal, ajuntando, semelhantes com semelhantes, e separando os
dessemelhantes. Desta reuniaõ de plantas ou especies conformes em caracteres
resultaõ os generos infimos, que reunidos de novo, do modo que depois
exporei em seu lugar Nota
Vej. A Quarta Parte deste Compendio.
Os systemas saõ com justo motivo considerados, como hum fio de Ariadnes no
immenso labyrintho vegetal; elles saõ hum grande soccorro da memoria, conduzem
ao conhecimento do nome da planta, e nos mostraõ se ella tem ou naõ sido
conhecida dos Botanicos que nos tem precedido. Os sinaes caracteristicos, que se
achaõ nas especies do reyno vegetal, saõ os meyos de que nelles se vale a
Botanica, como disse, para nos encaminhar a este conhecimento. Todos estes
sinaes saõ exprimidos por termos technicos, que reunidos formaõ o idioma
Botanico, cuja exposiçaõ he o principal objecto deste tractado. Antes de
Linneo os termos facultativos de Botanica, naõ tinhaõ huma accepçaõ taõ
determinada como hoje tem, elle a fixou em hum grande numero; e se bem que
alguns delles parecem ter ainda huma significaçaõ vaga e ambigua Nota
Eu
demonstrarei em outro tractado estas ambiguidades, e proporei as
definiçoẽs com que semelhantes termos se podem fixar.
A raiz he hum organo nutritivo apegado a terra Nota
As lentilhas d'agoa (lemna) naõ costumaõ estar apegadas a terra;
saõ fluctuantes, e as suas raizes encravadas n'agoa mudaõ a cada instante de
lugar. Em hum grande numero de algas naõ se sabe o que deve ter o nome
de raiz , nem pela forma nem pela estructura
interna, e semelhantes plantas tiraõ igual nutriçaõ por toda a
sua superficie. Algumas plantas parasitas (plantae parasiticae), taes como a
cuscuta, viscum, &c. naõ saõ apegadas a terra, ellas estaõ
aferradas a outros vegetaes, delles tiraõ a sua nutriçaõ, e ás
vezes os fazem morrer de marasmo. Em fim ha plantas que passaõ por ser destituidas inteiramente de raiz , sem embargo de estarem todas cobertas de
terra como a maçan de porco: a lemna arhira, que esta encostada
ao lume d'agoa, taõbem naõ tem raiz alguma. Nota
Nas raizes lenhosas ha
alburno da mesma sorte que no tronco, mas nas plantas herbaceas
annuaes, em que naõ ha aros concentricos, naõ se devisa alburno
algum, e o nome de lenho naõ me parece proprio das raizes que se corrompem
annualmente, em algumas o denominado lenho he verdadeiramente
huma substancia medullar.
As raizes em geral constaõ de
cuticula, casca, lenho, e medulla. Ordinariamente humas saõ mais
delgadas do que o tronco, outras saõ consideravelmente mais grossas. Humas e
outras podem ser consideradas, ou como simplices ou como compostas. Toda
a raiz simples (simplex), he indivisa e naõ lança
ramificaçoẽs algumas nos lados do seu troço; pelo contrario a composta
(composita) lança muitos ramos ao longo do seu troço: para disto se
poder formar clara idea, he precizo reconhecer no commum das plantas
duas sortes de troços continuados hum com outro, a saber, o troço
descendente e ascendente. O troço descendente das plantas (caudex descendens), em huma accepçaõ
extensa he qualquer raiz ; em hum sentido estricto, he a
parte mais grossa [Página 14] da raiz , a que alguns chamaõ taõbem o troço materno, do
qual nascem lateralmente ramos, que lançaõ varias radiculas Nota
Fibrillae, radiculae, taõbem se dá o nome de radicula á parte
inferior da plantula seminal, ou corculo quando começa a
germinar.
1º. A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:
Horizontal (horizontalis), quando se estende transversalmente ou corre quasi parallela com a superficie da terra (como a dos lirios e escalracho.)
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.
Perpendicular ou aprumada (perpendicularis), quando se encrava a prumo pela terra abaxo (a cenoira, e rabaõ.)
Obliqua (obliqua, inclinata), quando tem huma direcçaõ esguelhada, ou se encrava obliquamente ao horizonte ou superficie da terra (o cravo romano.)
[Página 15]2º. Quanto á sua divisaõ, e forma diz-se:
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.
Fibrosa (fibrosa, fibrata), quando consta somente de radiculas delgadas, e se diz capillar (capillacea, capillata, schirrata, comosa), se as radiculas saõ finissimas e bastas, como nas lentilhas d'agoa e alguns gramineos; filiforme (filamentosa, filiformis), se as dictas radiculas saõ como fios hum tanto grossos, como as da violetta e quejadilho. Alguns lhes daõ o nome de retiformes (retiformes), se ellas se enredaõ a maneira de rede.
Fusiforme (fusiformis), se he polposa, perpendicular, oblonga, adelgaçando pouco a pouco para a sua extremidade inferior, de modo que se assemelha a hum fuso (a cenoira e rabaõ). Turbinada (turbinata) quando he conica verticalmente, ou se assemelha a hum piaõ bailando (como alguns nabos).
Globosa (globosa), quando tem huma forma quasi espherica (ranunculus bulbosus). Pode ser tanto bolbosa como tuberosa.
Troncada (truncata, praemorsa), quando he simplez, e naõ termina em ponta, mas antes parece como retraçada ou cortada transversalmente (scabiosa succisa.)
Fasciculada (fascicularis, fasciculata), quando consta de partes carnudas, bolbosas, ou tuberosas approximadas, e adunadas na extremidade superior [Página 16] junto da base do tronco (orchis abortiva, ranunculus ficaria, paeonia). Alguns lhe chamaõ taõbem grumosa (grumosa), como sendo disposta por grumos quer sejaõ rentes quer dependurados, como nos ranunculos, anemones, e abrotea.
Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia). Todas estas raizes saõ bolbos bastardos.
Articulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata). Nodosa (nodosa), quando he carnuda e tem varias protuberancias (scrophularia nodosa). Alguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.
Escamosa (squamosa), quando he guarnecida de tunicas ou producções
escamosas quer estas sejaõ obtusas quer pontudas, ou imbricadas, ou
distantes, ou finas e membranosas , ou cascos da consistencia da raiz , e hum tanto succulentos (dentaria pentaphyllos). Nota
A raiz denteada (dentata), que se diz ordinariamente
ter producçoẽs pontudas, direitas, curtas, da consistencia da raiz , laxas e distantes, he huma verdadeira raiz escamosa, e a Oxalis acetosella que se dà
por exemplo, o demostra evidentemente: assim como as escamas
pontudas dos caules senaõ chamaõ dentes, do mesmo modo devem ser
as das raizes , e este he
o meyo de evitar termos desnecessarios.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata). Estes graõs saõ pequenos bolbos bastardos.
Entre as raizes herbaceas
ordinariamente mais grossas do que o tronco ha humas a que se deo o nome
de tuberosas, e a outras o de bolbosas. A raiz tuberosa (tuberosa) he a que consta de huma ou mais
tuberas (tubera); as tuberas saõ corpos carnudos, farinhosos, de varia
figura Nota
Ordinariamente saõ hum tanto globosas.
A raiz bolbosa (bulbosa) he a que Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao
lado dos antigos. Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ
dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum
tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos,
patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos,
aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto
fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so
merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da
natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos
nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de
muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas
bolbosas. Nota
Vej. as palayras bulbus e bulbosus no nosso Diccion. Nota
Nota
O termo caput significa taõbem nos escritos de alguns Botanicos a
cabeça ou golla da raiz , que he a parte extrema
superior que se acha hum pouco fora da terra, donde nascem as folhas radicaes, e
comeca o tronco; esta golla he assaz bem distincta no rabaõ, e
algumas outras raizes ;
porem em hum grande numero dellas naõ se distingue golla alguma,
e o ponto de separaçaõ entre o tronco e a raiz he
muito arbitrario.
3º. Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:
Annual (annua), quando perece com o seu tronco annualmente, devendo-se tanto ella como a sua especie propagar por meyo de sementes, tal he a do trigo, feijoeiro, &c. Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎. Biennal (biennis) quando vegeta no primeiro anno, no segundo o seu tronco fructifica, e ambos nelle [Página 20] perecem (tragopogon), ella he indicada com o sinal ♂. Vivace ou perennal (perennis), quando dura viva na terra mais de dois annos, lançando ou brotando de seus gomos troncos novos, como he a da hera terreste, a da violetta, &c.: he indicada pelo sinal ♃. Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .
O tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.
Os antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.
Em hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla. Quando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.
As especies de tronco saõ: caule, hastea, colmo, espique, e surculo Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os
peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ
para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ
flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus),
e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a
que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos
radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das
hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco;
so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou
especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser
inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda,
se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como
senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do
Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que
tem com o espique do bolor (mucor mucedo). Nota
O caule (caulis) he huma especie de tronco ordinariamente guarnecido de folhas Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo
postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas
nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da
definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de
Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta. Nota
A hastea (scapus) he huma especie de tronco herbaceo ou levantado ou
obliquo, e inteiramente [Página 22] desguarnecido de folhas Nota
A hastea pode terminar em huma ou muitas flores, em espigas,
racimos e paniculas, e por conseguinte ser ramosa. Lê-se nalgumas descripçoẽs de plantas herbaceas e levantadas:
caule sem folhas , ou nu
de folhas (caulis
aphyllus, s. nudus) hastea bifolia, hastea folhosa; mas estes
termos saõ ambiguos e improprios, porque no primeiro cazo o
tronco he huma hastea, e no segundo he hum caule. Pela mesma razaõ me parece taõbem ser desnecessario dizer: hastea
sem folhas (scapus
aphyllus). Ha plantas que podem ter duas sortes de troncos, isto he, caule e
hastea como a pilosella e morangueiro. Algumas especies de Osmunda tem hastea e espique ao mesmo tempo,
segundo alguns autores, mas como neste cazo a folha naõ fructifica, parece que se deve conservar o nome de peciolo
ao seu pé, dar o nome de hasteas aos pedunculos radicaes, e
chamar simplesmente pedunculos aos que nascem do espique muito
acima da superficie da terra.
O colmo (culmus) he huma especie de tronco proprio dos gramineos, e
plantas analogas a elles, como he o do trigo, caneira, junco, &c. em
humas plantas he occo, em outras esponjoso, ou geniculado ou sem nos,
com folhas ou sem ellas,
ramoso, ou simplicissimo, herbaceo ou arbustivo; em huma palavra, he
huma hastea ou caule a que os Botanicos quizeraõ dar o nome de colmo por
ser hum tronco dos grames, e plantas que lhes saõ naturalmente analogas Nota
Donde resulta que para naõ errarmos nas descripçoẽs que fizermos,
dando o nome de caule ou hastea a huma planta que tem colmo, he
precizo termos ideas claras dos caracteres principaes que
constituem a familia natural dos gramineos; ainda que naõ he
este o proprio lugar de fallar nesta materia, direi contudo de
passagem que os principaes caractéres desta familia consistem
nas folhas planas,
lineares, pontudas, flexiveis, em forma de fitta, compostas de
fibras parallelas, e ordinariamente envaginantes; os tegumentos
dos organos sexuaes, chamados casulos, saõ certas escamas
paleaceas denominadas valvulas, o calyx tem duas ordinariamente,
e raras vezes huma, tres ou mais; a corolla tem ordinariamente
duas valvulas, das quas a interior he menor, e raras vezes tem
huma so; o fructo he huma semente sem pericarpo
(excepto o esparto, segundo Linneo), e a sua substancia he
farinhosa.
O espique (stipes) he huma especie de tronco proprio dos fetos e fungos;
nos primeiros he semelhante a hum peciolo, e nos segundos a hum
pedunculo radical ou hastea Nota
Linneo da taõbem o nome de espique aos peciolos das folhas das palmeiras, mas
como ellos naõ elevaõ de modo algum a fructificaçaõ destes
vegetaes, alguns modernos naõ admittem nellas esta especie de
tronco, e conservaraõ o nome de peciolo aos seus pés, dando o
nome de caule simplez ao troço, que se eleva sobre a terra,
terminado no cume por folhas e fructificaçaõ em espadice.
O surculo (surculus) he huma especie de tronco proprio dos musgos, o seu troço he filiforme, guarnecido sempre de foliolos, ou de escamas persistentes e de varia forma; ás vezes he simplez, outras vezes ramoso, ora he reptante ou estirado ora levantado. Ha algumas especies de jungermannia, nas quaes o tronço he hum surculo, e nisto saõ verdadeiramente analogas aos musgos.
Toda a planta que tem tronco he denominada entronquecida (caulescens), e destronquecida (acaulis) senaõ tem tronco algum (carlina acaulis). Muitas [Página 24] vezes se da taõbem este ultimo nome às que tem hum tronco curtissimo, e quasi cozido com a terra
1º. O tronco em geral pode ser considerado segundo differentes relaçoẽs; quanto à sua duraçaõ e substancia diz-se ser:
Herbaceo (herbaceus), se naõ he lenhoso e perece annualmente (a chicoria, e o ranunculo).
Subarbusteo (suffruticosus), quando os seus ramos annualmente se seccaõ, e naõ tem gomos alguns athe a base, ou so a sua parte inferior junto della persiste viva, donde brota na primavera (a dulcamára, tomilho, gilbarbeira, salva, e alfazema). Este tronco he quasi lenhoso.
Arbusteo ou arbustivo (fruticosus), quando pertence a huma raiz lenhosa, da qual todos os annos brotaõ muitos
troncos, que senaõ secçaõ nem morrem annualmente nem se elevaõ a altura
das arvores ordinarias Nota
He difficil de dar huma boa definicaõ dos arbustos e arvores ,
nascendo isto de que a divisaõ das plantas lenhosas em arbustos
e arvores naõ he natural porquanto a naturera naõ poz limites entre elles,
mas taõ somente a opiniaõ do vulgo. Linneo diz que a unica destinçaõ que pode haver he de dar o nome
de arvores ás que tem gomos, e o de arbustos ás que os
naõ tem; a seguir este parecer, muitas arvores ficariaõ sendo
arbustos, e muitos arbustos seriaõ arvores , o que naõ tem
sido athe agora adoptado nas descripçoẽs botanicas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c. Quando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.
Compacto ou mociço (solidus), que naõ he tubuloso, nem consta de huma substancia porosa, encortiçada, e balofa, nem tem huma medulla esponjosa, mas antes mal se lhe pode divisar a medulla (o acipreste, e oliveira).
Esponjoso (inanis, s. spongiosus), quando consta de huma substancia balofa e esponjosa, ou tem huma larga medulla esponjosa (o milho e o sabugueiro).
Repleto (farctus), quando he compacto, ou esponjoso, de modo que se lhe naõ divisa tubo algum (o acipreste e sabugueiro).
Tubuloso (fistulosus, s. tubulosus), quando he occo como hum canudo (o phellandrium aquaticum, conium maculatum, e a cebola.)
2º Considerado quanto à sua medida diz-se ser:
De meya pollegada de alto (unguicularis, semiuncialis, s. unguem longus); de
huma pollegada de alto (uncialis, s. pollicaris); de pollegada e meya de
alto (sesquiuncialis); de maõ travessa de alto (palmaris, palmum longus); de
hum palmo (dodrantalis, dodrantem longus); de sette pollegadas (spithameus);
de hum pé (pedalis); de desasette pollegadas, ou de hum covado natural
(cubitalis); do comprimento de hum braço, ou de vinte o quatro [Página 26] pollegadas (brachialis); de huma braça, ou de seis pés (orgyalis). Quanto
á sua grossura diz-se ser: da grossura de hum cabello ou da duodecima parte
de huma linha (capillaris); de huma linha de diametro ou da duodecima parte
de huma pollegada (linearis); de duas, tres linhas, &c. de largo; de
meya pollegada, de huma pollegada de largo, &c. Todas estas medidas se
podem augmentar á proporçaõ da altura e grossura do tronco, dizendo-se por
ex. ser de trez, oito, vinte braças de alto, &c. Todas ellas se devem
entender na razaõ de pouco mais ou menos, vistoque as plantas
relativamente a ellas variaõ muito, segundo o terreno, clima, lugares
mais ou menos abrigados, &c. Nota
Alguns o denominaõ grosso, delgado, curto, muito alto, grande,
pequeno, comparando-o idealmente com as folhas e outras partes da planta; mas
estas ideas saõ vagas, a naõ declararmos juntamente a parte com
que o comparamos.
3º Quanto á direcçaõ he denominado:
Levantado (erectus, arrectus), quando he quasi perpendicular ao plano da terra, ou forma com elle quasi hum angulo recto (o verbasco): he o contrario de obliquo, postrado, e voluvel.
Direito (rectus, strictus), quando he impertigado, sem tortuosidades algumas, e forma com o plano da terra hum angulo recto (o junco, e o helianthus altissimus). He hum tronco perfeitamente levantado, e alem disso he opposto ao caule tortuoso, fraco, e a quaesquer outros que tem curvaturas.
Fraco (laxus, flaccidus, debilis), quando por ser delgado ou de flexivel contextura bambolea, e abana facilmente em varias direcçoẽs.
[Página 27]Rijo (rigidus), he firme, naõ bambolea facilmente, e tem huma tezidaõ hum tanto elastica de maneira que se o curvamos, se levanta immediatamente (algumas junças).
Obliquo ou esguelhado (obliquus), quando esta posto de esguelha, apartando-se quasi tanto do plano da terra, como da linha perpendicular ao dicto plano (lathyrus aphaca).
Remontante ou realçado (ascendens), quando sendo primeiramente obliquo, postrado, ou parallelo á terra se revira para cima em arco (vicia cracca, viola canina).
Reclinado (reclinatus, declinatus, inclinatus), quando levantando-se primeiramente hum tanto de es guelha começa a descahir para a terra, prolongando-se em arco, ou formando huma curva assaz aberta; mas a sua ponta fica levantada de maneira que figura quasi hum postrado 𝆗 (convolvulus tricolor, potentilla aurea).
Incurvado (incurvatus, inflexus), quando se levanta direito e arquea na parte superior (juncus inflexus).
Acenoso (nutans), quando tem a ponta dobrada para baxo, ou dependurada perpendicularmente (juncus filiformis).
Postrado ou estirado (procumbens), quando em rasaõ da sua fraqueza jaz deitado horizontalmente sobre a terra, sem contudo nella lançar raizes (o murriaõ, a parietaria lusitanica, a semprenoiva.)
Descahido (decumbens), quando primeiramente se eleva hum pouco, e depois cahe sobre a terra, onde alastra mais ou menos (o serpaõ).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).
Sarmentoso (sarmentosus), quando lança muitas varas nodosas (chamadas sarmentos), as quaes tocando na terra, ou corpos vizinhos, nelles arraigaõ pelas suas juntas (a videira, legacam, e clematis vitalba).
Reptante ou serpentante (reptans, repens) quando he postrado, longo, mais ou menos ramoso, e lança amiudo sobre a terra varias radiculas (a potentilla, e a lysimachia nummularia). Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c. A hera humas vezes he reptante, outras raigotosa; donde resulta que estes dois termos indicaõ a mesma coiza em differentes lugares.
Articulado (articulatus), quando tem juntas destribuidas de distancia em
distancia Nota
Este termo toma-se ás vezes taõbem por geniculado, mas o
melhor he applicalo somente aos caules que tem juntas sem serem
nodosas, e taõbem quando so dependem do tacto para se reconhecerem,
(como as do juncus articulatus, e cyperus articulatus). As juntas
saõ chamadas articulationes, articuli, juncturae, e quando, saõ
nodosas genicula, nodi. Linneo da ordinariamente o nome de articulus
ás entrejuntas, mas hum grande numero de Botanicos antigos e
modernos daõ a este termo a significaçaõ de junta.
Tortuoso (flexuosus), quando he ondeado ou como colombrino, formando nas juntas ou lugar dos gomos pontas angulosas, e alternadas ora para hum ora para outro lado (o legacam, e dulcamára).
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba). Quando elle chupa a substancia da planta em que se segura ou por meyo de suas radiculas, ou de qualquer modo que seja, daõ-lhe o nome de parasito (parasiticus) como he o da hera e cuscuta. Se elle se enrosca á roda dos corpos vizinhos, prolongando-se sempre espiralmente, daõ-lhe o nome de voluvel ou encaracolado (volubilis), e o dizem ser encaracollado á direita, (dextrorsum, s. contra motum solis) se a primeira rosca inferior começa pela banda direita, da direita para á esquerda ou do poente para o nascente (o feijoeiro, e a verdeselha); encaracollado à esquerda (sinistrorsum, s. secundum motum solis), se a sua primeira rosca segue huma direcçaõ contraria á precedente (o luparo, madresylva, e norça preta). Para podermos determinar estas direcçoẽs he precizo suppormo-nos estar dentro das roscas com a cara para o sul.
4º Quanto á figura diz-se ser:
Cylindrico ou roliço (teres, cylindricus), quando [Página 30] se assemelha a hum rolo, naõ tendo angulos alguns (a tulipa, e pinheiro); quasi cylindrico (subcylindricus), quando se approxima quasi á figura de hum rolo (allium molly); semicylindrico (semiteres) se he plano de huma banda e convexo da outra, ou como a metade de hum rolo partido longitudinalmente (allium ursinum).
Comprimido (compressus), se he hum tanto chato de duas bandas em todo o seu comprimento, ou parece como esmagado nos dois lados oppostos (poa compressa, potamogetum compressum).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).
Anguloso (angulatus), se tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos
angulos, diz-se ser triangular, quadrangular, de cinco, seis, ou muitos
angulos (tri- quadr- quinq- sex- mult- angularis Nota
Os termos de
trigonus - polygonus tem ordinariamente huma accepçaõ synonyma de
triangularis - multangularis; mas alguns botanicos usaõ dos
primeiros para significar angulos hum tanto embotados.
Segundo o numero dos lados planos que tem, diz-se ser: de tres, quatro, cinco lados, &c. [Página 31] (tri-quadri-quinqueter, &c. ou taõbem tri-quadri-quinquelaterus, &c.)
5º. Considerado quanto á sua superficie diz-se ser:
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.
Esfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.
Nû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias. Este termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem. Diz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .
Envaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).
Escamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).
Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).
Encortiçado (suberosus), quando a sua casca he branda, elastica, toda cortiça ou semelhante a ella na qualidade (o sobereiro, e passiflora suberosa).
Gretado (rimosus), quando tem no exterior da sua casca muitas gretas abertas irregularmente.
Entunicado (tunicatus), quando a sua casca he [Página 32] coberta de differentes membranas applicadas humas sobre outras.
Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).
Estriado ou riscado (striatus), quando tem longitudinalmente muitos riscos na superficie da sua casca; estas estrias saõ superfiçiaes, e mais ou menos distantes (genista tinctoria).
Regoado (sulcatus), quando tem longitudinalmente regos, ou riscos largos e profundos na sua casca (a milfolha, e aipo).
Glabro (glaber), quando a sua superficie naõ tem escabrosidades nem pelos
alguns, mas he liza ou polida (a abrotea, e cebolla alvarran) Nota
He a
mesma coiza que lizo, e nû de pelos e excrescencias.
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).
Echinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).
Cotanoso ou cotanilhoso (tomentosus) se a sua superficie esta coberta de hum cotaõ ordinariamente branco, finissimo, curtissimo, e de tal sorte tecido que os seus pelos mal se podem separadamente distinguir sem lente (a cineraria maritima).
Lanudo (lanatus), quando a sua superficie esta [Página 33] coberta de pelos longos, bastos, curvados, e tecidos huns com outros á maneira de huma tea de aranha, como visivelmente se conhece sem lente (na ballota lanata, e onopordum acanthium).
Peludo ou hirsuto (pilosus, hirsutus, s. hirtus) Nota
As differenças, que
se fazem ordinariamente destes tres termos, so servem de embarassar
os principiantes, e porisso os naõ distingui aqui.
Felpudo ou aveludado (villosus), quando tem pelos bastos, approximados, macios ao tacto, naõ entrelaçados, e assaz bem visiveis sem lente (o çumagre.)
Hispido (hispidus), quando he salpicado de sedas finas, hum tanto rijas, rectas, distantes mais ou menos entre si, e mui quebradiças (echium vulgare).
Ardentoso (urens), he hispido, mas as suas sedas saõ venenosas, e chamadas ferroẽs, em razaõ de que penetrando a pelle nua causaõ nella ardor e inflammaçaõ (a urtiga.)
Aculeado (aculeatus), quando tem aculeos, ou espinhos, bastardos, na sua casca (a sylva, e roseira).
Espinhoso ou abrolhoso (spinosus), quando lança do seu lenho abrolhos ou espinhos proprios (o pirliteiro, e o abrunheiro bravo).
[Página 34]Estipuloso (stipulatus), quando he guarnecido de estipulas (o martyrio, todas as especies de polygonum, e a maior parte das leguminosas.)
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).
Bolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).
6º. Quanto á sua composiçaõ ou divisaõ diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se prolonga athe á ponta quasi sem ramos, ou tem ramos rarissimos quer na parte superior quer nos lados (a açucena, e scabiosa succisa): simplicissimo (simplicissimus, integer), quando he inteiramente indiviso, prolongando-se sem ter absolutamente ramo algum (o alho, e paris quadrifolia).
O tronco he composto todas as vezes que merece de ter o nome de subramoso ou ramoso. O subramoso (subramosus), he hum tronco quasi simplez em razaõ de ter poucos ramos lateraes (as esporas, e aquilegia); o ramoso (ramosus), tem muitos ramos lateraes (a beccabunga, e sherardia arvensis). Diz-se ramosissimo (ramosissimus), quando tem ramos numerosissimos, subdivididos, e amontoados sem ordem (gallium saxatile, e thalictrum faetidum); se todo elle naõ parece outra coiza mais do que huma panicula, ou que todos os seus ramos formaõ huma [Página 35] panicula, daõ-lhe o nome de paniculado (paniculatus), como he o da saxifraga cotyledon.
Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).
Patente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto. (Este termo he muitas vezes usado em lugar do seguinte). Derramado ou diffuso (diffusus), quando se divide em muitos ramos que formaõ entre si angulos quasi rectos (a fumaria, e hesperis tristis.)
Copado (fastigiatus), quando os seus ramos saõ approximados ou empilhados, chegaõ a igual altura, e formaõ huma copa anivelada, e fechada como huma moita (santolina chamaeciparissus).
Açarilhado (brachiatus), quando tem ramos oppostos, e o par superior cruza o inferior, como os braços de hum çarilho (a mercurial).
Forquilhoso ou forqueado (dichotomus), quando se divide sempre em dois ramos, em forma de forcado (valeriana locusta). Alguns o denominaõ triramoso (trechotomus), quando se divide sempre em tres ramos (o cardo penteador, e a verbena mexicana). A divisura ou ponta angular das divisoẽs do tronco forquilhoso he chamada bifurcaçaõ ou forqueadura (bifurcatio, s. dichotomia).
Vergonteado (virgatus), quando he delgado, fraco, flexivel, e se prolonga lançando muitas varinhas [Página 36] bastas, desiguaes, e da sua mesma qualidade ou fraqueza (artemisia campestris).
Prolifero (prolifer), quando he, pelo assim dizer, pontaramudo, lançando
ramos verticillados so na ponta, os quaes
saõ taõbem proliferos (como o pinheiro, e scabiosa prolifera Nota
Nestes dois exemplos se vê que o tronco prolifero pode ser ou
lenhoso ou herbaceo; mas ordinariamente o termo prolifero sò se
applica aos troncos lenhosos que daõ muitos gomos nas
pontas.
Diz-se em fim ser disticado (distichus), se tem ramos disticados; e esteiado (fulcratus), quando se esteia em seus ramos ou tem ramos esteiados: estes termos seraõ melhor explicados no artigo seguinte.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Levantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos. Nascem da casca, e della lhes provêm os muitos vazos de que saõ compostas. Estes vazos saõ sufficientemente visiveis, e [Página 39] estaõ cobertos da epiderme, que he a continuaçaõ da epiderme da casca. As suas ramificacoẽs formaõ huma especie de rede, a que chamaõ tecido reticular (rete s. opus reticulare), cujas malhas saõ occupadas pelo tecido cellular ou parenchyma. Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.
As folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes. A parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex). Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus). E sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco. Os vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente. O mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro. Os veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes.
As folhas saõ consideradas naõ so
relativamente a estas circumstancias, mas ainda quanto à sua duraçaõ,
grandeza, situaçaõ, inserçaõ, direcçaõ, circumscripçaõ, sinuosidades,
angulos, lados, substancia, simplicidade, e compoziçaõ. A duraçaõ he o tempo em que ellas subsistem apegadas á planta. A grandeza consiste nas dimensoẽs de comprimento e largura, e he ou
absoluta ou relativa; a primeira consiste em huma medida determinada de
linhas, pollegadas, palmos, &c. e a segunda na extensaõ da sua
superficie comparada, com o comprimento dos seus peciolos, do tronco ou
das articulaçoẽs deste. Na insersaõ naõ so se considera o ponto de apego da folha ,
mas ainda o modo com que he apegada. A situaçaõ he o modo com que as folhas so achaõ dispostas no tronco da planta. A direcçaõ he a posiçaõ particular, em que se achaõ as folhas no tempo diurno
relativamente ao tronco, aos differentes polos da terra e sua
superficie, ou em fim, respectivamente á superficie d'agoa. Na circumscripçaõ considera-se a figura da folha circumscripta no disco, e he supposta inteira, precidindo-se dos
angulos, sinuosidades, margens e ponta. Nas sinuosidades suppoem-se a folha dividida no seu disco, e [Página 41] como tendo, partes nelle cortadas, ou na base, ou no topo, ou nos
lados, ou em qualquer parte que for. Os angulos saõ partes da folha mais ou menos prolongadas ou
prominentes, e se suppoem a folha inteira e em huma posiçaõ
horizontal. Os lados do modo com que os consideraõ os botanicos saõ os angulos
longitudinaes da folha , ou as esquinas que ella tem ao
comprido. Na substancia entende-se a polpa entre as superficies. A simplicidade da folha consiste em ser huma so em hum so
peciolo; considerada lateralmente as suas lacinias (laciniae) naõ chegaõ
a ser rasgadas athe á nervura dorsal do meyo para cima, e
ordinariamente o naõ saõ mesmo athe á base; naõ he articutada, e
considerando-a verticalmente, as suas lacinias naõ formaõ foliolos
perfeitos, nem he rasgada inteiramente athe ao cume do peciolo, mas taõ
somente athe certa distancia acima delle. Pelo contrario a composiçaõ da folha consiste em ter muitas
em hum so peciolo commum; he rasgada por conseguinte inteiramente athe
ao topo do peciolo, ou lateralmente athe á nervura dorsal ,
que nesta sorte de folhas he o
peciolo commum Nota
Nas folhas , a que Linneo
chama decursive-pinnata, a base da ala decursiva diminue, e se
estreita de tal modo, que deixa ver o peciolo commum descarnado,
ou quasi sem ala no porsto onde começaõ os foliolos inferiores,
no que se distinguem das pinnatifidas (a aroeira.)
Os antigos davaõ o nome de folhas ainda mesmo ás petalas das flores. Linneo fez huma destinçaõ entre folhas e frondes, e deo o nome de frondes (frondes) ás folhas dos fetos e plantas da
mesma ordem, ás folhas das
palmeiras, ás folhas aggregadas
de alguns aciprestes, e a algumas producçoẽs semelhantes a folhas , que se achaõ na ordem das
algas; mas naõ nos deixou huma definicaõ exacta em que se funde esta
differença Nota
Daqui procede que muitos Botanicos ainda hoje lhes chamaõ
geralmente folhas ; eu
penso que a querer fazer destinçaõ, o nome de fronde so compete
propriamente a huma folha , ou producçaõ anologa a
ella, que dá flores ou fructifica. O ruscus, muitos fetos, e
muitas algas nesta circumstancia teriaõ frondes bem caracterizadas.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Caulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
Innatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
Dispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Levantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Huma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Angulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Rhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Fendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Apalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Sinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Celheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Laceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
Obtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Troncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Nuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Viscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Cotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Concavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Bojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Aquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Dolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
[Página 73]1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Binadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
Bigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Trigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
O peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.
Algumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).
Contudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas . Peciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha. Peciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas. Peciolo commum (communis) he o que tem no topo ou nos lados muitos foliolos, ou muitos peciolos parciaes. Peciolo parcial (partialis) he o que nasce do peciolo commum; os peciolos parciaes às vezes saõ immediatos ao peciolo commum, outras vezes ramificaõse mais ou menos variamente; nesta circumstancia os ultimos saõ chamados immediatos, e os que medeaõ entre elles, e o peciolo commum tem o nome de mediatos.
O peciolo distingue-se facilmente do pedunculo Nota
He rarissimo que esta distinçaõ falhe, contudo na turnera, e
nalgumas especies de hibiscus, o pé da folha achase
confundido com o da flor. Elle eleva às vezes folhas que daõ flores, como se vê nas especies de
ruscus.
1º. Quanto á sua figura, diz-se ser:
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .
Alado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).
Aclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).
Roliço (teres) he cylindrico, ou semelhante a hum rolo: semiroliço (semiteres) he semicylindrico, ou semelhante à metade de hum rolo partido longitudinalmente.
Adelgaçado (attenuatus), quando se adelgaça ou he comprimido junto da ponta (populus tremula)
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.
Trigumeo (triquete) tem tres angulos ou gumes, e tres faces planas.
[Página 82]Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).
2º. Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:
Curto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.
Mediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.
Comprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .
Quanto á grandeza absoluta (vej. pag. 23, art. 2º)
3º. Considerado relativamente ao seu apego, diz-se ser:
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).
Innato (adnatus), tem a base larga, e se apega taõ fortemente ao tronco ou ramos, que parece confundir-se com a sua substancia; naõ se pode arrancar sem se espedaçar a casca do tronco, o que naõ succede nos peciolos inseridos.
Decursivo ou decurrente (decurrens), quando a sua base se prolonga sobre o tronco ou ramos, e corre por elles abaxo.
[Página 83]Amplexicaule ou abarcantes (amplexicaulis), quando abarca com a sua base o tronco ou ramos.
Appendiculado (appendiculatus), quando tem na base alguns appendiculos, orelhas, ou producçoẽs folheaceas (dipsacus pilosus).
Envaginante (vaginans), quando com a sua base reveste e cerca o tronco ou ramos a modo de bainha.
4º. Quanto á direcçaõ, diz-se ser:
Levantado (erectus, s. arrectus), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, chegando-se muito à poziçaõ perpendicular.
Patente (patens), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto.
Remontante (assurgens), quando ao sahir do tronco ou ramos he horizontal ou abaxa hum tanto, mas levanta-se depois com a ponta para cima, vindo assim a formar huma especie de arco.
Recurvado (recurvatus) he o contrario do precedente; ergue-se hum tanto em arco ao sahir do tronco, e se curva depois para baxo.
5º. Quanto á superficie, diz-se ser:
Nu (nudus) quando naõ tem pelos, nem glandulas, excrescencias, espinhos, nem sorte alguma de armas.
Glabro (glaber) se he nu, e a sua superficie he liza. Aculeado (aculeatus),
quando tem aculeos (a sylva, e roseiras). Espinescido (spinescens), se
tem espinhos muito raros e fracos, ou taõbem quando he rijo, endurecido,
e picante na ponta Nota
Nesta circumstancia so pode ter lugar nas folhas pinnuladas.
Articulado (articulatus), se tem huma ou mais articulaçoẽs.
As partes accessivas das plantas a que Linneo dá Nota
Sigo nesta divisaõ a sua Phil. Bot. n. 84, porque o mesmo Autor
no seu tractado dos termos Botanicos estendeo taõbem o nome de
esteios aos peciolos e pedunculos.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Nullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Intrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Rentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
Fêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Pelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Quando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
[Página 95]As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
Dizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
O pedunculo (pedunculus) he a parte do tronco ou ramos que serve de esteio á flor, e a que chamaõ vulgarmente o pé da flor. Elle tem huma intima analogia com os ramos, e lhe daõ por esse motivo muitas das suas denominaçoẽs.
Diz-se ser: commum (communis), quando sostem muitas flores ou se divide em pedunculos parciaes.
Parcial (partialis), quando nasce do pedunculo commum ramificado; subdivide-se as vezes ainda em outros menores, a que chamaõ pedicellos ou pedunculos immediatos (pedicelli).
1º. Os pedunculos considerados, quanto ao lugar a que estaõ apegados na planta, dizem-se ser:
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco). Estes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.
Caulinos (caulini), quando nascem do caule.
Rameos (ramei), se nascem dos ramos.
Peciolares (petiolares), se nascem dos peciolos (o hibiscus moscheutos, e algumas especies de turnera). [Página 97] Alguns daõ-lhes taõbem o nome de folheares (foliares) nesta mesma accepçaõ.
Gavinhosos (cirrhiferi, s. cirrhosi), quando lançaõ huma gavinha na ponta (vitis indica, cardiospermum). Alguns daõ-lhes taõbem este nome e o de voluveis, ou enroscados (volubiles), se elles se enroscaõ como huma gavinha.
Terminaes (terminales), quando se achaõ na ponta do tronco ou ramos (a tulipa, e o alfeneiro).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).
Contrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).
Lateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem). Alguns daõ contudo o nome de lateraes aos que nascem nos lados do tronco ou dos ramos, e os oppoem aos terminaes.
Unilateraes (unilaterales), se tem todos o seu ponto de apego em hum mesmo lado, seja qual for a sua direcçaõ: segundinos (secundi), quando estaõ todos inclinados para a mesma banda, ainda que o seu ponto de apego naõ seja exactamente no mesmo lado.
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).
Sobrefolheaceos (suprafoliacei, seu supini) Nota
O termo supinus usa-se taõbem em lugar de resupinatus.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.
2º Quanto á sua situaçaõ, dizem-se ser:
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas. Oppostos (oppositi), quando na mesma altura se acha hum defronte do outro.
Dispersos (sparsi), saõ raleados, copiosos, postos em distancias desiguaes nos lados do tronco ou ra mos, sem guardar ordem alguma.
Conglomerados (conglomerati), quando pertencem a huma panicula apertada; saõ dispostos sem ordem, mas approximados estreitamente (os amaranthos).
Conglobados (conglobati), quando formaõ huma especie de globo; as umbrellas da angelica e algumas flores capitozas tem pedunculos bem visivelmente conglobados. Alguns botanicos usaõ contudo deste termo em lugar de conglomerados.
Capitosos (capitati), se sostêm flores dispostas em cabeça, como os de alguns trevos.
Espigosos (spicati), se saõ dispostos em espiga.
Paniculados (panniculati), se saõ dispostos em panicula: thyrsosos (thyrsiflori), se saõ dispostos em thyrso.
Corymbosos (corymbosi), se saõ dispostos em corymbo.
[Página 99]Fasciculados ou copados (fasciculati, s. fastigiati), se saõ dispostos em fasciculo.
Racimosos (racemosi), se saõ dispostos em racimo.
Umbrellados (umbellati), se saõ dispostos em umbrella.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.
3º Quanto ao numero, o pedunculo diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se divide em rarissimos pedicellos; simplicissimo (simplicissimus) se he unifloro, naõ se dividindo em pedunculos alguns. Multifloro (multiflorus), se sostem muitas flores; unifloro, bifloro, trifloro, quadrifloro, &c se sostem huma, duas, tres, quatro flores, &c.
Composto ou ramoso (compositus, s. ramosus), quando se ramifica em muitos pedunculos parciaes.
Solitario (solitarius), se naõ tem outro ao seu lado no mesmo ponto de apego.
Dois a dois (gemini, geminati, bini), quando se achaõ dois no mesmo ponto de apego ou quasi ao lado hum de outro, e deste modo continuaõ nas mais partes do tronco ou ramos: neste mesmo sentido se dizem ser taõbem: tres a tres, quatro a quatro, &c. (terni, quaterni, &c.)
Numerosos (numerosi, multiplices), quando saõ em grande numero, ou sejaõ situados nas umbrellas e verticillos, ou ao longo dos ramos, receptaculos communs, &c.
4º Quanto a direcçaõ, dizem-se ser:
Encostados (appressi), quando em quasi todo o [Página 100] seu comprimento jazem encostados ao tronco ou ramos.
Levantados (erecti), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, estando muito pouco desviados delles.
Patentes (patentes), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto: horizontaes (horizontales), se formaõ hum angulo recto com o tronco ou ramos.
Coarctados (coarctati), quando se achaõ muitos juntos, approximados, e quasi parallelos.
Resupinados (resupinati), quando sostem flores, que tem corollas resupinadas.
Acenosos (cernui, nutantes), quando em razaõ da sua debilidade, e pezo da sua flor se survaõ na ponta virando esta ou para a terra ou para a ilharga (o gyrasol, o geum rivale, e carduus nutans).
Fracos (flaccidi), quando saõ taõ debeis que basta o pezo da sua flor para os fazer curvar ou ficar pendentes.
Pendentes ou verticaes (penduli, s. verticales), quando estaõ dependurados perpendicularmente para a terra (convallaria polygonatum).
Recurvados (recurvati), quando se elevaõ hum pouco, e depois se curvaõ para baxo.
Remontantes (ascendentes), saõ hum tanto arqueados perto da base, e depois se indireitaõ levantando a ponta para cima.
Irtos ou rectos (stricti), quando naõ tem tortuosidades nem curvatura alguma.
Tortuosos ou ondeados (flexuosi, s. undulati), [Página 101] quando tem tortuosidades ou dobras alternativas, á maneira de huma espada columbrina (aira flexuosa).
Requebrados (retrofracti), quando saõ quasi pendentes, e tem articulaçoẽs angulozas, parecendo como quebrados.
5º Quanto á sua medida relativa, saõ comparados com a flor, e se dizem: curtos, curtissimos, mediocres, compridos e compridissimos. Quanto à sua medida absoluta, veja-se pag. 25, art. 2º.
6º. Quanto á sua superficie e estructura, dizem-se:
Roliços (teretes), se saõ semelhantes na forma a hum rolo: trigumeos (triquetri), se tem tres gumes agudos: trigònos (trigoni), se tem tres gumes hum tanto embotados: quadrigumeos (quadriquetri), se tem quatro gumes afiados: tetragonos (tetragoni), se tem quatro gumes embotados.
Filiformes (filiformes), saõ delgados e de igual grossura, semelhantes a hum fio de linhas ordinario.
Adelgaçados (attenuati, s. acuminati), quando se adelgaçaõ, para a ponta.
Engrossados (incrassati), quando engrossaõ para a ponta ou junto do caliz da flor: se junto da flor engrossaõ á maneira de huma massa, dizem-se: aclavados (clavati).
Articulados (articulati), se tem huma junta ou ainda mais geniculados ou nodosos (geniculati), se as juntas saõ tumidas á maneira de nòs.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.
Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.
Nûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.
Alguns os denominaõ ainda: estereis (steriles); se sostem flores abortivas, que naõ daõ fructo: ferteis ou fecundos (fertiles), se estas daõ fructo.
A disposiçaõ das flores chamada por Linneo inflorescencia (inflorescencia), he o modo com que ellas saõ apegadas aos pedunculos ou a qualquer parte do tronco.
As flores em geral ou saõ rentes ou pedunculadas; as rentes (sessiles), saõ as que estaõ apegadas ao tronco ou a qualquer parte da planta, sem terem pedunculo algum; as pedunculadas (pedunculati), saõ estejadas em hum pedunculo.
A disposiçaõ das flores sendo analoga á dos pedunculos, conhece-se claramente que ellas devem [Página 103] participar de hum grande numero de denominaçoẽs em tudo semelhantes, como por ex. saõ as de terminaes, lateraes, unilateraes, segundinas, dispersas, solitarias, duas a duas, tres a tres, levantadas, patentes, horizontaes, verticaes, acenosas, &c. termos que ficão explicados no capitulo precedente. As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.
A flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c). Eu fallarei mais circumstanciadamente desta sorte de flores em outro lugar.
Aggregada Nota
Linneo estende o nome de flor aggregada ainda a muitas
outras, mas rigorosamente a flor aggregada he a sobredicta.
Espadicea ou enrocada (spadiceus), consta de muitos flosculos rentes ou pedunculados, nascidos de hum receptaculo commum oblongo, contido em huma espatha. Este receptaculo he chamado roca ou espadice (spadix); elle diz-se simplez (simplex) no pe de bezerro, em razaõ de se naõ ramificar, e ramoso [Página 104] (ramosus) nas palmeiras, por se dividir em alguns ramos.
Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan. O verticillo diz-se: rente (sessilis), se as flores que o formaõ naõ tem pedunculo; pedunculado (pedunculatus), se ellas saõ pedunculadas: involucrado (involucratus), se tem hum involucro: bracteado (bracteatus), se he acompanhado de alguma bractea: nu (nudas), se naõ tem involucro nem bractea alguma: basto (confertus), se os flosculos que o compoem estaõ, approximados densamente: raleado (distans), se os seus flosculos estaõ hum tanto distantes entre si: semicircular (dimidiatus), quando, os seus flosculos naõ formaõ á roda do tronco hum annel completo, mas somente metade delle.
Flor capitosa (capitatus), he a que representa huma especie de cabeça, ou que se acha conglomerada em cabeça (capitulum); esta consta de muitos flosculos densamente conchegados em huma forma mais ou menos globular. A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.
[Página 105]Flor espigosa (spicatus), consta de muitos flosculos dispostos em espiga. A
espiga (spica) he huma flor congregada, que consta de muitos flosculos
alternos rentes ou com curtissimos pedicellos levantados. Os seus flosculos
saõ apegados a hum receptaculo commum oblongo, chamado carolim ou carolo
(rachis), como se vê na tanchagem, cevada, trigo, milho, e muitos outros
grames. A flor casulosa (flos glumosus), he verdadeiramente huma especie de
flor espigosa propria das gramineas, e he assim denominado pela razaõ de ser
hum casulo o caliz commum ou particular dos seus flosculos. A espiga-diz se
ser: simplez (simplex), quando consta de flores solitarias, e o seu
receptaculo commum naõ se divide em pedunculos nem receptaculos menores, que
formem pequenas espigas, (a tanchagem). Composta (composita), quando o
receptaculo commum se divide e lança pequenas espiguettas (spiculae, s.
spicillae), como se vê no joyo. Conglomerada (glomerata), quando he composta
ou recomposta, e que as suas espiguettas estaõ muito apertadas e variamente
amontoadas (a alpista, e dactylis glomerata). Disticada (disticha), se os
seus flosculos ou espiguettas estaõ em dois renques oppostos (o bolebole).
Segundina (secunda), quando os seus flosculos estaõ apegados, e virados
todos para shuma so e mesma banda (nardus stricta). Ovada (ovata), se tem
huma figura ovada (o bolebole). Bojuda (ventricosa), se he tumida no meyo, e
estreita nas duas extremidades superior e inferior. Cylindrica (cylindrica),
se tem a forma roliça em todo o seu comprimento. Interrompida (interrupta),
quando o pedunculo commum ou receptaculo commum tem [Página 106] alternativamente alguns intervallos calvos de flosculos ou espiguettas (a
alfazema). Imbricada (imbricata), se os seus flosculos saõ imbricados
longitudinalmente Nota
Estes flosculos saõ ordinariamente segundinos ou unilateraes. Nota
As vezes o tronco naõ da mais do que huma so espiga e lhe chamaõ
por isso unispigado (monostachyus), quando porem produz muitas
espigas daõlhe o nome do multispigado (polystachyus).
Flor amentilhosa ou caudilhosa (flos amentaceus), consta de muitos flosculos dispostos em amentilho ou caudilho (amentum) o qual he huma particular especie de espiga simplez, que consta de flores rentes, [Página 107] ordinariamente unisexuaes, acompanhadas de escamas, e pegadas a hum carolim ou axe commum que lhes serve de receptaculo; taes saõ por ex. os que se observaõ na nogueira, ortiga romana, junça, tabûa, choupo, salgueiro, sabina, pinheiro, acypreste, castanheiro, aveleira, &c. Os amentilhos nascem ordinariamente de gomos e o seu carolim he filiforme; quando elles tem hum carolim grosso e escamas lenhosas, huma forma conica, e produzem somente flores femininas, daõ-lhes o nome de pinhas (coni, s. stobili), como no pinheiro e acypreste. O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.
Flor corymbosa (flos corymbosus), he diaposta em corymbo. O corymbo (corymbus), he huma disposiçaõ de flores aniveladas, os seus pedunculos tem differentes pontos de apego, elevaõ-se gradualmente quasi todos a mesma altura, formando angulos agudos entre si (a milfolha, achillea aggeratum, e chrysanthemum corymbosum). O corymbo he simplez (simplex), se os pedunculos naõ se dividem; composto (compositus), se elles se dividem em muitos outros menores.
Flores paniculadas (flores paniculati), saõ dispostas em panicula. A panicula (panicula), he huma ramificaçaõ vaga e dispersa, na qual os pedunculos [Página 108] communs, e parciaes saõ notavelmente mais compridos do que as flores e fructos (a caneira, o milho painço, e gypsophylla paniculata). A panicula diz-se: diffusa (diffusa), quando os seus pedunculos parciaes saõ esparralhados e divergem entre si; contrahida ou coarctada (coarctata), se os dictos pedunculos estaõ muito conchegados e quasi parallelos. Ella tem ainda muitas outras denominaçoõs, que se entendem facilmente e ficaõ ja explicadas principalmente no capitulo do tronco, e ramos.
Flores thyrsosas (flores thyrsosi, s. thyrsoidei), saõ dispostas em thyrso. O thyrso, ou ramilhete (thyrsus), he huma especie de panicula contrahida, de forma ovada e conica, que se assemelha muito bem aos nossos ramilhetes compridos (syringa vulgarìs, aesculus hippocastanum, tussilago petasites). O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.
Flores racimosas (flores racemosi), saõ disposta em racimo. O racimo ou cacho
(racemus), he huma disposiçaõ de flores com pedunculos curtos, penden tes, e
ordinariamente apegados a hum axe ou pedunculo commum (a videira, azereiro,
uva espim, sylva, groselheira, &c. O racimo diz-se ser: simplez
(simplex), se o ramo ou pedunculo commum sò tem pedunculos indivisos (o
azereiro, e phytolacca); composto (compositus), se os seus pedunculos,
parciaes saõ divididos (a videira, e sylva) Nota
Nos damos o nome de engaço a qualquer cacho depois de despojado
do seu fruto, e o de escadea a huma pequena porçaõ dos seus
pedunculos parciaes guarnecidos de frutos. Nota
O mesmo racimo pode ser levantado no tempo da
florecencia, e pendente no da frutescencia em razaõ do pezo dos seus
fructos como e vê v. g. no ribes petræum.
Flores fasciculadas (flores fasciculati), saõ dispostas em fasciculo. O fasciculo (fasciculus); he huma pilha de flores longas, levantadas, parallelas, approximadas, copadas ou elevadas á mesma altura, e de curtos pedunculos (dianthus barbatus, silene armeria).
[Página 110]Flores umbrelladas (flores umbellati), saõ dispostas em umbrella Nota
Fallo das flores umbrelladas em geral, e em toda a extensaõ do
termo; porquanto particularmente, as flores umbrelladas saõ as
das plantas que formaõ huma familia natural, que saõ dispostas
em umbrella, e tem huma coralla de cinco petalas, cinco estames,
o germe sottoposto á corolla, dois estyletes, e duas sementes
reunidas, como saõ as do coentro, e salsa. Nota
Os seus pedunculos saõ taõbem algumas vezes chamados rayos
(radii). Nota
Diz-se taõbem difforme, se nella se observaõ bolbos entre as
flores, como no allium pallasii.
Flores cymosas (flores cymosi), saõ dispostas em cymeira. A cymeira ou
umbrella bastarda (cyma, s. umbella spuria), he huma disposiçaõ de
flores, cujos pedunculos primarios nascem do mesmo centro, e depois se
ramificaõ irregularmente e sem ordem Nota
As ramificaçoẽs da cymeira, saõ quasi sempre dirigidas para à
banda do dicco, ou da parte interior.
A natureza segundo as leys, que lhe foraõ dadas, prezenta-nos todos os annos
nas flores hum extenso quadro summamente variado e agradavel. Se
exceptuamos os polos sempre gelados, os seus proximos [Página 113] climas, e os profundos mares Nota
No fundo do mar naõ ha planta
alguma perfeita, e só se achaõ algumas especies de fucus, e ulva que
saõ do numero dos mais imperfeitos vegetaes, que se
conhecem.Nota
Vej. Lin. Phil. Bot. art. 335.Nota
Horologium Florae.Nota
Vigiliæ
florum.
Daqui procedeo a origem de hum certo numero [Página 114] de termos, que se achaõ em suas obras dados ás flores, e igualmente às plantas, a que saõ relativas, os quaes se podem reduzir principalmente aos seguintes.
Flores de inverno (flores hybernales, s. brumales), saõ as que desabotoaõ ordinariamente durante o inverno. Algumas plantas cryptogamicas, e a rosa, de todos os mezes saõ deste numero, algumas dos paizes meridionaes da America, e Africa transplantadas na Europa taõbem florecem durante o inverno nas estufas.
Flores da primavera (vernales, s. verni), saõ as que desabotoaõ nos mezes desta estaçaõ; taes saõ por ex. as dos salgueiros, quejadilho, amendoeira, pereira, damasqueiro, narcizo, &c. As plantas, exoticas dos climas frios, e das montanhas transplantadas em nossos pardins ordinariamente taõbem florecem na primavera.
Flores do estio ou veraõ (aestivales, s. aestivi), saõ as que desabotoaõ durante o veraõ, como saõ por ex. as da althéa, malva, feijoeiro, saudade, milfolha, meloeiro, &c.
Flores do outono (autumnales), saõ as que desabotoaõ durante o outono, como v. g. o colchico. As plantas da America septemptrional, principalmente as que saõ vivazes transplantadas em nossos jardins taõbem florecem nesta estaçaõ.
As vigilias ou tempo de vela das flores contem o espaço que medea entre o seu
abrimento e a reclusaõ, quer seja durante o dia, quer de noyte; pelo
contrario o somno das flores (somnus florum), he o espaço que medea desde a
sua reclusaõ athe ao seu abrimento. O abrimento de huma flor (apertio
floris), [Página 115] he o ponto de tempo em que ella se abre Nota
Este termo tem huma significaçaõ mais extensa do que o de
desabotoamento (exgemmatio floris), porquanto todo o
desabotoamento he abrimento, mas nem todo o abrimento de huma
flor he desabotoamento; a primeira vez que huma flor abre do seu
botaõ, diz-se desabotoar ou ter desabotoamento, mas na segunda
vez, no segundo dias e mais vezes diz-se ter abrimento e naõ
desabotoamento.
Quanto ao tempo de vela ou de somno, as flores saõ denominadas diurnas ou
golares (diurni, s. solares) Nota
Alguns Botanicos comprehendem taõbem debaxo do termo solares as
flores nocturnas.
Flores meteoricas (meteorici), saõ as que naõ tem hora determinada de abrir-se, e de se fechar, porquanto o abrimento e reclusaõ saõ desordenados em razaõ da sombra, humidade, seccura, e maior ou menor pressaõ da atmosphera; o martyrio por ex que costuma abrir-se ao meyo dia em tempo claro, naõ se abre senaõ às tres horas quando o ceo està espessamente nublado.
Flores tropicas (tropici), saõ as que se abrem todos os dias constantemente de manhaan, e se fechaõ quasi [Página 116] ao sol posto, mas o tempo de vela he maior, ou menor á proporçaõ que os dias augmentaõ ou diminuem.
Flores equinoxiaes (aequinoctiales), saõ as que se abrem todos os dias em huma hora certa e determinada, e se fechaõ taõbem em huma hora certa, de modo que o seu tempo de vela he todos os dias igual ou quasi igual.
A raiz he hum organo nutritivo apegado a terra Nota
As lentilhas d'agoa (lemna) naõ costumaõ estar apegadas a terra;
saõ fluctuantes, e as suas raizes encravadas n'agoa mudaõ a cada instante de
lugar. Em hum grande numero de algas naõ se sabe o que deve ter o nome
de raiz , nem pela forma nem pela estructura
interna, e semelhantes plantas tiraõ igual nutriçaõ por toda a
sua superficie. Algumas plantas parasitas (plantae parasiticae), taes como a
cuscuta, viscum, &c. naõ saõ apegadas a terra, ellas estaõ
aferradas a outros vegetaes, delles tiraõ a sua nutriçaõ, e ás
vezes os fazem morrer de marasmo. Em fim ha plantas que passaõ por ser destituidas inteiramente de raiz , sem embargo de estarem todas cobertas de
terra como a maçan de porco: a lemna arhira, que esta encostada
ao lume d'agoa, taõbem naõ tem raiz alguma. Nota
Nas raizes lenhosas ha
alburno da mesma sorte que no tronco, mas nas plantas herbaceas
annuaes, em que naõ ha aros concentricos, naõ se devisa alburno
algum, e o nome de lenho naõ me parece proprio das raizes que se corrompem
annualmente, em algumas o denominado lenho he verdadeiramente
huma substancia medullar.
As raizes em geral constaõ de
cuticula, casca, lenho, e medulla. Ordinariamente humas saõ mais
delgadas do que o tronco, outras saõ consideravelmente mais grossas. Humas e
outras podem ser consideradas, ou como simplices ou como compostas. Toda
a raiz simples (simplex), he indivisa e naõ lança
ramificaçoẽs algumas nos lados do seu troço; pelo contrario a composta
(composita) lança muitos ramos ao longo do seu troço: para disto se
poder formar clara idea, he precizo reconhecer no commum das plantas
duas sortes de troços continuados hum com outro, a saber, o troço
descendente e ascendente. O troço descendente das plantas (caudex descendens), em huma accepçaõ
extensa he qualquer raiz ; em hum sentido estricto, he a
parte mais grossa [Página 14] da raiz , a que alguns chamaõ taõbem o troço materno, do
qual nascem lateralmente ramos, que lançaõ varias radiculas Nota
Fibrillae, radiculae, taõbem se dá o nome de radicula á parte
inferior da plantula seminal, ou corculo quando começa a
germinar.
1º. A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:
Horizontal (horizontalis), quando se estende transversalmente ou corre quasi parallela com a superficie da terra (como a dos lirios e escalracho.)
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.
Perpendicular ou aprumada (perpendicularis), quando se encrava a prumo pela terra abaxo (a cenoira, e rabaõ.)
Obliqua (obliqua, inclinata), quando tem huma direcçaõ esguelhada, ou se encrava obliquamente ao horizonte ou superficie da terra (o cravo romano.)
[Página 15]2º. Quanto á sua divisaõ, e forma diz-se:
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.
Fibrosa (fibrosa, fibrata), quando consta somente de radiculas delgadas, e se diz capillar (capillacea, capillata, schirrata, comosa), se as radiculas saõ finissimas e bastas, como nas lentilhas d'agoa e alguns gramineos; filiforme (filamentosa, filiformis), se as dictas radiculas saõ como fios hum tanto grossos, como as da violetta e quejadilho. Alguns lhes daõ o nome de retiformes (retiformes), se ellas se enredaõ a maneira de rede.
Fusiforme (fusiformis), se he polposa, perpendicular, oblonga, adelgaçando pouco a pouco para a sua extremidade inferior, de modo que se assemelha a hum fuso (a cenoira e rabaõ). Turbinada (turbinata) quando he conica verticalmente, ou se assemelha a hum piaõ bailando (como alguns nabos).
Globosa (globosa), quando tem huma forma quasi espherica (ranunculus bulbosus). Pode ser tanto bolbosa como tuberosa.
Troncada (truncata, praemorsa), quando he simplez, e naõ termina em ponta, mas antes parece como retraçada ou cortada transversalmente (scabiosa succisa.)
Fasciculada (fascicularis, fasciculata), quando consta de partes carnudas, bolbosas, ou tuberosas approximadas, e adunadas na extremidade superior [Página 16] junto da base do tronco (orchis abortiva, ranunculus ficaria, paeonia). Alguns lhe chamaõ taõbem grumosa (grumosa), como sendo disposta por grumos quer sejaõ rentes quer dependurados, como nos ranunculos, anemones, e abrotea.
Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia). Todas estas raizes saõ bolbos bastardos.
Articulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata). Nodosa (nodosa), quando he carnuda e tem varias protuberancias (scrophularia nodosa). Alguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.
Escamosa (squamosa), quando he guarnecida de tunicas ou producções
escamosas quer estas sejaõ obtusas quer pontudas, ou imbricadas, ou
distantes, ou finas e membranosas , ou cascos da consistencia da raiz , e hum tanto succulentos (dentaria pentaphyllos). Nota
A raiz denteada (dentata), que se diz ordinariamente
ter producçoẽs pontudas, direitas, curtas, da consistencia da raiz , laxas e distantes, he huma verdadeira raiz escamosa, e a Oxalis acetosella que se dà
por exemplo, o demostra evidentemente: assim como as escamas
pontudas dos caules senaõ chamaõ dentes, do mesmo modo devem ser
as das raizes , e este he
o meyo de evitar termos desnecessarios.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata). Estes graõs saõ pequenos bolbos bastardos.
Entre as raizes herbaceas
ordinariamente mais grossas do que o tronco ha humas a que se deo o nome
de tuberosas, e a outras o de bolbosas. A raiz tuberosa (tuberosa) he a que consta de huma ou mais
tuberas (tubera); as tuberas saõ corpos carnudos, farinhosos, de varia
figura Nota
Ordinariamente saõ hum tanto globosas.
A raiz bolbosa (bulbosa) he a que Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao
lado dos antigos. Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ
dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum
tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos,
patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos,
aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto
fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so
merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da
natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos
nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de
muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas
bolbosas. Nota
Vej. as palayras bulbus e bulbosus no nosso Diccion. Nota
Nota
O termo caput significa taõbem nos escritos de alguns Botanicos a
cabeça ou golla da raiz , que he a parte extrema
superior que se acha hum pouco fora da terra, donde nascem as folhas radicaes, e
comeca o tronco; esta golla he assaz bem distincta no rabaõ, e
algumas outras raizes ;
porem em hum grande numero dellas naõ se distingue golla alguma,
e o ponto de separaçaõ entre o tronco e a raiz he
muito arbitrario.
3º. Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:
Annual (annua), quando perece com o seu tronco annualmente, devendo-se tanto ella como a sua especie propagar por meyo de sementes, tal he a do trigo, feijoeiro, &c. Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎. Biennal (biennis) quando vegeta no primeiro anno, no segundo o seu tronco fructifica, e ambos nelle [Página 20] perecem (tragopogon), ella he indicada com o sinal ♂. Vivace ou perennal (perennis), quando dura viva na terra mais de dois annos, lançando ou brotando de seus gomos troncos novos, como he a da hera terreste, a da violetta, &c.: he indicada pelo sinal ♃. Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .
A raiz he hum organo nutritivo apegado a terra Nota
As lentilhas d'agoa (lemna) naõ costumaõ estar apegadas a terra;
saõ fluctuantes, e as suas raizes encravadas n'agoa mudaõ a cada instante de
lugar. Em hum grande numero de algas naõ se sabe o que deve ter o nome
de raiz , nem pela forma nem pela estructura
interna, e semelhantes plantas tiraõ igual nutriçaõ por toda a
sua superficie. Algumas plantas parasitas (plantae parasiticae), taes como a
cuscuta, viscum, &c. naõ saõ apegadas a terra, ellas estaõ
aferradas a outros vegetaes, delles tiraõ a sua nutriçaõ, e ás
vezes os fazem morrer de marasmo. Em fim ha plantas que passaõ por ser destituidas inteiramente de raiz , sem embargo de estarem todas cobertas de
terra como a maçan de porco: a lemna arhira, que esta encostada
ao lume d'agoa, taõbem naõ tem raiz alguma. Nota
Nas raizes lenhosas ha
alburno da mesma sorte que no tronco, mas nas plantas herbaceas
annuaes, em que naõ ha aros concentricos, naõ se devisa alburno
algum, e o nome de lenho naõ me parece proprio das raizes que se corrompem
annualmente, em algumas o denominado lenho he verdadeiramente
huma substancia medullar.
As raizes em geral constaõ de
cuticula, casca, lenho, e medulla. Ordinariamente humas saõ mais
delgadas do que o tronco, outras saõ consideravelmente mais grossas. Humas e
outras podem ser consideradas, ou como simplices ou como compostas. Toda
a raiz simples (simplex), he indivisa e naõ lança
ramificaçoẽs algumas nos lados do seu troço; pelo contrario a composta
(composita) lança muitos ramos ao longo do seu troço: para disto se
poder formar clara idea, he precizo reconhecer no commum das plantas
duas sortes de troços continuados hum com outro, a saber, o troço
descendente e ascendente. O troço descendente das plantas (caudex descendens), em huma accepçaõ
extensa he qualquer raiz ; em hum sentido estricto, he a
parte mais grossa [Página 14] da raiz , a que alguns chamaõ taõbem o troço materno, do
qual nascem lateralmente ramos, que lançaõ varias radiculas Nota
Fibrillae, radiculae, taõbem se dá o nome de radicula á parte
inferior da plantula seminal, ou corculo quando começa a
germinar.
1º. A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:
A raiz quanto á sua direcçaõ diz-se ser:raizHorizontal (horizontalis), quando se estende transversalmente ou corre quasi parallela com a superficie da terra (como a dos lirios e escalracho.)
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.
Reptante ou serpentante, (reptans, s. repens), se he horizontal e corre lançando radiculas em varias distancias (hortelan, e escalracho): diz-se ser estolhosa (stolonifera) quando lança estolhos; os estolhos (stolones) saõ troncos herbaceos, quasi nus de folhas , sem juntas, serpertantes, ou estrados (ajuga reptans hieracium pilosella), se estes estolhos saõ longos, daõlhes o nome de verdascas (flagella) como no morangueiro, e rubus saxatilis.folhasPerpendicular ou aprumada (perpendicularis), quando se encrava a prumo pela terra abaxo (a cenoira, e rabaõ.)
Obliqua (obliqua, inclinata), quando tem huma direcçaõ esguelhada, ou se encrava obliquamente ao horizonte ou superficie da terra (o cravo romano.)
[Página 15]2º. Quanto á sua divisaõ, e forma diz-se:
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.
Ramosa (ramosa), quando he composta de muitos ramos lateraes que sahem do troço materno (a ortiga e muitas arvores ): ella he ás vezes forquilhosa (dichotoma) dividindo-se quasi sempre em dois ramos como forcados.arvoresFibrosa (fibrosa, fibrata), quando consta somente de radiculas delgadas, e se diz capillar (capillacea, capillata, schirrata, comosa), se as radiculas saõ finissimas e bastas, como nas lentilhas d'agoa e alguns gramineos; filiforme (filamentosa, filiformis), se as dictas radiculas saõ como fios hum tanto grossos, como as da violetta e quejadilho. Alguns lhes daõ o nome de retiformes (retiformes), se ellas se enredaõ a maneira de rede.
Fusiforme (fusiformis), se he polposa, perpendicular, oblonga, adelgaçando pouco a pouco para a sua extremidade inferior, de modo que se assemelha a hum fuso (a cenoira e rabaõ). Turbinada (turbinata) quando he conica verticalmente, ou se assemelha a hum piaõ bailando (como alguns nabos).
Globosa (globosa), quando tem huma forma quasi espherica (ranunculus bulbosus). Pode ser tanto bolbosa como tuberosa.
Troncada (truncata, praemorsa), quando he simplez, e naõ termina em ponta, mas antes parece como retraçada ou cortada transversalmente (scabiosa succisa.)
Fasciculada (fascicularis, fasciculata), quando consta de partes carnudas, bolbosas, ou tuberosas approximadas, e adunadas na extremidade superior [Página 16] junto da base do tronco (orchis abortiva, ranunculus ficaria, paeonia). Alguns lhe chamaõ taõbem grumosa (grumosa), como sendo disposta por grumos quer sejaõ rentes quer dependurados, como nos ranunculos, anemones, e abrotea.
[Página 16]Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia). Todas estas raizes saõ bolbos bastardos.
Apalmada ou digitada (palmata, s. digitata), quando consta de partes carnudas, lobadas , hum tanto comprimidas, quasi iguaes, e adunadas junto da parte superior de modo que representaõ os dedos ou gadanhos de alguns animaes (orchis maculata): quando tem tres lobulos daõ-lhe muitas vezes o nome de quasi apalmada (sulpalmata) (como a orchis latifolia).digitadalobadasTodas estas raizes saõ bolbos bastardos.raizesArticulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata). Nodosa (nodosa), quando he carnuda e tem varias protuberancias (scrophularia nodosa). Alguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.
Articulada (articulata), quando tem juntas de espaço em espaço (o escalracho), estes epaços entre as juntas saõ chamados entrenos (internodia); quando as juntas saõ hum tanto inchadas, a raiz tem o nome de geniculada (geniculata).raizAlguns Botanicos daõ taõbem este nome ás raizes tuberosas da filipendula, e outras semelhantes, em razaõ das suas tuberosidades se assemelharem a nòs ou contas enfiadas.raizes Escamosa (squamosa), quando he guarnecida de tunicas ou producções
escamosas quer estas sejaõ obtusas quer pontudas, ou imbricadas, ou
distantes, ou finas e membranosas , ou cascos da consistencia da raiz , e hum tanto succulentos (dentaria pentaphyllos). Nota
A raiz denteada (dentata), que se diz ordinariamente
ter producçoẽs pontudas, direitas, curtas, da consistencia da raiz , laxas e distantes, he huma verdadeira raiz escamosa, e a Oxalis acetosella que se dà
por exemplo, o demostra evidentemente: assim como as escamas
pontudas dos caules senaõ chamaõ dentes, do mesmo modo devem ser
as das raizes , e este he
o meyo de evitar termos desnecessarios.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata). Estes graõs saõ pequenos bolbos bastardos.
Granulosa (granulata), consta de pequenos graõs hum tanto globosos, succulentos , de substancia compacta, aggregados, e rentes, ou quasi rentes com o tronco (saxifraga granulata).succulentos Entre as raizes herbaceas
ordinariamente mais grossas do que o tronco ha humas a que se deo o nome
de tuberosas, e a outras o de bolbosas. A raiz tuberosa (tuberosa) he a que consta de huma ou mais
tuberas (tubera); as tuberas saõ corpos carnudos, farinhosos, de varia
figura Nota
Ordinariamente saõ hum tanto globosas.
A raiz bolbosa (bulbosa) he a que Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao
lado dos antigos. Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ
dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum
tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos,
patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos,
aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto
fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so
merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da
natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos
nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de
muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas
bolbosas. Nota
Vej. as palayras bulbus e bulbosus no nosso Diccion. Nota
Nota
O termo caput significa taõbem nos escritos de alguns Botanicos a
cabeça ou golla da raiz , que he a parte extrema
superior que se acha hum pouco fora da terra, donde nascem as folhas radicaes, e
comeca o tronco; esta golla he assaz bem distincta no rabaõ, e
algumas outras raizes ;
porem em hum grande numero dellas naõ se distingue golla alguma,
e o ponto de separaçaõ entre o tronco e a raiz he
muito arbitrario.
Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao lado dos antigos.
Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos, patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos, aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas bolbosas.
Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao lado dos antigos.
Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos, patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos, aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas bolbosas.
Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao lado dos antigos.
Estes termos daõ-se taõbem aos bolbos novos, que nascem ao lado dos antigos.Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos, patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos, aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da natureza farinhosa e tuberosa. Taõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas bolbosas.
Na familia das orchideas as partes carnudas da raiz saõ chamadas bolbos, e lhes costumaõ dar os epithetos differenciaes de ovados, redondos, hum tanto redondos, apalmados, hum tanto apalmados, rectos, patentes, indivisos, globosos, comprimidos, flexuosos, aggregados ou fasciculados, denteados, fibrosos, hum tanto fibrosos, filiformes, &c. mas semelhantes producçoẽs so merecem o nome de bolbos bastardos por participarem da natureza farinhosa e tuberosa.raizTaõbem senaõ devem por no numero das verdadeiras raizes bolbosas as dos nabos, bryonia, golfaõ, paõ de porco, cogumelos, e as de muitas outras plantas que saõ impropriamente denominadas bolbosas.raizesOs horteloẽs [Página 19] e jardineiros daõ ordinariamente aos verdadeiros bolbos o nome de cebolas ou cabeças (capita3º. Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:
Quanto á duraçaõ a raiz diz se ser:raizAnnual (annua), quando perece com o seu tronco annualmente, devendo-se tanto ella como a sua especie propagar por meyo de sementes, tal he a do trigo, feijoeiro, &c. Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎. Biennal (biennis) quando vegeta no primeiro anno, no segundo o seu tronco fructifica, e ambos nelle [Página 20] perecem (tragopogon), ella he indicada com o sinal ♂. Vivace ou perennal (perennis), quando dura viva na terra mais de dois annos, lançando ou brotando de seus gomos troncos novos, como he a da hera terreste, a da violetta, &c.: he indicada pelo sinal ♃. Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .
Esta sorte de raizes he indicada nas obras dos Botanicos com o sinal ☉︎.raizes[Página 20]Todas as raizes dos subarbustos, arbustos, e arvores saõ do numero das vivaces, como se entende facilmente, e porisso senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs; as raizes arbustivas (fruticosae), saõ indicadas por alguns autores com o sinal ♄ .raizesarvoresraizesO tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.
Os antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.
Em hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla. Quando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.
As especies de tronco saõ: caule, hastea, colmo, espique, e surculo Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os
peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ
para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ
flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus),
e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a
que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos
radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das
hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco;
so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou
especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser
inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda,
se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como
senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do
Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que
tem com o espique do bolor (mucor mucedo). Nota
O caule (caulis) he huma especie de tronco ordinariamente guarnecido de folhas Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo
postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas
nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da
definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de
Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta. Nota
A hastea (scapus) he huma especie de tronco herbaceo ou levantado ou
obliquo, e inteiramente [Página 22] desguarnecido de folhas Nota
A hastea pode terminar em huma ou muitas flores, em espigas,
racimos e paniculas, e por conseguinte ser ramosa. Lê-se nalgumas descripçoẽs de plantas herbaceas e levantadas:
caule sem folhas , ou nu
de folhas (caulis
aphyllus, s. nudus) hastea bifolia, hastea folhosa; mas estes
termos saõ ambiguos e improprios, porque no primeiro cazo o
tronco he huma hastea, e no segundo he hum caule. Pela mesma razaõ me parece taõbem ser desnecessario dizer: hastea
sem folhas (scapus
aphyllus). Ha plantas que podem ter duas sortes de troncos, isto he, caule e
hastea como a pilosella e morangueiro. Algumas especies de Osmunda tem hastea e espique ao mesmo tempo,
segundo alguns autores, mas como neste cazo a folha naõ fructifica, parece que se deve conservar o nome de peciolo
ao seu pé, dar o nome de hasteas aos pedunculos radicaes, e
chamar simplesmente pedunculos aos que nascem do espique muito
acima da superficie da terra.
O colmo (culmus) he huma especie de tronco proprio dos gramineos, e
plantas analogas a elles, como he o do trigo, caneira, junco, &c. em
humas plantas he occo, em outras esponjoso, ou geniculado ou sem nos,
com folhas ou sem ellas,
ramoso, ou simplicissimo, herbaceo ou arbustivo; em huma palavra, he
huma hastea ou caule a que os Botanicos quizeraõ dar o nome de colmo por
ser hum tronco dos grames, e plantas que lhes saõ naturalmente analogas Nota
Donde resulta que para naõ errarmos nas descripçoẽs que fizermos,
dando o nome de caule ou hastea a huma planta que tem colmo, he
precizo termos ideas claras dos caracteres principaes que
constituem a familia natural dos gramineos; ainda que naõ he
este o proprio lugar de fallar nesta materia, direi contudo de
passagem que os principaes caractéres desta familia consistem
nas folhas planas,
lineares, pontudas, flexiveis, em forma de fitta, compostas de
fibras parallelas, e ordinariamente envaginantes; os tegumentos
dos organos sexuaes, chamados casulos, saõ certas escamas
paleaceas denominadas valvulas, o calyx tem duas ordinariamente,
e raras vezes huma, tres ou mais; a corolla tem ordinariamente
duas valvulas, das quas a interior he menor, e raras vezes tem
huma so; o fructo he huma semente sem pericarpo
(excepto o esparto, segundo Linneo), e a sua substancia he
farinhosa.
O espique (stipes) he huma especie de tronco proprio dos fetos e fungos;
nos primeiros he semelhante a hum peciolo, e nos segundos a hum
pedunculo radical ou hastea Nota
Linneo da taõbem o nome de espique aos peciolos das folhas das palmeiras, mas
como ellos naõ elevaõ de modo algum a fructificaçaõ destes
vegetaes, alguns modernos naõ admittem nellas esta especie de
tronco, e conservaraõ o nome de peciolo aos seus pés, dando o
nome de caule simplez ao troço, que se eleva sobre a terra,
terminado no cume por folhas e fructificaçaõ em espadice.
O surculo (surculus) he huma especie de tronco proprio dos musgos, o seu troço he filiforme, guarnecido sempre de foliolos, ou de escamas persistentes e de varia forma; ás vezes he simplez, outras vezes ramoso, ora he reptante ou estirado ora levantado. Ha algumas especies de jungermannia, nas quaes o tronço he hum surculo, e nisto saõ verdadeiramente analogas aos musgos.
Toda a planta que tem tronco he denominada entronquecida (caulescens), e destronquecida (acaulis) senaõ tem tronco algum (carlina acaulis). Muitas [Página 24] vezes se da taõbem este ultimo nome às que tem hum tronco curtissimo, e quasi cozido com a terra
1º. O tronco em geral pode ser considerado segundo differentes relaçoẽs; quanto à sua duraçaõ e substancia diz-se ser:
Herbaceo (herbaceus), se naõ he lenhoso e perece annualmente (a chicoria, e o ranunculo).
Subarbusteo (suffruticosus), quando os seus ramos annualmente se seccaõ, e naõ tem gomos alguns athe a base, ou so a sua parte inferior junto della persiste viva, donde brota na primavera (a dulcamára, tomilho, gilbarbeira, salva, e alfazema). Este tronco he quasi lenhoso.
Arbusteo ou arbustivo (fruticosus), quando pertence a huma raiz lenhosa, da qual todos os annos brotaõ muitos
troncos, que senaõ secçaõ nem morrem annualmente nem se elevaõ a altura
das arvores ordinarias Nota
He difficil de dar huma boa definicaõ dos arbustos e arvores ,
nascendo isto de que a divisaõ das plantas lenhosas em arbustos
e arvores naõ he natural porquanto a naturera naõ poz limites entre elles,
mas taõ somente a opiniaõ do vulgo. Linneo diz que a unica destinçaõ que pode haver he de dar o nome
de arvores ás que tem gomos, e o de arbustos ás que os
naõ tem; a seguir este parecer, muitas arvores ficariaõ sendo
arbustos, e muitos arbustos seriaõ arvores , o que naõ tem
sido athe agora adoptado nas descripçoẽs botanicas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c. Quando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.
Compacto ou mociço (solidus), que naõ he tubuloso, nem consta de huma substancia porosa, encortiçada, e balofa, nem tem huma medulla esponjosa, mas antes mal se lhe pode divisar a medulla (o acipreste, e oliveira).
Esponjoso (inanis, s. spongiosus), quando consta de huma substancia balofa e esponjosa, ou tem huma larga medulla esponjosa (o milho e o sabugueiro).
Repleto (farctus), quando he compacto, ou esponjoso, de modo que se lhe naõ divisa tubo algum (o acipreste e sabugueiro).
Tubuloso (fistulosus, s. tubulosus), quando he occo como hum canudo (o phellandrium aquaticum, conium maculatum, e a cebola.)
2º Considerado quanto à sua medida diz-se ser:
De meya pollegada de alto (unguicularis, semiuncialis, s. unguem longus); de
huma pollegada de alto (uncialis, s. pollicaris); de pollegada e meya de
alto (sesquiuncialis); de maõ travessa de alto (palmaris, palmum longus); de
hum palmo (dodrantalis, dodrantem longus); de sette pollegadas (spithameus);
de hum pé (pedalis); de desasette pollegadas, ou de hum covado natural
(cubitalis); do comprimento de hum braço, ou de vinte o quatro [Página 26] pollegadas (brachialis); de huma braça, ou de seis pés (orgyalis). Quanto
á sua grossura diz-se ser: da grossura de hum cabello ou da duodecima parte
de huma linha (capillaris); de huma linha de diametro ou da duodecima parte
de huma pollegada (linearis); de duas, tres linhas, &c. de largo; de
meya pollegada, de huma pollegada de largo, &c. Todas estas medidas se
podem augmentar á proporçaõ da altura e grossura do tronco, dizendo-se por
ex. ser de trez, oito, vinte braças de alto, &c. Todas ellas se devem
entender na razaõ de pouco mais ou menos, vistoque as plantas
relativamente a ellas variaõ muito, segundo o terreno, clima, lugares
mais ou menos abrigados, &c. Nota
Alguns o denominaõ grosso, delgado, curto, muito alto, grande,
pequeno, comparando-o idealmente com as folhas e outras partes da planta; mas
estas ideas saõ vagas, a naõ declararmos juntamente a parte com
que o comparamos.
3º Quanto á direcçaõ he denominado:
Levantado (erectus, arrectus), quando he quasi perpendicular ao plano da terra, ou forma com elle quasi hum angulo recto (o verbasco): he o contrario de obliquo, postrado, e voluvel.
Direito (rectus, strictus), quando he impertigado, sem tortuosidades algumas, e forma com o plano da terra hum angulo recto (o junco, e o helianthus altissimus). He hum tronco perfeitamente levantado, e alem disso he opposto ao caule tortuoso, fraco, e a quaesquer outros que tem curvaturas.
Fraco (laxus, flaccidus, debilis), quando por ser delgado ou de flexivel contextura bambolea, e abana facilmente em varias direcçoẽs.
[Página 27]Rijo (rigidus), he firme, naõ bambolea facilmente, e tem huma tezidaõ hum tanto elastica de maneira que se o curvamos, se levanta immediatamente (algumas junças).
Obliquo ou esguelhado (obliquus), quando esta posto de esguelha, apartando-se quasi tanto do plano da terra, como da linha perpendicular ao dicto plano (lathyrus aphaca).
Remontante ou realçado (ascendens), quando sendo primeiramente obliquo, postrado, ou parallelo á terra se revira para cima em arco (vicia cracca, viola canina).
Reclinado (reclinatus, declinatus, inclinatus), quando levantando-se primeiramente hum tanto de es guelha começa a descahir para a terra, prolongando-se em arco, ou formando huma curva assaz aberta; mas a sua ponta fica levantada de maneira que figura quasi hum postrado 𝆗 (convolvulus tricolor, potentilla aurea).
Incurvado (incurvatus, inflexus), quando se levanta direito e arquea na parte superior (juncus inflexus).
Acenoso (nutans), quando tem a ponta dobrada para baxo, ou dependurada perpendicularmente (juncus filiformis).
Postrado ou estirado (procumbens), quando em rasaõ da sua fraqueza jaz deitado horizontalmente sobre a terra, sem contudo nella lançar raizes (o murriaõ, a parietaria lusitanica, a semprenoiva.)
Descahido (decumbens), quando primeiramente se eleva hum pouco, e depois cahe sobre a terra, onde alastra mais ou menos (o serpaõ).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).
Sarmentoso (sarmentosus), quando lança muitas varas nodosas (chamadas sarmentos), as quaes tocando na terra, ou corpos vizinhos, nelles arraigaõ pelas suas juntas (a videira, legacam, e clematis vitalba).
Reptante ou serpentante (reptans, repens) quando he postrado, longo, mais ou menos ramoso, e lança amiudo sobre a terra varias radiculas (a potentilla, e a lysimachia nummularia). Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c. A hera humas vezes he reptante, outras raigotosa; donde resulta que estes dois termos indicaõ a mesma coiza em differentes lugares.
Articulado (articulatus), quando tem juntas destribuidas de distancia em
distancia Nota
Este termo toma-se ás vezes taõbem por geniculado, mas o
melhor he applicalo somente aos caules que tem juntas sem serem
nodosas, e taõbem quando so dependem do tacto para se reconhecerem,
(como as do juncus articulatus, e cyperus articulatus). As juntas
saõ chamadas articulationes, articuli, juncturae, e quando, saõ
nodosas genicula, nodi. Linneo da ordinariamente o nome de articulus
ás entrejuntas, mas hum grande numero de Botanicos antigos e
modernos daõ a este termo a significaçaõ de junta.
Tortuoso (flexuosus), quando he ondeado ou como colombrino, formando nas juntas ou lugar dos gomos pontas angulosas, e alternadas ora para hum ora para outro lado (o legacam, e dulcamára).
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba). Quando elle chupa a substancia da planta em que se segura ou por meyo de suas radiculas, ou de qualquer modo que seja, daõ-lhe o nome de parasito (parasiticus) como he o da hera e cuscuta. Se elle se enrosca á roda dos corpos vizinhos, prolongando-se sempre espiralmente, daõ-lhe o nome de voluvel ou encaracolado (volubilis), e o dizem ser encaracollado á direita, (dextrorsum, s. contra motum solis) se a primeira rosca inferior começa pela banda direita, da direita para á esquerda ou do poente para o nascente (o feijoeiro, e a verdeselha); encaracollado à esquerda (sinistrorsum, s. secundum motum solis), se a sua primeira rosca segue huma direcçaõ contraria á precedente (o luparo, madresylva, e norça preta). Para podermos determinar estas direcçoẽs he precizo suppormo-nos estar dentro das roscas com a cara para o sul.
4º Quanto á figura diz-se ser:
Cylindrico ou roliço (teres, cylindricus), quando [Página 30] se assemelha a hum rolo, naõ tendo angulos alguns (a tulipa, e pinheiro); quasi cylindrico (subcylindricus), quando se approxima quasi á figura de hum rolo (allium molly); semicylindrico (semiteres) se he plano de huma banda e convexo da outra, ou como a metade de hum rolo partido longitudinalmente (allium ursinum).
Comprimido (compressus), se he hum tanto chato de duas bandas em todo o seu comprimento, ou parece como esmagado nos dois lados oppostos (poa compressa, potamogetum compressum).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).
Anguloso (angulatus), se tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos
angulos, diz-se ser triangular, quadrangular, de cinco, seis, ou muitos
angulos (tri- quadr- quinq- sex- mult- angularis Nota
Os termos de
trigonus - polygonus tem ordinariamente huma accepçaõ synonyma de
triangularis - multangularis; mas alguns botanicos usaõ dos
primeiros para significar angulos hum tanto embotados.
Segundo o numero dos lados planos que tem, diz-se ser: de tres, quatro, cinco lados, &c. [Página 31] (tri-quadri-quinqueter, &c. ou taõbem tri-quadri-quinquelaterus, &c.)
5º. Considerado quanto á sua superficie diz-se ser:
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.
Esfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.
Nû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias. Este termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem. Diz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .
Envaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).
Escamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).
Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).
Encortiçado (suberosus), quando a sua casca he branda, elastica, toda cortiça ou semelhante a ella na qualidade (o sobereiro, e passiflora suberosa).
Gretado (rimosus), quando tem no exterior da sua casca muitas gretas abertas irregularmente.
Entunicado (tunicatus), quando a sua casca he [Página 32] coberta de differentes membranas applicadas humas sobre outras.
Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).
Estriado ou riscado (striatus), quando tem longitudinalmente muitos riscos na superficie da sua casca; estas estrias saõ superfiçiaes, e mais ou menos distantes (genista tinctoria).
Regoado (sulcatus), quando tem longitudinalmente regos, ou riscos largos e profundos na sua casca (a milfolha, e aipo).
Glabro (glaber), quando a sua superficie naõ tem escabrosidades nem pelos
alguns, mas he liza ou polida (a abrotea, e cebolla alvarran) Nota
He a
mesma coiza que lizo, e nû de pelos e excrescencias.
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).
Echinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).
Cotanoso ou cotanilhoso (tomentosus) se a sua superficie esta coberta de hum cotaõ ordinariamente branco, finissimo, curtissimo, e de tal sorte tecido que os seus pelos mal se podem separadamente distinguir sem lente (a cineraria maritima).
Lanudo (lanatus), quando a sua superficie esta [Página 33] coberta de pelos longos, bastos, curvados, e tecidos huns com outros á maneira de huma tea de aranha, como visivelmente se conhece sem lente (na ballota lanata, e onopordum acanthium).
Peludo ou hirsuto (pilosus, hirsutus, s. hirtus) Nota
As differenças, que
se fazem ordinariamente destes tres termos, so servem de embarassar
os principiantes, e porisso os naõ distingui aqui.
Felpudo ou aveludado (villosus), quando tem pelos bastos, approximados, macios ao tacto, naõ entrelaçados, e assaz bem visiveis sem lente (o çumagre.)
Hispido (hispidus), quando he salpicado de sedas finas, hum tanto rijas, rectas, distantes mais ou menos entre si, e mui quebradiças (echium vulgare).
Ardentoso (urens), he hispido, mas as suas sedas saõ venenosas, e chamadas ferroẽs, em razaõ de que penetrando a pelle nua causaõ nella ardor e inflammaçaõ (a urtiga.)
Aculeado (aculeatus), quando tem aculeos, ou espinhos, bastardos, na sua casca (a sylva, e roseira).
Espinhoso ou abrolhoso (spinosus), quando lança do seu lenho abrolhos ou espinhos proprios (o pirliteiro, e o abrunheiro bravo).
[Página 34]Estipuloso (stipulatus), quando he guarnecido de estipulas (o martyrio, todas as especies de polygonum, e a maior parte das leguminosas.)
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).
Bolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).
6º. Quanto á sua composiçaõ ou divisaõ diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se prolonga athe á ponta quasi sem ramos, ou tem ramos rarissimos quer na parte superior quer nos lados (a açucena, e scabiosa succisa): simplicissimo (simplicissimus, integer), quando he inteiramente indiviso, prolongando-se sem ter absolutamente ramo algum (o alho, e paris quadrifolia).
O tronco he composto todas as vezes que merece de ter o nome de subramoso ou ramoso. O subramoso (subramosus), he hum tronco quasi simplez em razaõ de ter poucos ramos lateraes (as esporas, e aquilegia); o ramoso (ramosus), tem muitos ramos lateraes (a beccabunga, e sherardia arvensis). Diz-se ramosissimo (ramosissimus), quando tem ramos numerosissimos, subdivididos, e amontoados sem ordem (gallium saxatile, e thalictrum faetidum); se todo elle naõ parece outra coiza mais do que huma panicula, ou que todos os seus ramos formaõ huma [Página 35] panicula, daõ-lhe o nome de paniculado (paniculatus), como he o da saxifraga cotyledon.
Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).
Patente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto. (Este termo he muitas vezes usado em lugar do seguinte). Derramado ou diffuso (diffusus), quando se divide em muitos ramos que formaõ entre si angulos quasi rectos (a fumaria, e hesperis tristis.)
Copado (fastigiatus), quando os seus ramos saõ approximados ou empilhados, chegaõ a igual altura, e formaõ huma copa anivelada, e fechada como huma moita (santolina chamaeciparissus).
Açarilhado (brachiatus), quando tem ramos oppostos, e o par superior cruza o inferior, como os braços de hum çarilho (a mercurial).
Forquilhoso ou forqueado (dichotomus), quando se divide sempre em dois ramos, em forma de forcado (valeriana locusta). Alguns o denominaõ triramoso (trechotomus), quando se divide sempre em tres ramos (o cardo penteador, e a verbena mexicana). A divisura ou ponta angular das divisoẽs do tronco forquilhoso he chamada bifurcaçaõ ou forqueadura (bifurcatio, s. dichotomia).
Vergonteado (virgatus), quando he delgado, fraco, flexivel, e se prolonga lançando muitas varinhas [Página 36] bastas, desiguaes, e da sua mesma qualidade ou fraqueza (artemisia campestris).
Prolifero (prolifer), quando he, pelo assim dizer, pontaramudo, lançando
ramos verticillados so na ponta, os quaes
saõ taõbem proliferos (como o pinheiro, e scabiosa prolifera Nota
Nestes dois exemplos se vê que o tronco prolifero pode ser ou
lenhoso ou herbaceo; mas ordinariamente o termo prolifero sò se
applica aos troncos lenhosos que daõ muitos gomos nas
pontas.
Diz-se em fim ser disticado (distichus), se tem ramos disticados; e esteiado (fulcratus), quando se esteia em seus ramos ou tem ramos esteiados: estes termos seraõ melhor explicados no artigo seguinte.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Levantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
O tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.
O tronco he o troço ascendente, ou a parte que se eleva immediamente sobre a raiz , destinado ao engrandecimento da planta, e a terminar pela fructificaçaõ.troncoraizOs antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.
Os antigos davaõ o nome de tronco (truncus) ao troço ascendente das plantas lenhosas, e o de caule ou talo (caulis) ao das herbaceas; mas hoje a palavra tronco está adoptada por hum termo geral de que o caule he huma especie, de maneira que se pode dizer com igual propriedade de termo, que o choupo tem hum caule lenhoso, como se pode dizer, que a alface tem hum caule herbaceo.troncotroncoEm hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla. Quando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.
Em hum grande numero de troncos ha, como nas raizes , epiderme, casca, alburno, lenho, e medulla.raizesQuando o tronco lança ramos lateralmente, a parte [Página 21] mais grossa, e media desde a base athe ao topo he chamada troço materno.[Página 21] As especies de tronco saõ: caule, hastea, colmo, espique, e surculo Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os
peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ
para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ
flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus),
e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a
que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos
radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das
hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco;
so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou
especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser
inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda,
se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como
senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do
Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que
tem com o espique do bolor (mucor mucedo). Nota
Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus), e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco; so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda, se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que tem com o espique do bolor (mucor mucedo).
Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus), e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco; so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda, se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que tem com o espique do bolor (mucor mucedo).
Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus), e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a que chama partes do tronco e naõ tronco. Quanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das hasteas. As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco; so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda, se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que tem com o espique do bolor (mucor mucedo).
Linneo admitte taõbem como especies de tronco os peciolos das folhas , os peduncusos, e frondes; quanto aos peciolos naõ conheço razaõ para lhes poder chamar troncos, ainda mesmo os que sostêm folhas que daõ flores e fructos como nas especies de gilbarbeira (ruscus), e os excluo pelo mesmo motivo que elle excluio os ramos, a que chama partes do tronco e naõ tronco.folhasfolhasQuanto aos pedunculos so pode haver duvida a respeito dos radicaes, mas estes podem ser reduzidos ao numero das hasteas.As frondes nos fetos saõ parte do tronco, e naõ hum tronco; so pode haver duvida quanto a alguns generos de Algas ou especies de Lichen, Fucus, &c. que parecem ser inteiramente frondes, mas os botanicos naõ decidiraõ ainda, se ellas mereciaõ mais o nome de tronco que o de raiz ou folha , assim como senaõ decidio ainda se os fios dos limos e a lanugem do Bissus saõ huma especie de tronco, apezar da analogia que tem com o espique do bolor (mucor mucedo).raizfolha O caule (caulis) he huma especie de tronco ordinariamente guarnecido de folhas Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo
postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas
nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da
definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de
Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta. Nota
Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta.
Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta.
Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta.
Quando o caule pertence a hum subarbusto, arbusto, ou arvore , quando elle he herbaceo postrado ou reptante, algumas vezes fructifica sem ter folhas algumas, mas nem porisso deve ser chamado hastea (como se collige da definiçaõ que della dou); taes saõ algumas especies de Euphorbia, Cactus, Ephedra, Stapelia, Asparagus e Cuscuta.arvorefolhasAs verdascas e estolhos de que fallei no capitulo precedente saõ especies de caules herbaceos sem articulaçoẽs nodosas, e os sarmentos (sarmenta) saõ caules lenhosos ou herbaceos, de folhas hum tanto remotas, geniculado, lançando raizes nas articulaçoes nodozas, como saõ os da videira e escalracho.folhasraizes A hastea (scapus) he huma especie de tronco herbaceo ou levantado ou
obliquo, e inteiramente [Página 22] desguarnecido de folhas Nota
A hastea pode terminar em huma ou muitas flores, em espigas,
racimos e paniculas, e por conseguinte ser ramosa. Lê-se nalgumas descripçoẽs de plantas herbaceas e levantadas:
caule sem folhas , ou nu
de folhas (caulis
aphyllus, s. nudus) hastea bifolia, hastea folhosa; mas estes
termos saõ ambiguos e improprios, porque no primeiro cazo o
tronco he huma hastea, e no segundo he hum caule. Pela mesma razaõ me parece taõbem ser desnecessario dizer: hastea
sem folhas (scapus
aphyllus). Ha plantas que podem ter duas sortes de troncos, isto he, caule e
hastea como a pilosella e morangueiro. Algumas especies de Osmunda tem hastea e espique ao mesmo tempo,
segundo alguns autores, mas como neste cazo a folha naõ fructifica, parece que se deve conservar o nome de peciolo
ao seu pé, dar o nome de hasteas aos pedunculos radicaes, e
chamar simplesmente pedunculos aos que nascem do espique muito
acima da superficie da terra.
O colmo (culmus) he huma especie de tronco proprio dos gramineos, e
plantas analogas a elles, como he o do trigo, caneira, junco, &c. em
humas plantas he occo, em outras esponjoso, ou geniculado ou sem nos,
com folhas ou sem ellas,
ramoso, ou simplicissimo, herbaceo ou arbustivo; em huma palavra, he
huma hastea ou caule a que os Botanicos quizeraõ dar o nome de colmo por
ser hum tronco dos grames, e plantas que lhes saõ naturalmente analogas Nota
Donde resulta que para naõ errarmos nas descripçoẽs que fizermos,
dando o nome de caule ou hastea a huma planta que tem colmo, he
precizo termos ideas claras dos caracteres principaes que
constituem a familia natural dos gramineos; ainda que naõ he
este o proprio lugar de fallar nesta materia, direi contudo de
passagem que os principaes caractéres desta familia consistem
nas folhas planas,
lineares, pontudas, flexiveis, em forma de fitta, compostas de
fibras parallelas, e ordinariamente envaginantes; os tegumentos
dos organos sexuaes, chamados casulos, saõ certas escamas
paleaceas denominadas valvulas, o calyx tem duas ordinariamente,
e raras vezes huma, tres ou mais; a corolla tem ordinariamente
duas valvulas, das quas a interior he menor, e raras vezes tem
huma so; o fructo he huma semente sem pericarpo
(excepto o esparto, segundo Linneo), e a sua substancia he
farinhosa.
O espique (stipes) he huma especie de tronco proprio dos fetos e fungos;
nos primeiros he semelhante a hum peciolo, e nos segundos a hum
pedunculo radical ou hastea Nota
Linneo da taõbem o nome de espique aos peciolos das folhas das palmeiras, mas
como ellos naõ elevaõ de modo algum a fructificaçaõ destes
vegetaes, alguns modernos naõ admittem nellas esta especie de
tronco, e conservaraõ o nome de peciolo aos seus pés, dando o
nome de caule simplez ao troço, que se eleva sobre a terra,
terminado no cume por folhas e fructificaçaõ em espadice.
O surculo (surculus) he huma especie de tronco proprio dos musgos, o seu troço he filiforme, guarnecido sempre de foliolos, ou de escamas persistentes e de varia forma; ás vezes he simplez, outras vezes ramoso, ora he reptante ou estirado ora levantado. Ha algumas especies de jungermannia, nas quaes o tronço he hum surculo, e nisto saõ verdadeiramente analogas aos musgos.
Toda a planta que tem tronco he denominada entronquecida (caulescens), e destronquecida (acaulis) senaõ tem tronco algum (carlina acaulis). Muitas [Página 24] vezes se da taõbem este ultimo nome às que tem hum tronco curtissimo, e quasi cozido com a terra
[Página 24]1º. O tronco em geral pode ser considerado segundo differentes relaçoẽs; quanto à sua duraçaõ e substancia diz-se ser:
Herbaceo (herbaceus), se naõ he lenhoso e perece annualmente (a chicoria, e o ranunculo).
Subarbusteo (suffruticosus), quando os seus ramos annualmente se seccaõ, e naõ tem gomos alguns athe a base, ou so a sua parte inferior junto della persiste viva, donde brota na primavera (a dulcamára, tomilho, gilbarbeira, salva, e alfazema). Este tronco he quasi lenhoso.
Arbusteo ou arbustivo (fruticosus), quando pertence a huma raiz lenhosa, da qual todos os annos brotaõ muitos
troncos, que senaõ secçaõ nem morrem annualmente nem se elevaõ a altura
das arvores ordinarias Nota
He difficil de dar huma boa definicaõ dos arbustos e arvores ,
nascendo isto de que a divisaõ das plantas lenhosas em arbustos
e arvores naõ he natural porquanto a naturera naõ poz limites entre elles,
mas taõ somente a opiniaõ do vulgo. Linneo diz que a unica destinçaõ que pode haver he de dar o nome
de arvores ás que tem gomos, e o de arbustos ás que os
naõ tem; a seguir este parecer, muitas arvores ficariaõ sendo
arbustos, e muitos arbustos seriaõ arvores , o que naõ tem
sido athe agora adoptado nas descripçoẽs botanicas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c. Quando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.
Arboreo (arboreus), quando naõ perece durante muitos annos, tem hum troço lenhoso, e grosso, o qual se eleva altamente, nasce solitario e desacompanhado de outro, ou se tem outros ao seu lado [Página 25] que nascem da mesma raiz , saõ muito raros á proporçaõ dos que brota huma raiz arbustiva; taes saõ por ex. os do ulmeiro, pinheiro, choupos, &c.[Página 25]raizraizQuando as arvores se elevaõ athé a altura da estatura humana pouco mais ou menos, alguns autores costumaõ dar-lhes, o nome de arbusculos (arbuscula), para as destinguir das arvores summamente elevadas.arvoresarvoresCompacto ou mociço (solidus), que naõ he tubuloso, nem consta de huma substancia porosa, encortiçada, e balofa, nem tem huma medulla esponjosa, mas antes mal se lhe pode divisar a medulla (o acipreste, e oliveira).
Esponjoso (inanis, s. spongiosus), quando consta de huma substancia balofa e esponjosa, ou tem huma larga medulla esponjosa (o milho e o sabugueiro).
Repleto (farctus), quando he compacto, ou esponjoso, de modo que se lhe naõ divisa tubo algum (o acipreste e sabugueiro).
Tubuloso (fistulosus, s. tubulosus), quando he occo como hum canudo (o phellandrium aquaticum, conium maculatum, e a cebola.)
2º Considerado quanto à sua medida diz-se ser:
De meya pollegada de alto (unguicularis, semiuncialis, s. unguem longus); de
huma pollegada de alto (uncialis, s. pollicaris); de pollegada e meya de
alto (sesquiuncialis); de maõ travessa de alto (palmaris, palmum longus); de
hum palmo (dodrantalis, dodrantem longus); de sette pollegadas (spithameus);
de hum pé (pedalis); de desasette pollegadas, ou de hum covado natural
(cubitalis); do comprimento de hum braço, ou de vinte o quatro [Página 26] pollegadas (brachialis); de huma braça, ou de seis pés (orgyalis). Quanto
á sua grossura diz-se ser: da grossura de hum cabello ou da duodecima parte
de huma linha (capillaris); de huma linha de diametro ou da duodecima parte
de huma pollegada (linearis); de duas, tres linhas, &c. de largo; de
meya pollegada, de huma pollegada de largo, &c. Todas estas medidas se
podem augmentar á proporçaõ da altura e grossura do tronco, dizendo-se por
ex. ser de trez, oito, vinte braças de alto, &c. Todas ellas se devem
entender na razaõ de pouco mais ou menos, vistoque as plantas
relativamente a ellas variaõ muito, segundo o terreno, clima, lugares
mais ou menos abrigados, &c. Nota
Alguns o denominaõ grosso, delgado, curto, muito alto, grande,
pequeno, comparando-o idealmente com as folhas e outras partes da planta; mas
estas ideas saõ vagas, a naõ declararmos juntamente a parte com
que o comparamos.
3º Quanto á direcçaõ he denominado:
Levantado (erectus, arrectus), quando he quasi perpendicular ao plano da terra, ou forma com elle quasi hum angulo recto (o verbasco): he o contrario de obliquo, postrado, e voluvel.
Direito (rectus, strictus), quando he impertigado, sem tortuosidades algumas, e forma com o plano da terra hum angulo recto (o junco, e o helianthus altissimus). He hum tronco perfeitamente levantado, e alem disso he opposto ao caule tortuoso, fraco, e a quaesquer outros que tem curvaturas.
Fraco (laxus, flaccidus, debilis), quando por ser delgado ou de flexivel contextura bambolea, e abana facilmente em varias direcçoẽs.
[Página 27]Rijo (rigidus), he firme, naõ bambolea facilmente, e tem huma tezidaõ hum tanto elastica de maneira que se o curvamos, se levanta immediatamente (algumas junças).
Obliquo ou esguelhado (obliquus), quando esta posto de esguelha, apartando-se quasi tanto do plano da terra, como da linha perpendicular ao dicto plano (lathyrus aphaca).
Remontante ou realçado (ascendens), quando sendo primeiramente obliquo, postrado, ou parallelo á terra se revira para cima em arco (vicia cracca, viola canina).
Reclinado (reclinatus, declinatus, inclinatus), quando levantando-se primeiramente hum tanto de es guelha começa a descahir para a terra, prolongando-se em arco, ou formando huma curva assaz aberta; mas a sua ponta fica levantada de maneira que figura quasi hum postrado 𝆗 (convolvulus tricolor, potentilla aurea).
Incurvado (incurvatus, inflexus), quando se levanta direito e arquea na parte superior (juncus inflexus).
Acenoso (nutans), quando tem a ponta dobrada para baxo, ou dependurada perpendicularmente (juncus filiformis).
Postrado ou estirado (procumbens), quando em rasaõ da sua fraqueza jaz deitado horizontalmente sobre a terra, sem contudo nella lançar raizes (o murriaõ, a parietaria lusitanica, a semprenoiva.)
Descahido (decumbens), quando primeiramente se eleva hum pouco, e depois cahe sobre a terra, onde alastra mais ou menos (o serpaõ).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).
Estolhoso (stoloniferus), quando sahindo da [Página 28] primeira raiz , em mais ou menos distancia, lança novas raizes na terra, e neste lugar brota dois ou mais estolhos (o morangueiro, violetta, e ajuga reptans).[Página 28]raizSarmentoso (sarmentosus), quando lança muitas varas nodosas (chamadas sarmentos), as quaes tocando na terra, ou corpos vizinhos, nelles arraigaõ pelas suas juntas (a videira, legacam, e clematis vitalba).
Reptante ou serpentante (reptans, repens) quando he postrado, longo, mais ou menos ramoso, e lança amiudo sobre a terra varias radiculas (a potentilla, e a lysimachia nummularia). Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c. A hera humas vezes he reptante, outras raigotosa; donde resulta que estes dois termos indicaõ a mesma coiza em differentes lugares.
Se este mesmo caule em lugar de ser estirado sobre a terra trepa, e engatinha pelas arvores , paredes, ou rochas altas, aferrando-se a ellas por meyo das suas numerosas raigotas lateraes, daõ-lhe o nome de raigotoso (radicans) taes saõ os caules da bignonìa radicans, cissus quinquefolius, &c.arvoresArticulado (articulatus), quando tem juntas destribuidas de distancia em
distancia Nota
Este termo toma-se ás vezes taõbem por geniculado, mas o
melhor he applicalo somente aos caules que tem juntas sem serem
nodosas, e taõbem quando so dependem do tacto para se reconhecerem,
(como as do juncus articulatus, e cyperus articulatus). As juntas
saõ chamadas articulationes, articuli, juncturae, e quando, saõ
nodosas genicula, nodi. Linneo da ordinariamente o nome de articulus
ás entrejuntas, mas hum grande numero de Botanicos antigos e
modernos daõ a este termo a significaçaõ de junta.
Tortuoso (flexuosus), quando he ondeado ou como colombrino, formando nas juntas ou lugar dos gomos pontas angulosas, e alternadas ora para hum ora para outro lado (o legacam, e dulcamára).
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba). Quando elle chupa a substancia da planta em que se segura ou por meyo de suas radiculas, ou de qualquer modo que seja, daõ-lhe o nome de parasito (parasiticus) como he o da hera e cuscuta. Se elle se enrosca á roda dos corpos vizinhos, prolongando-se sempre espiralmente, daõ-lhe o nome de voluvel ou encaracolado (volubilis), e o dizem ser encaracollado á direita, (dextrorsum, s. contra motum solis) se a primeira rosca inferior começa pela banda direita, da direita para á esquerda ou do poente para o nascente (o feijoeiro, e a verdeselha); encaracollado à esquerda (sinistrorsum, s. secundum motum solis), se a sua primeira rosca segue huma direcçaõ contraria á precedente (o luparo, madresylva, e norça preta). Para podermos determinar estas direcçoẽs he precizo suppormo-nos estar dentro das roscas com a cara para o sul.
Trepador (scandens), quando trepa pelos corpos vizinhos que encontra, segurando-se nelles por meyo de suas raigotas (se he raigotoso ou sarmentoso) ou de suas gavinhas, ou dos peciolos das folhas (a hera, ervilheira, madresylva, videira, e clematis vitalba).folhas4º Quanto á figura diz-se ser:
Cylindrico ou roliço (teres, cylindricus), quando [Página 30] se assemelha a hum rolo, naõ tendo angulos alguns (a tulipa, e pinheiro); quasi cylindrico (subcylindricus), quando se approxima quasi á figura de hum rolo (allium molly); semicylindrico (semiteres) se he plano de huma banda e convexo da outra, ou como a metade de hum rolo partido longitudinalmente (allium ursinum).
[Página 30]Comprimido (compressus), se he hum tanto chato de duas bandas em todo o seu comprimento, ou parece como esmagado nos dois lados oppostos (poa compressa, potamogetum compressum).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).
Bigumeo (anceps), quando tem dois angulos oppostos hum tanto affiados, assemelhando-se á folha de huma espada de dois gumes (a milfurada); se os dois gumes saõ hum tanto embotados, diz-se digono (digonus).folhaAnguloso (angulatus), se tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos
angulos, diz-se ser triangular, quadrangular, de cinco, seis, ou muitos
angulos (tri- quadr- quinq- sex- mult- angularis Nota
Os termos de
trigonus - polygonus tem ordinariamente huma accepçaõ synonyma de
triangularis - multangularis; mas alguns botanicos usaõ dos
primeiros para significar angulos hum tanto embotados.
Segundo o numero dos lados planos que tem, diz-se ser: de tres, quatro, cinco lados, &c. [Página 31] (tri-quadri-quinqueter, &c. ou taõbem tri-quadri-quinquelaterus, &c.)
[Página 31]5º. Considerado quanto á sua superficie diz-se ser:
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.
Folheado ou folhoso (foliatus, s. foliosus), quando he guarnecido de folhas ; he usado em oppoziçaõ differencial do seguinte.folhasEsfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.
Esfolhoso (aphyllus), se naõ tem folhas algumas, como a cuscuta e algumas especies de euphorbia e cactus.folhasNû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias. Este termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem. Diz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .
Nû (nudus), quando he destituido de folhas , escamas, estipulas, pesos e outras excrecencias.folhasEste termo so se usa relativamente, nas descripçoẽs das especies que naõ tem folhas , &c. comparadas com as que as tem.folhasDiz-se quasi nû (subnudus), quando he quasi inteiramente falto de folhas .folhasEnvaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).
Envaginado (vaginatus), quando he cingido pela base das folhas ou da dos seus peciolos, de modo que parece em parte enfiado numa bainha (os lirios, o trigo, e muitos outros grames).folhasEscamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).
Escamoso (squamosus), quando he guarnecido de folhetos como escamas, e hum tanto distantes (lathraea squamaria, tussilago anandria).Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).
Imbricadamente folhudo ou imbricadamente escamoso (imbricatus), quando he coberto de folhas , folhetos ou escamas imbricadas, isto he, dispostas humas sobre outras como telhas (tussilago farfara).folhasEncortiçado (suberosus), quando a sua casca he branda, elastica, toda cortiça ou semelhante a ella na qualidade (o sobereiro, e passiflora suberosa).
Gretado (rimosus), quando tem no exterior da sua casca muitas gretas abertas irregularmente.
Entunicado (tunicatus), quando a sua casca he [Página 32] coberta de differentes membranas applicadas humas sobre outras.
[Página 32]Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).
Lizo (laevis), quando a sua superficie he por toda a parte igual, sem tuberculos , gretas, riscos, regos nem cavidades algumas (o sayaõ).tuberculosEstriado ou riscado (striatus), quando tem longitudinalmente muitos riscos na superficie da sua casca; estas estrias saõ superfiçiaes, e mais ou menos distantes (genista tinctoria).
Regoado (sulcatus), quando tem longitudinalmente regos, ou riscos largos e profundos na sua casca (a milfolha, e aipo).
Glabro (glaber), quando a sua superficie naõ tem escabrosidades nem pelos
alguns, mas he liza ou polida (a abrotea, e cebolla alvarran) Nota
He a
mesma coiza que lizo, e nû de pelos e excrescencias.
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).
Escabroso (scaber), quando he salpicado de certas producçoẽs glandulosas, pequenos tuberculos ou pontos asperos ao tacto (o luparo, linho canamo, e amor de hortelaõ).tuberculosEchinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).
Echinoso (echinatus, muricatus), quando he nimiamente escabroso, e tuberculozo de modo que os tuberculos saõ hum tanto longos, agudos e rijos, mas muito pouco picantes (a ruiva dos tintureiros, a abobara menina, e muitas outras cucurbitaceas).tuberculosCotanoso ou cotanilhoso (tomentosus) se a sua superficie esta coberta de hum cotaõ ordinariamente branco, finissimo, curtissimo, e de tal sorte tecido que os seus pelos mal se podem separadamente distinguir sem lente (a cineraria maritima).
Lanudo (lanatus), quando a sua superficie esta [Página 33] coberta de pelos longos, bastos, curvados, e tecidos huns com outros á maneira de huma tea de aranha, como visivelmente se conhece sem lente (na ballota lanata, e onopordum acanthium).
[Página 33]Peludo ou hirsuto (pilosus, hirsutus, s. hirtus) Nota
As differenças, que
se fazem ordinariamente destes tres termos, so servem de embarassar
os principiantes, e porisso os naõ distingui aqui.
Felpudo ou aveludado (villosus), quando tem pelos bastos, approximados, macios ao tacto, naõ entrelaçados, e assaz bem visiveis sem lente (o çumagre.)
Hispido (hispidus), quando he salpicado de sedas finas, hum tanto rijas, rectas, distantes mais ou menos entre si, e mui quebradiças (echium vulgare).
Ardentoso (urens), he hispido, mas as suas sedas saõ venenosas, e chamadas ferroẽs, em razaõ de que penetrando a pelle nua causaõ nella ardor e inflammaçaõ (a urtiga.)
Aculeado (aculeatus), quando tem aculeos, ou espinhos, bastardos, na sua casca (a sylva, e roseira).
Espinhoso ou abrolhoso (spinosus), quando lança do seu lenho abrolhos ou espinhos proprios (o pirliteiro, e o abrunheiro bravo).
[Página 34]Estipuloso (stipulatus), quando he guarnecido de estipulas (o martyrio, todas as especies de polygonum, e a maior parte das leguminosas.)
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).
Alado (alatus, membranatus, membranaceus), quando he guarnecido de membranas, as quaes ordinariamente correm ao longo de seus angulos, ou elle seja chato quasi como huma folha , ou naõ (scrophularia aquatica, genista sagittalis).folhaBolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).
Bolbifero (bulbiferus), quando dá pequenos bolbos, ou nas axillas de suas folhas , ou entre ás flores que produz (polygonum viviparum, ranunculus ficaria, e algumas especies de alho).folhas6º. Quanto á sua composiçaõ ou divisaõ diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se prolonga athe á ponta quasi sem ramos, ou tem ramos rarissimos quer na parte superior quer nos lados (a açucena, e scabiosa succisa): simplicissimo (simplicissimus, integer), quando he inteiramente indiviso, prolongando-se sem ter absolutamente ramo algum (o alho, e paris quadrifolia).
O tronco he composto todas as vezes que merece de ter o nome de subramoso ou ramoso. O subramoso (subramosus), he hum tronco quasi simplez em razaõ de ter poucos ramos lateraes (as esporas, e aquilegia); o ramoso (ramosus), tem muitos ramos lateraes (a beccabunga, e sherardia arvensis). Diz-se ramosissimo (ramosissimus), quando tem ramos numerosissimos, subdivididos, e amontoados sem ordem (gallium saxatile, e thalictrum faetidum); se todo elle naõ parece outra coiza mais do que huma panicula, ou que todos os seus ramos formaõ huma [Página 35] panicula, daõ-lhe o nome de paniculado (paniculatus), como he o da saxifraga cotyledon.
[Página 35]Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).
Desvaricado (divaricatus), quando o seu troço elevado hum tanto acima da raiz começa a dividirse em muitos ramos longos, desviados ou do troço materno ou entre si em angulos obtusos (polygonum divaricatum, helianthus divaricatus).raizPatente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto. (Este termo he muitas vezes usado em lugar do seguinte). Derramado ou diffuso (diffusus), quando se divide em muitos ramos que formaõ entre si angulos quasi rectos (a fumaria, e hesperis tristis.)
Patente (patens), quando nascendo juntamente com outros muitos da mesma raiz se desvia delles em angulo agudo mui aberto.raizCopado (fastigiatus), quando os seus ramos saõ approximados ou empilhados, chegaõ a igual altura, e formaõ huma copa anivelada, e fechada como huma moita (santolina chamaeciparissus).
Açarilhado (brachiatus), quando tem ramos oppostos, e o par superior cruza o inferior, como os braços de hum çarilho (a mercurial).
Forquilhoso ou forqueado (dichotomus), quando se divide sempre em dois ramos, em forma de forcado (valeriana locusta). Alguns o denominaõ triramoso (trechotomus), quando se divide sempre em tres ramos (o cardo penteador, e a verbena mexicana). A divisura ou ponta angular das divisoẽs do tronco forquilhoso he chamada bifurcaçaõ ou forqueadura (bifurcatio, s. dichotomia).
Vergonteado (virgatus), quando he delgado, fraco, flexivel, e se prolonga lançando muitas varinhas [Página 36] bastas, desiguaes, e da sua mesma qualidade ou fraqueza (artemisia campestris).
[Página 36]Prolifero (prolifer), quando he, pelo assim dizer, pontaramudo, lançando
ramos verticillados so na ponta, os quaes
saõ taõbem proliferos (como o pinheiro, e scabiosa prolifera Nota
Nestes dois exemplos se vê que o tronco prolifero pode ser ou
lenhoso ou herbaceo; mas ordinariamente o termo prolifero sò se
applica aos troncos lenhosos que daõ muitos gomos nas
pontas.
Diz-se em fim ser disticado (distichus), se tem ramos disticados; e esteiado (fulcratus), quando se esteia em seus ramos ou tem ramos esteiados: estes termos seraõ melhor explicados no artigo seguinte.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Levantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
Os ramos (rami), saõ parte do tronco, ou o tronco mesmo dividido. Elles saõ nalgumas plantas taõ semelhantes ao troço materno do tronco que he difficil de os destinguir, e daqui procede que os Botanicos tem dado igualmente a huns e outros as mesmas denominaçoẽs differenciaes.
Dizem-se ser alternos (alterni), quando hum naõ tem outro fronteiro no mesmo grao de altura, e se seguem alternafivamente postos huns acima dos outros nos dois lados do tronco (herniaria glabra).
Oppostos ou fronteiros (oppositi), quando nascem aos pares, estando hum posto de fronte do outro na mesma altura do tronco (a mercurial). Este termo [Página 37] he synonymo de ramos açarilhados (decussati), se gundo a accepçaõ em que o tomaõ hoje, mas pode significar taõbem os ramos oppostos, que saõ disticados.
[Página 37]Disticados (distichi), quando saõ patentes ou horizontaes, tem o seu ponto de nascimento em differentes lugares, e se vaõ seguido nos dois lados do tronco dispostos á maneira dos dois renques das barbas de huma penna.
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero). Dizem-se verticillas dos tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terni, quaterni, quini, seni, septeni, octoni, &c.)
Verticillados (verticillati), quando mais de dois nascem das articulaçoẽs ou juntas do tronco; elles estaõ todos no mesmo ponto de altura, dispostos á roda do tronco como rayos de huma roda de sege (as especies de gallium, e de muitas outras analogas a este genero).VerticilladosLevantados (erecti), quando formaõ com o tronco hum angulo muito agudo, ou saõ quasi perpendiculares (o acipreste, e esporas). Se saõ em grande numero e bastantemente approximados ou ao tronco ou entre si, dizem-se conchegados (coarctati).
Patentes (patentes Nota
O termo patentes he usado as vezes como
synonymo de divaricati; mas como em todos os mais cazos a sua
significaçaõ indica quasi hum angulo recto, porisso uso,delle
aqui nesse sentido. O grande defeito de alguns termos technicos
em Botanica he de naõ terem sempre a mesma accepçaõ.
Desvaricados (divaricati), quando saõ esparraIhados, dispersos, sem ordem, e formaõ com o tronco ou entre si angulos muitos obtusos (xeranthemum annuum, cucubalus bacciferus).
[Página 38]Recurvados (deflexi), quando saõ hum tanto inclinados para baxo em arco, ficando a sua ponta mais baxa do que o ponto de apego.
Derreados ou pendentes (reflexi, penduli), quando à sua ponta pende para a terra, ou estaõ dependurados perpendicularmente (salix babylonica).
Requebrados (retroflexi, s. retrofracti), quando saõ desvaricados, recurvados, e tem differentes tortuosidades, parecendo como quebrados nas articulaçoẽs (asparagus retrofractus).
Esteiados (fulcrati), quando saõ de tal sorte recurvados que tocaõ na terra, e nella se esteiaõ; ou taõbem quando delles nascem outros que baxando à terra nella arraigaõ, e ficaõ como espécando os ramos de que nasceraõ (ficus indica, ficus benghalensis).
Compridos (longi), quando excedem em comprimento o troço materno do tronco donde nascem: curtos (breves), se saõ menores do que elle no comprimento.
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos. Nascem da casca, e della lhes provêm os muitos vazos de que saõ compostas. Estes vazos saõ sufficientemente visiveis, e [Página 39] estaõ cobertos da epiderme, que he a continuaçaõ da epiderme da casca. As suas ramificacoẽs formaõ huma especie de rede, a que chamaõ tecido reticular (rete s. opus reticulare), cujas malhas saõ occupadas pelo tecido cellular ou parenchyma. Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.
As folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes. A parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex). Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus). E sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco. Os vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente. O mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro. Os veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes.
As folhas saõ consideradas naõ so
relativamente a estas circumstancias, mas ainda quanto à sua duraçaõ,
grandeza, situaçaõ, inserçaõ, direcçaõ, circumscripçaõ, sinuosidades,
angulos, lados, substancia, simplicidade, e compoziçaõ. A duraçaõ he o tempo em que ellas subsistem apegadas á planta. A grandeza consiste nas dimensoẽs de comprimento e largura, e he ou
absoluta ou relativa; a primeira consiste em huma medida determinada de
linhas, pollegadas, palmos, &c. e a segunda na extensaõ da sua
superficie comparada, com o comprimento dos seus peciolos, do tronco ou
das articulaçoẽs deste. Na insersaõ naõ so se considera o ponto de apego da folha ,
mas ainda o modo com que he apegada. A situaçaõ he o modo com que as folhas so achaõ dispostas no tronco da planta. A direcçaõ he a posiçaõ particular, em que se achaõ as folhas no tempo diurno
relativamente ao tronco, aos differentes polos da terra e sua
superficie, ou em fim, respectivamente á superficie d'agoa. Na circumscripçaõ considera-se a figura da folha circumscripta no disco, e he supposta inteira, precidindo-se dos
angulos, sinuosidades, margens e ponta. Nas sinuosidades suppoem-se a folha dividida no seu disco, e [Página 41] como tendo, partes nelle cortadas, ou na base, ou no topo, ou nos
lados, ou em qualquer parte que for. Os angulos saõ partes da folha mais ou menos prolongadas ou
prominentes, e se suppoem a folha inteira e em huma posiçaõ
horizontal. Os lados do modo com que os consideraõ os botanicos saõ os angulos
longitudinaes da folha , ou as esquinas que ella tem ao
comprido. Na substancia entende-se a polpa entre as superficies. A simplicidade da folha consiste em ser huma so em hum so
peciolo; considerada lateralmente as suas lacinias (laciniae) naõ chegaõ
a ser rasgadas athe á nervura dorsal do meyo para cima, e
ordinariamente o naõ saõ mesmo athe á base; naõ he articutada, e
considerando-a verticalmente, as suas lacinias naõ formaõ foliolos
perfeitos, nem he rasgada inteiramente athe ao cume do peciolo, mas taõ
somente athe certa distancia acima delle. Pelo contrario a composiçaõ da folha consiste em ter muitas
em hum so peciolo commum; he rasgada por conseguinte inteiramente athe
ao topo do peciolo, ou lateralmente athe á nervura dorsal ,
que nesta sorte de folhas he o
peciolo commum Nota
Nas folhas , a que Linneo
chama decursive-pinnata, a base da ala decursiva diminue, e se
estreita de tal modo, que deixa ver o peciolo commum descarnado,
ou quasi sem ala no porsto onde começaõ os foliolos inferiores,
no que se distinguem das pinnatifidas (a aroeira.)
Os antigos davaõ o nome de folhas ainda mesmo ás petalas das flores. Linneo fez huma destinçaõ entre folhas e frondes, e deo o nome de frondes (frondes) ás folhas dos fetos e plantas da
mesma ordem, ás folhas das
palmeiras, ás folhas aggregadas
de alguns aciprestes, e a algumas producçoẽs semelhantes a folhas , que se achaõ na ordem das
algas; mas naõ nos deixou huma definicaõ exacta em que se funde esta
differença Nota
Daqui procede que muitos Botanicos ainda hoje lhes chamaõ
geralmente folhas ; eu
penso que a querer fazer destinçaõ, o nome de fronde so compete
propriamente a huma folha , ou producçaõ anologa a
ella, que dá flores ou fructifica. O ruscus, muitos fetos, e
muitas algas nesta circumstancia teriaõ frondes bem caracterizadas.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Caulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
Innatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
Dispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Levantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Huma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Angulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Rhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Fendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Apalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Sinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Celheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Laceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
Obtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Troncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Nuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Viscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Cotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Concavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Bojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Aquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Dolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
[Página 73]1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Binadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
Bigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Trigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos. Nascem da casca, e della lhes provêm os muitos vazos de que saõ compostas. Estes vazos saõ sufficientemente visiveis, e [Página 39] estaõ cobertos da epiderme, que he a continuaçaõ da epiderme da casca. As suas ramificacoẽs formaõ huma especie de rede, a que chamaõ tecido reticular (rete s. opus reticulare), cujas malhas saõ occupadas pelo tecido cellular ou parenchyma. Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.
As folhas (folia) saõ chamadas os organos do movimento das plantas, e na realidade saõ nos vegetaes as partes que mais se movem, e que mais contribuem ao movimento dos seus succos.folhas[Página 39]Este tecido he bem claramente visivel nas folhas do choupo maceradas em agoa.folhasAs folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes. A parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex). Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus). E sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco. Os vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente. O mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro. Os veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes.
As folhas estaõ apegadas ou à raiz ou ao tronco ou aos ramos; humas vezes tem huma cauda mais ou menos comprida, a que chamaõ peciolo, que medea entre a sua base e o tronco ou ramo; outras vezes naõ tem peciolo alguim, apegando-se immédiatamente pela sua base ao tronco ou ramo; no primeiro cazo saõ denominadas pecioladas, e no segundo rentes.folhasraizA parte, por onde se apegaõ ao peciolo, ou immediatamente ao tronco ou ramos (sendo rentes), he chamada base (basis), a extremidade opposta a esta tem o nome de ponta (apex).Ordinariamente as folhas tem duas faces, huma superior que olha para cima (pagina supertor, s. discus supinus), e outra inferior que olha para a terra (pagina inferior, s. discus pronus).folhasE sua borda ou ourella tem o nome de margem (margo), e o espaço superficial que vay desde o centro athe á margem he denominado disco (discus); nestas faces consiste o que os Botanicos chamaõ superficie propria da folha , e se o disco he elevado, abatido, ou augmentado, chamaõ-lhe dilataçaõ do disco.folhaOs vasos apparentes que se observaõ no disco das folhas tem o nome de nervuras e de veios; as nervuras (nervi), saõ vasos que correm longitudinalmente da ponta para a base mais ou menos curvados, e naõ se ramifiçaõ lateralmente.folhasO mais grosso que se acha no meyo, e que he [Página 40] a continuaçaõ do peciolo tem o nome de nervura dorsal , fio do lombo da folha , ou espinhaço da folha (costa, rachis folii), ou de quilha (carina) se he elevado acima da superficie na face inferior da folha ; as duas metades podem ser chamadas abas da folha (semidisci); ellas saõ as vezes huma mais curta do que outra na base, como se vê no ulmeiro.[Página 40]dorsalfolhafolhafolhafolhaOs veios (venae), saõ vazos apparentes que se ramificaõ em varias direcçoẽs principalmente transversaes. As folhas saõ consideradas naõ so
relativamente a estas circumstancias, mas ainda quanto à sua duraçaõ,
grandeza, situaçaõ, inserçaõ, direcçaõ, circumscripçaõ, sinuosidades,
angulos, lados, substancia, simplicidade, e compoziçaõ. A duraçaõ he o tempo em que ellas subsistem apegadas á planta. A grandeza consiste nas dimensoẽs de comprimento e largura, e he ou
absoluta ou relativa; a primeira consiste em huma medida determinada de
linhas, pollegadas, palmos, &c. e a segunda na extensaõ da sua
superficie comparada, com o comprimento dos seus peciolos, do tronco ou
das articulaçoẽs deste. Na insersaõ naõ so se considera o ponto de apego da folha ,
mas ainda o modo com que he apegada. A situaçaõ he o modo com que as folhas so achaõ dispostas no tronco da planta. A direcçaõ he a posiçaõ particular, em que se achaõ as folhas no tempo diurno
relativamente ao tronco, aos differentes polos da terra e sua
superficie, ou em fim, respectivamente á superficie d'agoa. Na circumscripçaõ considera-se a figura da folha circumscripta no disco, e he supposta inteira, precidindo-se dos
angulos, sinuosidades, margens e ponta. Nas sinuosidades suppoem-se a folha dividida no seu disco, e [Página 41] como tendo, partes nelle cortadas, ou na base, ou no topo, ou nos
lados, ou em qualquer parte que for. Os angulos saõ partes da folha mais ou menos prolongadas ou
prominentes, e se suppoem a folha inteira e em huma posiçaõ
horizontal. Os lados do modo com que os consideraõ os botanicos saõ os angulos
longitudinaes da folha , ou as esquinas que ella tem ao
comprido. Na substancia entende-se a polpa entre as superficies. A simplicidade da folha consiste em ser huma so em hum so
peciolo; considerada lateralmente as suas lacinias (laciniae) naõ chegaõ
a ser rasgadas athe á nervura dorsal do meyo para cima, e
ordinariamente o naõ saõ mesmo athe á base; naõ he articutada, e
considerando-a verticalmente, as suas lacinias naõ formaõ foliolos
perfeitos, nem he rasgada inteiramente athe ao cume do peciolo, mas taõ
somente athe certa distancia acima delle. Pelo contrario a composiçaõ da folha consiste em ter muitas
em hum so peciolo commum; he rasgada por conseguinte inteiramente athe
ao topo do peciolo, ou lateralmente athe á nervura dorsal ,
que nesta sorte de folhas he o
peciolo commum Nota
Nas folhas , a que Linneo
chama decursive-pinnata, a base da ala decursiva diminue, e se
estreita de tal modo, que deixa ver o peciolo commum descarnado,
ou quasi sem ala no porsto onde começaõ os foliolos inferiores,
no que se distinguem das pinnatifidas (a aroeira.)
Os antigos davaõ o nome de folhas ainda mesmo ás petalas das flores. Linneo fez huma destinçaõ entre folhas e frondes, e deo o nome de frondes (frondes) ás folhas dos fetos e plantas da
mesma ordem, ás folhas das
palmeiras, ás folhas aggregadas
de alguns aciprestes, e a algumas producçoẽs semelhantes a folhas , que se achaõ na ordem das
algas; mas naõ nos deixou huma definicaõ exacta em que se funde esta
differença Nota
Daqui procede que muitos Botanicos ainda hoje lhes chamaõ
geralmente folhas ; eu
penso que a querer fazer destinçaõ, o nome de fronde so compete
propriamente a huma folha , ou producçaõ anologa a
ella, que dá flores ou fructifica. O ruscus, muitos fetos, e
muitas algas nesta circumstancia teriaõ frondes bem caracterizadas.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.
Linneo tractou das folhas considerando-as debaxo de tres grandes destribuiçoẽs, a saber, determinaçaõ, simplicidade, e composiçaõ; eu seguirei neste epitome estas mesmas divisoẽs.folhasA determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Caulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
Innatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
Dispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Levantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Huma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.
A determinaçaõ das folhas comprehende as relaçoẽs caracteristicas deduzidas naõ da estructura, simplicidade, ou composiçaõ, mas do lugar e modo de insersaõ, da situaçaõ, direcçaõ, numero, grandeza ou medida, e duraçaõ.folhas[Página 43]1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo. Quando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.
1º Quanto á insersaõ, ou lugar e modo de apego, as folhas dizem-se ser: Seminaes (seminalia), saõ as primeiras que sahem immediatamente da semente germinada, e constituem a plumula ou gomo seminal, como se vê no feijaõ e trigo.folhassementeQuando as sementes tem duas cotyledones, e estas tomaõ a apparencia de folhas , como se vê nas da abobara e rabaõ, so se lhes deve dar o nome de folhas seminaes bastardas.folhasfolhasRadicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ). Ellas saõ as vezes differentes na forma das caulinas, como se vê na campanula rotundifolia.
Radicaes (radicalia), saõ as que tem o seu ponto de apego na raiz e naõ no tronco, nem constituem as folhas da plumula das sementes germinadas (a açucena, e dente de leaõ).raizfolhasCaulinas (caulina), quando tem o seu ponto de apego no tronco (açucena, e campanula rotundifolia).
Rameas ou raminas (ramea), quando tem o seu ponto de apego nos ramos.
Axillares (axillaria) Nota
Linneo usa taõbem muitas vezes do termo
axillaria em lugar de subaxillaria.
Subaxillares (subaxillaria, s. sabalaria), quando [Página 44] tem o seu ponto de apego na axilla inferior, ou no angulo inferior que forma o tronco com o ramo (o murriaõ, e murujem.)
[Página 44]Floraes (floralia), saõ a mesma coiza que bractéas persistentes (o ouregaõ).
Pecioladas (petiolata), quando tem hum peciolo (a salva, e pereira); rentes (sessilia), se o naõ tem, como acima disse (a alface, e cynoglossa).
Arrodeladas (peltata, s. umbilicata), quando o seu peciolo se apega naõ à base ou margem, mas sim ao disco (as chagas, e conchello). O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).
O lugar a que se apega o peciolo nesta sorte de folhas he denominado o embigo ou copa da folha (umbilicus).folhasfolhaInnatas (adnata), quando saõ mais ou menos grossas, tem o diametro da base mais largo do que em qualquer outra parte do seu corpo, e estaõ apegadas ao tronco so peso centro da base ou juntamente pela parte superior della, de modo que a margem inferior da base fica sempre despegada (sedum acre, sedum sexangulare).
Adunadas (connata), quando duas folhas oppostas se achaõ apegadas pelas suas bases huma
à outra, e formaõ hum so corpo (o cardo penteador) Nota
Ha algumas, folhas pecioladas que se dizem adunadas, mas rigorosamente sò os
seus peciolos estaõ adunados.
Coadunadas (coadunata), se tres ou mais se achaõ apegadas entre si pelas, suas bases.
Decurrentes ou decursivas (decurrentia), quando sendo rentes, a sua base se prolonga e corre mais ou menos pelo tronco abaxo, ou pelos ramos, formando [Página 45] huma especie de aza (a herva sancta, a consolda maior, e alguns cardos).
[Página 45]Amplexicaules ou abarcantes (amplexicaulia), quando saõ rentes, e a sua
base abrange de travez os lados do tronco (o meimendro, nabo, e thlaspi
arvense). Se a base das folhas abrange so metade do ambito do tronco, ou naõ o
abarca todo, saõ denominadas semiabarcantes (semiamplexicaulia, s.
subamplexicaulia) Nota
A particula sub na composiçaõ das palavras
Botanicas tem ordinariamente a significaçaõ de quasi, assim como
o tem a significaçaõ de verticalmente.
Perfolhadas ou enfiadas (perfoliata), quando o tronco ou ramo rompe e enfia o seu disco (a chlora, a perfolhada, a uvularia perfoliata).
Envaginantes (vaginantia), quando a sua base forma huma bainha ou tubo, que reveste em roda o tronco ou ramo (o milho, trigo e outros grames.)
2º Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:
Quanto á situaçaõ as folhas saõ denominadas:folhas Alternas (alterna), quando no mesmo ponto de altura do tronco ou
ramos naõ tem outras fronteiras, estando postas nos dois lados do
tronco humas acima das outras alternativamente e por gradaçaõ (o
linho, borragem, e perpetua) Nota
As vezes as folhas saõ alternas na parte inferior da planta e na superior saõ
oppostas, e vice versâ; outras vezes saõ inferiormente
oppostas e superiormente tres à tres, ou inferiormente tres
a tres, e superiormente alternas; e emfim, outras vezes saõ
superiormente alternas e na parte inferior quatro a quatro
em verticillo.
Disticadas (disticha), quando tendo o seu ponto de apego differente e conchegado olhaõ todas [Página 46] somente para dois lados dos ramos ao longo delles, deixando a face superior e inferior hum tanto calvas (o abeto). Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.
[Página 46]Quando as folhas tem o seu ponto de apego somente nos lados oppostos, saõ patentes ou horizontaes, e se seguem exactamente em dois renques oppostos á maneira das duas alas de huma penna, saõ denominadas birrenqueas (bifaria), como saõ algumas especies de lycopodium.folhasDispersas (sparsa), quando estaõ apegadas á roda do tronco sem ordem alguma (a açucena).
Bastas (conferta), quando estaõ apegadas á roda do tronco, sendo taõ numerosas e taõ estreitamente postas humas junto das outras, que apenas dei xaõ algum espaço dos ramos ou tronco que naõ cubraõ (euphorbia cyparissias, e linaria).
Fasciculadas ou enfeixadas (fasciculata), quando duas ou mais se achaõ juntas na base, nascendo de hum mesmo ponto lateral do ramo ou tronco, como em pilhas ou pequenos molhos (o larico, os pinheiros). Segundo o seu numero dizem-se: fasciculadas duas a duas, tres a tres, quatro a quatro, cinco a cinco, &c. (fasciculata bina s. gemina, trina s. terna, quaterna, quina, &c. (as especies de pinheiro.)
Imbricadas (imbricata), quando saõ levantadas e bastas, e jazem encostadas de sorte que cada huma cobre parte da outra seguinte, á maneira da disposiçaõ das telhas ou escamas de peixe (o acypreste, e algumas especies de sedum).
Confluentes (confluentia), saõ desadunadas, mas conchegadas na base humas ás outras muito estreitamente, e formando entre si angulos agudos.
Approximadas (approximata), quando medea [Página 47] pouco espaço entre os seus pontos de apego (o teixo): he o
contrario do termo seguinte, e se usa taõbem em lugar de bastas Nota
Este termo e o seguinte saõ humas vezes relativos as
differentes especies como se ve no taxus, outras vezes
relativos na mesma especie ao espaço, que medea entre as folhas , de sorte
que para huma folha ser remota, parece ser
precizo que o espaço que medea entre folha e folha seja maior do que o comprimento da folha e seu peciolo inclusivamente.
123. Remotas ou distantes (remota, s. distantia), quando nascem bastantemente desviadas humas das outras (taxus nucifera, a videira, e o legacaõ.)
Oppostas (opposita), nascem aos pares, ostando duas huma fronteira á outra no mesmo ponto de altura, medeando o tronco entre ellas (veronica officinalis, e murujem).
Encruzadas (decussata), tem huma disposiçaõ adobadoirada, ou como os braços de huma dobadoira; saõ oppostas, o par superior cruza o inferior em angulos rectos, seguindo, sempre esta situaçaõ de modo que olhadas de alto a baxo prezentaõ quatro renques ou fileiras cruzadas (crassula tetragona); nioto se distinguem das oppostas, a quaes aindaque se cruzem, variaõ contudo na disposiçaõ do encruzamento.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ). Dizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.) Alguns lhes chamaõ taõbem estrelladas (stellata), quando se [Página 48] achaõ seis ou mais dispostas em verticillo, ou representando raios de estrella.
Verticilladas (verticillata), quando tres ou mais se achaõ apegadas ao tronco ou ramos circularmente, no mesmo ponto de altura, ou na mesma junta (o loendro, ruiva dos tintureiros, e o amor d'hortelaõ).VerticilladasDizem-se verticilladas tres a tres, quatro a quatro, cinco, seis, sette, oito a oito, &c. (terna, quaterna, quina, sena, septena, octona, &c.)verticilladas[Página 48]3º. Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:
Quanto á direcçaõ as folhas dizem-se ser:folhasLevantadas (erecta, arrecta), quando formaõ com o tronco hum angulo muito
agudo, ou se chegaõ bastantemente á perpendicular em razaõ de terem a
ponta pouco distante do tronco (o colchico). Direitas, irtas
(stricta, rectissima), saõ muito levantadas e naõ tem dobras nem
tortuosidades algumas Nota
Os termos de rectus, rectissimus, strictus, strictissimus,
rigorosamente saõ oppostos a flexuosus, ou a qualquer outro
que denote tortuosidades, dobras, e curvaturas. O Dr. Reuss expoem o termo stricta por omnino perpendicularia
como se fossem synonymos; as folhas podem ser stricta ou rectas
em si mesmas, sem serem perpendiculares ao plano da terra;
no equisetum giganteum, e nos dois exemplos citados ellas
saõ stricta, e naõ saõ exactamente perpendiculares; somente
nas radicaes se encontraõ ás vezes algumas que saõ irtas e
perpendiculares, como v. g. nalgumas especies de
silphium.
Rijas (rigida), quando saõ de huma consistencia firme ou de tezidaõ tal que naõ vergaõ nem dobraõ com facilidade (gallium uliginosum, iris spathacea).
Patentes (patentia), quando se desviaõ do tronco mais do que as levantadas, formando com elle hum angulo quasi recto (o arroz dos telhados, e o loendro.)
Patentissimas Nota
O primeiro termo he melhor, porque nos ramos ha às vezes folhas que saõ
patentissimas, e naõ saõ parallelas ao plano da terra ou
horizontaes.
Encostadas (appressa), quando tem toda ou quasi toda a sua face superior applicada ao tronco ou ramos (a bolsa de pastor, e o thlaspi arvense).
Remontantes ou realçadas (assurgentia), quando sendo ao sahir do tronco patentes se arqueam depois, e se erguem com a ponta para cima (mesembryanthemum stipulaceum).
Incurvadas (incurva, inflexa), saõ remontantes e junto da sua extremidade viraõ a ponta para o ramo ou tronco (mesembryanthemum calamiforme).
Recurvadas (recurvata, recurva), quando arqueaõ, e curvaõ a ponta para baxo, mas o lombo do arco, fica para cima, e mais alto do que o ponto de apego (mesembryanthemum loreum).
Reclinadas (reclinata, declinata, reflexa), quando se debruçaõ para baxo de esguelha, ou em arco rebitando algumas vezes a ponta par acima, mas tanto o lombo do arco como a ponta ficaõ mais baxos do que o ponto de apego (blitum virgatum).
Enroladas para fora ou revolutosas (revoluta), quando tem a sua margem ou ainda mesmo a ponta hum tanto enroladas para fora em espiral (cistus helianthemum, alecrim, e dianthus barbatus).
Involutosas ou enroladas para dentro (involuta), he o contrario do termo antecedente.
Pendentes (dependentia), quando estaõ dependuradas perpendicularmente com a ponta para a terra (hedysarum montanum).
Obliquas (obliqua), quando a sua base ou parte inferior está virada para o ceo, e a parte extrema se revira para o horizonte, de modo que ficaõ hum tanto torcidas (algumas especies de fritillaria).
[Página 50]Aversas (adversa), quando a sua face superior naõ esta virada para o ceo, mas sim para a banda do sul (amomum zingiber).
Verticaes (verticalia, s. obversa) Nota
Este termo he ambiguo, e se
usa taõbem em lugar de erecta; o melhor sera usar so do seu
adverbio verticalmente, como v. g. verticalmente ovadas,
verticalmente cordiformes, &c. (verticaliter ovata,
verticaliter cordata, &c.)
Resupinadas (resupinata), quando estaõ viradas do avesso, isto he, quando a sua face superior fica sendo inferior ou olha para a terra, e vice versâ, a inferior fica sendo superior e olha para o ceo (alstroemeria peregrina).
Summergidas (submersa, demersa), quando estaõ inteiramente mergulhadas, de modo que as suas pontas naõ chegaõ ao lume d'agoa (hottonia palustris, e ceratophyllum).
Fluctuantes (natantia, s. emersa) Nota
Estas folhas podem-se
taõbem chamar surdidas, e se pode dizer por ex. o ranunculus
aquatilis tem duas castas de follas, humas summergidas setaceas , e outras surdidas quasi redondas.
Radicantes ou raigotosas (radicansia, radicata), quando na ponta ou em qualquer parte do seu disco lançaõ raizes (saxifraga cotytedon, asplenium rhizophyllum).
4º Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:
Quanto ao numero as folhas dizem-se ser:folhasHuma sò, duas, ou tres no tronco da planta (unicum, [Página 51] duo, tria) poucas, muitas ou numerosas (pauca, plurima, s. numerosa.)
[Página 51]5º Quanto á grandeza ou medida:
Quando esta he absoluta tem as denominaçoẽs, que foraõ expostas no capitulo do tronco; quando he relativa ao tronco ou aos seus entrenós, dizem-se ser: compridas, compridissimas (longa, longissima), curtas, cortissimas (brevia, brevissima); vastas, mediocres, pequenas (amplissima, mediocria, parva).
6º. Quanto à duraçaõ dizem-se:
Decadentes (decidua), se cahem no fim do estio ou principio do outono: caducas (caduca), se cahem antes do fim do estio, ou duraõ muito pouco tempo na planta.
Persistentes (persistentia, s. perennantia), quando persistem na planta, durante o outono e inverno. Daõlhe taõbem o nome de sempreverdes (sempervirentia) por persistirem em todas as quatro estaçoẽs do anno, nem cahirem sem nascerem immediatamente outras novas (o azereiro).
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Angulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Rhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Fendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Apalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Sinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Celheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Laceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
Obtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Troncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Nuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Viscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Cotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Concavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Bojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Aquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Dolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
1º. Quanto à circumscripçaõ dizem-se:
Orbiculares (orbiculata, orbicularia), quando saõ taõ largas como compridas, e as suas lacinias ou lados distaõ igualmente do centro (as chagas, e geranium fanguineum). Daõlhes taõbem o nome de redondas (rotunda, s. rotundata), quando se quer indicar que ellas saõ inteiras, e sem angulos alguns (a alface repolhuda).
[Página 52]Subrotundas ou quasi redondas (subrotunda), quando a sua figura he quasi orbicular; a differença consiste em serem hum tanto mais largas do que compridas, ou vice versâ, mais compridas hum quasi nada do que largas (veronica beccabunga, rhus cotinus).
Ovadas (ovata), quando saõ mais compridas do que fargas, tem a base redondeada, e se estreitaõ para a ponta (scabiosa succisa, gilbabeira, e prunus insititia): verticalmente ovadas (obverse ovata, s. obovata) saõ ovadas ás vessas, isto he, a parte mais larga redondeada està no topo, e a base he mais estreita (samolus valerandi).
Ellipticas ou ovaes (elliptica, s. ovalia), saõ mais compridas do que largas, e mais estreitas nas duas extremidades superior e inferior do que no meyo; as dictas extremidades saõ redondeadas (vicia sylvatica, mammea americana).
Oblongas (oblonga), quando o seu comprimento excede duas, tres, ou
mais vezes a sua largura (como nas azedas) Nota
Quando saõ oblongas, lineares, e obtusas, alguns
costumaõ-lhes dar o nome de alinguettadas (lingulata) como o
asplenium scolopendrium, mas este nome so lhes compete
quando saõ carnudas .
Parabolicas (parabolica), saõ mais compridas do que largas, e desde a base athe ao topo se vaõ estreitando, e tomando a forma semiovada (tetragonia expansa, marrubium pseudo-dictamnus).
Cunhiformes (cuneiformia), saõ mais compridas do que largas, e os seus dois lados se vaõ estreitando pouco a pouco da banda do topo athe a base, como huma cunha (a beldroega).
[Página 53]Espatuladas (spatulata), saõ quasi redondas na parte superior, mas da banda da base saõ mais estreitas o lineares, representando de algum modo humaespatula (a bonina, e o sempervivum canariense).
2º. Quanto aos angulos dizem-se ser:
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).
Lanceoladas (lanceolata), saõ oblongas e estreitaõse do meyo para qualquer das duas extremidades, base e ponta, tomando a forma de hum ferro de rojaõ (a tulipa, e plantago lanceolata).LanceoladasLineares (linearia), saõ estreitas e conservaõ ao longo sempre a mesma largura, aindaque ás vezes se estreitaõ hum quasi nada nas extremidades (o teixo).
Acerosas (acerosa) saõ lineares, e persistentes (os pinheiros).
Assoveladas (subulata), saõ comparadas a hum ferro, de sovella, por
serem lineares athe ao meyo com pouca differença, e se irem depois
estreitando athe terminarem em huma ponta agudissima Nota
As folhas assoveladas
ou saõ planas e delgadas, ou carnudas; prezentemente fallo
das que naõ saõ carnudas, como as do alho, e hypnum
sericeum.
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .
Setaceas (setacea), saõ lineares, curtas muito, estreitas, mas contudo hum pouco mais largas do que huma seda (o espargo hortense): se saõ finas como fios ou cabellos chamaõ-lhes filiformes ou capillares (filiformia, s. capillaria); saõ mais compridas do que as setaceas .SetaceassetaceasAngulosas (angulosa), quando tem tres ou mais angulos. Segundo o numero dos angulos dizem-se: triangulares, quadrangulares, de cinco angulos, &c. ( [Página 54] triangularia, quadrangularia, quinquangularia, &c) como saõ as da armoles hortense, do geranìum peltatum, &c.
[Página 54] Deltoides ou deltoidaes (deltoidea), tem quatro angulos, e os dois
lateraes estaõ menos distantes do angulo da base do que do angulo da
ponta (a salgadeira, e choupo) Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio
do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes
razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito
principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides
huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57,
Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as
trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por
conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos
Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos
rectos.Nota
Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57, Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos rectos.
Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57, Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos rectos.
Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57, Est. v.) As fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides. Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos rectos.
Linneo copiando este termo da descripçaõ que dá Dillenio do Mesembryanthemum deltoides, deo aos principiantes razaõ de se queixarem de ambiguidade, e muito principalmente ainda por lhes assignar por ex. das folhas deltoides huma trigumea imitada da dicta planta (vej. fig. 57, Est. v.)folhasAs fol. deltoides tem quatro lados e quatro angulos, e as trigumeas so tem tres lados e tres cantos; por conseguinte naõ merecem o titulo de deltoides.Humas e outras saõ mal comparadas ao delta-maiusculo dos Gregos, que verdadeiramente so se assemelha ás folhas triangulares planas, e de lados integerrimos rectos.folhasRhomboidaes (rhomboidea), tem quatro lados parallelos iguaes, e quatro angulos, dois obtusos e dois agudos (chenopodium vulvaria, sida rhombifolia).
Trapeziformes (trapeziformia), tem quatro lados que naõ saõ nem parallelos nem iguaes (adiantum trapeziforme.)
3º. Quanto ás sinuosidades dizem-se ser:
Cordiformes (cordata), assemelhaõ se na forma a hum coraçaõ; saõ ovadas, e chanfradas na base, com os dois cantos posteriores redondeados (a ariflolochia, e norça preta). Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella). Cordiformes afrechadas (cordato-sagittata) saõ ovadas, chanfradas na base, e tem os dois angulos posteriores agudos (polygonum fagopyrum.
Verticalmente cordiformes (obcordata, s. obverse cordata), quando a ponta do coraçaõ esta apegada ao peciolo, e a chanfradura forma a extremidade superior da folha (os foliolos das folhas do trifolium arvense, e oxalis acetosella).folhafolhas[Página 55]Reniformes (reniformia), tem a forma de hum rim; saõ subrotundas com huma larga chanfradura na base, e sem angulos alguns (a asarabacca, e hera terreste).
Lunuladas (lunata, lunulata), figuraõ huma meya lua ou quarto
crescente de lua; saõ redondeadas no topo, chanfradas largamente na
base Nota
Ou vice versâ no topo, segundo Miller que aponta por exemplo
a passiflora murucuja.
Afrechadas ou sagittadas (sagittata), assemelhaõ-se a hum ferro de setta; saõ triangulares, chanfradas na base, e a chanfradura termina em dois angulos agudos (a verdeselha, azedas, e sagittaria sagittifolia).
Alabardinas (hastata), assemelhaõ-se hum tanto ao ferro de huma alabarda; saõ triangulares, chanfradas na base e nos dois lados, e os seus dois angulos inferiores saõ estendidos hum tanto para fora (a dulcamára, e rumex acetosella).
Auriculadas (aurita, auriculata), quando tem na sua base hum ou dois appendices, que as faz parecer orelheadas.
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).
Violinas (panduriformia), assemelhaõ-se a hum tampo de viola ou violino; saõ oblongas, chanfradas nos dois lados, e ordinariamente mais largas na parte inferior (as folhas radicaes do rumex pulcher).folhasFendidas (fissa), quando saõ rasgadas ou golpeadas como á thesoira áthe
ao meyo com pouca differença; as sinuosidades dos còrtes saõ de igual
largura, e as lacinias tem as margens rectas; segundo o numero dos
segmentos, dizem-se: fendidas em duas, tres, [Página 56] quatro, cinco, ou muitas lacinias (bifida,
tri-quadri-quinque-multifida). Quando os cortes penetraõ pouco alem
da margem, dizem-se incisas (dissecta, incisa), como as do
delphinium elatum, e os foliolos das folhas do tomateiro: alguns as denominaõ
incisas obtusamente ou agudamente, se as lacinias saõ obtusas ou
agudas; e duas vezes incisas, se as lacinias saõ taõbem golpeadas Nota
Todos estes termos saõ applicados naõ sò as folhas simples, mas
ainda aos foliolos das compostas.
Partidas (partita), quando saõ rasgadas quasi athe á base ou perto do topo do peciolo; segundo o numero dos segmentos, dizem-se: partidas em duas, tres quatro, cinco ou muitas partes (bipartita-tri-quadriquinque-multipartita).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c. Quando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).
Lobadas (lobata), quando saõ divididas athe ao meyo em segmentos distantes entre si, e de margens convexas (a videira, hera, e acer campestre): segundo o numero dos lobulos, dizem-se ser: de dois, tres, quatro, cinco lobulos, &c. (biloba-tri-quadri-quinqueloba), como saõ v. g. a passiflora rubra, cnemone hepatica, geranium peltatum, &c.LobadasQuando os lobulos saõ mal assinalados, dizem-se: lobadas obsoletamente (obsolete lobata).lobadasApalmadas (palmata), saõ comparadas a huma maõ aberta; dividem-se longitudinalmente athe quasi á base ou athe abaxo do meyo em segmentos hum tanto iguaes (o martyrio, bryonia, e figueira).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).
Pinnatifidas (pinnatifida), saõ divididas transversalmente em lacinias horizontaes oblongas, rasgadas [Página 57] athe quasi á nervura dorsal ou quilha (a bolsa de pastor, e centaurea calcitrapa).[Página 57]dorsalRoncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).
Roncinadas (runcinata), saõ pinnatifidas, as suas lacinias tem a margem convexa da banda do topo, e quasi recta da banda do peciolo, saõ quasi iguaes athe a base da folha , e elevaõ as suas pontas obliquamente (o dente de leaõ).folhaLyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).
Lyradas (lyrata), estas folhas ordinariamente saõ mixtas, sendo pinnatifidas na parte superior e pinnuladas na parte inferior; para terem este nome he precizo serem divididas transversalmente em lacinias, terem a terminal maior, e redondeada, ficando as demais distantes entre si, e diminuirem de grandeza á proporçaõ que se chegaõ para a base (erisymum barbarea, e geum urbanum).folhasSinuosas ou sinuadas (sinuata), tem sinuosidades lateraes largas, ordinariamente redondeadas, naõ profundas, e alternadas com pequenas lacinias (o meimendro negro, o chenopodium botrys, e o carvalho roble). Quando as pontas, das suas lacinias saõ agudas, e se reviraõ para a banda do peciolo, dizem-se, sinuadas para traz (sinuata retrorsum); se as lacinias saõ lineares, denominaõ-se, sinuadas-denteadas (sinuata-dentata.)
Laciniadas (lacinata), quando saõ divididas variamente em lacinias, as quaes se subdividem taõbem indeterminadamente em outras formando muitas sinuosidades, que vaõ athe ao meyo do disco pouco mais ou menos (a verbena, o cardo corredor).
Esquarrosas (squarrosa) saõ divididas em lacinias [Página 58] levantadas e mutuamente encostadas humas às outras (aconitum piraenaicum) Nota
Este termo tem ainda outras accepçoẽs, e he pouco usado,
talves melhor fora applicalo somente ás folhas imbricadas, e hum tanto laxas
oa abertas, como as do hypnum squarrosum.
Inteiras ou indivisas (integra, indivisa), naõ tem sinuosidades algumas no seu disco, e saõ oppostas a todas as precedentes; ellas saõ contudo susceptiveis de terem dentes e lacinulas crenadas (o marroyo). Integerrimas (integerrima) tem a extremidade da sua margem inteirissima, sem dentes, nem lacinulas crenadas algumas, e por conseguinte saõ oppostas às do artigo seguinte (o limoeiro, a murta, e gilbarbeira).
4º. Quanto á margem diz-se ser:
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica). Dizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.
Crenadas (crenata), quando a sua margem he guarnecida de pequenas lacinias ou crenas (crenae), que naõ apontaõ nem para a base nem para o topo da folha , mas somente para o disco ou meyo della (a hera terreste, e betonica).crenasfolhaDizem-se obtusamente crenadas (obtuse crenata) se as suas lacinulas saõ redondeadas, ou embotadas; agudamente crenadas (acute crenata) se as lacinulas ou crenas saõ agudas: duas vezes crenadas (duplicato crenata), se as lacinulas maiores tem outras menores.crenasSerreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga). Quando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.
Serreadas (serrata), a sua margem tem lacinulas recortadas como dentes de huma serra, as quaes saõ pequenas pontas imbricadas humas sobre outras, apontando todas para o cume da folha (a ortiga).folhaQuando as pontas dos dentes em lugar de olharem para o [Página 59] topo, apontaõ para a base da folha , dizem se, serreadas para traz (serrata retrorsum); se os dentes saõ mal assinalados ou saffados, denominaõ-se, obsoletamente serreadas (obsolete serrata); e duas vezes serreadas (duplicato-serrata) se os dentes maiores saõ serreados com outros menores, como se vê no ulmeiro, e sylva.[Página 59]folhaDenteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale). Dizem-se denticuladas (denticulata), se os dentes saõ miudos ou curtissimos; alguns tomaõ taõbem este termo na accepçaõ de serreadas com dentes miudos distantes.
Denteadas (dentata), quando tem pequenas pontas ou dentes da mesma consistencia da folha , os quaes sahem horizontalmente da sua margem, ficando hum tanto distantes huns dos outros (o quejadilho, o blitum virgatum, e leontodon autumnale).folhaEspinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus). Dizem-se inermes (inermia), quando naõ tem espinhos, nem aculeos, nem producçaõ alguma picante.
Espinhosas (spinosa), quando na margem somente, ou ainda mesmo na margem e disco tem espinhos ou pontas rijas, duras, e picantes que senaõ podem separar sem estrago da substancia da folha (o carrasco, o aquifolio, e acanthus spinosus).folhaCelheadas (ciliata), quando no fio da margem tem sedas ou pesos parallelos, dispostos como as celhas das palpebras dos animaes (o valverde, e sempervivum tectorum).
Repandidas (repanda), quando tem no fio da margem elevaçoes hum tanto convexas, alternadas com sinuosidades obtusissimas, ou quando tem torsuosidades semelhantes às que faz huma cobra rojando apressadamente (chenopodium glaucum, tropaeohum minus).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).
Cartilaginosas (cartilaginea), a sua margem he de [Página 60] huma consistencia cartilaginosa, differente da substancia da folha , sendo coriacea, secca e mais firme do que ella (saxifraga geum).[Página 60]folhaLaceradas (lacera), quando a sua margem he cortada em segmentos de differente forma e de differente grandeza (senecio hieracifolius).
Roidas (erosa) saõ sinuadas, e na margem tem ainda outras pequenas sinuosidades obtusas com lacinulas desiguaes, de modo que parecem como roidas (salvia aethiopis, chenopodium album).
Dedáleas (daedalea), saõ as que tem ondeaçoẽs, laceraçoẽs e sinuosidades raras; ou as que tem huma figura notavelmente bella e exquisita. As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.
As folhas resupinadas, e lindamente variegadas, da alstroemeria peregrina, as da chicoria, crespa, e as da saxifraga stolonifera saõ contadas no numero das dedaleas; mas este termo não he hoje usado por ter huma accepçaõ muito vaga.folhas5º As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:
As folhas consideradas relativamente ao topo dizem-se ser:folhasObtusas (obtusa), quando saõ hum tanto redondeadas no cume (o arroz dos telhados). Obtusas com huma ponta (obtusa cum acumine) se a sua extremidade he obtusa e no meyo tem huma pequena ponta (jacquinia armillaris).
Chanfradas (emarginata), quando no seu cume tem huma chanfradura (oxallis acetosella): chanfradas obtusamente (obtusé emarginata) se as duas lacinulas lateraes da chanfradura saõ obtusas (hermannia alnifolia): chanfradas agudamente (acute emarginata) se as dictas lacinulas saõ agudas (pinus picea).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).
Despontadas (retusa), terminaõ numa sinuosidade [Página 61] obtusa, ou numa cavidade muito superficial (os foliolos das folhas da vicia sativa, as folhas do sempervivum canariense).[Página 61]folhasfolhasTroncadas (truncata), quando terminaõ numa linha transversal, como se lhes tivessem cortado transversalmente hum pedaço da extremidade anterior (liriodendron tulipifera). Troncadas posteriormente (posticé truncata), se as lacinias da base postas ao lado do peciolo saõ troncadas (convolvulus sepium, ou trepadeira).
Premorsas ou retraçadas (praemorsa), saõ muito obtusas, terminando em
pequenos incisos e chanfraduras disiguaes Nota
Este termo he rarissimamente usado, ainda que alguns o
applicaraõ as folhas menores, e inteiras da palmeira das
vassoiras, &c.
Agudas (acuta), quando a sua ponta termina em hum angulo agudo (a verdeselha).
Pontudas (acuminata), tem a ponta aguda, e assovelada, isto he, a sua ponta he longa e se estreita pouco a pouco, como hum ferro de sovella (lamium album). Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .
Rijamente pontudas (cuspidata), quando a sua ponta he setacea , hum tanto rija, ou de huma consistencia mais firme do que a da folha .setaceafolha Mucronadas (mucronata), quando tem no topo huma aresta ou pragana
curtissima, levemente picante, e persistente (gallium mollugo) Nota
Este termo he usado taõbem algumas vezes em lugar de obtusa
cum acumine, como se pode ver na descripçaõ das folhas do asarum
canadense de Linneo.
Gavinhosas (cirrhosa, s. cirrhata), quando terminaõ em huma gavinha (gloriosa superba).
[Página 62]6º. Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:
Quanto á superficie as folhas saõ denominadas:folhasNuas (nuda), quando naõ tem pelos, nem sedas, nem glandulas, nem
excrescencias algumas (a hortelan). Este termo tem huma força
negativa, e para se poder entender o que nega, he precizo sempre
fazer attençaõ ao sujeito precedente ou subsequente Nota
Ordinariamente o sujeito saõ as especies, ás vezes os
generos, e ainda mesmo pode ser huma Ordem, como v. g. nas
sementes nuas da gymnospermia e sementes cobertas da
angiospermia.
Glabras ou lizas (glabra, laevia) saõ nuas, e a sua superficie he liza, sem estrias, regos, nem desigualdade alguma (a tulipa, e abrotea). Este termo differe do precedente por ter huma signifiçaõ positiva, e alem disso por excluir as estrias, regos, riscos, e qualquer sorte de desigualdades.
Polidas (nitida) saõ summamente glabras ou taõ lizas que parecem ter sido polidas (tamus cretica, chenopodium murale, o limoeiro, e larangeira). Luzedias, ou brilhantes (lucida) reflectem mais a luz do que as polidas, e parecem como envernizadas (ferula canadensis, angelica lucida). Estes dois termos, como naõ differem senaõ em graos de intensidade, saõ muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
Còradas ou coloridas (colorata), quando tem outra cor mista com a
verde (amaranthus tricolor) Nota
Alguns Botanicos usaõ taõbem deste termo ainda nos cazos em
que a folha he toda glauca, toda vermelha, ou
tem em toda a sua superficie huma cor differente da
verde.
Nervosas (nervosa), quando tem cinco ou mais [Página 63] nervuras Nota
As vezes daõl-hes taõbem o nome de nervosas com
cinco nervuras (quinquenervia).
Linheadas (lineata) saõ riscadas, mas as riscas naõ saõ nem profundas nem elevadas sobre a superficie, por serem mal assinaladas e apenas visiveis (euphrasia officinalis).
Estriadas (striata) saõ riscadas, e os riscos ou vincos saõ longitudinaes, parrallelos, superficiaes ou gravados muito pouco profundamente, mas assaz visiveis (ixia secunda).
Regoadas (sulcata), quando tem riscos, longitudinaes, parallelos, e profundamente gravados (gallium verum, digitalis ferruginea).
Venosas (venosa) o seu disco tem visivelmente muitos veios ramificados para os lados, e em toda a sorte de direcçoẽs (o loireiro, e norça preta). Desvenosas (avenia), quando naõ se lhes divisaõ veios alguns.
[Página 64]Rugosas ou enrugadas (rugosa), quando tem rugas, isto he, quando a substancia que está entre os veios naõ achando entre elles assaz espaço para se estender se vê obrigada a elevarse, e a formar rugas (a salva, e quejadilho).
Bolhosas (bullata), saõ rugosas em summo gráo; os veios contrahem-se estreitaõ-se de tal modo, que a substancia, contida entre elles se vé obrigada a formar balhas, ou empôlas, que se elevaõ sobre o disco, e saõ concavas por baxo (salvia ceratophylla).
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c.
Lacunosas ou fossulosas (lacunosa), tem varias cavidades ou fossulas no disco, e entre os veios; as suas convexidades estaõ na face inferior, como se vê nas frondes de algumas algas, lichen saxatilis, &c. Pontoadas (punctata, pertusa, perforata) Nota
Os termos pertusa e perforata significaõ propriamente folhas perforadas,
isto he, que tem furos no disco, como o dracontium
pertusum.
Vesiculosas (papulosa), quando a sua superficie esta coberta de
pequenas vesiculas Nota
Pode-se formar idea destas vesiculas pelas que se vêm na
casca de huma laranja, nas quaes se acha o seu oleo
essencial.
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).
Mamillosas ou verrugosas (papillosa, s. verrucosa), quando a sua superficie tem verrugas, tuberculos , ou pequenos mamillos (a viperina).tuberculosViscosas (viscosa), quando a sua superficie esta barrada de hum humor, naõ fluido, mas que se apega [Página 65] aos dedos com tenacidade á maneira de visco (senecio viscosus).
[Página 65]Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).
Escabrosas ou asperas (scabra, s. aspera), quando a sua superficie se acha salpicada de graõsinhos, ou pequenos tuberculos , que a fazem aspera (a pulmonaria).tuberculosCotanilhosas (tomentosa), quando tem a superficie cotanilhosa (como a perpetua): humas vezes saõ cotanilhosas em ambas as faces, outras vezes so em huma, principalmente na inferior; quando o cotanilho he branco, como succede ordinariamente, daõ-lhes taõbem o nome de encanescidas (incana).
Felpudas (villosa), quando tem pêlos bastos, e macios (o çumagre): se os pelos saõ hum tanto ralos, e ao mesmo tempo finos, dizem-se: empubescidas (pubescencia), como saõ as do salgueiro.
Assetinadas (sericea), saõ quasi felpudas, os seus pelos saõ muito bastos, curtissimos, applicados postradamente huns aos outros, e luzedios, o que tudo concorre a dar á superficie huma vista assetinada (convolvulus cneorum, spiræa argentea, protea sericea & argentea).
Peludas ou hirsutas (pilosa, s. hirsuta), quando tem pelos compridos mais ou menos distantes entre si, como no hieracium pilosella, e juncus pilosus. Se os pelos saõ longos, parallelos, ou dispostos em pilha nalgumas partes da superficie na base ou topo, dizem-se: barbudas (barbata), como saõ as do asclepias vincetoxicum, e as do mesembryanthemum barbatum.
Lanudas ou lanugineas (lanata), tem pelos [Página 66] curvados e tecidos mutuamente, como fios de huma tea de aranha (stachys lanata).
[Página 66]Hispidas (hispida), quando tem sedas frageis, como as da viperina.
Ardentosas (urentia), quando tem ferroẽs venenosos, como as da urtiga.
Cerdosas (strigosa), quando saõ nimiamente hispidas ou tem cerdas,
que saõ sedas hum tanto rijas, hum tanto planas Nota
As cerdas (strigae) saõ as vezes taõbem cylindricas conforme
alguns Botanicos, que naõ as distinguem pela planitude, mas
sim por serem quasi aculeos, como as da viperinia, e segundo
elles os termos hispido e cerdoso saõ synonymos.
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).
Aculeadas (aculeata), quando no seu disco tem aculeos, ou producçoẽs grossas, rijas, duras, e picantes, pegadas aos veios e nervura dorsal (solanum mammosum).dorsal7º Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:
Quanto á expansibilidade ou dilataçaõ do disco, as folhas dizem-se ser:folhas Planas (plana) se tem as suas duas faces chatas, parallelas huma á
outra em toda a sua extensaõ, ou contem entre as duas faces por toda
a parte igual substancia (a gilbarbeira, o alho, e cacalia
anteuphorbium Nota
Este termo ora he usado para significar hum disco plano sem
convexidade nem concavidade, como no geranium betulinum, ora
indica hum disco delgado (ainda que seja canaliculado ) como o das especies de Anthericum,
etc. e neste sentido he opposto ao disco carnudo, ou
cylindrico.
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).
Canaliculadas (canaliculata), quando saõ compridas e tem longitudinalmente hum rego profundo, como huma bica ou calha, de modo que se approximaõ á forma de meyo cylindro (iris xiphium, aloe viscosa).CanaliculadasConcavas (concava), a sua margem he mais estreita do que o disco, ou naõ he proporcionada á extensaõ do disco de modo que este abate, e fica mais baxo do que a margem (marrubium pseudo-dictamnus, geranium peltatum).
Convexas (convexa), elevaõ-se athe ao centro do disco, e saõ o contrario das concavas, isto he, a sua margem he mais estreita do que o disco, e este se eleva para cima de modo que a margem fica mais baxa do que elle (hyacinthus muscari, martynia perennis).
Acapelladas (cucullata), saõ summamente concavas, ou sejaõ arrodeladas, ou tenhaõ os dois lados junto do peciolo encolhidos e conchegados; nesta segunda circumstancia abrem pouco a pouco da banda do cume, e representaõ deste modo a forma de hum capuz (o conchélo, e geranium cucullatum).
Franzidas (plicata), quando no seu disco tem pregas agudas, e alternadas, que chegaõ athe á margem, e se assemelhaõ às de hum leque quasi aberto (veratrum album, e alchemilla). Franzidas obtusamente (obtuse plicata, s. undata), se as suas pregas saõ obtusas.
Ondeadas (undulata), quando o seu disco junto da margem forma dobras alternadas ou ondeaçoẽs [Página 68] ora concavas ora convexas, de sorte que por este modo o espaço junto do ambito fica muito desproporcionado ao do centro (inula undulata e pulicaria, aletris capensis, mesembryanthemum cristallinum).
[Página 68]Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa). Estas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.
Crespa (crispa), saõ franzidas ou ondeadas desordenadamente na margem, e ainda mesmo no disco, de sorte que este fica sendo muito mais comprido do que a nervura dorsal da folha (malva crispa, e chicoria crespa).dorsalfolhaEstas folhas ordinariamente saõ consideradas como producçoes viçadas, ou monstruosas.folhas8º. As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:
As folhas consideradas quanto á substancia dizem-se ser:folhas Membranosas (membranacea), saõ finas e naõ se lhes percebe entre as duas
superficies polpa alguma, e porisso as comparaõ a
membranas delgadas Nota
Este termo he taõbem usado por alguns Botanicos em lugar de
planas, e delgadas.
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .
Escariosas (scariosa) saõ aridas, esbranquiçadas, sonoras ao tacto, e comparadas á epiderme fina que se despega da casca de algumas arvores .arvoresBojudas (gibba, s. gibbosa), quando tem ambas as suas superficies convexas, em razaõ de huma grande quantidade de subtancia polposa (sedum acre, portulacca anacampseros, serracenia purpurea).
Roliças (teretia, s. cylindrica), quando na maior parte do seu comprimento saõ cylindricas ou semelhantes a hum rolo (o arroz dos telhados).
Semiroliças (semiteretia), quando saõ ao longo concavas de huma parte e convexas da outra: semicylindricas (semicylindracea), quando saõ planas de [Página 69] huma banda e convexas da outra à maneira de hum rolo partido ao meyo longitudinalmente (a cebola). Estes dois termos saõ contudo muitas vezes usados hum em lugar do outro indifferentemente.
[Página 69]Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).
Deprimidas (depressa), saõ succulentas ou polposas, e no seu disco ou face superior junto da base saõ mais delgadas e abatidas do que nos lados, de modo que parecem como esmagadas pelo tronco (sempervivum sediforme, cacalia repens).succulentasComprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.) Peloque se vê que a depressaõ suppoem o disco concavo, e a compressaõ os lados marginaes esmagados.
Comprimidas (compressa), saõ succulentas ou carnudas, mas nos dois lados marginaes e longitudinaes oppostos saõ hum tanto esmagadas e chatas de modo que o disco fica hum tanto mais elevado e polposo (anthericum hispidum, juncus articulatus, mesembryanthemum stipulaceum, cacalia ficoides.)succulentasAquilhadas (carinata), quando ao longo e no meyo da face inferior tem huma quilha aguda, e na parte superior hum rego profundo longitudinal (a abrotea.)
Delgadas (tenuia), quando entre a pelle das superficies naõ tem polpa notavel, mas antes saõ hum tanto finas, ou
como papel, ou como a grossura de pergaminho (canna indica). Grossas, polposas, ou carnudas (crassa, pulposa, s. carnosa) saõ
oppostas às precedentes, nellas ha sempre huma polpa notavel Nota
Ordinariamente nas obras elementares se faz differença dos
termos polposas e carnudas, mas na sua applicaçaõ saõ quasi
sempre confundidos. Depois de se fazer mençaõ de que as folhas saõ carnudas, podese expor a
sua medida absoluta dizendo: lineas duas crassa, pollicem,
s. unciam crassa, &c. a querer-se indicar a grossura da polpa .
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo). Compactas (compacta), saõ carnudas mas a sua substancia naõ he sumarenta como a das precedentes nem esponjosa, mas sim firme, mociça, e hum tanto dura (a piteira, e herva babosa). Este termo usa-se as vezes taõbem em lugar de repletas.
Succulentas (succulenta), saõ mais ou menos grossas, e a sua polpa he molle e sumarenta; susceptivel de se poder esmagar facilmente entre os dedos (a beldroega, o sayaõ, e conchélo).SucculentaspolpaRepletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados). Tubulosas (tubulosa), saõ oppostas às precedentes, por serem occas (a cebola).
Repletas (farcta), saõ carnudas, ordinariamente roliças ou semicylindricas, e o seu interior he todo cheyo de substancia ou seja succulenta , ou esponjosa ou compacta de modo que se lhes naõ divisa cavidade alguma (o arroz dos telhados).succulenta Linguiformes, ou alinguettadas (lingulata Nota
Este termo he as vezes, taõbem applicado a algumas folhas , que naõ saõ
carnudas, mas he hum defeito que senaõ deve imitar.
Bigumeas (ancipitia), saõ comprimidas e tem dois gumes longitudinaes oppostos, e o disco entre elles elevado.
Ensiformes ou espadáneas (ensiformia), saõ bigumeas, com dois gumes afiados, e desde a base athe [Página 71] ao topo se vaõ pouco a pouco adelgaçando (a espadana, e os lirios).
[Página 71] Assoveladas (subulata) Nota
Vej. a nota sobre as folhas assoveladas, num. 2º.
Trigumeas (triquetra) saõ carnudas, tem tres faces planas e tres esquinas ou gumes; ellas saõ ao mesmo tempo assoveladas (mesembryanthemum pugioniforme, e butomus umbellatus).
Alfanjadas (acinaciformia), assemelhaõ-se a hum alfanje, ou chifarote; saõ carnudas, tem o gume ou borda inferior estreita, afiada, e arqueada para cima; a borda ou lado opposto he hum tanto largo, embotado, e quasi recto (mesembryanthemum acinaciforme). Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.
Nesta sorte de folhas podem-se distinguir tres esquinas (das quaes a inferior faz o gume) e tres faces, duas lateraes e huma superior opposta ao gume.folhasDolabriformes (dolabriformia), em forma de hacha d'armas ou de huma especie de segura, de que usaõ os tanoeiros nos paizes do norte: saõ carnudas, obtusas, hum tanto redondeadas e comprimidas, mais dilatadas e afiadas de huma banda, com a base prolongada em huma especie de peciolo hum tanto roliço (mesembryanthemum dolabriforme).
Acutelladas (cultrata), assemelhaõ-se a hum cutello; saõ carnudas, hum tanto mais compridas do que largas, quasi lineares, afiadas de huma banda, quasi embotadas da outra e nella levemente curvas, hum tanto obtusas no topo e hum pouco estreitas na base (crassulla obvallata).
[Página 72]N. B. Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos. Porem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas. Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas. Linneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.
Os botanicos naõ podendo, sem embargo do grande numero de termos que tem estabelecido, dar ideas de todas às intensidades, graos, ou jogos com que a natureza capricha de escaparlhes na figura das folhas , se esforçaõ muitas vezes pelas pintar ao leitor do modo que lhes he possivel, usando para esse fim de dois termos reunidos por meyo de huma risca, e dando nisso a entender que a folha participa dos caractéres significados pelos dictos dois termos.folhasfolhaPorem deve-se advirtir que elles naõ reunem senaõ os termos da mesma relaçaõ ou divisaõ, como por ex. os relativos aos angulos, sinuosidades, &c. porque os de relaçoẽs diversas saõ separados por meyo de virgulas.Pelo que dizem: folhas ovadas-lanceoladas, mas naõ dizem: lanceoladas-agudas, por serem termos de relaçoẽs differentes, e escrevem nesta circumstancia: folhas lanceoladas , agudas.folhasfolhaslanceoladasLinneo diz que naõ he indifferente, quanto aos termos da mesma relaçaõ, de por hum ou outro primeiro; que quando a folha participa mais de hum caracter do que de outro, o caracter predominante deve terminar ou seguir a risca, em razaõ de que o nome posterior deve presentar a forma ou caracter principal da folha , servindo o primeiro somente de emendalo ou a denotar huma certa excepçaõ, como por ex. se as folhas tem estreiteza hum tanto igual, participando mais da figura linear do que da lanceolada deverse-ha dizer: folhas lanceoladas-lineares; pelo contrario se ellas saõ assaz largas no meyo e participaõ mais da figura lanceolada , se escreverá: folhas lineares-lanceoladas.folhafolhafolhaslanceoladafolhaslanceoladafolhas[Página 73]1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Binadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
Bigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Trigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
1º As folhas quanto á sua
composiçaõ dizem-se ser: compostas, recompostas, e
sobrecompostas. Nesta destribuicaõ naõ deixaõ de haver algumas imperfeiçoẽs Nota
Eu
farei mençaõ dellas nas dissertaçoẽs que espero de publicar
sobre a precizaõ que ha de emendar alguns termos technicos em
Botanica, e do modo com que elles se podem corrigir e
fixar.
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).
Articuladas (arciculata), quando huma folha nasce do topo de outra, ou tem interiormente articulaçoẽs; (os exemplos que daõ ordinariamente saõ as especies, de salicornìa, e de equisetum, o juncus articulatus e nodosus).folhaBinadas (binata, s. geminata) o seu peciolo tem somente no cume dois foliolos sem gavinha alguma (zygophyllum fabago).
Ternadas (ternata, s. trinata), o seu peciolo commum tem no topo tres
foliolos (a sylva, morangueiro, e trevo) Nota
Alguns Botanicos fazem taõbem mençaõ de folhas quadernadas (quaternata), ou
com quatro foliolos sobre o topo do peciolo; mas eu creyo
que ellas saõ raras, a naõ serem viçadas como saõ as que se
vem nalgumas especies de trevo.
Digitadas (digitata), quando o seu peciolo tem no topo cinco ou mais foliolos
estreitos, como algumas especies de ranunculas Nota
Linneo dá geralmente o nome de digitadas ás folhas binadas,
ternadas, quinadas, e settenadas; alguns modernos depois
deraõ o nome de digitadas somente ás de cinco ou sette foliolos
uniformes quer sejaõ largos quer estreitos, assim como o de
apalmadas se dá ás que tem cinco ou sette segmentos
uniformes rasgados athe perto da base.
Apedadas (pedata), o seu peciolo divide-se no topo em dois, aos quaes pelo lado interno estaõ apegados alguns foliolos (helleborus niger, arum dracunculus).
Pinnuladas (pinnata), quando muitos foliolos estaõ apegados longitudinalmente aos dois lados de hum peciolo simplez e commum (o jasmineiro, e espongeira).
-Pinnuladas com impare (pinnata cum impari), saõ terminadas no topo em hum foliolo none ou desparceirado, posto no meyo dos dois ultimos (o ervanço, e freixo). Este foliolo dize-se rente (impari sessili), quando a sua base está apegada rentemente ao mesmo ponto de apego em que prendem os dois foliolos lateraes (glycyrrhiza echinata, agrimonia repens); peciolado (impari petiolato), quando entre a sua base e o ponto de apego dos dois foliolos lateraes medea hum pequeno peciolo, que he a extremidade do, peciolo commum longitudinalmente continuado (o alcaçuz, e agrimonia).
-Pinnuladas com gavinha (pinnata cirrhosa), quando em lugar do foliolo impare tem huma [Página 75] gavinha, que he a ponta do pecioLo commum convertida na dicta cordinha (a ervilha, vicia sativa, e lathyrus pisiformis).
[Página 75]-Pinnuladas abrompidamente (pinnata abrupta, s. abrupté-pinnata), o seu topo he terminado por dois foliolos, no meyo dos quaes naõ ha impare nem gavinha, de sorte que o peciolo commum fica como decotado no ponto de apego dos dois ultimos foliolos (a fava, e aroeira).
-Pinnuladas oppostamente (pinnata opposité), quando os seus foliolos saõ oppostos, ou apegados defronte huns dos outros (o jasmineiro).
-Pinnuladas alternadamente (pinnata alterné), quando os seus foliolos estaõ postos huns abaxo dos outros nos dois lados do peciolo commum de sorte, que no mesmo ponto de apego naõ tem outros fronteiros (a fava, e fraxinella).
-Pinnuladas interrompidamente (pinnata interrupté), os seus foliolos saõ interrompidamente desiguaes, estando os menores postos successivamente entre os maiores (a filipendula, ulmaria, tomateiro, e agrimonia).
-Pinnuladas decursivamente (pinnata decursivé), quando as bases dos seus foliolos uniformes correm para baxo de huns para outros ao longo do peciolo commum, formando huma aba, a qual se estreita, e vay mingoando pouco a pouco á proporçaõ que desce de modo que junto do foliolo inferior fica extincta, ou quasi cofundida com o peciolo commum (a aroeira e melianthus maior). Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.
Quando as abas decursivas naõ se estreitaõ inferiormente, mas saõ taõ largas em baxo como em cima, ou mais largas na parte inferior, a [Página 76] folha he rigorosamente pinnatifida, e naõ pinnulada, e he por falta desta observaçaõ que estas duas sortes de folhas saõ ordinariamente confundidas.[Página 76]folhas-Pinnuladas articuladamente (pinnata articulate), quando o peciolo commum he articulado, e os foliolos partem das suas articulaçoẽs (fagara tragodes). Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.
Se nestas folhas se encontraõ abas decursivas, estas saõ mais estreitas em cima do que em baxo.folhas Quando as folhas pinnuladas
naõ tem foliolo impare, mas em lugar delle tem huma gavinha, e
constaõ ao mesmo tempo de foliolos oppostos Nota
Alguns daõ ainda mesmo o nome de folhas jungidas ás que tem foliolos
alternos. Nota
Estas folhas saõ
ordinariamente confundidas com as binadas, e a naõ
admittir-se a gavinha pór destinctivo, sempre haveraõ
ambiguidades nestes dois termos, porque huma folha conjugada sem gavinha fica sendo
binada.
N. B. O numero dos foliolos pode variar na mesma planta segundo a cultura, em razaõ do terreno ser improprio, e por causa de differentes circumstancias que ás vezes se encontraõ ainda mesmo no chaõ que a planta naturalmente requer. Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ. Os foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos. A sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.
Algumas vezes vem-se plantas que tem as folhas inferiores pinnuladas; ao mesmo tempo que as da parte superior do tronco saõ simplez, e vice versâ.folhasOs foliolos e pinnulas das folhas compostas, recompostas, e sobrecompostas conforme as suas differentes figuras e relaçoes podem ser considerados, como folhas simplez, e ser descriptos com os mesmos termos.folhasfolhasA sua posiçaõ algumas vezes naõ corresponde á das folhas , porque ha plantas que tem folhas oppostas ao mesmo tempo que os foliolos destas saõ alternos, e ha outras pelo contrario que tem folhas alternas, cujos foliolos saõ oppostos.folhasfolhasfolhas2º As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.
As folhas recompostas (decomposita) saõ duas vezes compostas; este nome compete naõ so a todas as folhas desta divisaõ, mas applica se geralmente a quaesquer folhas , ou frondes, cujo peciolo commum se divide huma ao vez em pequenos peciolos parciaes, cada hum delles gendo guarnecido de muitos foliolos, como saõ as das arruda, avenca, ranunculus arvensis, pteris atropurpurea, &c.folhasfolhasfolhasBigeminas ou bigemeas (bigemina, bigeminata), saõ duas vezes binadas, o seu peciolo commum he dividido em dois parciaes como hum forcado, e cada hum destes sostem na ponta dois foliolos (mimosa unguis cati & mimosa bigemina).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).
Biternadas, ou duas vezes ternadas (biternata, s. duplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide [Página 78] em tres parciaes, e cada hum destes sostem tres foliolos, ou quando hum peciolo sostem tres folhas ternadas (adonis capensis, epimedium alpinum).[Página 78]folhasBipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).
Bipinnuladas, ou duas vezes pinnuladas (bipinnata, s. duplicato-pinnata), se o peciolo commum sostem folhas pinnuladas, ou se divide ao longo em outros peciolos lateraes menores, os quaes tem lateralmente muitos foliolos (athamanta libanotis, e a osmunda regalis).folhas3º Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).
Sobrecompostas (supradecomposita), daõ este nome naõ sò às folhas seguintes, mas a quaesquer outras cujo peciolo commum se divide mais de duas vezes em peciolos menores, cada hum delles sostendo muitos foliolos (spiræa aruncus, adiantum hexagonum, fumaria lutea).folhasTrigeminas ou trigeméas (tergemina, s. trigeminata, s. triplicato-geminata), saõ tres vezes binadas; o seu peciolo commum divide-se em tres menores parciaes, e cada hum delles sostem dois foliolos; as vezes os dois foliolos sitos na bifurcaçaõ saõ rentes (mimosa tergemna). Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).
Alguns admittem taõbem folhas tres vezes bigeminas (triplicato-bigemina), dizendo que nestas o peciolo commum se divide em tres menores, e cada hum destes em dois peciolos immediatos ou extremos sostendo cada hum dois foliolos, de modo que nesta sorte de folhas ha doze foliolos, e nas trigeminas so ha seis (ceratophyllum).folhasfolhasTriternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)
Triternadas ou tres vezes ternadas (triternata, s. triplicato-ternata), quando o peciolo commum se divide em tres menores, cada hum dos quaes sostem folhas duas vezes ternadas (aquilegia vulgaris, aralia spinosa.)folhas[Página 79]Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).
Tripinnuladas ou tres vezes pinnuladas (tripinnata, s. triplicato-pinnata), o seu peciolo commum sostem muitas folhas duas vezes pinnuladas (scabiosa, gramuntia).folhasO peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.
Algumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).
Contudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas . Peciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha. Peciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas. Peciolo commum (communis) he o que tem no topo ou nos lados muitos foliolos, ou muitos peciolos parciaes. Peciolo parcial (partialis) he o que nasce do peciolo commum; os peciolos parciaes às vezes saõ immediatos ao peciolo commum, outras vezes ramificaõse mais ou menos variamente; nesta circumstancia os ultimos saõ chamados immediatos, e os que medeaõ entre elles, e o peciolo commum tem o nome de mediatos.
O peciolo distingue-se facilmente do pedunculo Nota
He rarissimo que esta distinçaõ falhe, contudo na turnera, e
nalgumas especies de hibiscus, o pé da folha achase
confundido com o da flor. Elle eleva às vezes folhas que daõ flores, como se vê nas especies de
ruscus.
1º. Quanto á sua figura, diz-se ser:
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .
Alado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).
Aclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).
Roliço (teres) he cylindrico, ou semelhante a hum rolo: semiroliço (semiteres) he semicylindrico, ou semelhante à metade de hum rolo partido longitudinalmente.
Adelgaçado (attenuatus), quando se adelgaça ou he comprimido junto da ponta (populus tremula)
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.
Trigumeo (triquete) tem tres angulos ou gumes, e tres faces planas.
[Página 82]Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).
2º. Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:
Curto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.
Mediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.
Comprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .
Quanto á grandeza absoluta (vej. pag. 23, art. 2º)
3º. Considerado relativamente ao seu apego, diz-se ser:
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).
Innato (adnatus), tem a base larga, e se apega taõ fortemente ao tronco ou ramos, que parece confundir-se com a sua substancia; naõ se pode arrancar sem se espedaçar a casca do tronco, o que naõ succede nos peciolos inseridos.
Decursivo ou decurrente (decurrens), quando a sua base se prolonga sobre o tronco ou ramos, e corre por elles abaxo.
[Página 83]Amplexicaule ou abarcantes (amplexicaulis), quando abarca com a sua base o tronco ou ramos.
Appendiculado (appendiculatus), quando tem na base alguns appendiculos, orelhas, ou producçoẽs folheaceas (dipsacus pilosus).
Envaginante (vaginans), quando com a sua base reveste e cerca o tronco ou ramos a modo de bainha.
4º. Quanto á direcçaõ, diz-se ser:
Levantado (erectus, s. arrectus), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, chegando-se muito à poziçaõ perpendicular.
Patente (patens), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto.
Remontante (assurgens), quando ao sahir do tronco ou ramos he horizontal ou abaxa hum tanto, mas levanta-se depois com a ponta para cima, vindo assim a formar huma especie de arco.
Recurvado (recurvatus) he o contrario do precedente; ergue-se hum tanto em arco ao sahir do tronco, e se curva depois para baxo.
5º. Quanto á superficie, diz-se ser:
Nu (nudus) quando naõ tem pelos, nem glandulas, excrescencias, espinhos, nem sorte alguma de armas.
Glabro (glaber) se he nu, e a sua superficie he liza. Aculeado (aculeatus),
quando tem aculeos (a sylva, e roseiras). Espinescido (spinescens), se
tem espinhos muito raros e fracos, ou taõbem quando he rijo, endurecido,
e picante na ponta Nota
Nesta circumstancia so pode ter lugar nas folhas pinnuladas.
Articulado (articulatus), se tem huma ou mais articulaçoẽs.
O peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.
O peciolo (petiolus) he o esteio ou pe da folha apegado a ella na sua base pela margem, e raras vezes pelo seu disco.folhaAlgumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).
Algumas vezes he difficil de decidir onde começa, e onde termina o peciolo da folha , ou qual seja o lugar da base da folha ; donde procede que alguns Botanicos em semelhantes circumstancias os admittem como peciolos bastardos ou improprios (petioli spurii).folhafolhaContudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas . Peciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha. Peciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas. Peciolo commum (communis) he o que tem no topo ou nos lados muitos foliolos, ou muitos peciolos parciaes. Peciolo parcial (partialis) he o que nasce do peciolo commum; os peciolos parciaes às vezes saõ immediatos ao peciolo commum, outras vezes ramificaõse mais ou menos variamente; nesta circumstancia os ultimos saõ chamados immediatos, e os que medeaõ entre elles, e o peciolo commum tem o nome de mediatos.
Contudo geralmente fallando, e nas circumstancias em que o peciolo he bem distinctamente assignalado, pode-se considerar como simplicissimo (simplicissimus) todas as vezes que naõ se divide de modo algum em outros parciaes; o seu topo he o ponto onde elle se converte em nervura dorsal da folha ou dos seus foliolos rentes, como se vê nas folhas rigorosamente simplez, nas binadas, e algumas ternadas e digitadas .dorsalfolhafolhasdigitadasPeciolo simplez (simplex) he susceptivel de se dividir em peciolos parciaes curtissimos, e indivisos, os quaes sòstem hum so foliolo simplez; elle se observa nas folhas pinnuladas, apedadas, e nalgumas ternadas e digitadas ; nas pinnuladas faz as vezes de nervura dorsal [Página 80] prolongando-se em linha recta athe ao topo da folha onde termina ou em huma gavinha, ou em hum peciolo parcial recto (como no alcaçuz), ou sostem hum foliolo impare rente, ou emfim termina abrompidamente ficando como decotado; às vezes he articulado no seu prolongamento, e no lugar da insersaõ dos foliolos; outras vezes indurece, e termina em huma ponta espinhosa como no astragalus tragacantha.folhasdigitadasdorsal[Página 80]folhaPeciolo composto (compositus) divide-se em peciolos parciaes, que sostem nas suas pontas ou lados mais de hum so foliolo, como nas recompostas e sobrecompostas; estes peciolos secundarios saõ mais ou menos ramificados e sempre mais compridos do que os das folhas compostas.folhasO peciolo distingue-se facilmente do pedunculo Nota
He rarissimo que esta distinçaõ falhe, contudo na turnera, e
nalgumas especies de hibiscus, o pé da folha achase
confundido com o da flor. Elle eleva às vezes folhas que daõ flores, como se vê nas especies de
ruscus.
1º. Quanto á sua figura, diz-se ser:
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .
Linear (linearis), se tem a mesma largura em todo o seu comprimento; elle he hum tanto chato em algumas folhas .folhasAlado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).
Alado (alatus) se he nos lados guarnecido de huma producçaõ membranosa ou folheacea, a qual ordinariamente se acha na sua parte superior (a larangeira).membranosaAclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).
Aclavado ou massudo (clavatus), he mais grosso da banda da sua ponta, ou junto da base da folha , de maneira que representa de algum modo a forma de huma massa (trapa natans).folhaRoliço (teres) he cylindrico, ou semelhante a hum rolo: semiroliço (semiteres) he semicylindrico, ou semelhante à metade de hum rolo partido longitudinalmente.
Adelgaçado (attenuatus), quando se adelgaça ou he comprimido junto da ponta (populus tremula)
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.
Membranoso (membranaceus), he chato como huma folha ou como huma membrana, naõ tendo polpa sensivel entre as suas superficies.MembranosofolhapolpaTrigumeo (triquete) tem tres angulos ou gumes, e tres faces planas.
[Página 82]Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).
Canaliculado (canaliculatus), quando tem hum règo longitudinalmente na sua face superior (rubus idœus).Canaliculado2º. Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:
Quanto á grandeza relativa ou comparada com o comprimento da folha , diz-se ser:folhaCurto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.
Curto (brevis), se a folha he sensivelmente mais comprida do que elle: curtissimo (brevissimus), se ella o excede summamente no comprimento.folhaMediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.
Mediocre (mediocris), quando o seu comprimento he igual ao da folha , ou que a differença de igualdade he pouco sensivel.folhaComprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .
Comprido (longus), se he evidentemente mais comprido do que a folha : compridissimo (longissimus), se o seu comprimento excede summamente o da folha .folhafolhaQuanto á grandeza absoluta (vej. pag. 23, art. 2º)
3º. Considerado relativamente ao seu apego, diz-se ser:
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).
Inserido ou conjuntado (insertus), quando se apega ao caule como por huma articulaçaõ, e ordinariamente forma angulos muito abertos com os ramos (as arvores ).arvoresInnato (adnatus), tem a base larga, e se apega taõ fortemente ao tronco ou ramos, que parece confundir-se com a sua substancia; naõ se pode arrancar sem se espedaçar a casca do tronco, o que naõ succede nos peciolos inseridos.
Decursivo ou decurrente (decurrens), quando a sua base se prolonga sobre o tronco ou ramos, e corre por elles abaxo.
[Página 83]Amplexicaule ou abarcantes (amplexicaulis), quando abarca com a sua base o tronco ou ramos.
Appendiculado (appendiculatus), quando tem na base alguns appendiculos, orelhas, ou producçoẽs folheaceas (dipsacus pilosus).
Envaginante (vaginans), quando com a sua base reveste e cerca o tronco ou ramos a modo de bainha.
4º. Quanto á direcçaõ, diz-se ser:
Levantado (erectus, s. arrectus), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, chegando-se muito à poziçaõ perpendicular.
Patente (patens), quando forma com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto.
Remontante (assurgens), quando ao sahir do tronco ou ramos he horizontal ou abaxa hum tanto, mas levanta-se depois com a ponta para cima, vindo assim a formar huma especie de arco.
Recurvado (recurvatus) he o contrario do precedente; ergue-se hum tanto em arco ao sahir do tronco, e se curva depois para baxo.
5º. Quanto á superficie, diz-se ser:
Nu (nudus) quando naõ tem pelos, nem glandulas, excrescencias, espinhos, nem sorte alguma de armas.
Glabro (glaber) se he nu, e a sua superficie he liza. Aculeado (aculeatus),
quando tem aculeos (a sylva, e roseiras). Espinescido (spinescens), se
tem espinhos muito raros e fracos, ou taõbem quando he rijo, endurecido,
e picante na ponta Nota
Nesta circumstancia so pode ter lugar nas folhas pinnuladas.
Articulado (articulatus), se tem huma ou mais articulaçoẽs.
As partes accessivas das plantas a que Linneo dá Nota
Sigo nesta divisaõ a sua Phil. Bot. n. 84, porque o mesmo Autor
no seu tractado dos termos Botanicos estendeo taõbem o nome de
esteios aos peciolos e pedunculos.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Nullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Intrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Rentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
Fêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Pelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Quando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
[Página 95]As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
Dizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
As partes accessivas das plantas a que Linneo dá Nota
Sigo nesta divisaõ a sua Phil. Bot. n. 84, porque o mesmo Autor
no seu tractado dos termos Botanicos estendeo taõbem o nome de
esteios aos peciolos e pedunculos.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Nullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Intrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As estipulas saõ escamas, folhiços, ou appendices que de achaõ na base dos peciolos ou pedunculos. Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.
Ellas se observaõ nas roseiras, pereira, gallega, e outras plantas das classes Icosandria e Diadelphia; ha contudo algumas classes e familias que saõ inteiramente destituidas de plantas estipulosas, como por ex. as labiadas, borragineas ou asperifolias, estrelladas, [Página 85] cruciferas, liliaceas, orchideas, e quasi todas as compostas.[Página 85]Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados. Dizem-se ser:
Aindaque as estipulas saõ ordinariamente descriptas com os mesmos termos que expûz no capitulo das folhas ; naõ deixarei contudo de tractar aqui dos que mais frequentemente lhes saõ dados.folhasNullas (nullae), quando naõ existem na base dos peciolos ou pedunculos.
Solitarias (solitariae), quando huma somente se acha na base do peciolo (gilbarbeiras, e melianthus maior).
Emparelhadas (geminae), quando se achaõ duas a duas na base do peciolo (a pereira, e a maior parte das plantas que saõ estipulosas.)
Lateraes (laterales), quando estaõ postas nos lados do peciolo ou do pedunculo.
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).
Extrafolias (extrafoliaceae), quando estaõ postas abaxo da folha ou do seu peciolo (a tilha, betula alnus, e as plantas da classe Diadelphia).folhaIntrafolias (intrafoliaceae), quando estaõ postas acima do ponto de apego do peciolo (a figueira, e amoreira).
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.
Contrafolias (oppositifoliæ), quando estaõ situadas ao lado de folhas oppostas, ou estaõ taõbem defronte de hum peciolo.folhasCaducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .
Caducas (caducae), quando cahem primeiro do que as folhas .folhasDecadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .
Decadentes (deciduae), se cahem juntamente com as folhas .folhasPersistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.
Persistentes (persistentes), se persistem depois das folhas cahirem (as plantas da Diadelphia e Icosandria polygynia.folhas Espinescidas (spinescentes, s. spinosae), quando saõ [Página 86] duras, agudas, e picantes Nota
Saõ ordinariamente verdadeiros espinhos ou aculeos postos nas
axillas das folhas ,
ou no ponto em que estas ou o seu peciolo se apegaõ aos
ramos.
Rentes (sessiles), se estaõ apegadas immediatamente ao tronco ou ramos, sem terem hum pequeno peciolo.
Innatas (adnatae), se estaõ apegadas ou adunadas na base do peciolo (roseira, e sylva). Soltas (solutae), quando estaõ despegadas do peciolo.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.
Dizem-se taõbem decursivas, envaginantes, assoveladas, lanceoladas , afrechadas, levantadas, recurvadas, patentes, integerrimas, serreadas, celheadas, denteadas, fendidas, &c. termos que ficaõ ja explicados no capitulo das folhas , com as quaes ellas tem huma grande analogia.lanceoladasfolhas Consideradas quanto á sua grandeza saõ comparadas com o peciolo, ou
com a folha , no cazo que esta seja rente, e se dizem
ser: curtas, curtissimas, mediocres, compridas, e compridissimas Nota
Vej. a explicaçaõ destes termos no CAP. Do peciolo, art.
2º.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
As gavinhas (cirrhi) Nota
Em lugar do termo cirrhus achaõ-se taõbem
em muitos autores as palavras capreoli, clavicula e viticuli,
mas estes termos saõ menos extensos na sua significaçaõ,
porquanto rigorosamente sò indicaõ gavinhas lenhosas ou ellos
(como saõ os da videira) e o termo gavinha (cirrhus) comprehende
tanto as herbaceas, como as lenhosas.
A gavinha diz-se ser: simplez (simplex), quando naõ se divide nem ramifica de modo algum.
Multifendida (multifidus), se acaso se divide em muitos ramos; bifendida, trifendida, &c. (bifidus trifidus, &c.) quando se divide em dois, tres ramos, &c.
Axillar (axillaris), se nasce da axilla formada pela base do peciolo ou pedunculo com os ramos: subaxillar (subaxillaris) se nasce abaxo da axilla.
Contrafolia (oppositifolius), quando no tronco ou ramos tem o ponto de apego fronteiro ao do peciolo.
Folhear (foliaris), quando nasce da substancia de huma folha simplez ou composta (de ordinario nasce da
sua ponta.) Nas folhas jungidas muitas
vezes em lugar de se dizer gavinha folhear, diz-se gavinha
polyphylla, diphylla, tetraphylla, &c. (polyphyllus, diphyllus,
tetraphyllus, &c.) isto he, gavinha de muitos foliolos, de dois,
de quatro, &c. Nota
Mas nestas circumstancias o melhor sera usar dos termos:
gavinhas folheares terminaes, ou folhas gavinhosas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.
Peciolar ou terminal (petiolaris, s. terminalis), quando nasce do topo do peciolo prolongado, como nas folhas jungidas.folhas[Página 88]Peduncular (peduncularis), se nasce do pedunculo ou do pe que sostem a flor.
Encaracollada para dentro (convolutus), se a sua ponta se annela ou enrosca inclinando-se para a banda de dentro do tronco ou ramos.
Encaracollada para fora (revolutus), quando se enrosca em huma direcçaõ opposta á precedente, ou forma meyos anneis para a banda de fora do tronco. Alguns taõbem as denominaõ encaracolladas á direita, ou à esquerda; mas todas estas sortes de annelado saõ muito sojeitas a variar.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Rentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.
Debaxo do nome de glandulas os Botanicos comprehendem em geral ora certas excrescencias ora certas cavidades, que se achaõ no exterior dos vegetaes, e lhes tem dado os nomes de tuberculos , mamillos, verrugas, graõsinhos, utriculos , vesiculas, callos, pontos, fossulas, pustulas, cicatrizes, pòros, &c. de que fallarei, quando tractar da glandulaçaõ relativa ao habito externo.tuberculosutriculos As glandulas (glandulae), de que prezentemente devo fazer mençaõ saõ
certos graõsinhos de formas differentes, que se observaõ
principalmente nas folhas e
producçoẽs analogas a ellas. Estas excrescencias parecem, como muitas outras, ser destinadas a
certas secreçoẽs; humas saõ assaz visiveis sem lente, e outras
precizaõ de microscopio ou lente para bem se poderem destinguir; as
primeiras saõ somente as que se devem [Página 89] empregar por sinaes caracteristicos; mas como Linneo naõ deixou
de tractar taõbem das segundas para intelligencia de Nota
Duhamel,
Physique des arbres; Guettard, Observations sur les plantes aux
environs d'Estampes, &c.
As glandulas dizem-se: peciolares (petiolares), quando se daõ no
peciolo da folha (o martyrio e noveleiro); estipulares
(stipulares), quando se daõ nas estipulas; bracteares (bracteares),
se nas bracteas; pedunculares (pedunculares), se nos pedunculos;
capillares (capillares), se nascem dos pelos, ou estaõ unidas a
elles Nota
Ellas taõbem se achaõ nos estames e antheras ; e nesta
circumstancia podiaõ ser chamadas: estaminares, e
antherinas.
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces. Algumas vezes estas glandulas saõ hum tanto concavas (concavae.)
Folheares (foliares, s. foliaceae), quando se daõ nao folhas ; as vezes estaõ na base (como na abobara cabassa ou carneira); outras vezes nos dentes (como no salgueiro e amendoeira); outras emfim no dorso da folha , nas nervuras, ou em qualquer das duas faces.folhasfolhaRentes (sessiles), se naõ tem pedicello algum que as sostenha (o noveleiro e salgueiro): apedicelladas (stipitatae), se saõ sostidas por hum curto pésinho (o martyrio).
Milheares (mileares), quando saõ muito bastas e vistas ao microscopio se assemelhaõ aos graõs de milhaan ou milho miudo.
Globulares (globulares), assemelhaõ-se a graõs de escomilha.
[Página 90]Lenticulares (lenticulares) se tem a forma de huma lentilha.
Naviculares (naviculares), assemelhaõ-se a hum baixel ou navetta.
Tubulares (tubulosae), assemelhaõ-se a hum tubo.
Copolinas (cupulares), saõ hum tanto semelhantes a copinhos ou tigellinhas.
Assovelladas (subulatae), saõ lineares na parte inferior, e se estreitaõ para a ponta como hum ferro de sovella.
Vesiculares (vesiculares), assemelhaõ-se à pequenas vesiculas ou
bolhas miudinhas cheyas de ar Nota
Este termo he taõbem usado como
synonymo de utriculares.
Encadeadas ou enfiadas, (catenulatae), saõ globulares e postas humas immediatamente depois das outras, como contas enfiadas.
Utriculares (utriculares), quando vistas com o microscopio Nota
Estas glandulas,saõ differentes dos utriculos internos,
e dos externos que se achaõ em certas plantas, como na
utricularia, maregravia, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
Fêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Pelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
Debaxo do nome de trichismo (trichismus) Nota
Linneo da ao trichismo
o nome de pubes, pubescentia e hirsuties; mas estes termos tem
huma significaçaõ menos geral, e equivoca, porisso julgei mais
acertado usar do primeiro.
O cotanilho (tomentum), he huma especie de excrescencia vegetal, que consta de fios enleiados huns com os outros, taõ conchegados e taõ curtos, que so com huma lente se podem bem destinguir. O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).
O cotanilho ordinariamente he branco (as folhas do alemo).folhasFêlpa (villus), he huma especie de excrescencia que consta de véllos macios, conchegados, distinctos visivelemente, e curtos. Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho. Os vellos fazem a surperficie aveludada, e ás vezes assetinada.
Vê-se nos ramos e folhas do sumagre, e nos fructos verdes do marmelleiro logo depois da florescencia, e nesta circumstancia lhe chamamos carépa, que se alimpa depois com o crescimento; a carépa contudo em alguns outros fructos parece ser hum misto de felpa e cotanilho.folhasPelos (pili), saõ excrescencias capillares, destinctos visivelmente, hum
tanto distantes entre si, mui flexiveis, ordinariamente mais compridos
do que os vellos, e sempre mais rudes ao tacto (a pilosella, a herniaria
hirsuta, e o juncus pilosus). Daõlhes o nome de barbas, quando saõ
dispostos em pilhas ou fasciculados (mesembrianthemum barbatum) Nota
Da-se taõbem algumas vezes este nome aos pelos compridos,
rectos, e parallelos, aindaque naõ se achem em
fasciculos.
Laan ou lanugem (lana, s. lanugo), he huma excrescencia, que consta de fios bastos, curvados, compridos, e tecidos como huma tea de aranha (as especies de onopordon.)
Sedas (setae), saõ excrescencias cylindricas, e [Página 92] levantadas, que differem dos pelos por serem hum tanto mais grossas, e por serem rijas, inflexiveis, e quebradiças (echium vulgare).
[Página 92] Cerdas (strigae), saõ excrescencias setaceas , mais
rijas do que as sedas, picantes, e hum tanto chatas Nota
As cerdas, segundo,o uso mais geral desta palavra, saõ sedas
ora hum tanto planas, ora roliças, e picantes; ellas
estabelecem a passagem das sedas menos rijas aos espinhos e
aculeos, ou para melhor dizer, saõ espinhos ou aculeos, de
menor grandeza e os mais fracos, como se vem nas folhas e pedunculos de
algumas sylvas e roseiras, no rubus caesius & hispidus,
e taõbem no echinops strigosus.
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).
Celhas (cilii) saõ qualquer sorte de pelos ou sedas que se achaõ postas no fio marginal das folhas ou das producçoẽs folheaceas (o saiaõ, e lichen ciliaris).folhas Pegamaços (hami) saõ arestas, praganas curtas, ou sedas simplez, que
tem hum so gancho na ponta, ou que terminaõ em huma ponta aguda e
curvada (o fructo da agrimonia, o calyz da bardana). Algumas vezes as sedas ou arestas terminaõ em duas, em tres, ou mais
pontas curvadas, e susceptiveis de se pegarem aos vestidos como os
pegamaços; estes ganchos ou denticulos curvados saõ por alguns
autores chamados glochins (glochides), semelhantes aos que se daõ
nas praganas do trigo e cevada; mas ordinariamente o termo de
glochins he dado ás sedas curtas que terminaõ em dois ganchos: se
terminaõ em tres, chamaõ-lhes triglochins (triglochides) Nota
O termo glochides he tomado as vezes como adjectivo na
significaçaõ de uncinatus, gancheado, e o mesmo he o
triglochides, que se toma na significaçaõ de tricuspides, de
tres pontas gancheadas, ou curvadas em forma de tres
ganchos.
Em geral as sedas e alguns pelos, segundo as [Página 93] observaçoẽs que se tem feito com lentes, e ainda mesmo a olhos nûs, saõ denominados: simplez, ramosos, cylindricos, pyramidaes, gancheados, glandulosos, forquilhosos, bifendidos, em forma de machadinha, estrellados, plumosos, fasciculados, articulados, nodosos, caudatos, em forma de aspersorio, &c.
[Página 93]Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Quando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.
Assim como o Autor da natureza deo aos animaes armas para sua defeza, assim taõbem, dizem os Botanicos, as deo ás plantas a fim de que os animaes menos as offendessem e estragassem.As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.
As armas dos vegetaes saõ ordinariamente reduzidas pelos Botanicos a tres especies, a saber, ferroẽs, aculeos, e abrolhos ou espinhos do lenho.Os ferroẽs (stimuli) saõ huma especie de sedas mais ou menos compridas, com huma ponta finissima venenosa, que fere a pelle nua, sem effusaõ de sangue, e nella causa subitamente inflammaçaõ com pruido (a ortiga, malpighia urens, e jatropha urens). Elles tem grande analogia com os ferroẽs das vespas, e abelhas.
Aculeos (aculei), ou espinhos corticaes, saõ producçoẽs lenhosas mais
grossas, rijas, e duras do que as sedas, e cerdas, agudas, picantes
com effusaõ de sangue, apegadas á casca da planta e naõ ao lenho,
podendo-se arrancar ordinariamente sem grande estrago da parte da
planta a que jazem afferradas; taes gaõ os que se achaõ no caule das
sylvas e roseiras Nota
Nas especies de cactus, euphorbia, e solanum alguns Botanicos
chamaõ aculeos ao que outros chamaõ espinhos ou abrolhos;
mas deve-se observar que os verdadeiros abrolhos passaõ a
ser ramos nas plantas lenhosas; e nas herbaceas jamais cahem
ou se despegaõ do tronco, perecem com elle, e as suas fibras
naõ parecem articular-se, mas prolongaõ-se, e confundem-se
com as demais formando huma continuada e indistincta
substancia, o que naõ tem lugar nos aculeos propriamente
taes.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.
Abrolhos ou espinhos do lenho (spinae), saõ producçoẽs lenhosas, e agudas, que nascem do lenho e naõ meramente da casca, que tem fibras summamente prolongadas de modo que formaõ huma substamcia continuada taõ intimamente, que senaõ podem arrancar sem grande estrago da parte donde nascem; daõ-se no tronco e ramos, como se vê no pirliteiro, restaboi, limoeiro, e abrunheiro bravo; nas folhas , como no zimbro, alcaxofas, e cardos; no calyz, como no cardo sancto; nos fructos, como no abrolho, e datura ferox.folhasQuando os aculeos, ou ainda mesmo os espinhos do lenho se dividem na base ou acima della em duas ou tres pontas, daõlhes o nome de garfins bicuspides ou tricuspides, e o de forquilhas bidenteas ou tridenteas (furcae bifidae, s. trifidae). No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.
No cazo que se ramifiquem em quatro, cinco, ou mais pontas dizem-se: apalmados ou digitados (palmati-ae, digitati-ae), como se vê nas especies de berberis.digitadosOs espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.
Os espinhos dizem-se ser: terminaes (terminales), quando se achaõ nas pontas dos ramos, folhas , &c.; axillares (axillares), se nascem nas axillas; calycinos (calicinae), quando se daõ no calyz, nos seus foliolos ou lacinias; folheares (foliares), se nascem nas folhas ; simplices (simplices), se naõ saõ divididos; ramosos ou divididos (divisae, s. ramosae), se acazo se ramificaõ, principalmente na sua parte superior.folhasfolhas[Página 95]As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
Dizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.). Algumas flores ou pedunculos saõ guarnecidos de huma so bractéa, outros saõ acompanhados de muitas.
As bractéas (bracteae); saõ pequenas folhas , proximas ás flores, differentes das mais folhas da planta pela sua figura e as vezes taõbem pela sua cor (o til ou tilha, o rosmaninho, a coroa imperial, &c.).folhasfolhasDizem-se: grandes ou pequenas (magna aut parvae), segundo saõ maiores ou menores do que as flores ou seus pedunculos.
Còradas (coloratae), se tem huma cor differente da verde (salvia horminum, e a alfazema).
Caducas (caducae), se cahem antes das flores: decadentes (deciduae), se cahem ao mesmo tempo que as flores: persistentes (persistentes), se persistem athe a madureza do fructo ou ainda mesmo depois delle ter cahido, o que he o mais ordinario, contribuindo isto taõbem a faze-las destinguir dos foliolos do perianthio.
Comosas (comosae, s. coma) quando saõ bastas, numerosas, e estaõ situadas acima das flores na ponta do tronco ou ramos (acoroa imperial, os ananazes, a alfazema, rosmaninho, salvia horminum, e fritillaria regia). Nalgumas destas plantas as bractéas saõ bastantemente grandes e copadas.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.
As bractéas tem ainda muitas outras denominaçoẽs em tudo semelhantes ás das folhas , com as quaes [Página 96] tem huma intima analogia, e porisso as omitto aqui.folhas[Página 96]O pedunculo (pedunculus) he a parte do tronco ou ramos que serve de esteio á flor, e a que chamaõ vulgarmente o pé da flor. Elle tem huma intima analogia com os ramos, e lhe daõ por esse motivo muitas das suas denominaçoẽs.
Diz-se ser: commum (communis), quando sostem muitas flores ou se divide em pedunculos parciaes.
Parcial (partialis), quando nasce do pedunculo commum ramificado; subdivide-se as vezes ainda em outros menores, a que chamaõ pedicellos ou pedunculos immediatos (pedicelli).
1º. Os pedunculos considerados, quanto ao lugar a que estaõ apegados na planta, dizem-se ser:
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco). Estes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.
Caulinos (caulini), quando nascem do caule.
Rameos (ramei), se nascem dos ramos.
Peciolares (petiolares), se nascem dos peciolos (o hibiscus moscheutos, e algumas especies de turnera). [Página 97] Alguns daõ-lhes taõbem o nome de folheares (foliares) nesta mesma accepçaõ.
Gavinhosos (cirrhiferi, s. cirrhosi), quando lançaõ huma gavinha na ponta (vitis indica, cardiospermum). Alguns daõ-lhes taõbem este nome e o de voluveis, ou enroscados (volubiles), se elles se enroscaõ como huma gavinha.
Terminaes (terminales), quando se achaõ na ponta do tronco ou ramos (a tulipa, e o alfeneiro).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).
Contrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).
Lateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem). Alguns daõ contudo o nome de lateraes aos que nascem nos lados do tronco ou dos ramos, e os oppoem aos terminaes.
Unilateraes (unilaterales), se tem todos o seu ponto de apego em hum mesmo lado, seja qual for a sua direcçaõ: segundinos (secundi), quando estaõ todos inclinados para a mesma banda, ainda que o seu ponto de apego naõ seja exactamente no mesmo lado.
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).
Sobrefolheaceos (suprafoliacei, seu supini) Nota
O termo supinus usa-se taõbem em lugar de resupinatus.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.
2º Quanto á sua situaçaõ, dizem-se ser:
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas. Oppostos (oppositi), quando na mesma altura se acha hum defronte do outro.
Dispersos (sparsi), saõ raleados, copiosos, postos em distancias desiguaes nos lados do tronco ou ra mos, sem guardar ordem alguma.
Conglomerados (conglomerati), quando pertencem a huma panicula apertada; saõ dispostos sem ordem, mas approximados estreitamente (os amaranthos).
Conglobados (conglobati), quando formaõ huma especie de globo; as umbrellas da angelica e algumas flores capitozas tem pedunculos bem visivelmente conglobados. Alguns botanicos usaõ contudo deste termo em lugar de conglomerados.
Capitosos (capitati), se sostêm flores dispostas em cabeça, como os de alguns trevos.
Espigosos (spicati), se saõ dispostos em espiga.
Paniculados (panniculati), se saõ dispostos em panicula: thyrsosos (thyrsiflori), se saõ dispostos em thyrso.
Corymbosos (corymbosi), se saõ dispostos em corymbo.
[Página 99]Fasciculados ou copados (fasciculati, s. fastigiati), se saõ dispostos em fasciculo.
Racimosos (racemosi), se saõ dispostos em racimo.
Umbrellados (umbellati), se saõ dispostos em umbrella.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.
3º Quanto ao numero, o pedunculo diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se divide em rarissimos pedicellos; simplicissimo (simplicissimus) se he unifloro, naõ se dividindo em pedunculos alguns. Multifloro (multiflorus), se sostem muitas flores; unifloro, bifloro, trifloro, quadrifloro, &c se sostem huma, duas, tres, quatro flores, &c.
Composto ou ramoso (compositus, s. ramosus), quando se ramifica em muitos pedunculos parciaes.
Solitario (solitarius), se naõ tem outro ao seu lado no mesmo ponto de apego.
Dois a dois (gemini, geminati, bini), quando se achaõ dois no mesmo ponto de apego ou quasi ao lado hum de outro, e deste modo continuaõ nas mais partes do tronco ou ramos: neste mesmo sentido se dizem ser taõbem: tres a tres, quatro a quatro, &c. (terni, quaterni, &c.)
Numerosos (numerosi, multiplices), quando saõ em grande numero, ou sejaõ situados nas umbrellas e verticillos, ou ao longo dos ramos, receptaculos communs, &c.
4º Quanto a direcçaõ, dizem-se ser:
Encostados (appressi), quando em quasi todo o [Página 100] seu comprimento jazem encostados ao tronco ou ramos.
Levantados (erecti), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, estando muito pouco desviados delles.
Patentes (patentes), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto: horizontaes (horizontales), se formaõ hum angulo recto com o tronco ou ramos.
Coarctados (coarctati), quando se achaõ muitos juntos, approximados, e quasi parallelos.
Resupinados (resupinati), quando sostem flores, que tem corollas resupinadas.
Acenosos (cernui, nutantes), quando em razaõ da sua debilidade, e pezo da sua flor se survaõ na ponta virando esta ou para a terra ou para a ilharga (o gyrasol, o geum rivale, e carduus nutans).
Fracos (flaccidi), quando saõ taõ debeis que basta o pezo da sua flor para os fazer curvar ou ficar pendentes.
Pendentes ou verticaes (penduli, s. verticales), quando estaõ dependurados perpendicularmente para a terra (convallaria polygonatum).
Recurvados (recurvati), quando se elevaõ hum pouco, e depois se curvaõ para baxo.
Remontantes (ascendentes), saõ hum tanto arqueados perto da base, e depois se indireitaõ levantando a ponta para cima.
Irtos ou rectos (stricti), quando naõ tem tortuosidades nem curvatura alguma.
Tortuosos ou ondeados (flexuosi, s. undulati), [Página 101] quando tem tortuosidades ou dobras alternativas, á maneira de huma espada columbrina (aira flexuosa).
Requebrados (retrofracti), quando saõ quasi pendentes, e tem articulaçoẽs angulozas, parecendo como quebrados.
5º Quanto á sua medida relativa, saõ comparados com a flor, e se dizem: curtos, curtissimos, mediocres, compridos e compridissimos. Quanto à sua medida absoluta, veja-se pag. 25, art. 2º.
6º. Quanto á sua superficie e estructura, dizem-se:
Roliços (teretes), se saõ semelhantes na forma a hum rolo: trigumeos (triquetri), se tem tres gumes agudos: trigònos (trigoni), se tem tres gumes hum tanto embotados: quadrigumeos (quadriquetri), se tem quatro gumes afiados: tetragonos (tetragoni), se tem quatro gumes embotados.
Filiformes (filiformes), saõ delgados e de igual grossura, semelhantes a hum fio de linhas ordinario.
Adelgaçados (attenuati, s. acuminati), quando se adelgaçaõ, para a ponta.
Engrossados (incrassati), quando engrossaõ para a ponta ou junto do caliz da flor: se junto da flor engrossaõ á maneira de huma massa, dizem-se: aclavados (clavati).
Articulados (articulati), se tem huma junta ou ainda mais geniculados ou nodosos (geniculati), se as juntas saõ tumidas á maneira de nòs.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.
Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.
Nûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.
Alguns os denominaõ ainda: estereis (steriles); se sostem flores abortivas, que naõ daõ fructo: ferteis ou fecundos (fertiles), se estas daõ fructo.
O pedunculo (pedunculus) he a parte do tronco ou ramos que serve de esteio á flor, e a que chamaõ vulgarmente o pé da flor. Elle tem huma intima analogia com os ramos, e lhe daõ por esse motivo muitas das suas denominaçoẽs.
Diz-se ser: commum (communis), quando sostem muitas flores ou se divide em pedunculos parciaes.
Parcial (partialis), quando nasce do pedunculo commum ramificado; subdivide-se as vezes ainda em outros menores, a que chamaõ pedicellos ou pedunculos immediatos (pedicelli).
1º. Os pedunculos considerados, quanto ao lugar a que estaõ apegados na planta, dizem-se ser:
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco). Estes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.
Radicaes (radicales), quando nascem immediatamente da raiz (a pilosella, potentilla anserina, e o paõ de porco).raizEstes pedunculos saõ curtos, sem folhas , e ordinariamente uniflòros; saõ a mesma coiza que hasteas simplices ou simplicissimas.folhasCaulinos (caulini), quando nascem do caule.
Rameos (ramei), se nascem dos ramos.
Peciolares (petiolares), se nascem dos peciolos (o hibiscus moscheutos, e algumas especies de turnera). [Página 97] Alguns daõ-lhes taõbem o nome de folheares (foliares) nesta mesma accepçaõ.
[Página 97]Gavinhosos (cirrhiferi, s. cirrhosi), quando lançaõ huma gavinha na ponta (vitis indica, cardiospermum). Alguns daõ-lhes taõbem este nome e o de voluveis, ou enroscados (volubiles), se elles se enroscaõ como huma gavinha.
Terminaes (terminales), quando se achaõ na ponta do tronco ou ramos (a tulipa, e o alfeneiro).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).
Axillares (axillares, alares), quando nascem das axillas das folhas ou ramos (a neveda).folhasContrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).
Contrafolios (oppositifolii), se nascem fonteiros ao ponto de apego da folha (a videira, e dulcamára).folhaLateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem). Alguns daõ contudo o nome de lateraes aos que nascem nos lados do tronco ou dos ramos, e os oppoem aos terminaes.
Lateraes ou laterifolios (laterales s. laterifolii) quando se achaõ apegados ao lado da base da folha , ficando esguelhados a ella (a borragem).folhaUnilateraes (unilaterales), se tem todos o seu ponto de apego em hum mesmo lado, seja qual for a sua direcçaõ: segundinos (secundi), quando estaõ todos inclinados para a mesma banda, ainda que o seu ponto de apego naõ seja exactamente no mesmo lado.
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).
Entrefolheaceos (interfoliacei), nascem nas axillas das folhas oppostas, mas seguem-se alternativamente (asclepias vincetoxicum).folhasSobrefolheaceos (suprafoliacei, seu supini) Nota
O termo supinus usa-se taõbem em lugar de resupinatus.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.
Extrafolheaceos (extrafoliacei), quando tem o seu ponto de apego hum tanto abaxo ou desviado do ponto da insersaõ da folha : em alguns cazos podem-se chamar subaxillares.folha2º Quanto á sua situaçaõ, dizem-se ser:
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas. Oppostos (oppositi), quando na mesma altura se acha hum defronte do outro.
Alternos (alterni), se acaso se seguem nos dois lados alternativamente do modo que expliquei fallando das folhas alternas.folhasDispersos (sparsi), saõ raleados, copiosos, postos em distancias desiguaes nos lados do tronco ou ra mos, sem guardar ordem alguma.
Conglomerados (conglomerati), quando pertencem a huma panicula apertada; saõ dispostos sem ordem, mas approximados estreitamente (os amaranthos).
Conglobados (conglobati), quando formaõ huma especie de globo; as umbrellas da angelica e algumas flores capitozas tem pedunculos bem visivelmente conglobados. Alguns botanicos usaõ contudo deste termo em lugar de conglomerados.
Capitosos (capitati), se sostêm flores dispostas em cabeça, como os de alguns trevos.
Espigosos (spicati), se saõ dispostos em espiga.
Paniculados (panniculati), se saõ dispostos em panicula: thyrsosos (thyrsiflori), se saõ dispostos em thyrso.
Corymbosos (corymbosi), se saõ dispostos em corymbo.
[Página 99]Fasciculados ou copados (fasciculati, s. fastigiati), se saõ dispostos em fasciculo.
Racimosos (racemosi), se saõ dispostos em racimo.
Umbrellados (umbellati), se saõ dispostos em umbrella.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.
Verticillados (verticillati), se saõ dispostos em verticillo.Verticillados3º Quanto ao numero, o pedunculo diz-se ser:
Simplez (simplex), quando se divide em rarissimos pedicellos; simplicissimo (simplicissimus) se he unifloro, naõ se dividindo em pedunculos alguns. Multifloro (multiflorus), se sostem muitas flores; unifloro, bifloro, trifloro, quadrifloro, &c se sostem huma, duas, tres, quatro flores, &c.
Composto ou ramoso (compositus, s. ramosus), quando se ramifica em muitos pedunculos parciaes.
Solitario (solitarius), se naõ tem outro ao seu lado no mesmo ponto de apego.
Dois a dois (gemini, geminati, bini), quando se achaõ dois no mesmo ponto de apego ou quasi ao lado hum de outro, e deste modo continuaõ nas mais partes do tronco ou ramos: neste mesmo sentido se dizem ser taõbem: tres a tres, quatro a quatro, &c. (terni, quaterni, &c.)
Numerosos (numerosi, multiplices), quando saõ em grande numero, ou sejaõ situados nas umbrellas e verticillos, ou ao longo dos ramos, receptaculos communs, &c.
4º Quanto a direcçaõ, dizem-se ser:
Encostados (appressi), quando em quasi todo o [Página 100] seu comprimento jazem encostados ao tronco ou ramos.
[Página 100]Levantados (erecti), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo agudissimo, estando muito pouco desviados delles.
Patentes (patentes), se formaõ com o tronco ou ramos hum angulo quasi recto: horizontaes (horizontales), se formaõ hum angulo recto com o tronco ou ramos.
Coarctados (coarctati), quando se achaõ muitos juntos, approximados, e quasi parallelos.
Resupinados (resupinati), quando sostem flores, que tem corollas resupinadas.
Acenosos (cernui, nutantes), quando em razaõ da sua debilidade, e pezo da sua flor se survaõ na ponta virando esta ou para a terra ou para a ilharga (o gyrasol, o geum rivale, e carduus nutans).
Fracos (flaccidi), quando saõ taõ debeis que basta o pezo da sua flor para os fazer curvar ou ficar pendentes.
Pendentes ou verticaes (penduli, s. verticales), quando estaõ dependurados perpendicularmente para a terra (convallaria polygonatum).
Recurvados (recurvati), quando se elevaõ hum pouco, e depois se curvaõ para baxo.
Remontantes (ascendentes), saõ hum tanto arqueados perto da base, e depois se indireitaõ levantando a ponta para cima.
Irtos ou rectos (stricti), quando naõ tem tortuosidades nem curvatura alguma.
Tortuosos ou ondeados (flexuosi, s. undulati), [Página 101] quando tem tortuosidades ou dobras alternativas, á maneira de huma espada columbrina (aira flexuosa).
[Página 101]Requebrados (retrofracti), quando saõ quasi pendentes, e tem articulaçoẽs angulozas, parecendo como quebrados.
5º Quanto á sua medida relativa, saõ comparados com a flor, e se dizem: curtos, curtissimos, mediocres, compridos e compridissimos. Quanto à sua medida absoluta, veja-se pag. 25, art. 2º.
6º. Quanto á sua superficie e estructura, dizem-se:
Roliços (teretes), se saõ semelhantes na forma a hum rolo: trigumeos (triquetri), se tem tres gumes agudos: trigònos (trigoni), se tem tres gumes hum tanto embotados: quadrigumeos (quadriquetri), se tem quatro gumes afiados: tetragonos (tetragoni), se tem quatro gumes embotados.
Filiformes (filiformes), saõ delgados e de igual grossura, semelhantes a hum fio de linhas ordinario.
Adelgaçados (attenuati, s. acuminati), quando se adelgaçaõ, para a ponta.
Engrossados (incrassati), quando engrossaõ para a ponta ou junto do caliz da flor: se junto da flor engrossaõ á maneira de huma massa, dizem-se: aclavados (clavati).
Articulados (articulati), se tem huma junta ou ainda mais geniculados ou nodosos (geniculati), se as juntas saõ tumidas á maneira de nòs.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.
Bracteados (bracteati), se saõ guarnecidos de bracteas: folhosos (foliati), se saõ guarnecidos de folhas : escamosos (squamosi), se tem escamas: segundo as [Página 102] producçoẽs que os guarnecem dizem-se ainda: espinhosos, aculeados, escabrosos, hispidos, cerdosos, peludos, felpudos, lanudos, cotanilhosos, &c.folhas[Página 102]Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.
Alados (alati, s. membranacei), se tem ao longo huma producçaõ membranosa a modo de aza: decursivos (decurrentes), se esta producçaõ se prolonga alem da sua base sobre o tronco ou ramos: involucrados (involucrati), se tem hum involucro.membranosaNûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.
Nûs (nudi), se naõ tem folhas , bracteas, escamas, membranas, nem pelos alguns: inermes (inermes), se naõ tem sorte alguma de armas ou espinhos.folhasAlguns os denominaõ ainda: estereis (steriles); se sostem flores abortivas, que naõ daõ fructo: ferteis ou fecundos (fertiles), se estas daõ fructo.
A disposiçaõ das flores chamada por Linneo inflorescencia (inflorescencia), he o modo com que ellas saõ apegadas aos pedunculos ou a qualquer parte do tronco.
As flores em geral ou saõ rentes ou pedunculadas; as rentes (sessiles), saõ as que estaõ apegadas ao tronco ou a qualquer parte da planta, sem terem pedunculo algum; as pedunculadas (pedunculati), saõ estejadas em hum pedunculo.
A disposiçaõ das flores sendo analoga á dos pedunculos, conhece-se claramente que ellas devem [Página 103] participar de hum grande numero de denominaçoẽs em tudo semelhantes, como por ex. saõ as de terminaes, lateraes, unilateraes, segundinas, dispersas, solitarias, duas a duas, tres a tres, levantadas, patentes, horizontaes, verticaes, acenosas, &c. termos que ficão explicados no capitulo precedente. As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.
A flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c). Eu fallarei mais circumstanciadamente desta sorte de flores em outro lugar.
Aggregada Nota
Linneo estende o nome de flor aggregada ainda a muitas
outras, mas rigorosamente a flor aggregada he a sobredicta.
Espadicea ou enrocada (spadiceus), consta de muitos flosculos rentes ou pedunculados, nascidos de hum receptaculo commum oblongo, contido em huma espatha. Este receptaculo he chamado roca ou espadice (spadix); elle diz-se simplez (simplex) no pe de bezerro, em razaõ de se naõ ramificar, e ramoso [Página 104] (ramosus) nas palmeiras, por se dividir em alguns ramos.
Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan. O verticillo diz-se: rente (sessilis), se as flores que o formaõ naõ tem pedunculo; pedunculado (pedunculatus), se ellas saõ pedunculadas: involucrado (involucratus), se tem hum involucro: bracteado (bracteatus), se he acompanhado de alguma bractea: nu (nudas), se naõ tem involucro nem bractea alguma: basto (confertus), se os flosculos que o compoem estaõ, approximados densamente: raleado (distans), se os seus flosculos estaõ hum tanto distantes entre si: semicircular (dimidiatus), quando, os seus flosculos naõ formaõ á roda do tronco hum annel completo, mas somente metade delle.
Flor capitosa (capitatus), he a que representa huma especie de cabeça, ou que se acha conglomerada em cabeça (capitulum); esta consta de muitos flosculos densamente conchegados em huma forma mais ou menos globular. A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.
[Página 105]Flor espigosa (spicatus), consta de muitos flosculos dispostos em espiga. A
espiga (spica) he huma flor congregada, que consta de muitos flosculos
alternos rentes ou com curtissimos pedicellos levantados. Os seus flosculos
saõ apegados a hum receptaculo commum oblongo, chamado carolim ou carolo
(rachis), como se vê na tanchagem, cevada, trigo, milho, e muitos outros
grames. A flor casulosa (flos glumosus), he verdadeiramente huma especie de
flor espigosa propria das gramineas, e he assim denominado pela razaõ de ser
hum casulo o caliz commum ou particular dos seus flosculos. A espiga-diz se
ser: simplez (simplex), quando consta de flores solitarias, e o seu
receptaculo commum naõ se divide em pedunculos nem receptaculos menores, que
formem pequenas espigas, (a tanchagem). Composta (composita), quando o
receptaculo commum se divide e lança pequenas espiguettas (spiculae, s.
spicillae), como se vê no joyo. Conglomerada (glomerata), quando he composta
ou recomposta, e que as suas espiguettas estaõ muito apertadas e variamente
amontoadas (a alpista, e dactylis glomerata). Disticada (disticha), se os
seus flosculos ou espiguettas estaõ em dois renques oppostos (o bolebole).
Segundina (secunda), quando os seus flosculos estaõ apegados, e virados
todos para shuma so e mesma banda (nardus stricta). Ovada (ovata), se tem
huma figura ovada (o bolebole). Bojuda (ventricosa), se he tumida no meyo, e
estreita nas duas extremidades superior e inferior. Cylindrica (cylindrica),
se tem a forma roliça em todo o seu comprimento. Interrompida (interrupta),
quando o pedunculo commum ou receptaculo commum tem [Página 106] alternativamente alguns intervallos calvos de flosculos ou espiguettas (a
alfazema). Imbricada (imbricata), se os seus flosculos saõ imbricados
longitudinalmente Nota
Estes flosculos saõ ordinariamente segundinos ou unilateraes. Nota
As vezes o tronco naõ da mais do que huma so espiga e lhe chamaõ
por isso unispigado (monostachyus), quando porem produz muitas
espigas daõlhe o nome do multispigado (polystachyus).
Flor amentilhosa ou caudilhosa (flos amentaceus), consta de muitos flosculos dispostos em amentilho ou caudilho (amentum) o qual he huma particular especie de espiga simplez, que consta de flores rentes, [Página 107] ordinariamente unisexuaes, acompanhadas de escamas, e pegadas a hum carolim ou axe commum que lhes serve de receptaculo; taes saõ por ex. os que se observaõ na nogueira, ortiga romana, junça, tabûa, choupo, salgueiro, sabina, pinheiro, acypreste, castanheiro, aveleira, &c. Os amentilhos nascem ordinariamente de gomos e o seu carolim he filiforme; quando elles tem hum carolim grosso e escamas lenhosas, huma forma conica, e produzem somente flores femininas, daõ-lhes o nome de pinhas (coni, s. stobili), como no pinheiro e acypreste. O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.
Flor corymbosa (flos corymbosus), he diaposta em corymbo. O corymbo (corymbus), he huma disposiçaõ de flores aniveladas, os seus pedunculos tem differentes pontos de apego, elevaõ-se gradualmente quasi todos a mesma altura, formando angulos agudos entre si (a milfolha, achillea aggeratum, e chrysanthemum corymbosum). O corymbo he simplez (simplex), se os pedunculos naõ se dividem; composto (compositus), se elles se dividem em muitos outros menores.
Flores paniculadas (flores paniculati), saõ dispostas em panicula. A panicula (panicula), he huma ramificaçaõ vaga e dispersa, na qual os pedunculos [Página 108] communs, e parciaes saõ notavelmente mais compridos do que as flores e fructos (a caneira, o milho painço, e gypsophylla paniculata). A panicula diz-se: diffusa (diffusa), quando os seus pedunculos parciaes saõ esparralhados e divergem entre si; contrahida ou coarctada (coarctata), se os dictos pedunculos estaõ muito conchegados e quasi parallelos. Ella tem ainda muitas outras denominaçoõs, que se entendem facilmente e ficaõ ja explicadas principalmente no capitulo do tronco, e ramos.
Flores thyrsosas (flores thyrsosi, s. thyrsoidei), saõ dispostas em thyrso. O thyrso, ou ramilhete (thyrsus), he huma especie de panicula contrahida, de forma ovada e conica, que se assemelha muito bem aos nossos ramilhetes compridos (syringa vulgarìs, aesculus hippocastanum, tussilago petasites). O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.
Flores racimosas (flores racemosi), saõ disposta em racimo. O racimo ou cacho
(racemus), he huma disposiçaõ de flores com pedunculos curtos, penden tes, e
ordinariamente apegados a hum axe ou pedunculo commum (a videira, azereiro,
uva espim, sylva, groselheira, &c. O racimo diz-se ser: simplez
(simplex), se o ramo ou pedunculo commum sò tem pedunculos indivisos (o
azereiro, e phytolacca); composto (compositus), se os seus pedunculos,
parciaes saõ divididos (a videira, e sylva) Nota
Nos damos o nome de engaço a qualquer cacho depois de despojado
do seu fruto, e o de escadea a huma pequena porçaõ dos seus
pedunculos parciaes guarnecidos de frutos. Nota
O mesmo racimo pode ser levantado no tempo da
florecencia, e pendente no da frutescencia em razaõ do pezo dos seus
fructos como e vê v. g. no ribes petræum.
Flores fasciculadas (flores fasciculati), saõ dispostas em fasciculo. O fasciculo (fasciculus); he huma pilha de flores longas, levantadas, parallelas, approximadas, copadas ou elevadas á mesma altura, e de curtos pedunculos (dianthus barbatus, silene armeria).
[Página 110]Flores umbrelladas (flores umbellati), saõ dispostas em umbrella Nota
Fallo das flores umbrelladas em geral, e em toda a extensaõ do
termo; porquanto particularmente, as flores umbrelladas saõ as
das plantas que formaõ huma familia natural, que saõ dispostas
em umbrella, e tem huma coralla de cinco petalas, cinco estames,
o germe sottoposto á corolla, dois estyletes, e duas sementes
reunidas, como saõ as do coentro, e salsa. Nota
Os seus pedunculos saõ taõbem algumas vezes chamados rayos
(radii). Nota
Diz-se taõbem difforme, se nella se observaõ bolbos entre as
flores, como no allium pallasii.
Flores cymosas (flores cymosi), saõ dispostas em cymeira. A cymeira ou
umbrella bastarda (cyma, s. umbella spuria), he huma disposiçaõ de
flores, cujos pedunculos primarios nascem do mesmo centro, e depois se
ramificaõ irregularmente e sem ordem Nota
As ramificaçoẽs da cymeira, saõ quasi sempre dirigidas para à
banda do dicco, ou da parte interior.
A disposiçaõ das flores chamada por Linneo inflorescencia (inflorescencia), he o modo com que ellas saõ apegadas aos pedunculos ou a qualquer parte do tronco.
As flores em geral ou saõ rentes ou pedunculadas; as rentes (sessiles), saõ as que estaõ apegadas ao tronco ou a qualquer parte da planta, sem terem pedunculo algum; as pedunculadas (pedunculati), saõ estejadas em hum pedunculo.
A disposiçaõ das flores sendo analoga á dos pedunculos, conhece-se claramente que ellas devem [Página 103] participar de hum grande numero de denominaçoẽs em tudo semelhantes, como por ex. saõ as de terminaes, lateraes, unilateraes, segundinas, dispersas, solitarias, duas a duas, tres a tres, levantadas, patentes, horizontaes, verticaes, acenosas, &c. termos que ficão explicados no capitulo precedente. As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.
[Página 103]As principaes disposiçoẽs das flores podem reduzir-se ás seguintes, a saber: flores compostas, aggregadas, espadiceas ou enrocadas, verticilladas , capitosas, espigosas, casulosas, amentilhosas, corymbosas, paniculadas, thyrsosas, racimosas, fasciculadas, umbrelladas, e cymosas.verticilladasA flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c). Eu fallarei mais circumstanciadamente desta sorte de flores em outro lugar.
A flor composta (compositus), he a que contem dentro de hum perianthio commum muitas pequenas flores rentes, pegadas à hum receptaculo commum dilatado lateralmente; as antheras dos seus flosculos saõ adunadas, e cada flosculo he sobraposto a huma semente (o gyrasol, a macella; as boninas, &c).antherassemente Aggregada Nota
Linneo estende o nome de flor aggregada ainda a muitas
outras, mas rigorosamente a flor aggregada he a sobredicta.
Espadicea ou enrocada (spadiceus), consta de muitos flosculos rentes ou pedunculados, nascidos de hum receptaculo commum oblongo, contido em huma espatha. Este receptaculo he chamado roca ou espadice (spadix); elle diz-se simplez (simplex) no pe de bezerro, em razaõ de se naõ ramificar, e ramoso [Página 104] (ramosus) nas palmeiras, por se dividir em alguns ramos.
[Página 104]Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan. O verticillo diz-se: rente (sessilis), se as flores que o formaõ naõ tem pedunculo; pedunculado (pedunculatus), se ellas saõ pedunculadas: involucrado (involucratus), se tem hum involucro: bracteado (bracteatus), se he acompanhado de alguma bractea: nu (nudas), se naõ tem involucro nem bractea alguma: basto (confertus), se os flosculos que o compoem estaõ, approximados densamente: raleado (distans), se os seus flosculos estaõ hum tanto distantes entre si: semicircular (dimidiatus), quando, os seus flosculos naõ formaõ á roda do tronco hum annel completo, mas somente metade delle.
Verticillada (verticillatus), he disposta em verticillo; o verticillo (verticillus) he huma pilha de flores rentes, ou pedunculadas; postas á roda do tronco em forma de annel, como se vê no marroyo branco, e hortelaan.VerticilladaFlor capitosa (capitatus), he a que representa huma especie de cabeça, ou que se acha conglomerada em cabeça (capitulum); esta consta de muitos flosculos densamente conchegados em huma forma mais ou menos globular. A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.
A cabeça de flores diz-se: globosa (globosum), se prezenta huma figura espherica, como na gomphrena globosa; hum tanto globosa (subrotundum), se tende hum tanto à forma espherica: semiglobosa (dimidiatum), se presenta meya cabeça, ou huma forma hemispherica, sendo bojuda de huma banda e plana da outra: folhosa (foliosum), se he acompanhada de folhas : bracteada (bracteatum), se he guarnecida de bracteas: nua (nudum), se naõ tem folhas nem bracteas.folhasfolhas[Página 105]Flor espigosa (spicatus), consta de muitos flosculos dispostos em espiga. A
espiga (spica) he huma flor congregada, que consta de muitos flosculos
alternos rentes ou com curtissimos pedicellos levantados. Os seus flosculos
saõ apegados a hum receptaculo commum oblongo, chamado carolim ou carolo
(rachis), como se vê na tanchagem, cevada, trigo, milho, e muitos outros
grames. A flor casulosa (flos glumosus), he verdadeiramente huma especie de
flor espigosa propria das gramineas, e he assim denominado pela razaõ de ser
hum casulo o caliz commum ou particular dos seus flosculos. A espiga-diz se
ser: simplez (simplex), quando consta de flores solitarias, e o seu
receptaculo commum naõ se divide em pedunculos nem receptaculos menores, que
formem pequenas espigas, (a tanchagem). Composta (composita), quando o
receptaculo commum se divide e lança pequenas espiguettas (spiculae, s.
spicillae), como se vê no joyo. Conglomerada (glomerata), quando he composta
ou recomposta, e que as suas espiguettas estaõ muito apertadas e variamente
amontoadas (a alpista, e dactylis glomerata). Disticada (disticha), se os
seus flosculos ou espiguettas estaõ em dois renques oppostos (o bolebole).
Segundina (secunda), quando os seus flosculos estaõ apegados, e virados
todos para shuma so e mesma banda (nardus stricta). Ovada (ovata), se tem
huma figura ovada (o bolebole). Bojuda (ventricosa), se he tumida no meyo, e
estreita nas duas extremidades superior e inferior. Cylindrica (cylindrica),
se tem a forma roliça em todo o seu comprimento. Interrompida (interrupta),
quando o pedunculo commum ou receptaculo commum tem [Página 106] alternativamente alguns intervallos calvos de flosculos ou espiguettas (a
alfazema). Imbricada (imbricata), se os seus flosculos saõ imbricados
longitudinalmente Nota
Estes flosculos saõ ordinariamente segundinos ou unilateraes. Nota
As vezes o tronco naõ da mais do que huma so espiga e lhe chamaõ
por isso unispigado (monostachyus), quando porem produz muitas
espigas daõlhe o nome do multispigado (polystachyus).
Flor amentilhosa ou caudilhosa (flos amentaceus), consta de muitos flosculos dispostos em amentilho ou caudilho (amentum) o qual he huma particular especie de espiga simplez, que consta de flores rentes, [Página 107] ordinariamente unisexuaes, acompanhadas de escamas, e pegadas a hum carolim ou axe commum que lhes serve de receptaculo; taes saõ por ex. os que se observaõ na nogueira, ortiga romana, junça, tabûa, choupo, salgueiro, sabina, pinheiro, acypreste, castanheiro, aveleira, &c. Os amentilhos nascem ordinariamente de gomos e o seu carolim he filiforme; quando elles tem hum carolim grosso e escamas lenhosas, huma forma conica, e produzem somente flores femininas, daõ-lhes o nome de pinhas (coni, s. stobili), como no pinheiro e acypreste. O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.
[Página 107]O amentilho diz-se; escamoso (squamosum) se tem escamas; nû; se he desfituido dellas; laxo (laxum), se tem escamas hum tanto abertas, como no carpinus e betula; cylindrico, na aveleira e nogueira; oblongo, na nogueira; imbricado, no pinheiro, aveleira, e junça: as suas escamas saõ arrodeladas (peltatae) no acypreste, e participaõ ainda de muitas outras denominaçoẽs semelhantes ás das folhas , dizendo-se ser: concavas, ovadas, lanceoladas , planas, &c.folhaslanceoladasFlor corymbosa (flos corymbosus), he diaposta em corymbo. O corymbo (corymbus), he huma disposiçaõ de flores aniveladas, os seus pedunculos tem differentes pontos de apego, elevaõ-se gradualmente quasi todos a mesma altura, formando angulos agudos entre si (a milfolha, achillea aggeratum, e chrysanthemum corymbosum). O corymbo he simplez (simplex), se os pedunculos naõ se dividem; composto (compositus), se elles se dividem em muitos outros menores.
Flores paniculadas (flores paniculati), saõ dispostas em panicula. A panicula (panicula), he huma ramificaçaõ vaga e dispersa, na qual os pedunculos [Página 108] communs, e parciaes saõ notavelmente mais compridos do que as flores e fructos (a caneira, o milho painço, e gypsophylla paniculata). A panicula diz-se: diffusa (diffusa), quando os seus pedunculos parciaes saõ esparralhados e divergem entre si; contrahida ou coarctada (coarctata), se os dictos pedunculos estaõ muito conchegados e quasi parallelos. Ella tem ainda muitas outras denominaçoõs, que se entendem facilmente e ficaõ ja explicadas principalmente no capitulo do tronco, e ramos.
[Página 108]Flores thyrsosas (flores thyrsosi, s. thyrsoidei), saõ dispostas em thyrso. O thyrso, ou ramilhete (thyrsus), he huma especie de panicula contrahida, de forma ovada e conica, que se assemelha muito bem aos nossos ramilhetes compridos (syringa vulgarìs, aesculus hippocastanum, tussilago petasites). O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.
O thyrso diz-se ser o folhoso (foliatus), se he acompanhado de folhas ; bracteado (bracteatus), se tem bracteas; nu (nudus), se naõ tem foliolos nem bracteas.folhasFlores racimosas (flores racemosi), saõ disposta em racimo. O racimo ou cacho
(racemus), he huma disposiçaõ de flores com pedunculos curtos, penden tes, e
ordinariamente apegados a hum axe ou pedunculo commum (a videira, azereiro,
uva espim, sylva, groselheira, &c. O racimo diz-se ser: simplez
(simplex), se o ramo ou pedunculo commum sò tem pedunculos indivisos (o
azereiro, e phytolacca); composto (compositus), se os seus pedunculos,
parciaes saõ divididos (a videira, e sylva) Nota
Nos damos o nome de engaço a qualquer cacho depois de despojado
do seu fruto, e o de escadea a huma pequena porçaõ dos seus
pedunculos parciaes guarnecidos de frutos. Nota
O mesmo racimo pode ser levantado no tempo da
florecencia, e pendente no da frutescencia em razaõ do pezo dos seus
fructos como e vê v. g. no ribes petræum.
Flores fasciculadas (flores fasciculati), saõ dispostas em fasciculo. O fasciculo (fasciculus); he huma pilha de flores longas, levantadas, parallelas, approximadas, copadas ou elevadas á mesma altura, e de curtos pedunculos (dianthus barbatus, silene armeria).
[Página 110]Flores umbrelladas (flores umbellati), saõ dispostas em umbrella Nota
Fallo das flores umbrelladas em geral, e em toda a extensaõ do
termo; porquanto particularmente, as flores umbrelladas saõ as
das plantas que formaõ huma familia natural, que saõ dispostas
em umbrella, e tem huma coralla de cinco petalas, cinco estames,
o germe sottoposto á corolla, dois estyletes, e duas sementes
reunidas, como saõ as do coentro, e salsa. Nota
Os seus pedunculos saõ taõbem algumas vezes chamados rayos
(radii). Nota
Diz-se taõbem difforme, se nella se observaõ bolbos entre as
flores, como no allium pallasii.
Flores cymosas (flores cymosi), saõ dispostas em cymeira. A cymeira ou
umbrella bastarda (cyma, s. umbella spuria), he huma disposiçaõ de
flores, cujos pedunculos primarios nascem do mesmo centro, e depois se
ramificaõ irregularmente e sem ordem Nota
As ramificaçoẽs da cymeira, saõ quasi sempre dirigidas para à
banda do dicco, ou da parte interior.
A natureza segundo as leys, que lhe foraõ dadas, prezenta-nos todos os annos
nas flores hum extenso quadro summamente variado e agradavel. Se
exceptuamos os polos sempre gelados, os seus proximos [Página 113] climas, e os profundos mares Nota
No fundo do mar naõ ha planta
alguma perfeita, e só se achaõ algumas especies de fucus, e ulva que
saõ do numero dos mais imperfeitos vegetaes, que se
conhecem.Nota
Vej. Lin. Phil. Bot. art. 335.Nota
Horologium Florae.Nota
Vigiliæ
florum.
Daqui procedeo a origem de hum certo numero [Página 114] de termos, que se achaõ em suas obras dados ás flores, e igualmente às plantas, a que saõ relativas, os quaes se podem reduzir principalmente aos seguintes.
Flores de inverno (flores hybernales, s. brumales), saõ as que desabotoaõ ordinariamente durante o inverno. Algumas plantas cryptogamicas, e a rosa, de todos os mezes saõ deste numero, algumas dos paizes meridionaes da America, e Africa transplantadas na Europa taõbem florecem durante o inverno nas estufas.
Flores da primavera (vernales, s. verni), saõ as que desabotoaõ nos mezes desta estaçaõ; taes saõ por ex. as dos salgueiros, quejadilho, amendoeira, pereira, damasqueiro, narcizo, &c. As plantas, exoticas dos climas frios, e das montanhas transplantadas em nossos pardins ordinariamente taõbem florecem na primavera.
Flores do estio ou veraõ (aestivales, s. aestivi), saõ as que desabotoaõ durante o veraõ, como saõ por ex. as da althéa, malva, feijoeiro, saudade, milfolha, meloeiro, &c.
Flores do outono (autumnales), saõ as que desabotoaõ durante o outono, como v. g. o colchico. As plantas da America septemptrional, principalmente as que saõ vivazes transplantadas em nossos jardins taõbem florecem nesta estaçaõ.
As vigilias ou tempo de vela das flores contem o espaço que medea entre o seu
abrimento e a reclusaõ, quer seja durante o dia, quer de noyte; pelo
contrario o somno das flores (somnus florum), he o espaço que medea desde a
sua reclusaõ athe ao seu abrimento. O abrimento de huma flor (apertio
floris), [Página 115] he o ponto de tempo em que ella se abre Nota
Este termo tem huma significaçaõ mais extensa do que o de
desabotoamento (exgemmatio floris), porquanto todo o
desabotoamento he abrimento, mas nem todo o abrimento de huma
flor he desabotoamento; a primeira vez que huma flor abre do seu
botaõ, diz-se desabotoar ou ter desabotoamento, mas na segunda
vez, no segundo dias e mais vezes diz-se ter abrimento e naõ
desabotoamento.
Quanto ao tempo de vela ou de somno, as flores saõ denominadas diurnas ou
golares (diurni, s. solares) Nota
Alguns Botanicos comprehendem taõbem debaxo do termo solares as
flores nocturnas.
Flores meteoricas (meteorici), saõ as que naõ tem hora determinada de abrir-se, e de se fechar, porquanto o abrimento e reclusaõ saõ desordenados em razaõ da sombra, humidade, seccura, e maior ou menor pressaõ da atmosphera; o martyrio por ex que costuma abrir-se ao meyo dia em tempo claro, naõ se abre senaõ às tres horas quando o ceo està espessamente nublado.
Flores tropicas (tropici), saõ as que se abrem todos os dias constantemente de manhaan, e se fechaõ quasi [Página 116] ao sol posto, mas o tempo de vela he maior, ou menor á proporçaõ que os dias augmentaõ ou diminuem.
Flores equinoxiaes (aequinoctiales), saõ as que se abrem todos os dias em huma hora certa e determinada, e se fechaõ taõbem em huma hora certa, de modo que o seu tempo de vela he todos os dias igual ou quasi igual.
A natureza segundo as leys, que lhe foraõ dadas, prezenta-nos todos os annos
nas flores hum extenso quadro summamente variado e agradavel. Se
exceptuamos os polos sempre gelados, os seus proximos [Página 113] climas, e os profundos mares Nota
No fundo do mar naõ ha planta
alguma perfeita, e só se achaõ algumas especies de fucus, e ulva que
saõ do numero dos mais imperfeitos vegetaes, que se
conhecem.Nota
Vej. Lin. Phil. Bot. art. 335.Nota
Horologium Florae.Nota
Vigiliæ
florum.
Daqui procedeo a origem de hum certo numero [Página 114] de termos, que se achaõ em suas obras dados ás flores, e igualmente às plantas, a que saõ relativas, os quaes se podem reduzir principalmente aos seguintes.
[Página 114]Flores de inverno (flores hybernales, s. brumales), saõ as que desabotoaõ ordinariamente durante o inverno. Algumas plantas cryptogamicas, e a rosa, de todos os mezes saõ deste numero, algumas dos paizes meridionaes da America, e Africa transplantadas na Europa taõbem florecem durante o inverno nas estufas.
Flores da primavera (vernales, s. verni), saõ as que desabotoaõ nos mezes desta estaçaõ; taes saõ por ex. as dos salgueiros, quejadilho, amendoeira, pereira, damasqueiro, narcizo, &c. As plantas, exoticas dos climas frios, e das montanhas transplantadas em nossos pardins ordinariamente taõbem florecem na primavera.
Flores do estio ou veraõ (aestivales, s. aestivi), saõ as que desabotoaõ durante o veraõ, como saõ por ex. as da althéa, malva, feijoeiro, saudade, milfolha, meloeiro, &c.
Flores do outono (autumnales), saõ as que desabotoaõ durante o outono, como v. g. o colchico. As plantas da America septemptrional, principalmente as que saõ vivazes transplantadas em nossos jardins taõbem florecem nesta estaçaõ.
As vigilias ou tempo de vela das flores contem o espaço que medea entre o seu
abrimento e a reclusaõ, quer seja durante o dia, quer de noyte; pelo
contrario o somno das flores (somnus florum), he o espaço que medea desde a
sua reclusaõ athe ao seu abrimento. O abrimento de huma flor (apertio
floris), [Página 115] he o ponto de tempo em que ella se abre Nota
Este termo tem huma significaçaõ mais extensa do que o de
desabotoamento (exgemmatio floris), porquanto todo o
desabotoamento he abrimento, mas nem todo o abrimento de huma
flor he desabotoamento; a primeira vez que huma flor abre do seu
botaõ, diz-se desabotoar ou ter desabotoamento, mas na segunda
vez, no segundo dias e mais vezes diz-se ter abrimento e naõ
desabotoamento.
Quanto ao tempo de vela ou de somno, as flores saõ denominadas diurnas ou
golares (diurni, s. solares) Nota
Alguns Botanicos comprehendem taõbem debaxo do termo solares as
flores nocturnas.
Flores meteoricas (meteorici), saõ as que naõ tem hora determinada de abrir-se, e de se fechar, porquanto o abrimento e reclusaõ saõ desordenados em razaõ da sombra, humidade, seccura, e maior ou menor pressaõ da atmosphera; o martyrio por ex que costuma abrir-se ao meyo dia em tempo claro, naõ se abre senaõ às tres horas quando o ceo està espessamente nublado.
Flores tropicas (tropici), saõ as que se abrem todos os dias constantemente de manhaan, e se fechaõ quasi [Página 116] ao sol posto, mas o tempo de vela he maior, ou menor á proporçaõ que os dias augmentaõ ou diminuem.
[Página 116]Flores equinoxiaes (aequinoctiales), saõ as que se abrem todos os dias em huma hora certa e determinada, e se fechaõ taõbem em huma hora certa, de modo que o seu tempo de vela he todos os dias igual ou quasi igual.
[Página 117]ASSIM como todos os animaes tendem naturalmente à sua reproducçaõ, da mesma sorte
os vegetaes á proporçaõ que crescem se encaminhaõ ao estado de fructificaçaõ, e
tanto que fructificaraõ, ou perecem dentro de breve tempo ou cessaõ de crescer
no lugar que deraõ o fructo, sendo-lhes precisos novos gomos para poderem
lateralmente prolongar-se. Donde se collige que a fructificaçaõ (fructificatio)
he huma parte transitoria em que termina o vegetal dentro de hum certo periodo
de tempo, destinada a dar principio a novos entes da sua espécie. Ella
consiste essensialmente na flor e fructo: a flor he hum a parte da
fructificaçaõ, que no seu estado completo e perfeito consta de organos
sexuaes envoltos em tegumentos; a sua essensia consiste em ter anthera ou estigma Nota
Em razaõ de comprehender ainda as flores cryptogamicas geralmente se
poderia melhor dizer: consiste em ter anthera , ou estigma, ou hum principio de semente .
O CALYZ e corolla saõ os tegumentos dos organos sexuaes, ou para me explicar segundo o modo de alguns sexualistas, o calyz he o thalamo nupcial das flores, e a corolla a rica armaçaõ delle. Cesalpino pensava que o calyz era hum prolongamento da casca e a corlla huma prodcçaõ do livrilho ou alburno.
As flores nem sempre saõ acompanhadas destes tegumentos; quando huma flor
tem calyz e corolla hé chamada completa (flos completus) e incompleta
(incompletus) se lhe falta algum dos dictos Nota
Alguns daõ taõbem o nome de perfeita (perfectus) á completa e o
de imperfeita (imperfectus) á incompleta; porem o melhor sera
reservar o nome de flor imperfeita para as cryptogamicas, e o de
perfeita para as das outras classes.
A natureza naõ poz limites certos entre o calyz e corolla, e daqui procede
que os Botanicos tem differentes opinioes relativamente á denominaçaõ destes
tegumentos; huns querem que o tegumento immediato aos organos sexuaes deva
ser chamado corolla em todas as circumstancias, e por conseguinte todas as
vezes que a flor tem hum so tegumento [Página 119] daõ-lhe o nome de corolla; outros seguem em parte este parecer, e em
parte a cor, á qual daõ a preferencia. Linneo vendo que algumas corollas
se tornaõ verdes, e alguns calyces saõ bastantemente corados,
estabeleceo a differença entre o calyz, e corolla na posiçaõ dos
estames, dizendo que estes nas flores descalycinas e muitas completas
saõ alternos com as petalas ou lacinias da corolla ficando situados
entre as suas aberturas, que nas descorolladas pelo contrario saõ
fronteiros aos foliolos ou segmentos do calyz, ficando encostados ou
postos defronte delles, como se pode observar no cardo penteador,
cerejeira brava, coentro, sabugueiro, consolda maior, alchemilla,
potamogeton, e muitas outras plantas das classes Terandria e Pentrandria Nota
Sem embargo destas condiçoẽs naõ deixa as vezes de haver
difficuldade na decisaõ do nome destes tegumentos, e Linneo o dà
a entender quando diz: calyz a naõ chamar-lhe corolla; corolla a
naõ charmar lhe calyz; corolla calycina; calyz acorollado: cujos
exemplos se vem no loireiro, garidella, commelina, monotropa,
tetragonia, &c.
O CALYZ (calyx), no maior numero de flores heo tegumento externo dos organos sexuaes, de cor verde ou menos corado do que a corolla (o jasmim, cravo, e goivo). Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.
Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva. Antigamente so o primeiro tinha o nome de calyz, e com effeito os mais mereciaõ antes ser chamados calyces bastardos (calyces spurii).
O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.) O perianthio pode ser taõbem contiguo a outro (como na malva), a huma corolla ou a muitas, como no gyrasol; quando elle recobre muitos flosculos, estes ou saõ rentes ou quasi rentes, Nas flores casulosas e amentilhosas o calyz ordinariamente naõ he circular; a estructura escamosa, paleacea e outras circumstancias relativas à sua forma poderaõ contribuir a destinguilo do perianthio. Os foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas . Nas flores compostas os foliolos saõ ordinariamente chamados escamas (squamae), principalmente se saõ imbricados, como nas perpetuas. Se na flor naõ ha perianthio, como na tulipa e açucena, daõ lhe o nome de nullo (nullum).
Diz-se: perianthio da fructificaçaõ (perianthium fructificationis), quando
contem ou enserra os estames e o germe; nesta circumstancia sempre esta
immediatamente sottoposto ao germe (a sylva, peonia, morangueiro, masva,
jasmineiro craveiro, faveira, &e.) Perianthio da flor (perianthium
floris), se em si contem os estames sem germe Nota
Este calyz tem o seu ponto de apego sobre o germe ou fructo
tenrinho, no cazo que o haja; os calyces das flores masculas
aindaque naõ saõ apegados ao topo do germe (porque o naõ ha),
devem contudo ser considerados como perianthios da flor, por
conterem estames e naõ germe algum, como saõ os da amoreira,
mercurial, amaranthos, &c. Nota
O calyz neste cazo esta sottoposto ao germe; às vezes ha huma
corolla sobreposta ou outro calyz sobreposto ao germe, o que naõ
tem lugar no cazo do perianthio da fructificaçaõ, em que o germe
naõ fica situado immediatamente debaxo da corolla, nem entre o
calyz e corolla, como succede no prezente; no perianthio da
fructificaçaõ os estames naõ estaõ apegados ao germe, mas sim ao
receptaculo que Sostem a base do germe, ou ao dicto perianthio,
ou a huma corolla ou nectario que naõ tem o ponto de apego no
germe. Ha flores que tem o periantio do fructo diverso do da flor como a
Linnæa e Morina, ha outras que tem perianthio do fructo e naõ da
flor, como as femininas da aveleira, poterium, &c, outras
tem perianthio da flor e naõ do fructo, como a murta, romeira,
pereira, sorveira, &c, ha outras emfim que naõ tem
perianthio algum, aindaque tenhaõ hum receptaculo da flor, como
v.g. a hippuris, orchideas, valeriana, aristolochia, &c. Vej. Linn. Meth, Calyc.
Perianthio superior ou sobreposto (superum), he o que se acha posto sobre o germe ou tenrinho fructo, como o da romeira, pereira, e outros muitos perianthios da flor.
Perianthio inferior ou sottoposto (inferum), he o que cinge a base do germe ou tenrinho fructo, como saõ os perianthios da fructificaçaõ e do fructo.
Commum (commune) Nota
As vezes das lhe taõbem o nome de composto ou universal
(compositum, s. universale). Segundo Linneo este calyz pode ser dobrado como se vê no
micropus.
Parcial ou particular (proprium, S. partiale), he [Página 122] relativo a hum flosculo contido em hum perianthio, commum, ou a
qualquer flosculo congregado, rente ou quasi rente (a saudade, e
gyrasol) Nota
Ordinariamente este termo so se applica aos calyculos das
flores compostas e aggregadas. O perianthio parcial pode segundo
Linneo conter mais de huma flor, como se vẽ no sphaerantus, e
elephanthopus.
Calyculado (auctum, s. calyculatum), quando tem na sua base huma serie de
escamas ou foliolos curtos, differentes delle, e que constituem quasi
hum segundo calyz menor ou calyculo (calyculus) Nota
Da-se taõbem o
nome de calyculos a alguns perianthios parciaes, como aos da
saudade, pela razaõ de serem pequenos ou menores do que o
commum.
Unico (unicum), quando a flor tem hum so, como v. g. o alecrim: simplez (simplex) he unico, naõ calyculado, nem dobrado nem triplicado (sida). Este termo parece ser synonymo do precedente; Linneo contudo deo-lhe mais extensa significaçaõ, e o applicou ainda para denotar hum calyz quasi inteiro, de foliolos naõ imbricados, quasi do mesmo comprimento, ou adunados na base, como o da tagetes, bellis, e o calyz interior da crepis.
Dobrado ou triplicado (duplex, geminum, triplex), quando Nota
Estes
calyces saõ ordinariamente differentes no numero, e forma de suas
partes; encontraõ se tanto nas flores simplez, como nas compostas e
aggregadas; as vezes estaõ dois approximados, ou apegados hum ao
outro debaxo do germe, ou no topo outras vezes saõ remotos, estando
hum na base outro no topo do germe, outras vezes emfim hum commum na
base, e dois no topo do germe, como se podem observar na malva,
althaea, craniolaria, morina, linnaea, scabiosa, caryophyllus,
&c.
Caduco (caducum), se cahe logo que a flor desabotoa, como o da papoila, e epimedium.
Decadente ou simulcadente (deciduum), se cahe juntamente com a corolla, como o da uva espim, mostarda, e outras flores da Tetradynamia.
Persistente (persistens) se persiste athe à madureza do fructo, como o da salva, alecrim, e outras flores da Didynamia.
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitas escamas ou foliolos destinetos na base (a alface). Monophyllo (monophyllum), quando he de huma so peça ou inteiriço na base, ainda que seja partido ou fendido (a salva, romeira, pereira, pimentaõ, &c.); de dois foliolos (diphyllum) na papoila, celidonia e fumaria; de tres foliolos (triphyllum), na tradescantia e ranunculus ficaria; de quatro foliolos (tetraphylhum) na couve, e goiveiro; de cinco (pentaphyllum), no linho; elle diz-se ser ainda de seis, sette, oito, nove, dez foliolos, &c. (hexa- hepta- octo- ennea- decaphyllum, &c.)
Fendido (fissum), se he monophyllo, e rasgado athe ao meyo pouco mais ou menos, e as sinuosi dades entre os segmentos saõ lineares ou de igual largura; segundo o numero das lacinas diz-se ser: multifendido (multifidum), fendido em duas, tres, quatro, cinco lacinias, &c. (bi-tri-quadri-quinquefidum, &c.); se as lacinias saõ curtas ou marginaes, daõ-lhes. o nome de dentes, e se diz por conseguinte denteado (dentatum s. ferratum); segundo o numero destas curtas lacinias diz-se ser: denteado de muitos dentes (multidentatum), de dois, tres, quatro, cinco dentes, &c. (bi-tri-quadri-quinquedentatum, &c.)
[Página 124]Partido (partitum), he monophyllo e dividido athe abaxo do meyo ou quasi athe à base; segundo o numero das lacinias diz-se ser; multipartido (multipartitum), bipartido (bipartitum), tripartido (tripartitum), quadripartido (quadripartitum), partido em cinco, seis lacinias, &c. (quinque-sexpartitum, &c.)
Inteiro (integrum), he monophyllo sem ser fendido, nem partido em lacinias algumas.
Celheado (ciliatum), se os seus foliolos ou lacinias saõ celheadas Nota
As celhas rigorosamente saõ os pelos ou sedas que se achaõ no
fio marginal; mas aqui os botanicos comprehendem taõbem o
disco.
Tubuloso (tubulosum), se he roliço e occo (a neveda e hortelaan).
Infunado (inflatum), quando he concavo, e parece soprado como huma bexiga (a herva traqueira).
Levantado (erectum), se os seus foliolos ou lacinias saõ levantadas (jasmim).
Patente (patens), quando as suas lacinias ou foliolos saõ abertos largamente, ou formaõ com o pedunculo hum angulo obtuso pouco desviado do angulo recto.
Reflexo (reflexum), quando a extremidade dos seus foliolos ou lacinias se curvaõ hum tanto para traz, ou para baxo.
Igual (aequale), quando os seus foliolos, lacinias ou dentes saõ iguaes: desigual (inaequale); se elles saõ desiguaes (cistus).
Curto (abbreviatum), se he mais curto do que a corolla, ou do que o seu tubo, ou unhas das petalas: comprido (longum), se he mais comprido do que ella.
[Página 125]Globoso (globosum), se tem a forma globosa (a perpetua e bardana); aclavado (clavatum), quando se prolonga engrossando pouco a pouco, e reprezenta a forma de huma massa (silene).
Troncado (truncatum), se ne sua parte superior parece como decotado: obtuso (obtusum), se os seus foliosos ou segmentos saõ obtusos; agudo (acutum), se elles saõ agudos; as vezes diz-se taõbem agudo ou obtuso na base.
Espinhoso (spinosum), se tem espinhos (a calcitrapa, e cardo sancto); aculeado (aculeatum), se tem aculeos (a bringela).
Imbricado (imbricatum), se consta de foliolos ou escamas imbricadas (o gyrasol, milfolha, e alface).
Esquarroso (sguarrosum), se tem foliolos ou escamas imbricadas, desviadas, e abertas entre si principalmente nas pontas (conyza squarrosa)
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).
Turbinado (turbinatum), se he verticalmente conico tendo a forma de hum piaõ bailando (moluccella)
Involucro (involucrum), he huma especie de calyz remoto da flor Nota
He
hum calyz bastardo, proprio naõ so das flores umbrelladas mas de
muitas outras; naõ se rasga ao alto como as espathas, e o estar mais
ou menos distante da flor contribue a fazelo distinguir das outras
especies de calyz; ordinariamente parece ser hum composto de
bracteas.
Diz-se ser; universal (universale), se esta situado na, base dos rayos de huma umbrella univeroal (a cenoira, bisnaga, e cardo, corredor): parcial (partiale), [Página 126] quando acompanha a base dos rayos de huma umbrella parcial (salsa, coentro, cerofolho); chamaõ-lhe: involucello (involucellum), ou pequeno involucro parcial, se tem poucos foliolos curtos, como nas euphorbias e buplevrum; proprio (proprium), se acompanha o pedunculo da flor de huma umbrella parcial, ou ainda o de huma so flor, como na pulsatilla.
Semicircular (dimidiatum), se acompanha somente metade do topo do pedunculo que sostem a umbrella, faltando na outra metade (o coentro, e aethusa).
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitos foliolos, como na canafrecha, e peucedarium; momophyllo (monophyllum), se consta de hum so foliolo, he inteiriço na base, e acompanha o pedunculo circularmente (a pulsatilla); de dois, tres, quatro, cinco, seis foliolos, &c. (di-tri-tetra-penta-hexaphyllum, etc.) como se ve nas euphorbias e umbrelladas.
Casulo (gluma), he huma especie de calyz Nota
O nome de casûlo he taõbem
dado a corolla das gramas; mas aqui so se deve entender o casulo
externo, porque do interno fallarei quando tractar da corolla.
Alguns para os distinguir chamaõ-lhes casulo calycino, casulo
corollino; talvez melhor fora dar somente ao calyz o nome de
casulo.
As escamas ou folhiços paleaceos, de que consta o casûlo, saõ chamados
valvulas (valvulae, s. valvae); ellas saõ de varia forma e estructura,
planas, concavas, aquilhadas, assoveladas, iguaes, desiguaes, &c. O
casûlo, em razaõ do numero das valvulas de que he composto, diz-se ser:
univalve (alvis), se [Página 127] consta de huma so (o joyo); bivalve,(bivalvis), se consta de duas (o
trigo e milho): trivalve (trivalvis), se consta de tres (o escalracho,
milhaan, e milho painço); multivalve (multivalvis), se consta, de muitas
valvulas ou mais de trez (a uniola, as maçarocas de milho Nota
Linneo chama folhas ás
valvulas destas maçarocas, mas a sua estructura, e modo de
envolver as fores me fazem decidir a consideralas como hum
casulo commum multivalve.
Unifloro (uniflora), se inclue somente hum flosculo como o milho painço, a alpista, e milho ordinario: biflora (biflora), se contem duas flores (a avea, e aira) trifloro (triflora), se contem tres flores (algumas especies de trago) multifloro (multiflora), se contem muitos flosculos, ou mais de tres (o joyo, e bolebole).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).
Glabro (glabra), se naõ tem pelos, nem celhas, nem sedas algumas: peludo, lanudo, felpudo, celheado e hispido, se as suas valvulas constaõ de producçoẽs proprias a merecer estas denominaçoẽs (vej. o § Do trichismo e hispidez).
Aristado (aristata), se as suas valvulas tem praganas (o trigo tremez): desaristado (mutica), se ellas saõ destituidas, de praganas (o escalracho, e milho).
A pragana (arista), he hum fio mais ou menos comprido, hum tanto rijo, e apegado a alguma das valvulas do casulo calycino ou corollino das gramas. Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).
Amentilho (amentum), segundo Linneo he hum calyz formado do receptaculo
commum ou carolim filiforme, guarnecido de escamas paleaceas, e originario
de hum gomo. Eu ja fallei do amentilho como huma especie de espiga Nota
O amentilho rigorosamente he huma especie de espiga simplez,
que consta de flores unisexuaes; o nome de calyz sò pode competir às
suas escamas, mas algumas vezes o amentilho he nu e sem escamas, e
neste cazo seremos obrigados a chamar calyz a hum receptaculo, o que
me parece assaz improprio, a naõ querer chamar amentilho somente às
escamas do gomo.
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).
He univalve ou monophylla (univalvis, s. monophylla), quando consta de huma so peça que se raaga de ilharga (o narcizo, e pe de bezerro): bivalve ou diphylla (bivalvis, s. diphylla), quando he rasgada em duas partes ou em dois foliolos (as palmeiras): Mediada (dimidiata), se he monophylla, aberta e concava, como a metade de hum ovo cortado ao [Página 129] alto, e guarnece a fructificaçaõ somente com a parte inferior: imbricada (imbricata), como nas bananeiras.
Trunfa (calyptra), he huma especie de calyz membranoso ,
acapellado, posto immediatamente sobre a fructificaçaõ dos musgos
chamada anthera, urna, ou capsula (o polytrichum, e bryum) Nota
Hedwigio e alguns outros Botanicos, que seguem que a corolla he o
tegumento immediato dos organos sexuaes, consideraõ a trunfa dos
musgos como huma corolla, e so daõ o nome de calyz ao
perichecio.
Volva (volva), he huma membrana que cobre os cogumelos e algumas outras plantas da familia dos fungos, susceptivel de ser lacerada. Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo. A volva incompleta he a que somente cobre parte do individuo; daõ-lhe taõbem o nome de veo (velum); observa-se na face superior e inferior do umbraculo dos cogumelos, e continua athe ao espique, ao qual humas vezes se afferra, outras vezes somente se encosta sem contudo se apegar a elle. Quando depois de rota fica rodeando o espique em forma de calça, daõ-lhe o nome [Página 130] de annel (annulus), como se ve no agaricus campestris). A volva incompleta e o annel parecem merecer mais propriamente o nome de casyz do que a completa, que tem ordinariamente huma grande analogia com as cascas das sementes.
A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe. O annel diz-se; remoto (remotus se fica distante do umbraculo no tempo que este abrio; approximado (approximatus), se no dicto tempo jaz conchegado ao umbrgeulo; caduco (caducas) se cahe logo que a volva incompleta se rompe; persistente (persistens), quando rota a volva persiste aferrado ao espique. Elle se diz ainda; amarello, alvadio, &c. segundo as suas differentes cores.
A corolla (corolla), he hum tegumento dos organos sexuaes da flor immediatamente contiguo a elles, e de ordinario mais corado e mais delicado [Página 131] do que o calyz; tal he por ex. a do jasmim, açucena, rosa, cravo, &c.
Quando a flor naõ tem corolla diz,se despetaleada ou descorollada, como já expuz, e nesta circumstancia a corolla he denominada nulla (nulla); como v. g. nas flores femininas dos carvalhos e aveleiras.
1º Quanto à divisaõ:
A corolla ou he de huma so pera e inteiriça na base, ou consta de duas ou
mais peças assaz destinctas na base; no primeiro cazo dizse: monopétala
(monopetala), e no pegundo petaleada ou polypétala (polypetala) Nota
Este
termo da-se taõbem ás corollas, que tem hum grande numero de petalas,
como as do golfaõ, cactus, &c.
Na corolla monopetala em geral podem se considerar duas partes, a superior chamada orla (limbus) e a inferior, pela qual ella se apega, denominada base (basis); esta parte inferior muitas vezes he cylindrica, e nesta circumstancia daõ-lhe o nome de tubo (tubus), como se vè no alecrim, jasmineiro e colchico. A orla humas vezes he inteira, outras vezes he fendida ou partida, e neste segundo cazo os segmentos saõ chamados lacinias (laciniae), como no jasmim, congossa, borragem, &c.
As peças ou foliolos còrados de que consta a corolla petaleada saõ chamados petalas (petala); em cada huma destas pode se em geral suppor duas partes, a superior larga, aberta e dilatada tem o nome de lamina (lamina), e a inferior estreita, e aguda [Página 132] na extremidade he chamada unha da petala (unguis) como saõ as que se vem nas petalas do cravo, goivo, &c.; as vezes a unha da petala he curtissima como nas rozas e rainunculos; outras vezes observa-selhes huma base larga, que mal merece o nome de unha, e porisso alguns lhes chamaõ petalas rentes (sessilia).
A corolla petaleada, segundo o numero das suas petalas, diz-se ser: de duas, trez, quatro, cinco, seis, sette, oito, nove, dez, ou muitas petalas (di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- octo- ennea- deca- polypetala.)
Na familia das gramineas a corolla, ou casulo corollino em lugar de petalas diz se ter valvulas (valvulae), que saõ certas escamas paleaceas, concavas, approximadas immediatamente ao germe, como se ve no trigo, e centeyo. Ordinariamente saõ duas, e as vezes persistem e ficaõ servindo de casca à semente, como se vè na cevada.
Fendida (fissa), quando he rasgada em lacinias athe ao meyo ou menos (o
quejadilho) Nota
Se he monopetala; na petaleada as petalas podem se
dizer fendidas ou partidas na mesma accepçaõ, que tem estes termos
relativamente as corollas monopetalas.
Partida (partita), quando he rasgada em lacinias athe abaxo do meyo ou quasi athe à base (a semprenoiva, e borragem); diz-se partida em muitas lacinias (multipartita), bipartida, tripartida, quadripartida, &c. (bi-tri-quadripartita, &c.).
[Página 133]2º. Quanto à direcaõ diz-se ser:
Levantada (erecta), quando tem as suas petalas, valvulas, ou lacinias levantadas, isto he, formando hum angulo agudissimo com o estylete supposto prosongado rectamente (o colchico, e cevada.)
Patente (patens), se as suas petalas, valvulas, ou lacinias formaõ hum angulo quasi recto com o estylete supposto prolongado no centro rectamente (a papoila); patentissima (patentissima), se ellas formaõ hum angulo recto com o estylete.
Plana (plana), quando as suas petalas ou lacinìas saõ planas, e nella naõ
ha tubo Nota
Quando ha tubo, este termo e o de patente devem ser applicados á
orla ou suas lacinias.
Concava (concava), quando tem a sua orla concava.
Recurvada (reflexa, recurva), as suas petalas ou lacinias tem a ponta curvada para traz ou para fora (o espargo); revolutosa (revoluta), he hum grao de mais, tem as petalas ou lacinias recurvadas, e quasi enroladas (algumas especies de lilium).
Incurvada (incurva, s. inflexa), as suas petalas ou lacinias tem as pontas curvadas para dentro, isto he, para a banda do centro da flor (o funcho).
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)
[Página 134]3º Quanto ao ponto de apego.
A corolla ou he apegada ao calyz (calyci inserta), como na roseira e romeira, ou ao receptaculo (recentaculo inserta), como na papoila, cravo e rainunculo.
Sottoposta ou inferior (infera), quando se acha posta debaxo do germe, como na açucena, e cebola: sobreposta ou superior (supera), se esta apegada á parte superior do germe, como no narcizo.
Innata ao calyz (calyci adnata), se està pela sua face inferior intimamente adunada ao calya (a abobara, pepino, e outras cucurbitaceas.)
4º. Quanto à superficie, e margem diz-se ser:
Lanuda (lanata), se tem lanugem (hyacinthus lanatus).
Felpuda (villosa), se tem felpa (menyanthes).
Barbuda ou hirsurta (barbata, s. hirsurta), como no, hypericum bacciferum.
Celheada (ciliata), na arruda, e chagueira.
Glabra (glabra), se naõ tem pelos alguns (narcizo).
Denticulada de dois, tres, quatro, cinco dentes, (bi-tri-quadri-quinquedentata), como saõ as corollulas das flores compostas, v. g. as da alface, bonina, macella, gyrasol, &c.
Crenada ou crenulada (crenata, s crenulata), se tem na margem crenas ou crenulas Nota
As crenas da corolla saõ
segundo a accepçaõ ordinaria as suas chanfraduras obtusas entre
as lacinulas marginaes; mas por evitar equivocaçoẽs he melhor
seguir o parecer de M. de la Mark, e de outros modernos que as
tomaõ por lacinias marginaes embotadas, para as destinguir dos
denticulos que saõ agudos.
4º Quanto à proporçaõ entre as suas partes, diz-se ser:
Igual (aequalis), quando as petalas, ou lacinias (se he monopetala), saõ todas de igual grandeza e tem todas a mesma figura, como saõ as cruciformes, roseira, pereira, jasmineiro, borragem, quepadilho, consolda maior, &c.
Desigual (inaequalis), quando as suas petalas ou lacinias (se he monopetala) tem todas a mesma figura, mas differem na grandeza, ou comprimento (o butomus, o epilobium angustifolium, e latifolium, e as corollas que se achaõ no rayo da umbrella do coentro.)
Regular (regularis), no sentido em que este termo se toma ordinariamente,
huma corolla regular he a mesma coiza que huma corolla igual Nota
Podéra-se contudo fazer huma distinçaõ entre a regular, e
igual, dizendo que na corolla regular as petalas ou lacinias tem
todas a mesma figura, quer sejaõ iguaes na grandeza quer desiguaes,
e deste modo huma corolla poderia ter petalas ou lacinias desiguaes,
e nem porisso deixar de ser regular, como o butomus, e epilobium
latifolium; todas as corollas iguaes seriaõ regulares mais nem todas
as regulares seriaõ iguaes; Alguns Botanicos admittem so duas sortes
de corollas, regulares e irregulares: elle suppoem hum axe ou arame
recto posto no centro, e prolongado desde a base ou apego da corolla
athe a extremidade das petalas, lacinias ou orla; se todos os cortes
transversaes, que se poderem fazer desde a base athe ao topo de
dicto axe, derem circularmente segmentos iguaes no comprimento ou se
a orla da corolla monopetala naõ for dimidiada nem claudicar de hum
lado, a corolla he regular e Irregular no sentido contrario;
partindo desta supposiçaõ poem no numero das corollas regulares a
afunilada, asalveada, cyathiforme campanulada, globosa, oval,
arrosetada, cravinosa, cruciforme, rosacea, e malvacea, e entre as
irregulares a labiada, borboleta, a das orchideas, as que tem
nectarios esporaûdos e acapellados, e as do Acanthus, Teucrium,
Ajuga, Echium, Aristolochia, &c.
Irregular (irregularis), se as suas petalas, labios, ou lacinias saõ de differente forma e juntamente de diversa grandeza (o geranium papilionaceum, o amor perfeito, aconito, salva, orchideas, labiadas, e leguminosas.
A corolla he taõbem comparada com o calyz, e na falta deste com o pistillo ou estames, e se diz ser: curta, mediocre, comprida, pequena, grande, &c; mas por evitar equivocaçoẽs, o melhor será declarar sempre as partes comparadas, e dizer v. g.: corolla mais comprida do que o calyz, igual ao calyz, mais curta do que o calyz, mais comprida do que os estames, &c.
5º. Quanto à forma a corolla diz-se ser:
Rodada ou arosettada (rotata), figura quasi huma roda ou rosetta de espora; he monopetala, sem tubo notavel, partida em lacinias planas, e muito abertas (a borragem, morriaõ, e verbasco).
Campanulada ou acampainhada (campanulata, seu campaniformis) he petaleada ou monopetala, bojuda, sem tubo, e assemelhada a huma campainha [Página 137] ou choca (a tulipa, verdeselha, campanula, e abobara.)
Afunilada (infundibuliformis), assemelha-se a hum funil; a sua orla tem huma forma turbinada, e termina em hum tubo (a ipomaea, a mirabilis, e herva sancta.)
Cyathiforme (cyathiformis), parece assemelharse a hum copo de calyz; tem hum tubo cylindrico, a orla concava e hum tanto dilatada; taes saõ segundo alguns Botanicos as corollas da buglossa, cerinthe consolda maior, cynoglossa, quejadilho, pulmonaria, &c; mas Linneo reduz estas sortes de corollas ào afuniladas, e às vezes às campanuladas.
Asalveada (hypocrateriformis), assemelha-se de algum modo às nossas antigas salvas de prata; he monopetala, tem hum tubo cylindrico, e a orla plana e muito aberta (o jasmim, e congossa).
Labiada (ringens,
rictiformis, labiata), he monopetala tubulosa, e tem a orla dividida em
dois labios Nota
As vezes tem hum sò labio, como no Acanthus, Teucrium
e Ajuga, e nesta circumstancia he chamada unilabiada
(unilabiata.)Nota
A fauce ou garganta da
corolla he taõbem propria do qualquer corolla tubulosa, ou he o
orificio de hum tubo mais ou menos longo. As vezes diz se ser:
aberta (nuda, aperta, pervia), se naõ tem escamas nem pelos (como na
pulmonaria); fechada (clausa, s. tecta), se he tapada com pelos ou
escamas (como na buglossa, e cynoglossa): coroada (coronata), se tem
alguns rayos, denticulos, ou corpusculos (como na borragem, e
symphytum.)Nota
O collo he proprio taõbem de muitas outras corollas, que naõ saõ labiadas ,
como por ex. da do quejadilho, congossa, &c. Nota
O palato parece sò ser
proprio das corollas mascarinas.Nota
O esporaõ acha se taõbem em outras especies de corollas
como se vè nas esporas, e ainda mesmo no calyz, como nas chagas:
algumas corollas em lugar de esporaõ tem huma especie de capello ou
sacco (cucullus, s. saccus), como a impatiens, e alguns generos das
orchideas.
Rosacea (rosacea), tem cinco petalas regulares concavas, com unhas curtissimas apegadas ao calyz (as roseiras bravas, pereira, e sylva).
Malvacea (malvacea), tem cinco petalas cordiformes com as unhas adunadas (a malva, althea, & outras malvaceas.)
Liliacea (liliacea), tem seis petalas regulares, como a tulipa, açucena, coroa imperial, e outras plantas liliaceas.
Cravinosa (carvophillata), tem cinco petalas regulares, unguiculadas, e as vezes apegadas junto da base (as cravinas, murujem, herva traqueira, &c.) O germe nas flores que tem esta corolla vem a ser huma capsula.
Cruciforme (cruciata, s. cruciformis), tem quatro petalas regulares, unguiculadas, com as laminas patentes, e dispostas em cruz (a couve, goiveiro, e nabo).
Papilionacea ou borboleta (papilionacea), foy assim chamada pela compararem a
huma borboleta voando, he irregular, e consta de quatro petalas
unguiculadas, a superior he chamada estendarte (vexillum e està mais ou
menos levantada, estendida, e encostada anteriormente às outras tres Nota
He raro que huma corolla borboleta tenha mais, ou menos de quatro
petalas; contudo na amorpha aeha,se somente o estendarde e na olaya a
navetta he de duas petalas, o que he rarissimo, porque quando muito em
outras leguminosas so he bifendida ou bipartida.
Gomilosa (urceolata), tem a forma oval ou quasi oval, de modo que se assemelha quasi a huma jarra ou gomil; he bojuda no meyo, e se estreita depois na parte superior e inferior (a basella, e hyacinthus muscari).
Globosa (globosa), tem huma forma quasi espherica (o lirio dos valles, e a escrophularia).
6º. Quanto à composiçaõ diz-se ser:
Simplez (simplea), se pertence a huma flor simplez. A flor simplez (flos simplex), he rigorosamente a que dentro de hum calyz naõ contem muitos flos culos (o meimendro, a salva, e o jasmim). Os floristas chamaõ flor simplez ou singella à que tem sò huma ordem de petalas, e a oppoem à dobrada e polypetala, mas os Botanicos so chamaõ flor simplez aquella, cujo calyz, corolla ou receptaculo naõ saõ communs a muitos flosculos, e Linneo a oppoem à flor composta, aggregada, umbrellada, cymosa, amentilhosa, casulosa, e espadicea.
Corolla composta (composita), he a totalidade das corolullas de muitos
flosculos contidos dentro, de hum perianthio commum, rentes, e com antheras adunadas Nota
Linneo assigna taõbem huma corolla composta às especies de
betula, aindaque os seus flosculos naõ tenhaõ antheras adunadas, mas o termo composta he pouco usado em botanica nesta
extensa accepçaõ.
Corolla universal (universalis), he a totalidade das corollulas de
muitos flosculos relativos a huma umbrella universal (o coentro, salsa,
canabraz, e canafrecha Nota
Linneo da taõbem adequadamente o nome de corolla universal à
totalidade de algumas flores aggregadas, como às da scabiosa,
globularia, &c.
Corolla propria ou parcial (propria, s. partialis), he a que merece propriamente o nome de corolla, e pertence a cada hum dos flosculos da corolla composta ou da universal: daõ-lhe taõbem o nome de corollula ou de pequena corolla (corollula), principalmente quando he relativa a huma corolla composta.
A corolla composta e a universal constaõ de disco e de rayo; o disco (discus), he todo o espaço que vay desde o rayo exclusivamente athe ao centro; o rayo (radius), na corolla composta, he a sua parte mais externa immediata aos foliolos, escamas, ou lacinias do perianthio commum; na corolla universal das umbrelladas o rayo he a ultima ordem dos flosculos, que se achaõ na circumferencia da umbrella universal (o gyrasol, bonina, perpetua, salsa, e coentro).
Corollula ligulosa, ou corolla propria aligulada (p. ligulata), he a que
pertence a hum flosculo da flor composta Nota
Tournefort chamava flosculo (flosculus) ao que Linneo chama
corollula tubulosa, e semiflosculo (semiflosculus) ao que elle
chama corollula ligulosa; a opiniaõ de Linneo parece me ser a
mais acertada, porquanto o nome de flosculo convem naõ so aos
semiflosculos de Tournefort, mais ainda a qualquer pequena flor
congregada em hum receptaculo commum.
Corollula tubulosa, ou corolla propria tubulosa (p. tubulata, s. tubulosa), tem na parte inferior hum tubo, e a sua orla he campanulada, e terminada em cinco denticulos ou cinco lacinulas; estas corollulas algumas vezes saõ afuniladas, e outras vezes as suas lacinulas saõ desiguaes. As corollulas tubulosas achaõ-se na maior parte das flores da classe Syngenesia, e se podem observar nas da macella gallega, losna, gyrasol e perpetua.
Corolla composta ligulosa (c. ligulata) Nota
Semiflosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta tubulosa (c. tubulosa, s. discoidea) Nota
Flosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta radiada (c. radiata), quando as corollulas do rayo saõ ligulosas, e as do disco tubulosas (o gyrasol e bonina). Esta sorte de corolla he irregular, ou difforme; o termo de difforme [Página 143] contudo da-se taõbem ás corollas compostas tubulosas da centaurea, por terem no rayo flosculos com corollulas de forma differente.
Corolla universal radiada (un. radiata), quando as petalas externas dos floculos do rayo da umbrella universal differem das internas, e das mais dos flosculos do disco, sendo mais alongadas (o coentro, e canabraz). Estas corollas saõ taõbem chamadas difformes (difformes).
Corolla composta uniforme (c. uniformis), os seus flosculos tem todos corollulas da mesma forma, e proporçaõ, sendo ou todas tubulosas, ou todas ligulosas (a macella gallega, e a alface).
Corolla universal uniforme (un. uniformis), todos os seus flosculos tanto do disco como do rayo tem petalas da mesma forma e proporçaõ (a salsa, e funcho).
7º Quanto à duraçaõ a corolla diz-se ser:
Murchosa (marcescens), quando se murcha, engilha, e fica depois da florecencia, durante algum tempo, apegada ao fructo (as campanulas, orchideas, e algumas cucurbitaceas.)
Caduca (cuduca), se cahe pouco tempo depois da flor ter desabotoado, ou antes dos estames cahirem e da fecundaçaõ estar completa (videira, actaea, thalictrum).
Decadente (decidua), se cahe juntamente com os organos sexuaes, ou logo depois da fecundaçaõ (a papoila, tulipa, e a maior parte das flores).
Persistente (persistens), se dura e acompanha o fructo athe à sua madureza (o golfam, e helleborus).
[Página 144]8º. Quanto à cor.
A cor das corollas he ordinariamente desprezada pelos Botanicos modernos Nota
O Lord Bute no seu tractado dos generos das plantas da Gr.
Bretanha, que hà pouco publicou, pertende que as flores saõ menos
sujeitas a variar do que Linneo pensava, e que na realidade ha
muitas que jamais variaõ, principalmente às brancas e amarellas de
certas especies. Com effeito alguns Botanicos sexualistas servem-se
destas duas cores para distribuirem as especies dos generos de
anthemis e achillea; e Linneo mesmo naõ põde evitar de empregar as
cores nos destinctivos especificos de algumas cryptogamicas, como
nos agaricos, lichens, &c.
N. B. As flores participaõ de hum grande numero de denominaçoẽs proprias
das corollas, sendo, ordinario achalas decriptas nos autores com os
nomes de flores Nota
As flores radiadas, ligulosas, e tubulosas saõ as
que tem a corolla composta radiada, ligulosa, tubulosa.Nota
Os nossos floristas daõ o nome de flores borboletas a algumas
especies de ranunculus, mas segundo os Botanicos este nome so
compete as que tem huma corolla papilionacea, como a fava, ervilha,
&c.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Pistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
O calyz e corolla de que tractei nos dois capitulos precedentes saõ meramente tegumentos, e ornato dosorganos essensiaes às flores, isto he, dos estames e pistillo. Os modernos persuadidos por experiencias repetidas de que estes delicados organos eraõ destinados aos amores das plantas consideraraõ huns como genitaes masculinos, e outros como femininos. Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido. Na situaçaõ mais natural os estames estaõ postos entre a corolla e o pistillo, como se observa bem claramente numa açucena. A sua origem he supposta em geral ser a mesma que a [Página 147] da corolla. Podem ser considerados ou como completos ou como incompletos; no maior numero de flores saõ completos, isto he, constaõ de duas partes differentes huma superior e outra inferior, a superior he chamada anthera e a inferior filête. O filete he ordinariamente semelhante a hum delgado fio, e serve de esteio à anthera, que he quasi sempre mais grossa do que elle. A anthera acha-se de ordinario na ponta do filete, às vezes contudo succede ser rente, (sessilis), e o filete nullo; nesta circumstancia o estame he incompleto, como se vè na aristolochia. Commumente os estames saõ ferteis (fertilia); mas nalgumas flores, os filetes naõ sostem anthera alguma, ou somente tem huma anthera enfezada, mal apparente, e que naõ medra; nesta circumstancia os estamẽs saõ denominados estereis ou castrados (sterilia, s. castrata), e saõ taõbem incompletos: semelhantes estames rarissimamente saõ contados pesos systematicos sexualistas na classificaçaõ das plantas, em que se observaõ.
Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
O pistillo (pistillum), he huma viscera na qual se acha o principio do novo fructo, e os organos destinados a receber a substancia que o deve fecundar. Os sexualistas suppoem nesta viscera os organos genitaes femininos, e a consideraõ composta de tres partes, a saber, de germe, estylete, e estigma, os quaes se podem ver bem claramente numa açucena. O germe (germen), he a parte inferior do pistillo ou o fructo recêm nascido antes de ser fecundado; contem o principio das sementes e os organos proprios para receber a sua fecundaçaõ e nutriçaõ; e na sua posiçaõ mais natural està situado no centro da flor, com à base apegada ao receptaculo da fructificaçaõ. O estylete (stylus), he a parte do pistillo que medea entre o estigma e o germe. O estigma (stigma), he a parte superior e extrema do pistillo. Os sexualistas reconhecendo huma grande analogia entre estas partes, e às dos animaes, compararaõ o estigma à tuba de Fallopio e vulva, o estylete a vagina, e o germe ao ovario; assegurando segundo as suas observaçoẽs que o estigma se acha sempre [Página 156] humido ou rociado em razaõ de huma lympha genital que nelle se separa.
O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Filiforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Concavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
[Página 163]O fructo (fructus), consiste em huma ou mais sementes fecundadas, e nutridas sobre o seu proprio receptaculo athe ao estado de plena madureza, quer sejaõ cobertas quer descobertas. Quando consta de sementes cobertas o fructo, e o vegetal que o dà saõ denominados angiospermos (angiospermi), e gymnospermos (gymnospermi) se as sementes saõ descobertas. No primeiro cazo o fructo tem alem das sementes hum pericarpo, e no segundo as sementes saõ nuas, e o pericarpo he nullo (pericarpium nallum). Mas definir o que he rigorosamente hum pericarpo, assignar regras para o reconhecer, e para o distinguir sempre dos tegumentos proprios das sementes, dizer quando elle he nullo, ou quando as sementes saõ nuas, naõ he taõ facil como ordinariamente o daõ a entender as obras elementares de Botanica. Todas estas circumstancias requerem hum grande numero de novas obserraçoẽs e talvez muitos seculos se passaraõ ainda sem que se conheca huma sabia theoria pela qual se reduzaõ todos os fructos a hum certo numero de classes bem caracterizadas, e com denominaçoẽs adequadas; tanto he difficil de reconhecer as leys da marcha variada, que a natureza segue por entre o immenso labyrintho dos entes!
Os antigos Gregos e Romanos, e depois delles as naçoẽs modernas deraõ ordinariamente aos fructos [Página 164] nomes differentes, ou o nome da planta que os produzia, sem cuidar de os reduzir a limites certos nem a generalidades, taes saõ por ex. os de azeitona, maçaan, pera, ameixa, marmello, pecego, amora, pepino, melaõ, milho, cevada, trigo, &c. &c. Este modo de nomear os fructos naõ podia agradar aos Botanicos pela razaõ de naõ ser definido nem generalizado, o por conseguinte improprio para poderem delle tirar notas fundamentaes de caracteres genericos; elles cuidaraõ pois de os reduzir a hum certo numero de nomes geraes, dividindo os primeiramente do modo que acima disse em fructos gymnospermos, e angiospermos, e subdividindo depois estes ultimos em hum pequeno numero de especies. Estas divisoẽs, e subdivisoẽs estaõ contudo ainda bem longe da perfeiçaõ que exige huma generalidade conforme à natureza dos fructos; ellas foraõ reformadas por Linneo, e na verdade de todas as theorias que temos a respeito dos fructos a deste sabio he a mais adequada às leys systematicas; como he hoje a mais geralmente seguida, cuidarei quanto me for possivel de me conformar com ella, e começarei pelos fructos angiospermos, ou que consistem em sementes cobertas.
O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Ha capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
Vagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
O numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
O receptaculo Nota
Al. Thalamus, s. placenta.
Diz-se receptaculo da fructificaçaõ (receptaculum fructificationis), quando o
germe e os tegumentos da flor estaõ apegados a elle, como na açucena, cravo,
&c. Receptaculo da flor (recept. floris), quando as partes da flor estaõ
apegadas a elle, e naõ o germe, ou quando ellas estaõ sobrepostas ao germe,
como na abobara, melaõ, murta, hippuris, &c. Receptaculo do fructo
(recept. fructûs), quando tem apegada a si a base do germe Nota
O
receptaculo neste cazo he a extremidade do pedunculo adunada à base
do germe ou do fructo.
Receptaculo proprio ou parcial (proprium, s. partiale), he o lugar, a que
estaõ apegadas somente as partes de hum flosculo relativo, a hum
receptaculo commum, como na saudade Nota
Segundo Linneo, o receptaculo parcial pode ser relativo naõ so a
huma, mas a muitas fructificaçoẽs parciaes, que se achaõ no
mesmo receptaculo commum, como o dos flosculos da oedera,
sphaeranthus, gundelia, straebe, &c.
Receptaculo commum (commune), he o lugar, a que estaõ apegados muitos flosculos, e seus fructos approximados, como o do gyrasol, saudade, echinops, &c.
O receptaculo quanto á sua superficie diz-se ser: ponteado (punctatum), quando esta salpicado de pontos ou cavidades minimas, e he ao mesmo tempo nû (o dente de leaõ, e chrysanthemum); alveolar (alveolatum, s. favosum), quando consta de cellulas ou grandes cavidades hum tanto semelhantes às dos favos de mel, e nellas tem encravadas as sementes (onorpordum); felpudo (villosum), quando he guarnecido de felpa (o absinthio); peludo (pilosum), se tem pelos (a açafroa); sedeûdo (setosum), se he guarnecido de sedas (a bardana e centaurea); palheaceo (paleaceum), se he guarnecido de palhiços (palea), estes saõ humas pequenas laminas lineares, que se achaõ postas entre os flosculos (como na milfolha, almeiraõ, macella, &c.); nû (nudum), quando nelle senaõ achaõ vellos, pelos, sedas nem palhiços alguns (como no dente de leaõ).
Quanto à figura o receptaculo diz-se ser: plano (planum), na milfolha; convexo (convexum), se he quasi semigloboso, como na chamomilla; conico, [Página 205] (conicum) (na bonina, e macella). Elle se diz taõbem ainda ser concavo, assovelado, &c. (concavum, subulatum, &c.)
A naturalidade ou estructura natural das flores (structura naturalis), he segundo Linneo a que se observa na maior parte dellas, e he opposta a estructura singularizada. As flores de huma estructura naturalissima tem o calyz, e corolla divididos em igual numero de lacinias (ordinariamente cinco); o seu calyz he menos aberto, exterior, menor do que a corolla, e involve o receptaculo, ao qual ella está innata; cada hum dos seus filetes he guarnecido na ponta de huma anthera, postos entre a corolla e o pistillo, levantados, e iguaes no comprimento ao pistillo, quando os tegumentos da flor saõ levantados. O pistillo está posto no centro, o germe tem no topo, hum ou mais estyletes levantados, e terminados por estigmas. Cahidos os organos sexuaes, o germe torna-se em hum pericarpo sostido pelo calyz. O receptaculo he acompanhado do calyz, e inferior ou sottoposto ao germe.
A estructura singularizada (structura singularis), he a que se observa em
muito poucos generos de flores, como he por ex. a do pé de bezerro, a da
salva, adoxa, eriocaulon, magnolia, &c. Nota
Taõbem se podem chamar
singularizadas as umbrellas bolbigeras de alguns alhos, as espigas do
polygonum viviparum, &c.
O sexo das flores he estabelecido nos organos da fructificaçaõ chamados
estames e pistillo. As flores, ou flosculos relativamente ao seu sexo, saõ
susceptiveis de quatro destinçoẽs principaes, a saber, de hermaphroditas,
masculas, femininas, e neutras. As flores hermaphroditas (hermaphroditi),
a que alguns chamaõ taõbem bissexuaes Nota
Por terem os dois sexos
dentro da corolla ou calyz, e saõ oppostas ás unisexuaes (ou
relativas) que dentro delles tem organos somente masculos, ou
somente femininos.Nota
Segundo os sexualistas o Autor da natureza
fez a maior parte das flores hermaphroditas por naõ poderem mudar de
lugar, e ir buscar o seu consorte; e se nas dioicas estaõ os sexos
separados, distaõ contudo muito pouco espaço.Nota
O Lord
Bute no seu excellente tractado dos Generos das plantas da Gr.
Bretanha, que imprimio para divertimento das Fidalgas de Inglaterra,
tractou de evitar como delicado cortezaõ os termos de
hermaphroditas, masculas e femininas, e em lugar delles substituio
os nomes de completadas, estaminosas e pistillosas.Nota
Em razaõ de terem este
principio de germe saõ chamados por Linneo flosculos femininos,
assim como o mesmo botanico deo o nome de mascula hermaphrodita á
huma flor hermaphrodita cujo pistillo he abortivo, e o de feminina,
hermaphrodita á for hermaphrodita, cujos estames abortaõ.
Alem das quatro denominaçoẽs mencionadas, Linneo deo ainda ás flores os
nomes das classes do seu systema sexual, e lhes chamou monandras,
diandras, triandras, tetrandras, pentandras, hexandras heptandras,
octandras, enneandras, decandras, dodecandras, icosandras, polyandras,
didynamicas, tetradynamicas, monadelphas, diadelphas, polyadelphas,
syngenésicas ou compostas, gynandras, monoicas ou androgynas, dioicas,
polygamas, e cryptogamicas Nota
Flores mon- di- tri- tetr- pent- hex-
hept- oct- enne- dec- dodec- icos- polyandii; di- tetradynamici;
mon-di- polyadelphi; syngenesii; gynandri; monoici, s. androgyni;
dioici; polygami, e cryptogamici. Taõbem ha flores endecandras
(endecandri) ou de onze estames, como as da brownea; todas estas
denominaçoẽs, como as da nota seguinte, saõ dadas naõ so as flores,
mas taõbem aos vegetaes que as produzem.Nota
Mono- di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- deca- dodeca-
polygyni.
Assim como entre os animaes nascem alguns com huma estructura differente em parte da ordinaria da sua especie, e que por isso lhes daõ o nome de monstros, do mesmo modo entre os vegetaes se encontraõ muitas vezes individuos, os quaes ainda que conservem parte da estructura, e habito externo da sua especie, se desviaõ contudo della em parte, principalmente na flor; e em razaõ disto os Botanicos lhes daõ igualmente o nome de monstros (monstra, seu plantae monstrosae).
Todas as flores viçadas e mutiladas (flores luxuriantes, et mutilati) saõ monstros. Nas primeiras os tegumentos dos organos sexuaes saõ de tal modo multiplicados, que as partes essensiaes da fructificaçaõ ficaõ mais ou menos destruidas; esta producçaõ por mais agradavel que pareça aos floristas, jardineiros, e a quaesquer pessoas em geral, he contudo considerada pelos botanicos como opposta a ordem natural, e como huma verdadeira degradaçaõ causada pela [Página 209] pela redundancia dos succos nutritivos. Nas mutiladas pelo contrario a falta de calor sufficiente e as doenças fazem faltar as partes, que alias costumaõ ter naturalmente sem que porisso outras augmentem.
Nas flores engrandecidas (flores grandificati, s. injuriantes) aindaque a corolla naõ degenera quanto ao numero das petalas ou lacinias, e postoque naõ falta, contudo como em razaõ dos succos abundantes vem a ser maior do que naturalmente devera ser, como se observa na galeopsis, prunella, Etc. semelhantes flores devem porisso ser contadas no numero das viçadas modicamente. No mesmo numero se devem taõbem contar as que tem hum calyz còrado fora do costume natural, como succede às vezes no quejadilho.
As flores, a que chamaõ verdadeiramente viçadas, saõ de tres sortes, a
saber, semidobradas, dobradas, e proliferas Nota
Os floristas dividem as flores somente em singellas e dobradas
desta ou daquella cor, e naõ ha para elles mais dvisoẽs em
Botanica.
A flor semidobrada (flos multiplicatus, s. semiplenus) he aquella, cuja
corolla tem mais ordens de petalas ou maior numero de lacinias do que
costuma ter naturalmente, conserva o pistillo e alguns estames, e dá algumas
sementes fecundas. O perianthio e involucro rarissimamente degeneraõ de
modo que cheguem a constituir huma flor semidobrada, e ainda que o calyz
contra o natural costume possa mudar de cor Nota
Nesta circumstancia o calyz pode fazer parecer a corolla
semidobrada, e porisso deve haver grande cuidado de o naõ
confundir com ella, nem por conseguinte dar erradamente à flor o
nome de emidobrada. Nota
Naõ deixaõ contudo de haver exemplos de calyces consideravelmente
viçados: as escamas do calyz dos cravos augmentaõ as vezes de
tal modo, que formaõ huma espiga de figura particular; na
festuca ovina, e algumas gramas das montanhas alpinas o casulo
das flores degenera em folhas ; na plantago maior a espiga degenera as vezes
em folhas floraes de tal
sorte que as flores ficaõ inteiramente suffocadas, o que succede
taõbem ás escamas do amentilho nalgumas especies de salgueiro,
quando os insectos estragaõ os organos sexuaes. Nota
Donde alguns lhe daõ o nome de flos duplicatus, triplicatus,
quadruplicatus, mas he melhor denominalas flores serie duplici,
triplici, quadruplici, multiplici, s. multiplicatâ. Nota
O viço das flores semidobradas he denominado semidobrêz, ou
multiplicaçaõ (multiplicatio, s. semimpletio); este viço pode ser
propagado por sementes, quando o terreno he cultivado ou
incompetente.
A flor dobrada (flos plenus) propriamente tal he aquella, cuja corolla dobra
de tal modo, que todos os estames ficaõ convertidos em petalas ou lacinias. O pistillo nestas flores ordinariamente ou he transformado assim como
os estames, ou apertado e suffocado de modo que fica esteril Nota
Quando o pistillo e os estames saõ transformados em petalas, a
flor he denominada eunucha (flos ennuchus); se o viço poupou o
pistillo, e hum ou dois estames, e se isso naõ obstante o fructo
fica inteiramente esteril, a flor deve ser contada no numero das
dobradas, e naõ das semidobradas.
A dobrêz (impletio), tem ordinariamente lugar nas flores petaleadas, como v. g. nas da maceira, pereira, pessegueiro, cerejeira, gingeira, amendoeira, romeira, murta, roseira, morangueiro, rainunculo, anemone, papoila, dormideira, craveiro, açucena peonia ou roza albardeira, tulipa, narcizo, jonquilho, violetta, chagas, goiveiro, malva, alcea ou malva da China, hesperis matronalis, hibiscus, caltha, anemone hepatica, aquilegia, nigella, agrostema coronaria, silene, lychnis, fritillaria, &c. Naõ deixaõ [Página 212] contudo de haver alguns exemplos de flores monopetalas sojeitas a dobrar como saõ por ex. as do jacintho, açafraõ, colchico, quejadilho, tuberosa, datura, &c.
As monopetalas dobraõ por meyo do augmento das lacinias, e as petaleadas pelo
augmento do numero das petalas, o qual se faz naõ so à custa dos organos
sexuaes mas ainda por meyo da transformaçaõ dos nectarios, como se vè nas
esporas, nigella, e aquilegia; a dobrez contudo desta ultima segundo se tem
observado pode ser de tres modos; 1º pela transformaçaõ total dos nectarios
em petalas; 2º pela transformaçaõ total das petalas em nectarios; 3º pela
dobrez dos nectarios, conservadas contudo as cinco petalas, e neste cazo os
espaços entre ellas ficaõ occupados cada hum por tres nectarios encravados
huns nos outros. No narcizo as vezes só os nectarios dobraõ, outras vezes
tanto dobraõ as petalas, como os nectarios. A saboeira de Inglaterra
(saponaria officinalis hybrida), os novelos ou rosa de Gueldres (viburnum
opulus globosum, s. roseum), e a peloria (antirrhinum linaria peloria),
subministraõ tres exemplos extraordinarios de dobrez. A primeira he huma
variedade da saboeira ordinaria com a corolla de cinco petalas
transformada em monopetala semelhante á da genciana Nota
Gerardo foy o primeiro que descobrio esta flor, Mortono contudo
assegura que ella ja senaõ acha em Inglaterra no lugar onde
Gerardo a encontrou; dizem que hoje so se da em alguns jardins
que naõ da sementes fecundas, e que so se conserva por meyo de
raizes. Nota
O Dr Gmelin observou contudo algumas cymeiras, em que os
flosculos do rayo naõ eraõ neutros, mas tinhaõ estames, e os
denominou por conseguinte masculos. Nota
Wiggers diz ter observado sementes fecundas nesta planta, e senaõ
houve engano, este facto favorece o parecer dos que pensaõ que
ella deve constituir hum genero á parte. Ha algumas flores femininas que muitas vezes naõ daõ sementes
fecundas, em razaõ de lhes faltar o individuo macho perto
dellas, como se observa nas palmeiras, figueiras, &c.;
semelhantes flores naõ devem porisso ser tidas por viçadas,
porque a sua esterilidade naõ provem de huma structura
viçada.
A semidobrez e a dobrez das flores pode ter lugar tanto nas que saõ simplez, como nas compostas. Huma flor simplez petaleada em estado de viço pode facilmente destinguir-se de huma polypetala natural pelo modo que ja expuz; ella se poderà taõbem destinguir de huma flor composta natural pela razaõ de ter somente o pistillo no centro ou naõ ter pistillo algum, como o rainunculo dobrado; nas flores compostas naturaes, como por ex. nas da alface e chicoria, cada flosculo tem o seu pistillo e estames.
As flores compostas, como ja expliquei fallando da corolla, ou saõ inteiramente ligulosas, ou inteiramente tubulosas, ou radiadas. Nas flores radiadas a dobrez pode ter lugar, 1º em razaõ dos flosculos tubulosos do disco tomarem a forma dos flosculos do rayo, como se ve nalgumas especies de gyrasol, cravo de defuncto, calendula, chrysanthemum, anthemis, matricaria, achillea ptarmica, centaurea cyanus, &c.; 2º quando conservados os flosculos do rayo, os do disco se alargaõ e alongaõ demasiadamente, e tem menos lacinias ou denticulos no seu orificio como se tem visto na serratula arvensis; 3º quando as coróllulas ligulosas do rayo se mudaõ em tubulosas, como se tem observado na bonina, matricaria, e cravo de defuncto. Nas flores compostas inteiramente tubulosas, como por ex. a macella gallega, he rarissimo haver dobrez, e quando existe, he semelhante á do 2º modo com que dobraõ as radiadas. Nas flores inteiramente ligulosas a dobrez so se conhece, e se distingue do estado natural pela razaõ de que os estigmas se alongaõ muito, os germes [Página 215] augmentaõ, saõ mais compridos do que o calyz e divergem, como se tem observado na escorcioneira, lapsana communis, e tragopogon pratense.
Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos. Tem se observado que se huma flor composta natural, como a bonina, cravo de defuncto, matricaria e chrysanthemum, tem no rayo flosculos com pistillos, os flosculos transformados do disco os conservaõ igualmente; mas se os do rayo naõ tem pistillos naõ os tem taõbem os flosculos viçados do disco, como acontece na dobrez do gyrasol, centaurea, e calendula.
Ha muitas familias de plantas que daõ constantemente flores sem dobrez
nem viço algum notavel, taes saõ por ex. as das ordens naturaes, a que
Linneo chama Inundadas e Holeraceas Nota
Inundatae, Holeraceae. Vej.
Lin. Meth. Nat. Fragm. Ord. 48. e 53.Nota
Verticillatae. Ibid. ord. nat. 58.Nota
Personatae. Ib. ord. nat. 59.
Deve-se contudo exceptuar a Linaria, na supposiçaõ de que a peloria
he huma variedade viçada desta planta.Nota
Asperifoliæ. Ib. ord. n. 43.Nota
Stellatæ. Ib. ord. n. 44.Nota
Umbellatae.
Ib. ord. nat. 22. Deve-se contudo exceptuar o viço das umbrellas
proliferas.Nota
Papilionacea. Ib. ord nat. 55.
A flor prolifera (flos prolifer), he a que lança de si outra flor ou
pequenas folhas ; ordinariamente
he dobrada; no primeiro cazo he denominada flor prolifera de flores
(prolifer floriferus), e no segundo flor prolifera de foliolos (prolifer
foliiferus). A prolificaçaõ de flores he de dois modos, ou
originaria do centro ou dos lados; na do centro o pistillo brota de si outra
flor para cima posta sobre hum pedunculo, e tem lugar algumas vezes nas
flores simplez, como nos cravos, ranunculus tuberosus, anemone hortensis,
geum urbanam, rosa gallica, &c; na dos lados, o calyz commum brota de si
muitas outras flores pedunculadas, e tem lugar nas flores compostas e
aggregadas, como na bonina, calendula officinalis, saudade, e no hieracium
falcatum proliferum de Gaspar Bauhino. As flores proliferas de foliolos
saõ raras, observaõ-se contudo algumas vezes nas rozeiras e anemones Nota
Na scrophularia aquatica algumas vezes os organos sexuaes saõ
transformados em fasciculos de foliolos e o mesmo se tem visto no
dipsacus sylvestris, &c. Ha fructos que taõbem saõ proliferos de
foliolos, como as peras, uvas, &c; elles ficaõ nesta
circumstancia sem sementes, por causa destas se terem convertido em
foliolos.
A prolificaçaõ (prolificatio) naõ so tem lugar nas flores, mas ainda nas umbrellas simplez e cymeiras, em razaõ destas brotarem de si outras contra o seu costume natural, do que temos exemplos no cornus suecica, selinum palustre, &c.
A flor mutilada (flos mutilatus), segundo Linneo Nota
Alguns estendem
a accepçaõ deste termo às flores, a que faltaõ quaesquer partes
que costumaõ ter naturalmente, sem porisso augmentarem em
outras; com effeito algumas vezes o numero dos estames e dos
estyletes diminue, e se tem visto flores aggregadas passarem a
ser simplez, quando o terreno he exsucco, e magro.
ASSIM como todos os animaes tendem naturalmente à sua reproducçaõ, da mesma sorte
os vegetaes á proporçaõ que crescem se encaminhaõ ao estado de fructificaçaõ, e
tanto que fructificaraõ, ou perecem dentro de breve tempo ou cessaõ de crescer
no lugar que deraõ o fructo, sendo-lhes precisos novos gomos para poderem
lateralmente prolongar-se. Donde se collige que a fructificaçaõ (fructificatio)
he huma parte transitoria em que termina o vegetal dentro de hum certo periodo
de tempo, destinada a dar principio a novos entes da sua espécie. Ella
consiste essensialmente na flor e fructo: a flor he hum a parte da
fructificaçaõ, que no seu estado completo e perfeito consta de organos
sexuaes envoltos em tegumentos; a sua essensia consiste em ter anthera ou estigma Nota
Em razaõ de comprehender ainda as flores cryptogamicas geralmente se
poderia melhor dizer: consiste em ter anthera , ou estigma, ou hum principio de semente .
O CALYZ e corolla saõ os tegumentos dos organos sexuaes, ou para me explicar segundo o modo de alguns sexualistas, o calyz he o thalamo nupcial das flores, e a corolla a rica armaçaõ delle. Cesalpino pensava que o calyz era hum prolongamento da casca e a corlla huma prodcçaõ do livrilho ou alburno.
As flores nem sempre saõ acompanhadas destes tegumentos; quando huma flor
tem calyz e corolla hé chamada completa (flos completus) e incompleta
(incompletus) se lhe falta algum dos dictos Nota
Alguns daõ taõbem o nome de perfeita (perfectus) á completa e o
de imperfeita (imperfectus) á incompleta; porem o melhor sera
reservar o nome de flor imperfeita para as cryptogamicas, e o de
perfeita para as das outras classes.
A natureza naõ poz limites certos entre o calyz e corolla, e daqui procede
que os Botanicos tem differentes opinioes relativamente á denominaçaõ destes
tegumentos; huns querem que o tegumento immediato aos organos sexuaes deva
ser chamado corolla em todas as circumstancias, e por conseguinte todas as
vezes que a flor tem hum so tegumento [Página 119] daõ-lhe o nome de corolla; outros seguem em parte este parecer, e em
parte a cor, á qual daõ a preferencia. Linneo vendo que algumas corollas
se tornaõ verdes, e alguns calyces saõ bastantemente corados,
estabeleceo a differença entre o calyz, e corolla na posiçaõ dos
estames, dizendo que estes nas flores descalycinas e muitas completas
saõ alternos com as petalas ou lacinias da corolla ficando situados
entre as suas aberturas, que nas descorolladas pelo contrario saõ
fronteiros aos foliolos ou segmentos do calyz, ficando encostados ou
postos defronte delles, como se pode observar no cardo penteador,
cerejeira brava, coentro, sabugueiro, consolda maior, alchemilla,
potamogeton, e muitas outras plantas das classes Terandria e Pentrandria Nota
Sem embargo destas condiçoẽs naõ deixa as vezes de haver
difficuldade na decisaõ do nome destes tegumentos, e Linneo o dà
a entender quando diz: calyz a naõ chamar-lhe corolla; corolla a
naõ charmar lhe calyz; corolla calycina; calyz acorollado: cujos
exemplos se vem no loireiro, garidella, commelina, monotropa,
tetragonia, &c.
O CALYZ e corolla saõ os tegumentos dos organos sexuaes, ou para me explicar segundo o modo de alguns sexualistas, o calyz he o thalamo nupcial das flores, e a corolla a rica armaçaõ delle. Cesalpino pensava que o calyz era hum prolongamento da casca e a corlla huma prodcçaõ do livrilho ou alburno.
As flores nem sempre saõ acompanhadas destes tegumentos; quando huma flor
tem calyz e corolla hé chamada completa (flos completus) e incompleta
(incompletus) se lhe falta algum dos dictos Nota
Alguns daõ taõbem o nome de perfeita (perfectus) á completa e o
de imperfeita (imperfectus) á incompleta; porem o melhor sera
reservar o nome de flor imperfeita para as cryptogamicas, e o de
perfeita para as das outras classes.
A natureza naõ poz limites certos entre o calyz e corolla, e daqui procede
que os Botanicos tem differentes opinioes relativamente á denominaçaõ destes
tegumentos; huns querem que o tegumento immediato aos organos sexuaes deva
ser chamado corolla em todas as circumstancias, e por conseguinte todas as
vezes que a flor tem hum so tegumento [Página 119] daõ-lhe o nome de corolla; outros seguem em parte este parecer, e em
parte a cor, á qual daõ a preferencia. Linneo vendo que algumas corollas
se tornaõ verdes, e alguns calyces saõ bastantemente corados,
estabeleceo a differença entre o calyz, e corolla na posiçaõ dos
estames, dizendo que estes nas flores descalycinas e muitas completas
saõ alternos com as petalas ou lacinias da corolla ficando situados
entre as suas aberturas, que nas descorolladas pelo contrario saõ
fronteiros aos foliolos ou segmentos do calyz, ficando encostados ou
postos defronte delles, como se pode observar no cardo penteador,
cerejeira brava, coentro, sabugueiro, consolda maior, alchemilla,
potamogeton, e muitas outras plantas das classes Terandria e Pentrandria Nota
Sem embargo destas condiçoẽs naõ deixa as vezes de haver
difficuldade na decisaõ do nome destes tegumentos, e Linneo o dà
a entender quando diz: calyz a naõ chamar-lhe corolla; corolla a
naõ charmar lhe calyz; corolla calycina; calyz acorollado: cujos
exemplos se vem no loireiro, garidella, commelina, monotropa,
tetragonia, &c.
O CALYZ (calyx), no maior numero de flores heo tegumento externo dos organos sexuaes, de cor verde ou menos corado do que a corolla (o jasmim, cravo, e goivo). Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.
Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva. Antigamente so o primeiro tinha o nome de calyz, e com effeito os mais mereciaõ antes ser chamados calyces bastardos (calyces spurii).
O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.) O perianthio pode ser taõbem contiguo a outro (como na malva), a huma corolla ou a muitas, como no gyrasol; quando elle recobre muitos flosculos, estes ou saõ rentes ou quasi rentes, Nas flores casulosas e amentilhosas o calyz ordinariamente naõ he circular; a estructura escamosa, paleacea e outras circumstancias relativas à sua forma poderaõ contribuir a destinguilo do perianthio. Os foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas . Nas flores compostas os foliolos saõ ordinariamente chamados escamas (squamae), principalmente se saõ imbricados, como nas perpetuas. Se na flor naõ ha perianthio, como na tulipa e açucena, daõ lhe o nome de nullo (nullum).
Diz-se: perianthio da fructificaçaõ (perianthium fructificationis), quando
contem ou enserra os estames e o germe; nesta circumstancia sempre esta
immediatamente sottoposto ao germe (a sylva, peonia, morangueiro, masva,
jasmineiro craveiro, faveira, &e.) Perianthio da flor (perianthium
floris), se em si contem os estames sem germe Nota
Este calyz tem o seu ponto de apego sobre o germe ou fructo
tenrinho, no cazo que o haja; os calyces das flores masculas
aindaque naõ saõ apegados ao topo do germe (porque o naõ ha),
devem contudo ser considerados como perianthios da flor, por
conterem estames e naõ germe algum, como saõ os da amoreira,
mercurial, amaranthos, &c. Nota
O calyz neste cazo esta sottoposto ao germe; às vezes ha huma
corolla sobreposta ou outro calyz sobreposto ao germe, o que naõ
tem lugar no cazo do perianthio da fructificaçaõ, em que o germe
naõ fica situado immediatamente debaxo da corolla, nem entre o
calyz e corolla, como succede no prezente; no perianthio da
fructificaçaõ os estames naõ estaõ apegados ao germe, mas sim ao
receptaculo que Sostem a base do germe, ou ao dicto perianthio,
ou a huma corolla ou nectario que naõ tem o ponto de apego no
germe. Ha flores que tem o periantio do fructo diverso do da flor como a
Linnæa e Morina, ha outras que tem perianthio do fructo e naõ da
flor, como as femininas da aveleira, poterium, &c, outras
tem perianthio da flor e naõ do fructo, como a murta, romeira,
pereira, sorveira, &c, ha outras emfim que naõ tem
perianthio algum, aindaque tenhaõ hum receptaculo da flor, como
v.g. a hippuris, orchideas, valeriana, aristolochia, &c. Vej. Linn. Meth, Calyc.
Perianthio superior ou sobreposto (superum), he o que se acha posto sobre o germe ou tenrinho fructo, como o da romeira, pereira, e outros muitos perianthios da flor.
Perianthio inferior ou sottoposto (inferum), he o que cinge a base do germe ou tenrinho fructo, como saõ os perianthios da fructificaçaõ e do fructo.
Commum (commune) Nota
As vezes das lhe taõbem o nome de composto ou universal
(compositum, s. universale). Segundo Linneo este calyz pode ser dobrado como se vê no
micropus.
Parcial ou particular (proprium, S. partiale), he [Página 122] relativo a hum flosculo contido em hum perianthio, commum, ou a
qualquer flosculo congregado, rente ou quasi rente (a saudade, e
gyrasol) Nota
Ordinariamente este termo so se applica aos calyculos das
flores compostas e aggregadas. O perianthio parcial pode segundo
Linneo conter mais de huma flor, como se vẽ no sphaerantus, e
elephanthopus.
Calyculado (auctum, s. calyculatum), quando tem na sua base huma serie de
escamas ou foliolos curtos, differentes delle, e que constituem quasi
hum segundo calyz menor ou calyculo (calyculus) Nota
Da-se taõbem o
nome de calyculos a alguns perianthios parciaes, como aos da
saudade, pela razaõ de serem pequenos ou menores do que o
commum.
Unico (unicum), quando a flor tem hum so, como v. g. o alecrim: simplez (simplex) he unico, naõ calyculado, nem dobrado nem triplicado (sida). Este termo parece ser synonymo do precedente; Linneo contudo deo-lhe mais extensa significaçaõ, e o applicou ainda para denotar hum calyz quasi inteiro, de foliolos naõ imbricados, quasi do mesmo comprimento, ou adunados na base, como o da tagetes, bellis, e o calyz interior da crepis.
Dobrado ou triplicado (duplex, geminum, triplex), quando Nota
Estes
calyces saõ ordinariamente differentes no numero, e forma de suas
partes; encontraõ se tanto nas flores simplez, como nas compostas e
aggregadas; as vezes estaõ dois approximados, ou apegados hum ao
outro debaxo do germe, ou no topo outras vezes saõ remotos, estando
hum na base outro no topo do germe, outras vezes emfim hum commum na
base, e dois no topo do germe, como se podem observar na malva,
althaea, craniolaria, morina, linnaea, scabiosa, caryophyllus,
&c.
Caduco (caducum), se cahe logo que a flor desabotoa, como o da papoila, e epimedium.
Decadente ou simulcadente (deciduum), se cahe juntamente com a corolla, como o da uva espim, mostarda, e outras flores da Tetradynamia.
Persistente (persistens) se persiste athe à madureza do fructo, como o da salva, alecrim, e outras flores da Didynamia.
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitas escamas ou foliolos destinetos na base (a alface). Monophyllo (monophyllum), quando he de huma so peça ou inteiriço na base, ainda que seja partido ou fendido (a salva, romeira, pereira, pimentaõ, &c.); de dois foliolos (diphyllum) na papoila, celidonia e fumaria; de tres foliolos (triphyllum), na tradescantia e ranunculus ficaria; de quatro foliolos (tetraphylhum) na couve, e goiveiro; de cinco (pentaphyllum), no linho; elle diz-se ser ainda de seis, sette, oito, nove, dez foliolos, &c. (hexa- hepta- octo- ennea- decaphyllum, &c.)
Fendido (fissum), se he monophyllo, e rasgado athe ao meyo pouco mais ou menos, e as sinuosi dades entre os segmentos saõ lineares ou de igual largura; segundo o numero das lacinas diz-se ser: multifendido (multifidum), fendido em duas, tres, quatro, cinco lacinias, &c. (bi-tri-quadri-quinquefidum, &c.); se as lacinias saõ curtas ou marginaes, daõ-lhes. o nome de dentes, e se diz por conseguinte denteado (dentatum s. ferratum); segundo o numero destas curtas lacinias diz-se ser: denteado de muitos dentes (multidentatum), de dois, tres, quatro, cinco dentes, &c. (bi-tri-quadri-quinquedentatum, &c.)
[Página 124]Partido (partitum), he monophyllo e dividido athe abaxo do meyo ou quasi athe à base; segundo o numero das lacinias diz-se ser; multipartido (multipartitum), bipartido (bipartitum), tripartido (tripartitum), quadripartido (quadripartitum), partido em cinco, seis lacinias, &c. (quinque-sexpartitum, &c.)
Inteiro (integrum), he monophyllo sem ser fendido, nem partido em lacinias algumas.
Celheado (ciliatum), se os seus foliolos ou lacinias saõ celheadas Nota
As celhas rigorosamente saõ os pelos ou sedas que se achaõ no
fio marginal; mas aqui os botanicos comprehendem taõbem o
disco.
Tubuloso (tubulosum), se he roliço e occo (a neveda e hortelaan).
Infunado (inflatum), quando he concavo, e parece soprado como huma bexiga (a herva traqueira).
Levantado (erectum), se os seus foliolos ou lacinias saõ levantadas (jasmim).
Patente (patens), quando as suas lacinias ou foliolos saõ abertos largamente, ou formaõ com o pedunculo hum angulo obtuso pouco desviado do angulo recto.
Reflexo (reflexum), quando a extremidade dos seus foliolos ou lacinias se curvaõ hum tanto para traz, ou para baxo.
Igual (aequale), quando os seus foliolos, lacinias ou dentes saõ iguaes: desigual (inaequale); se elles saõ desiguaes (cistus).
Curto (abbreviatum), se he mais curto do que a corolla, ou do que o seu tubo, ou unhas das petalas: comprido (longum), se he mais comprido do que ella.
[Página 125]Globoso (globosum), se tem a forma globosa (a perpetua e bardana); aclavado (clavatum), quando se prolonga engrossando pouco a pouco, e reprezenta a forma de huma massa (silene).
Troncado (truncatum), se ne sua parte superior parece como decotado: obtuso (obtusum), se os seus foliosos ou segmentos saõ obtusos; agudo (acutum), se elles saõ agudos; as vezes diz-se taõbem agudo ou obtuso na base.
Espinhoso (spinosum), se tem espinhos (a calcitrapa, e cardo sancto); aculeado (aculeatum), se tem aculeos (a bringela).
Imbricado (imbricatum), se consta de foliolos ou escamas imbricadas (o gyrasol, milfolha, e alface).
Esquarroso (sguarrosum), se tem foliolos ou escamas imbricadas, desviadas, e abertas entre si principalmente nas pontas (conyza squarrosa)
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).
Turbinado (turbinatum), se he verticalmente conico tendo a forma de hum piaõ bailando (moluccella)
Involucro (involucrum), he huma especie de calyz remoto da flor Nota
He
hum calyz bastardo, proprio naõ so das flores umbrelladas mas de
muitas outras; naõ se rasga ao alto como as espathas, e o estar mais
ou menos distante da flor contribue a fazelo distinguir das outras
especies de calyz; ordinariamente parece ser hum composto de
bracteas.
Diz-se ser; universal (universale), se esta situado na, base dos rayos de huma umbrella univeroal (a cenoira, bisnaga, e cardo, corredor): parcial (partiale), [Página 126] quando acompanha a base dos rayos de huma umbrella parcial (salsa, coentro, cerofolho); chamaõ-lhe: involucello (involucellum), ou pequeno involucro parcial, se tem poucos foliolos curtos, como nas euphorbias e buplevrum; proprio (proprium), se acompanha o pedunculo da flor de huma umbrella parcial, ou ainda o de huma so flor, como na pulsatilla.
Semicircular (dimidiatum), se acompanha somente metade do topo do pedunculo que sostem a umbrella, faltando na outra metade (o coentro, e aethusa).
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitos foliolos, como na canafrecha, e peucedarium; momophyllo (monophyllum), se consta de hum so foliolo, he inteiriço na base, e acompanha o pedunculo circularmente (a pulsatilla); de dois, tres, quatro, cinco, seis foliolos, &c. (di-tri-tetra-penta-hexaphyllum, etc.) como se ve nas euphorbias e umbrelladas.
Casulo (gluma), he huma especie de calyz Nota
O nome de casûlo he taõbem
dado a corolla das gramas; mas aqui so se deve entender o casulo
externo, porque do interno fallarei quando tractar da corolla.
Alguns para os distinguir chamaõ-lhes casulo calycino, casulo
corollino; talvez melhor fora dar somente ao calyz o nome de
casulo.
As escamas ou folhiços paleaceos, de que consta o casûlo, saõ chamados
valvulas (valvulae, s. valvae); ellas saõ de varia forma e estructura,
planas, concavas, aquilhadas, assoveladas, iguaes, desiguaes, &c. O
casûlo, em razaõ do numero das valvulas de que he composto, diz-se ser:
univalve (alvis), se [Página 127] consta de huma so (o joyo); bivalve,(bivalvis), se consta de duas (o
trigo e milho): trivalve (trivalvis), se consta de tres (o escalracho,
milhaan, e milho painço); multivalve (multivalvis), se consta, de muitas
valvulas ou mais de trez (a uniola, as maçarocas de milho Nota
Linneo chama folhas ás
valvulas destas maçarocas, mas a sua estructura, e modo de
envolver as fores me fazem decidir a consideralas como hum
casulo commum multivalve.
Unifloro (uniflora), se inclue somente hum flosculo como o milho painço, a alpista, e milho ordinario: biflora (biflora), se contem duas flores (a avea, e aira) trifloro (triflora), se contem tres flores (algumas especies de trago) multifloro (multiflora), se contem muitos flosculos, ou mais de tres (o joyo, e bolebole).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).
Glabro (glabra), se naõ tem pelos, nem celhas, nem sedas algumas: peludo, lanudo, felpudo, celheado e hispido, se as suas valvulas constaõ de producçoẽs proprias a merecer estas denominaçoẽs (vej. o § Do trichismo e hispidez).
Aristado (aristata), se as suas valvulas tem praganas (o trigo tremez): desaristado (mutica), se ellas saõ destituidas, de praganas (o escalracho, e milho).
A pragana (arista), he hum fio mais ou menos comprido, hum tanto rijo, e apegado a alguma das valvulas do casulo calycino ou corollino das gramas. Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).
Amentilho (amentum), segundo Linneo he hum calyz formado do receptaculo
commum ou carolim filiforme, guarnecido de escamas paleaceas, e originario
de hum gomo. Eu ja fallei do amentilho como huma especie de espiga Nota
O amentilho rigorosamente he huma especie de espiga simplez,
que consta de flores unisexuaes; o nome de calyz sò pode competir às
suas escamas, mas algumas vezes o amentilho he nu e sem escamas, e
neste cazo seremos obrigados a chamar calyz a hum receptaculo, o que
me parece assaz improprio, a naõ querer chamar amentilho somente às
escamas do gomo.
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).
He univalve ou monophylla (univalvis, s. monophylla), quando consta de huma so peça que se raaga de ilharga (o narcizo, e pe de bezerro): bivalve ou diphylla (bivalvis, s. diphylla), quando he rasgada em duas partes ou em dois foliolos (as palmeiras): Mediada (dimidiata), se he monophylla, aberta e concava, como a metade de hum ovo cortado ao [Página 129] alto, e guarnece a fructificaçaõ somente com a parte inferior: imbricada (imbricata), como nas bananeiras.
Trunfa (calyptra), he huma especie de calyz membranoso ,
acapellado, posto immediatamente sobre a fructificaçaõ dos musgos
chamada anthera, urna, ou capsula (o polytrichum, e bryum) Nota
Hedwigio e alguns outros Botanicos, que seguem que a corolla he o
tegumento immediato dos organos sexuaes, consideraõ a trunfa dos
musgos como huma corolla, e so daõ o nome de calyz ao
perichecio.
Volva (volva), he huma membrana que cobre os cogumelos e algumas outras plantas da familia dos fungos, susceptivel de ser lacerada. Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo. A volva incompleta he a que somente cobre parte do individuo; daõ-lhe taõbem o nome de veo (velum); observa-se na face superior e inferior do umbraculo dos cogumelos, e continua athe ao espique, ao qual humas vezes se afferra, outras vezes somente se encosta sem contudo se apegar a elle. Quando depois de rota fica rodeando o espique em forma de calça, daõ-lhe o nome [Página 130] de annel (annulus), como se ve no agaricus campestris). A volva incompleta e o annel parecem merecer mais propriamente o nome de casyz do que a completa, que tem ordinariamente huma grande analogia com as cascas das sementes.
A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe. O annel diz-se; remoto (remotus se fica distante do umbraculo no tempo que este abrio; approximado (approximatus), se no dicto tempo jaz conchegado ao umbrgeulo; caduco (caducas) se cahe logo que a volva incompleta se rompe; persistente (persistens), quando rota a volva persiste aferrado ao espique. Elle se diz ainda; amarello, alvadio, &c. segundo as suas differentes cores.
O CALYZ (calyx), no maior numero de flores heo tegumento externo dos organos sexuaes, de cor verde ou menos corado do que a corolla (o jasmim, cravo, e goivo). Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.
Deraõ-lhe este nome por se assemelhar n'algumas flores a hum copo, como se vê nas labiadas, leguminosas e muitas outras.Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva. Antigamente so o primeiro tinha o nome de calyz, e com effeito os mais mereciaõ antes ser chamados calyces bastardos (calyces spurii).
Linneo admittio sette especies de calyz, a saber, [Página 120] perianthio, involûcro, casûlo, amentilho, espatha, trunfa, e volva.[Página 120]O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.) O perianthio pode ser taõbem contiguo a outro (como na malva), a huma corolla ou a muitas, como no gyrasol; quando elle recobre muitos flosculos, estes ou saõ rentes ou quasi rentes, Nas flores casulosas e amentilhosas o calyz ordinariamente naõ he circular; a estructura escamosa, paleacea e outras circumstancias relativas à sua forma poderaõ contribuir a destinguilo do perianthio. Os foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas . Nas flores compostas os foliolos saõ ordinariamente chamados escamas (squamae), principalmente se saõ imbricados, como nas perpetuas. Se na flor naõ ha perianthio, como na tulipa e açucena, daõ lhe o nome de nullo (nullum).
O PERIANTHIO (perianthium) he huma especie de calyz immediatamente contiguo à corolla ou aos organos sexuaes (o alecrim, cravo, arvore do paraiso, &c.)arvoreOs foliolos do perianthio quando muito so aturaõ athe à madureza do fructo, e isto poderà contribuir a fazelos destinguir das bracteas, que ordinariamente duraõ mais tempo, e as vezes mesmo se convertem em folhas .folhasDiz-se: perianthio da fructificaçaõ (perianthium fructificationis), quando
contem ou enserra os estames e o germe; nesta circumstancia sempre esta
immediatamente sottoposto ao germe (a sylva, peonia, morangueiro, masva,
jasmineiro craveiro, faveira, &e.) Perianthio da flor (perianthium
floris), se em si contem os estames sem germe Nota
Este calyz tem o seu ponto de apego sobre o germe ou fructo
tenrinho, no cazo que o haja; os calyces das flores masculas
aindaque naõ saõ apegados ao topo do germe (porque o naõ ha),
devem contudo ser considerados como perianthios da flor, por
conterem estames e naõ germe algum, como saõ os da amoreira,
mercurial, amaranthos, &c. Nota
O calyz neste cazo esta sottoposto ao germe; às vezes ha huma
corolla sobreposta ou outro calyz sobreposto ao germe, o que naõ
tem lugar no cazo do perianthio da fructificaçaõ, em que o germe
naõ fica situado immediatamente debaxo da corolla, nem entre o
calyz e corolla, como succede no prezente; no perianthio da
fructificaçaõ os estames naõ estaõ apegados ao germe, mas sim ao
receptaculo que Sostem a base do germe, ou ao dicto perianthio,
ou a huma corolla ou nectario que naõ tem o ponto de apego no
germe. Ha flores que tem o periantio do fructo diverso do da flor como a
Linnæa e Morina, ha outras que tem perianthio do fructo e naõ da
flor, como as femininas da aveleira, poterium, &c, outras
tem perianthio da flor e naõ do fructo, como a murta, romeira,
pereira, sorveira, &c, ha outras emfim que naõ tem
perianthio algum, aindaque tenhaõ hum receptaculo da flor, como
v.g. a hippuris, orchideas, valeriana, aristolochia, &c. Vej. Linn. Meth, Calyc.
Perianthio superior ou sobreposto (superum), he o que se acha posto sobre o germe ou tenrinho fructo, como o da romeira, pereira, e outros muitos perianthios da flor.
Perianthio inferior ou sottoposto (inferum), he o que cinge a base do germe ou tenrinho fructo, como saõ os perianthios da fructificaçaõ e do fructo.
Commum (commune) Nota
As vezes das lhe taõbem o nome de composto ou universal
(compositum, s. universale). Segundo Linneo este calyz pode ser dobrado como se vê no
micropus.
Parcial ou particular (proprium, S. partiale), he [Página 122] relativo a hum flosculo contido em hum perianthio, commum, ou a
qualquer flosculo congregado, rente ou quasi rente (a saudade, e
gyrasol) Nota
Ordinariamente este termo so se applica aos calyculos das
flores compostas e aggregadas. O perianthio parcial pode segundo
Linneo conter mais de huma flor, como se vẽ no sphaerantus, e
elephanthopus.
Calyculado (auctum, s. calyculatum), quando tem na sua base huma serie de
escamas ou foliolos curtos, differentes delle, e que constituem quasi
hum segundo calyz menor ou calyculo (calyculus) Nota
Da-se taõbem o
nome de calyculos a alguns perianthios parciaes, como aos da
saudade, pela razaõ de serem pequenos ou menores do que o
commum.
Unico (unicum), quando a flor tem hum so, como v. g. o alecrim: simplez (simplex) he unico, naõ calyculado, nem dobrado nem triplicado (sida). Este termo parece ser synonymo do precedente; Linneo contudo deo-lhe mais extensa significaçaõ, e o applicou ainda para denotar hum calyz quasi inteiro, de foliolos naõ imbricados, quasi do mesmo comprimento, ou adunados na base, como o da tagetes, bellis, e o calyz interior da crepis.
Dobrado ou triplicado (duplex, geminum, triplex), quando Nota
Estes
calyces saõ ordinariamente differentes no numero, e forma de suas
partes; encontraõ se tanto nas flores simplez, como nas compostas e
aggregadas; as vezes estaõ dois approximados, ou apegados hum ao
outro debaxo do germe, ou no topo outras vezes saõ remotos, estando
hum na base outro no topo do germe, outras vezes emfim hum commum na
base, e dois no topo do germe, como se podem observar na malva,
althaea, craniolaria, morina, linnaea, scabiosa, caryophyllus,
&c.
Caduco (caducum), se cahe logo que a flor desabotoa, como o da papoila, e epimedium.
Decadente ou simulcadente (deciduum), se cahe juntamente com a corolla, como o da uva espim, mostarda, e outras flores da Tetradynamia.
Persistente (persistens) se persiste athe à madureza do fructo, como o da salva, alecrim, e outras flores da Didynamia.
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitas escamas ou foliolos destinetos na base (a alface). Monophyllo (monophyllum), quando he de huma so peça ou inteiriço na base, ainda que seja partido ou fendido (a salva, romeira, pereira, pimentaõ, &c.); de dois foliolos (diphyllum) na papoila, celidonia e fumaria; de tres foliolos (triphyllum), na tradescantia e ranunculus ficaria; de quatro foliolos (tetraphylhum) na couve, e goiveiro; de cinco (pentaphyllum), no linho; elle diz-se ser ainda de seis, sette, oito, nove, dez foliolos, &c. (hexa- hepta- octo- ennea- decaphyllum, &c.)
Fendido (fissum), se he monophyllo, e rasgado athe ao meyo pouco mais ou menos, e as sinuosi dades entre os segmentos saõ lineares ou de igual largura; segundo o numero das lacinas diz-se ser: multifendido (multifidum), fendido em duas, tres, quatro, cinco lacinias, &c. (bi-tri-quadri-quinquefidum, &c.); se as lacinias saõ curtas ou marginaes, daõ-lhes. o nome de dentes, e se diz por conseguinte denteado (dentatum s. ferratum); segundo o numero destas curtas lacinias diz-se ser: denteado de muitos dentes (multidentatum), de dois, tres, quatro, cinco dentes, &c. (bi-tri-quadri-quinquedentatum, &c.)
[Página 124]Partido (partitum), he monophyllo e dividido athe abaxo do meyo ou quasi athe à base; segundo o numero das lacinias diz-se ser; multipartido (multipartitum), bipartido (bipartitum), tripartido (tripartitum), quadripartido (quadripartitum), partido em cinco, seis lacinias, &c. (quinque-sexpartitum, &c.)
Inteiro (integrum), he monophyllo sem ser fendido, nem partido em lacinias algumas.
Celheado (ciliatum), se os seus foliolos ou lacinias saõ celheadas Nota
As celhas rigorosamente saõ os pelos ou sedas que se achaõ no
fio marginal; mas aqui os botanicos comprehendem taõbem o
disco.
Tubuloso (tubulosum), se he roliço e occo (a neveda e hortelaan).
Infunado (inflatum), quando he concavo, e parece soprado como huma bexiga (a herva traqueira).
Levantado (erectum), se os seus foliolos ou lacinias saõ levantadas (jasmim).
Patente (patens), quando as suas lacinias ou foliolos saõ abertos largamente, ou formaõ com o pedunculo hum angulo obtuso pouco desviado do angulo recto.
Reflexo (reflexum), quando a extremidade dos seus foliolos ou lacinias se curvaõ hum tanto para traz, ou para baxo.
Igual (aequale), quando os seus foliolos, lacinias ou dentes saõ iguaes: desigual (inaequale); se elles saõ desiguaes (cistus).
Curto (abbreviatum), se he mais curto do que a corolla, ou do que o seu tubo, ou unhas das petalas: comprido (longum), se he mais comprido do que ella.
[Página 125]Globoso (globosum), se tem a forma globosa (a perpetua e bardana); aclavado (clavatum), quando se prolonga engrossando pouco a pouco, e reprezenta a forma de huma massa (silene).
Troncado (truncatum), se ne sua parte superior parece como decotado: obtuso (obtusum), se os seus foliosos ou segmentos saõ obtusos; agudo (acutum), se elles saõ agudos; as vezes diz-se taõbem agudo ou obtuso na base.
Espinhoso (spinosum), se tem espinhos (a calcitrapa, e cardo sancto); aculeado (aculeatum), se tem aculeos (a bringela).
Imbricado (imbricatum), se consta de foliolos ou escamas imbricadas (o gyrasol, milfolha, e alface).
Esquarroso (sguarrosum), se tem foliolos ou escamas imbricadas, desviadas, e abertas entre si principalmente nas pontas (conyza squarrosa)
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).
Escarioso (scariosum), se tem foliolos ou escamas membranosas na margem, aridas, e sonoras quando às tocamos com a unha (a perpetua, e jacéa).membranosasTurbinado (turbinatum), se he verticalmente conico tendo a forma de hum piaõ bailando (moluccella)
Involucro (involucrum), he huma especie de calyz remoto da flor Nota
He
hum calyz bastardo, proprio naõ so das flores umbrelladas mas de
muitas outras; naõ se rasga ao alto como as espathas, e o estar mais
ou menos distante da flor contribue a fazelo distinguir das outras
especies de calyz; ordinariamente parece ser hum composto de
bracteas.
Diz-se ser; universal (universale), se esta situado na, base dos rayos de huma umbrella univeroal (a cenoira, bisnaga, e cardo, corredor): parcial (partiale), [Página 126] quando acompanha a base dos rayos de huma umbrella parcial (salsa, coentro, cerofolho); chamaõ-lhe: involucello (involucellum), ou pequeno involucro parcial, se tem poucos foliolos curtos, como nas euphorbias e buplevrum; proprio (proprium), se acompanha o pedunculo da flor de huma umbrella parcial, ou ainda o de huma so flor, como na pulsatilla.
[Página 126]Semicircular (dimidiatum), se acompanha somente metade do topo do pedunculo que sostem a umbrella, faltando na outra metade (o coentro, e aethusa).
Polyphyllo (polyphyllum), se consta de muitos foliolos, como na canafrecha, e peucedarium; momophyllo (monophyllum), se consta de hum so foliolo, he inteiriço na base, e acompanha o pedunculo circularmente (a pulsatilla); de dois, tres, quatro, cinco, seis foliolos, &c. (di-tri-tetra-penta-hexaphyllum, etc.) como se ve nas euphorbias e umbrelladas.
Casulo (gluma), he huma especie de calyz Nota
O nome de casûlo he taõbem
dado a corolla das gramas; mas aqui so se deve entender o casulo
externo, porque do interno fallarei quando tractar da corolla.
Alguns para os distinguir chamaõ-lhes casulo calycino, casulo
corollino; talvez melhor fora dar somente ao calyz o nome de
casulo.
As escamas ou folhiços paleaceos, de que consta o casûlo, saõ chamados
valvulas (valvulae, s. valvae); ellas saõ de varia forma e estructura,
planas, concavas, aquilhadas, assoveladas, iguaes, desiguaes, &c. O
casûlo, em razaõ do numero das valvulas de que he composto, diz-se ser:
univalve (alvis), se [Página 127] consta de huma so (o joyo); bivalve,(bivalvis), se consta de duas (o
trigo e milho): trivalve (trivalvis), se consta de tres (o escalracho,
milhaan, e milho painço); multivalve (multivalvis), se consta, de muitas
valvulas ou mais de trez (a uniola, as maçarocas de milho Nota
Linneo chama folhas ás
valvulas destas maçarocas, mas a sua estructura, e modo de
envolver as fores me fazem decidir a consideralas como hum
casulo commum multivalve.
Unifloro (uniflora), se inclue somente hum flosculo como o milho painço, a alpista, e milho ordinario: biflora (biflora), se contem duas flores (a avea, e aira) trifloro (triflora), se contem tres flores (algumas especies de trago) multifloro (multiflora), se contem muitos flosculos, ou mais de tres (o joyo, e bolebole).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).
Corado (colorata), se a sua cor he differente da verde das folhas (melica papilionacea, briza eragrostis).folhasGlabro (glabra), se naõ tem pelos, nem celhas, nem sedas algumas: peludo, lanudo, felpudo, celheado e hispido, se as suas valvulas constaõ de producçoẽs proprias a merecer estas denominaçoẽs (vej. o § Do trichismo e hispidez).
Aristado (aristata), se as suas valvulas tem praganas (o trigo tremez): desaristado (mutica), se ellas saõ destituidas, de praganas (o escalracho, e milho).
A pragana (arista), he hum fio mais ou menos comprido, hum tanto rijo, e apegado a alguma das valvulas do casulo calycino ou corollino das gramas. Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).
Diz-se ser: terminal (terminalis), quando tem o seu ponto de apego na ponta das valvulas: dorsal [Página 128] (dorsalis), se he apegada ao dorso da valvula, isto he, à sua parte externa e convexa: direita (recta), se naõ tem tortuosidade, nem curvatura alguma: recurvada (recurvata), se acaso se dobra em arco para fora retorcida: (tortilis) quando na sua base he torcida como huma corda, de que temos exemplo na avea, balanco, &c: articulada ou geniculada (articulata, s. geniculata), se tem alguma articulaçaõ ou nó (stipa).dorsal[Página 128]Amentilho (amentum), segundo Linneo he hum calyz formado do receptaculo
commum ou carolim filiforme, guarnecido de escamas paleaceas, e originario
de hum gomo. Eu ja fallei do amentilho como huma especie de espiga Nota
O amentilho rigorosamente he huma especie de espiga simplez,
que consta de flores unisexuaes; o nome de calyz sò pode competir às
suas escamas, mas algumas vezes o amentilho he nu e sem escamas, e
neste cazo seremos obrigados a chamar calyz a hum receptaculo, o que
me parece assaz improprio, a naõ querer chamar amentilho somente às
escamas do gomo.
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).
Espatha (spatha), he huma especie de calyz que se rasga ao alto indeterminadamente; de ordinario he membranosa , rugoza, arida, e contem flores pedunculadas, ou flores espadiceas, ou ainda mesmo huma so corolla de tubo longo, (a cebola, alho narcizo, pè de bezerro, açafraõ, e palmeiras).membranosaHe univalve ou monophylla (univalvis, s. monophylla), quando consta de huma so peça que se raaga de ilharga (o narcizo, e pe de bezerro): bivalve ou diphylla (bivalvis, s. diphylla), quando he rasgada em duas partes ou em dois foliolos (as palmeiras): Mediada (dimidiata), se he monophylla, aberta e concava, como a metade de hum ovo cortado ao [Página 129] alto, e guarnece a fructificaçaõ somente com a parte inferior: imbricada (imbricata), como nas bananeiras.
[Página 129] Trunfa (calyptra), he huma especie de calyz membranoso ,
acapellado, posto immediatamente sobre a fructificaçaõ dos musgos
chamada anthera, urna, ou capsula (o polytrichum, e bryum) Nota
Hedwigio e alguns outros Botanicos, que seguem que a corolla he o
tegumento immediato dos organos sexuaes, consideraõ a trunfa dos
musgos como huma corolla, e so daõ o nome de calyz ao
perichecio.
Volva (volva), he huma membrana que cobre os cogumelos e algumas outras plantas da familia dos fungos, susceptivel de ser lacerada. Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo. A volva incompleta he a que somente cobre parte do individuo; daõ-lhe taõbem o nome de veo (velum); observa-se na face superior e inferior do umbraculo dos cogumelos, e continua athe ao espique, ao qual humas vezes se afferra, outras vezes somente se encosta sem contudo se apegar a elle. Quando depois de rota fica rodeando o espique em forma de calça, daõ-lhe o nome [Página 130] de annel (annulus), como se ve no agaricus campestris). A volva incompleta e o annel parecem merecer mais propriamente o nome de casyz do que a completa, que tem ordinariamente huma grande analogia com as cascas das sementes.
Pode ser considerada, ou como completa, ou como incompleta; a completa he a que cobre, e envolve como huma bolsa todo o corpo tenro dos fungos; ella se rompe em pedaços pela parte de cima, quando o individuo se acha assaz vigoroso para sahir á luz e entrar no seu forte crescimento, ficando quasi toda apegada a sua raiz ou à base do espique, e alguns restos ao umbraculo.raiz[Página 130]A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe. O annel diz-se; remoto (remotus se fica distante do umbraculo no tempo que este abrio; approximado (approximatus), se no dicto tempo jaz conchegado ao umbrgeulo; caduco (caducas) se cahe logo que a volva incompleta se rompe; persistente (persistens), quando rota a volva persiste aferrado ao espique. Elle se diz ainda; amarello, alvadio, &c. segundo as suas differentes cores.
A volva em geral diz-se: grossa (crassa), se he hum pouco polposa; delgada (tenuis), se acazo se assemelha a hum papel fino; tearanhea (araneosa), se he fina e se assemelha no seu tecido a huma tea de aranha; radical (radicalis), quando esta situada junto da raiz , ou parece ser huma continuaçaõ da cute da raiz ; multipartida (multipartita), se acazo se rasga em muitos segmentos, ordinariamente he radical; patente (patens), se he multipartida e os seus segmentos saõ muito abertos; nulla (nulla) se naõ existe.raizraizA corolla (corolla), he hum tegumento dos organos sexuaes da flor immediatamente contiguo a elles, e de ordinario mais corado e mais delicado [Página 131] do que o calyz; tal he por ex. a do jasmim, açucena, rosa, cravo, &c.
Quando a flor naõ tem corolla diz,se despetaleada ou descorollada, como já expuz, e nesta circumstancia a corolla he denominada nulla (nulla); como v. g. nas flores femininas dos carvalhos e aveleiras.
1º Quanto à divisaõ:
A corolla ou he de huma so pera e inteiriça na base, ou consta de duas ou
mais peças assaz destinctas na base; no primeiro cazo dizse: monopétala
(monopetala), e no pegundo petaleada ou polypétala (polypetala) Nota
Este
termo da-se taõbem ás corollas, que tem hum grande numero de petalas,
como as do golfaõ, cactus, &c.
Na corolla monopetala em geral podem se considerar duas partes, a superior chamada orla (limbus) e a inferior, pela qual ella se apega, denominada base (basis); esta parte inferior muitas vezes he cylindrica, e nesta circumstancia daõ-lhe o nome de tubo (tubus), como se vè no alecrim, jasmineiro e colchico. A orla humas vezes he inteira, outras vezes he fendida ou partida, e neste segundo cazo os segmentos saõ chamados lacinias (laciniae), como no jasmim, congossa, borragem, &c.
As peças ou foliolos còrados de que consta a corolla petaleada saõ chamados petalas (petala); em cada huma destas pode se em geral suppor duas partes, a superior larga, aberta e dilatada tem o nome de lamina (lamina), e a inferior estreita, e aguda [Página 132] na extremidade he chamada unha da petala (unguis) como saõ as que se vem nas petalas do cravo, goivo, &c.; as vezes a unha da petala he curtissima como nas rozas e rainunculos; outras vezes observa-selhes huma base larga, que mal merece o nome de unha, e porisso alguns lhes chamaõ petalas rentes (sessilia).
A corolla petaleada, segundo o numero das suas petalas, diz-se ser: de duas, trez, quatro, cinco, seis, sette, oito, nove, dez, ou muitas petalas (di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- octo- ennea- deca- polypetala.)
Na familia das gramineas a corolla, ou casulo corollino em lugar de petalas diz se ter valvulas (valvulae), que saõ certas escamas paleaceas, concavas, approximadas immediatamente ao germe, como se ve no trigo, e centeyo. Ordinariamente saõ duas, e as vezes persistem e ficaõ servindo de casca à semente, como se vè na cevada.
Fendida (fissa), quando he rasgada em lacinias athe ao meyo ou menos (o
quejadilho) Nota
Se he monopetala; na petaleada as petalas podem se
dizer fendidas ou partidas na mesma accepçaõ, que tem estes termos
relativamente as corollas monopetalas.
Partida (partita), quando he rasgada em lacinias athe abaxo do meyo ou quasi athe à base (a semprenoiva, e borragem); diz-se partida em muitas lacinias (multipartita), bipartida, tripartida, quadripartida, &c. (bi-tri-quadripartita, &c.).
[Página 133]2º. Quanto à direcaõ diz-se ser:
Levantada (erecta), quando tem as suas petalas, valvulas, ou lacinias levantadas, isto he, formando hum angulo agudissimo com o estylete supposto prosongado rectamente (o colchico, e cevada.)
Patente (patens), se as suas petalas, valvulas, ou lacinias formaõ hum angulo quasi recto com o estylete supposto prolongado no centro rectamente (a papoila); patentissima (patentissima), se ellas formaõ hum angulo recto com o estylete.
Plana (plana), quando as suas petalas ou lacinìas saõ planas, e nella naõ
ha tubo Nota
Quando ha tubo, este termo e o de patente devem ser applicados á
orla ou suas lacinias.
Concava (concava), quando tem a sua orla concava.
Recurvada (reflexa, recurva), as suas petalas ou lacinias tem a ponta curvada para traz ou para fora (o espargo); revolutosa (revoluta), he hum grao de mais, tem as petalas ou lacinias recurvadas, e quasi enroladas (algumas especies de lilium).
Incurvada (incurva, s. inflexa), as suas petalas ou lacinias tem as pontas curvadas para dentro, isto he, para a banda do centro da flor (o funcho).
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)
[Página 134]3º Quanto ao ponto de apego.
A corolla ou he apegada ao calyz (calyci inserta), como na roseira e romeira, ou ao receptaculo (recentaculo inserta), como na papoila, cravo e rainunculo.
Sottoposta ou inferior (infera), quando se acha posta debaxo do germe, como na açucena, e cebola: sobreposta ou superior (supera), se esta apegada á parte superior do germe, como no narcizo.
Innata ao calyz (calyci adnata), se està pela sua face inferior intimamente adunada ao calya (a abobara, pepino, e outras cucurbitaceas.)
4º. Quanto à superficie, e margem diz-se ser:
Lanuda (lanata), se tem lanugem (hyacinthus lanatus).
Felpuda (villosa), se tem felpa (menyanthes).
Barbuda ou hirsurta (barbata, s. hirsurta), como no, hypericum bacciferum.
Celheada (ciliata), na arruda, e chagueira.
Glabra (glabra), se naõ tem pelos alguns (narcizo).
Denticulada de dois, tres, quatro, cinco dentes, (bi-tri-quadri-quinquedentata), como saõ as corollulas das flores compostas, v. g. as da alface, bonina, macella, gyrasol, &c.
Crenada ou crenulada (crenata, s crenulata), se tem na margem crenas ou crenulas Nota
As crenas da corolla saõ
segundo a accepçaõ ordinaria as suas chanfraduras obtusas entre
as lacinulas marginaes; mas por evitar equivocaçoẽs he melhor
seguir o parecer de M. de la Mark, e de outros modernos que as
tomaõ por lacinias marginaes embotadas, para as destinguir dos
denticulos que saõ agudos.
4º Quanto à proporçaõ entre as suas partes, diz-se ser:
Igual (aequalis), quando as petalas, ou lacinias (se he monopetala), saõ todas de igual grandeza e tem todas a mesma figura, como saõ as cruciformes, roseira, pereira, jasmineiro, borragem, quepadilho, consolda maior, &c.
Desigual (inaequalis), quando as suas petalas ou lacinias (se he monopetala) tem todas a mesma figura, mas differem na grandeza, ou comprimento (o butomus, o epilobium angustifolium, e latifolium, e as corollas que se achaõ no rayo da umbrella do coentro.)
Regular (regularis), no sentido em que este termo se toma ordinariamente,
huma corolla regular he a mesma coiza que huma corolla igual Nota
Podéra-se contudo fazer huma distinçaõ entre a regular, e
igual, dizendo que na corolla regular as petalas ou lacinias tem
todas a mesma figura, quer sejaõ iguaes na grandeza quer desiguaes,
e deste modo huma corolla poderia ter petalas ou lacinias desiguaes,
e nem porisso deixar de ser regular, como o butomus, e epilobium
latifolium; todas as corollas iguaes seriaõ regulares mais nem todas
as regulares seriaõ iguaes; Alguns Botanicos admittem so duas sortes
de corollas, regulares e irregulares: elle suppoem hum axe ou arame
recto posto no centro, e prolongado desde a base ou apego da corolla
athe a extremidade das petalas, lacinias ou orla; se todos os cortes
transversaes, que se poderem fazer desde a base athe ao topo de
dicto axe, derem circularmente segmentos iguaes no comprimento ou se
a orla da corolla monopetala naõ for dimidiada nem claudicar de hum
lado, a corolla he regular e Irregular no sentido contrario;
partindo desta supposiçaõ poem no numero das corollas regulares a
afunilada, asalveada, cyathiforme campanulada, globosa, oval,
arrosetada, cravinosa, cruciforme, rosacea, e malvacea, e entre as
irregulares a labiada, borboleta, a das orchideas, as que tem
nectarios esporaûdos e acapellados, e as do Acanthus, Teucrium,
Ajuga, Echium, Aristolochia, &c.
Irregular (irregularis), se as suas petalas, labios, ou lacinias saõ de differente forma e juntamente de diversa grandeza (o geranium papilionaceum, o amor perfeito, aconito, salva, orchideas, labiadas, e leguminosas.
A corolla he taõbem comparada com o calyz, e na falta deste com o pistillo ou estames, e se diz ser: curta, mediocre, comprida, pequena, grande, &c; mas por evitar equivocaçoẽs, o melhor será declarar sempre as partes comparadas, e dizer v. g.: corolla mais comprida do que o calyz, igual ao calyz, mais curta do que o calyz, mais comprida do que os estames, &c.
5º. Quanto à forma a corolla diz-se ser:
Rodada ou arosettada (rotata), figura quasi huma roda ou rosetta de espora; he monopetala, sem tubo notavel, partida em lacinias planas, e muito abertas (a borragem, morriaõ, e verbasco).
Campanulada ou acampainhada (campanulata, seu campaniformis) he petaleada ou monopetala, bojuda, sem tubo, e assemelhada a huma campainha [Página 137] ou choca (a tulipa, verdeselha, campanula, e abobara.)
Afunilada (infundibuliformis), assemelha-se a hum funil; a sua orla tem huma forma turbinada, e termina em hum tubo (a ipomaea, a mirabilis, e herva sancta.)
Cyathiforme (cyathiformis), parece assemelharse a hum copo de calyz; tem hum tubo cylindrico, a orla concava e hum tanto dilatada; taes saõ segundo alguns Botanicos as corollas da buglossa, cerinthe consolda maior, cynoglossa, quejadilho, pulmonaria, &c; mas Linneo reduz estas sortes de corollas ào afuniladas, e às vezes às campanuladas.
Asalveada (hypocrateriformis), assemelha-se de algum modo às nossas antigas salvas de prata; he monopetala, tem hum tubo cylindrico, e a orla plana e muito aberta (o jasmim, e congossa).
Labiada (ringens,
rictiformis, labiata), he monopetala tubulosa, e tem a orla dividida em
dois labios Nota
As vezes tem hum sò labio, como no Acanthus, Teucrium
e Ajuga, e nesta circumstancia he chamada unilabiada
(unilabiata.)Nota
A fauce ou garganta da
corolla he taõbem propria do qualquer corolla tubulosa, ou he o
orificio de hum tubo mais ou menos longo. As vezes diz se ser:
aberta (nuda, aperta, pervia), se naõ tem escamas nem pelos (como na
pulmonaria); fechada (clausa, s. tecta), se he tapada com pelos ou
escamas (como na buglossa, e cynoglossa): coroada (coronata), se tem
alguns rayos, denticulos, ou corpusculos (como na borragem, e
symphytum.)Nota
O collo he proprio taõbem de muitas outras corollas, que naõ saõ labiadas ,
como por ex. da do quejadilho, congossa, &c. Nota
O palato parece sò ser
proprio das corollas mascarinas.Nota
O esporaõ acha se taõbem em outras especies de corollas
como se vè nas esporas, e ainda mesmo no calyz, como nas chagas:
algumas corollas em lugar de esporaõ tem huma especie de capello ou
sacco (cucullus, s. saccus), como a impatiens, e alguns generos das
orchideas.
Rosacea (rosacea), tem cinco petalas regulares concavas, com unhas curtissimas apegadas ao calyz (as roseiras bravas, pereira, e sylva).
Malvacea (malvacea), tem cinco petalas cordiformes com as unhas adunadas (a malva, althea, & outras malvaceas.)
Liliacea (liliacea), tem seis petalas regulares, como a tulipa, açucena, coroa imperial, e outras plantas liliaceas.
Cravinosa (carvophillata), tem cinco petalas regulares, unguiculadas, e as vezes apegadas junto da base (as cravinas, murujem, herva traqueira, &c.) O germe nas flores que tem esta corolla vem a ser huma capsula.
Cruciforme (cruciata, s. cruciformis), tem quatro petalas regulares, unguiculadas, com as laminas patentes, e dispostas em cruz (a couve, goiveiro, e nabo).
Papilionacea ou borboleta (papilionacea), foy assim chamada pela compararem a
huma borboleta voando, he irregular, e consta de quatro petalas
unguiculadas, a superior he chamada estendarte (vexillum e està mais ou
menos levantada, estendida, e encostada anteriormente às outras tres Nota
He raro que huma corolla borboleta tenha mais, ou menos de quatro
petalas; contudo na amorpha aeha,se somente o estendarde e na olaya a
navetta he de duas petalas, o que he rarissimo, porque quando muito em
outras leguminosas so he bifendida ou bipartida.
Gomilosa (urceolata), tem a forma oval ou quasi oval, de modo que se assemelha quasi a huma jarra ou gomil; he bojuda no meyo, e se estreita depois na parte superior e inferior (a basella, e hyacinthus muscari).
Globosa (globosa), tem huma forma quasi espherica (o lirio dos valles, e a escrophularia).
6º. Quanto à composiçaõ diz-se ser:
Simplez (simplea), se pertence a huma flor simplez. A flor simplez (flos simplex), he rigorosamente a que dentro de hum calyz naõ contem muitos flos culos (o meimendro, a salva, e o jasmim). Os floristas chamaõ flor simplez ou singella à que tem sò huma ordem de petalas, e a oppoem à dobrada e polypetala, mas os Botanicos so chamaõ flor simplez aquella, cujo calyz, corolla ou receptaculo naõ saõ communs a muitos flosculos, e Linneo a oppoem à flor composta, aggregada, umbrellada, cymosa, amentilhosa, casulosa, e espadicea.
Corolla composta (composita), he a totalidade das corolullas de muitos
flosculos contidos dentro, de hum perianthio commum, rentes, e com antheras adunadas Nota
Linneo assigna taõbem huma corolla composta às especies de
betula, aindaque os seus flosculos naõ tenhaõ antheras adunadas, mas o termo composta he pouco usado em botanica nesta
extensa accepçaõ.
Corolla universal (universalis), he a totalidade das corollulas de
muitos flosculos relativos a huma umbrella universal (o coentro, salsa,
canabraz, e canafrecha Nota
Linneo da taõbem adequadamente o nome de corolla universal à
totalidade de algumas flores aggregadas, como às da scabiosa,
globularia, &c.
Corolla propria ou parcial (propria, s. partialis), he a que merece propriamente o nome de corolla, e pertence a cada hum dos flosculos da corolla composta ou da universal: daõ-lhe taõbem o nome de corollula ou de pequena corolla (corollula), principalmente quando he relativa a huma corolla composta.
A corolla composta e a universal constaõ de disco e de rayo; o disco (discus), he todo o espaço que vay desde o rayo exclusivamente athe ao centro; o rayo (radius), na corolla composta, he a sua parte mais externa immediata aos foliolos, escamas, ou lacinias do perianthio commum; na corolla universal das umbrelladas o rayo he a ultima ordem dos flosculos, que se achaõ na circumferencia da umbrella universal (o gyrasol, bonina, perpetua, salsa, e coentro).
Corollula ligulosa, ou corolla propria aligulada (p. ligulata), he a que
pertence a hum flosculo da flor composta Nota
Tournefort chamava flosculo (flosculus) ao que Linneo chama
corollula tubulosa, e semiflosculo (semiflosculus) ao que elle
chama corollula ligulosa; a opiniaõ de Linneo parece me ser a
mais acertada, porquanto o nome de flosculo convem naõ so aos
semiflosculos de Tournefort, mais ainda a qualquer pequena flor
congregada em hum receptaculo commum.
Corollula tubulosa, ou corolla propria tubulosa (p. tubulata, s. tubulosa), tem na parte inferior hum tubo, e a sua orla he campanulada, e terminada em cinco denticulos ou cinco lacinulas; estas corollulas algumas vezes saõ afuniladas, e outras vezes as suas lacinulas saõ desiguaes. As corollulas tubulosas achaõ-se na maior parte das flores da classe Syngenesia, e se podem observar nas da macella gallega, losna, gyrasol e perpetua.
Corolla composta ligulosa (c. ligulata) Nota
Semiflosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta tubulosa (c. tubulosa, s. discoidea) Nota
Flosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta radiada (c. radiata), quando as corollulas do rayo saõ ligulosas, e as do disco tubulosas (o gyrasol e bonina). Esta sorte de corolla he irregular, ou difforme; o termo de difforme [Página 143] contudo da-se taõbem ás corollas compostas tubulosas da centaurea, por terem no rayo flosculos com corollulas de forma differente.
Corolla universal radiada (un. radiata), quando as petalas externas dos floculos do rayo da umbrella universal differem das internas, e das mais dos flosculos do disco, sendo mais alongadas (o coentro, e canabraz). Estas corollas saõ taõbem chamadas difformes (difformes).
Corolla composta uniforme (c. uniformis), os seus flosculos tem todos corollulas da mesma forma, e proporçaõ, sendo ou todas tubulosas, ou todas ligulosas (a macella gallega, e a alface).
Corolla universal uniforme (un. uniformis), todos os seus flosculos tanto do disco como do rayo tem petalas da mesma forma e proporçaõ (a salsa, e funcho).
7º Quanto à duraçaõ a corolla diz-se ser:
Murchosa (marcescens), quando se murcha, engilha, e fica depois da florecencia, durante algum tempo, apegada ao fructo (as campanulas, orchideas, e algumas cucurbitaceas.)
Caduca (cuduca), se cahe pouco tempo depois da flor ter desabotoado, ou antes dos estames cahirem e da fecundaçaõ estar completa (videira, actaea, thalictrum).
Decadente (decidua), se cahe juntamente com os organos sexuaes, ou logo depois da fecundaçaõ (a papoila, tulipa, e a maior parte das flores).
Persistente (persistens), se dura e acompanha o fructo athe à sua madureza (o golfam, e helleborus).
[Página 144]8º. Quanto à cor.
A cor das corollas he ordinariamente desprezada pelos Botanicos modernos Nota
O Lord Bute no seu tractado dos generos das plantas da Gr.
Bretanha, que hà pouco publicou, pertende que as flores saõ menos
sujeitas a variar do que Linneo pensava, e que na realidade ha
muitas que jamais variaõ, principalmente às brancas e amarellas de
certas especies. Com effeito alguns Botanicos sexualistas servem-se
destas duas cores para distribuirem as especies dos generos de
anthemis e achillea; e Linneo mesmo naõ põde evitar de empregar as
cores nos destinctivos especificos de algumas cryptogamicas, como
nos agaricos, lichens, &c.
N. B. As flores participaõ de hum grande numero de denominaçoẽs proprias
das corollas, sendo, ordinario achalas decriptas nos autores com os
nomes de flores Nota
As flores radiadas, ligulosas, e tubulosas saõ as
que tem a corolla composta radiada, ligulosa, tubulosa.Nota
Os nossos floristas daõ o nome de flores borboletas a algumas
especies de ranunculus, mas segundo os Botanicos este nome so
compete as que tem huma corolla papilionacea, como a fava, ervilha,
&c.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Pistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
A corolla (corolla), he hum tegumento dos organos sexuaes da flor immediatamente contiguo a elles, e de ordinario mais corado e mais delicado [Página 131] do que o calyz; tal he por ex. a do jasmim, açucena, rosa, cravo, &c.
[Página 131]Quando a flor naõ tem corolla diz,se despetaleada ou descorollada, como já expuz, e nesta circumstancia a corolla he denominada nulla (nulla); como v. g. nas flores femininas dos carvalhos e aveleiras.
1º Quanto à divisaõ:
A corolla ou he de huma so pera e inteiriça na base, ou consta de duas ou
mais peças assaz destinctas na base; no primeiro cazo dizse: monopétala
(monopetala), e no pegundo petaleada ou polypétala (polypetala) Nota
Este
termo da-se taõbem ás corollas, que tem hum grande numero de petalas,
como as do golfaõ, cactus, &c.
Na corolla monopetala em geral podem se considerar duas partes, a superior chamada orla (limbus) e a inferior, pela qual ella se apega, denominada base (basis); esta parte inferior muitas vezes he cylindrica, e nesta circumstancia daõ-lhe o nome de tubo (tubus), como se vè no alecrim, jasmineiro e colchico. A orla humas vezes he inteira, outras vezes he fendida ou partida, e neste segundo cazo os segmentos saõ chamados lacinias (laciniae), como no jasmim, congossa, borragem, &c.
As peças ou foliolos còrados de que consta a corolla petaleada saõ chamados petalas (petala); em cada huma destas pode se em geral suppor duas partes, a superior larga, aberta e dilatada tem o nome de lamina (lamina), e a inferior estreita, e aguda [Página 132] na extremidade he chamada unha da petala (unguis) como saõ as que se vem nas petalas do cravo, goivo, &c.; as vezes a unha da petala he curtissima como nas rozas e rainunculos; outras vezes observa-selhes huma base larga, que mal merece o nome de unha, e porisso alguns lhes chamaõ petalas rentes (sessilia).
[Página 132]A corolla petaleada, segundo o numero das suas petalas, diz-se ser: de duas, trez, quatro, cinco, seis, sette, oito, nove, dez, ou muitas petalas (di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- octo- ennea- deca- polypetala.)
Na familia das gramineas a corolla, ou casulo corollino em lugar de petalas diz se ter valvulas (valvulae), que saõ certas escamas paleaceas, concavas, approximadas immediatamente ao germe, como se ve no trigo, e centeyo. Ordinariamente saõ duas, e as vezes persistem e ficaõ servindo de casca à semente, como se vè na cevada.
Fendida (fissa), quando he rasgada em lacinias athe ao meyo ou menos (o
quejadilho) Nota
Se he monopetala; na petaleada as petalas podem se
dizer fendidas ou partidas na mesma accepçaõ, que tem estes termos
relativamente as corollas monopetalas.
Partida (partita), quando he rasgada em lacinias athe abaxo do meyo ou quasi athe à base (a semprenoiva, e borragem); diz-se partida em muitas lacinias (multipartita), bipartida, tripartida, quadripartida, &c. (bi-tri-quadripartita, &c.).
[Página 133]2º. Quanto à direcaõ diz-se ser:
Levantada (erecta), quando tem as suas petalas, valvulas, ou lacinias levantadas, isto he, formando hum angulo agudissimo com o estylete supposto prosongado rectamente (o colchico, e cevada.)
Patente (patens), se as suas petalas, valvulas, ou lacinias formaõ hum angulo quasi recto com o estylete supposto prolongado no centro rectamente (a papoila); patentissima (patentissima), se ellas formaõ hum angulo recto com o estylete.
Plana (plana), quando as suas petalas ou lacinìas saõ planas, e nella naõ
ha tubo Nota
Quando ha tubo, este termo e o de patente devem ser applicados á
orla ou suas lacinias.
Concava (concava), quando tem a sua orla concava.
Recurvada (reflexa, recurva), as suas petalas ou lacinias tem a ponta curvada para traz ou para fora (o espargo); revolutosa (revoluta), he hum grao de mais, tem as petalas ou lacinias recurvadas, e quasi enroladas (algumas especies de lilium).
Incurvada (incurva, s. inflexa), as suas petalas ou lacinias tem as pontas curvadas para dentro, isto he, para a banda do centro da flor (o funcho).
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)
Resupinada ou revirada (resupinata), he labiada ou quasi labiada , e os seus labios estaõ postos às vessas, de modo que o inferior se acha no lugar onde devera estar o superior, e vice versâ, (o manjericaõ, alfazema, e rosmaninho.)labiadalabiada[Página 134]3º Quanto ao ponto de apego.
A corolla ou he apegada ao calyz (calyci inserta), como na roseira e romeira, ou ao receptaculo (recentaculo inserta), como na papoila, cravo e rainunculo.
Sottoposta ou inferior (infera), quando se acha posta debaxo do germe, como na açucena, e cebola: sobreposta ou superior (supera), se esta apegada á parte superior do germe, como no narcizo.
Innata ao calyz (calyci adnata), se està pela sua face inferior intimamente adunada ao calya (a abobara, pepino, e outras cucurbitaceas.)
4º. Quanto à superficie, e margem diz-se ser:
Lanuda (lanata), se tem lanugem (hyacinthus lanatus).
Felpuda (villosa), se tem felpa (menyanthes).
Barbuda ou hirsurta (barbata, s. hirsurta), como no, hypericum bacciferum.
Celheada (ciliata), na arruda, e chagueira.
Glabra (glabra), se naõ tem pelos alguns (narcizo).
Denticulada de dois, tres, quatro, cinco dentes, (bi-tri-quadri-quinquedentata), como saõ as corollulas das flores compostas, v. g. as da alface, bonina, macella, gyrasol, &c.
corollulasCrenada ou crenulada (crenata, s crenulata), se tem na margem crenas ou crenulas Nota
As crenas da corolla saõ
segundo a accepçaõ ordinaria as suas chanfraduras obtusas entre
as lacinulas marginaes; mas por evitar equivocaçoẽs he melhor
seguir o parecer de M. de la Mark, e de outros modernos que as
tomaõ por lacinias marginaes embotadas, para as destinguir dos
denticulos que saõ agudos.
4º Quanto à proporçaõ entre as suas partes, diz-se ser:
Igual (aequalis), quando as petalas, ou lacinias (se he monopetala), saõ todas de igual grandeza e tem todas a mesma figura, como saõ as cruciformes, roseira, pereira, jasmineiro, borragem, quepadilho, consolda maior, &c.
Desigual (inaequalis), quando as suas petalas ou lacinias (se he monopetala) tem todas a mesma figura, mas differem na grandeza, ou comprimento (o butomus, o epilobium angustifolium, e latifolium, e as corollas que se achaõ no rayo da umbrella do coentro.)
Regular (regularis), no sentido em que este termo se toma ordinariamente,
huma corolla regular he a mesma coiza que huma corolla igual Nota
Podéra-se contudo fazer huma distinçaõ entre a regular, e
igual, dizendo que na corolla regular as petalas ou lacinias tem
todas a mesma figura, quer sejaõ iguaes na grandeza quer desiguaes,
e deste modo huma corolla poderia ter petalas ou lacinias desiguaes,
e nem porisso deixar de ser regular, como o butomus, e epilobium
latifolium; todas as corollas iguaes seriaõ regulares mais nem todas
as regulares seriaõ iguaes; Alguns Botanicos admittem so duas sortes
de corollas, regulares e irregulares: elle suppoem hum axe ou arame
recto posto no centro, e prolongado desde a base ou apego da corolla
athe a extremidade das petalas, lacinias ou orla; se todos os cortes
transversaes, que se poderem fazer desde a base athe ao topo de
dicto axe, derem circularmente segmentos iguaes no comprimento ou se
a orla da corolla monopetala naõ for dimidiada nem claudicar de hum
lado, a corolla he regular e Irregular no sentido contrario;
partindo desta supposiçaõ poem no numero das corollas regulares a
afunilada, asalveada, cyathiforme campanulada, globosa, oval,
arrosetada, cravinosa, cruciforme, rosacea, e malvacea, e entre as
irregulares a labiada, borboleta, a das orchideas, as que tem
nectarios esporaûdos e acapellados, e as do Acanthus, Teucrium,
Ajuga, Echium, Aristolochia, &c.
Irregular (irregularis), se as suas petalas, labios, ou lacinias saõ de differente forma e juntamente de diversa grandeza (o geranium papilionaceum, o amor perfeito, aconito, salva, orchideas, labiadas, e leguminosas.
A corolla he taõbem comparada com o calyz, e na falta deste com o pistillo ou estames, e se diz ser: curta, mediocre, comprida, pequena, grande, &c; mas por evitar equivocaçoẽs, o melhor será declarar sempre as partes comparadas, e dizer v. g.: corolla mais comprida do que o calyz, igual ao calyz, mais curta do que o calyz, mais comprida do que os estames, &c.
5º. Quanto à forma a corolla diz-se ser:
Rodada ou arosettada (rotata), figura quasi huma roda ou rosetta de espora; he monopetala, sem tubo notavel, partida em lacinias planas, e muito abertas (a borragem, morriaõ, e verbasco).
Campanulada ou acampainhada (campanulata, seu campaniformis) he petaleada ou monopetala, bojuda, sem tubo, e assemelhada a huma campainha [Página 137] ou choca (a tulipa, verdeselha, campanula, e abobara.)
[Página 137]Afunilada (infundibuliformis), assemelha-se a hum funil; a sua orla tem huma forma turbinada, e termina em hum tubo (a ipomaea, a mirabilis, e herva sancta.)
Cyathiforme (cyathiformis), parece assemelharse a hum copo de calyz; tem hum tubo cylindrico, a orla concava e hum tanto dilatada; taes saõ segundo alguns Botanicos as corollas da buglossa, cerinthe consolda maior, cynoglossa, quejadilho, pulmonaria, &c; mas Linneo reduz estas sortes de corollas ào afuniladas, e às vezes às campanuladas.
Asalveada (hypocrateriformis), assemelha-se de algum modo às nossas antigas salvas de prata; he monopetala, tem hum tubo cylindrico, e a orla plana e muito aberta (o jasmim, e congossa).
Labiada (ringens,
rictiformis, labiata), he monopetala tubulosa, e tem a orla dividida em
dois labios Nota
As vezes tem hum sò labio, como no Acanthus, Teucrium
e Ajuga, e nesta circumstancia he chamada unilabiada
(unilabiata.)Nota
A fauce ou garganta da
corolla he taõbem propria do qualquer corolla tubulosa, ou he o
orificio de hum tubo mais ou menos longo. As vezes diz se ser:
aberta (nuda, aperta, pervia), se naõ tem escamas nem pelos (como na
pulmonaria); fechada (clausa, s. tecta), se he tapada com pelos ou
escamas (como na buglossa, e cynoglossa): coroada (coronata), se tem
alguns rayos, denticulos, ou corpusculos (como na borragem, e
symphytum.)Nota
O collo he proprio taõbem de muitas outras corollas, que naõ saõ labiadas ,
como por ex. da do quejadilho, congossa, &c. Nota
O palato parece sò ser
proprio das corollas mascarinas.Nota
O esporaõ acha se taõbem em outras especies de corollas
como se vè nas esporas, e ainda mesmo no calyz, como nas chagas:
algumas corollas em lugar de esporaõ tem huma especie de capello ou
sacco (cucullus, s. saccus), como a impatiens, e alguns generos das
orchideas.
Rosacea (rosacea), tem cinco petalas regulares concavas, com unhas curtissimas apegadas ao calyz (as roseiras bravas, pereira, e sylva).
Malvacea (malvacea), tem cinco petalas cordiformes com as unhas adunadas (a malva, althea, & outras malvaceas.)
Liliacea (liliacea), tem seis petalas regulares, como a tulipa, açucena, coroa imperial, e outras plantas liliaceas.
Cravinosa (carvophillata), tem cinco petalas regulares, unguiculadas, e as vezes apegadas junto da base (as cravinas, murujem, herva traqueira, &c.) O germe nas flores que tem esta corolla vem a ser huma capsula.
Cruciforme (cruciata, s. cruciformis), tem quatro petalas regulares, unguiculadas, com as laminas patentes, e dispostas em cruz (a couve, goiveiro, e nabo).
Papilionacea ou borboleta (papilionacea), foy assim chamada pela compararem a
huma borboleta voando, he irregular, e consta de quatro petalas
unguiculadas, a superior he chamada estendarte (vexillum e està mais ou
menos levantada, estendida, e encostada anteriormente às outras tres Nota
He raro que huma corolla borboleta tenha mais, ou menos de quatro
petalas; contudo na amorpha aeha,se somente o estendarde e na olaya a
navetta he de duas petalas, o que he rarissimo, porque quando muito em
outras leguminosas so he bifendida ou bipartida.
Gomilosa (urceolata), tem a forma oval ou quasi oval, de modo que se assemelha quasi a huma jarra ou gomil; he bojuda no meyo, e se estreita depois na parte superior e inferior (a basella, e hyacinthus muscari).
Globosa (globosa), tem huma forma quasi espherica (o lirio dos valles, e a escrophularia).
6º. Quanto à composiçaõ diz-se ser:
Simplez (simplea), se pertence a huma flor simplez. A flor simplez (flos simplex), he rigorosamente a que dentro de hum calyz naõ contem muitos flos culos (o meimendro, a salva, e o jasmim). Os floristas chamaõ flor simplez ou singella à que tem sò huma ordem de petalas, e a oppoem à dobrada e polypetala, mas os Botanicos so chamaõ flor simplez aquella, cujo calyz, corolla ou receptaculo naõ saõ communs a muitos flosculos, e Linneo a oppoem à flor composta, aggregada, umbrellada, cymosa, amentilhosa, casulosa, e espadicea.
Corolla composta (composita), he a totalidade das corolullas de muitos
flosculos contidos dentro, de hum perianthio commum, rentes, e com antheras adunadas Nota
Linneo assigna taõbem huma corolla composta às especies de
betula, aindaque os seus flosculos naõ tenhaõ antheras adunadas, mas o termo composta he pouco usado em botanica nesta
extensa accepçaõ.
Corolla universal (universalis), he a totalidade das corollulas de
muitos flosculos relativos a huma umbrella universal (o coentro, salsa,
canabraz, e canafrecha Nota
Linneo da taõbem adequadamente o nome de corolla universal à
totalidade de algumas flores aggregadas, como às da scabiosa,
globularia, &c.
Corolla propria ou parcial (propria, s. partialis), he a que merece propriamente o nome de corolla, e pertence a cada hum dos flosculos da corolla composta ou da universal: daõ-lhe taõbem o nome de corollula ou de pequena corolla (corollula), principalmente quando he relativa a huma corolla composta.
A corolla composta e a universal constaõ de disco e de rayo; o disco (discus), he todo o espaço que vay desde o rayo exclusivamente athe ao centro; o rayo (radius), na corolla composta, he a sua parte mais externa immediata aos foliolos, escamas, ou lacinias do perianthio commum; na corolla universal das umbrelladas o rayo he a ultima ordem dos flosculos, que se achaõ na circumferencia da umbrella universal (o gyrasol, bonina, perpetua, salsa, e coentro).
Corollula ligulosa, ou corolla propria aligulada (p. ligulata), he a que
pertence a hum flosculo da flor composta Nota
Tournefort chamava flosculo (flosculus) ao que Linneo chama
corollula tubulosa, e semiflosculo (semiflosculus) ao que elle
chama corollula ligulosa; a opiniaõ de Linneo parece me ser a
mais acertada, porquanto o nome de flosculo convem naõ so aos
semiflosculos de Tournefort, mais ainda a qualquer pequena flor
congregada em hum receptaculo commum.
Corollula tubulosa, ou corolla propria tubulosa (p. tubulata, s. tubulosa), tem na parte inferior hum tubo, e a sua orla he campanulada, e terminada em cinco denticulos ou cinco lacinulas; estas corollulas algumas vezes saõ afuniladas, e outras vezes as suas lacinulas saõ desiguaes. As corollulas tubulosas achaõ-se na maior parte das flores da classe Syngenesia, e se podem observar nas da macella gallega, losna, gyrasol e perpetua.
Corolla composta ligulosa (c. ligulata) Nota
Semiflosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta tubulosa (c. tubulosa, s. discoidea) Nota
Flosculosa segundo Tournefort.
Corolla composta radiada (c. radiata), quando as corollulas do rayo saõ ligulosas, e as do disco tubulosas (o gyrasol e bonina). Esta sorte de corolla he irregular, ou difforme; o termo de difforme [Página 143] contudo da-se taõbem ás corollas compostas tubulosas da centaurea, por terem no rayo flosculos com corollulas de forma differente.
[Página 143]Corolla universal radiada (un. radiata), quando as petalas externas dos floculos do rayo da umbrella universal differem das internas, e das mais dos flosculos do disco, sendo mais alongadas (o coentro, e canabraz). Estas corollas saõ taõbem chamadas difformes (difformes).
Corolla composta uniforme (c. uniformis), os seus flosculos tem todos corollulas da mesma forma, e proporçaõ, sendo ou todas tubulosas, ou todas ligulosas (a macella gallega, e a alface).
Corolla universal uniforme (un. uniformis), todos os seus flosculos tanto do disco como do rayo tem petalas da mesma forma e proporçaõ (a salsa, e funcho).
7º Quanto à duraçaõ a corolla diz-se ser:
Murchosa (marcescens), quando se murcha, engilha, e fica depois da florecencia, durante algum tempo, apegada ao fructo (as campanulas, orchideas, e algumas cucurbitaceas.)
Caduca (cuduca), se cahe pouco tempo depois da flor ter desabotoado, ou antes dos estames cahirem e da fecundaçaõ estar completa (videira, actaea, thalictrum).
Decadente (decidua), se cahe juntamente com os organos sexuaes, ou logo depois da fecundaçaõ (a papoila, tulipa, e a maior parte das flores).
Persistente (persistens), se dura e acompanha o fructo athe à sua madureza (o golfam, e helleborus).
[Página 144]8º. Quanto à cor.
A cor das corollas he ordinariamente desprezada pelos Botanicos modernos Nota
O Lord Bute no seu tractado dos generos das plantas da Gr.
Bretanha, que hà pouco publicou, pertende que as flores saõ menos
sujeitas a variar do que Linneo pensava, e que na realidade ha
muitas que jamais variaõ, principalmente às brancas e amarellas de
certas especies. Com effeito alguns Botanicos sexualistas servem-se
destas duas cores para distribuirem as especies dos generos de
anthemis e achillea; e Linneo mesmo naõ põde evitar de empregar as
cores nos destinctivos especificos de algumas cryptogamicas, como
nos agaricos, lichens, &c.
N. B. As flores participaõ de hum grande numero de denominaçoẽs proprias
das corollas, sendo, ordinario achalas decriptas nos autores com os
nomes de flores Nota
As flores radiadas, ligulosas, e tubulosas saõ as
que tem a corolla composta radiada, ligulosa, tubulosa.Nota
Os nossos floristas daõ o nome de flores borboletas a algumas
especies de ranunculus, mas segundo os Botanicos este nome so
compete as que tem huma corolla papilionacea, como a fava, ervilha,
&c.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Pistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.
O nectario (nectarium) segundo Linneo, que introduzio este termo em Botanica, he hum [Página 145] appendice da corolla ou hum orgaõ accessivo à flor, destinado à secreçaõ do mel, ou a contêlo; mas este termo nem sempre he usado no rigor da sua definiçaõ, antes tem sido applicado a alguns appendiculos das flores, os quaes naõ servem nem à secreçaõ de succo algum nem a contelo, e parece ter huma accepçaõ assaz vaga e illimitada: porquanto vem-se muitas vezes nas flores varias singularidades accessivas, glandulas, poros, globulos, tuberculos , denticulos, rayos, pilares, escamas, ou pequenas valvulas, fossulas, producçoẽs em forma de esporaõ, de grinaldas, de capello, de coroa, de copo, funil, campainha, de estrellas, de labios, cruzes, &c. que tem recebido o nome de nectarios, por se querer cortar de hum golpe todas as difficuldades, que podiaõ haver na definiçaõ de todas estas partes assaz dessemelhantes entre si naõ sò quanto à sua forma, mas ainda quanto ao seu numero, posiçaõ, e ponto de apego.[Página 145]tuberculosO nectario diz-se ser: calycino (calycinum), quando he relativo ou appenso ao calyz, como na chagueira.
Corollino ou petalino (corollinum, s. petalinum), se he adunado ou relativo à corolla ou suas petalas, como na linaria, violetta, rainunculo, narcizo, coroa imperial, açucena, orchideas, &c.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.
Estaminaceo ou dos estames (staminaceum), se he relativo aos filetes ou antheras dos estames, como na fraxinella, e adenanthera.antherasPistillaceo ou do pistillo (pistillaceum), se he relativo ao pistillo, principalmente ao germe, como no goiveiro, jacintho, &c.
Receptaculaceo ou do receptaculo (receptaculaceum), [Página 146] se he relativo ao receptaculo ou apegado a, elle, como no conchello.
[Página 146]Esporaûdo ou rostrado (calcaratum, s. rostratum), quando tem a forma do esporaõ das aves ou do seu bico, e he occo (como o das chagas, esporas, aquilegia, violetta, &c.); humas vezes he agudo outras obtuso.
Acapellado (cucullatum), se he concavo e se assemelha a hum capuz (o melindre).
Tortigòrne (cornutum), se he concavo e tem huma cauda aguda recurvada (o acònito).
Coroniforme (coroniforme), se tem a forma de huma grinalda, ou coroa, como no martyrio.
O calyz e corolla de que tractei nos dois capitulos precedentes saõ meramente tegumentos, e ornato dosorganos essensiaes às flores, isto he, dos estames e pistillo. Os modernos persuadidos por experiencias repetidas de que estes delicados organos eraõ destinados aos amores das plantas consideraraõ huns como genitaes masculinos, e outros como femininos. Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido. Na situaçaõ mais natural os estames estaõ postos entre a corolla e o pistillo, como se observa bem claramente numa açucena. A sua origem he supposta em geral ser a mesma que a [Página 147] da corolla. Podem ser considerados ou como completos ou como incompletos; no maior numero de flores saõ completos, isto he, constaõ de duas partes differentes huma superior e outra inferior, a superior he chamada anthera e a inferior filête. O filete he ordinariamente semelhante a hum delgado fio, e serve de esteio à anthera, que he quasi sempre mais grossa do que elle. A anthera acha-se de ordinario na ponta do filete, às vezes contudo succede ser rente, (sessilis), e o filete nullo; nesta circumstancia o estame he incompleto, como se vè na aristolochia. Commumente os estames saõ ferteis (fertilia); mas nalgumas flores, os filetes naõ sostem anthera alguma, ou somente tem huma anthera enfezada, mal apparente, e que naõ medra; nesta circumstancia os estamẽs saõ denominados estereis ou castrados (sterilia, s. castrata), e saõ taõbem incompletos: semelhantes estames rarissimamente saõ contados pesos systematicos sexualistas na classificaçaõ das plantas, em que se observaõ.
Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
O calyz e corolla de que tractei nos dois capitulos precedentes saõ meramente tegumentos, e ornato dosorganos essensiaes às flores, isto he, dos estames e pistillo. Os modernos persuadidos por experiencias repetidas de que estes delicados organos eraõ destinados aos amores das plantas consideraraõ huns como genitaes masculinos, e outros como femininos. Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido. Na situaçaõ mais natural os estames estaõ postos entre a corolla e o pistillo, como se observa bem claramente numa açucena. A sua origem he supposta em geral ser a mesma que a [Página 147] da corolla. Podem ser considerados ou como completos ou como incompletos; no maior numero de flores saõ completos, isto he, constaõ de duas partes differentes huma superior e outra inferior, a superior he chamada anthera e a inferior filête. O filete he ordinariamente semelhante a hum delgado fio, e serve de esteio à anthera, que he quasi sempre mais grossa do que elle. A anthera acha-se de ordinario na ponta do filete, às vezes contudo succede ser rente, (sessilis), e o filete nullo; nesta circumstancia o estame he incompleto, como se vè na aristolochia. Commumente os estames saõ ferteis (fertilia); mas nalgumas flores, os filetes naõ sostem anthera alguma, ou somente tem huma anthera enfezada, mal apparente, e que naõ medra; nesta circumstancia os estamẽs saõ denominados estereis ou castrados (sterilia, s. castrata), e saõ taõbem incompletos: semelhantes estames rarissimamente saõ contados pesos systematicos sexualistas na classificaçaõ das plantas, em que se observaõ.
Os estames (stamina) a que elles chamaõ genitaes masculinos saõ verdadeiramente huma viscera destinada à preparaçaõ do pó fecundante , e da aura seminal nelle contido.fecundante[Página 147]Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
Os filetes (filamenta), podem ser considerados.
1º Quanto ao seu número.
Porem antes de fallar do numero dos filetes devo advertir, que os
systematicos sexualistas contaõ o numero dos estames pelo das antheras , quer
estas sejaõ fileteadas quer rentes Nota
Elles exceptuaõ contudo os
da dianthera e stemodia.Nota
Os sexualistas exceptuaõ contudo os da dianthera e stemodia,
nos quaes cada filete solto sostem duas antheras .
O numero dos filetes e estames differe segundo as diversas classes, e às vezes nos mesmos generos de plantas. Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.
Na valeriana rubra ha hum so; dois no jasmim; tres no trigo e lirios; quatro iguaes na saudade, e tanchagem; quatro com dois mais curtos no marroyo e digital; cinco soltos com cinco antheras adunadas no gyrasol; cinco soltos inteiramente na madresylva e coentro; seis de igual altura ou de altura indeterminada no alho e açucena; seis com dois mais curtos na couve e goiveiro; sette no aesculus hippocastanum e alguns geranios de Africa; oito nas chagas e semprenoiva; nove no loireiro; dez na olaya, arruda e cravos; doze ou mais no sayaõ, euphorbia e beldroega; dezaseis na tormentilla; vinte emco ou mais na amexieira; trinta ou mais na gingeira; numerosos apegados ao calyz na romeira e sylva; numerosos apegados ao receptaculo nos rainunculos, e peonia, na qual se tem contado athe trezentos.antheras2º. Quanto a superficie, forma, e direcçaõ, dizem-se ser:
Capillares (capillaria), se saõ delgados como hum cabello em todo seu comprimento (como no trigo).
Filiformes ou cetaceos (filiformia), se acazo se assemelhaõ a hum fio de linhas delgado (a verbena, e espargo).
[Página 150]Planos (plana) se saõ delgados, largos, e chatos (o golfam.)
Cunhiformes (cuneiformia), se tem a forma de huma cunha, como no thalictrum.
Assovelados (subulata), se saõ lineares e aguçados na ponita como o ferro de huma sovela (a abrotea, couve, e tulipa).
Espiraes (spiralia), saõ enroscados espiralmente (o feijaõ, e hirtella).
Chanfrados (emarginata), saõ tricuspides ou terminados em tres denticulos e duas chanfraduras, como saõ os do alho.
Recurvados (recurva, reflexa), se saõ inclinados com a ponta para fora, como na gloriosa.
Parallelos (parallela), quando se elevaõ de modo que medea igual distancia entre elles desde a base athe ao topo (o goiveiro, a digital, e muitas outras labiadas e cruciferas).
Felpudos (villosa), se saõ cobertos de felpa, como algumas especies de verbasco.
3º Quanto ao ponto de apego ou situaçaõ, os estames tem merecido grande attençaõ de alguns systematicos modernos, e com effeito a sua insersaõ subministra os mais invariaveis caractéres geraes, que se conhecem em Botanica.
Os filetes ou estames dizem-se ser: apegados à corolla (corollae
inserta), se a sua base jaz apegada ao tubo, fauce, orla ou qualquer
outra parte da [Página 151] corolla (o jasmim, salva, alecrim e ordinariamente as flores
monopetalas) Nota
Exceptuaõ-se contudo a aloe e as corollas monopetalas, cujas antheras saõ bifendidas ou bigornes, como v. g.
as da urze, que tem os estames apegados ao receptaculo. As vezes estaõ apegados ao nectario, como no cissus, campanula,
&c. As polypetalas ordinariamente tem os estames desapegados
das petalas e apegados ao receptaculo; contudo na statice,
melanthium, e nas corollas cravinosas muitas vezes estaõ
apegados às unhas das petalas. No eriocaulon os filetes por huma
singusaridade da natureza tem o seu apego sobre o germe, ao
mesmo tempo que a corolla e calyz estaõ sottopostos a
elle.
Apegados ao calyz (calyci inserta), como na pereira, gingeira, sylva, salicaria, e muitas outras da classe Icosandria, e da ordem natural, a que Linneo chama Calycanthemas.
Apegados ao receptaculo (receptaculo inserta), he o mais ordinario
nas flores Nota
O calyz e corolla commumente saõ taõbem apegados ao
receptaculo.
Apegados ao pistillo (pistillo inserta), como nas orchideas e algumas da
classe monandria. Na aristolochia os estames, que consistem nas antheras rentes, saõ taõbem apegados ao pistillo Nota
O Dr. Thumbergio, que
occupa hoje a cadeira de Botanica dos dois celebres Linneos, he
de parecer que saõ rarissimas as flores, que merecem ter o nome
de gynandras, e com effeito no martyrio, andrachne e muitas
outras os estames verdadeiramente estaõ apegados a hum
receptaculo continuado ou pedicello, e naõ ao
pistillo.
Dizem-se: fronteiros ou oppostos ao calyz (calyci opposita), quando se achaõ postos defronte das lacinias ou foliolos do calyz, como na ortiga.
4º. Quanto à proporçaõ dizem se ser:
Iguaes (aequalia), se todos tem o mesmo [Página 152] comprimento; desiguaes (inaequalia), se huns saõ mais compridos do que outros.
[Página 152]Compridissimos (longissima), se excedem bastantemente no comprimento a corolla (ou o calyz, se ella falta); curtissimos (brevissima), se sãõ bastantemente mais curtos do que a corolla (ou do que o calyz nas despetaleadas).
Reclusos (inclusa), quando naõ sahem fora da fauce do tubo da
corolla, como no jasmim, rosmaninho, e sideritis: exclusos (exerta),
quando sahem fora da fauce da corolla, como na carvalhinha Nota
Estes termos naõ so se applicaõ aos estames, mas taõbem ao
pistillo.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .
A antheras (anthera), he a parte essensial de qualquer estame, e huma capsula que encerra em si o pó fecundante .antherasfecundanteO pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes. As observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis. A castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.
O pò fecundante (pollen, s. genitura), que se julga ser a substancia espermatica dos vegetaes, he huma materia farinhosa, cujos graõs miudissimos saõ cobertos de huma membrana finissima vesicular na qual he contida a aura seminal ou halito elastico (aura seminalis, fovilla, s. halitus elasticus), que no momento da rotura da dicta membrana se diz entrar pelo estigma, e fecundar os ovos vegetaes ou tenrinhas sementes.fecundanteAs observaçoẽs microscopicas asseguraõ que estes graõs saõ mais ou menos globulosos, que elles saõ reniformes nas antheras do [Página 153] narcizo, echinosos nas do gyrasol, arrodelados e denteados na malva, e que a sua membrana he enrolada nas da borragem; elles saõ bem destinctamente visiveis nas antheras da mirabilis.antheras[Página 153]antherasA castraçaõ das antheras , feita de proposito, a florecencia do golfam e d'outras plantas aquaticas acima do lume d'agoa, a esterilidade que resulta em razaõ das chuvas ensoparem o po das antheras , a inclinaçaõ do estigma para às anteras e destas para o pistillo se elle he curto, e muitas outras experiencias e, observaçoẽs provaõ sufficientemente que o po, que as antheras contem em si, merece com bastante propriedade o nome de substancia fecundante , que lhe deraõ os sexualistas.antherasantherasanterasantherasfecundanteA capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas. Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.
A capsula da anthera he simplez e univalve em hum grande numero de flores por conter huma so cellula (loculas); isto naõ obstante ha muitas que saõ compostas de duas, tres, quatro e muitas cellulas separadas por hum partimento assaz vizivel (bi-tri-quadri-multiloculares); na ortiga, na leontice e epimedium saõ bivalves e de duas cellulas; no colchico quadrivalves; e no milho, chagas, e tulipa tem quatro cellulas.Estas capsulas differem no modo de abertura (apertura, s. dehiscencia); ordinariamente rasgaõ-se por huma ilharga, as vezes debaxo para cima, como no epimedium e leontice, outras vezes pela ponta, como no milho, tomateiro, e galanthus, e emfim ha outras que so se abrem pela base, como as do teixo.As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.
As antheras saõ soltas ou desadunadas (distinctae) na tulipa, açucena e maior parte das flores; adunadas, (connatae, s. coalitae), no gyrasol e flores syngenesias.antheras[Página 154]Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.
Innatas (adnatae), quando se achaõ apegadas ao sado do filete como no asarum, costus e paris.Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).
Lateraes (laterales), se estaõ encostadas ao filete pelo lado interno (acanthus, e ballota).Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.
Levantadas (erectæ), quando tem a sua base apegada à ponta do filete (o tomateiro e oliveira); ellas conservaõ esta denommaçaõ ainda quando saõ convergentes (conniventes), como na pulmonaria, ou quando saõ recurvadas (reflexae), como no goiveiro.Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).
Versateis ou vacillantes (incumbentes, S. versatiles), quando estaõ apegadas pelo meyo do seu comprimento à ponta do filete de modo que bomboleaõ com o mais leve zephyro (a açucena, trigo, joyo e outras gramas.).Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)
Didymas ou bilobadas (didymo), se tem duas protuberancias que reprezentaõ dois nos encostados ou duas ginjas apegadas (como saõ as da amexieira, gingeira, rainunculo, scrophularia, mirabilis, &c.)Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.
Globosas (globosae), se tem a forma hum tanto espherica, como no coentro, acelga e sabugueiro.Oblongas (oblongae), saõ muito mais compridas do que largas (a açucena, e trigo).
Bifurcadas (bifurcae, s. utrinque bifarcae), se tem duas pontas em cada extremidade (o trigo, e centeio).
Afréchadas (sagittatae), no açafraõ e loendro; angulosas (angulato), na tulipa tetragonas ou de quatro cantos embotados (tetragonae) no milho, choupo, e coroa imperial.
Bigornes (bicornes), saõ bifendidas superiormente terminando em duas pontas levantadas (a urze.)
Assoveladas (subulatae), saõ lineares e aguçadas (como no goiveiro, e açucena.)
[Página 155]N. B. Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.
Linneo dà taõbem o nome de antheras à fructificaçaõ capsulosa dos musgos, e as denomina operculadas (operculatae), ou tapadas com hum operculo, &c; eu fallarei mais extensamente destas producçoẽs no artigo da classe cryptogamia.antherasO pistillo (pistillum), he huma viscera na qual se acha o principio do novo fructo, e os organos destinados a receber a substancia que o deve fecundar. Os sexualistas suppoem nesta viscera os organos genitaes femininos, e a consideraõ composta de tres partes, a saber, de germe, estylete, e estigma, os quaes se podem ver bem claramente numa açucena. O germe (germen), he a parte inferior do pistillo ou o fructo recêm nascido antes de ser fecundado; contem o principio das sementes e os organos proprios para receber a sua fecundaçaõ e nutriçaõ; e na sua posiçaõ mais natural està situado no centro da flor, com à base apegada ao receptaculo da fructificaçaõ. O estylete (stylus), he a parte do pistillo que medea entre o estigma e o germe. O estigma (stigma), he a parte superior e extrema do pistillo. Os sexualistas reconhecendo huma grande analogia entre estas partes, e às dos animaes, compararaõ o estigma à tuba de Fallopio e vulva, o estylete a vagina, e o germe ao ovario; assegurando segundo as suas observaçoẽs que o estigma se acha sempre [Página 156] humido ou rociado em razaõ de huma lympha genital que nelle se separa.
O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Filiforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Concavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
O pistillo (pistillum), he huma viscera na qual se acha o principio do novo fructo, e os organos destinados a receber a substancia que o deve fecundar. Os sexualistas suppoem nesta viscera os organos genitaes femininos, e a consideraõ composta de tres partes, a saber, de germe, estylete, e estigma, os quaes se podem ver bem claramente numa açucena. O germe (germen), he a parte inferior do pistillo ou o fructo recêm nascido antes de ser fecundado; contem o principio das sementes e os organos proprios para receber a sua fecundaçaõ e nutriçaõ; e na sua posiçaõ mais natural està situado no centro da flor, com à base apegada ao receptaculo da fructificaçaõ. O estylete (stylus), he a parte do pistillo que medea entre o estigma e o germe. O estigma (stigma), he a parte superior e extrema do pistillo. Os sexualistas reconhecendo huma grande analogia entre estas partes, e às dos animaes, compararaõ o estigma à tuba de Fallopio e vulva, o estylete a vagina, e o germe ao ovario; assegurando segundo as suas observaçoẽs que o estigma se acha sempre [Página 156] humido ou rociado em razaõ de huma lympha genital que nelle se separa.
[Página 156]O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
O germe tem recebido hum grande numero de denominaçoẽs que saõ, quasi as mesmas que as do pericarpo ou fructo, e porisso as omittirei aqui. Dizse ser: sobreposto (superum), quando se acha situado sobre o receptaculo da fructificaçaõ e incluido na corolla, ou calyz (a açucena, e carvalho); sottoposto (inferum), se esta situado debaxo do receptaculo da flor ou posto debaxo da corolla, como no narcizo, asarabacca, e melaõ; pediculado (stipitatum, s. pedicellatum), se està posto sobre hum pequeno esteio ou receptaculo continuado no centro da flor, como na alcaparra, e martyrio.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Filiforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
1º Quanto à situaçaõ ou ponto de apego.
O estylete esta sempre apegado à superficie do germe; ordinariamente acha-se situado no seu topo, como na açucena e quasi em todas as flores, e por esta razaõ senaõ faz mençaõ desta circumstancia nas suas descripçoẽs: na alchimilla està apegado junto da base do germe, e ao lado delle na lachnaea, como taõbem na roseira, sylva e outras plantas da Icosandria polygynia.
[Página 157]2º Quanto ao numero.
O numero dos estyletes depende da divisibilidade ou indivisibilidade da sua base, no que deve haver grande attençaõ, visto que o numero dos pistillos de huma flor ou flosculo he contado pelo dos estyletes, em que saõ fundadas muitas ordens do systema de Linneo. Diz-se que ha hum estylete na flor todas às vezes que nella existe desacompanhado de outro algum, e he indiviso ao menos junto da sua base. Na açucena temos exemplo de hum sò simplez, e nos lirios de hum so curtissimo e tripartido, o cravo e coentro subministraõ exemplos de dois; vemos tres nas azedas e matyrio, quatro no espinafre, cmco na pereira, conchelo e linho, seis no butomus, damasonium e stratiotes, sette no septas, oito na phytolacca octandra, nove no empetrum, dez na nevrada e phytolacca decandra, doze no alisma cordifolium e sayaõ, muitos ou mais de doze na sylva, morangueiro, &c.: as vezes montaõ a mais de cem nos rainunculos e sagittaria.
3º. Quanto a forma diz-se ser:
Mais grosso na parte superior (superne crassior). no martyrio, e açucena.
Aclavado (clavatus) no leucoium vernum.
Colunar ou cylindrico (cylindricus) na malva.
Setaceo (setaceus) no carvalho.
Setaceo (setaceus) no carvalho.SetaceoFiliforme (filiformis) no milho.
Capillar (capillaris) no poterium, e azedas. Elle se diz ainda ser assovelado, anguloso, &c. (subulatus, angulosus, etc.)
[Página 158]4º Quanto à duraçaõ.
Os estyletes saõ ordinariamente decadentes, isto he, cahem logo depois da florecencia com as mais partes da flor; algumas vezes contudo saõ murchosos (marcescentes), por se engilharem e durarem apegados algum tempo ao novo fructo fecundado; e naõ he raro de os ver persistentes (persistentes), principalmente nas cruciferas ou plantas da Tetradynamia.
5º Quanto à proporçaõ, o estylete he comparado com os estames, e as vezes com os tegumentos da flor.
Diz-se ser: compridissimo (longissimus) no milho, escorcioneira, e campanula.
Curtissimo (brevissimus) nos lirios e alfeneiro.
Mais grosso do que os estames (staminibus crassior), na açucena; mais delgado do que os estames (staminìbus tenuior), na cebola.
Do comprimento dos estames (longitudine staminum, s. staminìbus aequalis) na pereira, e alface.
6º. Quanto à direcçaõ diz-se ser:
Levantado (erectus) na açucena.
Remontante (ascendens) no trevo, ervanço e outras leguminosas.
Inclinado para a banda (declinatus) na veronica.
7º. Quanto a divisaõ diz-se ser:
Fendido em duas, tres, quatro, cinco e muitas lacinias (bi - tri - quadri - quinque - multifidus), como no eupatorium, campanula, cleonia, geranìum, e sida.
[Página 159]Forquilhoso (dichotomus), se he dividido em dois ramos, e cada ramo consta de duas lacinias (à patagonula).
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.
Quando o estigma he rente, por naõ estar sostido por estylete algum, neste cazo o estylete he denominado nullo (nullus), como na papoila, e golfam.O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Concavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
O estigma existe na flor ao mesmo tempo que os estames, e o seu estado
de vigor he quando a anthera se rompe, e vibra o po fecundante . Nalgumas fores da syngenesia, em que falta o estigma, o germe aborta,
e o mesmo succede se o cortamos de proposito pela operaçaõ, a que os
sexualistas daõ o nome de castraçaõ (castratio) Nota
Elles daõ o mesmo nome de castraçaõ ao còrte das antheras .
1º. Considerado quanto ao numero.
Quando os estigmas saõ rentes os sexualistas costumaõ por elles contar o numero dos pistillos. Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos. Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.
Na aristolochia e tulipa ha hum so rente, dois rentes na peonia e atraphaxis spinosa, tres rentes no sabugueiro, quatro rentes no aquifolio e potamageton cinco rentes ou mais na caltha, muitos rentes nos rainunculos.Quanto ao numero dos que saõ estyleteados, ou sobrepostos a hum estylete, vê-se hum na açucena, dois no jasmim, tres nas campanulas, quatro na cleonia, cinco na pereira, &c. &c.[Página 160]2º. Quanto a direcçaõ diz-se ser:
Enroscado (convolutum), no açafraõ: recurvado (revolutum, s. recurvum), no cravo e alface.
Virado para a esquerda (sinistrorsum, flexum) na silene; virado para a direita (dextrorsum flexum), como na herva traqueira, mas estas direcçoẽs variaõ muito.
Obliquo (obliquum), na violetta e loireiro: patente (patens), na coroa imperial e muitas malvaceas.
3º Quanto a divisaõ.
Diz-se ser: fendido em duas, tres, quatro, cinco, seis ou muitas lacinias
(bi- tri- quadri- quinque- sex- multifidum) segundo o numero dos
pequenos Nota
Cada hum destes raminhos ou lacinias (quando saõ
filiformes) be hum estigma, e por conseguinte estes termos parecem
so competir com propriedade ao estylete.
4º Quanto a forma diz-se ser:
Capillar (capillare), na azeda e tabûa: filiforme (filiforme), como os que se vem na ponta dos estyletes taõbem filiformes das maçarocas de milho, e na malva.
Capitoso (capitatum), se he crasso, e tende à forma globosa (o martyrio); globoso (globosum), na videira, larangeira, e quejadilho.
Redondo (orbiculare) na congossa, e uva espim.
Ovado (ovatum) na genciana.
Obtuso (obtusum) no tomateiro, tojo, e murugem. [Página 161] Agudo (acutum) na cebola; troncado (truncatum) na abrotea, e lathræa.
[Página 161]Cordiforme (cordatum), no cumagre.
Deprimido obliquamente (obligue depressum) no trovisco, e actæa.
Chanfrado (emarginatum), na pulmonaria e cynoglossa.
Arrodelado (peltatum, s. clypeacum), se he redondo plano ou hum quasi nada concavo por cima, e hum tanto convexo por baxo, como o da papoila e golfam. Este mesmo estigma diz-se taõbem as vezes ser rayado ou estriado (radiatum, sive striatum), quando tem rayos ou estrias, que partem do centro para a circumferencia, como se vè nas predictas duas plantas.
Apincellado (pinicilliforme), quando se assemelha a hum pincel (poterium).
Coroniforme (coroniforme), nalgumas especies de urze, e de pyrola.
Anguloso (angulatum), se tem tres ou mais angulos: triangular (triangulare) na açucena: trilobado (trilobum) na tulipa.
Cruciforme (cruciforme), se tem quatro lacinias encruzadas (o choupo, e penaea).
Gancheado (uncinatum) na violetta.
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).
Canaliculado (canaliculatum) no colchico, e bulbocodium).CanaliculadoConcavo (concavum) na aristolochia; perforado (perforatum), he huma especie de concavo (o amor perfeito).
Bilaminoso (bilamellatam), se consta de duas laminas longitudinaes (o gergelim).
Plumoso (plumosum) no rhubarbo, trigo, e muitas [Página 162] outras gramas; empubescido (pubescens) no ulmeiro e milho; felpudo (villosum, s. barbatum) nas leguminosas.
[Página 162]Petaliforme (petaliforme, s. foliaceum), nos lirios.
5º Quanto à proporçaõ.
Os estigmas saõ comparados, ou com o estylete quando este existe na flor, ou com o germe quando saõ rentes; assim dizem-se ser: iguaes ao estylete ou do seu comprimento, como na beldroega; mais compridos ou mais curtos do que elle, curtissimos ou summamente pequenos; compridissimos ou summamente grandes; mais largos do que o germe, &c. As vezes saõ taõbem comparados huns com os outros, na mesma flor, como v. g. os dois da ajuga, na qual se diz, que o inferior he mais curto do que o superior.
6º Quanto à duraçaõ.
Os estigmas em hum grande numero de flores, passada a florecencia, cahem ou juntamente com os estyletes ou da superficie do germe; as vezes saõ murchosos (marcescentia), ficando juntamente com os estyletes apegados ao novo fructo fecundado, durante algum tempo; outras vezes saõ persistentes (persistentia), ficando athe à madureza do fructo, como na papoila.
[Página 163]O fructo (fructus), consiste em huma ou mais sementes fecundadas, e nutridas sobre o seu proprio receptaculo athe ao estado de plena madureza, quer sejaõ cobertas quer descobertas. Quando consta de sementes cobertas o fructo, e o vegetal que o dà saõ denominados angiospermos (angiospermi), e gymnospermos (gymnospermi) se as sementes saõ descobertas. No primeiro cazo o fructo tem alem das sementes hum pericarpo, e no segundo as sementes saõ nuas, e o pericarpo he nullo (pericarpium nallum). Mas definir o que he rigorosamente hum pericarpo, assignar regras para o reconhecer, e para o distinguir sempre dos tegumentos proprios das sementes, dizer quando elle he nullo, ou quando as sementes saõ nuas, naõ he taõ facil como ordinariamente o daõ a entender as obras elementares de Botanica. Todas estas circumstancias requerem hum grande numero de novas obserraçoẽs e talvez muitos seculos se passaraõ ainda sem que se conheca huma sabia theoria pela qual se reduzaõ todos os fructos a hum certo numero de classes bem caracterizadas, e com denominaçoẽs adequadas; tanto he difficil de reconhecer as leys da marcha variada, que a natureza segue por entre o immenso labyrintho dos entes!
Os antigos Gregos e Romanos, e depois delles as naçoẽs modernas deraõ ordinariamente aos fructos [Página 164] nomes differentes, ou o nome da planta que os produzia, sem cuidar de os reduzir a limites certos nem a generalidades, taes saõ por ex. os de azeitona, maçaan, pera, ameixa, marmello, pecego, amora, pepino, melaõ, milho, cevada, trigo, &c. &c. Este modo de nomear os fructos naõ podia agradar aos Botanicos pela razaõ de naõ ser definido nem generalizado, o por conseguinte improprio para poderem delle tirar notas fundamentaes de caracteres genericos; elles cuidaraõ pois de os reduzir a hum certo numero de nomes geraes, dividindo os primeiramente do modo que acima disse em fructos gymnospermos, e angiospermos, e subdividindo depois estes ultimos em hum pequeno numero de especies. Estas divisoẽs, e subdivisoẽs estaõ contudo ainda bem longe da perfeiçaõ que exige huma generalidade conforme à natureza dos fructos; ellas foraõ reformadas por Linneo, e na verdade de todas as theorias que temos a respeito dos fructos a deste sabio he a mais adequada às leys systematicas; como he hoje a mais geralmente seguida, cuidarei quanto me for possivel de me conformar com ella, e começarei pelos fructos angiospermos, ou que consistem em sementes cobertas.
O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Ha capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
Vagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
O numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
O fructo (fructus), consiste em huma ou mais sementes fecundadas, e nutridas sobre o seu proprio receptaculo athe ao estado de plena madureza, quer sejaõ cobertas quer descobertas. Quando consta de sementes cobertas o fructo, e o vegetal que o dà saõ denominados angiospermos (angiospermi), e gymnospermos (gymnospermi) se as sementes saõ descobertas. No primeiro cazo o fructo tem alem das sementes hum pericarpo, e no segundo as sementes saõ nuas, e o pericarpo he nullo (pericarpium nallum). Mas definir o que he rigorosamente hum pericarpo, assignar regras para o reconhecer, e para o distinguir sempre dos tegumentos proprios das sementes, dizer quando elle he nullo, ou quando as sementes saõ nuas, naõ he taõ facil como ordinariamente o daõ a entender as obras elementares de Botanica. Todas estas circumstancias requerem hum grande numero de novas obserraçoẽs e talvez muitos seculos se passaraõ ainda sem que se conheca huma sabia theoria pela qual se reduzaõ todos os fructos a hum certo numero de classes bem caracterizadas, e com denominaçoẽs adequadas; tanto he difficil de reconhecer as leys da marcha variada, que a natureza segue por entre o immenso labyrintho dos entes!
Os antigos Gregos e Romanos, e depois delles as naçoẽs modernas deraõ ordinariamente aos fructos [Página 164] nomes differentes, ou o nome da planta que os produzia, sem cuidar de os reduzir a limites certos nem a generalidades, taes saõ por ex. os de azeitona, maçaan, pera, ameixa, marmello, pecego, amora, pepino, melaõ, milho, cevada, trigo, &c. &c. Este modo de nomear os fructos naõ podia agradar aos Botanicos pela razaõ de naõ ser definido nem generalizado, o por conseguinte improprio para poderem delle tirar notas fundamentaes de caracteres genericos; elles cuidaraõ pois de os reduzir a hum certo numero de nomes geraes, dividindo os primeiramente do modo que acima disse em fructos gymnospermos, e angiospermos, e subdividindo depois estes ultimos em hum pequeno numero de especies. Estas divisoẽs, e subdivisoẽs estaõ contudo ainda bem longe da perfeiçaõ que exige huma generalidade conforme à natureza dos fructos; ellas foraõ reformadas por Linneo, e na verdade de todas as theorias que temos a respeito dos fructos a deste sabio he a mais adequada às leys systematicas; como he hoje a mais geralmente seguida, cuidarei quanto me for possivel de me conformar com ella, e começarei pelos fructos angiospermos, ou que consistem em sementes cobertas.
[Página 164] O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Ha capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
Vagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
O pericarpo (pericarpium), he considerado pelos
Botanicos, como hum tegumento accessivo, em que se achaõ envolvidas
as sementes que delle devem sahir depois do estado de plena
madureza; e segundo [Página 165] os Sexualistas he Nota
Alguns daõ taõbem o nome de ovario
fecundado ao receptaculo das sementes nuas, como das labiadas,
compostas, &c.Nota
Na datisca
e reseda as capsulas saõ hum tanto abertas desde a florecencia
athe à madureza das sementes, mas neste ultimo periodo saõ
incomparavelmente mais abertas; na parnassia a capsula abre-se
hum pouco na florecencia, mas fecha-se logo depois
della.Nota
Esta
circumstancia naõ deixa de ser sujeita a algumas excepçoẽs; os
pericarpos das sementes do xanthium, coqueiro, e outros
semelhantes naõ se abrem nem corrompem senaõ no tempo, em que
começa a germinaçaõ; mas elles poderaõ reconhecer-se por
pericarpos pela razaõ de serem hum terceiro tegumento da semente
(como he bem visivel) e de se poderem abrir sem impedir a
germinaçaõ.Nota
Na cevada, coix, e outras gramas, que tem as valvulas
dos tegumentos da flor apegadas à semente no estado de madureza,
so se podem admittir pericarpos bastardos (spuria), porque as
dictas valvulas ou tegumentos no tempo da fecundaçaõ das
sementes estavaõ desapegados dellas, e naõ faziaõ parte do germe
do pistillo; o mesmo se deve dizer do nectario da mirabilis, e
do tubo da corolla do poterium que vem somente a ser pericarpos
bastardos.Nota
Nas umbrelladas o fructo he bipartivel (bipartibilis), isto
he costuma no estado da madureza separar-se facilmente em
duas sementes nuas, as quaes athe esse tempo estavaõ
approximadas ou pareciaõ adunadas, como no coentro, salsa,
&c. Linneo aindaque naõ indicou o pericarpo nullo nos generos de
ferula, cachrys, caucalis, tordylium astrantia, e eryngium,
isto parece ter somente sido por esquecimento, porque
semelhantes plantas todas tem sementes nuas. Nas labiadas taõbem parece ter havido o mesmo esquecimento a
respeito da perilla, que tem sementes nuas: mas quanto ao
prasium que he da mesma familia, naõ sei como se possa
conciliar dar-lhe quatro sementes nuas, e assignar-lhe ao
mesmo tempo por pericarpos quatro bagas monospermas e
unicellulares; as razoẽs de analogia dictaõ que nesta planta
o pericarpo he nullo, e que as sementes tem o tegumento
proprio secundario hum tanto succulento . Nota
A analogia dos fructos dos
generos da mesma familia poderá em cazo de duvida fazer
reconhecer este terceiro tegumento, e porisso se assignaõ
pericarpos ao myagrum, bunias, peltaria, crambe, trevos,
fumaria, securidaca borbonia, anthyllis, ebenus, psoralea,
geoffrova, &c.Nota
Creyo que quer dizer receptaculo
commum das sementes; mas as siliquas, vagens, pomos, &c, saõ
receptaculos communs das sementes, e ao mesmo tempo naõ deixaõ
de ser reconhecidos por pericarpos.Nota
Os receptaculos da magnolia, michelia, e
uvaria. Vej. Phil. Bot. pag. 75.Nota
Contudo segundo o mesmo Botanico o fructo da
sylva, aindaque naõ tenha hum tegumento commum fechado, he huma
baga composta, e naõ hum receptaculo.Nota
Os termos drupa, e baga saõ vulgarmente entendidos pelo
fructo total, isto he, pelas sementes e juntamente pelo
pericarpo de que saõ guarnecidas, mas no rigor botanico so
significaõ o pericarpo ou tegumento externo accessivo, gro so e
polposo; porquanto assim como quando dizemos a vagem do
feijoeiro contem sementes reniformes, so rigorosamente se
entende o pericarpo, da mesma sorte quando dissermos os pomos d
pereira contem sementes pontudas, so devemos entender os dois
pericarpos que constituem o pomo, e o mesmo deve ter lugar a
respeito das drupas, e bagas.Nota
Cada hum destes tegumentos accessivos, e succulentos contem huma
semente com dois tegumentos proprios. Nota
Vej. O seu Genera plantar., aonde diz depois de ter
fallado das sementes da sylva (rubus) que o receptaculo dos
pericarpos he conico, vindo por este modo a exprimir claramente
que cada huma dellas tem hum pericarpo.
Taes saõ as noçoẽs, que me pareceraõ ser em geral mais adequadas para fazer conhecer a natureza do pericarpo; quando tractar das suas especies, e das sementes, cuidarei de naõ esquecer-me do que poder contribuir a illuminalas; contudo naõ posso deixar de confessar ingenuamente que restaõ ainda a este respeito algumas difficuldades, que so hum genio feliz e ajudado de mais observaçoẽs, do que temos athe ão prezente, poderà vencer.
As especies de pericarpo, segundo Linneo, saõ oito, a saber, capsula, siliqua, vagem, follilho, drupa, pomo, baga, e pinha, mas esta ultima especie so se deve contar no numero dos pericarpos bastardos, porque as escamas de que consta saõ humaespecie de calyz persistente, e naõ foraõ jamais parte do germe do pistillo.
A capsula (capsula), he huma especie de pericarpo concavo, que se costuma abrir por partes certas e determinadas, como v. g. a da campanula, reseda, meimendro, cravo, tulipa e açucena. Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada. Ha fructos que constaõ de huma so capsula, outros constaõ de duas, tres, quatro, cinco, ou muitas, de que temos exemplos nas esporas, peonia, estaphisagria, rhodiola, aquilegia, e sayaõ.
Nalgumas plantas he molle, ou succulenta , noutras he dura, as vezes he grossa outras vezes delgada.succulentaHa capsulas em que se podem destinguir quatro partes, a saber, valvulas,
cellulas, partimento, e pilar; as valvulas (valvulae), saõ as Nota
Ellas
estaõ conchegadas antes da madureza do fructo, mas logo que este
amadureceo, desviaõ-se para deixar cahir as sementes; e as vezes
ficaõ retorcidas depois de terem vibrado as sementes com
elasticidade, como as da impatiens noli me tangere.Nota
Ha taõbem partimentos bastardos ou
incompletos (spuria), que saõ os que naõ chegaõ athe ao pilar, e
ficaõ em meyo caminho; as cellulas neste cazo saõ taõbem bastardas,
e se communicaõ entre si.
A capsula diz-se ser: univalve (univalyis), se consta de huma so valvula, e se abre na sua madureza, ou so por huma sutura lateral como nas esporas, ou por furos abertos nos lados ou extremidades (pori), como na campanula, e papoila, ou pelo topo como na reseda: bivalve (bivalvis), se consta de duas valvulas como na genciana; trivalve (trivalvis), na tulipa e violetta; quadrivalve (quadrivalvis), na panaea; de cinco valvulas (quinquevalvis), no evonymus americanus; de seis valvulas (sexvalvis), na stellaria; de muitas valvulas (multivalvis), se tem mais de seis valvulas.
Diz-se ser: de huma so cellula (unilocularis), se naõ tem interiormente partimento algum ainda que conste de valvulas, como no cravo, esporas, quejadilho, e violetta; de duas cellulas (bilocularis), no [Página 171] meimendro e herva sancta; de tres (trilocularis), na açucena; de quatro (quadrilocularis), no cyonymus europaeus; de cinco (quinquelocularis, na pyrola; de oito (octolocularis), no linum radiola; de dez (decemlocularis), no linho; de muitas cellulas (multilocularis) como na nymphaea.
[Página 171]Dicòcca (diccoca, s. bicocca), se tem duas cellulas bojudas, e cada huma contem huma so semente (a mercurial); tricocca, (tricocca), no ricinus e euphorbias; quadricocca (quadricocca), no evonymus europaeus; polycocca (polycocca), se tem muitas cellulas bojudas, com huma so semente em cada huma.
Didyma ou bilobada (didyma), se tem duas protuberancias semelhantes a
duas ginjas apegadas huma à outra (veronica biloba, e outras
congeneres) Nota
Ordinariamente este termo he usado como synonymo da capsula
dicocca, mas nesta so ha duas sementes, e na dydima ha
sempre mais de duas, o que basta para as destinguir.
Circumcidada (circumcisa), quando tem huma sutura circular e horizontal, ou parece ter sido golpeada transversalmente de modo que a sua parte superior representa huma tampa (o meimendro, beldroega, murriaõ, tanchagem, e amarantho).
Prismatica (prismatica), se tem a forma de hum prisma, ou tem muitas faces planas e lineares (camnanula speculum veneris).
Echinosa ou aculeada (echinata, s. aculeata), se he guarnecida de espinhos (no tribulus, datura ferox e castanheiro).
Infunada (inflata), quando parece huma bexiga cheya de vento (como o cardiospermum). A maior [Página 172] parte do espaço interno destas capsûlas naõ he occupado pelas sementes.
[Página 172]N. B. As capsulas que foraõ calyz ou corolla so devem ser consideradas como bastardas; taes saõ por ex. os ouriços, do castanheiro.
Siliqua (siliqua), he huma especie de pericarpo oblongo, bivalve Nota
O Dr. Oeder considera as siliquas, siliculas e vagens como
especies de capsula, as duas primeiras como proprias das
plantas cruciferas, e a ultima como natural às
leguminosas. Com effeito se reflectirmos em que as sementes nas capsulas
estaõ apegadas naõ sò à base, topo e meyo, mas ainda algumas
vezes às valvulas e suturas, esta assersaõ parece assaz
conforme á natureza. Nota
As suturas (suturae), saõ as linhas em que se reunem as
valvulas.
A siliqua diz-se ser: torosa (torosa, s. torulosa), se consta de torulos (toruli), ou elevaçoẽs bojudas circularmente, alternadas com entrevallos estreitos ou gorgilos (o rabaõ); quando tem muitos torulos, e quebra pelos gorgilos ou entrevallos estreitos daõlhe, o nome de articulada (articulata), como no raphanus raphanìstrum: tetragona (tetragona), se tem quatro esquinas (erysimum) comprimida (oompressa), quando parece mais ou menos esmagada em ambas as faces do seu disco (o goiveiro).
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.
A silicula diz-se ser; redonda (orbiculata), na clypeola; cordiforme (cordata), no lepidium sativum; verticalmente cordiforme (abcordata), na bolsa de pastor; lobada (lobata), na biscutella; lanceolada (lanceolata), na isatis tinctoria; globosa (glabosa), na crambe maritima; e hum tanto globosa (subrotunda) no bunias.lobadalanceoladaVagem (legumen), he huma especie de pericarpo bivalve mais ou menos
oblongo, com duas suturas, e com as sementes apegadas so à da parte de
cima (o tremoço, fava, feijaõ, ervilha, e outras leguminosas) Nota
A
vagem ordinariamente naõ tem partimento algum e consta de huma so
cellula; contudo na canafistula, e suas congéneres a vagem tem
muitos partimentos transversaes ás volvulas, e as especies de
astragalus tem duas cellulas. Nos chamamos legumes ás sementes, que
nos servem de alimento, e saõ contidas em vagens.
A vagem he redondeada (rotundatum), no astragalus); linear ou da mesma largura ao longo [Página 174] (lineare), na galega; roliça (teres), no lotus; rhomboidal (rhombeum), no restaboy; turgida (turgidum), quando he concava, vesiculosa, e quasi todo o seu espaço interno he occupado palas sementes, como no ervanço e restaboy; infunado (inflatum), quando he concava, vesiculosa, e a maior parte do espaço interno naõ he occupado pelas sementes, como na colutea arborescens; encaracolada (spirale, s. cochleatum), na medicago polymorpha; retorcida (contortum), na medicago sativa; articulada (articulatum), no hedysarum; torulosa (torulosum, s. isthmis interceptum), quando tem torulos que parecem estar articulados ou adunados huns aos outros nos gorgilos (isthmi), que saõ os entrevallos estreitos entre os torulos (como, no scorpiurus).
[Página 174] Follilho (folliculus, s. conceptaculum), he huma especie de pericarpo
concavo, de huma so cellula oblonga, e ordinariamente de huma Nota
He raro que o follilho seja bivalve, ou se rasgue em duas
partes: como nelle naõ ha vestigio, nem sinal algum de
sutura, as linhas dos rasgos longitudinaes por onde se abre
sao indeterminadas, e me parece que porisso somente se podem
admittir nelle valvulas bastardas.
Drupa (drupa), he huma especie de pericarpo [Página 175] sem valvulas nem suturas, carnudo Nota
Alguns Botanicos querem que a drupa seja huma especie de
baga, e com effeito Linneo parece tela confundido taõbem com
as bagas, porque nem sempre attendeo á unidade da semente
nem á qualidade dos seus tegumentos ou a grossura da polpa para as destinguir, como se vê na
descripçaõ dos fructos do laurus, cornus, mespilus,
&c.
Pomo (pomum), he huma especie de pericarpo. sem valvulas, polposo, e que
contem no centro, ou interior huma capsula (a pera, maçaan, e melaõ). O
pomo he taõbem chamado fructo de pevide, mas esta denominaçaõ he vaga,
por convir taõbem a al gumas bagas. Diz-se ser: turbinado
(turpinatum), na pera; globoso (globosum), na maçaan; umbilicado (umbilicatum), quando tem no topo hum embigo
(umbilicus fructûs), isto he, huma cavidade que foy receptaculo da
flor, e he ordinariamente guarnecida do calyz persistente, como na
maçaan e pera. A capsula interna differe, segundo os diversos generos de plantas, no
numero de suas cellulas; no pepino consta de tres, na pera tem
cinco, e na romaan nove Nota
A romaan parece ser huma especie particular de pericarpo, por
meyo do qual a natureza passa dos pomos às bagas; este
fructo sendo em parte huma baga composta coberta em razaõ
dos muitos bagos monospermos que contem, e em parte hum pomo
em razaõ da sua grossa casca inteiriça, e capsula
interna.
Baga (bacca), he segundo Linneo, huma especie de pericarpo sem valvulas,
polposo, e que contem de ordinario sementes dispersas no bagulho (semina
nidulantia), como a uva, murtinhos, uva espim, e groselha. Naõ obstante
ser inteira e naõ ter val vulas, pode contudo ter cellulas, e diz-se
ser: de huma so cellula, de duas, tres, quatro, &e. (uni- bi- tri-
quadrilacularis, &c.). Se tem huma so semente diz-se ser:
monosperma (monosperma), e lhe daõ taõbem o nome de acino Nota
Este termo tem huma significaçaõ bastantemente vaga entre os
Botanicos, porquanto huns o applicaõ as bagas monospermas
conglomeradas, como acima disse, outros usaõ delle para
exprimir qualquer sorte de bagas dispostas densamente em
cacho, como as das videiras, alfeneiro, groselheira,
&c.; os antigos indicavaõ com elle as bagas de duas ou
mais sementes como as das uvas, e alguns medicos o tomaõ
taõbem pelas sementes ou graans das bagas, que dizem ser,
exacinatae, quando saõ expurgadas das dictas graans.
Linneo fallando das bagas em geral diz, que humas saõ proprias, outras
bastardas ou improprias; que huma baga propria era hum pericarpo
tornado fructo succulento , e que a
bastarda podia ser qualquer outra parte do fructo; depois dá por
exemplo das bagas improprias humas succulentas ,
outras seccas, formadas pelo calyz, corolla, receptaculo, sementes,
arillo, nectario, capsulas, follilhos, vagens, e pinhas Nota
Vej.
Phil. Botan. pag. 75.Nota
Eu considero aqui a baga no tempo da
sua madureza; para fixar as ideas sobre os fructos em geral, e
em particular, he precizo attender ao seu estado de fecundaçaõ,
madureza, e germinaçaõ, e em quanto os botanicos naõ seguirem
este parecer, sempre daraõ delles nocoẽs indeterminadas.Nota
Osseo; isto a fará destinguir da drupa, que contem huma so
semente com o dicto tegumento lenhoso e durissimo. Linneo admitte algumas vezes drupas de mais de huma semente,
como se vè na bassia, cornus, &c., e taõbem bagas
monospermas com caroços, como no çumagre e viburnum; quem
admittir esta theoria naõ deve fazer differença entre as
bagas e drupas. Nota
Nisto se distingue de alguns follilhos succulentos . Nota
A analogia, que tem o prasium com as labiadas gymnospermas,
mostra claramente que o tegumento externo dos seus fructos
he hum tegumento proprio de sementes nuas, e naõ accessivo:
no evonymus alem da capsula as sementes tem duas laminas ou
tegumentos proprios, dos quaes o exterior he mais grosso e succulento , como muitas
vezes tenho observado.
Os termos de bagas seccas, e de drupas seccas naõ mereciaõ de ser
usados em Botanica, elles saõ oppostos ás ideas que se tem
ordinariamente das bagas, e dos fructos de caroço, servem de
confusaõ aos principiantes, e de ambiguidade ainda aos que ja estaõ
adiantados Nota
Os que compararem os fructos do coqueiro, xanthium, &c. a
que Linneo chama drupas seccas poderaõ convencerse desta
verdade. Nota
Este termo he novo segundo a
accepçaõ em que o tomo aqui; mas naõ he novo entre os Botanicos;
o Dr. Scopoli usou delle para signifcar fructos de tres
tegumentos, segundo a sua particular theoria.Nota
Segundo Linneo as nozes reclusas dentro de huma capsula,
baga, ou drupa saõ sementes; outras vezes sem serem reclusas em
pericarpo naõ deixaõ de ser sementes, como as avellaans e
bolotas; outras vezes emfim constituem hum pericarpo, como no
esparto e ambrosia.
Pinha (strobilus) Nota
Daõ-lhe taõbem o nome de conus; mas este
termo he applicado pomente às pinhas de escamas grossas, e
lenhosas, como as do piniheiro. Eu ajuntei na descripçaõ da
pinha os termos quasi lenhosas, para comprehender as do zimbro,
ephedra e outras semelhantes.Nota
Em todos os
fructos destas plantas o pericarpo he nullo; Linneo aindaque
deixou de declarar no zimbro, e thuya esta circumstancia, a
analogia dos seus fructos com os do acypreste, ephedra, &c.
nos assegura que elles naõ tem verdadeiro pericarpo.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
O numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
A semente (semen), considerada no seu estado de
perfeiçaõ, e plena madureza, he hum ovo vegetal Nota
A opiniaõ de
considerar as sementes dos vegetaes, como ovos he antiquissima,
e foy a de Empedocles, Hippocrates, Aristoteles, Theophrasto,
&c. Orpheo e Pythagoras celebraraõ o ovo como o primordia de
todas as geraçoẽs, e se diz que entre os antigos Egypcios e
Syrios houvera huma tradiçaõ de que os seus deoses tinhaõ
nascido de ovos.Nota
Alguns descrevem taõbem a semente
ser: hum corpo organico fecundado em que permina a
fructificaçaõ, e o crescimento da parte donde se desapegou, o
que contem compendiosamente debaxo dos seus proprios tegumentas
huma nova planta.Nota
Saõ os seus
tegumentos proprios.Nota
As opinioẽs dos
physiologistas a respeito do tempo em que a plantula seminal
começou a existir nos ovulos vegetaes podem geralmente ser
reduzidas a duas, a saber: a dos que pertendem que a plantula
seminal entra no ovulo no tempo da fecundaçaõ, e a dos que dizem
que ella existe no ovulo antes do dicto tempo. Entre os que
seguem a primeira opiniaõ alguns pertendem que o po das antheras seja hum montaõ de plantulas seminaes
minimas, e subtilissimas que passaõ aos ovulos pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma; Pontedera dizia que
estas plantulas subtilissimas desciaõ pelo filete do estame
ao receptaculo, e que deste passava aos ovulos; Blaire
pensava que as dictas plantulas cahiaõ das antheras nos nectarios e passavaõ destes aos
ovulos; outros asseguraraõ ter visto no pó das antheras hum montaõ de vermes subtilissimos, e
pensaraõ que elles passavaõ aos ovulos e constituiaõ a
plantula seminal; outros defenderaõ que a substancia oleosa
das antheras , e estigmas reunida fazia hum mixto
particular, o qual descendo aos ovulos nelles se vivificava,
e constituia emfim em cada hum delles huma plantula
seminal. Dos que seguem a existencia da plantula seminal antes da
madureza das antheras , huns pertendem que a dicta
plantula para ser concebida naõ preciza de modo algum do pò
das antheras , e que quando muito elle so pode servir
para à sua nutriçaõ, que ella existe por epigenesia, isto he
por huma geraçaõ propria; e sem acto de copula, sendo o seu
nascimento meramente divido a huma virtude innata ao vegetal
materno, e reunida com a faculdade vegetativa; elles
confirmaõ esta assersaõ com as experiencias do sabio abbade
Spalanzani, que assegura ter observado que o linho canamo,
espinafres, e abobaras lhe deraõ sementes perfeitas, naõ
obstante ter separado as plantas masculinas das femininas, e
ter castrado todas as flores masculinas nas abobaras. Outros dizem que a plantula seminal preexiste no humor
gelatinoso de ovulo vegetal, e de tal sorte ja organizada,
que he susceptivel de movimentos vitaes por meyo da aura que
deve exhalar das antheras , e de huma substancia
subtil que se acha no pistillo; outros com o celebre Haller
dizem que ella he hum feto, que jaz no ovulo, como
adormentado, mas que pode contudo ser despertado pelos
effluvios subtilissimos, e cheirosos, que entrando pelas
ramificaçoẽs do estylete ou estigma o irritaõ, excitando
nelle hum movimento novo mais forte do que aquelle que tinha
dantes; e que emfim sem embargo que este feto seja taõ
minimo que senaõ pode perceber, naõ se deve porisso negar
(cum ab invisibilitate ad inexistentiam minime concludendum
sit). Ainda que esta theoria parece ser de todas a mais
provavel, naõ deixa contudo de ter ainda algumas obscuridades,
occasionnadas pela difficuldade que havera sempre em saber o
modo com que obra a aura seminal sobre o feto preexistente e o
estado organico em que ella o acha. Nòs aindaque conheçamos
que os ovulos saõ originarios dos gomos naõ sabemos contudo
porque razaõ hum gomo muda de indole, quando passa a ser hum
primordio de fructo, e deixa de crescer, ou so tem huma
vegetaçaõ imperfeita, quando naõ he fecundado pela aura do
pò das antheras . Nota
Alguns
horteloẽs dizem que as sementes das figueiras femininas da
Europa, sem embargo de naõ terem sido fecundadas, germinaõ, e
reproduzem hum individuo da sua especie; eu duvido muito do
facto, mas suppondo que seja certo, naõ me parece que o dicto
novo individuo possa dar sementes perfeitas, e capazes de
reproduzir a sua especie. Linneo conjectura que a bananeira
chamada musa paradisiaca he huma planta hybrida ou mulina, filha
da bananeira bihai, e de pay incognito; as suas flores masculas
naõ fecundaõ as flores femininas, e ainda que dê bananas
maduras, nunca deo sementes perfeitas, de modo que so se
multiplica por meyo de raizes.
A essensia da semente consiste em ter huma plantula seminal, ou
principio germinativo fecundado; as suas propriedades podem ser
reduzidas às circumstancias de constar de cotylédones, tegumentos,
hilo, e terminar todo o augmento vegetativo do ponto medullar, a que
ella ou o seu receptaculo estiveraõ apegados Nota
Toda a planta
annual ou biennal depois da fructificaçaõ naõ cresce mais, antes
começa a enfraquecer athe que emfim perece pouco tempo depois;
as que saõ vivaces ou o seu tronco perece totalmente depois da
fructificaçaõ, quando he herbaceo, ou se he senhoso deixa de
crescer no ponto em que fructificou.
Pela razaõ de ter huma plantula seminal fecundada, as sementes naõ sò
se destinguem das estereis, mas ainda dos gomos e bolbos Nota
Alem disto huma plantula seminal separada das cotylédones
jamais se podera enxertar, como se pode hum gomo arrancado
da arvore . Nota
O Dr. Boehmer he
de parecer que a essensia das sementes consiste naõ so na
plantula seminal, mas ainda nas cotylédones e hilo, censurando o
Dr. Reuss (Comment. de Plantar. sem. p. 19) de ter considerado
estas partes como menos essensiaes á semente (Comp. Rot. pag.
105.) Quem naõ admittir cotylédones nas sementes dos musgos
pensará sempre como o Dr. Reuss, e quem as admittir em todas as
sementes nem sempre pensará como o Dr. Boehmer; bastará dizer a
este respeito, que ainda que em todos os homens por ex. haja
risibilidade, nervos, coraçaõ, &c. a essensia do homem naõ
consiste contudo na risibilidade, nervos, coraçaõ,
&e.Nota
Eu tenho contudo observado algumas sementes perfeitas
nesta sorte de umbrellas, e penso que o polygonum viviparum e
bistorta nem sempre daõ somente bolbos, como alguns
dizem.
Todas as plantas que naõ saõ mulinas (hybrida) podem Nota
A opinaiõ hoje geralmente recebida
entre os botanicos he que todas as plantas perfeitas e
imperfeitas daõ sementes, e que algumas dellas costumaõ
taõbem multiplicar-se por bolbos, e gomos caulinos
decadentes. Mas nem todos convem que ellas sejaõ
fecundadas por meyo de copula floral. Sceheffer diz que a
propagaçaõ dos fungos he sujeita a leys occultas; que as
suas sementes naõ nasceraõ como as das plantas perfeitas, e
que saõ naturalmente capazes de germinar, como os bolbos,
sem o concurso da materia fecundante . Gmelin (Histor. Fucor.) diz taõbem, que as sementes dos fucos
tem huma fecundidade innata, naõ assentindo ao que Reaumur tinha
assegurado a respeito das sementes fecundadas em algumas
especies, que tinha observado. Koelreuter publicou contudo em
1777 hum grande numero de observaçoẽs, com que prova que todas
as familias das plantas cryptogamicas daõ flores com organos
sexuaes, e sementes fecundadas. Hedwig descobrio estames e
pistillos perfeitos nos musgos, e assegura demais disso ter
observado tegumentos e cotylédones nas suas sementes. Linneo
admittia somente nestas sementes huma plumula, e lhes chamava
propagens, mas segundo Necker, Boehmer e Haller estas propagens
naõ saõ sementes, mas verdadeiros gomos pelos quaes os musgos se
podem igualmente multiplicar.
Os tegumentos proprios da semente (tegumenta), são a substancia membranosa ,
que constituia parte dos ovulos do pistillo antes da fecundaçaõ, e
que depois della tomando mais forte consistencia Nota
Os tegumentos
internos tem sempre huma consistencia mais branda do que os
externos, estes saõ algumas vezes coriaceos como se vê nas
pevides da pera, melaõ, e laranja, outras vezes saõ lenhosos e
durissimos, como os das nozes.Nota
Ainda que separemos com toda a
cautella os tegumentos proprios de huma semente, a plantula
seminal nem porisso deixa ordinariamente de perecer; e se por
acazo succede germinar, ou vegeta pouco tempo perecendo antes de
fructificar, ou se chega a fructificar os seus fructos e todas
as suas outras partes seraõ mediocres, debeis, enfezadas e
prezentaraõ sempre huma constituiçaõ degenerada, e bem
differente da que teraõ outras da mesma especie, originarias de
sementes illésas, semeadas ao mesmo tempo, e no mesmo terreno,
ou lugar.Nota
Este termo
he igualmente dado por alguns autores ao tegumento externo
principalmente quando a semente naõ esta ainda fecundada, mas os
que usaõ delle com propriedade so o appliçaõ ao tegumento
interno delgado, e o comparaõ à vesicula que se acha dentro da
casca dos ovos da gallinha e outras aves.Nota
O termo epidermis, de que usa Linneo e outros modernos, he
menos proprio que o de cortex (de que usa Camerario), muito
principalmente se o applicamos á casca das nozes ou caroços; a
epiderme dos animaes, e dos troncos dos vegetaes he sempre mais
delgada do que o tegumento interno immediato, o que jamais
succede ser a denominada epidermis das sementes; para que este
termo fosse usado com propriedade devera so significar a
cuticula da casca ou do tegumento externo das sementes.Nota
Como o trigo, centeio, e sementes das plantas
cryptogamicas.Nota
Como a
borragem, cynoglossa, nozes e caroços.Nota
Boehmer naõ admitte esta depuraçaõ dos
succos na casca, como quer Malpighi, dizendo que todos os succos
que passaõ de cotyledones entraõ pelo hilo ou pelas fendas das
valvulas das sementes (quando existem como v. g. nalgumas
nozes), confirmando isto com as suas proprias observaçoẽs;
porquanto tendo encravado na terra algumas sementes, ficando o
hilo fora della, e tendo depois com cautella regado a terra (mas
de nenhum modo o hilo) nenhuma dellas germinou, antes todas
pereceraõ, succedendo tudo aliás pelo contrario, quando encravou
o hilo na terra (Comm. de Pl. Sem. p. 351.)
Na superficie do tegumento externo da semente ha sempre huma pequena
cicatriz mais ou menos apparente, a que chamaõ hilo ou empigo da semente
(hilus, s. umbilicus seminis); esta cicatriz he a parte por onde a
semente esteve apegada á cordinha umbilical, ou ao seu receptaculo
proprio, he o lugar por onde entrou a sua nutriçaõ, e por onde na
germinaçaõ costuma sahir a radicula; o embigo da semente he assaz
visivel no feijaõ, staphylea, cardiospermum, e ainda mesmo nos caroços,
e nozes; algumas vezes he corado como se vè nas favas. A cordinha
umbilical (funiculus umbilicalis), he hum pequeno [Página 190] fio ordinariamente curto, apegado por huma extremidade á semente
e por outra ao receptaculo proprio; a extremidade, que se acha
apegada á semente pelo hilo, continua athe á plantula seminal
servindo lhe de couductor da sua fecundaçaõ e nutriçaõ Nota
Sem embargo de que a cordinha umbilical seja, em algumas
sementes, de huma fineza capillar, naõ se pode contudo negar
que nella ha ao menos tres sortes de vazos 1º. os que servem
á sua propria nutriçaõ, 2º os que levaõ a nutriçaõ á
plantula seminal e cotylédones, 3º os que servem a levar a
materia fecundante , os quaes segundo Adanson
saõ verdadeiras trachéas. Hebenstreit diz que as sementes que se achaõ reelusas em
pericarpos succulentos tiraõ a sua
nutriçaõ da polpa sumarenta; mas esta assersaõ
naõ se oppoem á theoria de que ás sementes saõ nutridas por
meyo do cordaõ umbilical; nesta circumstancia pode ser que
os tegumentos proprios recebaõ parte da sua nutriçaõ
immediatamente da polpa , e parte por meyo do
cordaõ umbilical, mas a plantula seminal, e cotyledones
recebem toda a sua nutriçaõ immediatamente do cordaõ
umbilical, e naõ immediatamente da casca contigua á polpa succulenta . A
cordinha umbilical serve de conduzir a nutriçaõ naõ so ás partes
contidas mas ainda ás continentes ou tegumentos proprios das
sementes, como se observa nas leguminosas. Os succos nutritivos
naõ obstante terem recebido huma preparaçaõ particular antes de
entrar nas sementes, saõ contudo ainda depois novamente nellas
elaborados; mas a elaboraçaõ feita nas cotyledones he bem
diversa da que se faz nos tegumentos, como bem se reconhece
pelos diversos cheiros, saboras, e virtudes que se observaõ
nestas partes.Nota
Boehmer conjectura que em todas as
sementes ha sempre exteriormente hum cordaõ umbilical, sem
exceptuar as das pinhas, umbrelladas, labiadas, asperifolias,
compostas e outras muitas sementes nuas encravadas nos
receptaculos, allegando a observaçaõ de Schmidelio que diz ter
visto no receptaculo da sideritis montana quatro tubulos
fibrosos apegados às sementes; este parecer, ainda que he
bastantemente provavel, naõ deixa de ter contra si ainda algumas
difficuldades; nas sementes nuas de base larga, como por ex. nas
bolotas, e avellaans eu nunca jamais pude observar hum cordaõ
umbilical exterior (ainda que senaõ pode negar que haja hum
interno); a larga cicatriz umbilical que se vè na base destas, e
outras semelhantes sementes me faz conjecturar que ha no
receptaculo hum montaõ de vazos que fazem as funçoẽs de
umbilicaes externos, e que estes reunindo-se depois na casca da
semente formaõ hum so cordaõ umbilical interno.
Dentro da vesicula da semente ha duas partes de differente volume,
apegadas huma a outra; a maior occupa o lugar externo, e delle depende a
figura e grandeza da semente; a menor esta situada no meyo ou
extremidade da precedente e he o primordio de hum novo vegetal. A
primeira he chamada cotylédone (cotylédon) Nota
Este nome he mais usado do que o de medulla,
secundina, platenta, lobus seminalis, e folium seminale, que
alguns autores lhe deraõ.Nota
Alguns
Botanicos chamaõ-lhe taõbem embryaõ, ponto vegetativo, e gomo da
semente (embryo, punctum vegetans, gemma seminis); o de plantula
seminal no meu parecer he de todos o melhor.Nota
Cesalpino chamava-lhe
germe (germen), este nome foy depois applicado indestinctamente
tanto á plumula, como á plantula seminal; mas depois que Linneo
o applicou ultimamente á parte inferior do pistillo, ou ao tenro
fructo no estado da sua fecundaçaõ, as suas antigas
significaçoẽs saõ pouco usadas.Nota
Gledistch so lhe chama rostrilho em quanto està na semente
sem germinar; este mesmo rostrilho, segundo elle, he o
cordaõ umbilical, quando a semente esra apegada ao seu
receptaculo proprio, e he a radicula, quando a semente
começa a germinar; com effeito nalgumas sementes, como v. g.
nos feijoẽs, vê-se antes do estado de germinasaõ huma
plantula seminal composta de duas partes bem differentes, as
quaes se poderaõ chamar germe e rostrilho, visto que o nome
de plumula, e radicula so lhes convem com propriedade no
estado de germinaçaõ.
As cotyledones, em quanto naõ começa a germinaçaõ, servem juntamente com
os tegumentos de fomentar a plantula seminal contra os frios, e de
preservala de outras injurias externas; saõ de natureza mais ou menos
oleosa, e contem em si huma subtancia mucilaginosa propria para nutrir a
plantula no estado de germinaçaõ, em quanto ella naõ põde tirar da terra
os succos sufficientes para á sua firme subsistencia; esta substancia he
assaz analoga ao leite com que os animaes viviparos nutrem seus tenros
filhos, e porisso alguns physiologistas compararaõ as cotylédones com as
tetas dos dictos animaes, e lhes chamaraõ corpos mammarios. Grevv,
Malpighi, Bonet, e outros physiologistas convem unanimemente que ha nas
cotylédones hum grande tecido vasculoso, cujos vasos huns saõ destinados
à preparaçaõ dos dictos succos lacteos, outros a transmittilos à nova
plantula, a que estaõ apegadas. No tempo da madureza das sementes,
observa-se em cada huma dellas ou [Página 193] huma so cotylédone inteiriça Nota
Linneo seguindo o parecer dos
antingos, diz que ha sementes que tem mais de duas cotyledones;
Royer, Meese, e Ludwig reduzem todas as sementes a
monocotyledones, e dicotyledones; o Dr. Murray he do mesmo
sentimento, e ainda que usou do nome de polycotyledones, diz
contudo que presume que estas saõ todas dicotyledones. Esta
materia merece de ser fundada em novas observaçoẽs, que devem
ser feitas principalmente no estado da germinaçaõ combinado com
o da madureza das sementes.Nota
A situaçaõ da plantula seminal na semente pode
servir de huma excellente nota caracteristica, pela razaõ de naõ
ser variavel; mas para isso, he precizo sempre suppor duas
partes oppostas na plantula seminal, a saber, germe e rostrilho;
a primeira he o ponto germinativo, a que alguns chamaõ gomo da
semente, e que passa a ser plumula; a segunda he a parte opposta
que passa a ser radicula; taõbem he precizo suppor base, topo, e
lados; a base he o lugar do hilo, o topo o lugar opposto ao
hilo, e os lados as partes ou faces que ficaõ entre a base e
topo da semente.Nota
Este foy o
motivo porque Meese dividio as cotylédones em visiveis e
invisiveis, sendo estas as que se corrompem debaxo da terra, e
aquellas as que sahem fora della.Nota
Ainda que nas avellaans a nova
planta tem ás vezes hum pé de alto, e as cotylédones estaõ ainda
inteiras dentro da noz, naõ so consomem contudo dentro
della.Nota
Penso que foy pela razaõ destes dois uzos que Meese lhes
chamou cotylédones bastardas ou folhiformes
(pseudo-cotyledones), o que vale mais do que dizer com
Linneo "que cotylédones e folhas seminaes saõ synonymos." Vej. Phil.
Botan. pag. 89.
A semente pode ser considerada, ou como simplez, ou como composta: a
simplez he aquella, cujos tegumentos proprios envolvem huma ou mais
cotylédones com huma so plantula seminal, como v. g. as da maçaan,
alecrim, &c; a composta he a que tem dentro do seu tegumento
proprio externo duas ou mais sementes simplez, como v. g. a [Página 195] cerinthe Nota
Todas as especies deste genero daõ duas sementes
compostas, e cada semente composta contem duas sementes simplez;
a composiçaõ consiste em haver dois tegumentos externos adunados
formando duas cellulas com hum partimento, e contendo em cada
huma das cellulas huma so semente simplez.Nota
Eu tenho observado muitas vezes duas
sementes simplez perfeitas dentro da casca lenhosa e unicellular
das amendoas, ainda que commumente este tegumento envolve huma
so plantula seminal com duas cotylédones, isto he, huma sò
semente simplez.Nota
No seu parecer as da
nauclea e cerinthe saõ bicellulares, as da proserpinaca e
nitraria tricellulares, e as da tetragonia e nolana
quadricellulares. O Dr. Boehmer he inteiramente opposto, a este
sentimento, dizendo que todas as sementes saõ unicellulares, que
a unidade da semente consiste em ter huma so plantula seminal
reclusa em huma so cellula, e que todo o tegumento, em que ha
duas ou mais cellulas, duas ou mais sementes (simplez), he hum
verdadeiro pericarpo. Mas esta opiniaõ do Dr. Boehmer naõ parece
ser geralmente conforme á natureza das sementes; he verdade que
todo o tegumento interno, vesiculoso, e immediato he
unicellular, e que por conseguinte se pode dizer que
relativamente a elle toda a semente he unicellular, mas naõ se
pode dizer que todo o tegumento externo proprio da semente seja
sempre unicellular, ou que quando o naõ seja passe a ser
pericarpo: na cerinthe por ex, as tegumentos externos das
sementes naõ saõ nem unicellulares, nem merecem o nome de
pericarpos; a analogia que elles tem com os tegumentos das
sementes dos outros generas da mesma familia, e o naõ se poderem
abrir sem lezar a vegeteçaõ futura da plantula seminal indicaõ
bem claramente, que elles saõ tegumentos proprios da semente, e
como saõ bicellulares, naõ me parece improprio dizer em razaõ
desta circumstancia que ha sementes compostas
bicellulares.
Quando o tegumento externo da semente he durissimo, lenhoso, grosso á
proporçaõ do tegumento [Página 196] interno e susceptivel de quebrarse em pedaços, quando o batemos
ou apertamos com violencia, a semente he denominada nóz ou carôço
(nux), como saõ v. g. as dos damascos e ginjas, os pinhoens,
avellaans, &c. Nota
As nozes ou saõ cobertas por hum pericarpo,
como nas drupas, ou descobertas e sem pericarpo, como saõ as
bolotas e avellaans. Segundo o Dr. Boehmer o tegumento lenhoso,
e durissimo das nozes he hum verdadeiro pericarpo, que se abre
sempre em valvulas determinadamente; mas eu nunca vi que as
bolotas, e avellaans se abrissem determinadamente em valvulas,
nem lhes pude jamais observar suturas; alem disso como os
tegumentos duros de todas as nozes persistem athe á germinaçaõ
fechados, e que na viosencia que fizermos para os abrir
arriscamos de lesar a vegeteçaõ futura, pareceme que naõ ha
razaõ para deixar de os reconhecer por tegumentos proprios das
sementes, persuadindome que as avellaans e bolotas merecem tanto
o nome de sementes nuas de pericarpo, como as da cynoglossa, ás
quaes o Dr. Boehmer naõ recusou de dar o dicto nome.
Quando na semente ha hum tegumento secco, especializado, e que senaõ
abre espontaneamente athe á germinaçaõ, nem o podemos separar sem
impedir ou causar dano á vegetaçaõ, da plantula seminal, deve ser
chamado arillo (arillus) Nota
Este termo era pouco usado entre os
antigos, que segundo me parece o empregavaõ para significar as
graans das uvas. Ludwig usou delle para significar o
tegumento succulento de
algumas sementes, e Linneo o substituio algumas vezes ao de
calyptra, de que tinha usado Tournefort, dando-lhe alem
disso huma nova significaçaõ indeterminada. Nota
Na
supposiçaõ de que senaõ admittaõ bagas seccas.Nota
Vej. Philos. Botan. pag. 54.Nota
Vej. Amaenit. Acad.
vol. VI, pag. 312.Nota
O Dr. Boehmer (Comm. de Pl. sem pag. 41.) diz que ser
tegumento proprio, e separarse espontaneamente saõ ideas que
senaõ consciliaõ (porque esta ultima condiçaõ so pertence
aos pericarpos); e que se todos os tegumentos especializados
(specialia) saõ arillos, o célebre reformador da Botanica
devera dar este termo aos das sementes do gallium,
mirabilis, espinafre, coix, panicum, tetracera, astrantia,
zanichelia, tricosanthes, pedicularis, adansonia, clusia,
martynta, blitum, samyda, &c. o que omittio contudo no
seu tractado dos generos dos vegetaes. O Dr. Boehmer expoem depois a theoria que lhe pareceo ser
mais adequada a respeito das sementes cobertas, nuas, e
arilladas; elle admitte na cynoglossa e mirabilis sementes
nuas com tegumentos accessivos, e diz que as arilladas
deviaõ ser as que fossem contidas dentro de hum pericarpo, e
que tivessem hum tegumento accessivo principalmente molle ou succulento , como os
evanymus; eu naõ adoptei esta theoria, porque naõ reconheço
tegumento algum accessivo em sementes nuas, nem arillo em
sementes que tem dois tegumentos proprios molles, como o
evonymus. Nota
Do caffé, pepino, fraxinella, cynoglossa,
salvadora, evonymus, gladiolus, royena, corypha, monnieria,
cupanìa, diosna, celastrus, e d'algumas malvaceas, como da
malachra, malva, althaea, alcea, lavatera, e malope. Vej.
Philos. Bot. p. 54 & Genera plantar.
As sementes em geral saõ divididas em nuas e cobertas. Rigorosamente naõ ha semente alguma nua, cuja plantula seminal, e cotylédones naõ sejaõ envolvidas ao menos em hum tegumento; mas os botanicos costumaõ chamar sementes nuas (nuda), aquellas que tem somente tegumentos proprios, como as labiadas gymnospermas, umbrelladas, compostas, &c.; e cobertas (recta) aquellas que estaõ dentro de hum pericarpo.
As sementes saõ algumas vezes felpudas na base (basi villosa), ou
nella Nota
Linneo dá algumas vezes aos vellos d'algumas destas
sementes, o nome de pappilho; mas impropriamente, porque o
pappilho so he proprio do topo da semente.
O topo das sementes he muitas vezes guarnecido de differentes sortes
de ornatos, e producçoẽs a que se pode dar em geral o nome de
corutilho Nota
Apicelum, quasi apicem plus minusve
celans.
A coroa (corona, s. coronula), he o calyculo [Página 199] superior persistente que rodea a borda do topo da semente, e humas vezes he enteiriço, outras vezes palheaceo ou denticulado, sendo composto de dois, tres, quatro, cinco, ou mais palhicos ou denticulos (a saudade, gyrasol, bidens, coreopsis, lagaecia, e catananche. As sementes que tem esta sorte de coroa, são as que se podem denominar rigorosamente coroadas (coronata).
[Página 199]O pappilho (pappus) he huma especie de penacho felpudo ou plumoso, que se
acha no topo das sementes e as faz voar (a alface, e escorcioneira). Diz-se ser: pediculado (stipitatus), quando tem hum pequeno pe ou
esteio que o eleva, como na escorcioneira; rente (sessilis), se naõ
tem este esteio, mas está immediatamente posto sobre o topo da
semente como na serralha; peludo ou capillar (pilosus, s.
capillaris), se consta de felpa ou pelos indivisos (a alface,
serralha); plumoso (plumosus), se os pelos saõ divididos em outros
menores finissimos de modo que se assemelhaõ a huma pluma (a
escorcioneira); palheaceo ou aristado (palencens, s. aristatus),
segundo Linneo, se consta de palhas ou denticulos estreitos Nota
O Dr. Boehmer argûe taõbem Linneo de dar o nome de pappilho a
semelhantes producçoẽs contra a definiçaõ que dera deste
corutilho, e diz que somento se lhes pode dar com
propriedade o nome de denticuladas ou guarnecidas de
palhiços. Eu pela mesma razaõ naõ admito, pappilhos palheaceos nem
aristados, e os reduzo todos ao termo de coroa as sementes
aristadas propriamente taes saõ as que tem praganas. Nota
Ha alguma sementes que tem no topo somente huma curtissima
felpa, como a knautia e echinops, e lhe daõ porisso o nome
de sementes com hum semipappilho ou pappilho obsoleto.
Os denticulos e palhas saõ producçoẽs mais ou menos chatas, e agudas que se achaõ na borda do topo da semente, e constituem o que Linneo chama pappilho palheaceo.
A cauda das sementes (cauda), segundo Linneo he hum fio que se eleva,
ou sahe do topo da semente e parece ser ordinariamente a mesma coiza
que o estylete persistente e engrandecido, como na pulsatilla,
clematis, petiveria, e calycanthus Nota
Boehmer diz que semelhantes sementes devem ser denominadas
antes guarnecidas do estylete (stylo instructa), assim como
as sementes na ruppia saõ denominadas guarnecidas do estigma
a cauda segudo elle he huma producçaõ accessiva differente
do estylete.
A pragana das sementes (arista), segundo Linneo parece ser qualquer longa cauda filiforme; mas segundo Boehmer he com maior propriedade o fio que termina o casulo persistente que fica servindo de tegumento a semente das gramas, como na cevada.
O rostro (rostrum), he a casca da sementei prolongada em forma assovelada, ou hum tanto conica (a agulha de pastor). As sementes que tem hum rostro saõ chamadas rostradas (rostrata).
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris). A ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.
Ala das sementes (ala), he huma producçaõ [Página 201] membranosa , que se acha no topo das sementes (cedrela, melampodium, triopteris).[Página 201]membranosaA ala contudo he naõ so propria do topo da semente, mas taõbem dos seus lados, e as sementes que se denominaõ aladas (alata), ou guarnecidas de membranas (membranis instructa, marginata, s. alata), ordinariamente tem as alas membranosas nos seus lados, ou à roda de si, como no pinheiro, endro, betula, laserpitium, ligusticum, goiveiro, &c.membranosasO numero das sementes varia muito, e não se sabe muitas vezes qual he o que mais naturalmente daõ algumas bagas, drupas, pomos, e capsulas: contudo quando a maior parte das bagas e outros pericarpos de huma especie ou genero he observada dar hum numero determinado de huma, duas, tres, quatro sementes, &c. ou quando geralmente as dictas bagas e quaesquer outros pericarpos daõ muitas, naõ se deve jamais omittir esta circumstancia na sua descripçaõ. O mesmo deve entender-se a respeito das sementes nuas; nas labiadas e asperifolias por ex. como na hortelaan, alecrim, pulmonaria, cynoglossa, &c seria defeituoso deixar de fazer mençaõ das quatro sementes, que ellas tem ordinariamente.
Raramente costuma fazer-se mençaõ da grandeza das sementes, contudo comparaõ-se ás vezes com a flor ou pericarpo, e se dizem summamente grandes (maxima), como no coqueiro; muito pequenas ou muito miudas (minima, minutissima), como na campanula, urze, herva sancta, drosera, e orchideas.
A figura das sementes ordinariamente he constante, e merece o cuidado, de ser observada, e bem descripta. Ellas saõ globosas (globosa), nas ervilhas e [Página 202] mostarda; semiglobosas (hemisphaerica), no coentro; planas (plana), na açucena, e goiveiro; cordiformes (cordata), na medeola, e prenanthes; reniformes (reniformia), no alquequenje, feijaõ, e outras leguminosas; lunuladas (lunata), na elatine; rhomboidaes (rhomboidea), na alforva; encaracolladas (cochleata), na salsola; angulosas (angulata), se tem angulos ou esquinas; triangulares (triangularia) nas azedas e semprenoiva; quadrangulares (quadrangularia), no combretum; de cinco angulos (quinquangularia), na allionia; de seis angulos (sexangularia), na boerhaavia. As vezes achaõ-se nestes angulos algumas membranas que fazem as sementes ser aladas.
[Página 202]Quanto á superficie, as sementes dizem-se ser: lizas, ou glabras (laevia, s. glabra) no linho e alfarrobeira; ponteadas (punctata), no agrosthema, e alstroemeria; ciffradas ou assinaladas de ciffras ou lettras (characteribus notata), na rheedia; lanudas (lanata), no algodaõ, bombax, e reaumuria; rugosas (rugosa), no colchico, e acònito; escabrosas (scabra), na arruda, e nigella; estriadas (striata), no ammi, e athamanta; hispidas (hispida), na cenoira e geum; echinosas (echinata), na cynoglossa, myosotis, e caucalis. Quando a casca da semente he coriacea, ou cartilaginosa a semente tem a mesma denominaçaõ (callosum, s. cartilaginosum) (a laranja, irmaõ, pera, e melaõ). As sementes do lithospermum, avellaan e toda a casta de nozes ou caroços saõ chamãdas lenhosas (ossea, s. lignosa), em razaõ da dureza da sua casca.
A fertilidade das sementes he assaz notoria; as observaçoẽs tem mostrado
que de huma so semente [Página 203] de milho nascera huma planta, que num veraõ dera 2000 sementes, huma
de inula campana 3000, huma de gyrasol 4000, de papoila 32000, e de
herva sancta 40320. Alguns naturalistas saõ de parecer, em razaõ
destas Nota
Dodart observou que hum ulmeiro so em hum veraõ dera
329000 sementes.
O receptaculo Nota
Al. Thalamus, s. placenta.
Diz-se receptaculo da fructificaçaõ (receptaculum fructificationis), quando o
germe e os tegumentos da flor estaõ apegados a elle, como na açucena, cravo,
&c. Receptaculo da flor (recept. floris), quando as partes da flor estaõ
apegadas a elle, e naõ o germe, ou quando ellas estaõ sobrepostas ao germe,
como na abobara, melaõ, murta, hippuris, &c. Receptaculo do fructo
(recept. fructûs), quando tem apegada a si a base do germe Nota
O
receptaculo neste cazo he a extremidade do pedunculo adunada à base
do germe ou do fructo.
Receptaculo proprio ou parcial (proprium, s. partiale), he o lugar, a que
estaõ apegadas somente as partes de hum flosculo relativo, a hum
receptaculo commum, como na saudade Nota
Segundo Linneo, o receptaculo parcial pode ser relativo naõ so a
huma, mas a muitas fructificaçoẽs parciaes, que se achaõ no
mesmo receptaculo commum, como o dos flosculos da oedera,
sphaeranthus, gundelia, straebe, &c.
Receptaculo commum (commune), he o lugar, a que estaõ apegados muitos flosculos, e seus fructos approximados, como o do gyrasol, saudade, echinops, &c.
O receptaculo quanto á sua superficie diz-se ser: ponteado (punctatum), quando esta salpicado de pontos ou cavidades minimas, e he ao mesmo tempo nû (o dente de leaõ, e chrysanthemum); alveolar (alveolatum, s. favosum), quando consta de cellulas ou grandes cavidades hum tanto semelhantes às dos favos de mel, e nellas tem encravadas as sementes (onorpordum); felpudo (villosum), quando he guarnecido de felpa (o absinthio); peludo (pilosum), se tem pelos (a açafroa); sedeûdo (setosum), se he guarnecido de sedas (a bardana e centaurea); palheaceo (paleaceum), se he guarnecido de palhiços (palea), estes saõ humas pequenas laminas lineares, que se achaõ postas entre os flosculos (como na milfolha, almeiraõ, macella, &c.); nû (nudum), quando nelle senaõ achaõ vellos, pelos, sedas nem palhiços alguns (como no dente de leaõ).
Quanto à figura o receptaculo diz-se ser: plano (planum), na milfolha; convexo (convexum), se he quasi semigloboso, como na chamomilla; conico, [Página 205] (conicum) (na bonina, e macella). Elle se diz taõbem ainda ser concavo, assovelado, &c. (concavum, subulatum, &c.)
O receptaculo Nota
Al. Thalamus, s. placenta.
Diz-se receptaculo da fructificaçaõ (receptaculum fructificationis), quando o
germe e os tegumentos da flor estaõ apegados a elle, como na açucena, cravo,
&c. Receptaculo da flor (recept. floris), quando as partes da flor estaõ
apegadas a elle, e naõ o germe, ou quando ellas estaõ sobrepostas ao germe,
como na abobara, melaõ, murta, hippuris, &c. Receptaculo do fructo
(recept. fructûs), quando tem apegada a si a base do germe Nota
O
receptaculo neste cazo he a extremidade do pedunculo adunada à base
do germe ou do fructo.
Receptaculo proprio ou parcial (proprium, s. partiale), he o lugar, a que
estaõ apegadas somente as partes de hum flosculo relativo, a hum
receptaculo commum, como na saudade Nota
Segundo Linneo, o receptaculo parcial pode ser relativo naõ so a
huma, mas a muitas fructificaçoẽs parciaes, que se achaõ no
mesmo receptaculo commum, como o dos flosculos da oedera,
sphaeranthus, gundelia, straebe, &c.
Receptaculo commum (commune), he o lugar, a que estaõ apegados muitos flosculos, e seus fructos approximados, como o do gyrasol, saudade, echinops, &c.
O receptaculo quanto á sua superficie diz-se ser: ponteado (punctatum), quando esta salpicado de pontos ou cavidades minimas, e he ao mesmo tempo nû (o dente de leaõ, e chrysanthemum); alveolar (alveolatum, s. favosum), quando consta de cellulas ou grandes cavidades hum tanto semelhantes às dos favos de mel, e nellas tem encravadas as sementes (onorpordum); felpudo (villosum), quando he guarnecido de felpa (o absinthio); peludo (pilosum), se tem pelos (a açafroa); sedeûdo (setosum), se he guarnecido de sedas (a bardana e centaurea); palheaceo (paleaceum), se he guarnecido de palhiços (palea), estes saõ humas pequenas laminas lineares, que se achaõ postas entre os flosculos (como na milfolha, almeiraõ, macella, &c.); nû (nudum), quando nelle senaõ achaõ vellos, pelos, sedas nem palhiços alguns (como no dente de leaõ).
Quanto à figura o receptaculo diz-se ser: plano (planum), na milfolha; convexo (convexum), se he quasi semigloboso, como na chamomilla; conico, [Página 205] (conicum) (na bonina, e macella). Elle se diz taõbem ainda ser concavo, assovelado, &c. (concavum, subulatum, &c.)
[Página 205]A naturalidade ou estructura natural das flores (structura naturalis), he segundo Linneo a que se observa na maior parte dellas, e he opposta a estructura singularizada. As flores de huma estructura naturalissima tem o calyz, e corolla divididos em igual numero de lacinias (ordinariamente cinco); o seu calyz he menos aberto, exterior, menor do que a corolla, e involve o receptaculo, ao qual ella está innata; cada hum dos seus filetes he guarnecido na ponta de huma anthera, postos entre a corolla e o pistillo, levantados, e iguaes no comprimento ao pistillo, quando os tegumentos da flor saõ levantados. O pistillo está posto no centro, o germe tem no topo, hum ou mais estyletes levantados, e terminados por estigmas. Cahidos os organos sexuaes, o germe torna-se em hum pericarpo sostido pelo calyz. O receptaculo he acompanhado do calyz, e inferior ou sottoposto ao germe.
A estructura singularizada (structura singularis), he a que se observa em
muito poucos generos de flores, como he por ex. a do pé de bezerro, a da
salva, adoxa, eriocaulon, magnolia, &c. Nota
Taõbem se podem chamar
singularizadas as umbrellas bolbigeras de alguns alhos, as espigas do
polygonum viviparum, &c.
A naturalidade ou estructura natural das flores (structura naturalis), he segundo Linneo a que se observa na maior parte dellas, e he opposta a estructura singularizada. As flores de huma estructura naturalissima tem o calyz, e corolla divididos em igual numero de lacinias (ordinariamente cinco); o seu calyz he menos aberto, exterior, menor do que a corolla, e involve o receptaculo, ao qual ella está innata; cada hum dos seus filetes he guarnecido na ponta de huma anthera, postos entre a corolla e o pistillo, levantados, e iguaes no comprimento ao pistillo, quando os tegumentos da flor saõ levantados. O pistillo está posto no centro, o germe tem no topo, hum ou mais estyletes levantados, e terminados por estigmas. Cahidos os organos sexuaes, o germe torna-se em hum pericarpo sostido pelo calyz. O receptaculo he acompanhado do calyz, e inferior ou sottoposto ao germe.
A estructura singularizada (structura singularis), he a que se observa em
muito poucos generos de flores, como he por ex. a do pé de bezerro, a da
salva, adoxa, eriocaulon, magnolia, &c. Nota
Taõbem se podem chamar
singularizadas as umbrellas bolbigeras de alguns alhos, as espigas do
polygonum viviparum, &c.
O sexo das flores he estabelecido nos organos da fructificaçaõ chamados
estames e pistillo. As flores, ou flosculos relativamente ao seu sexo, saõ
susceptiveis de quatro destinçoẽs principaes, a saber, de hermaphroditas,
masculas, femininas, e neutras. As flores hermaphroditas (hermaphroditi),
a que alguns chamaõ taõbem bissexuaes Nota
Por terem os dois sexos
dentro da corolla ou calyz, e saõ oppostas ás unisexuaes (ou
relativas) que dentro delles tem organos somente masculos, ou
somente femininos.Nota
Segundo os sexualistas o Autor da natureza
fez a maior parte das flores hermaphroditas por naõ poderem mudar de
lugar, e ir buscar o seu consorte; e se nas dioicas estaõ os sexos
separados, distaõ contudo muito pouco espaço.Nota
O Lord
Bute no seu excellente tractado dos Generos das plantas da Gr.
Bretanha, que imprimio para divertimento das Fidalgas de Inglaterra,
tractou de evitar como delicado cortezaõ os termos de
hermaphroditas, masculas e femininas, e em lugar delles substituio
os nomes de completadas, estaminosas e pistillosas.Nota
Em razaõ de terem este
principio de germe saõ chamados por Linneo flosculos femininos,
assim como o mesmo botanico deo o nome de mascula hermaphrodita á
huma flor hermaphrodita cujo pistillo he abortivo, e o de feminina,
hermaphrodita á for hermaphrodita, cujos estames abortaõ.
Alem das quatro denominaçoẽs mencionadas, Linneo deo ainda ás flores os
nomes das classes do seu systema sexual, e lhes chamou monandras,
diandras, triandras, tetrandras, pentandras, hexandras heptandras,
octandras, enneandras, decandras, dodecandras, icosandras, polyandras,
didynamicas, tetradynamicas, monadelphas, diadelphas, polyadelphas,
syngenésicas ou compostas, gynandras, monoicas ou androgynas, dioicas,
polygamas, e cryptogamicas Nota
Flores mon- di- tri- tetr- pent- hex-
hept- oct- enne- dec- dodec- icos- polyandii; di- tetradynamici;
mon-di- polyadelphi; syngenesii; gynandri; monoici, s. androgyni;
dioici; polygami, e cryptogamici. Taõbem ha flores endecandras
(endecandri) ou de onze estames, como as da brownea; todas estas
denominaçoẽs, como as da nota seguinte, saõ dadas naõ so as flores,
mas taõbem aos vegetaes que as produzem.Nota
Mono- di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- deca- dodeca-
polygyni.
O sexo das flores he estabelecido nos organos da fructificaçaõ chamados
estames e pistillo. As flores, ou flosculos relativamente ao seu sexo, saõ
susceptiveis de quatro destinçoẽs principaes, a saber, de hermaphroditas,
masculas, femininas, e neutras. As flores hermaphroditas (hermaphroditi),
a que alguns chamaõ taõbem bissexuaes Nota
Por terem os dois sexos
dentro da corolla ou calyz, e saõ oppostas ás unisexuaes (ou
relativas) que dentro delles tem organos somente masculos, ou
somente femininos.Nota
Segundo os sexualistas o Autor da natureza
fez a maior parte das flores hermaphroditas por naõ poderem mudar de
lugar, e ir buscar o seu consorte; e se nas dioicas estaõ os sexos
separados, distaõ contudo muito pouco espaço.Nota
O Lord
Bute no seu excellente tractado dos Generos das plantas da Gr.
Bretanha, que imprimio para divertimento das Fidalgas de Inglaterra,
tractou de evitar como delicado cortezaõ os termos de
hermaphroditas, masculas e femininas, e em lugar delles substituio
os nomes de completadas, estaminosas e pistillosas.Nota
Em razaõ de terem este
principio de germe saõ chamados por Linneo flosculos femininos,
assim como o mesmo botanico deo o nome de mascula hermaphrodita á
huma flor hermaphrodita cujo pistillo he abortivo, e o de feminina,
hermaphrodita á for hermaphrodita, cujos estames abortaõ.
Alem das quatro denominaçoẽs mencionadas, Linneo deo ainda ás flores os
nomes das classes do seu systema sexual, e lhes chamou monandras,
diandras, triandras, tetrandras, pentandras, hexandras heptandras,
octandras, enneandras, decandras, dodecandras, icosandras, polyandras,
didynamicas, tetradynamicas, monadelphas, diadelphas, polyadelphas,
syngenésicas ou compostas, gynandras, monoicas ou androgynas, dioicas,
polygamas, e cryptogamicas Nota
Flores mon- di- tri- tetr- pent- hex-
hept- oct- enne- dec- dodec- icos- polyandii; di- tetradynamici;
mon-di- polyadelphi; syngenesii; gynandri; monoici, s. androgyni;
dioici; polygami, e cryptogamici. Taõbem ha flores endecandras
(endecandri) ou de onze estames, como as da brownea; todas estas
denominaçoẽs, como as da nota seguinte, saõ dadas naõ so as flores,
mas taõbem aos vegetaes que as produzem.Nota
Mono- di- tri- tetra- penta- hexa- hepta- deca- dodeca-
polygyni.
Assim como entre os animaes nascem alguns com huma estructura differente em parte da ordinaria da sua especie, e que por isso lhes daõ o nome de monstros, do mesmo modo entre os vegetaes se encontraõ muitas vezes individuos, os quaes ainda que conservem parte da estructura, e habito externo da sua especie, se desviaõ contudo della em parte, principalmente na flor; e em razaõ disto os Botanicos lhes daõ igualmente o nome de monstros (monstra, seu plantae monstrosae).
Todas as flores viçadas e mutiladas (flores luxuriantes, et mutilati) saõ monstros. Nas primeiras os tegumentos dos organos sexuaes saõ de tal modo multiplicados, que as partes essensiaes da fructificaçaõ ficaõ mais ou menos destruidas; esta producçaõ por mais agradavel que pareça aos floristas, jardineiros, e a quaesquer pessoas em geral, he contudo considerada pelos botanicos como opposta a ordem natural, e como huma verdadeira degradaçaõ causada pela [Página 209] pela redundancia dos succos nutritivos. Nas mutiladas pelo contrario a falta de calor sufficiente e as doenças fazem faltar as partes, que alias costumaõ ter naturalmente sem que porisso outras augmentem.
Nas flores engrandecidas (flores grandificati, s. injuriantes) aindaque a corolla naõ degenera quanto ao numero das petalas ou lacinias, e postoque naõ falta, contudo como em razaõ dos succos abundantes vem a ser maior do que naturalmente devera ser, como se observa na galeopsis, prunella, Etc. semelhantes flores devem porisso ser contadas no numero das viçadas modicamente. No mesmo numero se devem taõbem contar as que tem hum calyz còrado fora do costume natural, como succede às vezes no quejadilho.
As flores, a que chamaõ verdadeiramente viçadas, saõ de tres sortes, a
saber, semidobradas, dobradas, e proliferas Nota
Os floristas dividem as flores somente em singellas e dobradas
desta ou daquella cor, e naõ ha para elles mais dvisoẽs em
Botanica.
A flor semidobrada (flos multiplicatus, s. semiplenus) he aquella, cuja
corolla tem mais ordens de petalas ou maior numero de lacinias do que
costuma ter naturalmente, conserva o pistillo e alguns estames, e dá algumas
sementes fecundas. O perianthio e involucro rarissimamente degeneraõ de
modo que cheguem a constituir huma flor semidobrada, e ainda que o calyz
contra o natural costume possa mudar de cor Nota
Nesta circumstancia o calyz pode fazer parecer a corolla
semidobrada, e porisso deve haver grande cuidado de o naõ
confundir com ella, nem por conseguinte dar erradamente à flor o
nome de emidobrada. Nota
Naõ deixaõ contudo de haver exemplos de calyces consideravelmente
viçados: as escamas do calyz dos cravos augmentaõ as vezes de
tal modo, que formaõ huma espiga de figura particular; na
festuca ovina, e algumas gramas das montanhas alpinas o casulo
das flores degenera em folhas ; na plantago maior a espiga degenera as vezes
em folhas floraes de tal
sorte que as flores ficaõ inteiramente suffocadas, o que succede
taõbem ás escamas do amentilho nalgumas especies de salgueiro,
quando os insectos estragaõ os organos sexuaes. Nota
Donde alguns lhe daõ o nome de flos duplicatus, triplicatus,
quadruplicatus, mas he melhor denominalas flores serie duplici,
triplici, quadruplici, multiplici, s. multiplicatâ. Nota
O viço das flores semidobradas he denominado semidobrêz, ou
multiplicaçaõ (multiplicatio, s. semimpletio); este viço pode ser
propagado por sementes, quando o terreno he cultivado ou
incompetente.
A flor dobrada (flos plenus) propriamente tal he aquella, cuja corolla dobra
de tal modo, que todos os estames ficaõ convertidos em petalas ou lacinias. O pistillo nestas flores ordinariamente ou he transformado assim como
os estames, ou apertado e suffocado de modo que fica esteril Nota
Quando o pistillo e os estames saõ transformados em petalas, a
flor he denominada eunucha (flos ennuchus); se o viço poupou o
pistillo, e hum ou dois estames, e se isso naõ obstante o fructo
fica inteiramente esteril, a flor deve ser contada no numero das
dobradas, e naõ das semidobradas.
A dobrêz (impletio), tem ordinariamente lugar nas flores petaleadas, como v. g. nas da maceira, pereira, pessegueiro, cerejeira, gingeira, amendoeira, romeira, murta, roseira, morangueiro, rainunculo, anemone, papoila, dormideira, craveiro, açucena peonia ou roza albardeira, tulipa, narcizo, jonquilho, violetta, chagas, goiveiro, malva, alcea ou malva da China, hesperis matronalis, hibiscus, caltha, anemone hepatica, aquilegia, nigella, agrostema coronaria, silene, lychnis, fritillaria, &c. Naõ deixaõ [Página 212] contudo de haver alguns exemplos de flores monopetalas sojeitas a dobrar como saõ por ex. as do jacintho, açafraõ, colchico, quejadilho, tuberosa, datura, &c.
As monopetalas dobraõ por meyo do augmento das lacinias, e as petaleadas pelo
augmento do numero das petalas, o qual se faz naõ so à custa dos organos
sexuaes mas ainda por meyo da transformaçaõ dos nectarios, como se vè nas
esporas, nigella, e aquilegia; a dobrez contudo desta ultima segundo se tem
observado pode ser de tres modos; 1º pela transformaçaõ total dos nectarios
em petalas; 2º pela transformaçaõ total das petalas em nectarios; 3º pela
dobrez dos nectarios, conservadas contudo as cinco petalas, e neste cazo os
espaços entre ellas ficaõ occupados cada hum por tres nectarios encravados
huns nos outros. No narcizo as vezes só os nectarios dobraõ, outras vezes
tanto dobraõ as petalas, como os nectarios. A saboeira de Inglaterra
(saponaria officinalis hybrida), os novelos ou rosa de Gueldres (viburnum
opulus globosum, s. roseum), e a peloria (antirrhinum linaria peloria),
subministraõ tres exemplos extraordinarios de dobrez. A primeira he huma
variedade da saboeira ordinaria com a corolla de cinco petalas
transformada em monopetala semelhante á da genciana Nota
Gerardo foy o primeiro que descobrio esta flor, Mortono contudo
assegura que ella ja senaõ acha em Inglaterra no lugar onde
Gerardo a encontrou; dizem que hoje so se da em alguns jardins
que naõ da sementes fecundas, e que so se conserva por meyo de
raizes. Nota
O Dr Gmelin observou contudo algumas cymeiras, em que os
flosculos do rayo naõ eraõ neutros, mas tinhaõ estames, e os
denominou por conseguinte masculos. Nota
Wiggers diz ter observado sementes fecundas nesta planta, e senaõ
houve engano, este facto favorece o parecer dos que pensaõ que
ella deve constituir hum genero á parte. Ha algumas flores femininas que muitas vezes naõ daõ sementes
fecundas, em razaõ de lhes faltar o individuo macho perto
dellas, como se observa nas palmeiras, figueiras, &c.;
semelhantes flores naõ devem porisso ser tidas por viçadas,
porque a sua esterilidade naõ provem de huma structura
viçada.
A semidobrez e a dobrez das flores pode ter lugar tanto nas que saõ simplez, como nas compostas. Huma flor simplez petaleada em estado de viço pode facilmente destinguir-se de huma polypetala natural pelo modo que ja expuz; ella se poderà taõbem destinguir de huma flor composta natural pela razaõ de ter somente o pistillo no centro ou naõ ter pistillo algum, como o rainunculo dobrado; nas flores compostas naturaes, como por ex. nas da alface e chicoria, cada flosculo tem o seu pistillo e estames.
As flores compostas, como ja expliquei fallando da corolla, ou saõ inteiramente ligulosas, ou inteiramente tubulosas, ou radiadas. Nas flores radiadas a dobrez pode ter lugar, 1º em razaõ dos flosculos tubulosos do disco tomarem a forma dos flosculos do rayo, como se ve nalgumas especies de gyrasol, cravo de defuncto, calendula, chrysanthemum, anthemis, matricaria, achillea ptarmica, centaurea cyanus, &c.; 2º quando conservados os flosculos do rayo, os do disco se alargaõ e alongaõ demasiadamente, e tem menos lacinias ou denticulos no seu orificio como se tem visto na serratula arvensis; 3º quando as coróllulas ligulosas do rayo se mudaõ em tubulosas, como se tem observado na bonina, matricaria, e cravo de defuncto. Nas flores compostas inteiramente tubulosas, como por ex. a macella gallega, he rarissimo haver dobrez, e quando existe, he semelhante á do 2º modo com que dobraõ as radiadas. Nas flores inteiramente ligulosas a dobrez so se conhece, e se distingue do estado natural pela razaõ de que os estigmas se alongaõ muito, os germes [Página 215] augmentaõ, saõ mais compridos do que o calyz e divergem, como se tem observado na escorcioneira, lapsana communis, e tragopogon pratense.
Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos. Tem se observado que se huma flor composta natural, como a bonina, cravo de defuncto, matricaria e chrysanthemum, tem no rayo flosculos com pistillos, os flosculos transformados do disco os conservaõ igualmente; mas se os do rayo naõ tem pistillos naõ os tem taõbem os flosculos viçados do disco, como acontece na dobrez do gyrasol, centaurea, e calendula.
Ha muitas familias de plantas que daõ constantemente flores sem dobrez
nem viço algum notavel, taes saõ por ex. as das ordens naturaes, a que
Linneo chama Inundadas e Holeraceas Nota
Inundatae, Holeraceae. Vej.
Lin. Meth. Nat. Fragm. Ord. 48. e 53.Nota
Verticillatae. Ibid. ord. nat. 58.Nota
Personatae. Ib. ord. nat. 59.
Deve-se contudo exceptuar a Linaria, na supposiçaõ de que a peloria
he huma variedade viçada desta planta.Nota
Asperifoliæ. Ib. ord. n. 43.Nota
Stellatæ. Ib. ord. n. 44.Nota
Umbellatae.
Ib. ord. nat. 22. Deve-se contudo exceptuar o viço das umbrellas
proliferas.Nota
Papilionacea. Ib. ord nat. 55.
A flor prolifera (flos prolifer), he a que lança de si outra flor ou
pequenas folhas ; ordinariamente
he dobrada; no primeiro cazo he denominada flor prolifera de flores
(prolifer floriferus), e no segundo flor prolifera de foliolos (prolifer
foliiferus). A prolificaçaõ de flores he de dois modos, ou
originaria do centro ou dos lados; na do centro o pistillo brota de si outra
flor para cima posta sobre hum pedunculo, e tem lugar algumas vezes nas
flores simplez, como nos cravos, ranunculus tuberosus, anemone hortensis,
geum urbanam, rosa gallica, &c; na dos lados, o calyz commum brota de si
muitas outras flores pedunculadas, e tem lugar nas flores compostas e
aggregadas, como na bonina, calendula officinalis, saudade, e no hieracium
falcatum proliferum de Gaspar Bauhino. As flores proliferas de foliolos
saõ raras, observaõ-se contudo algumas vezes nas rozeiras e anemones Nota
Na scrophularia aquatica algumas vezes os organos sexuaes saõ
transformados em fasciculos de foliolos e o mesmo se tem visto no
dipsacus sylvestris, &c. Ha fructos que taõbem saõ proliferos de
foliolos, como as peras, uvas, &c; elles ficaõ nesta
circumstancia sem sementes, por causa destas se terem convertido em
foliolos.
A prolificaçaõ (prolificatio) naõ so tem lugar nas flores, mas ainda nas umbrellas simplez e cymeiras, em razaõ destas brotarem de si outras contra o seu costume natural, do que temos exemplos no cornus suecica, selinum palustre, &c.
A flor mutilada (flos mutilatus), segundo Linneo Nota
Alguns estendem
a accepçaõ deste termo às flores, a que faltaõ quaesquer partes
que costumaõ ter naturalmente, sem porisso augmentarem em
outras; com effeito algumas vezes o numero dos estames e dos
estyletes diminue, e se tem visto flores aggregadas passarem a
ser simplez, quando o terreno he exsucco, e magro.
Assim como entre os animaes nascem alguns com huma estructura differente em parte da ordinaria da sua especie, e que por isso lhes daõ o nome de monstros, do mesmo modo entre os vegetaes se encontraõ muitas vezes individuos, os quaes ainda que conservem parte da estructura, e habito externo da sua especie, se desviaõ contudo della em parte, principalmente na flor; e em razaõ disto os Botanicos lhes daõ igualmente o nome de monstros (monstra, seu plantae monstrosae).
Todas as flores viçadas e mutiladas (flores luxuriantes, et mutilati) saõ monstros. Nas primeiras os tegumentos dos organos sexuaes saõ de tal modo multiplicados, que as partes essensiaes da fructificaçaõ ficaõ mais ou menos destruidas; esta producçaõ por mais agradavel que pareça aos floristas, jardineiros, e a quaesquer pessoas em geral, he contudo considerada pelos botanicos como opposta a ordem natural, e como huma verdadeira degradaçaõ causada pela [Página 209] pela redundancia dos succos nutritivos. Nas mutiladas pelo contrario a falta de calor sufficiente e as doenças fazem faltar as partes, que alias costumaõ ter naturalmente sem que porisso outras augmentem.
[Página 209]Nas flores engrandecidas (flores grandificati, s. injuriantes) aindaque a corolla naõ degenera quanto ao numero das petalas ou lacinias, e postoque naõ falta, contudo como em razaõ dos succos abundantes vem a ser maior do que naturalmente devera ser, como se observa na galeopsis, prunella, Etc. semelhantes flores devem porisso ser contadas no numero das viçadas modicamente. No mesmo numero se devem taõbem contar as que tem hum calyz còrado fora do costume natural, como succede às vezes no quejadilho.
As flores, a que chamaõ verdadeiramente viçadas, saõ de tres sortes, a
saber, semidobradas, dobradas, e proliferas Nota
Os floristas dividem as flores somente em singellas e dobradas
desta ou daquella cor, e naõ ha para elles mais dvisoẽs em
Botanica.
A flor semidobrada (flos multiplicatus, s. semiplenus) he aquella, cuja
corolla tem mais ordens de petalas ou maior numero de lacinias do que
costuma ter naturalmente, conserva o pistillo e alguns estames, e dá algumas
sementes fecundas. O perianthio e involucro rarissimamente degeneraõ de
modo que cheguem a constituir huma flor semidobrada, e ainda que o calyz
contra o natural costume possa mudar de cor Nota
Nesta circumstancia o calyz pode fazer parecer a corolla
semidobrada, e porisso deve haver grande cuidado de o naõ
confundir com ella, nem por conseguinte dar erradamente à flor o
nome de emidobrada. Nota
Naõ deixaõ contudo de haver exemplos de calyces consideravelmente
viçados: as escamas do calyz dos cravos augmentaõ as vezes de
tal modo, que formaõ huma espiga de figura particular; na
festuca ovina, e algumas gramas das montanhas alpinas o casulo
das flores degenera em folhas ; na plantago maior a espiga degenera as vezes
em folhas floraes de tal
sorte que as flores ficaõ inteiramente suffocadas, o que succede
taõbem ás escamas do amentilho nalgumas especies de salgueiro,
quando os insectos estragaõ os organos sexuaes. Nota
Donde alguns lhe daõ o nome de flos duplicatus, triplicatus,
quadruplicatus, mas he melhor denominalas flores serie duplici,
triplici, quadruplici, multiplici, s. multiplicatâ. Nota
O viço das flores semidobradas he denominado semidobrêz, ou
multiplicaçaõ (multiplicatio, s. semimpletio); este viço pode ser
propagado por sementes, quando o terreno he cultivado ou
incompetente.
A flor dobrada (flos plenus) propriamente tal he aquella, cuja corolla dobra
de tal modo, que todos os estames ficaõ convertidos em petalas ou lacinias. O pistillo nestas flores ordinariamente ou he transformado assim como
os estames, ou apertado e suffocado de modo que fica esteril Nota
Quando o pistillo e os estames saõ transformados em petalas, a
flor he denominada eunucha (flos ennuchus); se o viço poupou o
pistillo, e hum ou dois estames, e se isso naõ obstante o fructo
fica inteiramente esteril, a flor deve ser contada no numero das
dobradas, e naõ das semidobradas.
A dobrêz (impletio), tem ordinariamente lugar nas flores petaleadas, como v. g. nas da maceira, pereira, pessegueiro, cerejeira, gingeira, amendoeira, romeira, murta, roseira, morangueiro, rainunculo, anemone, papoila, dormideira, craveiro, açucena peonia ou roza albardeira, tulipa, narcizo, jonquilho, violetta, chagas, goiveiro, malva, alcea ou malva da China, hesperis matronalis, hibiscus, caltha, anemone hepatica, aquilegia, nigella, agrostema coronaria, silene, lychnis, fritillaria, &c. Naõ deixaõ [Página 212] contudo de haver alguns exemplos de flores monopetalas sojeitas a dobrar como saõ por ex. as do jacintho, açafraõ, colchico, quejadilho, tuberosa, datura, &c.
[Página 212]As monopetalas dobraõ por meyo do augmento das lacinias, e as petaleadas pelo
augmento do numero das petalas, o qual se faz naõ so à custa dos organos
sexuaes mas ainda por meyo da transformaçaõ dos nectarios, como se vè nas
esporas, nigella, e aquilegia; a dobrez contudo desta ultima segundo se tem
observado pode ser de tres modos; 1º pela transformaçaõ total dos nectarios
em petalas; 2º pela transformaçaõ total das petalas em nectarios; 3º pela
dobrez dos nectarios, conservadas contudo as cinco petalas, e neste cazo os
espaços entre ellas ficaõ occupados cada hum por tres nectarios encravados
huns nos outros. No narcizo as vezes só os nectarios dobraõ, outras vezes
tanto dobraõ as petalas, como os nectarios. A saboeira de Inglaterra
(saponaria officinalis hybrida), os novelos ou rosa de Gueldres (viburnum
opulus globosum, s. roseum), e a peloria (antirrhinum linaria peloria),
subministraõ tres exemplos extraordinarios de dobrez. A primeira he huma
variedade da saboeira ordinaria com a corolla de cinco petalas
transformada em monopetala semelhante á da genciana Nota
Gerardo foy o primeiro que descobrio esta flor, Mortono contudo
assegura que ella ja senaõ acha em Inglaterra no lugar onde
Gerardo a encontrou; dizem que hoje so se da em alguns jardins
que naõ da sementes fecundas, e que so se conserva por meyo de
raizes. Nota
O Dr Gmelin observou contudo algumas cymeiras, em que os
flosculos do rayo naõ eraõ neutros, mas tinhaõ estames, e os
denominou por conseguinte masculos. Nota
Wiggers diz ter observado sementes fecundas nesta planta, e senaõ
houve engano, este facto favorece o parecer dos que pensaõ que
ella deve constituir hum genero á parte. Ha algumas flores femininas que muitas vezes naõ daõ sementes
fecundas, em razaõ de lhes faltar o individuo macho perto
dellas, como se observa nas palmeiras, figueiras, &c.;
semelhantes flores naõ devem porisso ser tidas por viçadas,
porque a sua esterilidade naõ provem de huma structura
viçada.
A semidobrez e a dobrez das flores pode ter lugar tanto nas que saõ simplez, como nas compostas. Huma flor simplez petaleada em estado de viço pode facilmente destinguir-se de huma polypetala natural pelo modo que ja expuz; ella se poderà taõbem destinguir de huma flor composta natural pela razaõ de ter somente o pistillo no centro ou naõ ter pistillo algum, como o rainunculo dobrado; nas flores compostas naturaes, como por ex. nas da alface e chicoria, cada flosculo tem o seu pistillo e estames.
As flores compostas, como ja expliquei fallando da corolla, ou saõ inteiramente ligulosas, ou inteiramente tubulosas, ou radiadas. Nas flores radiadas a dobrez pode ter lugar, 1º em razaõ dos flosculos tubulosos do disco tomarem a forma dos flosculos do rayo, como se ve nalgumas especies de gyrasol, cravo de defuncto, calendula, chrysanthemum, anthemis, matricaria, achillea ptarmica, centaurea cyanus, &c.; 2º quando conservados os flosculos do rayo, os do disco se alargaõ e alongaõ demasiadamente, e tem menos lacinias ou denticulos no seu orificio como se tem visto na serratula arvensis; 3º quando as coróllulas ligulosas do rayo se mudaõ em tubulosas, como se tem observado na bonina, matricaria, e cravo de defuncto. Nas flores compostas inteiramente tubulosas, como por ex. a macella gallega, he rarissimo haver dobrez, e quando existe, he semelhante á do 2º modo com que dobraõ as radiadas. Nas flores inteiramente ligulosas a dobrez so se conhece, e se distingue do estado natural pela razaõ de que os estigmas se alongaõ muito, os germes [Página 215] augmentaõ, saõ mais compridos do que o calyz e divergem, como se tem observado na escorcioneira, lapsana communis, e tragopogon pratense.
[Página 215]Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos. Tem se observado que se huma flor composta natural, como a bonina, cravo de defuncto, matricaria e chrysanthemum, tem no rayo flosculos com pistillos, os flosculos transformados do disco os conservaõ igualmente; mas se os do rayo naõ tem pistillos naõ os tem taõbem os flosculos viçados do disco, como acontece na dobrez do gyrasol, centaurea, e calendula.
Huma flor composta radiada no estado de dobrez naõ deve ser confundida com as inteiramente ligulosas naturaes, como saõ a serralha, dente de leaõ, &c; estas flores tem todos os seus flosculos hermaphroditos, nas radiadas dobradas pelo contrario naõ há antheras em flosculos alguns, nem taõbem algumas vezes pistillos perfeitos.antheras Ha muitas familias de plantas que daõ constantemente flores sem dobrez
nem viço algum notavel, taes saõ por ex. as das ordens naturaes, a que
Linneo chama Inundadas e Holeraceas Nota
Inundatae, Holeraceae. Vej.
Lin. Meth. Nat. Fragm. Ord. 48. e 53.Nota
Verticillatae. Ibid. ord. nat. 58.Nota
Personatae. Ib. ord. nat. 59.
Deve-se contudo exceptuar a Linaria, na supposiçaõ de que a peloria
he huma variedade viçada desta planta.Nota
Asperifoliæ. Ib. ord. n. 43.Nota
Stellatæ. Ib. ord. n. 44.Nota
Umbellatae.
Ib. ord. nat. 22. Deve-se contudo exceptuar o viço das umbrellas
proliferas.Nota
Papilionacea. Ib. ord nat. 55.
A flor prolifera (flos prolifer), he a que lança de si outra flor ou
pequenas folhas ; ordinariamente
he dobrada; no primeiro cazo he denominada flor prolifera de flores
(prolifer floriferus), e no segundo flor prolifera de foliolos (prolifer
foliiferus). A prolificaçaõ de flores he de dois modos, ou
originaria do centro ou dos lados; na do centro o pistillo brota de si outra
flor para cima posta sobre hum pedunculo, e tem lugar algumas vezes nas
flores simplez, como nos cravos, ranunculus tuberosus, anemone hortensis,
geum urbanam, rosa gallica, &c; na dos lados, o calyz commum brota de si
muitas outras flores pedunculadas, e tem lugar nas flores compostas e
aggregadas, como na bonina, calendula officinalis, saudade, e no hieracium
falcatum proliferum de Gaspar Bauhino. As flores proliferas de foliolos
saõ raras, observaõ-se contudo algumas vezes nas rozeiras e anemones Nota
Na scrophularia aquatica algumas vezes os organos sexuaes saõ
transformados em fasciculos de foliolos e o mesmo se tem visto no
dipsacus sylvestris, &c. Ha fructos que taõbem saõ proliferos de
foliolos, como as peras, uvas, &c; elles ficaõ nesta
circumstancia sem sementes, por causa destas se terem convertido em
foliolos.
A prolificaçaõ (prolificatio) naõ so tem lugar nas flores, mas ainda nas umbrellas simplez e cymeiras, em razaõ destas brotarem de si outras contra o seu costume natural, do que temos exemplos no cornus suecica, selinum palustre, &c.
A flor mutilada (flos mutilatus), segundo Linneo Nota
Alguns estendem
a accepçaõ deste termo às flores, a que faltaõ quaesquer partes
que costumaõ ter naturalmente, sem porisso augmentarem em
outras; com effeito algumas vezes o numero dos estames e dos
estyletes diminue, e se tem visto flores aggregadas passarem a
ser simplez, quando o terreno he exsucco, e magro.
A Patria ou habitaçaõ das plantas (locus natalis, s. plantarum habitatio), he o lugar em que ellas costumaõ nascer sem soccorro algum de cultura, e he considerada pelos Botanicos debaxo das relaçoẽs de paiz, clima, sitio e terreno.
Pelo termo de paiz (regio) entendem imperios, reynos, provincias, e quaesquer destrictos proprios a certas especies de plantas.
Por clima (clima) os Botanicos entendem três sorte de dimensoẽs terrestres, a saber, latitude, longitude, e altura do lugar. A latitude he a distancia que vay desde o equador athe o polo artico ou antarctico, e comprehende noventa graos tanto da banda do norte como do Sul, o que faz a quarta parte do ambito da terra; e longitude he o ambito da terra, ou espaço de 360 graos, começando do meridiano da Ilha de Ferro athe ao mesmo ponto do dicto meridiano; a altura he a medida perpendicular que medea entre a superficie do mar e o cume de [Página 219] huma elevada montanha; ella se costuma calcular ordinariamente com o soccorro de hum barometro. A altura falha muito menos, do que a latitude e longitude, relativamente a reconhecer a semelhança das plantas, porquanto he bem notorio que muitos lugares que se achaõ na mesma latitude ou longitude daõ plantas inteiramente differentes, ao mesmo tempo que as das montanhas da Suissa, Lapponia, Brasil, Siberia, Pyreneos, Olympo, &c. saõ ordinariamente semelhantes.
Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.
1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs. Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .
2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.
3º. Austral (Australe), comprehende o espaço que vay desde a Ethyopia athe ao Cabo da Boa Esperança, e igualmente o reyno do Peru e grande parte do Brasil, aonde o calor he menos fervido do que no clima Indico. Como o estio deste clima tem lugar exactamente no tempo que corresponde ao nosso inverno, daqui procede que os vegetaes transplantados deste clima florecem na Europa ordinariamente perto do solsticio do inverno.
4º. Europeo meridional (Europaeum meridionale), comprehende Portugal, Hespanha, a França meridional, Italia, Hongria athe á Morêa, e o Archipe-lago. Alguns o dividem em clima do continente e insular, incluindo neste segundo as ilha Europeas do Mediterrano, nas quaes o calor he maior do que o da terra firme; outros ajuntaõ os climas da Syria, Media e Armenia, por acharem nelles as mesmas plantas que se daõ no clima meridional da Europa.
5º. Europeo septentrinal (Europaeum septentrionale), comprehende a Lapponia, Suecia, Dinamarca, Prussia, Allemanha, Suissa, Hollanda, Flandres, Inglaterra, e parte do norte da França.
6º Oriental (Orientale) comprehende o grande Continente da Asia septentrional, a Siberia e Tartaria desde os confins da Syria e Persia athe aos da China; as plantas deste clima florecem ordinariamente logo que a atmosphera começa a aquecer, como entre nos florecem as da primavera.
[Página 221]7º. Occidental (Occidentale) comprehende a America septentrional athe a Carolina, e igualmente o Iapaõ; as plantas deste clima florecem ordinariamente no outono.
8º. Alpino (Alpinum), he proprio das montanhas alpinas, que saõ as mais elevadas que ha no globo terrestre, cobertas de neve em varios lugares, aonde naõ ha primavera nem outono, mas sim hum longo inverno, e curto estio de dois mezes ou menos, como saõ os Alpes da Suissa, as Cordilheiras da America meridional, &c. As plantas deste clima nascem, florecem e fructificaõ dentro de pouco tempo.
O sitio (situs) he o lugar aonde costuma naturalmente nascer e nutrir-se qualquer planta, e he ou terrestre ou aquoso ou parasitico. As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.
1º Sitios aquosos.
O mar, ou agoa marina (mare, s. aqua marina) he hum fluido aquoso naturalmente impregnado de sal commum; as plantas que se dão n'agoa do mar ordinariamente saõ destituidas de raizes, nutrem-se pelas suas porosidades, e naõ supportaõ jamais frios rigorosos nem os gelos do inverno (como o fucus, e ulva); daõ-lhes o nome de plantas marinhas (pl. marinae).
[Página 222]As prayas, e costas maritimas (littora, littorale solum, loca maritima), saõ lugares immediatamente proximos ao mar, cobertos pelas marés, açoitados das ondas e dos ventos, mais ou menos arenosos e salgados. As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c. Estas plantas saõ por alguns botanicos denominadas maritimas (maritimae).
As fontes (fontes), saõ mananciaes de agoa doce Ha fontes de
agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas
que saõ de natureza semelhante á das
maritimas.Nota
Os rios (fluvii), saõ largas e prolongadas correntes de agoa doce e fresca; a terra banhada d'agoa dos rios (solum fluviale) dá taõbem algumas plantas particulares, como v. g. o potamogeton, ranunculus aquaticos, &c.
As ribeiras, margens dos rios e das lagoas (ripae), saõ lugares cobertos de agoa na estaçaõ do inverno, & descobertos no tempo do estio; nellas costumaõ dar-se a salicaria, o lycopus europaeus, a lysimachia vulgaris, &c.
Pégos, lagos limpos (lacus, lacustre solum), saõ lugares que contem agoa pura, e profunda; o seu fundo naõ he lodoso, mas tem huma certa firmeza ou solidez; daõ-se nelles a nymphaea, subularia, isoetes, &c.
[Página 223] Lagoas profundas, paûes, albofeiras Nota
Nos damos o nome de albofeiras (paludes maritimae), ás grandes
lagoas que saõ vizinhas do mar, e contem agoa salgada e doce
misturadas: em alguns lugares costumaõ abrir estas lagoas a fim
de desalagar os campos, e os aproveitar em pastos e searas.
Tanques, charcos, fossos (stagna, paludes, palustre solum), saõ pequenas lagoas baxas, limosas, lodosas, que se seccaõ inteiramente no estio; daõ-se nelles a tabûa, lirios, junças, &c.
Alagadiços (inuadata loca), saõ terrenos alagados pelas chuvas do inverno, & que se seccaõ no veraõ; daõ-se nelles o arroz, canna de assucar, tamargueira, &c.
Pantanos, bréjos, tremedaes (loca uliginosa), saõ terrenos balofos, ensopados d'agoa pôdre, que naõ daõ feno, nem saõ proprios para searas; daõ-se nelles a ulmaria, quejadilho, valeriana dioica, &c.
2º Sitios terrestres.
Montes, oiteiros (montes, colles, solum montanum, s. collinum), saõ lugares elevados, na parte superior lavados dos ventos, sabulosos, e seccos; daõ-se nelles a carlina, arnica, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.
Rochas, penhas (rupes, rupestre solum), saõ lugares alcantilados, pedregosos, e aridissimos; daõ-se nelles a cymbalaria, aloe, mesembryanthemum, sedum, &c.
Campos, campinas (campi, campestre solum), saõ lugares incultos descobertos, seccos, e hum tanto asperos; daõ-se nelles a bisnaga, bonina, e muitas outras plantas ordinariamente herbaceas.
Prados (prata, pratense solum), saõ terras baxas incultas, valles humidos cobertos de plantas herbaceas viçosas, e serrados para que nelles naõ entre o gado no estio; daõ-se nelles o ranunculus acris, o lotus corniculatus, scabiosa succisa, escorcioneiras, trevos, e outras muitas plantas, que constituem o copioso feno que nos paizes do norte da Europa cortaõ no estio, seccaõ, e recolhem para sustentar os gados no inverno.
Pastos (pascua), saõ campina abertas com plantas destinadas a nutrir os gados, hum tanto sabulosas, e menos ferteis do que os prados; daõ-se nelles a prunella, euphrasia, &c.
Searas (agri, segetes, agreste solum), saõ terras lavradas em que se semeão legumes e sementes, de que se costuma fazer paõ; daõ-se nellas as esporas, joyo, verdeselha, hervinha, &c.
Alqueives (arva, arvense solum), saõ terras lavradias, que se deixaõ descançar algum tempo; nas terras alqueivadas costumaõ dar-se o raphanus raphanistrum sinapis alba et arvensis, o murriaõ, algumas especies de macella, o abrolho, a agulha de pastor, &c.
[Página 225]Jardins, hortas (horti, culta, solum hortense), saõ terrenos muito estercados, cavados, regados, e cultivados todo o anno; daõ-se nelles as ortigas, murujem, amor de hortelaõ, &c.
Esterqueiras (fimeta), saõ os lugares em que se accumulaõ os excrementos dos gados, misturados com alguns estragos de vegetaes; daõ-se nelles as ortigas, o estramonio, asperugo, &c.
Bordas dos caminhos (versurae), vallados e seves (aggeres, sepes) saõ considerados como lugares estercados, e o mesmo saõ as bordas das cazas, dos muros, ruas, praças e mercados (ruderata, ruderale solum), as plantas proprias destes lugares saõ por ex. a poa annua, erysimum officinale, lolium perenne, almeiraõ, tanchagem, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.
Brenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.
Matto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.
Queimadas (ambusta), saõ os lugares, cujo matto foy destruido com fogo, a fim de os fertilizar com as cinzas dos vegetaes queimados, e de os dispor para pastos, ou searas.
3º Sitios parasiticos.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.
Por terreno (terra, solum), os botanicos entendem a natureza do chaõ proprio a qualquer planta, e o destinguem ordinariamente em quatro sortes, a saber, arêa, argilla, greda, e terra vegetosa.
A area (arena), he hum composto de pequenos graõs seccos, duros, quarzozos, e desadunados; ella varia quanto a grandeza dos seus graõs, como se vê na area das empulhetas, na das escrivaninhas, na das prayas, e na area grossa a que chamamos saibro. Ordinariamente acha-se misturada com alguma das outras terras, e he neste estado misto de terreno que nasce e vegeta bem hum grande numero de plantas, como a canneira, pinheiros, urzes, digital, serpaõ, tojo, espargo, herva turca, &c.
[Página 227]A argilla (argilla), he huma terra unctuosa e de grande tenacidade quando humedicida, susceptivel de endurecer consideravelmente, e naõ faz effervecencia com os acidos; acha-se sempre misturada mais ou menos com outras terras, e lhe damos algumas vezes o nome de piçarra. Quando ella se acha misturada com huma boa porçaõ de cré, daõ-lhe o nome de marga (marga), e neste estado costuma servir para fertilizar as terras. Os terrenos argillosos saõ favoraveis á vegetaçaõ de hum grande numero de plantas, taes como os papoilas, verbascos, bolsa de pastor, &c.
A greda ou cré (creta), he huma terra arida, que se acha nos oiteiros seccos e pouco fecundos; quando he para faz effervescencia com os acidos; suppoem-se ter a mesma origem, que as pedras calcareas; acha-se ordinariamente misturada com outras terras, e neste estado he conveniente á vegetaçaõ da verbena, esferro cavallo ou ferradurina, da reseda, e muitos outros vegetaes.
A terra vegetosa (humus), acha-se por toda a superficie do globo terrestre em
mais ou menos quantidade, e deve a sua origem á descomposiçaõ dos vegetaes e
animaes. E sua cor varia em razaõ das terras, com que se acha misturada,
parece contudo que a mais pura he a que tem huma cor denigrida. He
summamente fertil Nota
Kylbel he de opiniaõ que o principal alimento dos vegetaes
consiste nas particulas finissimas, e subtis da terra
vegetosa. ( Dissert sobre a causa da fertilidade das
terras. )Nota
Se nos tempos primitivos do globo terrestre cada hum dos vegetaes
teve o seu clima, sitio, e terreno proprio, a natureza parece
ter-se eximido deste habito pouco a pouco, porquanto vemos hoje
plantas, que se daõ igualmente bem por toda a parte.
Do que tenho exposto athe aqui sobre a habitaçaõ natural dos vegetaes se
collige claramente, que differindo ella segundo os diversos climas, sitios,
e terrenos, toda a habitaçaõ artificial deve imitar as suas diversidade o
mais que for possível. A habitaçaõ artificial, de que fallo aqui, saõ todos
os jardins botanicos, em que ha hum grande numero de plantas exoticas, ou
aquaticas naturaes do paiz e de terrenos particulares, e que porisso mesmo
requerem os soccorros da arte para se poderem conservar. Estes soccorros
consistem principalmense em que cada
canteiro ou alegrette do jardim naõ conste so de huma casta de terra mas
de muitas differentes, de maneira que cada planta tenha a terra que lhe
he propria. As que saõ naturaes dos bosques, e requerem sombra devem ser guarnecidas
de huma sombrella Nota
He hum vazo de barro, huma grande choca de lata, ou hum cesto
cylindrico de vime, abertos de ilharga, que servem para fazer
sombra ou para abrigar a planta dos ventos. Nota
Saõ campanas de vidro, ou pequenas guaritas envidraçadas, com as
quaes se costumaõ nos jardins cobrir as plantas indigenas dos
paizes quentes a Asia, Africa, e America. Nota
Naõ faço aqui mençaõ de muitas outras circumstancias relativas
aos jardins botanicos por me parecem menos proprias do presente
tractado, e demais disso ellas saõ hoje bastantemente conhecidas
em Portugal, o sabio Naturalista que tem a inspecçaõ do Jardim
Real do Palacio da Ajuda, e do da Universidade de Coimbra naõ
nos deixou nada que dezejar nesta materia.
O Habito de huma planta parece naõ ser outra coiza, no rigor do termo, senaõ
a sua estructura considerada externa, e internamente durante o tempo da sua
vida; estructura, por meyo da qual ella differe de todos os individos de
diverso genero, diversa especie ou variedade, e se conforma pelo contrario
com todos os que pertencem ao mesmo genero, especie ou variedade, a que ella
he relativa. Esta estructura considerada exteriormente he a configuraçaõ, e
face externa das partes da planta presentadas aos nossos sentidos, sem
estrago anatomico, sem soluçaõ de continuidade, nem descomposiçaõ chymica:
considerada internamente he a sua organizaçaõ e constituiçaõ, em que se
comprehendem as partes organicas e constitutivas, escondida a nossos
sentidos pela continuidade de superficie, e sò patenteadas por meyo de
estragos anatomicos, roturas, e descomposiçoẽs chymicas. Estes dous modos de
considerar a estructura de hum vegetal indicaõ, que o seu habito devera por
conseguinte ser dividido em externo e interno, estabelecendo-se o primeiro
sobre [Página 231] tudo o que diz respeito à estructura externa, e o segundo no que respeita
somente á interna. Mas os Botanicos naõ costumaõ fazer estas differenças,
nem seguir este rigor, elles fazem so mençaõ do habito externo (habitus,
s. facies externa), e huns entendem por elle toda a configuraçaõ
exterior que hum vegetal prezenta á primeira vista, ou toda a razaõ de
semelhança e dessemelhança que elle tem com outros nas suas partes, sem
exceptuar as da fructificaçaõ, outros daõ o nome de habito externo
somente ás razoẽs de affinidade ou desconformidade, que os vegetaes tem
entre si em hum certo numero de partes, comprehendem promiscuamente no
habito externo algumas relaçoẽs, que rigorosamente so pertencem Nota
Como saõ a succulentia e sabores. Nota
Linneo fallando do habito dos vegetaes naõ fez mençaõ alguma da
fructificaçaõ, e nos exemplos que deo do caracter habitual se vê
claramente tela excluído do habito externo dos vegetaes. Vej. Phil. Bot- num. 168.
TODOS os vegetaes que hoje existem saõ originarios ou de bolbos, ou de
gomos, ou de sementes; huns foraõ continuados Nota
As plantas dizem-se continuadas por qualquer sorte de raizes e ou
pelos gomos, e propagadas pelas sementes; pelo que hum bacelo ou arvore enxertada naõ he
rigorosamente huma nova planta, mas sim huma planta continuada,
do mesmo modo os bolbos caulinos, e as folhas , que cahindo por terra nella
brotaõ, continuaõ a sua especie e naõ a propagaõ; porque as
plantas verdadeiramente novas ou propagadas saõ as que naceraõ
de sementes. Nota
As sementes taõbem saõ semeadas artificialmente pelos homens como
he notorio, ou casualmente pelos animaes quando ellas se
apegaraõ aos seus pelos, ou depois de terem sido engolidas, mas
neste segundo cazo nem sempre conservaõ o seu principio vital,
potencial e germinativo, porque o calor do ventriculo, e
intestinos lhes destroe o dicto principio. As toupeiras, minhocas, porcos, coelhos, e outros animaes que
mechem, fossaõ, e cavaõ a terra contribuem taõbem por
casualidade a cobrir hum grande numero de semente. Nota
Miller distribue as semente quanto á
sua duraçaõ em tres clas-ses; na 1º poem as que germinaõ no outono,
ou logo depois da sua madureza; na segunda as que germinaõ no anno
seguinte; e na 3º as que se podem semear no segundo anno, ou mais
tarde. A differente duraçaõ ou conservaçaõ da virtude germinativa
das sementes depende de muitas circunstancias, como por ex. da sua
natureza mais ou menos oleosa, farinhosa, e resinosa, da solidez ou
da debil contextura da sua casca, da profundidade em que estaõ na
terra sepultadas e protegidas contra o calor, frio, humidade, estado
de fermentaçaõ, de fricçaõ, vermes, &c. &c. Ha algumas que
apenas estaõ maduras germinaõ logo ainda mesmo dentro das suas
capsulas, como as da avicennia tomentosa; ha outras que pouco tempo
depois que cahem da planta materna perdem a virtude germinativa,
como o caffé, e ha outras em fim que a conservaõ muitos annos tanto
na terra como fora della. Norbergio observou que as sementes da
herva sancta germinaõ, depois de estarem oito annos debaxo da terra:
Munchausio assegura, que as do chrysanthemum segetum se conservaraõ
debaixo da terra vinte annos ferteis, segundo Olmi as da malva
crispa conservaraõ a sua fertilidade prolifica desasette annos.
Brockio attesta que as dos goiveiros encarnados germinaraõ, passados
dez annos, e deraõ flores dobradas. Du Hamel diz que as de huma
especie de mimosa se conservaraõ ferteis vinte annos: segundo
Triewal (Philos. Transact. vol. XLII) as do melaõ germinaraõ depois
de 42 annos; e segundo Home as do centeio guardadas 140 annos naõ
perderaõ a sua fertilidade. Nestas assersoẽs poderá haver
exaggeraçaõ, mas ellas indicaõ ao menos que a virtude germinativa
pode conservar-se muitos annos nas sementes; e por meyo dellas se
poderaõ explicar as maravilhosas reproducçoẽs de algumas plantas,
cuja raça se julgava de todo extincta. Entre as sementes que mais
tempo podem conservar a sua vis germinativa as de algumas
cryptogamicas tem o primeiro lugar, porque podem durante algus
seculos resistir aos frios, e aos mais intensos calores sem a menor
alteraçaõ.Nota
Alguns physiologistas dizem que as sementes, ainda fora da
terra, e desde o tempo que se separaraõ da planta materna athe ao
momento primario da fermentaçaõ, naõ deixaõ de ter vida, mas isto so
se pode conceder tomando o termo vida em hum sentido extenso por
potencia intrinseca germinativa.
A disposiçaõ e forma das cotylédones no estado da germinaçaõ he chamada
cotyledonismo (placentacio, s. cotyledonismus); mas antes de tractar
desta disposiçaõ em particular he precizo advertir, que as sementes
humas saõ chamadas acotyledones (acotyledones), quando parecem constar
somente de corculo, por naõ serem nellas as cotyledones bem sensiveis,
como saõ as dos musgos Nota
Em todas as sementes ha cotyledones , ainda
mesmo nos musgos, segundo Meese, e Hedwig; mas como nestas e
outras sementes semelhantes as cotyledones naõ saõ
bem apparentes, e ou se consomem na terra sem jamais se verem,
ou precizaõ de hum microscopio para se poderem destinguir no
periodo da germinaçaõ, continuar-lhes-hemos a dar o nome de
acotyledones, conforme o uso de muitos Botanicos. Nota
Eu uso aqui deste termo na accepçaõ que lhe dá
Linneo; porque segundo alguns Botanicos modernos as polycotyledones
saõ todas dicotyledones divididas em lacinias. Adanson diz que as
sementes do pinheiro saõ dicotyledones com duas cotyledones partidas
em lacinias profundas, e que as do pinus cedrus tem seis lacinias, e
as do pinus strobus seis athe dez.Nota
O
Dr. Jussieu, e alguns outros Botanicos applicaõ estes termos naõ so
ás sementes, mas taõbem as plantas que daõ semente acotyledones,
monocotyledones, e dicotyledones; pelo que o polytrichum he
acotyledone, a cebola monocotyledone, e o feijoeiro e pinus
dicotyledone. Segundo o dicto Botanico as classes primitivas
naturaes, devem ser fundadas no numero das cotyledones . Linneo contudo naõ parece ser desta opiniaõ, porquanto diz que no
mesmo genero natural podem haver especies com sementes, que
diffiraõ no numero das cotyledones , como saõ
por ex. as especies de cactus e pinus .
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes. No trigo, cevada, e todas as mais gramineas a cotyledone he furada pela [Página 236] plumula e radicula (perforata), e igualmente o tegumento, o qual vem por fim a ficar sem cotyledone, occo e exsucco; ella he unilateral nas palmeiras (unilateralis) e reductosa (reducta), na cebola.
Nas sementes dicotyledones no estado de germinaçaõ as duas cotyledones
contribuem para a preparaçaõ dos succos nutritivos da plumula e
radicula, e ordinariamente passaõ depois a ser folhas seminaes bastardas Nota
Segundo Linneo (Philos. Botan. n. 136), cotyledones et folia
seminalia sunt synonyma in plantis; eu ja expuz o que pensava a
este respeito, quando tractei das sementes; esta assersaõ
applicada ás cotyledones de todas as semente dicotyledones
parece ser sujeita a algumas excepçoẽs, ainda mesmo no cazo que
lhes queiramos dar o nome de folhas seminaes bastardas; porquanto ha algumas que
em lugar de tomarem a apparencia de folhas saõ caduças, ou se engilhaõ
dentro de pouco tempo, como se vê nas das ervilhas, e nas de
algumas especies de feijaõ.
O principio de vida, por meyo do qual se conservaõ perennemente as especies
vegetaes, reside na sementes, nos gomos, e bolbos. Alguns physicos pensaõ
que estes tres meyos de que se serve a natureza para perpetuar a vida
dos vegetaes saõ essensialmente a mesma coiza, e lhes daõ o nome de
gomos seminaes, radicaes, e caulinos: elles observaõ que em alguns
alhos, e ainda em algumas plantas Cryptogamicas a a natureza no lugar
onde costuma produzir flores, dá bolbos ou gomos os quaes reproduzem as
especies taõ perfeitamente como as sementes, que nas axillas das folhas ou ramos, lugar proprio dos
gomos, se vem algumas vezes bolbos decadentes, os quaes cahindo [Página 238] na terra reproduzem a sua especie, como os bolbos radicaes
ordinarios; que a estructura dos bolbos radicaes he summamente analoga à
dos gomos caulinos; que os gomos radicaes das plantas vivaces, e os
bolbos ordinarios saõ de huma natureza identica; que nalgumas sementes
como v. g. nas das nymphaea nelumbo se vem antes da germinaçaõ algumas folhas perfeitas assim como
se observaõ nos gomos, e que se ha gomos floraes, ha do mesmo modo
taõbem bolbos floraes, como v. g. saõ os da tulipa Nota
Este bolbo com effeito contem no seu centro huma flor bem visivel
sem soccorro algum de lente; todas as vezes que no outono ou
inverno dessequei com cautella os seus cascos externos e
internos, sempre nelle observei bem destinctamente as petalas, antheras e pistillo da flor. Alguns asseguraõ
taõbem ter observado o mesmo em muitos outros bolbos, e ainda mesmo
nas raizes da anemone hepatica, e d'algumas especies de
pedicularis.
Os gomos (gemmae) Nota
Nos taõbem damos aos gomos o nome de olhos (oculi)
novedios, grelos, botoẽs, e borbulhas, mas o termo de gomo he o mais
proprio, e o mais geral; o termo olhos he ordinariamente so
applicado a vide; novedios e grelos parece-me que se devéram
reservar para os gomos das plantas herbaceas; botam, somente se deve
applicar aos gomos floraes, e a qualquer flor antes de desabotoar:
borbulha so se diz dos gomos dos enxertos, e na phrase enxertar de
borbulha: o vulgo costuma dar aos bagos da laranja e limaõ o nome de
gomos, mas basta ter humas leves noçoẽs de Botanica para conhecer
que isto he huma impropriedade, e corrupçaõ de termo.
Os gomos da mesma sorte que os bolbos saõ hum verdadeiro abrigo contra os
rigores do inverno ao [Página 240] embryaõ que envolvem, e porisso Linneo lhes chamou com propriedade
invernadoiros (hybernacula) Nota
Hebenstreit diz contudo que as sementes taõbem saõ invernadoiros,
porque as cotyledones e tegumentos abrigaõ a plantula nelles
reclusa durante hum ou mais invernos.
Os gomos dizem-se terminaes (terminales), quando se achaõ situados nas pontas do tronco ou ramos: ordinariamente saõ solitarios, contudo na syringa vulgares achaõ-se dois a dois, e no aesculus pavia tres a tres.
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .
Oppostos (oppositae), quando se achaõ dois no tronco ou ramos, fronteiros hum ao outro, e saõ ou peciolares (petiolares), como no buxo, medronheiro, freixo, loireiro, sabugueiro, madresylva, &c. ou estipulares (stipulares), como no rhamnus catharticus, e cephalanthus.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.
Nullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.
Folheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus. Estes gomos saõ mais agudos do que os seguintes.
Floraes (florales, s. floriferae) quando somente contem flores, como os do damasqueiro, pessagueiro, [Página 242] amendoeira, &c. Estes gomos saõ hum tanto obtusos, e verdadeiros botoẽs, elles contem ou flores femininas como na aveleira e carpe, ou masculas como no pinheiro e abeto, ou emfim flores hermaphroditas como no ulmeiro, amendoeira, pessegueiro, &c. Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)
Ha muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares. Hum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse. Os arbustos plantados em vazos, ou caxas daõ todos os annos gomos floraes e fructos, mas se os tiramos fora dellas, e os plantamos numa terra pingue, e á larga, naõ daraõ durante muito tempo senaõ gomos folheres; se os tornamos a metter em caxas ou vazos recomeçaraõ a dar, como dantes, gomos floraes e fructos. Hum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia. Sobre esta observaçaõ fundaraõ os antigos a cultura das videiras, podando-as e empando-as, porque por meyo da poda a empa se diminue a [Página 243] seiva, e se modera o seu movimento nimiamente accelerado, que aliás nutriria a planta em demasia, e lhe faria viçar todos ou quasi todos os seus gomos floraes, tornando-os em folheares.
A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Revolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Imbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Frondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
A petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
O tempo de vela das folhas (foliorum vigiliae), segundo os botanicos, he o espaço, diurno em que
ellas tem as suas folhas abertas, e o de sono pelo contrario he ordinariamente todo o espaço da
noyte. Este estado de sono das folhas (somnus foliorum), consiste em hum collapso ou mudança de posiçaõ, que [Página 247] ellas costumaõ ter durante o tempo de vela. Hum grande numero de plantas he susceptivel desta mudança nas suas folhas Nota
E igualmente nas suas flores, como ja disse; eu naõ fiz mençaõ
das differentes posiçoẽs, que constitue o sono das flores,
porque facilmente se podem entender pelas que exponho aqui
relativamente às folhas . Nota
A materia electrica da atmosphera em tempo de trovoadas basta
para fazer fechar as folhas e flores; isto he confirmado pelas
experiencias feitas na sensitiva, a qual sendo artificialmente
electrisada fecha as suas folhas do mesmo modo que no tempo de trovoada. Esta planta contudo, segundo se tem observado, abre ainda mesmo
numa perfeita obscuridade as sua folhas pela manhaan, e as fecha à
noyte.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.
1º As simplez saõ denominadas:
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).
Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)
Folhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)
Folhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)
2º. As compostas saõ denominadas:
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)
Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)
Folhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)
Folhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)
Folhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).
Folhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).
[Página 250]Por intorsaõ (intorsio, s. torsio) os Botanicos entendem as curvaturas, reviramentos, ou enroscamentos das partes dos vegetaes, e a denominaõ uniforme (conformis), se as dictas partes se curvaõ ou enrolaõ todas para a mesma banda, e difforme (difformis), se nem todas se curvaõ, ou quando se enrolaõ e curvaõ para differentes lados indeterminadamente.
Huma das principaes especies de intorsaõ he a volubilidade, ou enroscamento dos troncos e gavinhas, ora para a direita, ora para a esquerda, como ra expuz em seu lugar.
A intorsaõ pode ter taõbem lugar nas flores Nota
O torcimento das
corollas deve ser observado no estado da flor fechada, ou no periodo
em que a flor começa a desabotoar.
Pode taõbem haver intorsaõ nos pistillos, como se vê na silene, cucubalus, spiraea ulmaria, e helicteres.
As espigas das plantas asperifolias, taes como a [Página 251] cynoglossa, heliotropium, myosotis, echium, &c. tem todas huma intorsaõ espiral na sua extremidade, em forma de voluta.
As fibras da base das praganas da avena, e stipa, as da cauda das capsulas do geranium, e das valvulas da capsula da impatiens, &c costumaõ formar longitudinalmente hum intorsaõ espiral semelhante á de hum fio torcido.
Debaxo dos nomes de glandulaçaõ, e escabrosidade (glandulatio, scabrities) os Botanicos comprehendem as excrescencias destinadas as secreçoẽs dos vegetaes, e muitas producçoẽs que fazem a sua superficie aspera, escabrosa. Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.
As glandulas (glandulae), segundo toda a extensaõ do termo, saõ qualquer excrescencia
ou porosidade superficial, que serve a alguma secreçaõ; mas huma
accepçaõ restricta, as glandulas saõ pequenas excrescencias
ordinariamente globulares, que se achaõ na superficie das plantas, e saõ
destinadas a filtrar e preparar os succos proprios da especie, a que [Página 252] pertencem; algumas saõ guarnecida de pelos, outras naõ tem pelos
alguns; humas saõ assaz viziveis à vista simplez, outras precizaõ de
lente para bem se destinguirem. As que naõ precizaõ de lente saõ as mais proprias para notas
caracteristicas; daõ se nos peciolos das folhas como no martyrio, nas serraturas, ou
dente das folhas serreadas como
no salgueiro e amendoeira, nas antheras como na adenanthera, junto da bas dose estames como no goivo e couve, por toda a flor e
por todo o corpo da planta (menos na raiz ), como na
fraxinella Nota
Quanto à forma, e outras circumstancias relativas as
glandulas, Vej. o Cap. dos Gland da Prim. Parte deste
Comp.
Verrugas (verrucae), saõ glandulas grossas e hum tanto chatas ou
concavas, com as que se vem nos peciolos das folhas do noveleiro, e ricinus Nota
Taõbem se da o nome verrugas a certos tuberculos ou receptaculos de algumas especies de
lichen.
Callos (calli) saõ pequenas glandulas, pontos, ou globulos duros, contudo algumas vezes este termo he usado taõbem para significar a mesma coiza que cicatrizes ou fossulas superficiaes (pedicularis palustris, protea hirta, obliqua, &c.)
Pontos (puncta), saõ salpicos minimos glandulosos, taes como os que se vem nas flores da fraxinella. Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.
Graõs (granula, s. grana), saõ certas [Página 253] excrescencias globulosas, e callosas que se daõ nos tegumentos das flores da labaça, e outras especies de rumex.
Vesiculas (vesicula, papulae), saõ excrescencias cellulosas ou pequenas
bolhas coradas, e transparentes, que contem dentro em si alguns succos
proprios, como saõ as que se vem na superficie de huma laranja, e que
contem o seu oleo essensial Nota
Taõbem se da o nome de vesiculas as pequenas cellulas succulentas , de que consta qualquer bago de laranja
ou limaõ, e ás fructificaçoẽs gelatinosas do fucus.
Mamillos ou tuberculos (mamilli, s. tubercula), saõ
pontos carnudos, pontudos, e ordinariamente mais largos na base, como os
do cactus mamillaris, e algumas euphorbias Nota
Os tuberculos em algumas especies de
lichen saõ pontos escabrosos e pulverulentos, que constituem o
receptaculo da sua fructificaçaõ. Nas folhas da pulmonaria
e outras asperifolias os pontas asperos, que as salpicaõ saõ
taõbem chamados tuberculos .
Utriculos (utriculi) Nota
Os utriculos considerados em geral podem ser divididos
em internos e externos; os internos dependem da dissecçaõ, e
microscopio para se poderem observar, elles saõ destinados à
preparaçaõ dos succos proprios, e digestaõ dos succos
nutritivos; os externos saõ os que se achaõ na superficie dos
vegetaes, huns saõ pouco apparentes, dos quaes ja fiz mençaõ
debaixo do nome glandulas utriculares, outros saõ assaz
apparentes de modo que ainda mesmo sem lente se podem observar,
e saõ os de que tracto presentemente.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.
Poros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).
Fossulas (fossulae, s. foveae), saõ pequenas cavidades excretorias, como v. g. as que se achaõ na base das petalas da coroa imperial, e outras especies de fritillaria.
Cicatrizes ou pustulas Nota
Taõbem se da o nome de pustulas a huma
especie de enfermidade dos fructos feridos pelo granizo, como
saõ as que se vem nas pera a que o vulgo chama peras
pedradas.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos. Como a preparaçaõ deste fluido pertence igualmente a vasos internos, e o costumaõ extrahir de muitas plantas por meyo de incisoẽs, pareceme ser mais proprio de tractar da sua natureza no capitulo seguinte.
[Página 256]Por succulencia (succulentia, s. lactescentia), os botanicos entendem a qualidade, e cor dos succos que vertem os vasos de huma planta, quando a ferimos ou quebramos.
Os succos das plantas dizem-se ser: aquosos (aquosi succi), quando naõ saõ corados e se assemelhaõ á agoa commua (a videira), lacteos (lactei, albi), se saõ da cor de leite, como nas euphorbias e papoila, amarellos (lutei), como na celidonia; vermelhos (rubri), como os do rumex sanguineus, e os dos ramos tenros do carthamus lanatus.
O succos preparados pelos vasos proprios dos vegetaes que sejaõ extrahidos por meyo de huma incisaõ artificial, quer derramados na casca por ex- sudaçaõ ou rotura, adquirem muitas vezes huma consistencia mais ou menos densa, e saõ chamados neste estado resinas, gommas, e gomas-resinas. As re- sinas (resinae), podem facilmente reconhecer-se, e distinguir-se das gomas pela razaõ de arderem rapi- damente no fogo, e de se dissolverem em espirito de vinho e naõ em agoa, como saõ o pez, thereben- tinas, &c. A gomma (gummi), pelo contrario, naõ arde no fogo, e dissolve-se em agoa e naõ em espirito de vinho, como se vê na goma arabia e na das gin- geiras e amexieiras; a goma-resina (gummi-resina), dissolve-se parte em espirito de vinho e parte em agoa, como se vê na que he extrahida da aloe.
[Página 257]O Sexo das plantas he fundado sobre o das suas flores, e por conseguinte
quasi todas as denominaçoẽs, que se costumaõ dar a estas relativamente ao
sexo, se podem com propriedade dar taõbem ás plantas que as produzem. Pelo que as plantas dizem-se masculinas (plantae mares), quando daõ
somente flores masculas; femininas (feminae), se daõ somente flores
femininas; hermaphoditas (hermaphroditae), se daõ flores hermaphroditas;
monoicas (monoicae), quando no seu tronco ou ramos daõ flores humas
masculinas outras femininas, como o milho, melaõ, e abobara; dioicas
(dioicae), quando em dois individuos da mesma especie ha hum que dà
flores masculinas e outro femininas Nota
O nome de dioica he neste cazo
somente dado a especie, porque os individuos saõ plantas ou
masculinas ou femininas, e o mesmo se deve entender do nome
polygama, quando he dado as plantas proprias da Polygamia dioecia e
trioecia.
Os modernos costumaõ dar o nome de hybridas, ou mulinas (hybridae) a certas
plantas, que procedem de duas especies diversas, assim como no reyno animal
os mulos procedem do coito do jumento e egoa, individos especificamente
differentes. Este effeito tem lugar nos vegetaes em razaõ de cahir o po fecundante das flores de huma especie sobre o pistillo
das flores de outra; as sementes que provêm desta fecundaçaõ saõ as que
produzem as plantas hybridas Nota
Segundo a opiniaõ de alguns Botanicos
todas as especies de plantas que ha hoje na face do globo terreatre
saõ as mesmas que haviaõ nos dias primitivos da terra; elles so
admittem novas variedades e jamais novas especies; outros pelo
contrario saõ de parecer que ha muitas novas especies procedidas do
coito entre individuas especificamente differentes. Esta ultima
opiniaõ naõ me parece ser bem fundada, e as plantas hybridas provaõ
contra ella. As differentes plantas que procedem de differentes
individos ou saõ mestiças, ou mulinas, As mestiças saõ as que provem
de duas especies ou variedades, e daõ sementes fecundas; se cortamos
v. g. os estames a huma tulipa vermelha, e apolvilhamos o seu
pistillo com o po dos estames de huma tulipa brança, as sementes da
dicta tulipa vermelha produziraõ tulipas humas vermelhas, outra
brancas, outras variegadas de vermelho e branco, as suas sementes
seraõ fecundas, e semelhantes plantas por conseguinte devem ser
chamadas mestiças. As plantas mulinas rigorosamente taes saõ as que
procedem de duas especies analogas, ou do mesmo genero, e daõ
sementes sempre estereis ou incapazes de reproduzir individuo algum.
Tanto as mestiças como as mulinas naõ saõ outra coiza mais do que
variedades, a pezar de que algumas tenhaõ sido consideradas como
verdadeiras especies; as mulinas tem quasi todo o habito externo
d'alguma das plantas de que descendem, ou naõ differem da especie
senaõ no viço e infecundidade da flor. Vej. O termo Hybridae
plantae, no Dicc. Bot. vol. 2.
O viço dos vegetaes (luxariatio), he considerado por alguns botanicos ou como floral ou como habitual; o floral he relativo às partes da fructificaçaõ, e delle fallei jà em seu lugar; o habitual consiste na mudança que algumas causas occasionaes fazem nas partes da vegeteçaõ, isto he, em quaesquer partes que naõ saõ flor nem fructo, e como esta alteraçaõ tem lugar nas plantas da mesma especie e as faz variar, e degenerar costumaõ taõbem dar-lhe o nome de variaçaõ ou de degeneraçaõ (variatio, s. degeneratio); mas estes dois termos tem huma accepcaõ mais extensa.
O viço tem lugar ás vezes no tronco,quando as plantas vem a ser cespitosas
(cespitosae) lançando da mesma raiz em hum terreno pingue
muitos troncos, aindaque aliás no terreno que lhes he natural somente
lançaõ hum Nota
Basta muitas vezes cortar o tronco pela base para fazer huma
planta cespitosa.
A degeneraçaõ das plantas pode ter lugar de muitos modos, em razaõ da cultura, mudança de terreno, clima, idade, &c. A cultura naõ amansa menos as feras do que as plantas; ella lhes faz perder os seus espinhos, hispidez, e toda a sorte de pelos, amacia a aspereza dos seus succos, e adoça muitas vezes o amargo e acidez dos seus fructos; as plantas que cultivamos em nossos jardins, hortas, e pomares daõ disro huma clara prova; o estado inculto ou bravio era o seu estado natural; parecenos que lho melhoramos pelas enxertias e amanhos, e pensamos que degeneraõ todas as vezes que por falta da devida cultura [Página 261] tornaõ a ser bravas; mas na realidade aos olhos de hum sabio naturalista he huma verdadeira degeneraçaõ o que chamamos estado de melhoramento; huma amexieira, huma alcachofa hortense, ás quaes a cultura fez perder os seus espinhos, vivem dege- neradas em quanto se conservaõ neste estado; mas logo que abandonadas á revelia da natureza recobraõ seus espinhos, devem ser consideradas como restitui- das ao seu estado natural.
O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs. O clima naõ deixa taõbem de fazer degenerar as plantas quanto à sua duraçaõ, e as plantas que nos paizes quentes saõ vivaces, taes com as chagas, boa noyte, man- jerona, ricinus, &c. transplantadas nos paizes frios vem a ser annuaes. A idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.
O viço e degeneraçaõ podem fazer variar de muitos modos huma mesma especie, mas delles naõ resultaõ jamais novas especies, e he erro crer por ex. que a avea cortada antes da florecencia degenere de tal modo que no anno seguinte se converta em senteio, ou que o trigo em huma terra magra degenere em senteio, este em cerada, a cevada em joyo, &c. O corculo das semente he sempre huma plantula propria, segundo as leys da natureza, para continuar a forma especifica do ente que a produzio, porque aliás teriamos novas creaçoẽs; elle he formado [Página 262] da medulla da planta materna, ou de huma substancia similar de modo, que naõ pode perpetuar senaõ Individuos especificamente semelhantes aquelle a quem esteve apegado no tempo, em que foy gerado e nutrido. Do mesmo modo os ramos, gomos, e bolbos por mais variedades, que possaõ dar, sempre conservaõ os caracteres e essencia da sua especie, porque saõ della meros pedaços vitaes. Pelo que dizer, que hum ramo ou colmo de avea v. g. pode dar huma espiga com sementes de senteio, he querer mudar a natureza das vegetes e fingir chimeras.
Os differentes estados da atmosphera, os excessivos calores ou frios,
qualquer vicio notavel da transpiraçaõ, a obstrucçaõ dos vazos, a plenitude
e condensaçaõ dos succos, e as corrosoẽs e picadas dos insectos saõ as
principaes causas das doenças dos vegetaes (morbi). Ellas saõ taõ
numerosas que podiaõ formar o sujeito de hum bom tractado pathologico Nota
Athe ao presente naõ temos ainda huma boa pathologia nem
therapeuteia dos vegetaes, semelhantes tractados seriaõ
summamente uteis á agricultura, e naõ deixariaõ taõbem de ser
proveitosos á Botanica fundamental.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.
Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.
Cravagem (clavus), saõ pontas denigridas que se observaõ as vezes nas sementes do senteio e junças.
Fogagem (ustilago, uredo), he huma especie de carie das sementes de maneira que a planta, em vez de dar sementes, da huma farinha negra: observa-se muitas vezes nas espigas da cevada, avea, trigo e outras gramas, como taõbem nalgumas especies de escorcioneira, e tragopogon.
Crestamento do sol (aestus, s. aestuatio), quando saõ crestadas pelos grandes
calores, e desmayaõ de tal sorte que ordinariamente perecem. Os antigos
quando viaõ desmaiar huma planta e morrer por hum golpe de sol Nota
Chamaõ
golpe de sol aos raros solares subitamente descortinados de huma nuvem
espessa, e vibrados ardentemente sobre a terra.
Ensoamento (sitis), quando por falta de agoa ou de sufficiente humidade desmayaõ hum tanto, mas tornaõ a restabelecerse, sendo regadas, ou sobrevindo chuvas.
Friagem (pernio), quando saõ em parte crestadas do frio, ou feridas pelo granizo.
[Página 264]Geladura (congelatio), quando todos os seus succos saõ congelados, ou que o movimento destes he de tal modo estorvado e suspendido pelo frio, que morrem.
Marasmo ou atrophia (fames, marasmus, s. atrophia), quando por falta de terra, de succos competentes, ou qualquer outra causa emagrecem summamente ou perecem de magreza.
Corpulencia (polysarchia), quando engrossaõ mais do natural em razaõ dos demasiados succos, e nimia nutriçaõ.
Cancro (cancer), he hum grande inchaço causado pela extravasaçaõ dos succos, sem contudo rebentar a epiderme.
Plethòra ou plenitude (plethora), segundo alguns naturalistas he huma demasiada abundancia de succos de modo que se extravasaõ por meyo de algumas roturas da epiderme, o que constitue hemorrhagias mais ou menos consideraveis; as resinas, gomas, gomas-resinas saõ, segundo elles, especies de hemorrhagias vegetaes occasionadas por huma plenitude de succos.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c. Os insectos causaõ taõbem algumas monstruosidades nas flores, fazendo-as dobrar, prolificar, &c como ja notei em seu lugar.
A grandeza ou medida (magnitudo, s. mensura), he como a notei, ou relativa ou obsoluta; a relativa he a largura, ou comprimento das partes dos vegetaes comparadas humas com as outras; a absoluta consiste nas dimensoẽs conhecidas, ou nas que saõ deduzidas das partes e estatura do corpo humano, que se reduzem as seguintes.
Hum cabello (capillus) he o diametro ou grossura de hum cabello, que se suppoem ser a duodecima parte de huma linha, e neste sentido as partes dos vegetaes dizem-se ser verdadeiramente capillares, (capillares) quando saõ da grossura de hum cabello.
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).
[Página 266]Huma unha (unguis), he o comprimento della, que se suppoem ser seis linhas ou meya pollegada, e neste sentido a grandeza diz-se ser de huma unha (unguicularis).
Huma pollegada (pollex, s. uncia), he o diametro do dedo pollegar ou taõbem o espaço que vay desde a sua ultima junta athe à ponta, que se suppoem ser doze linhas, e neste sentido a grandeza diz-se ser de meya pollegada (semiuncialis) de huma pollegada (uncialis, s. pollicaris), de pollegada e meya (sesquiuncialis, s. sesquipollicaris) de duas pollegadas, &c. (biuncialis, &c.).
Huma maõ travessa (palmus), he a largura de quatro dedos reunidos, excepto o pollegar, e se suppoem ser tres pollegadas; neste sentido a grandeza diz-se ser de meya maõ travessa, de huma maõ travessa, e de maõ travessa e meya (semipalmaris, palmaris, sesquipalmaris).
Hum palmo de craveira, hum palmo maior (dodrans), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do minimo bem estendidos, o que se suppoem ser nove pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo de craveira (dodrantalis).
Hum palmo bastado ou palmo menor (spithama), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do dedo mostrador, seu immediato, bem estendidos, o que se suppoem ser sette pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo bastardo (spithamea).
Hum pe (pes), he pouco mais ou menos o espaço que medea desde o sangradoiro do braço athe á bado dedo pollegar, o que se suppoem ser doze [Página 267] pollegadas, donde a grandeza se diz ser de meyo pe (semipedalis de hum pe (pedalis), de pe e meyo (sesquipedalis) de dois pés, &c. (bipedalis, &c.)
Hum covado natural (cubitus), he o espaço que vay desde o cotovelo athe a ponta do dedo grande, que se suppoem ser desasette pollegadas; a grandeza diz-se ser de hum, dois, tres covados naturaes, &c. (cubitalis, bicubitalis, tricubitalis, &c.)
Hum braço (brachium), he o espaço que vay desde o sovaco athe á ponta do dedo grande, o que se suppoem ser dois pez, donde a grandeza se diz ser de hum braço (brachialis).
Huma braça, ou a altura de hum homem (orgya, altitudo humana, s. hexapoda), he o espaço que vay da extremidade de huma maõ athe a da outra, estando os braços abertos, o que se suppoem ser seis pès, donde a grandeza se diz ser de huma braça (orgyalis, s. sexpedalis).
As cores dos vegetaes (colores), de que tracto presentemente neste artigo, naõ somente saõ as que respeitaõ ás partes da fructificaçaõ, aonde costumaõ ser infinitamente variadas, mas taõbem as que saõ relativas a toda a superficie de qualquer das suas partes. Os antigos consideravaõ as cores como huma das principaes notas do habito externo, com que [Página 268] se podiaõ destinguir as especies; Linneo criticou fortemente este sentimento, dizendo que se bem que ellas podiaõ servir para fazer destinguir as variedades, naõ subministravaõ caracteres seguros para estabelecer especies; alguns modernos contudo naõ admittem inteiramente este parecer, e pensaõ que elle he sojeito a excepçoẽs, como direi em outro lugar. Os differentes gráos de intensidade, com que a natureza còra as flores naõ se podem perfeitamente exprimir nem com vozes, nem com penna, e raras vezes ainda mesmo o pincel as bem imita. Alguns pensaõ que se podiaõ dar sufficientes idéas de muitas dellas, comparando-as com as cores fixas das substancias de que usaõ os pintores e tintureiros; este parecer podia ser adoptado se os Botanicos julgassem ser necessario empregar os nomes exactos das cores na descripçaõ de qualquer planta, mas commumente desprezaõ esta circumstancia, e porisso bastará fazer so mençaõ aqui das cores ordinarias, de que elles costumaõ usar algumas vezes, as quaes se podem reduzir ás seguintes.
Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.
De cor vidrenta ou de cristal (hyalinus, s. vitreus); cor d'agoa (aqueus, s. undulatus) estas cores observão-se muitas vezes nos filetes dos estames e no estylete do pistillo.
Cinzento (cinereus); cor de chumbo (plumbeus, lividus.)
[Página 269]Negro (niger); fusco, pardo (fuscus); fullo, baço (fullus); a cor negra observa-se muitas vezes nas raizes o sementes, mas he raro de a ver nos fructos e ainda muito mais raro na corolla.
Pallido (luridus); cor de pêz (piceus, ater).
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.
Açafroado (croceus); cor de fogo (flammeus, fulvus).
Gris ou griseo (gilvus) cor de tejolho (testaceus).
De cor da ferrugem do ferro (ferruginens).
Vermelho (ruber); as flores do estio, e bagas azedas tem ordinariamente esta cor; vermelho cor de sangue (sanguineus); vermelho cor de carne, ou encarnado (incarnatus); escarlatino, cor de escarlata (coccineus, puniceus); cor de rosa (roseus).
Purpureo, cor de purpura (purpureus, phaeniceus, s. tyrianthinus); purpureo claro (diluté purpureus); purpureo escuro (saturatè purpureus, s. atropurpureus); roxo (violaceus, janthynus, caeruleo-purpureus).
Azul (caeruleus); azul celeste (cyaneus); estas cores saõ mui frequentes nas corollas.
Verde (viridis); verde cor de alho porro (prasi- nus); verdemar (thalassinus); verdenegro (atroviridis). A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.
Garço (glaucus, glaucinus, caesius); a cor garça participa da verde e da azulada, e porisso muitos a [Página 270] comparaõ com propriedade á cor da pedra preciosa chamada beryllo.
O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
A Patria ou habitaçaõ das plantas (locus natalis, s. plantarum habitatio), he o lugar em que ellas costumaõ nascer sem soccorro algum de cultura, e he considerada pelos Botanicos debaxo das relaçoẽs de paiz, clima, sitio e terreno.
Pelo termo de paiz (regio) entendem imperios, reynos, provincias, e quaesquer destrictos proprios a certas especies de plantas.
Por clima (clima) os Botanicos entendem três sorte de dimensoẽs terrestres, a saber, latitude, longitude, e altura do lugar. A latitude he a distancia que vay desde o equador athe o polo artico ou antarctico, e comprehende noventa graos tanto da banda do norte como do Sul, o que faz a quarta parte do ambito da terra; e longitude he o ambito da terra, ou espaço de 360 graos, começando do meridiano da Ilha de Ferro athe ao mesmo ponto do dicto meridiano; a altura he a medida perpendicular que medea entre a superficie do mar e o cume de [Página 219] huma elevada montanha; ella se costuma calcular ordinariamente com o soccorro de hum barometro. A altura falha muito menos, do que a latitude e longitude, relativamente a reconhecer a semelhança das plantas, porquanto he bem notorio que muitos lugares que se achaõ na mesma latitude ou longitude daõ plantas inteiramente differentes, ao mesmo tempo que as das montanhas da Suissa, Lapponia, Brasil, Siberia, Pyreneos, Olympo, &c. saõ ordinariamente semelhantes.
Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.
1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs. Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .
2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.
3º. Austral (Australe), comprehende o espaço que vay desde a Ethyopia athe ao Cabo da Boa Esperança, e igualmente o reyno do Peru e grande parte do Brasil, aonde o calor he menos fervido do que no clima Indico. Como o estio deste clima tem lugar exactamente no tempo que corresponde ao nosso inverno, daqui procede que os vegetaes transplantados deste clima florecem na Europa ordinariamente perto do solsticio do inverno.
4º. Europeo meridional (Europaeum meridionale), comprehende Portugal, Hespanha, a França meridional, Italia, Hongria athe á Morêa, e o Archipe-lago. Alguns o dividem em clima do continente e insular, incluindo neste segundo as ilha Europeas do Mediterrano, nas quaes o calor he maior do que o da terra firme; outros ajuntaõ os climas da Syria, Media e Armenia, por acharem nelles as mesmas plantas que se daõ no clima meridional da Europa.
5º. Europeo septentrinal (Europaeum septentrionale), comprehende a Lapponia, Suecia, Dinamarca, Prussia, Allemanha, Suissa, Hollanda, Flandres, Inglaterra, e parte do norte da França.
6º Oriental (Orientale) comprehende o grande Continente da Asia septentrional, a Siberia e Tartaria desde os confins da Syria e Persia athe aos da China; as plantas deste clima florecem ordinariamente logo que a atmosphera começa a aquecer, como entre nos florecem as da primavera.
[Página 221]7º. Occidental (Occidentale) comprehende a America septentrional athe a Carolina, e igualmente o Iapaõ; as plantas deste clima florecem ordinariamente no outono.
8º. Alpino (Alpinum), he proprio das montanhas alpinas, que saõ as mais elevadas que ha no globo terrestre, cobertas de neve em varios lugares, aonde naõ ha primavera nem outono, mas sim hum longo inverno, e curto estio de dois mezes ou menos, como saõ os Alpes da Suissa, as Cordilheiras da America meridional, &c. As plantas deste clima nascem, florecem e fructificaõ dentro de pouco tempo.
O sitio (situs) he o lugar aonde costuma naturalmente nascer e nutrir-se qualquer planta, e he ou terrestre ou aquoso ou parasitico. As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.
1º Sitios aquosos.
O mar, ou agoa marina (mare, s. aqua marina) he hum fluido aquoso naturalmente impregnado de sal commum; as plantas que se dão n'agoa do mar ordinariamente saõ destituidas de raizes, nutrem-se pelas suas porosidades, e naõ supportaõ jamais frios rigorosos nem os gelos do inverno (como o fucus, e ulva); daõ-lhes o nome de plantas marinhas (pl. marinae).
[Página 222]As prayas, e costas maritimas (littora, littorale solum, loca maritima), saõ lugares immediatamente proximos ao mar, cobertos pelas marés, açoitados das ondas e dos ventos, mais ou menos arenosos e salgados. As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c. Estas plantas saõ por alguns botanicos denominadas maritimas (maritimae).
As fontes (fontes), saõ mananciaes de agoa doce Ha fontes de
agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas
que saõ de natureza semelhante á das
maritimas.Nota
Os rios (fluvii), saõ largas e prolongadas correntes de agoa doce e fresca; a terra banhada d'agoa dos rios (solum fluviale) dá taõbem algumas plantas particulares, como v. g. o potamogeton, ranunculus aquaticos, &c.
As ribeiras, margens dos rios e das lagoas (ripae), saõ lugares cobertos de agoa na estaçaõ do inverno, & descobertos no tempo do estio; nellas costumaõ dar-se a salicaria, o lycopus europaeus, a lysimachia vulgaris, &c.
Pégos, lagos limpos (lacus, lacustre solum), saõ lugares que contem agoa pura, e profunda; o seu fundo naõ he lodoso, mas tem huma certa firmeza ou solidez; daõ-se nelles a nymphaea, subularia, isoetes, &c.
[Página 223] Lagoas profundas, paûes, albofeiras Nota
Nos damos o nome de albofeiras (paludes maritimae), ás grandes
lagoas que saõ vizinhas do mar, e contem agoa salgada e doce
misturadas: em alguns lugares costumaõ abrir estas lagoas a fim
de desalagar os campos, e os aproveitar em pastos e searas.
Tanques, charcos, fossos (stagna, paludes, palustre solum), saõ pequenas lagoas baxas, limosas, lodosas, que se seccaõ inteiramente no estio; daõ-se nelles a tabûa, lirios, junças, &c.
Alagadiços (inuadata loca), saõ terrenos alagados pelas chuvas do inverno, & que se seccaõ no veraõ; daõ-se nelles o arroz, canna de assucar, tamargueira, &c.
Pantanos, bréjos, tremedaes (loca uliginosa), saõ terrenos balofos, ensopados d'agoa pôdre, que naõ daõ feno, nem saõ proprios para searas; daõ-se nelles a ulmaria, quejadilho, valeriana dioica, &c.
2º Sitios terrestres.
Montes, oiteiros (montes, colles, solum montanum, s. collinum), saõ lugares elevados, na parte superior lavados dos ventos, sabulosos, e seccos; daõ-se nelles a carlina, arnica, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.
Rochas, penhas (rupes, rupestre solum), saõ lugares alcantilados, pedregosos, e aridissimos; daõ-se nelles a cymbalaria, aloe, mesembryanthemum, sedum, &c.
Campos, campinas (campi, campestre solum), saõ lugares incultos descobertos, seccos, e hum tanto asperos; daõ-se nelles a bisnaga, bonina, e muitas outras plantas ordinariamente herbaceas.
Prados (prata, pratense solum), saõ terras baxas incultas, valles humidos cobertos de plantas herbaceas viçosas, e serrados para que nelles naõ entre o gado no estio; daõ-se nelles o ranunculus acris, o lotus corniculatus, scabiosa succisa, escorcioneiras, trevos, e outras muitas plantas, que constituem o copioso feno que nos paizes do norte da Europa cortaõ no estio, seccaõ, e recolhem para sustentar os gados no inverno.
Pastos (pascua), saõ campina abertas com plantas destinadas a nutrir os gados, hum tanto sabulosas, e menos ferteis do que os prados; daõ-se nelles a prunella, euphrasia, &c.
Searas (agri, segetes, agreste solum), saõ terras lavradas em que se semeão legumes e sementes, de que se costuma fazer paõ; daõ-se nellas as esporas, joyo, verdeselha, hervinha, &c.
Alqueives (arva, arvense solum), saõ terras lavradias, que se deixaõ descançar algum tempo; nas terras alqueivadas costumaõ dar-se o raphanus raphanistrum sinapis alba et arvensis, o murriaõ, algumas especies de macella, o abrolho, a agulha de pastor, &c.
[Página 225]Jardins, hortas (horti, culta, solum hortense), saõ terrenos muito estercados, cavados, regados, e cultivados todo o anno; daõ-se nelles as ortigas, murujem, amor de hortelaõ, &c.
Esterqueiras (fimeta), saõ os lugares em que se accumulaõ os excrementos dos gados, misturados com alguns estragos de vegetaes; daõ-se nelles as ortigas, o estramonio, asperugo, &c.
Bordas dos caminhos (versurae), vallados e seves (aggeres, sepes) saõ considerados como lugares estercados, e o mesmo saõ as bordas das cazas, dos muros, ruas, praças e mercados (ruderata, ruderale solum), as plantas proprias destes lugares saõ por ex. a poa annua, erysimum officinale, lolium perenne, almeiraõ, tanchagem, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.
Brenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.
Matto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.
Queimadas (ambusta), saõ os lugares, cujo matto foy destruido com fogo, a fim de os fertilizar com as cinzas dos vegetaes queimados, e de os dispor para pastos, ou searas.
3º Sitios parasiticos.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.
Por terreno (terra, solum), os botanicos entendem a natureza do chaõ proprio a qualquer planta, e o destinguem ordinariamente em quatro sortes, a saber, arêa, argilla, greda, e terra vegetosa.
A area (arena), he hum composto de pequenos graõs seccos, duros, quarzozos, e desadunados; ella varia quanto a grandeza dos seus graõs, como se vê na area das empulhetas, na das escrivaninhas, na das prayas, e na area grossa a que chamamos saibro. Ordinariamente acha-se misturada com alguma das outras terras, e he neste estado misto de terreno que nasce e vegeta bem hum grande numero de plantas, como a canneira, pinheiros, urzes, digital, serpaõ, tojo, espargo, herva turca, &c.
[Página 227]A argilla (argilla), he huma terra unctuosa e de grande tenacidade quando humedicida, susceptivel de endurecer consideravelmente, e naõ faz effervecencia com os acidos; acha-se sempre misturada mais ou menos com outras terras, e lhe damos algumas vezes o nome de piçarra. Quando ella se acha misturada com huma boa porçaõ de cré, daõ-lhe o nome de marga (marga), e neste estado costuma servir para fertilizar as terras. Os terrenos argillosos saõ favoraveis á vegetaçaõ de hum grande numero de plantas, taes como os papoilas, verbascos, bolsa de pastor, &c.
A greda ou cré (creta), he huma terra arida, que se acha nos oiteiros seccos e pouco fecundos; quando he para faz effervescencia com os acidos; suppoem-se ter a mesma origem, que as pedras calcareas; acha-se ordinariamente misturada com outras terras, e neste estado he conveniente á vegetaçaõ da verbena, esferro cavallo ou ferradurina, da reseda, e muitos outros vegetaes.
A terra vegetosa (humus), acha-se por toda a superficie do globo terrestre em
mais ou menos quantidade, e deve a sua origem á descomposiçaõ dos vegetaes e
animaes. E sua cor varia em razaõ das terras, com que se acha misturada,
parece contudo que a mais pura he a que tem huma cor denigrida. He
summamente fertil Nota
Kylbel he de opiniaõ que o principal alimento dos vegetaes
consiste nas particulas finissimas, e subtis da terra
vegetosa. ( Dissert sobre a causa da fertilidade das
terras. )Nota
Se nos tempos primitivos do globo terrestre cada hum dos vegetaes
teve o seu clima, sitio, e terreno proprio, a natureza parece
ter-se eximido deste habito pouco a pouco, porquanto vemos hoje
plantas, que se daõ igualmente bem por toda a parte.
Do que tenho exposto athe aqui sobre a habitaçaõ natural dos vegetaes se
collige claramente, que differindo ella segundo os diversos climas, sitios,
e terrenos, toda a habitaçaõ artificial deve imitar as suas diversidade o
mais que for possível. A habitaçaõ artificial, de que fallo aqui, saõ todos
os jardins botanicos, em que ha hum grande numero de plantas exoticas, ou
aquaticas naturaes do paiz e de terrenos particulares, e que porisso mesmo
requerem os soccorros da arte para se poderem conservar. Estes soccorros
consistem principalmense em que cada
canteiro ou alegrette do jardim naõ conste so de huma casta de terra mas
de muitas differentes, de maneira que cada planta tenha a terra que lhe
he propria. As que saõ naturaes dos bosques, e requerem sombra devem ser guarnecidas
de huma sombrella Nota
He hum vazo de barro, huma grande choca de lata, ou hum cesto
cylindrico de vime, abertos de ilharga, que servem para fazer
sombra ou para abrigar a planta dos ventos. Nota
Saõ campanas de vidro, ou pequenas guaritas envidraçadas, com as
quaes se costumaõ nos jardins cobrir as plantas indigenas dos
paizes quentes a Asia, Africa, e America. Nota
Naõ faço aqui mençaõ de muitas outras circumstancias relativas
aos jardins botanicos por me parecem menos proprias do presente
tractado, e demais disso ellas saõ hoje bastantemente conhecidas
em Portugal, o sabio Naturalista que tem a inspecçaõ do Jardim
Real do Palacio da Ajuda, e do da Universidade de Coimbra naõ
nos deixou nada que dezejar nesta materia.
A Patria ou habitaçaõ das plantas (locus natalis, s. plantarum habitatio), he o lugar em que ellas costumaõ nascer sem soccorro algum de cultura, e he considerada pelos Botanicos debaxo das relaçoẽs de paiz, clima, sitio e terreno.
Pelo termo de paiz (regio) entendem imperios, reynos, provincias, e quaesquer destrictos proprios a certas especies de plantas.
Por clima (clima) os Botanicos entendem três sorte de dimensoẽs terrestres, a saber, latitude, longitude, e altura do lugar. A latitude he a distancia que vay desde o equador athe o polo artico ou antarctico, e comprehende noventa graos tanto da banda do norte como do Sul, o que faz a quarta parte do ambito da terra; e longitude he o ambito da terra, ou espaço de 360 graos, começando do meridiano da Ilha de Ferro athe ao mesmo ponto do dicto meridiano; a altura he a medida perpendicular que medea entre a superficie do mar e o cume de [Página 219] huma elevada montanha; ella se costuma calcular ordinariamente com o soccorro de hum barometro. A altura falha muito menos, do que a latitude e longitude, relativamente a reconhecer a semelhança das plantas, porquanto he bem notorio que muitos lugares que se achaõ na mesma latitude ou longitude daõ plantas inteiramente differentes, ao mesmo tempo que as das montanhas da Suissa, Lapponia, Brasil, Siberia, Pyreneos, Olympo, &c. saõ ordinariamente semelhantes.
[Página 219]Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.
Os principaes climas segundo os Botanicos saõ denominados.1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs. Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .
1º O Indico (Indicum), que comprehende os lugares situados debaxo da Zona Torrida na Asia, Africa, e America, principalmente insulares e das costas maritimas aonde naõ ha vestigios de inverno, nem frios que condensem o ar da respiraçaõ de modo que o façaõ sensivel à vista; as plantas florecem neste clima pela maior parte duas vezes no anno em razaõ do calor continuado; em muitos lugares as chuvas duraõ alguns mezes, o que faz destinguir no anno somente duas estaçoẽs.Os vegetaes destes paizes ordinariamente brotaõ e reforçaõ nos jardins da Europa durante a primavera e outono, e enlangoecem no estio e inverno sem contudo perderem as suas folhas .folhas2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.
2º. Egypciaco e Arabico (Aegypiacum e Arabicum), comprehende os lugares aonde ha hum calor fervido e areas adentes, sobre as quaes senaõ pode andar descalço; nelles naõ chove durante a maior parte do anno, e dahi procede que o maior numero das suas plantas indigenas tem raizes bolbozas e tuberosas, [Página 220] por meyo das quaes se podem conservar sem agoa largo tempo.[Página 220]3º. Austral (Australe), comprehende o espaço que vay desde a Ethyopia athe ao Cabo da Boa Esperança, e igualmente o reyno do Peru e grande parte do Brasil, aonde o calor he menos fervido do que no clima Indico. Como o estio deste clima tem lugar exactamente no tempo que corresponde ao nosso inverno, daqui procede que os vegetaes transplantados deste clima florecem na Europa ordinariamente perto do solsticio do inverno.
4º. Europeo meridional (Europaeum meridionale), comprehende Portugal, Hespanha, a França meridional, Italia, Hongria athe á Morêa, e o Archipe-lago. Alguns o dividem em clima do continente e insular, incluindo neste segundo as ilha Europeas do Mediterrano, nas quaes o calor he maior do que o da terra firme; outros ajuntaõ os climas da Syria, Media e Armenia, por acharem nelles as mesmas plantas que se daõ no clima meridional da Europa.
5º. Europeo septentrinal (Europaeum septentrionale), comprehende a Lapponia, Suecia, Dinamarca, Prussia, Allemanha, Suissa, Hollanda, Flandres, Inglaterra, e parte do norte da França.
6º Oriental (Orientale) comprehende o grande Continente da Asia septentrional, a Siberia e Tartaria desde os confins da Syria e Persia athe aos da China; as plantas deste clima florecem ordinariamente logo que a atmosphera começa a aquecer, como entre nos florecem as da primavera.
[Página 221]7º. Occidental (Occidentale) comprehende a America septentrional athe a Carolina, e igualmente o Iapaõ; as plantas deste clima florecem ordinariamente no outono.
8º. Alpino (Alpinum), he proprio das montanhas alpinas, que saõ as mais elevadas que ha no globo terrestre, cobertas de neve em varios lugares, aonde naõ ha primavera nem outono, mas sim hum longo inverno, e curto estio de dois mezes ou menos, como saõ os Alpes da Suissa, as Cordilheiras da America meridional, &c. As plantas deste clima nascem, florecem e fructificaõ dentro de pouco tempo.
O sitio (situs) he o lugar aonde costuma naturalmente nascer e nutrir-se qualquer planta, e he ou terrestre ou aquoso ou parasitico. As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.
As plantas aquaticas tem as suas raizes ordinariamente apegadas á terra, e o resto do seu corpo mergulhado n'agoa inteiramente ou em parte; ha contudo algumas, como v. g. os limos, lemna, ulva, certas especies de fucus, &c. que se nutrem dentro d'agoa sem terem contudo contacto algum com a terra, e ha outras que somente tem a raiz encravada em hum terreno humido ou ensopado em agoa e o resto exposto ao ar.raiz1º Sitios aquosos.
O mar, ou agoa marina (mare, s. aqua marina) he hum fluido aquoso naturalmente impregnado de sal commum; as plantas que se dão n'agoa do mar ordinariamente saõ destituidas de raizes, nutrem-se pelas suas porosidades, e naõ supportaõ jamais frios rigorosos nem os gelos do inverno (como o fucus, e ulva); daõ-lhes o nome de plantas marinhas (pl. marinae).
[Página 222]As prayas, e costas maritimas (littora, littorale solum, loca maritima), saõ lugares immediatamente proximos ao mar, cobertos pelas marés, açoitados das ondas e dos ventos, mais ou menos arenosos e salgados. As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c. Estas plantas saõ por alguns botanicos denominadas maritimas (maritimae).
As plantas que se daõ neste sitio contem alcali marino, saõ hum tanto succulentas , e aindaque a agoa salgada lhes he mais conveniente, naõ deixaõ contudo de se dar bem nas terras areentas; taes saõ por ex. as salgadeiras, a salsola, salicornia, crambe maritima, &c.succulentas As fontes (fontes), saõ mananciaes de agoa doce Ha fontes de
agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas
que saõ de natureza semelhante á das
maritimas.Nota
Ha fontes de agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas que saõ de natureza semelhante á das maritimas.
Ha fontes de agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas que saõ de natureza semelhante á das maritimas.
Ha fontes de agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas que saõ de natureza semelhante á das maritimas.
Ha fontes de agoa salgada, e he bem facil de entender que regaõ plantas que saõ de natureza semelhante á das maritimas.Os rios (fluvii), saõ largas e prolongadas correntes de agoa doce e fresca; a terra banhada d'agoa dos rios (solum fluviale) dá taõbem algumas plantas particulares, como v. g. o potamogeton, ranunculus aquaticos, &c.
As ribeiras, margens dos rios e das lagoas (ripae), saõ lugares cobertos de agoa na estaçaõ do inverno, & descobertos no tempo do estio; nellas costumaõ dar-se a salicaria, o lycopus europaeus, a lysimachia vulgaris, &c.
Pégos, lagos limpos (lacus, lacustre solum), saõ lugares que contem agoa pura, e profunda; o seu fundo naõ he lodoso, mas tem huma certa firmeza ou solidez; daõ-se nelles a nymphaea, subularia, isoetes, &c.
[Página 223] Lagoas profundas, paûes, albofeiras Nota
Nos damos o nome de albofeiras (paludes maritimae), ás grandes
lagoas que saõ vizinhas do mar, e contem agoa salgada e doce
misturadas: em alguns lugares costumaõ abrir estas lagoas a fim
de desalagar os campos, e os aproveitar em pastos e searas.
Tanques, charcos, fossos (stagna, paludes, palustre solum), saõ pequenas lagoas baxas, limosas, lodosas, que se seccaõ inteiramente no estio; daõ-se nelles a tabûa, lirios, junças, &c.
Alagadiços (inuadata loca), saõ terrenos alagados pelas chuvas do inverno, & que se seccaõ no veraõ; daõ-se nelles o arroz, canna de assucar, tamargueira, &c.
Pantanos, bréjos, tremedaes (loca uliginosa), saõ terrenos balofos, ensopados d'agoa pôdre, que naõ daõ feno, nem saõ proprios para searas; daõ-se nelles a ulmaria, quejadilho, valeriana dioica, &c.
2º Sitios terrestres.
Montes, oiteiros (montes, colles, solum montanum, s. collinum), saõ lugares elevados, na parte superior lavados dos ventos, sabulosos, e seccos; daõ-se nelles a carlina, arnica, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.
Montanhas, serras nivosas (alpes, juga montium, solum alpinum), saõ os lugares mais altos da terra, que ordinariamente estaõ nevoados, cobertos de neve no cume (a qual em alguns se derrete inteiramente no estio, em outros jamais se acaba de derreter) asperos, lavados dos ventos, e sem arvores na parte [Página 224] superior; daõ-se nelles algumas especies de azedas, violetta, alchimilla, &c.arvores[Página 224]Rochas, penhas (rupes, rupestre solum), saõ lugares alcantilados, pedregosos, e aridissimos; daõ-se nelles a cymbalaria, aloe, mesembryanthemum, sedum, &c.
Campos, campinas (campi, campestre solum), saõ lugares incultos descobertos, seccos, e hum tanto asperos; daõ-se nelles a bisnaga, bonina, e muitas outras plantas ordinariamente herbaceas.
Prados (prata, pratense solum), saõ terras baxas incultas, valles humidos cobertos de plantas herbaceas viçosas, e serrados para que nelles naõ entre o gado no estio; daõ-se nelles o ranunculus acris, o lotus corniculatus, scabiosa succisa, escorcioneiras, trevos, e outras muitas plantas, que constituem o copioso feno que nos paizes do norte da Europa cortaõ no estio, seccaõ, e recolhem para sustentar os gados no inverno.
Pastos (pascua), saõ campina abertas com plantas destinadas a nutrir os gados, hum tanto sabulosas, e menos ferteis do que os prados; daõ-se nelles a prunella, euphrasia, &c.
Searas (agri, segetes, agreste solum), saõ terras lavradas em que se semeão legumes e sementes, de que se costuma fazer paõ; daõ-se nellas as esporas, joyo, verdeselha, hervinha, &c.
Alqueives (arva, arvense solum), saõ terras lavradias, que se deixaõ descançar algum tempo; nas terras alqueivadas costumaõ dar-se o raphanus raphanistrum sinapis alba et arvensis, o murriaõ, algumas especies de macella, o abrolho, a agulha de pastor, &c.
[Página 225]Jardins, hortas (horti, culta, solum hortense), saõ terrenos muito estercados, cavados, regados, e cultivados todo o anno; daõ-se nelles as ortigas, murujem, amor de hortelaõ, &c.
Esterqueiras (fimeta), saõ os lugares em que se accumulaõ os excrementos dos gados, misturados com alguns estragos de vegetaes; daõ-se nelles as ortigas, o estramonio, asperugo, &c.
Bordas dos caminhos (versurae), vallados e seves (aggeres, sepes) saõ considerados como lugares estercados, e o mesmo saõ as bordas das cazas, dos muros, ruas, praças e mercados (ruderata, ruderale solum), as plantas proprias destes lugares saõ por ex. a poa annua, erysimum officinale, lolium perenne, almeiraõ, tanchagem, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.
Mattas ou arvoredos raleados (sylvoe, solum sylvestre), saõ lugares que constaõ de hum terreno sabuloso, duro, aspero, pouco fertil, sombrio, com arvores ralas, e de raizes á flor da terra; entre estas arvores daõ se algumas especies de urze, de hypnum, melampyrum sylvestre, &c.arvoresarvoresBrenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.
Brenhas, espessuras, bosques densos (nemora, nemorosum solum), saõ lugares cobertos de hum matto alto e muito espesso, o seu terreno he humido, hum tanto balofo, naõ exposto aos rayos do sol nem aos ventos no estio, e juncado de folhas no inverno; as plantas que se daõ entre as arvores das brenhas florecem ordinariamente na primavera, saõ pallidas e de huma contextura fragil, como saõ v. g. a convallaria polygonatum, pulmonaria officinalis, paris, sanicula europaea, asarum, fumaria bulbosa, &c.folhasarvoresMatto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.
Matto baxo (fruteta, ericeta, virgulta, dumesa) saõ [Página 226] lugares duros e asperos, cobertos de arbustos ou arvores baxas, como saõ entre nos os tojaes, urzaes, &c.[Página 226]arvoresQueimadas (ambusta), saõ os lugares, cujo matto foy destruido com fogo, a fim de os fertilizar com as cinzas dos vegetaes queimados, e de os dispor para pastos, ou searas.
3º Sitios parasiticos.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.
Os sitios parasiticos (loca parasitica), saõ o corpo de qualquer vegetal, ao qual huma planta parasita esta adunada, ou aferrada de modo que delle tira a substancia com que se nutre; estes lugares saõ humas vezes o tronco, e ramos das plantas lenhosas, como aquelles em que se vê o viscum, lichen, boletus, &c. outras vezes o tronco, ramos, e folhas de plantas herbaceas, como aquelles em que se da a cuscuta, e as vezes mesmo saõ as raizes, como aquellas a que estaõ apegadas a orobanche maior, e a lathraea clandestina.folhasPor terreno (terra, solum), os botanicos entendem a natureza do chaõ proprio a qualquer planta, e o destinguem ordinariamente em quatro sortes, a saber, arêa, argilla, greda, e terra vegetosa.
A area (arena), he hum composto de pequenos graõs seccos, duros, quarzozos, e desadunados; ella varia quanto a grandeza dos seus graõs, como se vê na area das empulhetas, na das escrivaninhas, na das prayas, e na area grossa a que chamamos saibro. Ordinariamente acha-se misturada com alguma das outras terras, e he neste estado misto de terreno que nasce e vegeta bem hum grande numero de plantas, como a canneira, pinheiros, urzes, digital, serpaõ, tojo, espargo, herva turca, &c.
[Página 227]A argilla (argilla), he huma terra unctuosa e de grande tenacidade quando humedicida, susceptivel de endurecer consideravelmente, e naõ faz effervecencia com os acidos; acha-se sempre misturada mais ou menos com outras terras, e lhe damos algumas vezes o nome de piçarra. Quando ella se acha misturada com huma boa porçaõ de cré, daõ-lhe o nome de marga (marga), e neste estado costuma servir para fertilizar as terras. Os terrenos argillosos saõ favoraveis á vegetaçaõ de hum grande numero de plantas, taes como os papoilas, verbascos, bolsa de pastor, &c.
A greda ou cré (creta), he huma terra arida, que se acha nos oiteiros seccos e pouco fecundos; quando he para faz effervescencia com os acidos; suppoem-se ter a mesma origem, que as pedras calcareas; acha-se ordinariamente misturada com outras terras, e neste estado he conveniente á vegetaçaõ da verbena, esferro cavallo ou ferradurina, da reseda, e muitos outros vegetaes.
A terra vegetosa (humus), acha-se por toda a superficie do globo terrestre em
mais ou menos quantidade, e deve a sua origem á descomposiçaõ dos vegetaes e
animaes. E sua cor varia em razaõ das terras, com que se acha misturada,
parece contudo que a mais pura he a que tem huma cor denigrida. He
summamente fertil Nota
Kylbel he de opiniaõ que o principal alimento dos vegetaes
consiste nas particulas finissimas, e subtis da terra
vegetosa. ( Dissert sobre a causa da fertilidade das
terras. )Nota
Se nos tempos primitivos do globo terrestre cada hum dos vegetaes
teve o seu clima, sitio, e terreno proprio, a natureza parece
ter-se eximido deste habito pouco a pouco, porquanto vemos hoje
plantas, que se daõ igualmente bem por toda a parte.
Do que tenho exposto athe aqui sobre a habitaçaõ natural dos vegetaes se
collige claramente, que differindo ella segundo os diversos climas, sitios,
e terrenos, toda a habitaçaõ artificial deve imitar as suas diversidade o
mais que for possível. A habitaçaõ artificial, de que fallo aqui, saõ todos
os jardins botanicos, em que ha hum grande numero de plantas exoticas, ou
aquaticas naturaes do paiz e de terrenos particulares, e que porisso mesmo
requerem os soccorros da arte para se poderem conservar. Estes soccorros
consistem principalmense em que cada
canteiro ou alegrette do jardim naõ conste so de huma casta de terra mas
de muitas differentes, de maneira que cada planta tenha a terra que lhe
he propria. As que saõ naturaes dos bosques, e requerem sombra devem ser guarnecidas
de huma sombrella Nota
He hum vazo de barro, huma grande choca de lata, ou hum cesto
cylindrico de vime, abertos de ilharga, que servem para fazer
sombra ou para abrigar a planta dos ventos. Nota
Saõ campanas de vidro, ou pequenas guaritas envidraçadas, com as
quaes se costumaõ nos jardins cobrir as plantas indigenas dos
paizes quentes a Asia, Africa, e America. Nota
Naõ faço aqui mençaõ de muitas outras circumstancias relativas
aos jardins botanicos por me parecem menos proprias do presente
tractado, e demais disso ellas saõ hoje bastantemente conhecidas
em Portugal, o sabio Naturalista que tem a inspecçaõ do Jardim
Real do Palacio da Ajuda, e do da Universidade de Coimbra naõ
nos deixou nada que dezejar nesta materia.
O Habito de huma planta parece naõ ser outra coiza, no rigor do termo, senaõ
a sua estructura considerada externa, e internamente durante o tempo da sua
vida; estructura, por meyo da qual ella differe de todos os individos de
diverso genero, diversa especie ou variedade, e se conforma pelo contrario
com todos os que pertencem ao mesmo genero, especie ou variedade, a que ella
he relativa. Esta estructura considerada exteriormente he a configuraçaõ, e
face externa das partes da planta presentadas aos nossos sentidos, sem
estrago anatomico, sem soluçaõ de continuidade, nem descomposiçaõ chymica:
considerada internamente he a sua organizaçaõ e constituiçaõ, em que se
comprehendem as partes organicas e constitutivas, escondida a nossos
sentidos pela continuidade de superficie, e sò patenteadas por meyo de
estragos anatomicos, roturas, e descomposiçoẽs chymicas. Estes dous modos de
considerar a estructura de hum vegetal indicaõ, que o seu habito devera por
conseguinte ser dividido em externo e interno, estabelecendo-se o primeiro
sobre [Página 231] tudo o que diz respeito à estructura externa, e o segundo no que respeita
somente á interna. Mas os Botanicos naõ costumaõ fazer estas differenças,
nem seguir este rigor, elles fazem so mençaõ do habito externo (habitus,
s. facies externa), e huns entendem por elle toda a configuraçaõ
exterior que hum vegetal prezenta á primeira vista, ou toda a razaõ de
semelhança e dessemelhança que elle tem com outros nas suas partes, sem
exceptuar as da fructificaçaõ, outros daõ o nome de habito externo
somente ás razoẽs de affinidade ou desconformidade, que os vegetaes tem
entre si em hum certo numero de partes, comprehendem promiscuamente no
habito externo algumas relaçoẽs, que rigorosamente so pertencem Nota
Como saõ a succulentia e sabores. Nota
Linneo fallando do habito dos vegetaes naõ fez mençaõ alguma da
fructificaçaõ, e nos exemplos que deo do caracter habitual se vê
claramente tela excluído do habito externo dos vegetaes. Vej. Phil. Bot- num. 168.
O Habito de huma planta parece naõ ser outra coiza, no rigor do termo, senaõ
a sua estructura considerada externa, e internamente durante o tempo da sua
vida; estructura, por meyo da qual ella differe de todos os individos de
diverso genero, diversa especie ou variedade, e se conforma pelo contrario
com todos os que pertencem ao mesmo genero, especie ou variedade, a que ella
he relativa. Esta estructura considerada exteriormente he a configuraçaõ, e
face externa das partes da planta presentadas aos nossos sentidos, sem
estrago anatomico, sem soluçaõ de continuidade, nem descomposiçaõ chymica:
considerada internamente he a sua organizaçaõ e constituiçaõ, em que se
comprehendem as partes organicas e constitutivas, escondida a nossos
sentidos pela continuidade de superficie, e sò patenteadas por meyo de
estragos anatomicos, roturas, e descomposiçoẽs chymicas. Estes dous modos de
considerar a estructura de hum vegetal indicaõ, que o seu habito devera por
conseguinte ser dividido em externo e interno, estabelecendo-se o primeiro
sobre [Página 231] tudo o que diz respeito à estructura externa, e o segundo no que respeita
somente á interna. Mas os Botanicos naõ costumaõ fazer estas differenças,
nem seguir este rigor, elles fazem so mençaõ do habito externo (habitus,
s. facies externa), e huns entendem por elle toda a configuraçaõ
exterior que hum vegetal prezenta á primeira vista, ou toda a razaõ de
semelhança e dessemelhança que elle tem com outros nas suas partes, sem
exceptuar as da fructificaçaõ, outros daõ o nome de habito externo
somente ás razoẽs de affinidade ou desconformidade, que os vegetaes tem
entre si em hum certo numero de partes, comprehendem promiscuamente no
habito externo algumas relaçoẽs, que rigorosamente so pertencem Nota
Como saõ a succulentia e sabores. Nota
Linneo fallando do habito dos vegetaes naõ fez mençaõ alguma da
fructificaçaõ, e nos exemplos que deo do caracter habitual se vê
claramente tela excluído do habito externo dos vegetaes. Vej. Phil. Bot- num. 168.
TODOS os vegetaes que hoje existem saõ originarios ou de bolbos, ou de
gomos, ou de sementes; huns foraõ continuados Nota
As plantas dizem-se continuadas por qualquer sorte de raizes e ou
pelos gomos, e propagadas pelas sementes; pelo que hum bacelo ou arvore enxertada naõ he
rigorosamente huma nova planta, mas sim huma planta continuada,
do mesmo modo os bolbos caulinos, e as folhas , que cahindo por terra nella
brotaõ, continuaõ a sua especie e naõ a propagaõ; porque as
plantas verdadeiramente novas ou propagadas saõ as que naceraõ
de sementes. Nota
As sementes taõbem saõ semeadas artificialmente pelos homens como
he notorio, ou casualmente pelos animaes quando ellas se
apegaraõ aos seus pelos, ou depois de terem sido engolidas, mas
neste segundo cazo nem sempre conservaõ o seu principio vital,
potencial e germinativo, porque o calor do ventriculo, e
intestinos lhes destroe o dicto principio. As toupeiras, minhocas, porcos, coelhos, e outros animaes que
mechem, fossaõ, e cavaõ a terra contribuem taõbem por
casualidade a cobrir hum grande numero de semente. Nota
Miller distribue as semente quanto á
sua duraçaõ em tres clas-ses; na 1º poem as que germinaõ no outono,
ou logo depois da sua madureza; na segunda as que germinaõ no anno
seguinte; e na 3º as que se podem semear no segundo anno, ou mais
tarde. A differente duraçaõ ou conservaçaõ da virtude germinativa
das sementes depende de muitas circunstancias, como por ex. da sua
natureza mais ou menos oleosa, farinhosa, e resinosa, da solidez ou
da debil contextura da sua casca, da profundidade em que estaõ na
terra sepultadas e protegidas contra o calor, frio, humidade, estado
de fermentaçaõ, de fricçaõ, vermes, &c. &c. Ha algumas que
apenas estaõ maduras germinaõ logo ainda mesmo dentro das suas
capsulas, como as da avicennia tomentosa; ha outras que pouco tempo
depois que cahem da planta materna perdem a virtude germinativa,
como o caffé, e ha outras em fim que a conservaõ muitos annos tanto
na terra como fora della. Norbergio observou que as sementes da
herva sancta germinaõ, depois de estarem oito annos debaxo da terra:
Munchausio assegura, que as do chrysanthemum segetum se conservaraõ
debaixo da terra vinte annos ferteis, segundo Olmi as da malva
crispa conservaraõ a sua fertilidade prolifica desasette annos.
Brockio attesta que as dos goiveiros encarnados germinaraõ, passados
dez annos, e deraõ flores dobradas. Du Hamel diz que as de huma
especie de mimosa se conservaraõ ferteis vinte annos: segundo
Triewal (Philos. Transact. vol. XLII) as do melaõ germinaraõ depois
de 42 annos; e segundo Home as do centeio guardadas 140 annos naõ
perderaõ a sua fertilidade. Nestas assersoẽs poderá haver
exaggeraçaõ, mas ellas indicaõ ao menos que a virtude germinativa
pode conservar-se muitos annos nas sementes; e por meyo dellas se
poderaõ explicar as maravilhosas reproducçoẽs de algumas plantas,
cuja raça se julgava de todo extincta. Entre as sementes que mais
tempo podem conservar a sua vis germinativa as de algumas
cryptogamicas tem o primeiro lugar, porque podem durante algus
seculos resistir aos frios, e aos mais intensos calores sem a menor
alteraçaõ.Nota
Alguns physiologistas dizem que as sementes, ainda fora da
terra, e desde o tempo que se separaraõ da planta materna athe ao
momento primario da fermentaçaõ, naõ deixaõ de ter vida, mas isto so
se pode conceder tomando o termo vida em hum sentido extenso por
potencia intrinseca germinativa.
A disposiçaõ e forma das cotylédones no estado da germinaçaõ he chamada
cotyledonismo (placentacio, s. cotyledonismus); mas antes de tractar
desta disposiçaõ em particular he precizo advertir, que as sementes
humas saõ chamadas acotyledones (acotyledones), quando parecem constar
somente de corculo, por naõ serem nellas as cotyledones bem sensiveis,
como saõ as dos musgos Nota
Em todas as sementes ha cotyledones , ainda
mesmo nos musgos, segundo Meese, e Hedwig; mas como nestas e
outras sementes semelhantes as cotyledones naõ saõ
bem apparentes, e ou se consomem na terra sem jamais se verem,
ou precizaõ de hum microscopio para se poderem destinguir no
periodo da germinaçaõ, continuar-lhes-hemos a dar o nome de
acotyledones, conforme o uso de muitos Botanicos. Nota
Eu uso aqui deste termo na accepçaõ que lhe dá
Linneo; porque segundo alguns Botanicos modernos as polycotyledones
saõ todas dicotyledones divididas em lacinias. Adanson diz que as
sementes do pinheiro saõ dicotyledones com duas cotyledones partidas
em lacinias profundas, e que as do pinus cedrus tem seis lacinias, e
as do pinus strobus seis athe dez.Nota
O
Dr. Jussieu, e alguns outros Botanicos applicaõ estes termos naõ so
ás sementes, mas taõbem as plantas que daõ semente acotyledones,
monocotyledones, e dicotyledones; pelo que o polytrichum he
acotyledone, a cebola monocotyledone, e o feijoeiro e pinus
dicotyledone. Segundo o dicto Botanico as classes primitivas
naturaes, devem ser fundadas no numero das cotyledones . Linneo contudo naõ parece ser desta opiniaõ, porquanto diz que no
mesmo genero natural podem haver especies com sementes, que
diffiraõ no numero das cotyledones , como saõ
por ex. as especies de cactus e pinus .
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes. No trigo, cevada, e todas as mais gramineas a cotyledone he furada pela [Página 236] plumula e radicula (perforata), e igualmente o tegumento, o qual vem por fim a ficar sem cotyledone, occo e exsucco; ella he unilateral nas palmeiras (unilateralis) e reductosa (reducta), na cebola.
Nas sementes dicotyledones no estado de germinaçaõ as duas cotyledones
contribuem para a preparaçaõ dos succos nutritivos da plumula e
radicula, e ordinariamente passaõ depois a ser folhas seminaes bastardas Nota
Segundo Linneo (Philos. Botan. n. 136), cotyledones et folia
seminalia sunt synonyma in plantis; eu ja expuz o que pensava a
este respeito, quando tractei das sementes; esta assersaõ
applicada ás cotyledones de todas as semente dicotyledones
parece ser sujeita a algumas excepçoẽs, ainda mesmo no cazo que
lhes queiramos dar o nome de folhas seminaes bastardas; porquanto ha algumas que
em lugar de tomarem a apparencia de folhas saõ caduças, ou se engilhaõ
dentro de pouco tempo, como se vê nas das ervilhas, e nas de
algumas especies de feijaõ.
TODOS os vegetaes que hoje existem saõ originarios ou de bolbos, ou de
gomos, ou de sementes; huns foraõ continuados Nota
As plantas dizem-se continuadas por qualquer sorte de raizes e ou
pelos gomos, e propagadas pelas sementes; pelo que hum bacelo ou arvore enxertada naõ he
rigorosamente huma nova planta, mas sim huma planta continuada,
do mesmo modo os bolbos caulinos, e as folhas , que cahindo por terra nella
brotaõ, continuaõ a sua especie e naõ a propagaõ; porque as
plantas verdadeiramente novas ou propagadas saõ as que naceraõ
de sementes. Nota
As sementes taõbem saõ semeadas artificialmente pelos homens como
he notorio, ou casualmente pelos animaes quando ellas se
apegaraõ aos seus pelos, ou depois de terem sido engolidas, mas
neste segundo cazo nem sempre conservaõ o seu principio vital,
potencial e germinativo, porque o calor do ventriculo, e
intestinos lhes destroe o dicto principio. As toupeiras, minhocas, porcos, coelhos, e outros animaes que
mechem, fossaõ, e cavaõ a terra contribuem taõbem por
casualidade a cobrir hum grande numero de semente. Nota
Miller distribue as semente quanto á
sua duraçaõ em tres clas-ses; na 1º poem as que germinaõ no outono,
ou logo depois da sua madureza; na segunda as que germinaõ no anno
seguinte; e na 3º as que se podem semear no segundo anno, ou mais
tarde. A differente duraçaõ ou conservaçaõ da virtude germinativa
das sementes depende de muitas circunstancias, como por ex. da sua
natureza mais ou menos oleosa, farinhosa, e resinosa, da solidez ou
da debil contextura da sua casca, da profundidade em que estaõ na
terra sepultadas e protegidas contra o calor, frio, humidade, estado
de fermentaçaõ, de fricçaõ, vermes, &c. &c. Ha algumas que
apenas estaõ maduras germinaõ logo ainda mesmo dentro das suas
capsulas, como as da avicennia tomentosa; ha outras que pouco tempo
depois que cahem da planta materna perdem a virtude germinativa,
como o caffé, e ha outras em fim que a conservaõ muitos annos tanto
na terra como fora della. Norbergio observou que as sementes da
herva sancta germinaõ, depois de estarem oito annos debaxo da terra:
Munchausio assegura, que as do chrysanthemum segetum se conservaraõ
debaixo da terra vinte annos ferteis, segundo Olmi as da malva
crispa conservaraõ a sua fertilidade prolifica desasette annos.
Brockio attesta que as dos goiveiros encarnados germinaraõ, passados
dez annos, e deraõ flores dobradas. Du Hamel diz que as de huma
especie de mimosa se conservaraõ ferteis vinte annos: segundo
Triewal (Philos. Transact. vol. XLII) as do melaõ germinaraõ depois
de 42 annos; e segundo Home as do centeio guardadas 140 annos naõ
perderaõ a sua fertilidade. Nestas assersoẽs poderá haver
exaggeraçaõ, mas ellas indicaõ ao menos que a virtude germinativa
pode conservar-se muitos annos nas sementes; e por meyo dellas se
poderaõ explicar as maravilhosas reproducçoẽs de algumas plantas,
cuja raça se julgava de todo extincta. Entre as sementes que mais
tempo podem conservar a sua vis germinativa as de algumas
cryptogamicas tem o primeiro lugar, porque podem durante algus
seculos resistir aos frios, e aos mais intensos calores sem a menor
alteraçaõ.Nota
Alguns physiologistas dizem que as sementes, ainda fora da
terra, e desde o tempo que se separaraõ da planta materna athe ao
momento primario da fermentaçaõ, naõ deixaõ de ter vida, mas isto so
se pode conceder tomando o termo vida em hum sentido extenso por
potencia intrinseca germinativa.
A disposiçaõ e forma das cotylédones no estado da germinaçaõ he chamada
cotyledonismo (placentacio, s. cotyledonismus); mas antes de tractar
desta disposiçaõ em particular he precizo advertir, que as sementes
humas saõ chamadas acotyledones (acotyledones), quando parecem constar
somente de corculo, por naõ serem nellas as cotyledones bem sensiveis,
como saõ as dos musgos Nota
Em todas as sementes ha cotyledones , ainda
mesmo nos musgos, segundo Meese, e Hedwig; mas como nestas e
outras sementes semelhantes as cotyledones naõ saõ
bem apparentes, e ou se consomem na terra sem jamais se verem,
ou precizaõ de hum microscopio para se poderem destinguir no
periodo da germinaçaõ, continuar-lhes-hemos a dar o nome de
acotyledones, conforme o uso de muitos Botanicos. Nota
Eu uso aqui deste termo na accepçaõ que lhe dá
Linneo; porque segundo alguns Botanicos modernos as polycotyledones
saõ todas dicotyledones divididas em lacinias. Adanson diz que as
sementes do pinheiro saõ dicotyledones com duas cotyledones partidas
em lacinias profundas, e que as do pinus cedrus tem seis lacinias, e
as do pinus strobus seis athe dez.Nota
O
Dr. Jussieu, e alguns outros Botanicos applicaõ estes termos naõ so
ás sementes, mas taõbem as plantas que daõ semente acotyledones,
monocotyledones, e dicotyledones; pelo que o polytrichum he
acotyledone, a cebola monocotyledone, e o feijoeiro e pinus
dicotyledone. Segundo o dicto Botanico as classes primitivas
naturaes, devem ser fundadas no numero das cotyledones . Linneo contudo naõ parece ser desta opiniaõ, porquanto diz que no
mesmo genero natural podem haver especies com sementes, que
diffiraõ no numero das cotyledones , como saõ
por ex. as especies de cactus e pinus .
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes. No trigo, cevada, e todas as mais gramineas a cotyledone he furada pela [Página 236] plumula e radicula (perforata), e igualmente o tegumento, o qual vem por fim a ficar sem cotyledone, occo e exsucco; ella he unilateral nas palmeiras (unilateralis) e reductosa (reducta), na cebola.
Nas sementes monocotylédones no estado de germinaçaõ a cotylédone fica sempre dentro do tegumento, consome-se, ou converte-se toda em alimento da tenra plantula, e por este motivo he que Linneo diz que as monocotyledones na germinaçaõ saõ rigorosamente acotyledones; a sua plumula consta de hum sò foliolo, e naõ ha por conseguinte mais do que huma so folha seminal, devendo-se considerar as outras immediatas, como folhas radicaes.folhafolhas[Página 236]Nas sementes dicotyledones no estado de germinaçaõ as duas cotyledones
contribuem para a preparaçaõ dos succos nutritivos da plumula e
radicula, e ordinariamente passaõ depois a ser folhas seminaes bastardas Nota
Segundo Linneo (Philos. Botan. n. 136), cotyledones et folia
seminalia sunt synonyma in plantis; eu ja expuz o que pensava a
este respeito, quando tractei das sementes; esta assersaõ
applicada ás cotyledones de todas as semente dicotyledones
parece ser sujeita a algumas excepçoẽs, ainda mesmo no cazo que
lhes queiramos dar o nome de folhas seminaes bastardas; porquanto ha algumas que
em lugar de tomarem a apparencia de folhas saõ caduças, ou se engilhaõ
dentro de pouco tempo, como se vê nas das ervilhas, e nas de
algumas especies de feijaõ.
O principio de vida, por meyo do qual se conservaõ perennemente as especies
vegetaes, reside na sementes, nos gomos, e bolbos. Alguns physicos pensaõ
que estes tres meyos de que se serve a natureza para perpetuar a vida
dos vegetaes saõ essensialmente a mesma coiza, e lhes daõ o nome de
gomos seminaes, radicaes, e caulinos: elles observaõ que em alguns
alhos, e ainda em algumas plantas Cryptogamicas a a natureza no lugar
onde costuma produzir flores, dá bolbos ou gomos os quaes reproduzem as
especies taõ perfeitamente como as sementes, que nas axillas das folhas ou ramos, lugar proprio dos
gomos, se vem algumas vezes bolbos decadentes, os quaes cahindo [Página 238] na terra reproduzem a sua especie, como os bolbos radicaes
ordinarios; que a estructura dos bolbos radicaes he summamente analoga à
dos gomos caulinos; que os gomos radicaes das plantas vivaces, e os
bolbos ordinarios saõ de huma natureza identica; que nalgumas sementes
como v. g. nas das nymphaea nelumbo se vem antes da germinaçaõ algumas folhas perfeitas assim como
se observaõ nos gomos, e que se ha gomos floraes, ha do mesmo modo
taõbem bolbos floraes, como v. g. saõ os da tulipa Nota
Este bolbo com effeito contem no seu centro huma flor bem visivel
sem soccorro algum de lente; todas as vezes que no outono ou
inverno dessequei com cautella os seus cascos externos e
internos, sempre nelle observei bem destinctamente as petalas, antheras e pistillo da flor. Alguns asseguraõ
taõbem ter observado o mesmo em muitos outros bolbos, e ainda mesmo
nas raizes da anemone hepatica, e d'algumas especies de
pedicularis.
Os gomos (gemmae) Nota
Nos taõbem damos aos gomos o nome de olhos (oculi)
novedios, grelos, botoẽs, e borbulhas, mas o termo de gomo he o mais
proprio, e o mais geral; o termo olhos he ordinariamente so
applicado a vide; novedios e grelos parece-me que se devéram
reservar para os gomos das plantas herbaceas; botam, somente se deve
applicar aos gomos floraes, e a qualquer flor antes de desabotoar:
borbulha so se diz dos gomos dos enxertos, e na phrase enxertar de
borbulha: o vulgo costuma dar aos bagos da laranja e limaõ o nome de
gomos, mas basta ter humas leves noçoẽs de Botanica para conhecer
que isto he huma impropriedade, e corrupçaõ de termo.
Os gomos da mesma sorte que os bolbos saõ hum verdadeiro abrigo contra os
rigores do inverno ao [Página 240] embryaõ que envolvem, e porisso Linneo lhes chamou com propriedade
invernadoiros (hybernacula) Nota
Hebenstreit diz contudo que as sementes taõbem saõ invernadoiros,
porque as cotyledones e tegumentos abrigaõ a plantula nelles
reclusa durante hum ou mais invernos.
Os gomos dizem-se terminaes (terminales), quando se achaõ situados nas pontas do tronco ou ramos: ordinariamente saõ solitarios, contudo na syringa vulgares achaõ-se dois a dois, e no aesculus pavia tres a tres.
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .
Oppostos (oppositae), quando se achaõ dois no tronco ou ramos, fronteiros hum ao outro, e saõ ou peciolares (petiolares), como no buxo, medronheiro, freixo, loireiro, sabugueiro, madresylva, &c. ou estipulares (stipulares), como no rhamnus catharticus, e cephalanthus.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.
Nullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.
Folheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus. Estes gomos saõ mais agudos do que os seguintes.
Floraes (florales, s. floriferae) quando somente contem flores, como os do damasqueiro, pessagueiro, [Página 242] amendoeira, &c. Estes gomos saõ hum tanto obtusos, e verdadeiros botoẽs, elles contem ou flores femininas como na aveleira e carpe, ou masculas como no pinheiro e abeto, ou emfim flores hermaphroditas como no ulmeiro, amendoeira, pessegueiro, &c. Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)
Ha muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares. Hum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse. Os arbustos plantados em vazos, ou caxas daõ todos os annos gomos floraes e fructos, mas se os tiramos fora dellas, e os plantamos numa terra pingue, e á larga, naõ daraõ durante muito tempo senaõ gomos folheres; se os tornamos a metter em caxas ou vazos recomeçaraõ a dar, como dantes, gomos floraes e fructos. Hum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia. Sobre esta observaçaõ fundaraõ os antigos a cultura das videiras, podando-as e empando-as, porque por meyo da poda a empa se diminue a [Página 243] seiva, e se modera o seu movimento nimiamente accelerado, que aliás nutriria a planta em demasia, e lhe faria viçar todos ou quasi todos os seus gomos floraes, tornando-os em folheares.
A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Revolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Imbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Frondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
A petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
O principio de vida, por meyo do qual se conservaõ perennemente as especies
vegetaes, reside na sementes, nos gomos, e bolbos. Alguns physicos pensaõ
que estes tres meyos de que se serve a natureza para perpetuar a vida
dos vegetaes saõ essensialmente a mesma coiza, e lhes daõ o nome de
gomos seminaes, radicaes, e caulinos: elles observaõ que em alguns
alhos, e ainda em algumas plantas Cryptogamicas a a natureza no lugar
onde costuma produzir flores, dá bolbos ou gomos os quaes reproduzem as
especies taõ perfeitamente como as sementes, que nas axillas das folhas ou ramos, lugar proprio dos
gomos, se vem algumas vezes bolbos decadentes, os quaes cahindo [Página 238] na terra reproduzem a sua especie, como os bolbos radicaes
ordinarios; que a estructura dos bolbos radicaes he summamente analoga à
dos gomos caulinos; que os gomos radicaes das plantas vivaces, e os
bolbos ordinarios saõ de huma natureza identica; que nalgumas sementes
como v. g. nas das nymphaea nelumbo se vem antes da germinaçaõ algumas folhas perfeitas assim como
se observaõ nos gomos, e que se ha gomos floraes, ha do mesmo modo
taõbem bolbos floraes, como v. g. saõ os da tulipa Nota
Este bolbo com effeito contem no seu centro huma flor bem visivel
sem soccorro algum de lente; todas as vezes que no outono ou
inverno dessequei com cautella os seus cascos externos e
internos, sempre nelle observei bem destinctamente as petalas, antheras e pistillo da flor. Alguns asseguraõ
taõbem ter observado o mesmo em muitos outros bolbos, e ainda mesmo
nas raizes da anemone hepatica, e d'algumas especies de
pedicularis.
Os gomos (gemmae) Nota
Nos taõbem damos aos gomos o nome de olhos (oculi)
novedios, grelos, botoẽs, e borbulhas, mas o termo de gomo he o mais
proprio, e o mais geral; o termo olhos he ordinariamente so
applicado a vide; novedios e grelos parece-me que se devéram
reservar para os gomos das plantas herbaceas; botam, somente se deve
applicar aos gomos floraes, e a qualquer flor antes de desabotoar:
borbulha so se diz dos gomos dos enxertos, e na phrase enxertar de
borbulha: o vulgo costuma dar aos bagos da laranja e limaõ o nome de
gomos, mas basta ter humas leves noçoẽs de Botanica para conhecer
que isto he huma impropriedade, e corrupçaõ de termo.
Os gomos da mesma sorte que os bolbos saõ hum verdadeiro abrigo contra os
rigores do inverno ao [Página 240] embryaõ que envolvem, e porisso Linneo lhes chamou com propriedade
invernadoiros (hybernacula) Nota
Hebenstreit diz contudo que as sementes taõbem saõ invernadoiros,
porque as cotyledones e tegumentos abrigaõ a plantula nelles
reclusa durante hum ou mais invernos.
Os gomos dizem-se terminaes (terminales), quando se achaõ situados nas pontas do tronco ou ramos: ordinariamente saõ solitarios, contudo na syringa vulgares achaõ-se dois a dois, e no aesculus pavia tres a tres.
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .
Axillares (axillares), quando existem nas axillas, ou angulos formados pelo tronco e base das folhas ou seus peciolos, como se vê em hum grande numero de arvores .folhasarvoresOppostos (oppositae), quando se achaõ dois no tronco ou ramos, fronteiros hum ao outro, e saõ ou peciolares (petiolares), como no buxo, medronheiro, freixo, loireiro, sabugueiro, madresylva, &c. ou estipulares (stipulares), como no rhamnus catharticus, e cephalanthus.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.
Alternos (alternae), quando estaõ postos nos dois lados do tronco ou ramos, gradualmente alternados, do modo que expliquei fallando das folhas alternas, e saõ ou peciolares (petiolares), como no salgueiro, nogueira, aroeira, &c. ou estipulares (stipulares, s. stipulaceae), como no choupo, ulmeiro, carvalho, figueira, amoreira, castanheiro, &c. ou peciolares com estipulas na base do peciolo (stipulaceo-petiolares), como na pereira, maceira, roseira, sylva, sorveira, &c.folhasNullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.
Nullos (nullae), quando naõ existem na arvore ou arbusto.arvoreFolheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus. Estes gomos saõ mais agudos do que os seguintes.
Folheares (foliares, s. foliiferae), quando somente contem folhas , como os da figueira e betula alnus.folhasFloraes (florales, s. floriferae) quando somente contem flores, como os do damasqueiro, pessagueiro, [Página 242] amendoeira, &c. Estes gomos saõ hum tanto obtusos, e verdadeiros botoẽs, elles contem ou flores femininas como na aveleira e carpe, ou masculas como no pinheiro e abeto, ou emfim flores hermaphroditas como no ulmeiro, amendoeira, pessegueiro, &c. Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)
[Página 242]Ordinariamente succede que estes gomos daõ taõbem folhas , e porisso se lhes dá nesta circumstancia o nome de mixtos (communes, s. foliifero-floriferae.)folhasHa muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares. Hum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse. Os arbustos plantados em vazos, ou caxas daõ todos os annos gomos floraes e fructos, mas se os tiramos fora dellas, e os plantamos numa terra pingue, e á larga, naõ daraõ durante muito tempo senaõ gomos folheres; se os tornamos a metter em caxas ou vazos recomeçaraõ a dar, como dantes, gomos floraes e fructos. Hum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia. Sobre esta observaçaõ fundaraõ os antigos a cultura das videiras, podando-as e empando-as, porque por meyo da poda a empa se diminue a [Página 243] seiva, e se modera o seu movimento nimiamente accelerado, que aliás nutriria a planta em demasia, e lhe faria viçar todos ou quasi todos os seus gomos floraes, tornando-os em folheares.
Ha muitas arvores , cujos gomos huns saõ folheares outros floraes, como o pessegueiro, ulmeiro, amendoeira, &c.; sabe se contudo pela observaçaõ, que os gomos folheares podem tornar-se floraes, e que estes podem taõbem vir a ser puramente folheares.arvoresHum ramo de ulmo, de salgueiro, e de outras muitas arvores sendo plantado em huma terra competente naõ dará durante muito tempo mais do que gomos folheares, sem embargo de que na arvore , donde o cortaraõ, dava muitos gomos floraes, e os daria ainda, se nella estivesse.arvoresarvoreHum ramo de huma arvore fructifera torcido, curvado, ligado ou privado de hum pequeno cincho de casa, mudará muitos dos seus gomos folheres em floraes, e por conseguinte dara fructos não somente mais depressa, mas taõbem em maior abundancia.arvore[Página 243] A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Revolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Imbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Frondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
A palavra gomo tomada numa accepçaõ extensa comprehende, alem dos
gomos do tronco das arvores e arbustos os das suas raizes, os do tronco e
raizes das plantas herbaceas, aos quaes chamamos Nota
A palavra grelo significa naõ so hum gomo herbaceo, mas ainda
o talo ou troco tenrinho, em cuja ponta se acha o dicto
gomo; as vezes damos taõbem este nome á plumula das sementes
germinadas, e neste sentido dizemos: o milho esta grelado, a
cevada começa á lançar grelo, &c.
Passado o inverno, e amornando-se a atmosphera, a seiva começa a ter maior movimento, faz inchar pouco a pouco os gomos, e se restabelece a vegetaçaõ, que os frios tinhaõ suspendido. Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio). He facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.
Brotaõ emfim os gomos, e neste brotamento os botanicos observaõ que ha huma complicaçaõ nas folhas , a qual como invariavel naõ deixa de ser propria para se poderem tirar della caracteres habituaes, e lhe chamaõ folheatura dos gomos (foliatio, s. vernatio).folhasHe facil de observar esta complicaçaõ, se cortamos transversalmente com hum canivete os gomos brotados na raiz e tronco; em huns e outros as folhas saõ [Página 244] complicadas differentemente, o que foy a causa de lhes darem as diversas denominaçoẽs seguintes.raizfolhas[Página 244]Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c. Ellas saõ ou oppostas ou alternas segundo a situaçaõ, que depois vem a ter no tronco ou ramos.
Involutosas (involuta), quando as duas margens lateraes de qualquer das folhas se enrolaõ para dentro na sua face superior, e formaõ duas pequenas volutas longitudinaes, como saõ as do choupo, violetta madresylva, maceira, tanchagem, urtiga, &c.folhasRevolutosas (revoluta), saõ o contrario das precedentes; tem as suas duas margens lateraes enroladas para fora ou para a banda da face inferior, e formaõ duas pequenas volutas logitudinaes, como no alecrim, loendro, azedas, alfavaca de cobra, &c. Ellas podem ser ou oppostas, ou alternas.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.
Obvolvidas ou enganchadas (obvoluta), quando duas folhas se achaõ hum tanto dobradas, e cada huma dellas recebe na cavidade da sua dobra a metade da outra, de sorte que ficaõ logitudinalmente enganchadas, como se vê na salva, craveiro, escabiosa, &c.folhas Enroladas (convoluta), quando duas folhas se enrosçaõ huma na outra Nota
As denominaçoẽs de involutosas, revolutosas euroladas,
dobradas ao meyo, e franzidas saõ igualmente aplicadas a
huma ao folha .
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c. Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.
Dobradas ao meyo (conduplicata), quando saõ dobradas em duas metades iguaes, e approximadas desde a sua nervura dorsal athe ao fio das magens, como na faya, aveleira, gingeira, roseira, sylva, [Página 245] potentilla, &c.dorsal[Página 245]Nas folhas compostas os foliolos saõ approximados huns aos outros desde o peciolo commum athe as suas pontas, como no freixo, çumagre, nogueira, &c.folhasImbricadas (imbricata), saõ parallelas, encostadas a prumo humas ás outras, e as interiores menores, como no loireiro, nespereiro, gilbarbeira, alfeneiro, &c.
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas. Estas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).
Acavalleiradas (equitantia) saõ conchegadas, e humas cobrem as outras de modo que as duas margens da folha exterior abarcaõ as duas da folha interior, e convergem sobre a nervura dorsal della, como nos lirios, junças, e algumas gramas.folhafolhadorsalEstas folhas segundo a figura, que presentaõ juntas, saõ denominadas bigumeas ou trigumeas (ancipitia, aut triquetra).Franzidas (plicata), quando tem logitudinalmente muitas pregas, como a malva, a althea, videira, alchimilla, &c.
N. B. A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.
A estas oito sortes de folheatura alguns botanìcos ajuntaraõ taõbem a das folhas reclinadas, e frondes circinaes que brotaõ das raizes, e devem ser observadas sem as cortar no periodo em que começaõ a romper á superficie da terra.folhasFolhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.
Folhas reclinadas (reclinata), tem as margens e disco coarctados ou engruvinhados, e formaõ huma especie de cabeça encurvada, para o peciolo, como as do acónito, anemone, &c.FolhasFrondes circinaes (frondes circinales, s. foliatio cir- cinalis), brotaõ de modo que ficaõ com a ponta, e [Página 246] divisoẽs lateraes encaracolladas. Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.
[Página 246]Estas frondes ou folhas quando o espique ou peciolo que as sostem começa a elevar-se hum tanto, figuraõ de algum modo hum bago de bispo, saõ proprias dos fetos e palmeiras.folhasA petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
A petaleaçaõ ou abotoaçaõ da corolla (aestivatio), he o estado de complicaçaõ em que ella se acha immediatamente antes de desabotoar. Diz-se valviforme (valvata), se as suas petalas presentaõ no dicto periodo huma configuraçaõ semelhante ás das valvulas de hum casûlo: inequivalve (inaequivalvis), se figura valvulas de diversa grandeza: retorcida (contorta), quando as petalas ou lacinias saõ torci- das entre si, como no loendro, congossa, &c. Ella tem ainda algumas denominaçoẽs semelhantes às da folheatura dos gomos, que facilmente se poderaõ entender pela explicaçaõ acima dada.
O tempo de vela das folhas (foliorum vigiliae), segundo os botanicos, he o espaço, diurno em que
ellas tem as suas folhas abertas, e o de sono pelo contrario he ordinariamente todo o espaço da
noyte. Este estado de sono das folhas (somnus foliorum), consiste em hum collapso ou mudança de posiçaõ, que [Página 247] ellas costumaõ ter durante o tempo de vela. Hum grande numero de plantas he susceptivel desta mudança nas suas folhas Nota
E igualmente nas suas flores, como ja disse; eu naõ fiz mençaõ
das differentes posiçoẽs, que constitue o sono das flores,
porque facilmente se podem entender pelas que exponho aqui
relativamente às folhas . Nota
A materia electrica da atmosphera em tempo de trovoadas basta
para fazer fechar as folhas e flores; isto he confirmado pelas
experiencias feitas na sensitiva, a qual sendo artificialmente
electrisada fecha as suas folhas do mesmo modo que no tempo de trovoada. Esta planta contudo, segundo se tem observado, abre ainda mesmo
numa perfeita obscuridade as sua folhas pela manhaan, e as fecha à
noyte.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.
1º As simplez saõ denominadas:
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).
Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)
Folhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)
Folhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)
2º. As compostas saõ denominadas:
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)
Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)
Folhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)
Folhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)
Folhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).
Folhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).
O tempo de vela das folhas (foliorum vigiliae), segundo os botanicos, he o espaço, diurno em que
ellas tem as suas folhas abertas, e o de sono pelo contrario he ordinariamente todo o espaço da
noyte. Este estado de sono das folhas (somnus foliorum), consiste em hum collapso ou mudança de posiçaõ, que [Página 247] ellas costumaõ ter durante o tempo de vela. Hum grande numero de plantas he susceptivel desta mudança nas suas folhas Nota
E igualmente nas suas flores, como ja disse; eu naõ fiz mençaõ
das differentes posiçoẽs, que constitue o sono das flores,
porque facilmente se podem entender pelas que exponho aqui
relativamente às folhas . Nota
A materia electrica da atmosphera em tempo de trovoadas basta
para fazer fechar as folhas e flores; isto he confirmado pelas
experiencias feitas na sensitiva, a qual sendo artificialmente
electrisada fecha as suas folhas do mesmo modo que no tempo de trovoada. Esta planta contudo, segundo se tem observado, abre ainda mesmo
numa perfeita obscuridade as sua folhas pela manhaan, e as fecha à
noyte.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.
As folhas neste estado de collapso saõ chamadas dormentes, e segundo as differentes posiçoẽs, que nellas se observaõ, receberaõ as denominaçoẽs seguintes, das quaes humas saõ relativas ás folhas simplez, outras ás compostas.folhasfolhas1º As simplez saõ denominadas:
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).
Folhas dormentes convergentes, ou que se achaõ em collapso de convergencia (somnus connivens); saõ oppostas e tem as suas faces superiores conchegadas huma á outra taõ apertada, e regularmente, que parecem huma so folha ; por esta posiçaõ resguardaõ das chuvas, e demasiada humidade da noyte os [Página 248] botoẽs das flores e os tenros gomos (a armoles hortense, e murujem).Folhasfolha[Página 248]Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)
Folhas dormentes recostadas, ou em collapso de recosto (somnus includens) saõ alternas, conchegadas ou encostadas ao tronco, e ficaõ cobrindo e abrigando os tenros gomos ou flores, que medeaõ entre ellas e o tronco (aenóthera biennis, sida abutilon, ayenia pusilla.)FolhasFolhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)
Folhas dormentes ambientes ou em collapso de circuiçaõ (somnus circumsepiens) tem durante o dia huma posiçaõ horizontal, mas elevadas de noyte cingem a ponta do tronco, e formaõ humas com outras á roda delle huma figura afunilada (a mandragora, o estramonio, bidens tripartita, e malva peruviana.)FolhasFolhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)
Folhas dormentes munitivas ou em collapso de munimento (sommus muniens); saõ ordinariamente as ultimas junto das pontas dos ramos ou tronco, guarnecidas de longos peciolos; durante o dia tem huma posiçaõ horizontal; mas inclinado-se ou arqueando de noyte para baxo formaõ á roda do tronco huma especie de abobada (impatiens noli me tangere, sigesbeckia orientalis, achyrantes aspera.)Folhas2º. As compostas saõ denominadas:
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)
Folhas dormentes dobradas ou em collapso de do bramento (somnus conduplicans), saõ dobradas a o meyo, isto he, tem os seus foliolos ou pinnulas com as faces superiores conchegadas, bem como as folhas de hum livro; so differem das convergentes em terem muitos foliolos approximados (as faveiras, [Página 249] o lathyrus odoratus, colutea arborescens, e hedysarum onobrychis.)Folhasfolhas[Página 249]Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)
Folhas dormente involtosas ou em collapso de involuçaõ (somnus involvens), os seus foliolos convergem ou somente se tocaõ pelas pontas, e deixaõ entre as suas bases hum intervallo em forma de cavidade (a acetosella, alguns trevos, medicago polymorpha, lotus ornithopoides.)FolhasFolhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)
Folhas dormentes divergentes ou em collapso de divergencia (somnus divergens), quando os seus foliolos ficaõ approximados pelas suas bases, mas com as pontas desviadas ou divergentes (o meliloto ou trevo de cheiro.)FolhasFolhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)
Folhas dormentes dependuradas ou em collapso de precipicio (somnus dependens), os seus foliolos estaõ inclinados para baxo e como dependurados (lupinus hirsutus, hedisarum canadese, robinia pseudo-acacia, amorpha fructicosa.)FolhasFolhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).
Folhas dormentes inversas ou em collapso de inversaõ (somnus invertens), os seus foliolos ficaõ inferiormente aoproximados dois a dois ao peciolo commum, e o mesmo tempo inversos, isto he, a sua face superior fica sendo interna e encoberta, ao mesmo tempo tempo que a inferior fica sendo externa (a canafistula).FolhasFolhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).
Folhas dormentes imbricadas ou em collapso de imbricaçaõ (somnus imbricans), os seus foliolos saõ revirados como os das inversas precedentes, e alem disso ficaõ dispostos à maneira de telhas cobrindo todo o peciolo commum (a sensitiva, tamarindus indica, gleditsia triacanthos).Folhas[Página 250]Por intorsaõ (intorsio, s. torsio) os Botanicos entendem as curvaturas, reviramentos, ou enroscamentos das partes dos vegetaes, e a denominaõ uniforme (conformis), se as dictas partes se curvaõ ou enrolaõ todas para a mesma banda, e difforme (difformis), se nem todas se curvaõ, ou quando se enrolaõ e curvaõ para differentes lados indeterminadamente.
Huma das principaes especies de intorsaõ he a volubilidade, ou enroscamento dos troncos e gavinhas, ora para a direita, ora para a esquerda, como ra expuz em seu lugar.
A intorsaõ pode ter taõbem lugar nas flores Nota
O torcimento das
corollas deve ser observado no estado da flor fechada, ou no periodo
em que a flor começa a desabotoar.
Pode taõbem haver intorsaõ nos pistillos, como se vê na silene, cucubalus, spiraea ulmaria, e helicteres.
As espigas das plantas asperifolias, taes como a [Página 251] cynoglossa, heliotropium, myosotis, echium, &c. tem todas huma intorsaõ espiral na sua extremidade, em forma de voluta.
As fibras da base das praganas da avena, e stipa, as da cauda das capsulas do geranium, e das valvulas da capsula da impatiens, &c costumaõ formar longitudinalmente hum intorsaõ espiral semelhante á de hum fio torcido.
Por intorsaõ (intorsio, s. torsio) os Botanicos entendem as curvaturas, reviramentos, ou enroscamentos das partes dos vegetaes, e a denominaõ uniforme (conformis), se as dictas partes se curvaõ ou enrolaõ todas para a mesma banda, e difforme (difformis), se nem todas se curvaõ, ou quando se enrolaõ e curvaõ para differentes lados indeterminadamente.
Huma das principaes especies de intorsaõ he a volubilidade, ou enroscamento dos troncos e gavinhas, ora para a direita, ora para a esquerda, como ra expuz em seu lugar.
A intorsaõ pode ter taõbem lugar nas flores Nota
O torcimento das
corollas deve ser observado no estado da flor fechada, ou no periodo
em que a flor começa a desabotoar.
Pode taõbem haver intorsaõ nos pistillos, como se vê na silene, cucubalus, spiraea ulmaria, e helicteres.
As espigas das plantas asperifolias, taes como a [Página 251] cynoglossa, heliotropium, myosotis, echium, &c. tem todas huma intorsaõ espiral na sua extremidade, em forma de voluta.
[Página 251]As fibras da base das praganas da avena, e stipa, as da cauda das capsulas do geranium, e das valvulas da capsula da impatiens, &c costumaõ formar longitudinalmente hum intorsaõ espiral semelhante á de hum fio torcido.
Debaxo dos nomes de glandulaçaõ, e escabrosidade (glandulatio, scabrities) os Botanicos comprehendem as excrescencias destinadas as secreçoẽs dos vegetaes, e muitas producçoẽs que fazem a sua superficie aspera, escabrosa. Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.
As glandulas (glandulae), segundo toda a extensaõ do termo, saõ qualquer excrescencia
ou porosidade superficial, que serve a alguma secreçaõ; mas huma
accepçaõ restricta, as glandulas saõ pequenas excrescencias
ordinariamente globulares, que se achaõ na superficie das plantas, e saõ
destinadas a filtrar e preparar os succos proprios da especie, a que [Página 252] pertencem; algumas saõ guarnecida de pelos, outras naõ tem pelos
alguns; humas saõ assaz viziveis à vista simplez, outras precizaõ de
lente para bem se destinguirem. As que naõ precizaõ de lente saõ as mais proprias para notas
caracteristicas; daõ se nos peciolos das folhas como no martyrio, nas serraturas, ou
dente das folhas serreadas como
no salgueiro e amendoeira, nas antheras como na adenanthera, junto da bas dose estames como no goivo e couve, por toda a flor e
por todo o corpo da planta (menos na raiz ), como na
fraxinella Nota
Quanto à forma, e outras circumstancias relativas as
glandulas, Vej. o Cap. dos Gland da Prim. Parte deste
Comp.
Verrugas (verrucae), saõ glandulas grossas e hum tanto chatas ou
concavas, com as que se vem nos peciolos das folhas do noveleiro, e ricinus Nota
Taõbem se da o nome verrugas a certos tuberculos ou receptaculos de algumas especies de
lichen.
Callos (calli) saõ pequenas glandulas, pontos, ou globulos duros, contudo algumas vezes este termo he usado taõbem para significar a mesma coiza que cicatrizes ou fossulas superficiaes (pedicularis palustris, protea hirta, obliqua, &c.)
Pontos (puncta), saõ salpicos minimos glandulosos, taes como os que se vem nas flores da fraxinella. Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.
Graõs (granula, s. grana), saõ certas [Página 253] excrescencias globulosas, e callosas que se daõ nos tegumentos das flores da labaça, e outras especies de rumex.
Vesiculas (vesicula, papulae), saõ excrescencias cellulosas ou pequenas
bolhas coradas, e transparentes, que contem dentro em si alguns succos
proprios, como saõ as que se vem na superficie de huma laranja, e que
contem o seu oleo essensial Nota
Taõbem se da o nome de vesiculas as pequenas cellulas succulentas , de que consta qualquer bago de laranja
ou limaõ, e ás fructificaçoẽs gelatinosas do fucus.
Mamillos ou tuberculos (mamilli, s. tubercula), saõ
pontos carnudos, pontudos, e ordinariamente mais largos na base, como os
do cactus mamillaris, e algumas euphorbias Nota
Os tuberculos em algumas especies de
lichen saõ pontos escabrosos e pulverulentos, que constituem o
receptaculo da sua fructificaçaõ. Nas folhas da pulmonaria
e outras asperifolias os pontas asperos, que as salpicaõ saõ
taõbem chamados tuberculos .
Utriculos (utriculi) Nota
Os utriculos considerados em geral podem ser divididos
em internos e externos; os internos dependem da dissecçaõ, e
microscopio para se poderem observar, elles saõ destinados à
preparaçaõ dos succos proprios, e digestaõ dos succos
nutritivos; os externos saõ os que se achaõ na superficie dos
vegetaes, huns saõ pouco apparentes, dos quaes ja fiz mençaõ
debaixo do nome glandulas utriculares, outros saõ assaz
apparentes de modo que ainda mesmo sem lente se podem observar,
e saõ os de que tracto presentemente.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.
Poros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).
Fossulas (fossulae, s. foveae), saõ pequenas cavidades excretorias, como v. g. as que se achaõ na base das petalas da coroa imperial, e outras especies de fritillaria.
Cicatrizes ou pustulas Nota
Taõbem se da o nome de pustulas a huma
especie de enfermidade dos fructos feridos pelo granizo, como
saõ as que se vem nas pera a que o vulgo chama peras
pedradas.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos. Como a preparaçaõ deste fluido pertence igualmente a vasos internos, e o costumaõ extrahir de muitas plantas por meyo de incisoẽs, pareceme ser mais proprio de tractar da sua natureza no capitulo seguinte.
Debaxo dos nomes de glandulaçaõ, e escabrosidade (glandulatio, scabrities) os Botanicos comprehendem as excrescencias destinadas as secreçoẽs dos vegetaes, e muitas producçoẽs que fazem a sua superficie aspera, escabrosa. Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.
Ainda que muitas destas producçoẽs so diffiraõ levemente entre si, ellas tem contudo recebido bem diversas denominaçoẽs, as quaes se podem reduzir principalmente a quatorze, a saber: glandulas , verrugas, callos, pontos, graõs, visiculas, mamillos, tuberculos , utriculos , folliculos, poros, fossulas, pustulas, e cicatrizes.glandulastuberculosutriculos As glandulas (glandulae), segundo toda a extensaõ do termo, saõ qualquer excrescencia
ou porosidade superficial, que serve a alguma secreçaõ; mas huma
accepçaõ restricta, as glandulas saõ pequenas excrescencias
ordinariamente globulares, que se achaõ na superficie das plantas, e saõ
destinadas a filtrar e preparar os succos proprios da especie, a que [Página 252] pertencem; algumas saõ guarnecida de pelos, outras naõ tem pelos
alguns; humas saõ assaz viziveis à vista simplez, outras precizaõ de
lente para bem se destinguirem. As que naõ precizaõ de lente saõ as mais proprias para notas
caracteristicas; daõ se nos peciolos das folhas como no martyrio, nas serraturas, ou
dente das folhas serreadas como
no salgueiro e amendoeira, nas antheras como na adenanthera, junto da bas dose estames como no goivo e couve, por toda a flor e
por todo o corpo da planta (menos na raiz ), como na
fraxinella Nota
Quanto à forma, e outras circumstancias relativas as
glandulas, Vej. o Cap. dos Gland da Prim. Parte deste
Comp.
Verrugas (verrucae), saõ glandulas grossas e hum tanto chatas ou
concavas, com as que se vem nos peciolos das folhas do noveleiro, e ricinus Nota
Taõbem se da o nome verrugas a certos tuberculos ou receptaculos de algumas especies de
lichen.
Callos (calli) saõ pequenas glandulas, pontos, ou globulos duros, contudo algumas vezes este termo he usado taõbem para significar a mesma coiza que cicatrizes ou fossulas superficiaes (pedicularis palustris, protea hirta, obliqua, &c.)
Pontos (puncta), saõ salpicos minimos glandulosos, taes como os que se vem nas flores da fraxinella. Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.
Este termo he taõbem usado para significar certas fossulas minimas dos receptaculos, como dos de dente de leaõ, e certos salpicos corados das folhas , como nalgumas especies de mesembryanthemum.folhasGraõs (granula, s. grana), saõ certas [Página 253] excrescencias globulosas, e callosas que se daõ nos tegumentos das flores da labaça, e outras especies de rumex.
[Página 253] Vesiculas (vesicula, papulae), saõ excrescencias cellulosas ou pequenas
bolhas coradas, e transparentes, que contem dentro em si alguns succos
proprios, como saõ as que se vem na superficie de huma laranja, e que
contem o seu oleo essensial Nota
Taõbem se da o nome de vesiculas as pequenas cellulas succulentas , de que consta qualquer bago de laranja
ou limaõ, e ás fructificaçoẽs gelatinosas do fucus.
Mamillos ou tuberculos (mamilli, s. tubercula), saõ
pontos carnudos, pontudos, e ordinariamente mais largos na base, como os
do cactus mamillaris, e algumas euphorbias Nota
Os tuberculos em algumas especies de
lichen saõ pontos escabrosos e pulverulentos, que constituem o
receptaculo da sua fructificaçaõ. Nas folhas da pulmonaria
e outras asperifolias os pontas asperos, que as salpicaõ saõ
taõbem chamados tuberculos .
Utriculos (utriculi) Nota
Os utriculos considerados em geral podem ser divididos
em internos e externos; os internos dependem da dissecçaõ, e
microscopio para se poderem observar, elles saõ destinados à
preparaçaõ dos succos proprios, e digestaõ dos succos
nutritivos; os externos saõ os que se achaõ na superficie dos
vegetaes, huns saõ pouco apparentes, dos quaes ja fiz mençaõ
debaixo do nome glandulas utriculares, outros saõ assaz
apparentes de modo que ainda mesmo sem lente se podem observar,
e saõ os de que tracto presentemente.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.
Folliculos (folliculi) saõ excrescencias vesiculares que contem huma substancia aeriforme, elles saõ urceolares e semicirculares nas folhas da aldrovanda vesiculosa, hum tanto globosos e guarnecidos de duas pontas nas raizes de differentes especies de utricularia.folhasPoros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).
Poros (pori) este termo tem entre os Botanicos huma extensa significaçaõ, elles entendem por poros em geral certos meatos de differente largura e profundidade, que tem os seus orificios na superficie dos vegetaes; nelles comprehendem 1º. os poros finissimos, chamados taõbem vasos absorbentes, inhalantes, exhalantes, e tracheas; 2º. os poros largos da casca, como os que se vem na casca da cortiça, e nas cascas, da noz da amendoa, e outras semelhantes, que parecem antes merecer o nome de lacunas, fendas, buracos ou carcômas da casca, do que ser chamados pòros; 3º os poros fungosos, que saõ certos pequenos tubos ou alveolos que se vem bem destinctamente nos umbraculos dos boletos, e saõ considerados como organos relativos à fructificaçaõ destas plantas, 4º. os poros antherinos e estigmaticos, que se achaõ nas antheras e estimas das flores, como se vê nas antheras do tomateiro, e outras especies de solanum, e no estigma do amor perfeito; 5º os poros capsulares que saõ certos furos que se vem nas capsulas da campanula; 6º emfim, os poros excretorios ou glandulares, que saõ os que Linneo comprehende no [Página 255] artigo da glandulaçaõ, e os que por conseguinte pertencem a este capitulo; estes poros saõ certas pequenas cavidades superficiaes, que se observaõ nas folhas da urena lobata, e hibiscus tiliaceus, e na base dos peciolos do polygonum scandens).antherasantheras[Página 255]folhasFossulas (fossulae, s. foveae), saõ pequenas cavidades excretorias, como v. g. as que se achaõ na base das petalas da coroa imperial, e outras especies de fritillaria.
Cicatrizes ou pustulas Nota
Taõbem se da o nome de pustulas a huma
especie de enfermidade dos fructos feridos pelo granizo, como
saõ as que se vem nas pera a que o vulgo chama peras
pedradas.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos. Como a preparaçaõ deste fluido pertence igualmente a vasos internos, e o costumaõ extrahir de muitas plantas por meyo de incisoẽs, pareceme ser mais proprio de tractar da sua natureza no capitulo seguinte.
Algumas glandulas e vasos superficiaes costumaõ naturalmente lançar de si hum humor viscoso ou glutinoso (viscositas, s. glutinositas); este humor he observado naõ so na casca do tronco e ramos, mas taõbem nas folhas , flores, e gomos, que em razaõ de serem lubrificados ou barrados por huma semelhante substancia saõ chamados viscosos.folhas[Página 256]Por succulencia (succulentia, s. lactescentia), os botanicos entendem a qualidade, e cor dos succos que vertem os vasos de huma planta, quando a ferimos ou quebramos.
Os succos das plantas dizem-se ser: aquosos (aquosi succi), quando naõ saõ corados e se assemelhaõ á agoa commua (a videira), lacteos (lactei, albi), se saõ da cor de leite, como nas euphorbias e papoila, amarellos (lutei), como na celidonia; vermelhos (rubri), como os do rumex sanguineus, e os dos ramos tenros do carthamus lanatus.
O succos preparados pelos vasos proprios dos vegetaes que sejaõ extrahidos por meyo de huma incisaõ artificial, quer derramados na casca por ex- sudaçaõ ou rotura, adquirem muitas vezes huma consistencia mais ou menos densa, e saõ chamados neste estado resinas, gommas, e gomas-resinas. As re- sinas (resinae), podem facilmente reconhecer-se, e distinguir-se das gomas pela razaõ de arderem rapi- damente no fogo, e de se dissolverem em espirito de vinho e naõ em agoa, como saõ o pez, thereben- tinas, &c. A gomma (gummi), pelo contrario, naõ arde no fogo, e dissolve-se em agoa e naõ em espirito de vinho, como se vê na goma arabia e na das gin- geiras e amexieiras; a goma-resina (gummi-resina), dissolve-se parte em espirito de vinho e parte em agoa, como se vê na que he extrahida da aloe.
Por succulencia (succulentia, s. lactescentia), os botanicos entendem a qualidade, e cor dos succos que vertem os vasos de huma planta, quando a ferimos ou quebramos.
Os succos das plantas dizem-se ser: aquosos (aquosi succi), quando naõ saõ corados e se assemelhaõ á agoa commua (a videira), lacteos (lactei, albi), se saõ da cor de leite, como nas euphorbias e papoila, amarellos (lutei), como na celidonia; vermelhos (rubri), como os do rumex sanguineus, e os dos ramos tenros do carthamus lanatus.
O succos preparados pelos vasos proprios dos vegetaes que sejaõ extrahidos por meyo de huma incisaõ artificial, quer derramados na casca por ex- sudaçaõ ou rotura, adquirem muitas vezes huma consistencia mais ou menos densa, e saõ chamados neste estado resinas, gommas, e gomas-resinas. As re- sinas (resinae), podem facilmente reconhecer-se, e distinguir-se das gomas pela razaõ de arderem rapi- damente no fogo, e de se dissolverem em espirito de vinho e naõ em agoa, como saõ o pez, thereben- tinas, &c. A gomma (gummi), pelo contrario, naõ arde no fogo, e dissolve-se em agoa e naõ em espirito de vinho, como se vê na goma arabia e na das gin- geiras e amexieiras; a goma-resina (gummi-resina), dissolve-se parte em espirito de vinho e parte em agoa, como se vê na que he extrahida da aloe.
[Página 257]O Sexo das plantas he fundado sobre o das suas flores, e por conseguinte
quasi todas as denominaçoẽs, que se costumaõ dar a estas relativamente ao
sexo, se podem com propriedade dar taõbem ás plantas que as produzem. Pelo que as plantas dizem-se masculinas (plantae mares), quando daõ
somente flores masculas; femininas (feminae), se daõ somente flores
femininas; hermaphoditas (hermaphroditae), se daõ flores hermaphroditas;
monoicas (monoicae), quando no seu tronco ou ramos daõ flores humas
masculinas outras femininas, como o milho, melaõ, e abobara; dioicas
(dioicae), quando em dois individuos da mesma especie ha hum que dà
flores masculinas e outro femininas Nota
O nome de dioica he neste cazo
somente dado a especie, porque os individuos saõ plantas ou
masculinas ou femininas, e o mesmo se deve entender do nome
polygama, quando he dado as plantas proprias da Polygamia dioecia e
trioecia.
Os modernos costumaõ dar o nome de hybridas, ou mulinas (hybridae) a certas
plantas, que procedem de duas especies diversas, assim como no reyno animal
os mulos procedem do coito do jumento e egoa, individos especificamente
differentes. Este effeito tem lugar nos vegetaes em razaõ de cahir o po fecundante das flores de huma especie sobre o pistillo
das flores de outra; as sementes que provêm desta fecundaçaõ saõ as que
produzem as plantas hybridas Nota
Segundo a opiniaõ de alguns Botanicos
todas as especies de plantas que ha hoje na face do globo terreatre
saõ as mesmas que haviaõ nos dias primitivos da terra; elles so
admittem novas variedades e jamais novas especies; outros pelo
contrario saõ de parecer que ha muitas novas especies procedidas do
coito entre individuas especificamente differentes. Esta ultima
opiniaõ naõ me parece ser bem fundada, e as plantas hybridas provaõ
contra ella. As differentes plantas que procedem de differentes
individos ou saõ mestiças, ou mulinas, As mestiças saõ as que provem
de duas especies ou variedades, e daõ sementes fecundas; se cortamos
v. g. os estames a huma tulipa vermelha, e apolvilhamos o seu
pistillo com o po dos estames de huma tulipa brança, as sementes da
dicta tulipa vermelha produziraõ tulipas humas vermelhas, outra
brancas, outras variegadas de vermelho e branco, as suas sementes
seraõ fecundas, e semelhantes plantas por conseguinte devem ser
chamadas mestiças. As plantas mulinas rigorosamente taes saõ as que
procedem de duas especies analogas, ou do mesmo genero, e daõ
sementes sempre estereis ou incapazes de reproduzir individuo algum.
Tanto as mestiças como as mulinas naõ saõ outra coiza mais do que
variedades, a pezar de que algumas tenhaõ sido consideradas como
verdadeiras especies; as mulinas tem quasi todo o habito externo
d'alguma das plantas de que descendem, ou naõ differem da especie
senaõ no viço e infecundidade da flor. Vej. O termo Hybridae
plantae, no Dicc. Bot. vol. 2.
O Sexo das plantas he fundado sobre o das suas flores, e por conseguinte
quasi todas as denominaçoẽs, que se costumaõ dar a estas relativamente ao
sexo, se podem com propriedade dar taõbem ás plantas que as produzem. Pelo que as plantas dizem-se masculinas (plantae mares), quando daõ
somente flores masculas; femininas (feminae), se daõ somente flores
femininas; hermaphoditas (hermaphroditae), se daõ flores hermaphroditas;
monoicas (monoicae), quando no seu tronco ou ramos daõ flores humas
masculinas outras femininas, como o milho, melaõ, e abobara; dioicas
(dioicae), quando em dois individuos da mesma especie ha hum que dà
flores masculinas e outro femininas Nota
O nome de dioica he neste cazo
somente dado a especie, porque os individuos saõ plantas ou
masculinas ou femininas, e o mesmo se deve entender do nome
polygama, quando he dado as plantas proprias da Polygamia dioecia e
trioecia.
Os modernos costumaõ dar o nome de hybridas, ou mulinas (hybridae) a certas
plantas, que procedem de duas especies diversas, assim como no reyno animal
os mulos procedem do coito do jumento e egoa, individos especificamente
differentes. Este effeito tem lugar nos vegetaes em razaõ de cahir o po fecundante das flores de huma especie sobre o pistillo
das flores de outra; as sementes que provêm desta fecundaçaõ saõ as que
produzem as plantas hybridas Nota
Segundo a opiniaõ de alguns Botanicos
todas as especies de plantas que ha hoje na face do globo terreatre
saõ as mesmas que haviaõ nos dias primitivos da terra; elles so
admittem novas variedades e jamais novas especies; outros pelo
contrario saõ de parecer que ha muitas novas especies procedidas do
coito entre individuas especificamente differentes. Esta ultima
opiniaõ naõ me parece ser bem fundada, e as plantas hybridas provaõ
contra ella. As differentes plantas que procedem de differentes
individos ou saõ mestiças, ou mulinas, As mestiças saõ as que provem
de duas especies ou variedades, e daõ sementes fecundas; se cortamos
v. g. os estames a huma tulipa vermelha, e apolvilhamos o seu
pistillo com o po dos estames de huma tulipa brança, as sementes da
dicta tulipa vermelha produziraõ tulipas humas vermelhas, outra
brancas, outras variegadas de vermelho e branco, as suas sementes
seraõ fecundas, e semelhantes plantas por conseguinte devem ser
chamadas mestiças. As plantas mulinas rigorosamente taes saõ as que
procedem de duas especies analogas, ou do mesmo genero, e daõ
sementes sempre estereis ou incapazes de reproduzir individuo algum.
Tanto as mestiças como as mulinas naõ saõ outra coiza mais do que
variedades, a pezar de que algumas tenhaõ sido consideradas como
verdadeiras especies; as mulinas tem quasi todo o habito externo
d'alguma das plantas de que descendem, ou naõ differem da especie
senaõ no viço e infecundidade da flor. Vej. O termo Hybridae
plantae, no Dicc. Bot. vol. 2.
O viço dos vegetaes (luxariatio), he considerado por alguns botanicos ou como floral ou como habitual; o floral he relativo às partes da fructificaçaõ, e delle fallei jà em seu lugar; o habitual consiste na mudança que algumas causas occasionaes fazem nas partes da vegeteçaõ, isto he, em quaesquer partes que naõ saõ flor nem fructo, e como esta alteraçaõ tem lugar nas plantas da mesma especie e as faz variar, e degenerar costumaõ taõbem dar-lhe o nome de variaçaõ ou de degeneraçaõ (variatio, s. degeneratio); mas estes dois termos tem huma accepcaõ mais extensa.
O viço tem lugar ás vezes no tronco,quando as plantas vem a ser cespitosas
(cespitosae) lançando da mesma raiz em hum terreno pingue
muitos troncos, aindaque aliás no terreno que lhes he natural somente
lançaõ hum Nota
Basta muitas vezes cortar o tronco pela base para fazer huma
planta cespitosa.
A degeneraçaõ das plantas pode ter lugar de muitos modos, em razaõ da cultura, mudança de terreno, clima, idade, &c. A cultura naõ amansa menos as feras do que as plantas; ella lhes faz perder os seus espinhos, hispidez, e toda a sorte de pelos, amacia a aspereza dos seus succos, e adoça muitas vezes o amargo e acidez dos seus fructos; as plantas que cultivamos em nossos jardins, hortas, e pomares daõ disro huma clara prova; o estado inculto ou bravio era o seu estado natural; parecenos que lho melhoramos pelas enxertias e amanhos, e pensamos que degeneraõ todas as vezes que por falta da devida cultura [Página 261] tornaõ a ser bravas; mas na realidade aos olhos de hum sabio naturalista he huma verdadeira degeneraçaõ o que chamamos estado de melhoramento; huma amexieira, huma alcachofa hortense, ás quaes a cultura fez perder os seus espinhos, vivem dege- neradas em quanto se conservaõ neste estado; mas logo que abandonadas á revelia da natureza recobraõ seus espinhos, devem ser consideradas como restitui- das ao seu estado natural.
O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs. O clima naõ deixa taõbem de fazer degenerar as plantas quanto à sua duraçaõ, e as plantas que nos paizes quentes saõ vivaces, taes com as chagas, boa noyte, man- jerona, ricinus, &c. transplantadas nos paizes frios vem a ser annuaes. A idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.
O viço e degeneraçaõ podem fazer variar de muitos modos huma mesma especie, mas delles naõ resultaõ jamais novas especies, e he erro crer por ex. que a avea cortada antes da florecencia degenere de tal modo que no anno seguinte se converta em senteio, ou que o trigo em huma terra magra degenere em senteio, este em cerada, a cevada em joyo, &c. O corculo das semente he sempre huma plantula propria, segundo as leys da natureza, para continuar a forma especifica do ente que a produzio, porque aliás teriamos novas creaçoẽs; elle he formado [Página 262] da medulla da planta materna, ou de huma substancia similar de modo, que naõ pode perpetuar senaõ Individuos especificamente semelhantes aquelle a quem esteve apegado no tempo, em que foy gerado e nutrido. Do mesmo modo os ramos, gomos, e bolbos por mais variedades, que possaõ dar, sempre conservaõ os caracteres e essencia da sua especie, porque saõ della meros pedaços vitaes. Pelo que dizer, que hum ramo ou colmo de avea v. g. pode dar huma espiga com sementes de senteio, he querer mudar a natureza das vegetes e fingir chimeras.
O viço dos vegetaes (luxariatio), he considerado por alguns botanicos ou como floral ou como habitual; o floral he relativo às partes da fructificaçaõ, e delle fallei jà em seu lugar; o habitual consiste na mudança que algumas causas occasionaes fazem nas partes da vegeteçaõ, isto he, em quaesquer partes que naõ saõ flor nem fructo, e como esta alteraçaõ tem lugar nas plantas da mesma especie e as faz variar, e degenerar costumaõ taõbem dar-lhe o nome de variaçaõ ou de degeneraçaõ (variatio, s. degeneratio); mas estes dois termos tem huma accepcaõ mais extensa.
O viço tem lugar ás vezes no tronco,quando as plantas vem a ser cespitosas
(cespitosae) lançando da mesma raiz em hum terreno pingue
muitos troncos, aindaque aliás no terreno que lhes he natural somente
lançaõ hum Nota
Basta muitas vezes cortar o tronco pela base para fazer huma
planta cespitosa.
A degeneraçaõ das plantas pode ter lugar de muitos modos, em razaõ da cultura, mudança de terreno, clima, idade, &c. A cultura naõ amansa menos as feras do que as plantas; ella lhes faz perder os seus espinhos, hispidez, e toda a sorte de pelos, amacia a aspereza dos seus succos, e adoça muitas vezes o amargo e acidez dos seus fructos; as plantas que cultivamos em nossos jardins, hortas, e pomares daõ disro huma clara prova; o estado inculto ou bravio era o seu estado natural; parecenos que lho melhoramos pelas enxertias e amanhos, e pensamos que degeneraõ todas as vezes que por falta da devida cultura [Página 261] tornaõ a ser bravas; mas na realidade aos olhos de hum sabio naturalista he huma verdadeira degeneraçaõ o que chamamos estado de melhoramento; huma amexieira, huma alcachofa hortense, ás quaes a cultura fez perder os seus espinhos, vivem dege- neradas em quanto se conservaõ neste estado; mas logo que abandonadas á revelia da natureza recobraõ seus espinhos, devem ser consideradas como restitui- das ao seu estado natural.
[Página 261]O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs. O clima naõ deixa taõbem de fazer degenerar as plantas quanto à sua duraçaõ, e as plantas que nos paizes quentes saõ vivaces, taes com as chagas, boa noyte, man- jerona, ricinus, &c. transplantadas nos paizes frios vem a ser annuaes. A idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.
O terrenos differentes fazem muitas vezes que as folhas largas venhaõ a ser estreitas, que sejaõ glabras em huns e hispidas ou peludas em outros, e que os troncos tenhaõ differentes direcçoẽs.folhasA idade faz algumas vezes perder os aculeos e hispidez aos troncos, e as vezes mesmo lhes faz tomar huma forma arborea e mudar a figura de suas folhas , como se vê na hera.folhasO viço e degeneraçaõ podem fazer variar de muitos modos huma mesma especie, mas delles naõ resultaõ jamais novas especies, e he erro crer por ex. que a avea cortada antes da florecencia degenere de tal modo que no anno seguinte se converta em senteio, ou que o trigo em huma terra magra degenere em senteio, este em cerada, a cevada em joyo, &c. O corculo das semente he sempre huma plantula propria, segundo as leys da natureza, para continuar a forma especifica do ente que a produzio, porque aliás teriamos novas creaçoẽs; elle he formado [Página 262] da medulla da planta materna, ou de huma substancia similar de modo, que naõ pode perpetuar senaõ Individuos especificamente semelhantes aquelle a quem esteve apegado no tempo, em que foy gerado e nutrido. Do mesmo modo os ramos, gomos, e bolbos por mais variedades, que possaõ dar, sempre conservaõ os caracteres e essencia da sua especie, porque saõ della meros pedaços vitaes. Pelo que dizer, que hum ramo ou colmo de avea v. g. pode dar huma espiga com sementes de senteio, he querer mudar a natureza das vegetes e fingir chimeras.
[Página 262]Os differentes estados da atmosphera, os excessivos calores ou frios,
qualquer vicio notavel da transpiraçaõ, a obstrucçaõ dos vazos, a plenitude
e condensaçaõ dos succos, e as corrosoẽs e picadas dos insectos saõ as
principaes causas das doenças dos vegetaes (morbi). Ellas saõ taõ
numerosas que podiaõ formar o sujeito de hum bom tractado pathologico Nota
Athe ao presente naõ temos ainda huma boa pathologia nem
therapeuteia dos vegetaes, semelhantes tractados seriaõ
summamente uteis á agricultura, e naõ deixariaõ taõbem de ser
proveitosos á Botanica fundamental.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.
Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.
Cravagem (clavus), saõ pontas denigridas que se observaõ as vezes nas sementes do senteio e junças.
Fogagem (ustilago, uredo), he huma especie de carie das sementes de maneira que a planta, em vez de dar sementes, da huma farinha negra: observa-se muitas vezes nas espigas da cevada, avea, trigo e outras gramas, como taõbem nalgumas especies de escorcioneira, e tragopogon.
Crestamento do sol (aestus, s. aestuatio), quando saõ crestadas pelos grandes
calores, e desmayaõ de tal sorte que ordinariamente perecem. Os antigos
quando viaõ desmaiar huma planta e morrer por hum golpe de sol Nota
Chamaõ
golpe de sol aos raros solares subitamente descortinados de huma nuvem
espessa, e vibrados ardentemente sobre a terra.
Ensoamento (sitis), quando por falta de agoa ou de sufficiente humidade desmayaõ hum tanto, mas tornaõ a restabelecerse, sendo regadas, ou sobrevindo chuvas.
Friagem (pernio), quando saõ em parte crestadas do frio, ou feridas pelo granizo.
[Página 264]Geladura (congelatio), quando todos os seus succos saõ congelados, ou que o movimento destes he de tal modo estorvado e suspendido pelo frio, que morrem.
Marasmo ou atrophia (fames, marasmus, s. atrophia), quando por falta de terra, de succos competentes, ou qualquer outra causa emagrecem summamente ou perecem de magreza.
Corpulencia (polysarchia), quando engrossaõ mais do natural em razaõ dos demasiados succos, e nimia nutriçaõ.
Cancro (cancer), he hum grande inchaço causado pela extravasaçaõ dos succos, sem contudo rebentar a epiderme.
Plethòra ou plenitude (plethora), segundo alguns naturalistas he huma demasiada abundancia de succos de modo que se extravasaõ por meyo de algumas roturas da epiderme, o que constitue hemorrhagias mais ou menos consideraveis; as resinas, gomas, gomas-resinas saõ, segundo elles, especies de hemorrhagias vegetaes occasionadas por huma plenitude de succos.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c. Os insectos causaõ taõbem algumas monstruosidades nas flores, fazendo-as dobrar, prolificar, &c como ja notei em seu lugar.
Os differentes estados da atmosphera, os excessivos calores ou frios,
qualquer vicio notavel da transpiraçaõ, a obstrucçaõ dos vazos, a plenitude
e condensaçaõ dos succos, e as corrosoẽs e picadas dos insectos saõ as
principaes causas das doenças dos vegetaes (morbi). Ellas saõ taõ
numerosas que podiaõ formar o sujeito de hum bom tractado pathologico Nota
Athe ao presente naõ temos ainda huma boa pathologia nem
therapeuteia dos vegetaes, semelhantes tractados seriaõ
summamente uteis á agricultura, e naõ deixariaõ taõbem de ser
proveitosos á Botanica fundamental.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.
Ferrugem (rubigo), he hum po da cor da ferrugem do ferro, que salpica as folhas ordinariamente na sua [Página 263] face inferior: he frequente nas gramas, na alchimilla, rabus saxatilis, e nalgumas especies de euphorbia, e de senecio.folhas[Página 263]Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.
Bolor (erysiphe), esta especie de doença consiste em hum bolor branco, composto de cabecinhas fuscas e rentes que salpicaõ as folhas , e se vê no luparo, e nalgumas especies de lamium, lithospermum, galeopsis e acer.folhasCravagem (clavus), saõ pontas denigridas que se observaõ as vezes nas sementes do senteio e junças.
Fogagem (ustilago, uredo), he huma especie de carie das sementes de maneira que a planta, em vez de dar sementes, da huma farinha negra: observa-se muitas vezes nas espigas da cevada, avea, trigo e outras gramas, como taõbem nalgumas especies de escorcioneira, e tragopogon.
Crestamento do sol (aestus, s. aestuatio), quando saõ crestadas pelos grandes
calores, e desmayaõ de tal sorte que ordinariamente perecem. Os antigos
quando viaõ desmaiar huma planta e morrer por hum golpe de sol Nota
Chamaõ
golpe de sol aos raros solares subitamente descortinados de huma nuvem
espessa, e vibrados ardentemente sobre a terra.
Ensoamento (sitis), quando por falta de agoa ou de sufficiente humidade desmayaõ hum tanto, mas tornaõ a restabelecerse, sendo regadas, ou sobrevindo chuvas.
Friagem (pernio), quando saõ em parte crestadas do frio, ou feridas pelo granizo.
[Página 264]Geladura (congelatio), quando todos os seus succos saõ congelados, ou que o movimento destes he de tal modo estorvado e suspendido pelo frio, que morrem.
Marasmo ou atrophia (fames, marasmus, s. atrophia), quando por falta de terra, de succos competentes, ou qualquer outra causa emagrecem summamente ou perecem de magreza.
Corpulencia (polysarchia), quando engrossaõ mais do natural em razaõ dos demasiados succos, e nimia nutriçaõ.
Cancro (cancer), he hum grande inchaço causado pela extravasaçaõ dos succos, sem contudo rebentar a epiderme.
Plethòra ou plenitude (plethora), segundo alguns naturalistas he huma demasiada abundancia de succos de modo que se extravasaõ por meyo de algumas roturas da epiderme, o que constitue hemorrhagias mais ou menos consideraveis; as resinas, gomas, gomas-resinas saõ, segundo elles, especies de hemorrhagias vegetaes occasionadas por huma plenitude de succos.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c. Os insectos causaõ taõbem algumas monstruosidades nas flores, fazendo-as dobrar, prolificar, &c como ja notei em seu lugar.
Picadas, e ninhos dos insectos (morsus, nidique insectorum); esta casta de animaes naõ so mordem, e retraçaõ as plantas para com ellas se nutrirem, mas ainda para nellas deporem seus ovos, hum dos factos notaveis, a que os dirige o seu instincto: deste effeito resultaõ muitas excrescencias e desordens na estructura ordinaria das partes dos vegetaes que elles atacaõ, como saõ por ex. as galhas, ou bugalhos (gallae), que se observaõ nos carvalhos, salgueiros, &c. as quaes são certas excrescencias esponjosas com os ovos do insecto no centro; o bedegar da rosa de [Página 265] caõ (bedeguar) especie de novello resinoso e hirsurto; os follilhos (follicuti) como os que se vem nos ramos e folhas dos choupos, ulmeiros, &c; as escamaçoẽs (squammationes) como as do abeto, e salix rosea; e as contorsoẽs (contorsiones) como as do cerastium, veronica, lotus, &c.[Página 265]folhasA grandeza ou medida (magnitudo, s. mensura), he como a notei, ou relativa ou obsoluta; a relativa he a largura, ou comprimento das partes dos vegetaes comparadas humas com as outras; a absoluta consiste nas dimensoẽs conhecidas, ou nas que saõ deduzidas das partes e estatura do corpo humano, que se reduzem as seguintes.
Hum cabello (capillus) he o diametro ou grossura de hum cabello, que se suppoem ser a duodecima parte de huma linha, e neste sentido as partes dos vegetaes dizem-se ser verdadeiramente capillares, (capillares) quando saõ da grossura de hum cabello.
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).
[Página 266]Huma unha (unguis), he o comprimento della, que se suppoem ser seis linhas ou meya pollegada, e neste sentido a grandeza diz-se ser de huma unha (unguicularis).
Huma pollegada (pollex, s. uncia), he o diametro do dedo pollegar ou taõbem o espaço que vay desde a sua ultima junta athe à ponta, que se suppoem ser doze linhas, e neste sentido a grandeza diz-se ser de meya pollegada (semiuncialis) de huma pollegada (uncialis, s. pollicaris), de pollegada e meya (sesquiuncialis, s. sesquipollicaris) de duas pollegadas, &c. (biuncialis, &c.).
Huma maõ travessa (palmus), he a largura de quatro dedos reunidos, excepto o pollegar, e se suppoem ser tres pollegadas; neste sentido a grandeza diz-se ser de meya maõ travessa, de huma maõ travessa, e de maõ travessa e meya (semipalmaris, palmaris, sesquipalmaris).
Hum palmo de craveira, hum palmo maior (dodrans), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do minimo bem estendidos, o que se suppoem ser nove pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo de craveira (dodrantalis).
Hum palmo bastado ou palmo menor (spithama), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do dedo mostrador, seu immediato, bem estendidos, o que se suppoem ser sette pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo bastardo (spithamea).
Hum pe (pes), he pouco mais ou menos o espaço que medea desde o sangradoiro do braço athe á bado dedo pollegar, o que se suppoem ser doze [Página 267] pollegadas, donde a grandeza se diz ser de meyo pe (semipedalis de hum pe (pedalis), de pe e meyo (sesquipedalis) de dois pés, &c. (bipedalis, &c.)
Hum covado natural (cubitus), he o espaço que vay desde o cotovelo athe a ponta do dedo grande, que se suppoem ser desasette pollegadas; a grandeza diz-se ser de hum, dois, tres covados naturaes, &c. (cubitalis, bicubitalis, tricubitalis, &c.)
Hum braço (brachium), he o espaço que vay desde o sovaco athe á ponta do dedo grande, o que se suppoem ser dois pez, donde a grandeza se diz ser de hum braço (brachialis).
Huma braça, ou a altura de hum homem (orgya, altitudo humana, s. hexapoda), he o espaço que vay da extremidade de huma maõ athe a da outra, estando os braços abertos, o que se suppoem ser seis pès, donde a grandeza se diz ser de huma braça (orgyalis, s. sexpedalis).
A grandeza ou medida (magnitudo, s. mensura), he como a notei, ou relativa ou obsoluta; a relativa he a largura, ou comprimento das partes dos vegetaes comparadas humas com as outras; a absoluta consiste nas dimensoẽs conhecidas, ou nas que saõ deduzidas das partes e estatura do corpo humano, que se reduzem as seguintes.
Hum cabello (capillus) he o diametro ou grossura de hum cabello, que se suppoem ser a duodecima parte de huma linha, e neste sentido as partes dos vegetaes dizem-se ser verdadeiramente capillares, (capillares) quando saõ da grossura de hum cabello.
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).
Huma linha (linea), he a largura que costuma ter a raiz de huma unha, excepto a do dedo pollegar, e se suppoem ser a duodecima parte de huma pollegada: neste sentido a grandeza diz-se ser linhear ou de huma linha (linearis).raiz[Página 266]Huma unha (unguis), he o comprimento della, que se suppoem ser seis linhas ou meya pollegada, e neste sentido a grandeza diz-se ser de huma unha (unguicularis).
Huma pollegada (pollex, s. uncia), he o diametro do dedo pollegar ou taõbem o espaço que vay desde a sua ultima junta athe à ponta, que se suppoem ser doze linhas, e neste sentido a grandeza diz-se ser de meya pollegada (semiuncialis) de huma pollegada (uncialis, s. pollicaris), de pollegada e meya (sesquiuncialis, s. sesquipollicaris) de duas pollegadas, &c. (biuncialis, &c.).
Huma maõ travessa (palmus), he a largura de quatro dedos reunidos, excepto o pollegar, e se suppoem ser tres pollegadas; neste sentido a grandeza diz-se ser de meya maõ travessa, de huma maõ travessa, e de maõ travessa e meya (semipalmaris, palmaris, sesquipalmaris).
Hum palmo de craveira, hum palmo maior (dodrans), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do minimo bem estendidos, o que se suppoem ser nove pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo de craveira (dodrantalis).
Hum palmo bastado ou palmo menor (spithama), he o espaço que medea entre a extremidade do dedo pollegar, e a do dedo mostrador, seu immediato, bem estendidos, o que se suppoem ser sette pollegadas, donde a grandeza se diz ser de hum palmo bastardo (spithamea).
Hum pe (pes), he pouco mais ou menos o espaço que medea desde o sangradoiro do braço athe á bado dedo pollegar, o que se suppoem ser doze [Página 267] pollegadas, donde a grandeza se diz ser de meyo pe (semipedalis de hum pe (pedalis), de pe e meyo (sesquipedalis) de dois pés, &c. (bipedalis, &c.)
[Página 267]Hum covado natural (cubitus), he o espaço que vay desde o cotovelo athe a ponta do dedo grande, que se suppoem ser desasette pollegadas; a grandeza diz-se ser de hum, dois, tres covados naturaes, &c. (cubitalis, bicubitalis, tricubitalis, &c.)
Hum braço (brachium), he o espaço que vay desde o sovaco athe á ponta do dedo grande, o que se suppoem ser dois pez, donde a grandeza se diz ser de hum braço (brachialis).
Huma braça, ou a altura de hum homem (orgya, altitudo humana, s. hexapoda), he o espaço que vay da extremidade de huma maõ athe a da outra, estando os braços abertos, o que se suppoem ser seis pès, donde a grandeza se diz ser de huma braça (orgyalis, s. sexpedalis).
As cores dos vegetaes (colores), de que tracto presentemente neste artigo, naõ somente saõ as que respeitaõ ás partes da fructificaçaõ, aonde costumaõ ser infinitamente variadas, mas taõbem as que saõ relativas a toda a superficie de qualquer das suas partes. Os antigos consideravaõ as cores como huma das principaes notas do habito externo, com que [Página 268] se podiaõ destinguir as especies; Linneo criticou fortemente este sentimento, dizendo que se bem que ellas podiaõ servir para fazer destinguir as variedades, naõ subministravaõ caracteres seguros para estabelecer especies; alguns modernos contudo naõ admittem inteiramente este parecer, e pensaõ que elle he sojeito a excepçoẽs, como direi em outro lugar. Os differentes gráos de intensidade, com que a natureza còra as flores naõ se podem perfeitamente exprimir nem com vozes, nem com penna, e raras vezes ainda mesmo o pincel as bem imita. Alguns pensaõ que se podiaõ dar sufficientes idéas de muitas dellas, comparando-as com as cores fixas das substancias de que usaõ os pintores e tintureiros; este parecer podia ser adoptado se os Botanicos julgassem ser necessario empregar os nomes exactos das cores na descripçaõ de qualquer planta, mas commumente desprezaõ esta circumstancia, e porisso bastará fazer so mençaõ aqui das cores ordinarias, de que elles costumaõ usar algumas vezes, as quaes se podem reduzir ás seguintes.
Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.
De cor vidrenta ou de cristal (hyalinus, s. vitreus); cor d'agoa (aqueus, s. undulatus) estas cores observão-se muitas vezes nos filetes dos estames e no estylete do pistillo.
Cinzento (cinereus); cor de chumbo (plumbeus, lividus.)
[Página 269]Negro (niger); fusco, pardo (fuscus); fullo, baço (fullus); a cor negra observa-se muitas vezes nas raizes o sementes, mas he raro de a ver nos fructos e ainda muito mais raro na corolla.
Pallido (luridus); cor de pêz (piceus, ater).
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.
Açafroado (croceus); cor de fogo (flammeus, fulvus).
Gris ou griseo (gilvus) cor de tejolho (testaceus).
De cor da ferrugem do ferro (ferruginens).
Vermelho (ruber); as flores do estio, e bagas azedas tem ordinariamente esta cor; vermelho cor de sangue (sanguineus); vermelho cor de carne, ou encarnado (incarnatus); escarlatino, cor de escarlata (coccineus, puniceus); cor de rosa (roseus).
Purpureo, cor de purpura (purpureus, phaeniceus, s. tyrianthinus); purpureo claro (diluté purpureus); purpureo escuro (saturatè purpureus, s. atropurpureus); roxo (violaceus, janthynus, caeruleo-purpureus).
Azul (caeruleus); azul celeste (cyaneus); estas cores saõ mui frequentes nas corollas.
Verde (viridis); verde cor de alho porro (prasi- nus); verdemar (thalassinus); verdenegro (atroviridis). A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.
Garço (glaucus, glaucinus, caesius); a cor garça participa da verde e da azulada, e porisso muitos a [Página 270] comparaõ com propriedade á cor da pedra preciosa chamada beryllo.
O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
As cores dos vegetaes (colores), de que tracto presentemente neste artigo, naõ somente saõ as que respeitaõ ás partes da fructificaçaõ, aonde costumaõ ser infinitamente variadas, mas taõbem as que saõ relativas a toda a superficie de qualquer das suas partes. Os antigos consideravaõ as cores como huma das principaes notas do habito externo, com que [Página 268] se podiaõ destinguir as especies; Linneo criticou fortemente este sentimento, dizendo que se bem que ellas podiaõ servir para fazer destinguir as variedades, naõ subministravaõ caracteres seguros para estabelecer especies; alguns modernos contudo naõ admittem inteiramente este parecer, e pensaõ que elle he sojeito a excepçoẽs, como direi em outro lugar. Os differentes gráos de intensidade, com que a natureza còra as flores naõ se podem perfeitamente exprimir nem com vozes, nem com penna, e raras vezes ainda mesmo o pincel as bem imita. Alguns pensaõ que se podiaõ dar sufficientes idéas de muitas dellas, comparando-as com as cores fixas das substancias de que usaõ os pintores e tintureiros; este parecer podia ser adoptado se os Botanicos julgassem ser necessario empregar os nomes exactos das cores na descripçaõ de qualquer planta, mas commumente desprezaõ esta circumstancia, e porisso bastará fazer so mençaõ aqui das cores ordinarias, de que elles costumaõ usar algumas vezes, as quaes se podem reduzir ás seguintes.
[Página 268]Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.
Branco cor de leite (albus, niveus, s. lacteus), como as açucenas, jasmins, e ordinariamente as flores da primavera e bagas doces; esbranquiçado, alvadio (albicans, incanus), como saõ as folhas de algumas especies de verbasco.folhasDe cor vidrenta ou de cristal (hyalinus, s. vitreus); cor d'agoa (aqueus, s. undulatus) estas cores observão-se muitas vezes nos filetes dos estames e no estylete do pistillo.
Cinzento (cinereus); cor de chumbo (plumbeus, lividus.)
[Página 269]Negro (niger); fusco, pardo (fuscus); fullo, baço (fullus); a cor negra observa-se muitas vezes nas raizes o sementes, mas he raro de a ver nos fructos e ainda muito mais raro na corolla.
Pallido (luridus); cor de pêz (piceus, ater).
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.
Amarello (luteus); cor de enxofre (sulphureus, flavus); estas cores saõ proprias da maior parte das antheras , e das corollas das flores semiflosculosas de Tournefort, como taõbem de hum grande numero das que se daõ no outono.antherasAçafroado (croceus); cor de fogo (flammeus, fulvus).
Gris ou griseo (gilvus) cor de tejolho (testaceus).
De cor da ferrugem do ferro (ferruginens).
Vermelho (ruber); as flores do estio, e bagas azedas tem ordinariamente esta cor; vermelho cor de sangue (sanguineus); vermelho cor de carne, ou encarnado (incarnatus); escarlatino, cor de escarlata (coccineus, puniceus); cor de rosa (roseus).
Purpureo, cor de purpura (purpureus, phaeniceus, s. tyrianthinus); purpureo claro (diluté purpureus); purpureo escuro (saturatè purpureus, s. atropurpureus); roxo (violaceus, janthynus, caeruleo-purpureus).
Azul (caeruleus); azul celeste (cyaneus); estas cores saõ mui frequentes nas corollas.
Verde (viridis); verde cor de alho porro (prasi- nus); verdemar (thalassinus); verdenegro (atroviridis). A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.
A cor verde he propria da maior parte das folhas e do calyz; mas he rarissima na corolla.folhasGarço (glaucus, glaucinus, caesius); a cor garça participa da verde e da azulada, e porisso muitos a [Página 270] comparaõ com propriedade á cor da pedra preciosa chamada beryllo.
[Página 270]O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
O cheiros das plantas (odores), de que faço aqui mençaõ saõ relativos
naõ sò as flores e fructos, mas taõbem às folhas , ramos, troncos, raízes e a quaesquer partes vegetaes. Todas as plantas rigorosamente fallando tem hum cheiro particular Nota
Todos os corpos tem hum cheiro particular, como se collige da
indagaçaõ olfativa, por meyo da qual o caõ reconhece as
pizadas de seu senhor, e o vay em fim achar.
As plantas ou saõ de hum cheiro suave e agradavel (suaveolentes), ou de hum cheiro pesado, fetido, e desagradavel (graveolentes); entre os cheiros suaves saõ numerados o fragante, o almiscarado e o aromatico, e nos desagradaveis saõ considerados o alliaceo, o hircoso, viroso, e nauseoso.
Cheiro fragrante (fragans), he agradavel sem contudo ser almiscarado nem aromatico; tal he por ex. o do jasmim, açucena, goivo e outras muitas flores; pode-se dar igualmente em todas as mais partes das plantas, como se vê na manjerona, ouregaõ, manjericaõ, segurelha, herva cidreira, alfazema, tomilho, serpaõ, &c.
Almiscarado (ambrosiacus) he forte, penetrante, e se assemelha hum tanto ao de almiscar, tal he o que se observa no geranium moschatum, malva mos- chata, chenopodium ambrosioides, &c.
Aromatico (aromaticus), he fragante ao olfacto e se da igualmente a conhecer o acto da mastigaçaõ; está sempre reunido com hum principio acre ou picante; tal he por ex. o cheiro da canella, cravo da India, e do Maranhaõ, da noz moscada, alcanfor, casca de laranjas, &c.
Cheiro alliaceo, ou de alho (alliaceus) he forte, misto com hum principio acre, proprio do alho ou evidentemente semelhante ao do alho; tal he o da cebolla e de todas as especies de alho, o da assa fetida, o do erisymum alliaria, &c.
Cheiro hircoso (hircinus) he forte, desagradavel, e se assemelha hum tanto ao cheiro fetido dos sovacos dos braços, a que alguns chamaõ catinga ou [Página 272] cheiro de bode; tal he o que se observa no geranium robertianum, e chenopodium vulvaria.
[Página 272]Cheiro viroso (teter, s. virosus) he fetido, desagradavel, sem contudo ser alliaceo nem hircoso, tal he por ex. o do cravo de defuncto, o do sabugueiro, o do opio, o de algumas especies de cotula e anthemis, o do linho canamo, do meimendro, dos cogumelos, &c. Elle se diz ser nauseoso (nauseosus), se he forte, e o olfacto o naõ pode supportar repetidas vezes, ou quando excita nausa, dores de cabeça, &c. tal he o da arruda, sisymbrium tenuifolium, do helleborro, datura, &c.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
Os sabores das plantas (sapores), saõ summamente variados naõ so nas differentes especies, mas ainda na mesma especie, e no mesmo individuo. Os differentes terrenos, os sitios, e cultura daõ aos fructos da mesma especie gostos bem diversos; huma planta na idade tenra ordinariamente tem hum gosto differente do que tem na idade adulta; o sabor dos fructos differe quasi sempre do que tem o corpo da planta que o produzio, e ainda no mesmo fructo ha sabores bem diversos, como se vê na romaan, pessego e laranja, reconhecendo-se nos bagos daquella e no miolo dos caroços destes hum gosto bem differente do resto do fructo.
Rigorosamente fallando naõ ha no reyno vegetal planta alguma insipida, todas tem hum sabor herbaceo (herbaceus) mais ou menos perceptivel, mais [Página 273] ou menos occulto, segundo os sabores, com que se acha confundido. O sabor herbaceo na murugem v. g. he simplez ou dominante, e se assemelha ao sabor aquoso; nas acelgas e espinafres reconhece-se ser hum tanto composto de principios oleosos e salinos; contudo como as impressoẽs que semelhantes plantas causaõ sobre os organos do gosto saõ muito modicas, e se destinguem pouco das que causa ordinariamente a agoa, daqui procede dizer-se commumente que ellas tem hum sabor insipido ou aquoso (insipidus, s. aquosus), o qual he considerado como a primeira especie de sabor.
[Página 273]A segunda especie de sabor he o azedo (acidus), como o do limaõ, ginja, e groselha: nestes e outros semelhantes fructos o sabor acido esta sempre reunido com huma pequena porçaõ do austero, e nas cerejas, maçaans, amoras, &c esta mais ou menos enfraquecido pela substancia saccharina, que nellas constitue o sabor doce, misto com elle.
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .
Austero ou estyptico (stypticus), he o que se observa nas galhas do carvalho, e na casca das arvores .arvores Acerbo (acerbus), he hum gosto composto de azedo e de estyptico Nota
Esta especie de sabor he ordinariamente confundida pelos
autores com o acido ou com o estyptico.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.
Doce (dulcis), he o que se acha na cana de assucar, na raiz do alcaçûz, no colmo das gramas, nos figos, tamaras, &c.: ordinariamente esta misturado [Página 274] com huma leve acidez, e as vezes taõbem com hum pouco de estypticidade, ou acrimonia, como no polypodio, avenca, feto macho, &c.raiz[Página 274]Salgado (salsus), he o que se observa em algumas plantas maritimas, como nalgumas especies de salsola salicornia.
Amargozo (amarus), ordinariamente esta confundido com o estyptico, acre ou aromatico; na genciana parece ser puro; no rhubarbo he misto com o estyptico; na casca de laranja e limaõ está misto com o aromatico; na curcuma junto com o acre; na assa foetida reunido com o sabor nauseoso; nas terebenthinas e outras substancias resinosas he denominado amargo-balsamico; na chicoria, almeiraõ, dente de leaõ e outras analogas daõ-lhe o nome de amargo-refrigerante, e o que se acha dentro dos caroços e nalgumas pevides he chamado por alguns amargo de amendoa.
Acre ou picante (acris), he o que se acha nos alhos, cebolas, agrioẽs, mastruços, pimentaõ, &c.; ordinariamente esta combinado com outros sabores; na curcuma por ex. esta misto com o amargo, na gengivre com o aromatico, e na polygala senega com o nauseoso.
Aromatico (aromaticus), he hum sabor acre misto com huma substancia de sensaçaõ fragrante; he mais ou menos puro á proporçaõ que o principio aromatico he mais ou menos dominante sobre o acrimonioso, e dahi procede que a canella tem hum sabor aromatico mais puro do que a gengivre. O sabor aromatico acha-se taõbem algumas vezes misto com o amargo, como se vê nas cascas de limaõ e de laranja.
[Página 275] Nauseoso (nauseosus) he acre, misto com hum principio fetido ou
nauseoso Nota
Alguns consideraõ o nauseoso como hum gosto simplez,
e daõ por exemplo o opium, mas esta substancia he hum tanto acre
e amargosa.
Em quanto o numero dos vegetaes geralmente conhecidos foy facil de reter de memoria, ou reduzido somente aos curtos limites de huma materia medica, naõ conhecemos que houvesse destribuiçaõ alguma, que merecesse o nome de systema ou methodo; tal foy o estado da Botanica entre os antigos Gregos e Romanos, e na idade media athe à restauraçaõ das lettras na Europa. Depois desta epoca o numero dos vegetaes conhecidos tendo consideravelmente augmentado, Cesalpino vendo claramente que sem huma disposiçaõ methodica senaõ podia adiantar o estudo dos entes do reyno vegetal, imaginou hum systema, com que os tirou do informe cahos em que jaziaõ; outros sabios seguiraõ depois o seu exemplo, e hoje os systemas em Botanica saõ de huma necessidade absoluta.
A Botanica no estado actual, em que se acha, naõ so costuma tractar dos termos technicos, que conduzem a fazer conhecer hum vegetal por meyo deste ou daquelle systema, mas igualmente ensina em geral o que he hum systema ou methodo Botanico, [Página 277] e como elle se costuma destribuir segundo as regras da boa critica. Estas relaçoẽs e partes didacticas parecem ser inseparaveis em qualquer bom tractado elementar desta sciencia; porque se hum verdadeiro Botanico naõ somente se deve achar em estado de poder entender todos os systemas relativos aos vegetaes, mas taõbem de poder traçar novos; a Botanica por conseguinte deve naõ menos empregarse no que contribue a comprehendelos do que a formalos.
Hum systema ou methodo em Botanica (systema, s. methodus) he hum corpo de
doutrina composto de certo numero de generos supremos, e subalternos que
conduzem gradativamente ao destincto conhecimento das especies vegetaes. Os
generos supremos saõ chamados classes; os subalternos ordinariamente saõ
dois, huns medios chamados ordens, e outros infimos denominados simplezmente
generos; estes ultimos contem as especies, e estas as suas variedades. Em
certo modo hum systema pode comparar-se Nota
Esta comparaçaõ, ainda que naõ
he em tudo exacta, naõ deixa contudo de contribuir para fazer conhecer a
progressaõ das destribuiçoẽs dos systemas.
Mas para proceder com mais clareza, e dar ideas mais exactas dos systemas
Botanicos, devo advertir que todos os que athe agora se tem imaginado podem
ser reduzidos a tres sortes, a saber, systemas naturaes, artificiaes, e
mixtos de naturaes e artificiaes. No systema natural Nota
Este methodo
he chamado natural por conservar as affinidades das plantas do modo
que a natureza nolas prezenta aos olhos; mas nenhum dos que athe
agora se tem publicado he livre de defeitos, nem merece no rigor do
termo o home de methodo da natureza. Os me thodos e systemas, diz
acertadamente M. de la Mark, saõ como os nomes, nem huns nem outros
se achaõ naturalmente nas plantas.Nota
Esta clave dos systemas naturaes deve ser o catalogo
dos titulos das familias naturaes; mas ordinariamente como as
familias saõ numerosas os systematicos Naturistas por querer
simplilicala e abbreviala, reunem as classes naturaes a hum pequeno
numero de classes primarias, as quaes de ordinario saõ fundadas em
huma so nota caracteristica, e por este modo o seu methodo vem a
ficar mixto.Nota
A
clave de qualquer systema, segundo alguns botanicos, he
rigorosamente huma tabella synoptica, e requer esta condiçaõ para
ser boa; mas se o numero das classes he pequeno, a clave pode ser
facil sem ser distribuida synopticamente.Nota
Este systema naõ he puramente artificial, o seu Autor
trabalhou primeiramente nos generos, a que chama naturaes, e depois
servio-se delles empregando-os em classes e ordens artificiaes;
donde nasce hum dos grandes defeitos do dicto systema, havendo
muitos generos, cujas especies naõ tem geralmente o caracter da
ordem ou da classe, e ás vezes mesmo nem o da classe nem o da ordem
(como v. g. o polygonum persicaria.) Alem disso a classe cryptogamia
naõ tem relaçaõ com as demais; os caracteros naõ saõ tirados dos
organos sexuaes, nesta classe, e algumas das suas ordens saõ
proprias de hum methodo natural.
O methodo synthetico he o que conserva mais as affinidades, e o que se chega mais à natureza, mas as suas divisoẽs saõ sujeitas a serem longas e difficeis; nos seus titulos parece haver falta de nexo, os caracteres dos generos parecem obscuros e confusos; as razoẽs de affinidade saõ tiradas de muitas partes, e jamais de huma so ou de poucas, donde resulta que elle so costuma agradar aos que estaõ ja adiantados em Botanica. O methodo analytico ou artificial he opposto à natureza, dissolve e sacrifica ás suas leys as affinidades, e as plantas de huma classe ou ordem natural se achaõ nelle misturadas com as da artificial ou arbitraria. Sem embargo disto, he o mais simplez e facil, serve de hum grande soccorro á memoria e conduz ao conhecimento das plantas por hum caminho plano e abbreviado. Por esta razaõ, e porque as suas divisoẽs genericas saõ estabelecidas sobre o exame de huma das partes das plantas, e agrada mais aos principiantes (que naõ gostaõ nem entendem ordinariamente as grandes combinaçoẽs de caracteres) sem deixar contudo de agradar taõbem e de ser bastantemente util ainda mesmo aos Botanicos consumados; mas para agradar a estes he precião que elle guarde exactamente as suas leys.
[Página 281]Ha taõbem huma sorte de distribuiçaõ analytica chamada synoptica (divisio
synoptica, s. synopsis), que consta de divisoẽs semelhantes ás ramificaçoẽs
das taboas genealogiças, mais ou menos longas, mais ou menos numerosas, sem
limites certos genericos, ou sem se limitarem a classes, ordens, generos e
especies, como as dos systemas ou methodos artificiaes ordinarios. Linneo Nota
Lin. Phil. Botan. n. 153 et 154.Nota
A destribuiçaõ synoptica he taõbem empregada na clave dos
systemos para facilitar a achar as classes.
Todos os methodos e systemas que athe agora se tem imaginado em Botanica saõ mais ou menos defeituosos, e naõ me parece possivel que possa haver algum sem imperfeiçoẽs. Alguns Botanicos saõ de parecer que todos os entes do reino vegetal, que se achaõ proxima, ou remotamente dispersos sobre a face do nosso Globo, formao entre si huma cadea, e fazem parte de hum todo progressivo; que cada individuo pertence a esta cadea em geral, e ao mesmo tempo em particular a huma especie, as especies a generos naturaes, estes a familias naturaes, e que estas familias formaõ gradativamente hum todo encadeado que constitue à clave do verdadeiro methodo natural, em cuja investigaçaõ se devem occupar todos os botanicos, por naõ haver outro na natureza. Elles accrescentaõ que este methodo fora traçado pelo Autor da natureza, cuja profunda sabedoria vinculou todos os entes do universo huns com os outros, e cada hum delles com o todo; que se por ora o naõ podemos plena e perfeitamente perceber, o descobriremos quando tivermos as descripçoes de todas as plantas, que ha no [Página 283] globo terrestre; que prezentemente basta para nos convencer disto observar a gradaçaõ das plantas imperfeitas ás perfeitas, e os fragmentos do dicto methodo natural assaz bem reconhecidos nas familias naturaes das gramas, labiadas, leguminosas, umbrelladas, cruciferas, e algumas outras de que tractaõ os systemas naturaes, os quaes segundo elles naõ saõ outra coiza mais do que pequenos esforços que dirigem a descobrir o verdadeiro methodo natural. Contudo na opiniaõ de outros Botanicos semelhante methodo he o mesmo que a pedra philosophica: admittindo, dizem elles, que senaõ tenhaõ perdido especies nas vastas inundaçoẽs, volcanos e outras revoluçoes do nosso Globo, e que os entes do todo o reyno vegetal se achem encadeados huns com os outros, e cada hum delles com o todo, nem porisso podemos esperar de chegar a ter esse perfeito methodo denominado o unico da natureza; antes pelo contrario isso mesmo parece opporse a obtelo. Essa cadea, ou laço com que os entes vegetaes saõ viculados, naõ saõ outra coiza mais do que as suas affinidades; ora estas affinidades, seraõ sempre irremediaveis obstaculos á perfeiçaõ de qualquer methodo ou systema.
A progressaõ das affinidades, em qualquer me thodo que se pode idear, ou he
synthetica ou anaIytica, em linha de ascenso ou de descenso: a progressaõ
analytica naõ pode ter lugar em hum methodo natural, e a synthetica sera
sempre insufficiente á sua perfeiçaõ. Na supposiçaõ dada, a natureza poz
laços naõ equivocos entre todos os entes vegetaes: por conseguinte naõ poz
balizas nas classes nem em generos alguns, e os seus limites seraõ sempre [Página 284] inconstantes. Se olhamos attentamente para cada hum dos caractéres das
plantas de classes assaz analogaa entre si, e denominadas naturaes, vemos
que posto que existem na maior parte dellas, faltaõ contudo em algumas, que
saõ muito poucas as que tem todos os caracteres constantemente O
lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as
plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla
alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as
labiadas, tem a corolla de hum so labio. As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia
natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames
senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes
Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados
como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha
tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos
pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a
vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim,
ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha
plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto
ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum,
phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.Nota
Sem embargo de que este ultimo sentimento seja assaz provavel, contudo naõ se
segue que devamos abandonar inteiramente o projecto de trabalhar em hum
methodo natural o mais perfeito que nos for possivel. Todos os grandes
Botanicos saõ deste parecer Nota
Haller, Adanson, Jussieu, e Linneo saõ
entre os modernos os que fizeraõ as melhores tentativas, que dirigem a
este methodo; mas desgraçadamente naõ saõ inteirameite concordes nas
metas e generos das suas familias naturaes.
Naõ se segue igualmente que devamos desterrar de Botanica qualquer sorte de systema artificial, e que devamos so occuparnos em fazer methodos naturaes que conduzaõ à perfeiçaõ do methodo dezejado. Os principiantes naõ podem passar sem hum systema artificial, elles naõ se embaraçaõ com affinidades, nem com gradaçoẽs naturaes, e so dezejaõ saber por meyo de poucas operaçoẽs o nome da planta, que encontraõ misturada com outros individios numerosos [Página 286] e de formas differentes. Pelo que sera sempre necessario nas escolas naõ empregar outra sorte de systemas para os introduzir ao estudo de Botanica. Os diversos systemas artificiaes foraõ a causa do progresso que tem feito a Bolanica; cada systematico foy obrigado a observar de novo todos os vegetaes ja observados, a verificar os caracteres conhecidos, e a forcejar por descobrir outros adequados ao seu systema; donde resultou que muitas partes e notas caracteristicas, que dantes tinhaõ sido desprezadas, foraõ bem descriptas, contribuiraõ para melhor fazer reconhecer as affinidades, e enriqueceraõ a Botanica. Os systemas analyticos asem de contribuirem para o adiantamento da Botanica seraõ sempre huns catalogos judiciozos e uteis, pela sua simplicidade, pela brevidade das suas gradaçoẽs, e por ajuntarem os materiaes destinados á construcçaõ de hum bom methodo natural, os quaes hum genio feliz enriquecido de observaçoẽs podera algum dia vir a por em execuçaõ; e ainda mesmo no cazo de termos hum bom methodo natural naõ deixaraõ de servir de ajudarnos juntamente com elle para achar os nomes das plantas com maior certeza e segurança. Eu naõ sou do parecer dos que dizem que basta que haja hum so systema artificial em Botanica, e que os Botanicos deveraõ cuidar em aperfeiçoar hum dos que existem e seguilo geralmente, abando nados todos os outros, por mais aperfeiçoado que seja hum systema artificial tera sempre seus lugares obscuros, seus lados fracos, e naõ sera izento de difficuldades. Nem sempre as partes, que vemos em huma planta, que queremos conhecer, saõ as que servem de fundamento ao systema que seguimos; as [Página 287] que nos podiaõ servir, muitas vezes naõ se achaõ em madureza, ou tem passado; contudo as dictas partes que vemos saõ assaz sufficientes em outro systema para nos fazer conhecer a planta. As notas caracteristicas de hum genero saõ muitas vezes assaz custosas de se perceberem por hum systema, ao mesmo tempo que os caracteres do mesmo genero saõ bastantemente claros e faceis em outro systema. Hum estame abortado, ou supranumerario basta para embaraçar os que usaõ de hum systema sexual, e naõ sabem valerse de outro; em summa, as difficuldades que se achaõ em hum systema podem vencerse com o uso de muitos juntos. Donde resulta, que sem embargo de que demos a preferencia a hum systema, naõ devemos deprezar os mais, principalmente se elles seguem exactamente as suas leys, e saõ formados segundo as regras da boa critica.
Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente. Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes. As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.
[Página 288] Huma classe (classis), no parecer dos Botanicos modernos, he hum
aggregado de muitos generos medios conformes nas partes da fructificaçaõ Nota
Alguns Botanicos modernos saõ de parecer que as classes naturaes
devem tirar os seus caracteres naõ so da fructificaçaõ, mas
ainda de todo o habito externo, e da mesma sorte os generos
infimos, como depois exporei mais extensamente.
As classes humas saõ naturaes outras artificiaes. As naturaes saõ formadas syntheticamente, e constaõ de muitos generos
naturaes Nota
Eu naõ me embaraço aqui com a grande questaõ dos naturalistas, se
ha ou na naõ generos naturaes, e tomo os termos na accepçaõ, em
que Linneo os tomou, segundo a qual hum genero natural he hum
aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural. Nota
Esta circumstancia he rara, e so tem lugar quando huma familia
natural succede ter entre as muitas notas caracteristicas huma
essensial e perpetua, da qual o systema artifcial ou mixto se
vale para fundar huma classe, como se vê na Monadelphia de
Linneo.
As ordens, como subdivisoẽs das classes, devem seguir a sua formalidade
methodica; por conseguinte as das classes naturaes devem ser fundadas em
muitas notas caracteristicas, e as das artificiaes em huma so Nota
Ha alguns methodos denominados naturaes, que devem ser con
siderados como mixtos; nelles ha duas, ou tres sortes de
classes, como he por ex. o do Dr. Jussieu, as primeiras, e as
vezes as segundas quando ha tres sortes de classes,
rigorosamente saõ artificiaes, e as ultimas subalternas, a que
os seus autores chamaõ ordens, saõ as que verdadeiramente
merecem o nome de classes naturaes. Muitas das ordens, que Linneo nos deixou nos seus Fragmenta
Methodi Naturalis, devem taõbem ser consideradas como classes
naturaes ou fragmentos dellas. Daqui se pode colligir que hum verdadeiro methodo natural, que
seguir as suas leys com exactidaõ, deve constar de hum grande
numero de classes, e que no dicto methodo ha bastante
difficuldade em formar devidamente as ordens. Os autores de methodos naturaes, que estabelecerem as classes em
muitos caracteres e fundarem as ordens em hum so, faltaraõ as
leys da uniformidade methodica, pela razaõ de que os seus
generos medios naõ ficaraõ uniformes aos infimos e supremos, e
se assemelharaõ ás ordens artificiaes.
Alguns Botanicos costumavaõ dividir em duas grandes classes primarias
todos os entes do reyno vegetal, a saber, em plantas herbaceas e
lenhosas, ou em hervas e arvores ; mas a doutrina da fructificaçaõ fez
abolir esta sorte de distribuiçaõ primaria que parecia pertencer mais
aos troncos Nota
Esta divisaõ naõ me parece ter sido fundada em nota alguma
constante; porquanto vemos hervas annuaes e biennaes que tem o
tronco de huma consistencia lenhosa; sabemos que a mesma especie
de planta pode ser berbacea na Europa, e lenhosa na America; que
ha hervas que saõ mais altas do que as arvores ; e ainda mesmo a
presença dos gomos he insufficiente, porque na Europa ha arvores que naõ tem gomos, como os naõ tem taõbem as dos paizes situados
debaxo da Zona Torrida. Nota
Quando as hervas, arbustos, e arvores parecem formar huma gradaçaõ de
menor a maior nas especies do mesmo genero infimo, pode-se sem
duvida fundar nellas huma distribuiçaõ; mas esta distribuiçaõ he
so parcial, e naõ a de que fallo presentemente.
Nos systemas artificiaes e mixtos quanto mais [Página 291] longas saõ as classes, tanto mais oppostas saõ á natureza, e difficultozas, como saõ por exemplo a Pentandria e Syngenesia do systema de Linneo, e porisso alguns Botanicos lhes preferem o uso das taboas synopticas que observaõ fielmente as suas leys methodicas. As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos. Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade.
Todas as ideas precedentes saõ relativas á disposiçaõ das classes e
ordens. Quanto á sua denominaçaõ, devo advertir primeiramente que os nomes que ha
em Botanica podem ser reduzidos a duas sortes ou technicos ou
systematicos. Os nomes technicos saõ os que servem para descrever todas as partes dos
vegetaes, elles devem ser immutaveis em todos os systemas, e formar a
linguagem da Botanica Nota
Desgradaçamente nos naõ temos ainda hum bom tractado elementar
que fixe a accepçaõ de todos estes termos; alguns delles saõ
obscuros por se naõ acharem ainda definidos, e outros em
prejuizo do progresso da Botanica tem accepçoẽs inconstantes
segundo as differentes opinioẽ se caprichos dos systematicos, ou segundo as differentes partes a
que saõ applicados; o que he defeituoso, porque nas sciencias
vale mais usar de muitos termos ou de periphrases, do que de
equivocos; à força de querer-mos muito abbreviar, confundimos;
os termos imbricatus, nudus, simplex, &c. saõ disto huma
evidente prova; hum mesmo termo devera sempre ter a mesma
accepçaõ, quer fosse applicado à raiz , quer as folhas , flores,
fructos, &c. Nota
Os nomes dos generos infimos saõ menos sujeitos a mudancas do que
os das ordens e classes. Os nomes das especies, ou saõ triviaes, ou differenciaes
especificos aggregados em huma phrase; huns e outros saõ
sujeitos a mudança no cazo que se descubraõ novas especies, ou
as descobertas, e ja conhecidas se mudem para outros generos; os
triviaes contudo podiaõ, como direi em outro tractado, ser
fixados como os technicos e servir a todos os systemas; deste
modo somente as phrases especificas, e os nomes genericos
intimos e simperiores ficariaõ sujeitos ás mudanças
systematicas.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes. Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.
Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c. De mais disso naõ so devem ser tirados das partes da fructificaçaõ, mas devem taõbem ser fundados em huma nota caracteristica essensial, como saõ por ex. os titulos de cruciformes, siliquosas, papilionaceas, leguminosas, &c.
Cada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.
Alguns Botanicos costumaõ dar a huma familia ou classe natural o nome de
hum genero infimo mais conhecido na dicta familia ou classe, pondo o
dicto nome no plural, dizendo, V. g. as abobaras, as açucenas, as
malvas, &c. ou usaõ de hum termo derivado do nome dos, dictos
generos infimos, dizendo v. g. as cucurbitaceas, as liliaceas, as
malvaceas, &c. Estes titulos saõ proprios dos methodos naturaes, e se achaõ as vezes
taõbem nos systemas mixtos Nota
Como saõ v. g. os titulos das familias da cryptogamia de Linneo
fetos, musgos, algas, e fungos. Nota
Palma, fungus, alga, muscus, filix.
Eu podera tractar aqui ainda de muitas outras circumstancias relativas á boa disposiçaõ e denominaçaõ das classes e ordens; mas como as classes saõ consideradas como generos das ordens, as ordens como generos dos generos infimos, e por conseguinte sujeitas quasi em tudo às mesmas regras methodicas destes ultimos, o leitor entendera facilmente o que falta aqui pelo que direi no capitulo seguinte.
[Página 295]Os generos, como ja adverti, huns saõ superiores outros infimos; no capitulo precedente dei as noçoẽs geraes relativas aos superiores, restame illuminar estas noçoẽs por meyo de huma mais extensa theoria, ou pelas leys didacticas dos generos infimos, que devem fazer o objecto do prezente capitulo.
Hum genero infimo (genus), segundo alguns Botanicos he hum aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural fundado na fructificaçaõ; mas como ha muitos generos infimos que constaõ de huma so especie, outros pensaõ que hum genero infimo naõ he outra coiza mais do que huma divisaõ systematica que comprehende debaxo de huma palavra e caracter, muitas especies de plantas conformes na fructificaçaõ, ou huma so de fructificaçaõ desconforme das especies vizinhas. Esta ultima definiçaõ naõ agrada contudo geralmente, querendo alguns que a conformidade ou desconformidade deve consistir naõ so na fructificaçaõ, mas nas mais partes relativas ao habito externo, e outros accrescentaõ que he improprio dizer que os generos infimos saõ huma divisaõ systematica, quando todos saõ huma obra da natureza, assim como as especies.
Todas estas ideas tem por objecto as duas mais famosas questoẽs debatidas em Botanica: 1º se os caracteres genericos devem somente ser tirados das [Página 296] partes da fructificaçaõ, excluidas todas as mais do habito externo? 2º. Se todos os generos saõ arbitrarios, ou se ha alguns que sejaõ obra da natureza, como são todas as especies?
Gesnero, Cesalpino, Columna e outros foraõ de opiniaõ que os generos somente
deviaõ ser estabele cidos sobre as partes da fructificaçaõ; Linneo seguio
este parecer, e a sua grave authoridade o fez seguir por hum grande numero
de modernos, mas nem todos adoptaraõ este sentimento, elles opposeraõ a esta
theoria o exemplo dos zoologistas, que no reyno animal omittem
ordinariamente os caracteres que a natureza poz nos genitaes, e julgaõ
sufficientes os que se deduzem dos outros organos. Opposeraõ demais disso
que os organos sexuaes e outras partes da fructificaçaõ dos vegetaes, a
que se dava a prerogativa, naõ lhes eraõ mais essensiaes do que aquellas
em que residia a sua vida, como a casca e medulla; que haviaõ muitas
plantas, principalmente cryptogamicas, em que as partes da fructificaçaõ
eraõ muito pouco apparentes, incommodas, e insufficientes para nellas se
estabelecer bons destinctivos genericos, os quaes pelo contrario se
achavaõ nas outras partes e que por conseguinte se devia recorrer a
ellas; que os caracteres habituaes bastavaõ muitas vezes sem a inspecçaõ
da flor para determinar a familia (a que pertencia hum individuo) e
algumas vezes taõbem o seu genero; que era muito util em hum methodo
natural, e em medecina reconhecer, as plantas sem flor, porque esta era
muito menos duravel do que as mais partes, e que por conseguinte os
caracteres fundados nestas partes valiaõ mais neste respeito [Página 297] do que os da fructificaçaõ; que naõ se devia desprezar parte alguma
dos vegetaes, porque todas contribuiaõ a fazelos reconhecer com mais
certeza; que a theoria da fructificaçaõ desprezadora do habito externo Nota
O habito externo neste sentido indica todas as partes de hum
vegetal que naõ pertencem à flor e fructo; de modo que as
bractéas e pedunculos fazem já parte do habito externo.
Quanto à segunda questaõ, Linneo e outros modernos saõ de parecer que todos
os generos saõ naturaes, que naõ saõ obra da arte, mas sim do Autor da
natureza, que os formou nos primitivos dias do globo terrestre, e que por
conseguinte senaõ devem deslacerar, ampliar, contrahir como cada hum quizer
ou conforme a theoria de qualquer Botanico; daõ por ex. os generos
ranunculus, acónitum, nigella, claytonia, passiflora, hybiscus, e outros
semelhantes, que bem examinados parecem indicar que os vegetaes foraõ
formados no principio huns segundo a forma dos outros. Esta opiniaõ tem
contra si a autoridade de muitos celebres Naturalistas e Botanicos Nota
O
Conde de Buffon, o Dr. Daubenton, Oeder, La Mark, &c.Nota
A natureza, diz o Conde
de Buffon, caminha a occultos passos; naõ se sobmette a nossas divisoẽs,
antes parece zombar dellas; passa de especie em especie, e às vezes de
genero a genero por modos imperceptiveis, e porisso se achaõ muitas
vezes especies, que saõ como hum genero intermedio, ou passagem das do
anteoedente ao subsequente: esta he a principal razaõ porque he
impossivel de formar hum perfeito methodo ou systema geral de toda a
Histotia Natural, e ainda mesmo das suas partes.Nota
Vej. as primeiras ediçoẽs do seu Genera plantarum, aonde
consulta os Botanicos a respeito da reuniaõ das especies destes e outros
generos.Nota
Ha especies (diz Mr. de la Mark,
Flor. Franc. vol. 1.) que sendo como gradaçoẽs naõ pertencem nem a hum
nem a outro genero vizinho, sem embargo de serem inclusas em hum delles.
Talvez virá tempo, em que, deseobertas todas as plantas que ha no nosso
Globo, cada genero fique so com huma espeoe, e cada especie com tantas
variedades, quantos forem os individuos. Entre os generos, que Linneo
formou, ha mais de quatro centos que tem so huma especie, elle se vio
obrigado algumas vezes por novas observaçoẽs a mudar muitas especies dos
generos em que dantes as tinha posto, e se hoje fosse vivo, e quizesse
attender ainda às que naõ tem o caracter do seu genero, e às que naõ
seguem as leys da classe e ordem em que estaõ postas, talvez naõ
deixaria de fazer bastantes mudanças.
Taes saõ as principaes reflexoẽs que se costumaõ de ordinario oppor ao parecer de Linneo, e dos que seguem que todos os generos saõ naturaes, mas ainda que dellas resuste que todos os generos tem limites arbitrarios, e que neste sentido naõ merecem rigorosamente o nome de naturaes, contudo como algumas vezes penetramos felismente as verdadeiras affinidades de hum certo numero de especies [Página 305] vegetaes, e formamos generos e familias de antes assaz analogos na sua estructura natural quando isto tem lugar parece me que semelhantes generos e familias podem conservar a denominaçaõ de naturaes em huma accepçaõ menos rigorosa, pela razaõ das suas especies terem entre si huma intima semelhança natural, reconhecida por todos os Botanicos.
Sendo os generos infimos huma divisaõ systematica, que comprehende, debaxo de hum caracter e palavra, huma ou mais especies, do modo que acima expuz, he precizo explicar o que os Botanicos entendem por caracteres genericos e as suas leys didacticas, sem desprezar as que respeitaõ às denominaçoẽs de cada genero.
O caracter de hum genero (character) he a sua definiçaõ, ou qualquer idea
geral deduzida de huma ou de muitas notas, capaz de bem o destinguir de
qualquer outro. Segundo Linneo ha quatro sortes de caracteres genericos, a
saber, o habitual, facticio, essensial e natural. O caracter habitual he
tirado das notas do habito externo, e exprime huma conformidade geral
nas partes vegetaes, que naõ dizem respeito à fructificaçaõ; os antigos
costumavaõ servir se desta sorte de caracter Nota
Elles comprehendiaõ neste caraeter todas as partes das plantas,
ainda mesmo as fiores e fructos, e reconheciaõ às vezes as
affinidades das congeneres melhor do que alguns systematicos; os
hervolarios ainda hoje, somente por meyo do habito externo,
sabem destinguir hum grande numero de plantas. Nota
Alguns Botanicos modernos, como ja disse, saõ de opiniaõ que
aindaque senaõ deva preferir o caracter habitual a todo o que he
tirado da fructificaçaõ, se podem contudo ajuntar a este algumas
notas tiradas, do habito externo para mais o facilitar e tornar
seguro. Nota
Todos os caracteres genericos abbreviados que se achaõ no Systema
Vegetabilium de Linneo ou saõ essensiaes ou facticios. Nota
Linneo foy o primeiro que ideou caracteres naturaes, e os
publicos no seu Genera plantarum, saõ o fundamento dos generos,
no seu parecer, mas rigorocamente o fundamento dos generos he o
caracter natural de cada especie considerado separadamente.
AÇUCENA Nota
Lilium. A traducçaõ, que dou aqui ao publico do caracter generico
natural da Açucena, podia ser menos concisa; mas os que conhecem
o quanto a lingua Portuguesa se chega à matema latina, tanto no
didactico como em qualquer outro estylo, certamente naõ me
notaraõ aqui de ousado: aproveitei-me do favor que o seu proprio
genio me offereceo.
Calyz. Nullo.
Corolla. De seis petalas, campanulada, e estreitada na parte inferior. Pecalas levantadas, encostadas humas as outras, com huma quilha obtusa no dorso, mais largas e mais patentes na parte superior as suas pontas saõ obtusas, grossas, e recurvadas para fora.
O Nectario: he hum rego longitudinal, que se acha gravado em cáda huma das petalas, do meyo para baxo.
[Página 308]Estames. Seis filetes, assovelados, levantados, e mais curtos do que a corolla. Antheras oblongas, e vacillantes.
Pistillo. O germe oblongo, hum tanto cylindrico o com seis estrias. O estylete cylindrico, e do comprimento da corolla. O estigma hum tanto mais grosso do que o estylete, e triangular.
Pericarpo. Huma capsula oblonga, e com seis regos; obtusa, concava, e trigòna, no cume; composta de tres cellulas, e tres valvulas, reunidas com pelos tecidos em grade.
Sementes. Saõ numerosas, encostadas em duas ordens, chatas, e semi circulares pelo lado externo.
N. B. As petalas em algumas especies tem as pontas nimiamente recurvadas de modo que ficam encaracolladas: O nectario em algumas especies he acompanhado de felpa, e em outras glabro.
[Página 309]Todos os caracteres genericos devem, segundo Linneo, ser tirados do numero,
figura, proporção e situaçaõ de todas as partes da fructificaçaõ. Quanto as
mais partes, que constituem o habito externo da planta, o seu parecer foy,
que postoque se deviaõ passar em silencio, mereciaõ sempre de ser bem
observadas e attendidas por naõ multiplicarmos os generos por leves causas,
e nos arriscarmos a fazer generos erroneos. Na formaçaõ dos caracteres
devemSe examinar em todas as especies anasogas todas as partes da
fructificaçaõ, ainda as mais miudas, e as que escapaõ á vista, ou precizaõ
de lente para serem observadas; devem se considerar as notas em que ellas
convem e desconvem, combinar a primeira especie com todas as mais, e todas
com a primeira, porque naõ ha caracter infallivel sem primeiramente ser
conferido e verificado em todas as especies. Na formaçaõ do caracter
natural devem-se somente mencionar as notas em que convem todas as
especies, e excluir como superfluas aquellas em que as dictas especies
desconvem; estas notas devem ser desertptas com termos technicos Nota
Demais disso devem ser escritas em difterentes paragraphos,
segundo as differentes partes da fructificaçaõ, e ter por titulo
em cima o nome do genero, como se vè no exemplo dado do caracter
generico da Açucena. Nota
Os termos tirados de semelhanças sempre presuppoem ideas claras
do primeiro simile, que nem todos podem ter, e porisso se devem
evitar o mais que for possivel; devem-se contudo exceptuar os
que se achaõ bem defindos, e adoptados pela arte, ou tirados
decentemente das partes externas do corpo humano, como dedo,
maõ, orelha, etc. Quanto aos obscenos deduzidos de vulva, penis, scrotum,
praeputium, testiculi, &c. devemos evitalos, ou para melhor
dizer abolilos inteiramente em Botanica, porque temos outros que
podem explicar sufficientemente as mesmas ideas sem ferir a
modestia. A Botanica he hoje cultivada por muitas pessoas modestas de hum e
outros sexo, que naõ podem tolerar semelhante abuso; elle teve
origem no pessimo gosto de alguns medicos dos seculos passados e
principio deste, os quaes por toda a parte naõ viaõ senaõ
objectos e termos anatomicos ainda os mais obscenos e sordidos;
a Botanica que elles sós professavaõ naõ podia escapar a esta
corrupçaõ, e com aquella mesma frivolidade, com que os
applicavaõ a mais nobre entranha do homem (testes enim et nates
cerebro tribuerunt) os applicaraõ taõbem ás mais bellas partes
dos vegetaes. Linneo adoptou este mesmo gosto de termos, e com razaõ o Dr.
Boehmer e outros modernos o censuraõ de os ter muitas vezes
prodigalizado; porquanto podramos muito bem passar na descripcaõ
das escamas cordiformes, e convergentes das sementes do
melampodium sem os termos de formam vulvae, sem o de calyx
peniformis no caracter especifico da datura metel, sem o do
receptaculo elongato in praeputium no fructo do teixo, sem o de
capsula scrotiformis no fructo da mercurial, &c. &c. Nota
Linneo (Phil. Bot. p. 123 diz que todas as vezes que em huma
planta as flores diversificaõ no numero das suas partes, so se deve
attender ao da primeira flor, isto he, ao das flores terminaes, e
porisso classou a ruta, chrysosptenium, monotropa, tetragonia, evonymus,
philadelphus, e adoxa em classes ou ordens contrarias ás que indica o
namero dos organos sexuaes das flores dos lados; mais isto naõ tem sido
adoptado por todos os modernos, e com justo motivo; supponhamos por ex.
que huma planta da quiuze flores, a terminal com cinco estames e todas
as mais que se seguem lateralmente ou desabotoaõ depois, tem todas
quatro estames, se a classamos antes na Pentandria do que na Terrandria,
a flor terminal sendo huma so e dosflorecendo primeiro que todas as
outras porá certamente hum grande obstaculo aos que quizerem achar a
classe da planta pelas fiores fateraes que observaõ, pois lhes he
necessario estar sempre presentes no periodo em que desabotoa &
dicta primeira flor, para poder reconhecer a sua classe; pelo contrario
se a classamos na Tetrandria, ninguem duvida que em todo o tempo em que
ella der flores, todos poderaõ descobrir facilmente a sua classe. He
verdade que a natureza mostra de ordinario nas primeiras fiores todo o
Seu vigor e perfeiçaõ, mas às vezes este vigor passa a ser viço, e por
conseguinte o mais seguro sera sempre guiarmos pela maior parte das
flores, quando quizermos determinar o numero das suas
partes.
A figura da flor he hum guia mais seguro, e mais digno de attender-se em
geral na formaçaõ dos generos do que a do fructo. Sem embargo de que os
antigos parecem ter feito maior cazo da estructura do fructo, contudo
todas as vezes que as flores convem, e os fructos differem (concorrendo
aliás todas as mais condiçoẽs requisitas) em hum certo numero de
especies, todas estas devem ser reunidas Nota
Este parecer he de Linneo, e como o mais methodico e proprio para
evitar multiplicidade de generos fundados em leves motivos,
parece me que devera ser seguido por todos os Botanicos; contudo
o Dr. Jussieu se desviou delle, adoptando a opiniaõ dos antigos,
e desunindo por conseguinte em differentes generos as especies
ou falsos generos, que Linneo tinha reunido em hum so no
rhamnus, pyrus, e prunus, deste modo segundo elle, a pereira,
maceira, e marmeleiro çaõ tres generos, e naõ especies de hum
so. Nota
O Dr. Jussieu e alguns outros modernos querem (contra Linneo) que
as especies de geranium, principalmente em razaõ da regularidade
e irregulidade da corolla, devem ser divididas em dois generos;
mas a anologia das mais partes da fructificaçaõ provaõ a favor
do parecer di Linneo.
As flores viçadas, monstruosas, e mutiladas naõ devem jamais ser fundamento de caracteres genericos, que sò devem ser tirados das flores naturaes. A prole, no cazo de prolificaçaõ, nos fara reconhecer o estado de viço; o calyz, e ultima ordem de petalas podem contribuir para dar-nos idea do estado de huma flor viçada, mas para melhor o reconhecer-mos sera precizo semear ou transplantar a planta viçada no seu terreno natural ou em hum chaõ magro. O calyz he menos sujeito a viço do que os estames e corolla, e os estames menos sujeitos a elle do que as petalas. O nectario, aindaque em algumas flores he sujeito a viçar, naõ deixa contudo de ser hum bom fundamento de caracteres genericos.
Pode haver huma nota singular commua a muitas especies, mas nem porisso se segue que devaõ sempre pertencer a hum so genero; pelo contrario, pode haver na maior parte das espocies de hum genero huma nota singular, que falte nas outras taõbem proprias do dicto genero, e naõ se segue porisso que se devaõ desmembrar, e com ellas constituir dois generos. [Página 313] Nestas circunstancias he precizo attender muito a analogia de todas as partes da fructificaçaõ, sem desprezar contudo o habito externo, e ter sempre presentes estas leys fundamentaes "que naõ se devem reunir plantas que convem so em poucas notas, sendo aliás muito dessemelhantes em todas as mais; nem taõbem que huma planta se deve separar das suas analogas em razaõ de huma nota, quando aliàs convem com ellas em todas as mais ou na maior parte."
No catalogo dos generos de huma ordem ou divisaõ systematica, deve haver cuidado de dispor proximos huns aos outros os que tem mais affinidade entre si, porque esta disposiçaõ naõ so facilita a achar os nomes das especies, mas presenta taõbem commodamente ao leytor as ideas de anologia, e encadeamento dos generos huns com outros, as quaes lhe saõ muitas vezes necessarias.
Tenho exposto em geral o que pertence às leys didacticas de huma disposiçaõ generica, restame tractar das que dizem respeito à denominaçaõ. Depois que hum Botanico descobrio ou formou hum genero, ou depois que observou que hum certo numero de especies convinhaõ no mesmo caracter natural, e por conseguinte pertenciaõ a hum so genero, segue-se imporlhe o nome. Este nome he chamado generico por ser geral e commum a muitas especies, ou idoneo a se lo no cazo que o genero tenha huma so especie; poem-se como titulo sobre huma descripçaõ generica ou caracter natural do genero, e se costuma taõbem pôr antes de qualquer nome trivial ou phrase especifica. Portanto todas as [Página 314] especies que convem no mesmo caracter generico, ou que formaõ hum so e mesmo genero, devem ter hum so e mesmo nome generico, e por conseguinte as que differem em genero devem ter hum nome generico differente.
Como o idioma universal, de que se servem os Botanicos, he o latino, o leytor entendera facilmente que eu somente me occuparei aqui em mencionar as regras relativas aos nomes genericos escriptos em latim, as quaes ce podem reduzir às seguintes.
Todo o nome generico genuino deve convir com igual propriedade a qualquer das
especies; a sua significaçam ou idea etymologica nam deve ser adequada a
humas especies e inadequada as outras congéneres: porisso os melhores nomes
genericos sam aquelles, cuja etymologia he desconhecida, ou cuja
significaçam nam allude á estructura, propriedades, usos vegetaes, &c.
mas so serve de conservar a memoria de alguma personagem benemerita
principalmente dos grandes Botanicos, e dos que se assinalaram em
protegelos, ou em promover a Botanica. Segundo Linneo os nomes genericos,
cuja significaçaõ envolve hum caracter essensial, ou hum destinctivo
habitual, podem ser considerados no numero dos melhores, taes como v. v.
o de adenanthera, e glycyrrhiza, o primeiro indicando o caracter
essensial de hum genero, cujas especies tem todas huma glandula nas antheras , e
o segundo indicando o destinctivo habitual de outro, cujas especies tem
todas a raiz doce: mas na supposiçaõ Nota
Esta hypòthese
he assaz possivel e conforme à doutrina de Linneo, que confessa que
hum caracter essensial pode deixar de o ser, descobertas novas
especies, e que huma nota singular pode convir ora a muitos generos,
ora somente á maior parte das especies de hum so genero. Vej. Phil.
Bot. de Charact.Nota
Chrysanthemum v. g. significa
etymologicamente flor cor d'oiro mas como a especie leucathemum he
hranca, se confiamos na etymologia, diremos: flor cor d'oiro branca,
o que he absurdo.
Donde se segue que senaõ devem usar nomes genericos fundados em
semelhanças das partes Nota
Principalmente as obscenas, e porisso senaõ devem imitar os
termos phallus, clitoria, orchis, &c.
O nome generico deve ser inteiro e naõ constituido por duas palavras separadas como v. g. dens leonis, porque esta separaçaõ he contraria á facilidade e simplicidade methodica. Linneo he de parecer que os nomes genericos substantivos saõ melhores do que os adjectivos, e que os diminutivos ainda que toleraveis naõ saõ os melhores, mas todos elles me parecem igualmente bons quando convem adequadamente a todas as suas especies, e guardaõ as mais leys necessarias.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto. Os nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies. He pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos. Naõ se devem taõbem formar dos nomes technicos [Página 319] ajuntandolhes huma ou duas syllabas como v. g. terminalia.
Os nomes genericos naõ devem ser escritos com lettras gregas, mas latinas;
naõ devem ser longos, difficeis de pronunciar-se ou malsoantes, como v.
g. callophyllodendron, acrochordodendros, caráxeron, mas curtos Nota
Naõ devem ter mais de doze lettras, segundo Linneo; no meu
parecer, nenhum nome generico ou especifico deve ter mais de cinco
syllabas.
Segundo Linneo os nomes genericos que se achaõ adoptados naõ se devem mudar
por outros mais competentes ou melhores, porque todos os dias achariamos
ainda outros mais adequados e jamais cessariamos de innovalos, se tivessemos
autoridade para isso. Esta idea parece-me ser acertada quanto aos bons
nomes genericos, que hoje se achaõ adoptados, e que [Página 320] competem com igual propriedade a todas as suas respectivas especies;
mas quanto aos que saõ maos ou vierem a selo, naõ vejo razaõ forte que
empeça de mudalos, em hum bom systema de nomenclatura, que fixe os nomes
de todos os vegetaes Nota
Este meu sentimento talves parecera estranho
a alguns Botanicos, mas eu espero de publicar em outro tractado o
modo com que elle se podera pôr em execuçaõ sem os inconvenientes
que se costumaõ commumente objectar.
Cada novo genero deve ter hum novo nome; mas se for preciso partir hum genero antigo em dois ou mais, o nome do antigo ficará, ás especies mais conhecidas, medicinaes, ou ás que melhor competir a sua significaçaõ etymologica, e as de mais especies do dicto antigo genero seraõ destribuidas debaxo de outro nome generico ou formado enteiramente de novo, ou tirado da synonymia das dictas especies, que se devem sempre preferir no cazo que seja bom.
[Página 321]As especies saõ a subdivisaõ do genero, assim como esta subdivide a ordem.
Toda a especie (species) he huma forma vegetal creada nos primitivos dias da
terra pelo Deos da natureza, e conservada em successivas reproducçoẽs de
plantas hermaphroditas, monoicas, dioicas, ou polygamas sempre
essensialmente semelhante. Esta semelhança naõ deve ser tomada em hum
sentido exactissimo, e em todos os accidentes, mas somente na estructura
essensial, porquanto he sujeita a variedades ou a certas differenças
accidentaes e de pouca duraçaõ. Donde se deduz que tantas saõ as formas
essensialmente diversas que hoje vemos, quantas saõ as especies. Estas
formas foraõ dadas no principio aos primeiros individuos de cada especie
juntamente com certas leys generativas; em razaõ destas leys tem sido
conservadas athe agora e seraõ perpetuadas em quanto existir a prole dos
dictos individuos; ellas jazem, pelo assim dizer, potencialmente retractadas
na estructura intima do corculo das suas sementes; este corculo ou conserva
a sua estructura propria e força germinativa, ou naõ; se naõ conserva estas
condiçoẽs perecerá infallivelmente, e se as conserva dara o producto que se
achava retractado na sua intima estructura, isto he, hum individuo que tenha
a mesma forma da planta materna que o gerou. O terreno e algumas outras
causas [Página 322] externas poderaõ fazelo desviar hum pouco da forma costumada, mas elle
seguira sempre as leys da sua estructura essensial ou conservará sempre
sufficientes notas caracteristicas da sua especie original. Se huma
planta por ex. varia nos fructos ou divisaõ das folhas , a forma do tronco, flores, sementes,
&c. apontaraõ a especie a que elle pertence. Donde resulta que podem haver muitas novas variedades, mas naõ especies
novas, nem Nota
As transformaçoẽs das sementes saõ assaz desmentidas pelas razoẽs
mencionadas; alem disso naõ consta que nos jardins Botanicos
aonde ha muitas mil plantas jamais se tenhaõ observado; as
disseminaçoẽs clandestinas e a germinaçaõ das sementes que
estiveraõ alguns annos occultas illesamente debaxo da terra saõ
certamente a causa occasional de semelhantes enganos.
As especies tem seus caracteres, assim como os generos; estes caracteres saõ
chamados especificos: os dos generos devem, segundo Limneo, ser tirados so
das partes da fructificaçaõ, mas os das especies podem ser deduzidos de
todas as partes da planta. Os caracteres especificos saõ de tres sortes ou
essensiaes, ou synopticos, ou naturaes; os dois primeiros presentaõ em huma
phrase (posta depois do nome generico) as principaes notas constantes, pelas
quaes huma planta differe de todas as outras conhecidas no mesmo genero; o
ultimo contem em muitas phrases o de talhe exacto de todas as partes de huma
planta quer seja solitaria no seu genero, quer acompanhada de outras
congeneres conhecidas. O caracter essensial he fundado em huma nota
singular differencial, propria de huma so especie, e enunciada em duas
ou tres [Página 323] palavras, como v.g. tanchagem de hastea uniflora, betula de folhas redondas, e crenuladas;
quando se pode descobrir este caracter, deve-se extinguir o synoptico,
como mais extenso, e se nos o podessemos obter em todas as especies, a
sua brevidade, facilidade e certeza poriaõ certamente a Botanica no seu
summo grao de perfeiçaõ. O caracter synoptico he fundado em huma aggregaçaõ de notas
destributivas, das quaes humas convem ás especies proximas, outras
differem dellas, mas achando-se reunidas em huma somente a fazem
destinguir de todas as mais congeneres conhecidas, como v.g. quando
dizemos: salgueiro de folhas serreadas, glabras, ovadas, agudas, e quasi rentes. Vêse claramente
que este caracter he sempre mais extenso do que o essencial, mas quanto
menos extenso for, tanto melhor sera, contanto que a sua brevidade o naõ
faça ficar insufficiente, defeito que alguns Botanicos notaõ nalguns das
especies do systema de Linneo. Ordinariamente costuma ser annunciado por
doze athe quatorze vocabulos quando muito, e com effeito parece que este
numero he sufficiente aos caracteres synopticos ainda considerados na
sua maior extensaõ; porquanto supponhamos por ex. que hum genero he
vastissimo e consta de cem especies (o que he rarissimo); todas estas
especies por hum methodo synoptico seraõ quando muito divididas 1º em
duas vezes 50 Nota
Se ellas saõ susceptiveis de se dividir 1º. v. g. em tres partes
como 26, 34, 40, he claro que as subdivisoẽs daraõ ainda menos
vocabulos. Nota
Ponho 13 em lugar de 13 mais 12 por evitar prolixidade nas
subdivisoẽs posteriores, entendendo-se facilmente que 13 deve
ser dividido em 7 e 6, e 12 em duas vezes 6 e assim dos
mais. Nota
(N...) lugar do nome generico.Nota
A razaõ que elles costumaõ dar ordinariamente he, que as longas
descripçoẽs saõ fastidiosas e naõ se lêm; mas deveraõ reflectir
que as descripçoẽs breves ou phrases synopticas e essensiaes saõ
sujeitas a mudanças e a serem insufficientes em novos systemas
ou descobertas novas plantas; e que pelo contrario hum caracter
natural especifico bem delineado he immudavel, e como tal se
recorrera sempre a elle, e sera sempre lido por todos os
verdadeiros Botanicos, ainda que o naõ seja pelos que so querem
ter huma noticia superficial de Botanica. Vale mais gastar
muitos annos, e fazer obras solidas do que edificar sobre a area
apressadamente só por granjear em pouco tempo o nome de
architecto. Nota
Como v. g. Mathiola de folhas asperas, hum tanto redondas, e de fructo
denigrido: assim especificada pelo Padre Plumier, celebre
botanico d'Elrey de França no serviço da America. Nota
Como saõ o Species plantarum, e o Systema vegetabilium de
Linneo. Nota
Este caracter como involvendo em si todas as
notas da fructificaçaõ e mais partes do habito externo, satisfaz
completamente a ambas as relaçoẽs de genero e especie, debaxo das
quaes se podem considerar semelhantes plantas solitarias. Eu
tractarei mais particularmente deste sujeito na minha Specinomia
vegetabilium.
As notas differenciaes, em que se costumaõ fundar os caracteres essensial e
synoptico, saõ tiradas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ das partes
constantes ou menos sujeitas a variar. As raizes podem subministrar
excellentes notas destinctivas, mas como ordinariamente senaõ podem metter
nos hervarios, e que para as poder observar he precizo sempre arrancar a
planta, o que senaõ deve fazer nos jardins, naõ devemos recorrer a ellas
senaõ no cazo urgente de naõ ter outros meyos de bem destinguir as especies,
como succede por ex. nas orchideas. Podemos, em lugar dellas, servirnos
dos troncos, ramos, pedunculos, peciolos, e principalmente das folhas , as quaes fornecem
ordinariamente as mais bellas, e naturaes differenças. Os gomos,
bolbilhos sobreradicaes, as armas, bracteas, estipulas, glandulas, e a [Página 328] inflorescencia ou disposiçaõ das flores podem taõbem dar-nos muitas vezes
excellentes sinaes destinctivos. O cotanilho, felpa e pêlos saõ
ordinariamente empregados nos caracteres synopticos como notas
concomitantes; ellas saõ contudo as menos seguras, porque costumaõ
falhar ás vezes em razaõ da cultura, terrenos e idade das plantas Nota
Todas as vezes que os individuos naõ tiverem outra differença
mais do que os pêlos, naõ se devem reputar por differentes especies,
assim o Thymus serpillum e glabrum saõ sò variedades da mesma
especie; a Herniaria glabra e hisurta, de que Linneo fez duas
especies, parecem taõbem ser somente variedades, e talvez ainda
muitas outras.Nota
A viola mirabilis ainda que dá
na primavera flores radicaes petaleadas, como no estio todas as suas
flores caulinas saõ despetaleadas e dellas resulta o fructo, a falta
de corolla foy julgada ser huma excellente nota para a caracterizar
especificamente.Nota
Os sexos separados saõ postos no numero das variedades
naturaes pelos Botanicos modernos. Os antigos antes de Camerario naõ
tendo hum exacto conhecimento dos sexos, davaõ ás vezes o nome de
macho á planta, que pensavaõ ter mais virtude medicinal ou ser mais
vigorosa do que outra intimamente analoga, e esta porisso mesmo que
tinha menos virtude, vigor, ou extensaõ era segundo elles denominada
femea; daqui procederaõ os erros de darem os dictos nomes ás
hermaphroditas, e ás cryptogamicas de sexo obscuro, como v. g.
paeonia mas, paeonia faemina, filix mas, filix faemina, &c, e de
chamarem masculas as que eraõ femininas e vice versâ, como se vê no
canamo e mercurial.
A cor varia muito na mesma especie; a raiz da cenoira ora he
amarella ora vermelha ou branca; as do rabaõ radisio huma vezes he
branca outras denigrida; as folhas da mesma especie de aquifolio, buxo, persicaria,
amarantho papagayo, &c. ora saõ inteiramente verdes ora variegadas;
na faya, na alface e armoles hortense saõ ou verdes ou vermelhas, e nas
couves naõ deixaõ taõbem de haver exemplos de [Página 330] mudança de cor nas folhas . Mas nenhuma parte be mais sujeita a variar de cor na mesma especie do que
a corolla passando ora a cores mixtas ora a cores simplez, de que temos
exemplos nos jacinthos, tulipas, rainunculos Nota
Tournefort contou em huma sò especie de jacintho 36 variedades,
93 em huma especie de tulipa, e mais de 200 em huma de
rainunculo. Nota
Esta regra geral he sujeita a algumas excepçoẽs no parecer de
alguns Botanicos; algumas especies de Lichen e Agaricus segundo
elles, naõ se podem bem destinguir sem empregar os caracteres
fundados nas cores, e as divisoẽs synopticas das especies de
gnaphalium e achillea, fundadas na cor branca e amarella das
flores, saõ bem acertadas, e seguras; elles pensaõ que ha flores
de cores fixas, e muitas que rarissimamente mudaõ de cor; que
por conseguinte naõ ha razaõ sufficiente para naõ as empregarmos
nos caracteres synopticos; segundo elles, Linneo estabeleceo a
este respeito huma regra nimiamente severa, e devera attender
que muitas das notas tiradas da determinaçaõ das folhas , e direcçaõ do
tronco, que elle admittio geralmente como excellentes, saõ
algumas vezes menos seguras do que as cores de algumas flores.
Os cheiros como variaõ segundo os olfactos de differentes individuos, e naõ saõ susceptiveis de se poderem bem definir, naõ podem subministrar destinctivos claros das especies, nem ainda mesmo os que saõ denominados cheiros comparativos ou allusivos aos das plantas mais conhecidas; como v. g. ao do limaõ, herva doce, herva cidreira, cravo, canella, &c. Os sabores variaõ taõbem naõ so segundo os diversos organos gustativos, e idades de cada individuo, mas ainda segundo os terrenos e climas, e emfim podem ser adoçados e abrandados pela cultura: donde se collige que devem ser excluidos dos caracteres synopticos e essensiaes; demais disso as observaçoẽs gustativas saõ arriscadas, havendo algumas plantas, de que basta que hum modico succo toque a lingua para envenenar.
Os defeitos procedidos de enfermidade, mutilaçaõ, de viço ou monstruosidade em qualquer parte que se achem nas plantas saõ incapazes de poder servir de notas em caracter algum especifico; as flores dobradas, semidobradas, proliferas e mutiladas devem somente ser consideradas como notas naõ naturaes, que so podem caracterizar huma variedade de especie: alem disso as plantas, a que ellas pertencem, sendo originarias das especies naturaes, conservaõ sempre os sufficientes destinctivos da sua propria [Página 332] especie, e da mesma sorte que hum monstro naõ constitue especie entre os animaes, assim taõbem entre os vegetaes.
As virtudes e tisos diéteticos, medicinaes, e economicos, como naõ constituem partes das plantas, nao devem ser fundamento de caracteres especificos, ainida que possaõ entrar nas descripçoẽs historicas das es pecies; donde se segue que saõ erroneos todos os termos empregados nas phrases especificas destinados a indicar as virtudes e ussos, como v. g. purgativo, antiscorbutico, officinal, usual, venenoso, mortal, sadio, saudavel, dormideira, furioso, alimentar comestivel, bom para bassoiras, penteador, usado dos tintureiros, bom para tintas, &c., &c.
Os diversos climas, paizes e quaesquer lugares relativos á habitaçaõ das
plantas, como sendo-lhes accidentaes, naõ podem subministrar boas notas
especificas. Alem disso as plantas que se daõ em huma parte do nosso globo
podem-se dar em outra; temos exemplos de muitas especies naturaes da
Lapponia e Siberia, as quaes se achaõ igualmente no Canadá, outras que naõ
saõ mais particulares á Europea do que á Africa, e outras emfim que sendo
indigenas da Asia nascem naturalmente taõbem na America; as mesmas especies,
que se daõ nas lagoas, achaõ-se ás vezes nas altas montanhas; ha algumas que
se daõ tanto nos charcos como nos bosques, e outras que saõ raras em hum
paiz e abundantes em outro. Os que vem huma grande collecçaõ de plantas de
todas as partes da terra em hum jardim Botanico, ou em hum copioso hervario
de plantas seccas ou estampadas, e dezejaõ descobrir o nome de huma planta [Página 333] ou estudala por hum systema, so se podem servir dos termos relativos à sua
estructura, ficando-lhes indifferentes ou superfluos todos os que dizem
respeito, á sua habitaçaõ. Donde resulta que os termos geographicos, e todos
os que saõ relativos á habitaçaõ das plantas, naõ devem entrar em caracter
algum especifico, e que por conseguinte saõ erroneos os de Africana,
Europêa, Asiatica, Americana, occidental, oriental, austral, Portugueza,
Hespanhola Nota
Este defeito ficou nos nomes triviaes.
Os tempos de crescer, e florecer, como sujeitos a mudar e accidentaes ás plantas, naõ podem ser fundamento de notas especificas, e por conseguinte se empregariaõ erradamente nos caracteres especificos os termos de serodeo, temporaõ, da primavera, outono, estio, inverno, de Março, Mayo, de todos os mezes, de huma hora, que florece de noyte, &c.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura. Pelo contrario, a grandeza relativa, por meyo da qual as partes da mesma planta saõ comparadas humas com as outras, subministra notas assaz seguras, e se pode adequadamente empregar nos caracteres essensiaes e [Página 334] synopticos, pode-se por ex. caracterizar muito bem huma especie de lobelia, dizendo que ella tem pedunculos curtissimos e o tubo da corolla compridissimo. A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c. Donde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c. Da mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c. Nem sera menos vicioso usar de diminutivos e das termimçoẽs em oide ou forme, como v. g. genciana gencianella, isto he, pequena genciana que se assemelha á grande, couve asparagoide ou asparagiforme, isto he, couve que se asselha na forma ao espargo.
Todos os termos empregados nas phrases especificas, ou destinados a
exprimir as notas caracteristicas, devem ser claros, breves, e proprios
naõ se de vem por conseguinte usar os figurados, como v. g. dizer urtiga
morta ou fatua, em lugar de inerme, gentil por muito cheiroso, de flor
ou de folha por flores ou folhas , &c. Saõ igualmente improprios todos os que
saõ deduzidos de huma ordem numeral, como v. g. rainunculo primeiro,
segundo, terceiro, &c. e os que exprimem o nome de alguma personagem
como v. g. trevo de Gaston, narcizo de Tradescancio, &c., porque
semelhantes nomes naõ daõ ideas de nota alguma que se acha na planta. Da
mesma sorte os que saõ fundados em hypotheses, como v. g. dictamno
verdadeiro, falso, ou bastardo, e os que daõ ideas vagas e muito
arbitrarias, como v. g.. flores lindas, feas, &c. Nenhum adiectivo deve
ser usado sem ter antes hum substantivo technico Nota
A technelogia viria
por este modo a ser inconstante e muito vaga, o que seria defeito;
porquanto deve ser fixa, em razaõ de se oppor á corrupçaõ da sciencia,
conservando a certeza e clareza da sua linguagem.Nota
Este e outros muitos defeitos ficaraõ nos triviaes, de que usa
Linneo no seu Species plantarum, nomen clatura, que
ordinariamente se oppoem a que as leys da boa critica
estabelecidas pelo mesmo Botanico naõ sejaõ uniformes.
Ha contudo alguns nomes compostos das particulas privativas latinas e,
in, ou do a priativo grego Nota
Como v. g. enervis, enodis, eglandulosus, inermis, indivisus,
impunctatus, inarticulatus, acaulis, &c; alguns destes
termos podem traduzir-se pelas palavras Portuguesas compostas da
particula des. Nota
Como v. g. muticus, nudus.
Todos os termos assimilativos, isto he, destinados a exprimir
semelhanças, naõ devem ser usados nas phrases especificas, porque he
rarissimo que o asse melhado represente o seu simile perfeitamente, e
demais disso este fica muitas vezes sendo obscuro como v.g. se
dicessemos: folhas semelhantes
ás segures Romanas. Devem-se contudo exceptuar os que se achaõ definidos ou geralmente
adoptados, e os que saõ decentemente Nota
Vej. a Nota relativa aos termos assimilativos destinados á
descripçaõ dos caracteres genericos.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro. Naõ devem constar de termos superfluos, como seriaõ por ex. os que indicassem todas as variedades, ou se opposessem a ellas; nem ser taõ succinctas, que lhes faltem [Página 339] os termos sufficientes para bem caracterizar a especie. Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces. A conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas. Quando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa. O parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem. Como o caracter natural de qualquer especie exige ser descripto em muitas phrases, segundo as differentes partes de que consta; cada phrase deve ser posta separadamente para maior clareza, como exporei mais particularmente, quando tractar da descripçaõ das plantas.
Antes de Linneo as especies eraõ somente nomeadas com o seu caracter
synoptico ou essensial, posto immediatamente depois do nome generico; e em
razaõ disto todos os termos que nelles entravaõ, e ainda os mesmos
caracteres eraõ chamados nomes especificos (nomina specifica). Elle
conservou a mesma accepçaõ, e uso; mas vendo que naõ era possivel de
retelos de còr, e que eraõ sujeitos a mudança, descobertas novas
especies, imaginou de pôr entre elles e o nome [Página 340] generico hum termo Nota
As vezes saõ mais, como v. g. Impatiens noli me tangere: Panicum
crus galli, &c; mas isto he raro. Nota
Eu publicarei na minha Specinomia vegetabilium as regras, a que
os triviaes se podem sujeitar, e proporei hum systema de
nomenelatura invariavel em todas as destribuiçoẽs methodicas ou
systemicas, que se possaõ imaginar em Botanica.
Quanto á disposiçaõ das especies, facilmente se entende pelo que tenho dicto neste capitulo, que as que tiverem mais affinidade entre si devem estar mais conchegadas.
[Página 342]Huma variedade em Botanica (varietas), he huma forma vegetal desviada accidentalmente, por alguma causa occasional, da forma primitiva creada de que he originaria; ou para o dizer mais breve, he a especie accidentalmente mudada depois da creaçaõ. Eu não incluo nestas definiçoẽs as variedades naturaes creadas, que consistem nos sexos, mas fallo taõ somente das variedades casuaes que tem havido, ha, e podem ter lugar nas reproducçoẽs das especies primitivas. As variedades naturaes creadas saõ huma estructura vegetal creada em tudo identica a outra, mas differente no sexo ou n'alguns accidentes. Suppondo pois, como he provavel, que o Autor da natureza creasse no principio n'algumas especies vegetaes os dois sexos individualmente separados, assim como nas especies dos animaes; as variedades naturaes creadas saõ por conseguinte taõ antigas como a sua especie; porquanto consistindo a especie nas partes da estructura em tudo identicas e commuas aos dois sexos, e sendo as variedades naturaes creadas fundadas nestas mesmas partes acompanhadas da differença sexual, estas so por abtracçaõ methaphysica e naõ por ordem de tempo se podem perceber separadas da sua especie. Mas na hypothese de que todas as especies, que saõ hoje dioicas, foraõ creadas hermaphroditas, e [Página 343] que huma causa occasional, alguns seculos depois da creaçaõ, as tornou dioicas, neste cazo a unisexualidade somente deve constituir huma variedade casual, e naõ na tural creada.
As variedades saõ taõ proprias do reyno vegetal, como do animal; porque assim
como vemos na mesma especie canina, caẽs d'agoa, de fila, perdigueiros,
galgos, sabujos, &c., &c. assim taõbem opservamos na mesma especie
de pereira, as que daõ peras bojardas, carvalhaes, flamengas, do conde,
gervasias, pardas, &c.; e notamos na mesma especie de murriaõ plantas de
flores escarlatas e outras de flores azues. Todas estas variedades saõ
reputadas em hum e outro reyno por casuaes Nota
Se admittissemos a
hypòthese (que se tem por improvavel) de que algumas das variedades
de caens, pereiras, e as duas dos murrioẽs acima mencionadas
existiraõ em diversos lugares da terra no mesmo tempo primitivo da
creaçaõ da sua especie, ou de que saõ taõ antigas como ella, neste
cazo ficariaõ sendo variedades naturaes creadas pela razaõ de terem
sahido das maõs do Autor da natureza taes como as vemos hoje, ou
terem nascido immediatamente taes dos germes que elle creara, e naõ
serem occasionadas pelos terrenos, climas, &c. nas consecutivas
reproducçoẽs.Nota
Os ventos, chamados pelos sexualistas, conductores dos prazeres
ou dos amores das plantas, podem taõbem ser contados entre as
causas das variedades, e ainda mesmo as abelhas (segundo Hales)
pela razaõ de levarem comsigo de flor em flor o po fecundante de differentes especies de antheras . Nota
Na sua idade vigorosa tem as folhas lobadas , e
algumas ovadas, mas na velhice todas saõ ovadas, e o tronco he
arboreo.
Os Botanicos ordinariamente naõ costumaõ fazer mençaõ nos seus catalogos systematicos das variedades de cada especie, e apenas indicaõ algumas: elles pensaõ que jamais poderiaõ terminar os dictos catalogos, se emprehendessem de mencionar todas as variedades do reyno vegetal, e que ainda no cazo que fosse possivel terminalos, o estudo de Botanica ficaria summamente longo e fastidioso. Naõ negaõ contudo 1º, que se devaõ bem conhecer e conservar as que saõ uteis e agradaveis; 2º que se deva saber, destinguir o que he variedade do que he especie. Quanto ao primeiro artigo, deixaõ esse trabalho aos Autores que tractaõ da Botanica applicada às artes de pharmacia, de materia medica, horticultura, jar dinagem, e qualquer outra parte de agricultura, quanto ao segundo artigo confessaõ que sem a dicta distinçaõ se multiplicaria erroneamente o numero das especies, o que se opporia á clareza e brevidade methodica, que exige o estudo dos vegetaes; elles deraõ por conseguinte algumas regras tendentes a destinguir as variedades das especies, as quaes da mesma sorte que as que foraõ referidas no capitulo precedente, aindaque estaõ talvez bem desviadas da perfeiçaõ, a que hum mais profundo estudo da natureza as poderá conduzir, devem contudo ser presentadas aos que se daõ à Botanica, por naõ terem por especies entes, que dellas so differem levemente.
Todo o viço ou monstruosidade, que tem lugar no [Página 345] numero, figura, proporçaõ ou situaçaõ das partes de qualquer vegetal,
constitue huma variedade; e assim como no reyno animal hum monstro ou hum
eunucho somente saõ individuos imperfeitos da sua especie, assim taõbem o
saõ as plantas monstruosas e eunuchas, como as que daõ flores dobradas,
semidobradas, proliferas, e mutiladas. Todas as plantas enfermas,
mestiças, ou mulinas, Nota
Vej. o que disse a respeito destas plantas nos seus Cap.
respectivos.
Reduzir as differentes variedades á mesma especie he hum trabalho algumas
vezes muito mais difficil do que ajuntar as especies debaxo do mesmo genero.
Muitas vezes basta o caracter da especie para fazer reconhecer a variedade;
mas ha algumas variedades que exigem muitas reflexoẽs e experiencia,
requerem hum attento exame de todas as suas partes, ainda as mais miudas, e
huma combinaçaõ destas com as das suas congeneres e às vezes com as das
especies do genero vizinho, para se poderem reduzir á especie de que emanaõ. Ha algumas especies e ainda mesmo familias inteiras, em que os
individuos so costumaõ variar na raiz ; ha outras, em que
elles variaõ nas folhas ,
grandeza do tronco e ramos, na cor e pelos; e ha outras emfim, cujos
individuos somente soffrem mudanças nas flores ou fructos. Naõ se
devem jamais perder de vista as causas occasionaes; muitas plantas [Página 346] indigenas das montanhas, e que nessas costumaõ ter o tronco postrado, se
encontraõ muitas vezes em outros lugares differentes com o tronco levantado;
algumas amphibias saõ curvadas dentro d'agoa e levantadas fora della; o
rainunculo bolboso tem o tronco levantado, quando habita nas encostas dos
oiteiros expostas ao sol, e he pelo contrario reptante nos lugares humidos e
sombrios. Os sitios montanhosos fazem que as folhas inferiores sejaõ mais inteiras e as
superiores mais divididas; os lugares humidos fazem de ordinario fender
as folhas inferiores, e os
seccos as superiores. Ha alguns terrenos que fazem as folhas rugosas, bolhosas, e franzidas; outros que lhes fazem
perder os pelos. De todas as causas occasionaes a cultura he a que me parece contribuir
mais para à producçaõ das variedades; ella muda as folhas em crespas, ondeadas, e repolhudas, falas
maiores, abranda o seu amargor, e igualmente o acido e acerbo dos
fructos, torna-os succulentos de quasi exsuccos, e faz
perder os pelos aos troncos e ramos, a sua escabrosidade, e ainda mesmo
os seus espinhos. He precizo pois remontar a estas e outras causas
occasionaes para podermos, em cazo de duvida, decifrar huma variedade; se
conjecturamos v. g. ser a cultura e terreno a causa da mudança accidental da
especie, semeemos ou transplantemos a planta degenerada no seu terreno
natural, e veremos que abandonada ao estado inculto tornarà mais cedo ou
mais tarde à sua estructura e condiçaõ especifica. Esta experiencia he
necessaria algumas vezes relativamente áquellas variedades, que saõ
constantes em muitas geraçoẽs, e se continuaõ por sementes, de maneira
que parecem [Página 347] especies, como saõ v. g. as que daõ em nossos jardins e hortas flores
semidobradas, folhas repolhudas,
crespas, Nota
Ha plantas contudo, cujas folhas no terreno natural saõ crespas, e Linneo se
servio dellas no caracter synoptico da malva crispa, mentha
crispa, &c.; mas ha outras que elle julgou variaveis, e por
conseguinte so proprias para constituir variedades, como as da
chicoria crespa, tanacetum crispum, a matricaria crespa,
&c. Nota
As pereiras, maceiras, amexieiras, &c. sendo plantadas nos
matos, e deixadas á ley da natureza costumaõ dar fructos menos bons
do que as cultivadas; e aindaque naõ temos hum sufficiente numero de
experiencias que nos demostre o seu estado retrògrado sendo semeadas
repetidas vezes nos matos, ha contudo grande probabilidade que
depois de varias geraçoẽs tornariaõ á sua especie primitiva
sylvestre, de que tinhaõ emanado.
Os Botanicos quando querem indicar as partes ou notas variaveis que
constituem as variedades de huma especie, costumaõ algumas vezes
mencionalas depois do caracter especifico vistoque as differenças
especificas Nota
As especies e variedades, que a natureza lança do seu
seyo fecundo, tem caracteres, que se devem considerar como geraes
nas primeiras, e particulares nas segundas; porque se posessemos hum
caracter variavel por especifico, seguirse-hia que apparecendo-nos
hum individuo, que naõ tivesse o dicto caracter variavel, aindaque
fosse da mesma especie original, naõ o poderiamos reconhecer antes o
teriamos por huma nova especie, donde resultaria multiplicarmos
entes sem necessidade, e formarmos muitas especies falsas. Pelo que
todas as vezes que hum Botanico tiver a menor duvida, se huma planta
he especie ou variedade, deverá sempre indicar a sua duvida, quando
fizer mençaõ della, por ver se a experiencia de outros o
illumina.
M. dos alqueives. Com folhas indivisas; caule estirado. Varia nas flores, sendo as suas corollas ora escarlatas, ora azues, e algumas vezes tambem variegadas de branco e purpureo.
Em lugar de dizer:
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.
Donde se vê que às notas variaveis devem ser pospostas ás especificas, no cazo que dellas se haja de fazer mençaõ. Os nomes que exprimem estas notas nas phrases especificas saõ por alguns Botanicos chamados variantes (variantia); mas para fallar com propriedade, o nome variante so me parece devera ser chamado aquelle, que se posesse depois do trivial, [Página 349] como v. g. seriaõ os termos verde, repolhuda, e murciana na nomenclatura seguinte:
Couve hortense verde.
Couve hortense repolhuda.
Couve hortense murciana.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.
A descripçaõ das pantas ou he analytica ou historica. Descrever huma planta analyticamente he dar ideas expressivas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ de todas as partes, de que consta o seu caracter natural; descrevela historicamente he dar a descripçaõ analytica e alem disso tudo o que diz respeito à mesma planta, sem embargo de naõ ser parte constitutiva do seu caracter natural Botanico.
A descripçaõ analytica deve ser feita no lugar, em que a planta nasce e
habita naturalmente, e naõ nos jardins, aonde a cultura a pode fazer variar
ella abrange todo o estado progressivo da planta [Página 350] desde a sua germinaçaõ athe à madureza e quéda das sementes, sem
desprezar a menor parte do habito externo nem as minimas da fructificaçaõ,
que precizaõ de huma lente para bem se divisarem (o que succede poucas
vezes). Cada huma das dictas partes deve ser exposta com termos technicos, e
em paragraphos separados por evitar confusaõ. Quando observarmos alguma
variedade, notala-hemos no paragrapho da parte, a que ella for relativa. Devem-se omittir as circumstancias que dizem respeito á physiologia,
e historia da planta, por serem consideradas como superfluidades nas
phrases de huma descripçaõ puramente analytica Nota
Estas circumstancias devem reservar-se para a descripçaõ
historica; ha contudo algumas, que sem embargo de pertencerem
rigorosamente á descripcaõ historica naõ deixaõ de ser por
alguns Botanicos mencionadas de passagem na analytica, como saõ
por ex. a irritabilidade da Dionaea muscipula e Sensitiva, as
cores dos succos, e a consistencia destes mesmos succos, ou
resinas e gomas, quando saõ vertidas da casca sem aberturas
artificiaes. Nota
O
Philos. Botan. Num. 326-330.
Descripçam Analytica da Tilha da Europa Nota
Tilia Europaea, Lin. Nos damos taõbem a esta arvore o nome de til e de telha.
Germinaçam********* Nota
Linneo naõ fez mençaõ da disposiçaõ das cotyledones, da figura
das folhas seminaes, e
de tudo o que pertence ao estado da germinacaõ das sementes;
isto he hum defeito, porque toda a descripçaõ analytica deve
começar por este estado da planta, e quando naõ houver occasiaõ
de o observar, deve-se indicar do modo acima expresso, para que
outros que tiverem esta occasiaõ nolo descrevaõ.
Radicaçam. Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.
Tronqueadura. Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.
Gomoscencia. Gomos alternos, covados, estipularesfolheares, formados de quatro ou cinco escamas ovadas, obtusas, levemente enroladas para dentro, e hum tanto carnudas na base; as duas externas saõ menores e desiguaes.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.
[Página 352]FOLHEATURA. Nota
Eu tomo aqui este termo em huma accepçaõ mais extensa do que Linneo
lhe costumava dar, entendendo por ella naõ so a disposiçaõ, que tem
as folhas tenras dentro dos
gomos e no seu brotamento, mas ainda todo o estado das folhas adultas e seus
peciolos.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.
Peciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .
Inflorecencia Nota
As bracteas e pedunculos, como partes as mais chegadas ás flores, e
fundamento da sua diversa disposiçaõ, saõ com propriedade postos
aqui debaxo da divisaõ da Inflorecencia.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.
Pedunculos solitarios, laterifolios, mais compridos do que o pecioso,
filiformes, recompostos; os communs ou primarios tripartidos, os
secundarios lateraes taõbem ordinariamente tripartidos, e o medio [Página 353] indiviso, de modo que todos vem a soster sette flores Nota
Estas divisoẽs do pedunculo commum, e o numero das flores variaõ
muito.
Flores racimosas, e elevadas quasi á mesma altura.
Fructificaçaõ.
Calys. Perianthio partido em cinco lacinias concavas, de cor aloirada, quasi da grandeza das petalas, e decadentes.
Corolla. De cinco petalas oblongas, obtusas, pallidas, e crenadas no cume.
Estames. Filetes numerosos, de trinta athe quarenta, assovelados, do comprimento da corolla, e apegados ao receptaculo. Antheras hum tanto globosas.
Pistillo. Germe hum tanto globoso e cotanilhoso. Estylete filiforme, e da altura dos estames. Estigma obtuso e pentágono.
Pericarpo. Huma capsula cotanilhosa, globosa pentagona, de cinco cellulas, e cinco valvulas coriaceas, as quaes costumaõ arbrtrse pela base.
Sementes. Solitarias e hum tanto globosas: saõ dycotylẽdones, e contem no centro o corculo guarnecido de hum asterisco de cinco lacinias quasi iguaes.
N. B. Ordinariamente quatro sementes abortam, de modo que a capsula fica sendo de huma so cellula e contem sò em si a unica semente, que costuma medrar.
[Página 354] A descripçaõ historica de huma planta, ou segundo outros a historia
natural de huma planta comprehende alem da sua descripçaõ analytica, a
synonymia, etymologia do seu nome usual, habitaçaõ cultura, o tempo
vegetativo, o tempo de sono e vigilias das suas folhas e flores, a sua estructura interna ou
natureza considerada physiologica e chymicamente, os seus usos
mediornaes e economicos, e emfim a sua figura bem estampada. He verdade que ordinariamente huma descripçaõ historica naõ contem todas
estas circumstancias, e se limita so em conter a descripçaõ analytica,
synonymia, habitaçaõ Nota
A synonymia e habitaçaõ, como circumstancias as mais necessarias,
costumaõ taõbem por se nos catalogos das especies depois dos
caracteres synopticos ou essensiaes.
A synonymia he hum aggregado de citaçoẽs dispostas em paragraphos
separados e successivos, nos quaes se indicaõ naõ so os diversos nomes,
caracteres synopticos, essensiaes, ou Nota
A synonymia he ordinariamente muito limitida e imperfeita nos
catalogos systematicos a respeito das variedades, o que
certamente he hum defeito, porquanto a noticia das variedades
serve de conservar o verdadeiro caraeter da especie sem
obecuridade nem consusaõ, e contribue para fazer evitar enganos
de ter por especie o que so he variedade. Nota
O infatigavel Gaspar Bauhino vendo que muitos nomes davaõ ideas
de muitas differentes plantas, e que por conseguinte causavaõ
huma grande confusaõ no estudo dos vegetaes, emprehendeo de se
oppor a este inconvemente, e nos deo no seu Pinax hum bom
tractado de synonymos, o qual foy depois continuado por
Sherardo, Dillenio, e Sibthorpio; mas este tractado esta ainda
bem distante da sua perfeiçaõ.
A noticia da habitaçaõ das plantas he taõbem de grande utilidade; ella serve de indicarnos o lugar aonde as podemos ir buscar para os nossos herva rios, afim de conservarmos o claro conhecimento dellas em successivos tempos, mostra nos aonde as podemos ir colher para os differentes usos medicinaes e economicos, instrue nos sobre a qualidade do terreno que lhes he proprio (estabelecendo nisto o principal fundamento da agricultura), e emfim conven cenos que naõ ha na terra lugar algum inteiramente esteril, ou que taõ somente ha lugares estereis relativamente a esta ou aquella planta, mas naõ a todas. Donde resulta que na deseripeaõ historica de qualquer planta a noticia da sua habitaçaõ he absolutamente necessaria.
O tempo vegetativo inclue 1º o espaço de tempo em que a semente de huma
planta jaz debaxo da terra, desde o dia em que foy semeada athe áquelles
em que a plantula seminal, rebentados os tegumentos, brota fora delles,
e a sua plumula começa a apontar á flor da terra; este espaço he chamado
por alguns Botanicos tempo da germinaçaõ ou incubaçaõ das sementes Nota
Germinatio, seu incubatus seminum. Alguns Botanicos assignaõ
tres sortes de vida ao germe ou corculo das sementes: huma
comaterna, que elle recebeo e conservou na planta que o produzio,
vegetando com ella athe ao estado de plena madureza; outra inactiva
por meyo da qual conserva illesa a sua estructura, a vis productiva
e vegetativa, sem contudo vegetar pela razaõ de que o movimento dos
seus fluidos he nimiamente lento, e as suas funçoẽs vitaes estaõ
muito entropecidas e adormentadas em certo modo como as das cobras,
lagartos, formigas, &c. durante o inverno, no qual parecem
mortos; esta sorte de vida, segundo elles, he a que tem o germe
desde a quéda das sementes athe á germinaçaõ exclusivamente; outra
emfim germinativa, que começa na germinaçaõ. Zullingero admitte
nestes tres differentes estados das sementes huma especie de
fermentaçaõ continuada, querendo que ella comece na fecundaçaõ, e
que no segundo estado sirva de aperfeiçoalas e dispolas para receber
os succos da terra, que contribuem para à germinaçaõ, accrescentando
que se este entrevallo for longo ou a fermentaçaõ nimiamente
prolongada destruirá a vis vegetativa dilatando-lhes os vazos athe
rompelos e fazendo evaporar as particulas oleosas. Mas este segundo
estado vital, e de fermentaçaõ parecem ser demasiadamente
hypotheticos; a dureza e seccura, que observamos entaõ nas sementes,
naõ nos indicaõ que nellas haja movimento de succos nem funçoẽs
vitaes, e por conseguinte so se lhes pode admittir vida, tomando a
idea desta palavra em hum sentido nimiamente amplo. Pelos mesmos
motivos naõ parece que haja antes da germinaçaõ movimento algum
intestino, e se o houvesse concorreria tanto para a fermentaçaõ como
para a putrefacçaõ. Portanto todo o movimento fermentativo que tem
lugar na germinaçaõ he inteiramente novo. Quando as sementes se
achaõ debaxo da terra, e que a humidade penetrando pelos poros dos
seus tegumentos, ou pela sua cicatriz umbilical, faz amollecer o
corculo e as cotylédones, ajudada do calor conveniente, a sua
substancia farinosa tornase pouco a pouco em lactea, e se percebe
nelles hum sabor mais doce e hum cheiro particular; todos estes
phenomenos indicaõ huma mistura interna das suas partes
constitutivas occasionada por hum movimento intestino, e como elles
senaõ observaõ de modo algum antes que a humidade e phlogisto
competentes tivessem entrado no germe e cotylédones, o movimento,
que he hum effeito destas causas, he inteiramente novo assim como
ellas o saõ nas sementes.Nota
Na preflorescencia se deverá taõbem fazer mençaõ, se a planta
florece duas ou mais vezes no anno, e em que dias e mezes. Nota
Notar-se-ha taõbem na frutescencia, se a planta da duas ou mais
vezes fructos no anno, e em que mezes. Nota
A circumstancia de huma planta conservar as suas folhas todo o anno, ou de
naõ perder humas sem que comecem a nascerlhe outras, pode ser
referida tanto no tractado da desfolha como da
enfolhescencia.
A noticia dos differentes oleos, leves, pezados, liquidos, concretos,
tirados por destillaçaõ ou expressaõ, a dos diversos saes alcalinos, do
sal commum, nitro, assucar, tartaro, acidos, differentes gazes, &c. Nota
Das substancias que entraõ na composiçaõ dos vegetaes humas
saõ commûas a todos, como v. g os oleos, os alcalis fixos, os gazes,
a agoa, e terra; outras saõ menos geraes e somente proprias a hum
certo numero, como v. g. o alcali volatil que se acha nos cogumelos,
mostarda, trigo, &c. o alcali mineral que se dá nas especies de
salsola, de salicornìa, e outras plantas maritimas, o sal commum que
se acha na salsola soda, o nitro na alfavaca de cobra, gyrasol,
&c, o sal de Glauber na tamargueira, o tartaro nas uvas, o sal
ammoniaco na cigude, o enxofre na inula helenium, e rumex patientia,
o alcanfor no alcanforeiro, hortelaan apimentada, labiaes e algumas
compostas (segundo Gaubio e Neuman), os oleos essensiaes, como o que
se dá nas cellulas vesiculares da casca da laranga, flores
fragrantes e partes cheirosas das plantas, os oleos corados, como o
oleo azul que se tira da camomilla, os oleos pezados ou que vaõ ao
fundo d'agoa como o do cravo da India, os acidos particulares a
certos fructos, raizes e sobreraizes; a materia saccharina que se dà
em hum grande numero de flores, fructos, e em todas as gramas (e
talvez em todos os vegetaes) &c, &c.
Os usos economicos e médicinaes naõ devem ser omittidos em qualquer descripçaõ historica por mais incompleta que seja a respeito de outras circumstancias; a Botanica deve a elles a gua origem, e desde os primitivos dias da especie humana athe hoje o estudo dos vegetaes foy sempre dirigido à sua utilidade. Eu darei algumas breves noçoẽs sobre estes usos no Capitulo XL.
Como a Botanica naõ pode demonstrar a fé dos caracteres por hum rigor
mathematico Nota
A certeza que adquirimos do nome de huma planta por meyo dos
caracteres, que lemos nos livros dos Botanicos, naõ pode jamais
chegar ao grao de evidencia mathematica, ou vir a ter força de
demonstraçaõ, por muitas razoẽs, principalmente porque nas
descripçoẽs que se costumaõ dar de qualquer planta sempre falta
alguma circumstancia, e como pode haver no globo terreste huma
especie em tudo semelhante nos caracteres dados a outra, e
dessemelhante nos omittidos, podemos por conseguinte facilmente
enganar-nos dandolhe o nome de estoutra. Nota
Vej. Estampa XXIX
e XXX deste Compendio, vol. 2.Nota
Vej. a Estampa XXX
deste Compendio.Nota
Vej. a Estampa XXIX
deste Compendio.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.
[Página 362] GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
O chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
III. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
[Página 407]Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
As infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
[Página 424]Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
[Página 428]Em todos os tempos o homem procurou sempre nos vegetaes meyos de restabelecer
a sua saude, de se alimentar, de se reparar dos frios ou calmas, e de muitas
outras precizoẽs; a necessidade e o acazo lhe fizeraõ reconhecer pouco a
pouco as propriedades de alguns destes entes enteressantes; estas
propriedades conservadas ou por tradiçaõ ou escritas chegaraõ emfim a servir
de fundamento de tractados mais ou menos perfeitos segundo as differentes
graos de progresso do espirito humano; sobre ellas fundaraõ os antigos
Gregos e Romanos tractados de materia medica e de agricultura, e ainda hoje
as propriedades dos vegetaes saõ as notas caracteristicas em que os autores
de materia medica fundaõ as suas destribuiçoẽs methodicas Nota
Nos Methodos
de materia medica as classes, ordens e outras divisoẽs saõ fundadas
sobre as propriedades medicinaes das plantas,e nos methodos botanicos as
classes, ordens, &c: saõ fundadas nas notas da fructificaçaõ e
habito externo, independentemente das suas virtudes, e usos.
Os methodos botanicos, o lugar de habitaçaõ, os succos, nectarios, as qualidades de cheiro, sabor, e cores dos vegetaes e as suas analjses chymicas tem sido os meyos investigativos, de que os sabios se tem servido nestes ultimos tempos para indicar nelles a uniformidade e dessemelhança de virtudes, e estabelecer regras geraes a respeito dellas.
Os methodos, ou systemas botanicos saõ ou artificiaes, ou naturaes, como jà
mencionei nos capitulos precedentes. Os systemas artificiaes, como sujeitos
a leys nimiamente arbitrarias, e a reunir plantas ordinariamente differentes
no habito externo, naõ podem, senaõ por acaso, offerecer divisoẽs genericas
de plantas de uniformes virtudes; os methodos na turaes saõ por conseguinte
os unicos que podem subministrar divisoẽs menos sujeitas a engano
relativamente à dicta uniformidade. Linneo assignou pois a este respeito a
regra seguinte: todas as plantas que sam do mesmo genero natural, sam tambem
da mesma virtude; e as que sam da mesma familia ou divisoens naturaes,
participam mais ou menos da mesma virtude Nota
Plantae, quae genere
convenìunt, virtute ettam conventunt; quae in ordine naturali
continentur etiam virtute proprius accedunt, quaeque classe naturali
congruunt etiam viribus quodam modo congruunt. Lin. Philos Botan. p.
278.Nota
Este parecer he seguido por muitos sabios Naturalistas e famosos
Medieos, como Daubenton, Cullen, &c. Vej. Lectures on the Materia Medica, by Villiam Cullen, p. 158,
169. Lond. in-4. donde copiei huma grande parte das reflexoẽs,
que opponho aqui aos sentimentos de Linneo. Nota
Como por ex. comparar os fructos de huma especie com os de
outras, as folhas com folhas , raizes com
raizes, flores com flores, a casca do tronco de huma especie com
a casca do tronco de outras congeneres naturaes, &c. Nota
A figueira por ex. he huma arvore venenosa, e os seus fructos saõ saudaveis. Nota
A idade, e constituiçaõ do sujeito, e igualmente a
dose das substaucias vegetaes fazem taõbem
algumas vezes variar a acçaõ das suas virtudes; o que he somente hum
purgativo ao homem robucto, he venenoso ao homem debil e de vida
sedentaria, como se tem visto algumas, vezes na Euphorbia.
Muitos Botanicos modernos, principalmente, os que saõ apaxonados pelos
methodos naturaes, pensaõ que naõ so senaõ devem desprezar as affinidades
dos caracteres botanicos na investigaçaõ das qualidades e virtudes
medicinaes das plantas, mas taõbem que ellas nos dirigem com segurança a
substituir huma planta a outra em hum grande numero de familias naturaes.
Linneo parece ter sido deste parecer, e nos deixou a este respeito na sua
Philosophia Botaniça Nota
Vej. Phil. Bot. p. 279-282.
As Gramineas (Graminea, Ordo Naturalis IV.) Nota
Quanto as ordens,
naturaes estabelecidas por Linneo, e igualmente quanto aos generos
aqui citados Vej. Lin. Genera plantarum, edit, novissima, cur. J. J.
Reichard.
As Estrelladas (Stellatae, ord. nat. XLVII.) saõ diureticas, como a ruiva dos tintureiros, amor de hortelaõ, asperula, galium, &c.
As Borragineas ou Asperifolias (Asperifoliæ, ord nat. XLl) podem servir de hortaliças, e saõ mais ou menos mucilaginosas e glutinosas, como a buglossa, borragem, e consolda maior.
As Luridas (Lurida, ord. nat. XXVIII.) saõ suspeitas de venenosas e narcoticas, como a belladona, stramonio, meimendro, mandragora, nicotiana, as solaneas, bringelas, e ainda mesmo os tomates. O pimentaõ he summamente acre.
As Umbrelladas (Umbellatae, ord. nat. XLV) quando vegetaõ nos lugares seccos saõ aromaticas, calefactivas, proprias para excitar o suor, ourinas, menstruos, leite, e dissipar as flatulencias, como saõ por. ex. o levisticum, assa faetida, angelica, imperatoria pimpinella, peucedanum, opopanax, galbanum, carvi, [Página 435] cuminum, daucus, meum, faniculum, &c; as que nascem em lugares aquosos saõ venenosas, como a cicuta, aenanthe, sison, phellandrium, e apium palustre; as suas virtudes residem nas raizes e sementes.
As raizes das plantas da classe Hexandria, que saõ inodoras, costumaõ usar-se em algums paizes como alimento, v. g. as da tulipa, tilium martagon, e ornithogalum; mas as que tem hum cheiro viroso saõ venenosas, como as da cebola alvarraan, jacintho narcizo, coroa imperial, leucojum, goriosa, e anthericum.
As Bigornes (Bicornes, ord. nat. XVIII.) saõ astringentes, como a urze, pyrola, vaccinium, e principalmente o arbutus urva ursi; em alguns paizes costumaõ comer-se as suas bagas acidas, como as do medronheiro, as do arbutus uva ursi, vaccinium uityr tillus e exycoccus, diospyros virginiana, e melastoma.
Os fructos polposos da classe Icosandria saõ usados como alimentos, taes saõ v. g. as maçaans, peras, marmelos, romaans, fructos do pirliteiro, as nesperas, sorvas, groselhas, pessegos, damascos, ameixas, ginjas e cerejas na familia das Pomaceas (Pomaceae, ord. nat. XXXVI.); os morangos, amoras de sylva, e bagas da roseira de caõ nas Senticosas (Senticosae, ord. nal. XXXV.); emfim os fructos da eugenia e psidium nas Hesperideas (Hesperideae, ord nat. XIX.)
As plantas da classe Polyandria ordinariamente saõ venenosas; como saõ o
aconitum, Nota
Linneo conta taõbem entre as plantas venenosas o aconitum
anthora; outros autores contudo duvidaõ das suas qualidades nocivas, e
lhe chamaõ pelo contrario o aconito saudavel, dizendo que elle he hum
contraveneno do ranunculus thora.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.
As Cruciferas ou Siliquosas (Siliquosae, ord. natXXXIX) saõ acres, incisivas, detersivas e diureticas; como saõ os agrioẽs, a cochlearia, a armoracia, &c.; ellas perdem muito da sua virtude no estado de seccas, e porisso devem ser usadas em quanto verdes.
As Malvaceas (Columniferae, ord. nat. XXXVII.) saõ mucilaginosas, lubrificantes, embotaõ a acrimonìa dos humores, e saõ suppurativas em razaõ da sua virtude emolliente; taes saõ por ex. a malva, a althea, &c.
As Leguminosas (Papilionaceae, ord. nat. XXXII.) saõ excellentes para pastos ou alimento dos quadrupedes, como v. g. o trevo, medicago, trigonella, hedysarum, vicia, loeus, e lathyrus: as suas sementes saõ farinhosas e flatulentas, e servem de alimento aos homens e varios animaes, taes saõ principalmente as favas, ervilhas, feijoẽs, graõs, lentilhas, e chixaros.
[Página 437]As Compostas (Compositae, ord. nat XLIV.) saõ muito usadas em medicina, e commumente saõ amargosas, como sao v. g. o cardo sancto, a chicoria, o almeiraõ, o cardo mariano, a pilosella, o dente de leaõ, a losna, a matricaria, a chamomilla, as macellas, a tanasia, a balsamitta, eupatorium, achil lea ageratum, santolina, abrotanum, carlina, acmella, artemisia, &c.
As Orchideas (Orchideae, ord. nat. VII.) saõ aphrodisiacas, taes saõ principalmente a orchis bifolia, orchis morio, e o epidendron vanilla.
As Estrobilosas (Coniferae, ord. nat. LI.) saõ resinosas, e diureticas, como, saõ v. g. os pinheiros, o abeto, acipreste, sabina, zimbro, e juniperus lycia.
A Classe Cryptogamia contem muitos vegetaes suspeitos; os fetos tem hum cheiro desagradavel: os musgos do mesmo modo; das algas saõ rarissimas as que se comem, e muitas saõ purgativas; e os fungos saõ segundo Plinio huma perigosa comida.
Taes saõ em geral os sentimentos de Linneo sobre as familias naturaes; mas todas estas, generalidades saõ sujeitas a mais ou menos excepçoẽs, que seria prolixo expor aqui. Direi somente que os grãos das qualidades dos vegetaes variaõ infinitamente, e talvez à proporçaõ do numero dos individuos: nas Gramineas, por ex, as sementes cerealinas servem de alimento ao homem, mas que differença naõ ha entre o paõ de trigo e o de milho, e cevada? Quanto naõ differe o alimento do arroz do que fornece o paõ de trigo? Quanto naõ differem entre si os fructos polposos, que se usaõ como alimento? Que desigualdades naõ há algumas vezes entre as plantas [Página 438] aromaticas, amargosas, acidas, acres, e astringentes do meSmo genero? As vezes o principio nutritivo está separado de todo o veneno, como nas sementes cerealinas, outras vezes misto com hum principio amargozo ou combinado com huma substancia mais ou menos venenosa, como nalgumas solaneas e na mandioca; quanto naõ variaõ as quantidades dos principios saborosos, odorantes, e outras partes constitutivas de cada hum dos individuos vegetaes, e que variedade no modo, e circumstancias com que se achaõ combinados? Eu confesso ingenuamente a fraqueza das minhas luzes a este respeito; peloque deixo aos que se occupaõ de Materia Medica, e practica de Medicina o decidir athe onde seja justo o sentimento "de que se pode em algumas familias naturaes substituir humas plantas a outras."
O lugar de habitaçaõ dos vegetaes tem parecido taõbem a alguns botanicos hum
meyo de poder descobrir as suas incognitas virtudes. Linneo assignou a
este respeito a regra seguinte Nota
Locus siccus sapidiores,
succulentus insipidas magis, aquosas (sapius) corrosivas reddit.
Liu. Phil. Bot. p. 283.Nota
Vej. pag.
430.Nota
Debaxo do
nome de exposicaõ (expositio) devem entender-se os lugares expostos ao
sol, os sombrios, encostas, lugares altos e lavados dos ventos, os
valles, fugares que ficaõ ao norte, sul, nascente ou poente,
&c.Nota
A alface em razaõ da cultura he incomparavelmente menos
narcotica, o almeiraõ muito menos amargoso, e a escorcioneira
summamente adoçada e amaciada.
Os succos lacteos das plantas saõ de ordinario hum indicio de màs
qualidades, e he por esse motivo que Linneo estabeleceo a este respeito
a regra seguinte Nota
Lactescentes plantae communiter veneuatae sunt,
minus autem semiflosculosae et campanulacea. Lin. Phil. Bot. p. 282,
283.Nota
Linneo conta entre as
plantas de succos lacteos, que saõ venenosas, as seguintes; a
rauwolfia, thevetia, cerbera, plumieria, tabernamon-tana, periploca,
apocynum, cynanchum, ceropegia, e asclepias na familia das Contortas
ou de corolla retorcida (Contortae); a bocconia, sanguinaira,
papaver, argemoue, chelidouìum, nas Papaveraceas (Rhaeades); a
cambogia, dalechampia, euphorbia, e jatropha, nas Tricóxcas
(Tricoccae); e alem nisso varias outras, como a melia, ficus, thus,
acer, e agaricus.Nota
Nas especies de alface ha algumas que saõ reputadas venenosas,
como a Lactuca virosa, mas segundo as observaçoẽs de alguns
practicos modernos o extracto, desta planta pode ser dado mesmo
em grande dose como hum excellente aperitivo, e sedativo, e o
Dr. Joze Collin a recommenda nas hydropisias; ainda mesmo as
cultivadas nos paizes quentes saõ hum tanto venenosas, segundo
Galeno (Vej. Cullen Mater. Med. p. 306. ed. de Lond. in-4.) O Dr. Macquer pensava que ainda mesmo nas alfaces das nossas
hortas ha huma qualidade narcotica, como lhe ouvi muitas vezes
dizer nas suas liçoẽs.
Linneo pertendeo ter achado nos nectarios hum meyo para poder taõbem
reconhecer as màs qualidades de algumas plantas, e estabeleceo a este
respeito o aphorismo seguinte; as plantas, que dam flores com hum
nectario destincto das petalas, commumente sam venenosas Nota
Plantae floribus nectario a petalis distincto
cnmmuniter venenatae sunt Lin. Phil. Bot. p. 282. Os
exemplos que aponta saõ os seguintes: aconitum, helleborus,
aquilegia nigella, parnassia, epimedium, clutia, keggellaria,
hyacinthus, stapelia, ascleplas, mirabilis, nerium, narcissus,
zygophyllum, dictamnus, e melianthus.
O cheiro, sabor, e cores saõ os principaes meyos de que os medicos se servem
para conhecer as virtudes medicinaes de qualquer substancia vegetal. O
primeiro aphorismo a este respeito he, que todas as substancias vegetaes
insipidas, e inodoras tem muito pouca ou nenhuma virtuade em medicina Nota
Insipida et inodora vim medicam vix
exercent. Lin. Philos. Bot. p. 283.Nota
Entre estas algumas foraõ conservadas como alimentos, e naõ como
medicamentos. Nota
Sapidissima et odoratissima semper maximam vim possident.
LinPhil. Bot. p. 283Nota
Cullen, Mat. Med p. 161, 162, ed de Lond.
in-4.Nota
Sapidae et
suaveolentes bonae sunt; nauseosae et graveolentes venenatæ sunt.
Lin. Phil. Bot. p. 284Nota
Cullen Mat. Med. p. 162.Nota
O Dr. Cullen parece entender, aqui a fragrancia das flores; eu
conjecturo contudo que Linneo quiz dar a entender a fragrancia,
que existe em todo o corpo das plantas, comprehendendo as folhas , ramos, tronco e raiz ; e neste sentido o seu aphorismo parece
ter muito poucas excepçoẽs. O Dr. Cullen naõ admitte taõbem
a assersaõ de Linneo. Sapida non agunt in nervos, nec olida in
fibras musculares; pensando que o que obra sobre os nervos obra
taõbem sobre as fibras musculares e vice versá, em razaõ das dictas
fibras serem em parte huma continuaçaõ dos fios nervosos, ou ao
menos intimamente adunadas a elles e sujeitas á sua acçaõ. Diz alem
disso que o aphorismo do mesmo Botanico: Ambrosiaca analeptica,
Fragrantia orgastica, Aromatica excitantia, Tetra stupefacientia,
Nanseosa corrosiva: he ambiguo, obscuro, e pouco fundado na
natureza. Ibid. p. 163.Nota
Color pallidus insipidum, viridis crudum, luteus
amarum, ruber acidum, albus delce, niger ingratum indicat. Lin. Phil.
Bot. p. 286.Nota
Os exemplos, que Linneo aponta nesta ultima regra,
saõ: baccae atropae, actaeae, coriariæ, solani, tini, enpetri et
padi. As bagas negras de algumas urzes e do ribes nigrum aindaque
desagradaveis naõ contem contudo veneno algum.
As operaçoẽs chymicas tem parecido a muitos sabios hum dos melhores meyos de
investigar as virtudes dos vegetaes; foraõ por conseguinte tractados por
expressoẽs, trituraçoẽs em agoa, infusoẽs em espirito de vinho ou agoa,
distillaçoẽs a fogo brando ou forte, e por todos os meyos que conduzem a
analysar os seus principios; a sua analyse tem dado a conhecer as suas
partes extractivas, gomosas, mucilaginosas, saccharinas, amilaceas,
resinosas oleosas, stipticas, aromaticas, e os differentes saes e terras,
que entraõ na sua composiçaõ. Naõ se pode negar que todos estes
conhecimentos reunidos com alguns dos que acima mencionei saõ
bastantemente uteis para nos fazer discorrer sobre a natureza dos
vegetaes com maior segurança do que os antigos discorriaõ; com estas
luzes podemos taõbem melhor do que elles julgar das suas virtudes; mas
quem attender bem ao muito que variaõ os acidos e alcalis mos
differentes vegetaes quanto à quantidade e qualidade, o muito que os
seus outros principios variaõ taõbem nas proporçoẽs, e saõ alterados
pelo fogo, a grande difficuldade, ou impossibilidade que ha algumas
vezes de obter os seus principios subtis e volateis, nos quaes contudo
consistem as suas principaes virtudes, naõ estranhara certamente a
asserçaõ de alguns grandes [Página 448] medicos Nota
From chemical investigation much has been expected; but
it is now known littte can be obtained. Cullen Mat. Med. pag. 167
ed. de Lond. in-4.
Depois do descobrimento do Dr. Ingen-Rouz Nota
Vej. Experiences sur les
Vegetaux, par M. Ingen. Houz. Paris, 1780, in-8, ou a ultima ediçaõ,
aonde esta materia he tractada com todos os detalhes, que o leytor
pode dezejar.Nota
Ha a
este respeito huma experiencia bem simples; ponha-se hum ramilhete
de flores em hum copo dagoa, cubra se com huma campanula de vidro de
modo que o ar ambiente naõ entre pela base da dicta campanula; as
flores corromperaõ o ar interno de tal modo que se no dia seguinte
mettermos hum pardal dentro da campanula (immediatamente que a
levantarmas) o animal morrera dentro de poucos minutos, e se
mettermos taõbem hum coto de vela accesa no sendo da dicta campanula
se apagara em continente. Veja-se Experiences sur les Vegetaux, que
acima citei. Huma planta ordinariamente vicia huma quantidade de ar
dez vezes maior do que ella.
A idade, e o tempo em que as plantas e suas differentes partes devem ser
colhidas, e o modo de as [Página 449] seccar, e conservar para os usos medicinaes são circumstancias que
naõ devo passar aqui em silencio, viso que podem influir muito sobre as
suas virtudes Nota
Vej. Iacobi Silvii Opera Medica. Colon. Allobrog.
1630. in-fol.; et Georg. Rud. Boehmeri De collectione simplicium
Disput, &c.Nota
As cruciferas e labiadas parecem exceptuar-se desta
regra em razaõ de melhorarem nas suas quasidades por meyo da
cultura.Nota
He
por este motivo que o viscum e polypodium, que se daõ nos carvalhos,
saõ melhores para os usos medicinaes, em razaõ de terem mais
astringencia.
As raizes bolbosas e tuberosas devem ser colhidas na outono; quanto às
outras, muitos pertendem que devem ser arrancadas na primavera, logo que
começaõ a brotar folhas ,
porquanto a seiva que conservaraõ e adquiriraõ no inverno he entaõ
elaborada e lhes dà hum grande vigor, sendo neste periodo succulentas , tenras, carnudas, e bem nutridas; quando pelo
contrario, no outono saõ duras, quasi exsuccas e nimiamente
enfraquecidas de terem nutrido o troço [Página 450] ascendente e suas partes. He difficil de assignar regras geraes a este repeito, sendo certo que
quasi em todas as estaçoes do anno se podem colher boas raizes Nota
As raizes carnudas das plantas annuaes, como as dos rabaõs,
nabos, cenoiras, &c. que se usaõ como hortaliças, podem ser
colhidas em todas as estaçoẽs, contanto que sejaõ tenras e antes
da florecencia, porque neste periodo ficaõ occas ou
esponjosas. As malvaceas, em razaõ de serem usadas como emollientes, devem
taõbem ser colhidas tenras.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas. A casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.
Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar. Os ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ. As folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c. As avenças, polypodios e outras plantas da familia dos fetos devem ser colhidas durante o tempo da florecencia.
O melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica. As antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.
Os fructos ou pericarpos devem apanhar;se no estado de madureza, que naõ seja demasiada, como he a do [Página 452] periodo em que delles cahem as sementes; ha alguns fructos contudo que se apanhaõ verdes, e saõ assim usados em Medicina, mas saõ em pequemo numero ou huma pequena excepçaõ da regra geral.
As sementes devem ser colhidas gradas, e em plena madureza Nota
As excepçoẽs
a esta regra saõ muito poucas em medicina: ha algumas sementes que
servem de alimento, e se apanhaõ indifferentemente verdes ou maduras,
como saõ por ex. as ervilhas e favas; mas estas nutrem menos quando
verdes, aindaque nesse estado saõ menos flatulentas e melhor digeridas.
As sementes que se colherem para semear devem naõ so ser maduras, mas a
sua plantula seminal naõ ter, dano algum sensivel; as melhores saõ as
mais pezadas ou que lançadas em hum copo d'agoa vaõ ao fundo, porquanto
as que ficaõ ao lume d'agoa raras vezes saõ boas; naõ devem ter começado
a grelar, nem ter as cotylédones quebradas, porque aindaque estas duas
condiçoẽs naõ ponhaõ obstaculo á germinaçaõ futura, fazem contudo que o
vegetal que dellas nasce seja pouco vigoroso.
Naõ basta so saber o tempo proprio da colheita dos simples, he precizo taõbem
attender ao modo de os seccar e conservar. Ná desiccaçaõ ou modo de seccar
as plantas o principal objecto he privalas da humidade redundante, a fim de
as podermos guardar hum certo tempo para os usos de medicina. Alguns
recommendaõ de as seccar á sombra, principalmente as que saõ aromaticas,
para que menos percaõ do seu cheiro; mas a experiencia tem mostrado que
quando as seccamos rapidamente ao sol, ou nas estufas, ellas conservaõ assaz
bem o seu cheiro, propriedades, e muito melhor a suas cores; as que tem na
sua [Página 453] composiçaõ muito pouco do principio resinoso, como v. g. as borragineas,
veronica, e herva cidreira, perdem muito da sua virtude sendo seccas á
sombra lentamente, e ficaõ denigridas, por causa da fermentaçaõ que nellas
se estabelece, o que naõ succede quando saõ seccas promptamente ao sol ou
numa estufa Nota
As estufas, ou cubiculos, que se aquecem athe certo grao
por meyo de fornalhas tubuladas, saõ de grande utilidade nos paizes do
norte da Europa para seccar as plantas rapidamente em tempos humidos ou
chuvosos; as melhores, que tenho visto nas cazas dos Boticarios de
Paris, saõ hum cubiculo com tecto e paredes de tabique bem rebocado e de
seis pés quadrados; tem huma porta e janella de vidraças de grandeza
proporcionada; á esquerda da porta está situada a fornalha de ferro ou
barro (a que chamaõ poële) guarnecida de hum tubo de lata de cinco dedos
de diametro, que serve juntamente com a fornalha para estufar o ar do
cubiculo; este tubo he suspendido com arames no tecto do cubiculo, e a
sua extremidade superior sahe por hum buraco aberta na janella para
botar fora o fumo; na porta esta pendurado hum thermometro de mercurio
dividido em 80 graos desde o de congelaçaõ athe o grao de agoa fervendo.
Este instrumento serve para regular o calor da estufa que de ordinario
monta athe 55 ou 60 graos; ha nas paredes, em distancias iguaes de 8 ou
10 pollegadas, varias travessas de pao pregadas, que servem de soster
dois varoẽs de ferro, sobre os quaes se poem as plantas a seccar dentro
de cestas de vime compridas, medeando contudo entre as plantas e as
cestas algumas folhas de papel.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas. Nas estufas ou sobre hum forno de padeira, em que [Página 454] successivamente se coze paõ, a dessiccaçaõ he mais rapida e melhor, por naõ ser interrompida; neste cazo as serapilheiras devem ficar penduradas, para que o ar possa circular livremente, o que naõ sera desacertado practicar taõbem, quando a dessiccaçaõ for feita ao sol.
As raizes, troncos lenhosos, e cascas requerem huma dessicaçaõ mais appressada, em razaõ de conterem mais humidade; quanto às raizes, he precizo antes de as por a seccar alimparlhes a terra com huma serapilheira ou lavando-as rapidamente, cortar-lhes as raigotas filamentosas, partilas longitudinalmente ou transversalmente sendo grossas, e depois polas enfiadas a seccar; as que saõ delgadas naõ precizaõ de se cortar. Ha algumas que costumaõ guardar-se mettidas em area ou terra, como as da althea, escorcioneira, e armoracia, a fim de as conservar frescas; mas deve se advertir que guardadas muito tempo neste estado saõ sujeitas a vegetar e endurecer, e nesta circumstancia devem rejeitar-se como muito pouco efficazes. As raizes bolbosas compostas de cascos, como v. g. a cebola alvaraan, saõ difficeis de bem se seccar ao sol; o melhor sera se parar os seus cascos e mettelos a seccar no banho maria, a querelos ter perfeitamente privados de humidade.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas. As plantas aromaticas saõ susceptiveis de huma rapida dessiccaçaõ; mas he precizo saber regular os graos de calor e proporcionalos á volatilidade dos seus principios odorantes, e à quantidade da humidade. Ellas perdem na verdade [Página 455] durante a dessiccaçaõ, huma pequena porçaõ do seu aroma, e immediatamente depois parecem ter pouco cheiro, mas passados alguns dias amollecem hum tanto e ficaõ bastantemente cheirosas; as que saõ seccas à sombra saõ hum pouco mais aromaticas; porem ficaõ mais humidas, e a sua humidade costuma destruirlhes a cor, e he pouco favoravel à sua conservaçaõ.
As flores costumaõ perder ordinariamente as suas cores na dessiccaçaõ, e para melhor lhas conservar he precizo, embrulhalas em papel e polas assim a seccar; deve-se-lhes conservar o calys, e arrancalo somente depois de passada a dessiccaçaõ, quando assim for necessario como nas violettas; os cravos, e rosas vermelhas parecem ser huma excepçaõ desta regra, porquanto so se costumaõ seccar as suas petalas, e ainda estas mesmas saõ antes privadas das unhas. Os fructos ordinariamente costumaõ por-se a seccar naõ muito maduros.
As sementes consideradas relativamente aos principios, e consistencia das
suas cotylédones podem ser divididas em oleosas, farinhosas e resinosas; as
oleosas propriamente saõ aquellas de que se pode tirar oleo por expressaõ,
como v. g. as do melaõ, melancia, abobara, pepino, nogueira, amendoeiras,
nabos, &c.; as farinhosas saõ as que naõ daõ oleo por expressaõ, e se
reduzem facilmente em po ou farinha, como o trigo, cevada, milho, favas,
ervilhas, tramoços, e outras da familia das gramineas, e das leguminosas; as
resinosas saõ aquellas em que o principio resinoso he predominante. As
sementes contem em geral menos humidade do que as demais partes das plantas,
e porisso basta polas a seccar em lugar secco e hum [Página 456] pouco quente; as farinhosas Nota
Em alguns paizes do norte da Europa
costumaõ seccar o trigo em estufas afim de o poderem bem conservar para
o uso domestico, e ainda mesmo para semear.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor. Ha muitos simples, que podem conservar-se muitos annos sem corrupçaõ, principalmente quando foraõ colhidos em annos favoraveis, mas os melhores em geral seraõ sempre aquelles que se renovarem todos os annos.
As sementes em geral conservaõ-se bem nos lugares seccos c frescos; as
oleosas costumaõ nos lugares humidos germinar dentro de pouco tempo, e
apanhar [Página 457] môfo, e nos lugares quentes adquirem ranço; porisso he necessario
conservalas em lugares seccos e temperados; as farinhosas saõ sujeitas às
mesmas alteraçoẽs nos lugares humidos, e nos quentes seccaõ-se
demasiadamente porisso sera acertado de as conservar quasi do mesmo modo; as
resinosas aindaque resistaõ mais tempo à humidade e se alterem menos com o
calor, contudo o melhor sera conservalas em lugares temperados. Guardaõ-se
embrulhadas em papel, em cabaços, saccos, frascos bem tapados,
&c. Nota
As sementes, que se guardaõ muito tempo em frascos tapados
sem serem barradas de cebo ou cera, saõ ordinariamente inuteis para a
vegetaçaõ; a humidade e gaz, que ellas exhalaõ dentro do frasco, e a
falta de renovaçaõ do ar interno saõ, segundo Pullein, a principal causa
da sua corrupçaõ.
Para se poderem conservar para a vegetaçaõ e remetter a paizes remotos, sem
que sejaõ alteradas nas longas viagens de mar, Linneo aconselha de as metter
em hum frasquinho cylindrico de vidro tapado com huma rolha de cortiça
envolta em hum boccado de pelle, e que depois disso se ponha este frasquinho
dentro de outro hum tanto mais largo, havendo o cuidado de encher o espaço,
que medea entre hum e outro, com hum misto feito de partes iguaes de sal
commum, e sal ammoniaco com o quadobro de [Página 458] nitro, assegurando que desta maneira o calor naõ pode de modo algum chegar
a penetralas. Alguns costumaõ cobrilas de assucar quando ellas tem hum
pericarpo polposo; outros cobrem-nas de cera, e barraõ-nas depois com
argilla amassada em huma dissoluçaõ forte de goma Arabia, embrulhaõ-nas
emfim em hum encerado, e as remettem dentro de huma caxa ou barril. Alguns
aconselhaõ taõbem de as cobrir de cebo ou de hum misto de partes iguaes de
cera e cebo, quando saõ grossas, e sendo miudas, de as involver primeiro em
argilla e depois em cebo, cera, &c.; a operaçaõ consiste em tomalas com
huma pequena tenaz e mettelas em cera ou cebo que nade derretido na
superficie de agoa quente, tirando-as immediatamente e lançando-as em agoa
fria. A cera ou qualquer tegumento artificial, com que as sementes forem
cobertas, naõ devem ser despegados, senaõ quando estas se quizerem semear;
neste periodo raspar-se-haõ às mais grossas os dictos tegumentos com toda a
cautella, e lavar-se-haõ as mais miudas em sabaõ e area fina, athe que a
casca fique livremente exposta ao contacto do ar e capaz de embeber a
humidade, e semear-se-haõ sem mais demora Os que dezejarem ter mais
extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados
seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the
East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on
the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis
pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel.
- Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della
perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens
traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio
frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi.
Viennae. 1765. As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente
preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em
agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em
as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da
electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado,
principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia
de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo
individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a
este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum
semine.Nota
Eu devera passar actualmente a tractar dos usos [Página 459] economicos dos vegetaes, mas como a extensaõ desta materia ainda mesmo
tractada em geral me faria exceder os curtos limites de hum Compendio,
deixala-hei aos que se occupaõ dos differentes ramos da Botanica applicada
ás artes. Ninguem ignora que os vegetaes, alem dos usos que tem em Medicina,
saõ empregados nos da Architectura civil, militar, e naval, subministraõ ao
homem huma grande diversidade de alimentos e bebidas, nutrem muitos animaes
que lhe saõ uteis, saõ a materia de que elle forma innumeraveis trastes
domesticos, instrumentos, vasilhas, &c servem nas tinturarias, e
manufacturas, em huma palavra saõ, como ninguem duvida, o fundamento da
Agricultura, a mais preciosa de todas as artes Nota
He huma maxima hoje
assaz bem reconhecida, que a Agricultura sendo animada he o verdadeiro
fundamento da provoacaõ e força dos Imperios; o solido esteio em que se
sostem as manufacturas, artes, e commercio, a fonte de que emana a sua
firme prosperidade; o thesoiro e verdadeiras minas de qualquer estado; o
unico meyo de enriquecer de contino tanto o vassalo como o soberano; e
emfim o melhor regresso para poder pagar as dividas publicas, e naõ
contrahir outras. Quesnay, Bandini, Boisgillebert, &c.
HUM hervario (herbarium) he huma collecçaõ de plantas seccas estendidas sobre
papel, ou nelle estampadas bem ao natural, e dispostas methodicamente. O
primeiro pode ser chamado hervario naturas e o segundo artificial, como he o
das plantas de França que M. Bulliard publicou e vay continuando. Hum e
outro saõ summamente uteis e necessarios a todos os que cultivaõ o estudo
dos vegetaes. Elles servem de nos fazer conservar por hum meyo commodo as
ideas das plantas, que ja temos observado, e nos conduzem com os systemas a
reconhecer sem hesitaçaõ os nomes das plantas, que jamais se tinhaõ
presentado vivas a nossos olhos. Alguns Botanicos preferem os herbarios
naturaes aos artificiaes; huns e outros tem suas vantagens e seus
inconvenientes; a maior parte das raizes, os fructos, e sementes, hum
grande numero de especies da familia do fungos, e plantas succulentas Nota
Ha algumas plantas succulentas , que se podem
conservar nos hervarios naturaes, mas ficaõ summamente
desfiguradas. Nota
Aindaque as flores e suas partes podem ser conservadas em
espirito de vinho, este modo naõ me parece contudo merecer de
ser perferido ao das estampas fieis, porquanto estas saõ mais
duraveis e mais livres de engano.
Todos os que se propoem de estudar Botanica devem começar por fazer huma
collecçaõ de plantas seccas: depois de terem ajuntado hum certo numero
nas herborizaçoẽs Nota
As herborizaçoẽs (herbationes, s. herborizationes) saõ passeios
ou caminhadas, que se fazem para apanhar ou observar plantas;
dizemse publicas, quando saõ feitas (hum dia na semana) na
companhia de hum professor de Botanica; e particulares, quando
naõ saõ presididas pelo dicto professor, como quando alguem
herboriza so, ou com hum hervolario, jardineiro, dois ou tres
amigos instruidos em Botanica, &c. Este era o principal divertimento do celebre philosopho Rousseau,
e de muitos outros; com effeito as plantas e flores dos campos
seraõ sempre o mais aprazivel objecto de meditaçoẽs do homem
sabio, que nellas encontra de contino evidentes provas da
immensa sabedoria do Deos da natureza. Nota
Nomenclar huma planta he dar-lhe o seu nome generico e especifico
(ou trivial) segundo hum systema adoptado; os principiantes
deveraõ para este fim consultar o seu professor, ou algum dos
seus condiscipulos bastantemente instruidos no conhecimento das
plantas do paiz, e naõ confiar na nomenclatura dos jardins
botanicos, que muitas vezes he errada por incuria ou ignorancia
dos jardineiros.
Ninguem deve esperar de poder conservar huma planta com toda a sua natural
belleza, seja qual for o modo de dessiccaçaõ que se haja de practicar;
porquanto ainda às mais bem dessiccadas perdem muito da sua fresca
apparencia. As dessiccaçoẽs, de que se servem os botanicos para conservar as
plantas no mais perfeito estado, que lhes he possivel, saõ feitas ou em area
ou por compressaõ. A dessiccaçaõ em area, attribuida a Joaõ Rodolpho
Camerario, consiste na operaçaõ seguinte. Lave-se huma sufficiente
quantidade de area fina afim de a privar de materias heterogeneas,
seque-se depois, e peneire-se para separar as partes grosseiras, de que
a lavagem a naõ pôde privar; feito isto, escolha-se para cada [Página 463] planta hum vaso de barro de forma e grandeza competente; escolha-se
taõbem a mais bella especie das plantas que se tiver ápanhado com flor,
em tempo secco e com hum tronco sufficiente: lance-se no fundo do vaso
huma pouca de area secca e quente e metta-se nelle a base do tronco da
planta destinada á dessiccaçaõ, sostentando-a com a area de modo que
nenhuma das partes da planta toque nas paredes lateraes do vazo,
continue-se a lançar area pouco a pouco athe cobrir a planta de maneira
que fique por cima della quasi a grossura de dois dedos de area; á
proporçaõ que esta se for lançando, ter-sehá o cuidado de estender os
ramos, folhas , e flores, sem
contudo as constranger, e de modo que fiquem na sua configuraçaõ, e
postura natural. Concluido este trabalho, ponha-se o vaso em huma estufa de cincoenta
graos de calor ou pouco menos Nota
Alguns em lugar de metter os vazos
em estufas costumaõ expolos ao ardor do sol, mas o calor das estufas
merece de ser preferido em razaõ de fazer a dessiccaçaõ mais
rapidamente. Nesta sorte de operaçaõ huma grande parte da materia
colorante das flores he ordinariamente bem conservada: as petalas
algumas vezes costumaõ despegar-se, principalmente quando o germe he
grosso como na tulipa, e porisso muitos costumaõ cortalo antes de
enterrar a flor na area, assegurando que por este meyo ellas
conservaõ bem a sua adherencia.
Aindaque as plantas assim dessiccadas conservem bem a sua forma de maneira
que porisso alguns lhes chamaõ mumias vegetaes, contudo tem o defeito de
ficarem mais volumosas e quebradiças, do que as [Página 464] dessiccadas por compressaõ, e porisso este segundo meyo he
ordinariamente hoje preferido, principal mente por ser mais simples, e
capaz de conservar as cores Nota
Ha algumas flores, de que he difficil
poder conservar a substancia colorante; as violettas saõ deste
numero, e o melhor modo, de que alguns se servem para lhes conservar
a cor, he escaldando-as em agoa fervendo, retirando-as
immediatamente, espremendo-as e seccando-as depois
rapidamente.Nota
O modo de seccar as plantas que proponho he exactamente
o mesmo que practicava o celebre Joaõ Jacques Rousseau, cujos
hervarios foraõ summamente admirados em Paris pela bella dessiccaçaõ
de suas plantas. Ha ainda outros modos mais simples, mas naõ me
parecem satisfazer ao intento taõ perfeitamente como o que exponho
aqui.Nota
Este papel he destinado para
estender as plantas depois de seccas e servir no hervario; e porisso
deve ser preparado do modo sobredicto a fim de contribuir para
preservar as plantas de serem roidas pelos insectos. Alguns molhaõ
este papel em huma preparaçaõ de aloe, alcanfor, plantas amargosas,
aromaricas, &c. e preferem esta preparaçaõ á da pedra hume, que
segundo elles altera a cor das flores mas eu naõ pude ainda observar
esta mudança, quando as flores tem sido antes bem
dessicadas.Nota
Alguns costumaõ em lugar das duas taboas servir-se do prelo em
que os livreiros costumaõ levemente apertar os livros somente
cozidos, a que chamaõ em França brochures; e na verdade este
instrumento he assaz commodo para regular a compressaõ. Nota
Assim como ha plantas que basta mudalas duas vezes de papel para
ficarem seccas, ha taõbem outras que precizaõ de ser mudadas ao
menos seis vezes para perderem a sua humidade; as que saõ succulentas precizaõ de ser mudadas de papel mais a
miudo, e requerem huma dessiccaçaõ tanto mais accelerada, quanto
maior he a abundancia dos seus succos.
Depois que as partes da planta tiverem perdido a sua flexibilidade por meyo
das operaçoẽs feitas no papel pardo e papelloẽs, e que nos parecerem estar
seccas, passar-se-ha a dicta planta a huma folha de papel branco (n. 3º), e
se deixará ficar nelle ainda alguns dias a fim de perder completamente a
humidade, que nos pode ter escapado de perceber. Terminada assim a
dessiccaçaõ por-se há a planta em huma folha de papel branco competente
(n. 4º), e nelle se firmará o seu tronco, ramos, e ainda mesmo as folhas maiores, com fittinhas, ou
pequenas tiras estreitas de papel pegadas com colla de peixe Nota
Alguns naõ usaõ das tiras de papel, ou pedacinhos de fitta, e
collaõ na folha todo o corpo da planta com colla de peixe; mas
este modo naõ deixa o papel taõ aceado como o sobredicto. Os organos da fructificaçaõ, que convem de ajuntar (sendo
possivel) a cada planta, devem ser dessiccados á parte, e se
collaraõ depois, ao lado da planta a que pertencem.Nota
A descripçaõ
historica trabalhada em toda a extensaõ, de que he susceptivel, deve
ser feita em cadernos separados, por naõ fazer os hervarios
demasiadamente volumosos.
Tanto que se houver dessiccado do modo sobredicto hum certo numero de
plantas sufficiente para começar a fazer hum hervario, distribuir-se-haõ
me thodicamente, isto he, por-se-haõ todas as congeneres seguidas
successivamente Nota
No cazo que se hajaõ dessiccado algumas
variedades, terse-ha o cuidado de as por immediatamente depois da
sua especie respectiva.Nota
Os generos de cada
ordem, que tiverem mais affinidade, devem ficar approximados.Nota
As brochuras (do Franc. brochure) saõ, como
ja indiquei, livros somente cozidos, e levemente apertados; as suas
folhas naõ foraõ batidas nem aparadas, e se usaõ assim em Franca
cobertos com huma capa de duas folhas de papel colladas.Nota
Elle podera conter dobrado numero de plantas, se lhe derem
dobrada largura da que proponho aqui, como se entende
facilmente.
O vaõ, ou espaço interno do armario deve ter de altura cinco pés e dez pollegadas (medida de Paris), quasi dois pés de largo, e pouco mais de hum pé de fundo. Repartir-se-ha este vaõ em duas metades iguaes ao alto por meyo de duas taboas aprumadas, formar-se-haõ nas dictas duas metades vinte e quatro parteleiras por meyo de travessas ou taboinhas horizontaes da grossura de meya pollegada. No lado direito haveraõ onze parteleiras e dez travessas. Cada huma destas parteleiras he destinada a receber as bocetas de plantas relativas a cada huma das vinte e quatro classes do systema mencionado, e devem ter mais ou menos pollegadas de altura, segundo o menor ou maior numero de vegetaes que costumaõ ter as dictas classes. A sua destribuiçaõ e altura adequada deve ser da maneira seguinte.
[Página 469]A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6Este armario sera fechado com duas portas correspondentes aos dois lados sobredictos, e em cada huma dellas se poraõ tantos lettreiros quantas forem as parteleiras do seu lado. Cada lettreiro deve conter o nome de huma das vinte e quatro classes do systema de Linneo, ser escrito com lettras bem legiveis, e collado exactamente defronte da parteleira, que deve conter a boceta notada com outro lettreiro semelhante.
Reclusas as pantas seccas nas bocetas, e estas nas parteleiras respectivas do
Armario construido do modo que fica exposto, naõ havera difficuldade alguma
em achar dentro de poucos minutos huma planta que dezejamos mostrar. Supponhamos por ex. que quero mostrar a hum Botanico a Cleonia
lusitanica; se me esqueço da classe, consulto o Genera plantarum de
Linneo, e pelo index venho em continente a conhecer que esta planta
pertence á Didynamia; lanço por conseguinte a vista sobre os lettreiros
collados nas portas do armario Nota
Pode-se abbreviar ainda esta
pesquiza procurando directamente a Didynamia gymnospermia nos
lettreiros postos na face anterior das bocetas, no cazo que sejaõ
escritos com lettras taõ grandes, como as dos lettreiros das portas
do armario; demais disso hum pouco de uso bastará para fazer
derepente lançar maõ da boceta relatira à classe e ordem que
buscamos.
Em quanto o numero dos vegetaes geralmente conhecidos foy facil de reter de memoria, ou reduzido somente aos curtos limites de huma materia medica, naõ conhecemos que houvesse destribuiçaõ alguma, que merecesse o nome de systema ou methodo; tal foy o estado da Botanica entre os antigos Gregos e Romanos, e na idade media athe à restauraçaõ das lettras na Europa. Depois desta epoca o numero dos vegetaes conhecidos tendo consideravelmente augmentado, Cesalpino vendo claramente que sem huma disposiçaõ methodica senaõ podia adiantar o estudo dos entes do reyno vegetal, imaginou hum systema, com que os tirou do informe cahos em que jaziaõ; outros sabios seguiraõ depois o seu exemplo, e hoje os systemas em Botanica saõ de huma necessidade absoluta.
A Botanica no estado actual, em que se acha, naõ so costuma tractar dos termos technicos, que conduzem a fazer conhecer hum vegetal por meyo deste ou daquelle systema, mas igualmente ensina em geral o que he hum systema ou methodo Botanico, [Página 277] e como elle se costuma destribuir segundo as regras da boa critica. Estas relaçoẽs e partes didacticas parecem ser inseparaveis em qualquer bom tractado elementar desta sciencia; porque se hum verdadeiro Botanico naõ somente se deve achar em estado de poder entender todos os systemas relativos aos vegetaes, mas taõbem de poder traçar novos; a Botanica por conseguinte deve naõ menos empregarse no que contribue a comprehendelos do que a formalos.
Hum systema ou methodo em Botanica (systema, s. methodus) he hum corpo de
doutrina composto de certo numero de generos supremos, e subalternos que
conduzem gradativamente ao destincto conhecimento das especies vegetaes. Os
generos supremos saõ chamados classes; os subalternos ordinariamente saõ
dois, huns medios chamados ordens, e outros infimos denominados simplezmente
generos; estes ultimos contem as especies, e estas as suas variedades. Em
certo modo hum systema pode comparar-se Nota
Esta comparaçaõ, ainda que naõ
he em tudo exacta, naõ deixa contudo de contribuir para fazer conhecer a
progressaõ das destribuiçoẽs dos systemas.
Mas para proceder com mais clareza, e dar ideas mais exactas dos systemas
Botanicos, devo advertir que todos os que athe agora se tem imaginado podem
ser reduzidos a tres sortes, a saber, systemas naturaes, artificiaes, e
mixtos de naturaes e artificiaes. No systema natural Nota
Este methodo
he chamado natural por conservar as affinidades das plantas do modo
que a natureza nolas prezenta aos olhos; mas nenhum dos que athe
agora se tem publicado he livre de defeitos, nem merece no rigor do
termo o home de methodo da natureza. Os me thodos e systemas, diz
acertadamente M. de la Mark, saõ como os nomes, nem huns nem outros
se achaõ naturalmente nas plantas.Nota
Esta clave dos systemas naturaes deve ser o catalogo
dos titulos das familias naturaes; mas ordinariamente como as
familias saõ numerosas os systematicos Naturistas por querer
simplilicala e abbreviala, reunem as classes naturaes a hum pequeno
numero de classes primarias, as quaes de ordinario saõ fundadas em
huma so nota caracteristica, e por este modo o seu methodo vem a
ficar mixto.Nota
A
clave de qualquer systema, segundo alguns botanicos, he
rigorosamente huma tabella synoptica, e requer esta condiçaõ para
ser boa; mas se o numero das classes he pequeno, a clave pode ser
facil sem ser distribuida synopticamente.Nota
Este systema naõ he puramente artificial, o seu Autor
trabalhou primeiramente nos generos, a que chama naturaes, e depois
servio-se delles empregando-os em classes e ordens artificiaes;
donde nasce hum dos grandes defeitos do dicto systema, havendo
muitos generos, cujas especies naõ tem geralmente o caracter da
ordem ou da classe, e ás vezes mesmo nem o da classe nem o da ordem
(como v. g. o polygonum persicaria.) Alem disso a classe cryptogamia
naõ tem relaçaõ com as demais; os caracteros naõ saõ tirados dos
organos sexuaes, nesta classe, e algumas das suas ordens saõ
proprias de hum methodo natural.
O methodo synthetico he o que conserva mais as affinidades, e o que se chega mais à natureza, mas as suas divisoẽs saõ sujeitas a serem longas e difficeis; nos seus titulos parece haver falta de nexo, os caracteres dos generos parecem obscuros e confusos; as razoẽs de affinidade saõ tiradas de muitas partes, e jamais de huma so ou de poucas, donde resulta que elle so costuma agradar aos que estaõ ja adiantados em Botanica. O methodo analytico ou artificial he opposto à natureza, dissolve e sacrifica ás suas leys as affinidades, e as plantas de huma classe ou ordem natural se achaõ nelle misturadas com as da artificial ou arbitraria. Sem embargo disto, he o mais simplez e facil, serve de hum grande soccorro á memoria e conduz ao conhecimento das plantas por hum caminho plano e abbreviado. Por esta razaõ, e porque as suas divisoẽs genericas saõ estabelecidas sobre o exame de huma das partes das plantas, e agrada mais aos principiantes (que naõ gostaõ nem entendem ordinariamente as grandes combinaçoẽs de caracteres) sem deixar contudo de agradar taõbem e de ser bastantemente util ainda mesmo aos Botanicos consumados; mas para agradar a estes he precião que elle guarde exactamente as suas leys.
[Página 281]Ha taõbem huma sorte de distribuiçaõ analytica chamada synoptica (divisio
synoptica, s. synopsis), que consta de divisoẽs semelhantes ás ramificaçoẽs
das taboas genealogiças, mais ou menos longas, mais ou menos numerosas, sem
limites certos genericos, ou sem se limitarem a classes, ordens, generos e
especies, como as dos systemas ou methodos artificiaes ordinarios. Linneo Nota
Lin. Phil. Botan. n. 153 et 154.Nota
A destribuiçaõ synoptica he taõbem empregada na clave dos
systemos para facilitar a achar as classes.
Todos os methodos e systemas que athe agora se tem imaginado em Botanica saõ mais ou menos defeituosos, e naõ me parece possivel que possa haver algum sem imperfeiçoẽs. Alguns Botanicos saõ de parecer que todos os entes do reino vegetal, que se achaõ proxima, ou remotamente dispersos sobre a face do nosso Globo, formao entre si huma cadea, e fazem parte de hum todo progressivo; que cada individuo pertence a esta cadea em geral, e ao mesmo tempo em particular a huma especie, as especies a generos naturaes, estes a familias naturaes, e que estas familias formaõ gradativamente hum todo encadeado que constitue à clave do verdadeiro methodo natural, em cuja investigaçaõ se devem occupar todos os botanicos, por naõ haver outro na natureza. Elles accrescentaõ que este methodo fora traçado pelo Autor da natureza, cuja profunda sabedoria vinculou todos os entes do universo huns com os outros, e cada hum delles com o todo; que se por ora o naõ podemos plena e perfeitamente perceber, o descobriremos quando tivermos as descripçoes de todas as plantas, que ha no [Página 283] globo terrestre; que prezentemente basta para nos convencer disto observar a gradaçaõ das plantas imperfeitas ás perfeitas, e os fragmentos do dicto methodo natural assaz bem reconhecidos nas familias naturaes das gramas, labiadas, leguminosas, umbrelladas, cruciferas, e algumas outras de que tractaõ os systemas naturaes, os quaes segundo elles naõ saõ outra coiza mais do que pequenos esforços que dirigem a descobrir o verdadeiro methodo natural. Contudo na opiniaõ de outros Botanicos semelhante methodo he o mesmo que a pedra philosophica: admittindo, dizem elles, que senaõ tenhaõ perdido especies nas vastas inundaçoẽs, volcanos e outras revoluçoes do nosso Globo, e que os entes do todo o reyno vegetal se achem encadeados huns com os outros, e cada hum delles com o todo, nem porisso podemos esperar de chegar a ter esse perfeito methodo denominado o unico da natureza; antes pelo contrario isso mesmo parece opporse a obtelo. Essa cadea, ou laço com que os entes vegetaes saõ viculados, naõ saõ outra coiza mais do que as suas affinidades; ora estas affinidades, seraõ sempre irremediaveis obstaculos á perfeiçaõ de qualquer methodo ou systema.
A progressaõ das affinidades, em qualquer me thodo que se pode idear, ou he
synthetica ou anaIytica, em linha de ascenso ou de descenso: a progressaõ
analytica naõ pode ter lugar em hum methodo natural, e a synthetica sera
sempre insufficiente á sua perfeiçaõ. Na supposiçaõ dada, a natureza poz
laços naõ equivocos entre todos os entes vegetaes: por conseguinte naõ poz
balizas nas classes nem em generos alguns, e os seus limites seraõ sempre [Página 284] inconstantes. Se olhamos attentamente para cada hum dos caractéres das
plantas de classes assaz analogaa entre si, e denominadas naturaes, vemos
que posto que existem na maior parte dellas, faltaõ contudo em algumas, que
saõ muito poucas as que tem todos os caracteres constantemente O
lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as
plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla
alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as
labiadas, tem a corolla de hum so labio. As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia
natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames
senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes
Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados
como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha
tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos
pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a
vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim,
ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha
plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto
ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum,
phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.Nota
Sem embargo de que este ultimo sentimento seja assaz provavel, contudo naõ se
segue que devamos abandonar inteiramente o projecto de trabalhar em hum
methodo natural o mais perfeito que nos for possivel. Todos os grandes
Botanicos saõ deste parecer Nota
Haller, Adanson, Jussieu, e Linneo saõ
entre os modernos os que fizeraõ as melhores tentativas, que dirigem a
este methodo; mas desgraçadamente naõ saõ inteirameite concordes nas
metas e generos das suas familias naturaes.
Naõ se segue igualmente que devamos desterrar de Botanica qualquer sorte de systema artificial, e que devamos so occuparnos em fazer methodos naturaes que conduzaõ à perfeiçaõ do methodo dezejado. Os principiantes naõ podem passar sem hum systema artificial, elles naõ se embaraçaõ com affinidades, nem com gradaçoẽs naturaes, e so dezejaõ saber por meyo de poucas operaçoẽs o nome da planta, que encontraõ misturada com outros individios numerosos [Página 286] e de formas differentes. Pelo que sera sempre necessario nas escolas naõ empregar outra sorte de systemas para os introduzir ao estudo de Botanica. Os diversos systemas artificiaes foraõ a causa do progresso que tem feito a Bolanica; cada systematico foy obrigado a observar de novo todos os vegetaes ja observados, a verificar os caracteres conhecidos, e a forcejar por descobrir outros adequados ao seu systema; donde resultou que muitas partes e notas caracteristicas, que dantes tinhaõ sido desprezadas, foraõ bem descriptas, contribuiraõ para melhor fazer reconhecer as affinidades, e enriqueceraõ a Botanica. Os systemas analyticos asem de contribuirem para o adiantamento da Botanica seraõ sempre huns catalogos judiciozos e uteis, pela sua simplicidade, pela brevidade das suas gradaçoẽs, e por ajuntarem os materiaes destinados á construcçaõ de hum bom methodo natural, os quaes hum genio feliz enriquecido de observaçoẽs podera algum dia vir a por em execuçaõ; e ainda mesmo no cazo de termos hum bom methodo natural naõ deixaraõ de servir de ajudarnos juntamente com elle para achar os nomes das plantas com maior certeza e segurança. Eu naõ sou do parecer dos que dizem que basta que haja hum so systema artificial em Botanica, e que os Botanicos deveraõ cuidar em aperfeiçoar hum dos que existem e seguilo geralmente, abando nados todos os outros, por mais aperfeiçoado que seja hum systema artificial tera sempre seus lugares obscuros, seus lados fracos, e naõ sera izento de difficuldades. Nem sempre as partes, que vemos em huma planta, que queremos conhecer, saõ as que servem de fundamento ao systema que seguimos; as [Página 287] que nos podiaõ servir, muitas vezes naõ se achaõ em madureza, ou tem passado; contudo as dictas partes que vemos saõ assaz sufficientes em outro systema para nos fazer conhecer a planta. As notas caracteristicas de hum genero saõ muitas vezes assaz custosas de se perceberem por hum systema, ao mesmo tempo que os caracteres do mesmo genero saõ bastantemente claros e faceis em outro systema. Hum estame abortado, ou supranumerario basta para embaraçar os que usaõ de hum systema sexual, e naõ sabem valerse de outro; em summa, as difficuldades que se achaõ em hum systema podem vencerse com o uso de muitos juntos. Donde resulta, que sem embargo de que demos a preferencia a hum systema, naõ devemos deprezar os mais, principalmente se elles seguem exactamente as suas leys, e saõ formados segundo as regras da boa critica.
Em quanto o numero dos vegetaes geralmente conhecidos foy facil de reter de memoria, ou reduzido somente aos curtos limites de huma materia medica, naõ conhecemos que houvesse destribuiçaõ alguma, que merecesse o nome de systema ou methodo; tal foy o estado da Botanica entre os antigos Gregos e Romanos, e na idade media athe à restauraçaõ das lettras na Europa. Depois desta epoca o numero dos vegetaes conhecidos tendo consideravelmente augmentado, Cesalpino vendo claramente que sem huma disposiçaõ methodica senaõ podia adiantar o estudo dos entes do reyno vegetal, imaginou hum systema, com que os tirou do informe cahos em que jaziaõ; outros sabios seguiraõ depois o seu exemplo, e hoje os systemas em Botanica saõ de huma necessidade absoluta.
A Botanica no estado actual, em que se acha, naõ so costuma tractar dos termos technicos, que conduzem a fazer conhecer hum vegetal por meyo deste ou daquelle systema, mas igualmente ensina em geral o que he hum systema ou methodo Botanico, [Página 277] e como elle se costuma destribuir segundo as regras da boa critica. Estas relaçoẽs e partes didacticas parecem ser inseparaveis em qualquer bom tractado elementar desta sciencia; porque se hum verdadeiro Botanico naõ somente se deve achar em estado de poder entender todos os systemas relativos aos vegetaes, mas taõbem de poder traçar novos; a Botanica por conseguinte deve naõ menos empregarse no que contribue a comprehendelos do que a formalos.
[Página 277]Hum systema ou methodo em Botanica (systema, s. methodus) he hum corpo de
doutrina composto de certo numero de generos supremos, e subalternos que
conduzem gradativamente ao destincto conhecimento das especies vegetaes. Os
generos supremos saõ chamados classes; os subalternos ordinariamente saõ
dois, huns medios chamados ordens, e outros infimos denominados simplezmente
generos; estes ultimos contem as especies, e estas as suas variedades. Em
certo modo hum systema pode comparar-se Nota
Esta comparaçaõ, ainda que naõ
he em tudo exacta, naõ deixa contudo de contribuir para fazer conhecer a
progressaõ das destribuiçoẽs dos systemas.
Mas para proceder com mais clareza, e dar ideas mais exactas dos systemas
Botanicos, devo advertir que todos os que athe agora se tem imaginado podem
ser reduzidos a tres sortes, a saber, systemas naturaes, artificiaes, e
mixtos de naturaes e artificiaes. No systema natural Nota
Este methodo
he chamado natural por conservar as affinidades das plantas do modo
que a natureza nolas prezenta aos olhos; mas nenhum dos que athe
agora se tem publicado he livre de defeitos, nem merece no rigor do
termo o home de methodo da natureza. Os me thodos e systemas, diz
acertadamente M. de la Mark, saõ como os nomes, nem huns nem outros
se achaõ naturalmente nas plantas.Nota
Esta clave dos systemas naturaes deve ser o catalogo
dos titulos das familias naturaes; mas ordinariamente como as
familias saõ numerosas os systematicos Naturistas por querer
simplilicala e abbreviala, reunem as classes naturaes a hum pequeno
numero de classes primarias, as quaes de ordinario saõ fundadas em
huma so nota caracteristica, e por este modo o seu methodo vem a
ficar mixto.Nota
A
clave de qualquer systema, segundo alguns botanicos, he
rigorosamente huma tabella synoptica, e requer esta condiçaõ para
ser boa; mas se o numero das classes he pequeno, a clave pode ser
facil sem ser distribuida synopticamente.Nota
Este systema naõ he puramente artificial, o seu Autor
trabalhou primeiramente nos generos, a que chama naturaes, e depois
servio-se delles empregando-os em classes e ordens artificiaes;
donde nasce hum dos grandes defeitos do dicto systema, havendo
muitos generos, cujas especies naõ tem geralmente o caracter da
ordem ou da classe, e ás vezes mesmo nem o da classe nem o da ordem
(como v. g. o polygonum persicaria.) Alem disso a classe cryptogamia
naõ tem relaçaõ com as demais; os caracteros naõ saõ tirados dos
organos sexuaes, nesta classe, e algumas das suas ordens saõ
proprias de hum methodo natural.
O methodo synthetico he o que conserva mais as affinidades, e o que se chega mais à natureza, mas as suas divisoẽs saõ sujeitas a serem longas e difficeis; nos seus titulos parece haver falta de nexo, os caracteres dos generos parecem obscuros e confusos; as razoẽs de affinidade saõ tiradas de muitas partes, e jamais de huma so ou de poucas, donde resulta que elle so costuma agradar aos que estaõ ja adiantados em Botanica. O methodo analytico ou artificial he opposto à natureza, dissolve e sacrifica ás suas leys as affinidades, e as plantas de huma classe ou ordem natural se achaõ nelle misturadas com as da artificial ou arbitraria. Sem embargo disto, he o mais simplez e facil, serve de hum grande soccorro á memoria e conduz ao conhecimento das plantas por hum caminho plano e abbreviado. Por esta razaõ, e porque as suas divisoẽs genericas saõ estabelecidas sobre o exame de huma das partes das plantas, e agrada mais aos principiantes (que naõ gostaõ nem entendem ordinariamente as grandes combinaçoẽs de caracteres) sem deixar contudo de agradar taõbem e de ser bastantemente util ainda mesmo aos Botanicos consumados; mas para agradar a estes he precião que elle guarde exactamente as suas leys.
[Página 281]Ha taõbem huma sorte de distribuiçaõ analytica chamada synoptica (divisio
synoptica, s. synopsis), que consta de divisoẽs semelhantes ás ramificaçoẽs
das taboas genealogiças, mais ou menos longas, mais ou menos numerosas, sem
limites certos genericos, ou sem se limitarem a classes, ordens, generos e
especies, como as dos systemas ou methodos artificiaes ordinarios. Linneo Nota
Lin. Phil. Botan. n. 153 et 154.Nota
A destribuiçaõ synoptica he taõbem empregada na clave dos
systemos para facilitar a achar as classes.
Todos os methodos e systemas que athe agora se tem imaginado em Botanica saõ mais ou menos defeituosos, e naõ me parece possivel que possa haver algum sem imperfeiçoẽs. Alguns Botanicos saõ de parecer que todos os entes do reino vegetal, que se achaõ proxima, ou remotamente dispersos sobre a face do nosso Globo, formao entre si huma cadea, e fazem parte de hum todo progressivo; que cada individuo pertence a esta cadea em geral, e ao mesmo tempo em particular a huma especie, as especies a generos naturaes, estes a familias naturaes, e que estas familias formaõ gradativamente hum todo encadeado que constitue à clave do verdadeiro methodo natural, em cuja investigaçaõ se devem occupar todos os botanicos, por naõ haver outro na natureza. Elles accrescentaõ que este methodo fora traçado pelo Autor da natureza, cuja profunda sabedoria vinculou todos os entes do universo huns com os outros, e cada hum delles com o todo; que se por ora o naõ podemos plena e perfeitamente perceber, o descobriremos quando tivermos as descripçoes de todas as plantas, que ha no [Página 283] globo terrestre; que prezentemente basta para nos convencer disto observar a gradaçaõ das plantas imperfeitas ás perfeitas, e os fragmentos do dicto methodo natural assaz bem reconhecidos nas familias naturaes das gramas, labiadas, leguminosas, umbrelladas, cruciferas, e algumas outras de que tractaõ os systemas naturaes, os quaes segundo elles naõ saõ outra coiza mais do que pequenos esforços que dirigem a descobrir o verdadeiro methodo natural. Contudo na opiniaõ de outros Botanicos semelhante methodo he o mesmo que a pedra philosophica: admittindo, dizem elles, que senaõ tenhaõ perdido especies nas vastas inundaçoẽs, volcanos e outras revoluçoes do nosso Globo, e que os entes do todo o reyno vegetal se achem encadeados huns com os outros, e cada hum delles com o todo, nem porisso podemos esperar de chegar a ter esse perfeito methodo denominado o unico da natureza; antes pelo contrario isso mesmo parece opporse a obtelo. Essa cadea, ou laço com que os entes vegetaes saõ viculados, naõ saõ outra coiza mais do que as suas affinidades; ora estas affinidades, seraõ sempre irremediaveis obstaculos á perfeiçaõ de qualquer methodo ou systema.
[Página 283]A progressaõ das affinidades, em qualquer me thodo que se pode idear, ou he
synthetica ou anaIytica, em linha de ascenso ou de descenso: a progressaõ
analytica naõ pode ter lugar em hum methodo natural, e a synthetica sera
sempre insufficiente á sua perfeiçaõ. Na supposiçaõ dada, a natureza poz
laços naõ equivocos entre todos os entes vegetaes: por conseguinte naõ poz
balizas nas classes nem em generos alguns, e os seus limites seraõ sempre [Página 284] inconstantes. Se olhamos attentamente para cada hum dos caractéres das
plantas de classes assaz analogaa entre si, e denominadas naturaes, vemos
que posto que existem na maior parte dellas, faltaõ contudo em algumas, que
saõ muito poucas as que tem todos os caracteres constantemente O
lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as
plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla
alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as
labiadas, tem a corolla de hum so labio. As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia
natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames
senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes
Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados
como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha
tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos
pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a
vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim,
ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha
plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto
ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum,
phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.Nota
O lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as labiadas, tem a corolla de hum so labio.
As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim, ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum, phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.
O lepidium ruderale, e cardamine impatiens saõ classadas entre as plantas da familia das cruciformes, e contudo naõ tem corolla alguma; o teucrium, ajuga, e acanthus, que se achaõ entre as labiadas, tem a corolla de hum so labio.
As hortelaans, ainda que tem muitas notas caracteristicas da familia natural das labiadas, naõ se assemelhaõ a ellas ha corolla e estames senaõ imperfeitamente. A olaia e sophora que muitos grandes Botanicos contaõ entre as leguminosas naõ tem os estames adunados como ellas; o astragalus tem a vagem de duas cellulas, e a amorpha tem a corolla de huma so petala, sem embargo disso estes generos pertencem á familia natural das leguminosas, que costumaõ ter a vagem de huma so cellula, e a corolla de quatro petalas. Emfim, ainda mesmo entre as especies do mesmo genero dicto natural, ha plantas que differem bastante nas suas partes, principalmente quanto ao numero e sexo, como v. g. saõ as especies de lepidium, polygonum, phytolacca, cleome, mimosa, &c, &c.
[Página 285]Sem embargo de que este ultimo sentimento seja assaz provavel, contudo naõ se
segue que devamos abandonar inteiramente o projecto de trabalhar em hum
methodo natural o mais perfeito que nos for possivel. Todos os grandes
Botanicos saõ deste parecer Nota
Haller, Adanson, Jussieu, e Linneo saõ
entre os modernos os que fizeraõ as melhores tentativas, que dirigem a
este methodo; mas desgraçadamente naõ saõ inteirameite concordes nas
metas e generos das suas familias naturaes.
Naõ se segue igualmente que devamos desterrar de Botanica qualquer sorte de systema artificial, e que devamos so occuparnos em fazer methodos naturaes que conduzaõ à perfeiçaõ do methodo dezejado. Os principiantes naõ podem passar sem hum systema artificial, elles naõ se embaraçaõ com affinidades, nem com gradaçoẽs naturaes, e so dezejaõ saber por meyo de poucas operaçoẽs o nome da planta, que encontraõ misturada com outros individios numerosos [Página 286] e de formas differentes. Pelo que sera sempre necessario nas escolas naõ empregar outra sorte de systemas para os introduzir ao estudo de Botanica. Os diversos systemas artificiaes foraõ a causa do progresso que tem feito a Bolanica; cada systematico foy obrigado a observar de novo todos os vegetaes ja observados, a verificar os caracteres conhecidos, e a forcejar por descobrir outros adequados ao seu systema; donde resultou que muitas partes e notas caracteristicas, que dantes tinhaõ sido desprezadas, foraõ bem descriptas, contribuiraõ para melhor fazer reconhecer as affinidades, e enriqueceraõ a Botanica. Os systemas analyticos asem de contribuirem para o adiantamento da Botanica seraõ sempre huns catalogos judiciozos e uteis, pela sua simplicidade, pela brevidade das suas gradaçoẽs, e por ajuntarem os materiaes destinados á construcçaõ de hum bom methodo natural, os quaes hum genio feliz enriquecido de observaçoẽs podera algum dia vir a por em execuçaõ; e ainda mesmo no cazo de termos hum bom methodo natural naõ deixaraõ de servir de ajudarnos juntamente com elle para achar os nomes das plantas com maior certeza e segurança. Eu naõ sou do parecer dos que dizem que basta que haja hum so systema artificial em Botanica, e que os Botanicos deveraõ cuidar em aperfeiçoar hum dos que existem e seguilo geralmente, abando nados todos os outros, por mais aperfeiçoado que seja hum systema artificial tera sempre seus lugares obscuros, seus lados fracos, e naõ sera izento de difficuldades. Nem sempre as partes, que vemos em huma planta, que queremos conhecer, saõ as que servem de fundamento ao systema que seguimos; as [Página 287] que nos podiaõ servir, muitas vezes naõ se achaõ em madureza, ou tem passado; contudo as dictas partes que vemos saõ assaz sufficientes em outro systema para nos fazer conhecer a planta. As notas caracteristicas de hum genero saõ muitas vezes assaz custosas de se perceberem por hum systema, ao mesmo tempo que os caracteres do mesmo genero saõ bastantemente claros e faceis em outro systema. Hum estame abortado, ou supranumerario basta para embaraçar os que usaõ de hum systema sexual, e naõ sabem valerse de outro; em summa, as difficuldades que se achaõ em hum systema podem vencerse com o uso de muitos juntos. Donde resulta, que sem embargo de que demos a preferencia a hum systema, naõ devemos deprezar os mais, principalmente se elles seguem exactamente as suas leys, e saõ formados segundo as regras da boa critica.
[Página 286][Página 287]Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente. Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes. As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.
[Página 288] Huma classe (classis), no parecer dos Botanicos modernos, he hum
aggregado de muitos generos medios conformes nas partes da fructificaçaõ Nota
Alguns Botanicos modernos saõ de parecer que as classes naturaes
devem tirar os seus caracteres naõ so da fructificaçaõ, mas
ainda de todo o habito externo, e da mesma sorte os generos
infimos, como depois exporei mais extensamente.
As classes humas saõ naturaes outras artificiaes. As naturaes saõ formadas syntheticamente, e constaõ de muitos generos
naturaes Nota
Eu naõ me embaraço aqui com a grande questaõ dos naturalistas, se
ha ou na naõ generos naturaes, e tomo os termos na accepçaõ, em
que Linneo os tomou, segundo a qual hum genero natural he hum
aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural. Nota
Esta circumstancia he rara, e so tem lugar quando huma familia
natural succede ter entre as muitas notas caracteristicas huma
essensial e perpetua, da qual o systema artifcial ou mixto se
vale para fundar huma classe, como se vê na Monadelphia de
Linneo.
As ordens, como subdivisoẽs das classes, devem seguir a sua formalidade
methodica; por conseguinte as das classes naturaes devem ser fundadas em
muitas notas caracteristicas, e as das artificiaes em huma so Nota
Ha alguns methodos denominados naturaes, que devem ser con
siderados como mixtos; nelles ha duas, ou tres sortes de
classes, como he por ex. o do Dr. Jussieu, as primeiras, e as
vezes as segundas quando ha tres sortes de classes,
rigorosamente saõ artificiaes, e as ultimas subalternas, a que
os seus autores chamaõ ordens, saõ as que verdadeiramente
merecem o nome de classes naturaes. Muitas das ordens, que Linneo nos deixou nos seus Fragmenta
Methodi Naturalis, devem taõbem ser consideradas como classes
naturaes ou fragmentos dellas. Daqui se pode colligir que hum verdadeiro methodo natural, que
seguir as suas leys com exactidaõ, deve constar de hum grande
numero de classes, e que no dicto methodo ha bastante
difficuldade em formar devidamente as ordens. Os autores de methodos naturaes, que estabelecerem as classes em
muitos caracteres e fundarem as ordens em hum so, faltaraõ as
leys da uniformidade methodica, pela razaõ de que os seus
generos medios naõ ficaraõ uniformes aos infimos e supremos, e
se assemelharaõ ás ordens artificiaes.
Alguns Botanicos costumavaõ dividir em duas grandes classes primarias
todos os entes do reyno vegetal, a saber, em plantas herbaceas e
lenhosas, ou em hervas e arvores ; mas a doutrina da fructificaçaõ fez
abolir esta sorte de distribuiçaõ primaria que parecia pertencer mais
aos troncos Nota
Esta divisaõ naõ me parece ter sido fundada em nota alguma
constante; porquanto vemos hervas annuaes e biennaes que tem o
tronco de huma consistencia lenhosa; sabemos que a mesma especie
de planta pode ser berbacea na Europa, e lenhosa na America; que
ha hervas que saõ mais altas do que as arvores ; e ainda mesmo a
presença dos gomos he insufficiente, porque na Europa ha arvores que naõ tem gomos, como os naõ tem taõbem as dos paizes situados
debaxo da Zona Torrida. Nota
Quando as hervas, arbustos, e arvores parecem formar huma gradaçaõ de
menor a maior nas especies do mesmo genero infimo, pode-se sem
duvida fundar nellas huma distribuiçaõ; mas esta distribuiçaõ he
so parcial, e naõ a de que fallo presentemente.
Nos systemas artificiaes e mixtos quanto mais [Página 291] longas saõ as classes, tanto mais oppostas saõ á natureza, e difficultozas, como saõ por exemplo a Pentandria e Syngenesia do systema de Linneo, e porisso alguns Botanicos lhes preferem o uso das taboas synopticas que observaõ fielmente as suas leys methodicas. As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos. Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade.
Todas as ideas precedentes saõ relativas á disposiçaõ das classes e
ordens. Quanto á sua denominaçaõ, devo advertir primeiramente que os nomes que ha
em Botanica podem ser reduzidos a duas sortes ou technicos ou
systematicos. Os nomes technicos saõ os que servem para descrever todas as partes dos
vegetaes, elles devem ser immutaveis em todos os systemas, e formar a
linguagem da Botanica Nota
Desgradaçamente nos naõ temos ainda hum bom tractado elementar
que fixe a accepçaõ de todos estes termos; alguns delles saõ
obscuros por se naõ acharem ainda definidos, e outros em
prejuizo do progresso da Botanica tem accepçoẽs inconstantes
segundo as differentes opinioẽ se caprichos dos systematicos, ou segundo as differentes partes a
que saõ applicados; o que he defeituoso, porque nas sciencias
vale mais usar de muitos termos ou de periphrases, do que de
equivocos; à força de querer-mos muito abbreviar, confundimos;
os termos imbricatus, nudus, simplex, &c. saõ disto huma
evidente prova; hum mesmo termo devera sempre ter a mesma
accepçaõ, quer fosse applicado à raiz , quer as folhas , flores,
fructos, &c. Nota
Os nomes dos generos infimos saõ menos sujeitos a mudancas do que
os das ordens e classes. Os nomes das especies, ou saõ triviaes, ou differenciaes
especificos aggregados em huma phrase; huns e outros saõ
sujeitos a mudança no cazo que se descubraõ novas especies, ou
as descobertas, e ja conhecidas se mudem para outros generos; os
triviaes contudo podiaõ, como direi em outro tractado, ser
fixados como os technicos e servir a todos os systemas; deste
modo somente as phrases especificas, e os nomes genericos
intimos e simperiores ficariaõ sujeitos ás mudanças
systematicas.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes. Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.
Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c. De mais disso naõ so devem ser tirados das partes da fructificaçaõ, mas devem taõbem ser fundados em huma nota caracteristica essensial, como saõ por ex. os titulos de cruciformes, siliquosas, papilionaceas, leguminosas, &c.
Cada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.
Alguns Botanicos costumaõ dar a huma familia ou classe natural o nome de
hum genero infimo mais conhecido na dicta familia ou classe, pondo o
dicto nome no plural, dizendo, V. g. as abobaras, as açucenas, as
malvas, &c. ou usaõ de hum termo derivado do nome dos, dictos
generos infimos, dizendo v. g. as cucurbitaceas, as liliaceas, as
malvaceas, &c. Estes titulos saõ proprios dos methodos naturaes, e se achaõ as vezes
taõbem nos systemas mixtos Nota
Como saõ v. g. os titulos das familias da cryptogamia de Linneo
fetos, musgos, algas, e fungos. Nota
Palma, fungus, alga, muscus, filix.
Eu podera tractar aqui ainda de muitas outras circumstancias relativas á boa disposiçaõ e denominaçaõ das classes e ordens; mas como as classes saõ consideradas como generos das ordens, as ordens como generos dos generos infimos, e por conseguinte sujeitas quasi em tudo às mesmas regras methodicas destes ultimos, o leitor entendera facilmente o que falta aqui pelo que direi no capitulo seguinte.
Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente. Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes. As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.
Todo o trabalho dos systematicos versa sobre a disposiçaõ, e sobre a denominaçaõ das partes que dispoem, como se collige do que expuz no capitulo precedente.Estas partes ou saõ genericas ou especificas ou variantes.As genericas que constituem as maiores divisoẽs de qualquer disposiçaõ systematica ou methodica saõ ordinariamente as classes, ordens, e generos infimos, e todas ellas saõ sujeitas ás mesmas leys methodicas com bem pouca differença.[Página 288] Huma classe (classis), no parecer dos Botanicos modernos, he hum
aggregado de muitos generos medios conformes nas partes da fructificaçaõ Nota
Alguns Botanicos modernos saõ de parecer que as classes naturaes
devem tirar os seus caracteres naõ so da fructificaçaõ, mas
ainda de todo o habito externo, e da mesma sorte os generos
infimos, como depois exporei mais extensamente.
As classes humas saõ naturaes outras artificiaes. As naturaes saõ formadas syntheticamente, e constaõ de muitos generos
naturaes Nota
Eu naõ me embaraço aqui com a grande questaõ dos naturalistas, se
ha ou na naõ generos naturaes, e tomo os termos na accepçaõ, em
que Linneo os tomou, segundo a qual hum genero natural he hum
aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural. Nota
Esta circumstancia he rara, e so tem lugar quando huma familia
natural succede ter entre as muitas notas caracteristicas huma
essensial e perpetua, da qual o systema artifcial ou mixto se
vale para fundar huma classe, como se vê na Monadelphia de
Linneo.
As ordens, como subdivisoẽs das classes, devem seguir a sua formalidade
methodica; por conseguinte as das classes naturaes devem ser fundadas em
muitas notas caracteristicas, e as das artificiaes em huma so Nota
Ha alguns methodos denominados naturaes, que devem ser con
siderados como mixtos; nelles ha duas, ou tres sortes de
classes, como he por ex. o do Dr. Jussieu, as primeiras, e as
vezes as segundas quando ha tres sortes de classes,
rigorosamente saõ artificiaes, e as ultimas subalternas, a que
os seus autores chamaõ ordens, saõ as que verdadeiramente
merecem o nome de classes naturaes. Muitas das ordens, que Linneo nos deixou nos seus Fragmenta
Methodi Naturalis, devem taõbem ser consideradas como classes
naturaes ou fragmentos dellas. Daqui se pode colligir que hum verdadeiro methodo natural, que
seguir as suas leys com exactidaõ, deve constar de hum grande
numero de classes, e que no dicto methodo ha bastante
difficuldade em formar devidamente as ordens. Os autores de methodos naturaes, que estabelecerem as classes em
muitos caracteres e fundarem as ordens em hum so, faltaraõ as
leys da uniformidade methodica, pela razaõ de que os seus
generos medios naõ ficaraõ uniformes aos infimos e supremos, e
se assemelharaõ ás ordens artificiaes.
Alguns Botanicos costumavaõ dividir em duas grandes classes primarias
todos os entes do reyno vegetal, a saber, em plantas herbaceas e
lenhosas, ou em hervas e arvores ; mas a doutrina da fructificaçaõ fez
abolir esta sorte de distribuiçaõ primaria que parecia pertencer mais
aos troncos Nota
Esta divisaõ naõ me parece ter sido fundada em nota alguma
constante; porquanto vemos hervas annuaes e biennaes que tem o
tronco de huma consistencia lenhosa; sabemos que a mesma especie
de planta pode ser berbacea na Europa, e lenhosa na America; que
ha hervas que saõ mais altas do que as arvores ; e ainda mesmo a
presença dos gomos he insufficiente, porque na Europa ha arvores que naõ tem gomos, como os naõ tem taõbem as dos paizes situados
debaxo da Zona Torrida. Nota
Quando as hervas, arbustos, e arvores parecem formar huma gradaçaõ de
menor a maior nas especies do mesmo genero infimo, pode-se sem
duvida fundar nellas huma distribuiçaõ; mas esta distribuiçaõ he
so parcial, e naõ a de que fallo presentemente.
Nos systemas artificiaes e mixtos quanto mais [Página 291] longas saõ as classes, tanto mais oppostas saõ á natureza, e difficultozas, como saõ por exemplo a Pentandria e Syngenesia do systema de Linneo, e porisso alguns Botanicos lhes preferem o uso das taboas synopticas que observaõ fielmente as suas leys methodicas. As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos. Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade.
[Página 291]As ordens muito extensas taõbem saõ fastidiosas, e causaõ confusaõ em achar os generos infimos.Nos methodos puramente naturaes, as classes ou familias sendo muito numerosas, saõr notadas do mesmo defeito, e porisso os seus autores ordinariamente as reunem em outras artificiaes supremas e primarias, as quaes constituem a sua clave; mas elles deveraõ reflectir que os seus methodos saõ só proprios dos que estaõ ja adiantados em Botanica, e que podem por conseguinte muito bem passar sem esta clave artificial, que senaõ concilia com as suas leys methodicas, posto que sirva de facilidade. Todas as ideas precedentes saõ relativas á disposiçaõ das classes e
ordens. Quanto á sua denominaçaõ, devo advertir primeiramente que os nomes que ha
em Botanica podem ser reduzidos a duas sortes ou technicos ou
systematicos. Os nomes technicos saõ os que servem para descrever todas as partes dos
vegetaes, elles devem ser immutaveis em todos os systemas, e formar a
linguagem da Botanica Nota
Desgradaçamente nos naõ temos ainda hum bom tractado elementar
que fixe a accepçaõ de todos estes termos; alguns delles saõ
obscuros por se naõ acharem ainda definidos, e outros em
prejuizo do progresso da Botanica tem accepçoẽs inconstantes
segundo as differentes opinioẽ se caprichos dos systematicos, ou segundo as differentes partes a
que saõ applicados; o que he defeituoso, porque nas sciencias
vale mais usar de muitos termos ou de periphrases, do que de
equivocos; à força de querer-mos muito abbreviar, confundimos;
os termos imbricatus, nudus, simplex, &c. saõ disto huma
evidente prova; hum mesmo termo devera sempre ter a mesma
accepçaõ, quer fosse applicado à raiz , quer as folhas , flores,
fructos, &c. Nota
Os nomes dos generos infimos saõ menos sujeitos a mudancas do que
os das ordens e classes. Os nomes das especies, ou saõ triviaes, ou differenciaes
especificos aggregados em huma phrase; huns e outros saõ
sujeitos a mudança no cazo que se descubraõ novas especies, ou
as descobertas, e ja conhecidas se mudem para outros generos; os
triviaes contudo podiaõ, como direi em outro tractado, ser
fixados como os technicos e servir a todos os systemas; deste
modo somente as phrases especificas, e os nomes genericos
intimos e simperiores ficariaõ sujeitos ás mudanças
systematicas.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes. Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.
Os nomes das classes saõ mais arbitrarios do que os dos generos infimos, e os das ordens saõ ainda mais arbitrarios do que os dos dictos generos e os das classes.Os nomes das classes e ordens saõ chamados mudos e os dos generos infimos, especies e variedades saõ denominados sonoros, pela razaõ de que naõ costumamos pronunciar os primeiros, mas taõ somente os segundos, quando fallamos de qualquer vegetal; dizemos v. g. pereira, açucena branca, salva officinal variegada, rainunculo aquatico capillar, mas jamais se disse, açucena branca monogynia hexandria.Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c. De mais disso naõ so devem ser tirados das partes da fructificaçaõ, mas devem taõbem ser fundados em huma nota caracteristica essensial, como saõ por ex. os titulos de cruciformes, siliquosas, papilionaceas, leguminosas, &c.
Segundo a opiniaõ de quasi todos os modernos depois de Linneo, os nomes das classes, e ordens devem somente ser tirados d'alguma das partes da [Página 293] fructificaçaõ, e naõ do uso, virtudes, raiz , tronco, folhas , modo de florecer, &c; elles consideraõ por conseguinte como improprios os titulos de cordiaes, bolbosas, arvores , arbustos, hervas, succulentas , asperifolias, verticilladas , dorsiferas, corymbosas, &c.[Página 293]raizfolhasarvoressucculentasverticilladasCada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.
Cada classe deve ter hum so nome, e o mesmo se deve entender a respeito das ordens; este nome naõ deve ser longo ou muito composto, nem aspero ou difficil de pronunciar, mas harmonioso, e curto; taes saõ por ex os de rosaceas, labiadas, dipétalas, digynia, monandria, &c.Alguns Botanicos costumaõ dar a huma familia ou classe natural o nome de
hum genero infimo mais conhecido na dicta familia ou classe, pondo o
dicto nome no plural, dizendo, V. g. as abobaras, as açucenas, as
malvas, &c. ou usaõ de hum termo derivado do nome dos, dictos
generos infimos, dizendo v. g. as cucurbitaceas, as liliaceas, as
malvaceas, &c. Estes titulos saõ proprios dos methodos naturaes, e se achaõ as vezes
taõbem nos systemas mixtos Nota
Como saõ v. g. os titulos das familias da cryptogamia de Linneo
fetos, musgos, algas, e fungos. Nota
Palma, fungus, alga, muscus, filix.
Eu podera tractar aqui ainda de muitas outras circumstancias relativas á boa disposiçaõ e denominaçaõ das classes e ordens; mas como as classes saõ consideradas como generos das ordens, as ordens como generos dos generos infimos, e por conseguinte sujeitas quasi em tudo às mesmas regras methodicas destes ultimos, o leitor entendera facilmente o que falta aqui pelo que direi no capitulo seguinte.
[Página 295]Os generos, como ja adverti, huns saõ superiores outros infimos; no capitulo precedente dei as noçoẽs geraes relativas aos superiores, restame illuminar estas noçoẽs por meyo de huma mais extensa theoria, ou pelas leys didacticas dos generos infimos, que devem fazer o objecto do prezente capitulo.
Hum genero infimo (genus), segundo alguns Botanicos he hum aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural fundado na fructificaçaõ; mas como ha muitos generos infimos que constaõ de huma so especie, outros pensaõ que hum genero infimo naõ he outra coiza mais do que huma divisaõ systematica que comprehende debaxo de huma palavra e caracter, muitas especies de plantas conformes na fructificaçaõ, ou huma so de fructificaçaõ desconforme das especies vizinhas. Esta ultima definiçaõ naõ agrada contudo geralmente, querendo alguns que a conformidade ou desconformidade deve consistir naõ so na fructificaçaõ, mas nas mais partes relativas ao habito externo, e outros accrescentaõ que he improprio dizer que os generos infimos saõ huma divisaõ systematica, quando todos saõ huma obra da natureza, assim como as especies.
Todas estas ideas tem por objecto as duas mais famosas questoẽs debatidas em Botanica: 1º se os caracteres genericos devem somente ser tirados das [Página 296] partes da fructificaçaõ, excluidas todas as mais do habito externo? 2º. Se todos os generos saõ arbitrarios, ou se ha alguns que sejaõ obra da natureza, como são todas as especies?
Gesnero, Cesalpino, Columna e outros foraõ de opiniaõ que os generos somente
deviaõ ser estabele cidos sobre as partes da fructificaçaõ; Linneo seguio
este parecer, e a sua grave authoridade o fez seguir por hum grande numero
de modernos, mas nem todos adoptaraõ este sentimento, elles opposeraõ a esta
theoria o exemplo dos zoologistas, que no reyno animal omittem
ordinariamente os caracteres que a natureza poz nos genitaes, e julgaõ
sufficientes os que se deduzem dos outros organos. Opposeraõ demais disso
que os organos sexuaes e outras partes da fructificaçaõ dos vegetaes, a
que se dava a prerogativa, naõ lhes eraõ mais essensiaes do que aquellas
em que residia a sua vida, como a casca e medulla; que haviaõ muitas
plantas, principalmente cryptogamicas, em que as partes da fructificaçaõ
eraõ muito pouco apparentes, incommodas, e insufficientes para nellas se
estabelecer bons destinctivos genericos, os quaes pelo contrario se
achavaõ nas outras partes e que por conseguinte se devia recorrer a
ellas; que os caracteres habituaes bastavaõ muitas vezes sem a inspecçaõ
da flor para determinar a familia (a que pertencia hum individuo) e
algumas vezes taõbem o seu genero; que era muito util em hum methodo
natural, e em medecina reconhecer, as plantas sem flor, porque esta era
muito menos duravel do que as mais partes, e que por conseguinte os
caracteres fundados nestas partes valiaõ mais neste respeito [Página 297] do que os da fructificaçaõ; que naõ se devia desprezar parte alguma
dos vegetaes, porque todas contribuiaõ a fazelos reconhecer com mais
certeza; que a theoria da fructificaçaõ desprezadora do habito externo Nota
O habito externo neste sentido indica todas as partes de hum
vegetal que naõ pertencem à flor e fructo; de modo que as
bractéas e pedunculos fazem já parte do habito externo.
Quanto à segunda questaõ, Linneo e outros modernos saõ de parecer que todos
os generos saõ naturaes, que naõ saõ obra da arte, mas sim do Autor da
natureza, que os formou nos primitivos dias do globo terrestre, e que por
conseguinte senaõ devem deslacerar, ampliar, contrahir como cada hum quizer
ou conforme a theoria de qualquer Botanico; daõ por ex. os generos
ranunculus, acónitum, nigella, claytonia, passiflora, hybiscus, e outros
semelhantes, que bem examinados parecem indicar que os vegetaes foraõ
formados no principio huns segundo a forma dos outros. Esta opiniaõ tem
contra si a autoridade de muitos celebres Naturalistas e Botanicos Nota
O
Conde de Buffon, o Dr. Daubenton, Oeder, La Mark, &c.Nota
A natureza, diz o Conde
de Buffon, caminha a occultos passos; naõ se sobmette a nossas divisoẽs,
antes parece zombar dellas; passa de especie em especie, e às vezes de
genero a genero por modos imperceptiveis, e porisso se achaõ muitas
vezes especies, que saõ como hum genero intermedio, ou passagem das do
anteoedente ao subsequente: esta he a principal razaõ porque he
impossivel de formar hum perfeito methodo ou systema geral de toda a
Histotia Natural, e ainda mesmo das suas partes.Nota
Vej. as primeiras ediçoẽs do seu Genera plantarum, aonde
consulta os Botanicos a respeito da reuniaõ das especies destes e outros
generos.Nota
Ha especies (diz Mr. de la Mark,
Flor. Franc. vol. 1.) que sendo como gradaçoẽs naõ pertencem nem a hum
nem a outro genero vizinho, sem embargo de serem inclusas em hum delles.
Talvez virá tempo, em que, deseobertas todas as plantas que ha no nosso
Globo, cada genero fique so com huma espeoe, e cada especie com tantas
variedades, quantos forem os individuos. Entre os generos, que Linneo
formou, ha mais de quatro centos que tem so huma especie, elle se vio
obrigado algumas vezes por novas observaçoẽs a mudar muitas especies dos
generos em que dantes as tinha posto, e se hoje fosse vivo, e quizesse
attender ainda às que naõ tem o caracter do seu genero, e às que naõ
seguem as leys da classe e ordem em que estaõ postas, talvez naõ
deixaria de fazer bastantes mudanças.
Taes saõ as principaes reflexoẽs que se costumaõ de ordinario oppor ao parecer de Linneo, e dos que seguem que todos os generos saõ naturaes, mas ainda que dellas resuste que todos os generos tem limites arbitrarios, e que neste sentido naõ merecem rigorosamente o nome de naturaes, contudo como algumas vezes penetramos felismente as verdadeiras affinidades de hum certo numero de especies [Página 305] vegetaes, e formamos generos e familias de antes assaz analogos na sua estructura natural quando isto tem lugar parece me que semelhantes generos e familias podem conservar a denominaçaõ de naturaes em huma accepçaõ menos rigorosa, pela razaõ das suas especies terem entre si huma intima semelhança natural, reconhecida por todos os Botanicos.
Sendo os generos infimos huma divisaõ systematica, que comprehende, debaxo de hum caracter e palavra, huma ou mais especies, do modo que acima expuz, he precizo explicar o que os Botanicos entendem por caracteres genericos e as suas leys didacticas, sem desprezar as que respeitaõ às denominaçoẽs de cada genero.
O caracter de hum genero (character) he a sua definiçaõ, ou qualquer idea
geral deduzida de huma ou de muitas notas, capaz de bem o destinguir de
qualquer outro. Segundo Linneo ha quatro sortes de caracteres genericos, a
saber, o habitual, facticio, essensial e natural. O caracter habitual he
tirado das notas do habito externo, e exprime huma conformidade geral
nas partes vegetaes, que naõ dizem respeito à fructificaçaõ; os antigos
costumavaõ servir se desta sorte de caracter Nota
Elles comprehendiaõ neste caraeter todas as partes das plantas,
ainda mesmo as fiores e fructos, e reconheciaõ às vezes as
affinidades das congeneres melhor do que alguns systematicos; os
hervolarios ainda hoje, somente por meyo do habito externo,
sabem destinguir hum grande numero de plantas. Nota
Alguns Botanicos modernos, como ja disse, saõ de opiniaõ que
aindaque senaõ deva preferir o caracter habitual a todo o que he
tirado da fructificaçaõ, se podem contudo ajuntar a este algumas
notas tiradas, do habito externo para mais o facilitar e tornar
seguro. Nota
Todos os caracteres genericos abbreviados que se achaõ no Systema
Vegetabilium de Linneo ou saõ essensiaes ou facticios. Nota
Linneo foy o primeiro que ideou caracteres naturaes, e os
publicos no seu Genera plantarum, saõ o fundamento dos generos,
no seu parecer, mas rigorocamente o fundamento dos generos he o
caracter natural de cada especie considerado separadamente.
AÇUCENA Nota
Lilium. A traducçaõ, que dou aqui ao publico do caracter generico
natural da Açucena, podia ser menos concisa; mas os que conhecem
o quanto a lingua Portuguesa se chega à matema latina, tanto no
didactico como em qualquer outro estylo, certamente naõ me
notaraõ aqui de ousado: aproveitei-me do favor que o seu proprio
genio me offereceo.
Calyz. Nullo.
Corolla. De seis petalas, campanulada, e estreitada na parte inferior. Pecalas levantadas, encostadas humas as outras, com huma quilha obtusa no dorso, mais largas e mais patentes na parte superior as suas pontas saõ obtusas, grossas, e recurvadas para fora.
O Nectario: he hum rego longitudinal, que se acha gravado em cáda huma das petalas, do meyo para baxo.
[Página 308]Estames. Seis filetes, assovelados, levantados, e mais curtos do que a corolla. Antheras oblongas, e vacillantes.
Pistillo. O germe oblongo, hum tanto cylindrico o com seis estrias. O estylete cylindrico, e do comprimento da corolla. O estigma hum tanto mais grosso do que o estylete, e triangular.
Pericarpo. Huma capsula oblonga, e com seis regos; obtusa, concava, e trigòna, no cume; composta de tres cellulas, e tres valvulas, reunidas com pelos tecidos em grade.
Sementes. Saõ numerosas, encostadas em duas ordens, chatas, e semi circulares pelo lado externo.
N. B. As petalas em algumas especies tem as pontas nimiamente recurvadas de modo que ficam encaracolladas: O nectario em algumas especies he acompanhado de felpa, e em outras glabro.
[Página 309]Todos os caracteres genericos devem, segundo Linneo, ser tirados do numero,
figura, proporção e situaçaõ de todas as partes da fructificaçaõ. Quanto as
mais partes, que constituem o habito externo da planta, o seu parecer foy,
que postoque se deviaõ passar em silencio, mereciaõ sempre de ser bem
observadas e attendidas por naõ multiplicarmos os generos por leves causas,
e nos arriscarmos a fazer generos erroneos. Na formaçaõ dos caracteres
devemSe examinar em todas as especies anasogas todas as partes da
fructificaçaõ, ainda as mais miudas, e as que escapaõ á vista, ou precizaõ
de lente para serem observadas; devem se considerar as notas em que ellas
convem e desconvem, combinar a primeira especie com todas as mais, e todas
com a primeira, porque naõ ha caracter infallivel sem primeiramente ser
conferido e verificado em todas as especies. Na formaçaõ do caracter
natural devem-se somente mencionar as notas em que convem todas as
especies, e excluir como superfluas aquellas em que as dictas especies
desconvem; estas notas devem ser desertptas com termos technicos Nota
Demais disso devem ser escritas em difterentes paragraphos,
segundo as differentes partes da fructificaçaõ, e ter por titulo
em cima o nome do genero, como se vè no exemplo dado do caracter
generico da Açucena. Nota
Os termos tirados de semelhanças sempre presuppoem ideas claras
do primeiro simile, que nem todos podem ter, e porisso se devem
evitar o mais que for possivel; devem-se contudo exceptuar os
que se achaõ bem defindos, e adoptados pela arte, ou tirados
decentemente das partes externas do corpo humano, como dedo,
maõ, orelha, etc. Quanto aos obscenos deduzidos de vulva, penis, scrotum,
praeputium, testiculi, &c. devemos evitalos, ou para melhor
dizer abolilos inteiramente em Botanica, porque temos outros que
podem explicar sufficientemente as mesmas ideas sem ferir a
modestia. A Botanica he hoje cultivada por muitas pessoas modestas de hum e
outros sexo, que naõ podem tolerar semelhante abuso; elle teve
origem no pessimo gosto de alguns medicos dos seculos passados e
principio deste, os quaes por toda a parte naõ viaõ senaõ
objectos e termos anatomicos ainda os mais obscenos e sordidos;
a Botanica que elles sós professavaõ naõ podia escapar a esta
corrupçaõ, e com aquella mesma frivolidade, com que os
applicavaõ a mais nobre entranha do homem (testes enim et nates
cerebro tribuerunt) os applicaraõ taõbem ás mais bellas partes
dos vegetaes. Linneo adoptou este mesmo gosto de termos, e com razaõ o Dr.
Boehmer e outros modernos o censuraõ de os ter muitas vezes
prodigalizado; porquanto podramos muito bem passar na descripcaõ
das escamas cordiformes, e convergentes das sementes do
melampodium sem os termos de formam vulvae, sem o de calyx
peniformis no caracter especifico da datura metel, sem o do
receptaculo elongato in praeputium no fructo do teixo, sem o de
capsula scrotiformis no fructo da mercurial, &c. &c. Nota
Linneo (Phil. Bot. p. 123 diz que todas as vezes que em huma
planta as flores diversificaõ no numero das suas partes, so se deve
attender ao da primeira flor, isto he, ao das flores terminaes, e
porisso classou a ruta, chrysosptenium, monotropa, tetragonia, evonymus,
philadelphus, e adoxa em classes ou ordens contrarias ás que indica o
namero dos organos sexuaes das flores dos lados; mais isto naõ tem sido
adoptado por todos os modernos, e com justo motivo; supponhamos por ex.
que huma planta da quiuze flores, a terminal com cinco estames e todas
as mais que se seguem lateralmente ou desabotoaõ depois, tem todas
quatro estames, se a classamos antes na Pentandria do que na Terrandria,
a flor terminal sendo huma so e dosflorecendo primeiro que todas as
outras porá certamente hum grande obstaculo aos que quizerem achar a
classe da planta pelas fiores fateraes que observaõ, pois lhes he
necessario estar sempre presentes no periodo em que desabotoa &
dicta primeira flor, para poder reconhecer a sua classe; pelo contrario
se a classamos na Tetrandria, ninguem duvida que em todo o tempo em que
ella der flores, todos poderaõ descobrir facilmente a sua classe. He
verdade que a natureza mostra de ordinario nas primeiras fiores todo o
Seu vigor e perfeiçaõ, mas às vezes este vigor passa a ser viço, e por
conseguinte o mais seguro sera sempre guiarmos pela maior parte das
flores, quando quizermos determinar o numero das suas
partes.
A figura da flor he hum guia mais seguro, e mais digno de attender-se em
geral na formaçaõ dos generos do que a do fructo. Sem embargo de que os
antigos parecem ter feito maior cazo da estructura do fructo, contudo
todas as vezes que as flores convem, e os fructos differem (concorrendo
aliás todas as mais condiçoẽs requisitas) em hum certo numero de
especies, todas estas devem ser reunidas Nota
Este parecer he de Linneo, e como o mais methodico e proprio para
evitar multiplicidade de generos fundados em leves motivos,
parece me que devera ser seguido por todos os Botanicos; contudo
o Dr. Jussieu se desviou delle, adoptando a opiniaõ dos antigos,
e desunindo por conseguinte em differentes generos as especies
ou falsos generos, que Linneo tinha reunido em hum so no
rhamnus, pyrus, e prunus, deste modo segundo elle, a pereira,
maceira, e marmeleiro çaõ tres generos, e naõ especies de hum
so. Nota
O Dr. Jussieu e alguns outros modernos querem (contra Linneo) que
as especies de geranium, principalmente em razaõ da regularidade
e irregulidade da corolla, devem ser divididas em dois generos;
mas a anologia das mais partes da fructificaçaõ provaõ a favor
do parecer di Linneo.
As flores viçadas, monstruosas, e mutiladas naõ devem jamais ser fundamento de caracteres genericos, que sò devem ser tirados das flores naturaes. A prole, no cazo de prolificaçaõ, nos fara reconhecer o estado de viço; o calyz, e ultima ordem de petalas podem contribuir para dar-nos idea do estado de huma flor viçada, mas para melhor o reconhecer-mos sera precizo semear ou transplantar a planta viçada no seu terreno natural ou em hum chaõ magro. O calyz he menos sujeito a viço do que os estames e corolla, e os estames menos sujeitos a elle do que as petalas. O nectario, aindaque em algumas flores he sujeito a viçar, naõ deixa contudo de ser hum bom fundamento de caracteres genericos.
Pode haver huma nota singular commua a muitas especies, mas nem porisso se segue que devaõ sempre pertencer a hum so genero; pelo contrario, pode haver na maior parte das espocies de hum genero huma nota singular, que falte nas outras taõbem proprias do dicto genero, e naõ se segue porisso que se devaõ desmembrar, e com ellas constituir dois generos. [Página 313] Nestas circunstancias he precizo attender muito a analogia de todas as partes da fructificaçaõ, sem desprezar contudo o habito externo, e ter sempre presentes estas leys fundamentaes "que naõ se devem reunir plantas que convem so em poucas notas, sendo aliás muito dessemelhantes em todas as mais; nem taõbem que huma planta se deve separar das suas analogas em razaõ de huma nota, quando aliàs convem com ellas em todas as mais ou na maior parte."
No catalogo dos generos de huma ordem ou divisaõ systematica, deve haver cuidado de dispor proximos huns aos outros os que tem mais affinidade entre si, porque esta disposiçaõ naõ so facilita a achar os nomes das especies, mas presenta taõbem commodamente ao leytor as ideas de anologia, e encadeamento dos generos huns com outros, as quaes lhe saõ muitas vezes necessarias.
Tenho exposto em geral o que pertence às leys didacticas de huma disposiçaõ generica, restame tractar das que dizem respeito à denominaçaõ. Depois que hum Botanico descobrio ou formou hum genero, ou depois que observou que hum certo numero de especies convinhaõ no mesmo caracter natural, e por conseguinte pertenciaõ a hum so genero, segue-se imporlhe o nome. Este nome he chamado generico por ser geral e commum a muitas especies, ou idoneo a se lo no cazo que o genero tenha huma so especie; poem-se como titulo sobre huma descripçaõ generica ou caracter natural do genero, e se costuma taõbem pôr antes de qualquer nome trivial ou phrase especifica. Portanto todas as [Página 314] especies que convem no mesmo caracter generico, ou que formaõ hum so e mesmo genero, devem ter hum so e mesmo nome generico, e por conseguinte as que differem em genero devem ter hum nome generico differente.
Como o idioma universal, de que se servem os Botanicos, he o latino, o leytor entendera facilmente que eu somente me occuparei aqui em mencionar as regras relativas aos nomes genericos escriptos em latim, as quaes ce podem reduzir às seguintes.
Todo o nome generico genuino deve convir com igual propriedade a qualquer das
especies; a sua significaçam ou idea etymologica nam deve ser adequada a
humas especies e inadequada as outras congéneres: porisso os melhores nomes
genericos sam aquelles, cuja etymologia he desconhecida, ou cuja
significaçam nam allude á estructura, propriedades, usos vegetaes, &c.
mas so serve de conservar a memoria de alguma personagem benemerita
principalmente dos grandes Botanicos, e dos que se assinalaram em
protegelos, ou em promover a Botanica. Segundo Linneo os nomes genericos,
cuja significaçaõ envolve hum caracter essensial, ou hum destinctivo
habitual, podem ser considerados no numero dos melhores, taes como v. v.
o de adenanthera, e glycyrrhiza, o primeiro indicando o caracter
essensial de hum genero, cujas especies tem todas huma glandula nas antheras , e
o segundo indicando o destinctivo habitual de outro, cujas especies tem
todas a raiz doce: mas na supposiçaõ Nota
Esta hypòthese
he assaz possivel e conforme à doutrina de Linneo, que confessa que
hum caracter essensial pode deixar de o ser, descobertas novas
especies, e que huma nota singular pode convir ora a muitos generos,
ora somente á maior parte das especies de hum so genero. Vej. Phil.
Bot. de Charact.Nota
Chrysanthemum v. g. significa
etymologicamente flor cor d'oiro mas como a especie leucathemum he
hranca, se confiamos na etymologia, diremos: flor cor d'oiro branca,
o que he absurdo.
Donde se segue que senaõ devem usar nomes genericos fundados em
semelhanças das partes Nota
Principalmente as obscenas, e porisso senaõ devem imitar os
termos phallus, clitoria, orchis, &c.
O nome generico deve ser inteiro e naõ constituido por duas palavras separadas como v. g. dens leonis, porque esta separaçaõ he contraria á facilidade e simplicidade methodica. Linneo he de parecer que os nomes genericos substantivos saõ melhores do que os adjectivos, e que os diminutivos ainda que toleraveis naõ saõ os melhores, mas todos elles me parecem igualmente bons quando convem adequadamente a todas as suas especies, e guardaõ as mais leys necessarias.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto. Os nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies. He pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos. Naõ se devem taõbem formar dos nomes technicos [Página 319] ajuntandolhes huma ou duas syllabas como v. g. terminalia.
Os nomes genericos naõ devem ser escritos com lettras gregas, mas latinas;
naõ devem ser longos, difficeis de pronunciar-se ou malsoantes, como v.
g. callophyllodendron, acrochordodendros, caráxeron, mas curtos Nota
Naõ devem ter mais de doze lettras, segundo Linneo; no meu
parecer, nenhum nome generico ou especifico deve ter mais de cinco
syllabas.
Segundo Linneo os nomes genericos que se achaõ adoptados naõ se devem mudar
por outros mais competentes ou melhores, porque todos os dias achariamos
ainda outros mais adequados e jamais cessariamos de innovalos, se tivessemos
autoridade para isso. Esta idea parece-me ser acertada quanto aos bons
nomes genericos, que hoje se achaõ adoptados, e que [Página 320] competem com igual propriedade a todas as suas respectivas especies;
mas quanto aos que saõ maos ou vierem a selo, naõ vejo razaõ forte que
empeça de mudalos, em hum bom systema de nomenclatura, que fixe os nomes
de todos os vegetaes Nota
Este meu sentimento talves parecera estranho
a alguns Botanicos, mas eu espero de publicar em outro tractado o
modo com que elle se podera pôr em execuçaõ sem os inconvenientes
que se costumaõ commumente objectar.
Cada novo genero deve ter hum novo nome; mas se for preciso partir hum genero antigo em dois ou mais, o nome do antigo ficará, ás especies mais conhecidas, medicinaes, ou ás que melhor competir a sua significaçaõ etymologica, e as de mais especies do dicto antigo genero seraõ destribuidas debaxo de outro nome generico ou formado enteiramente de novo, ou tirado da synonymia das dictas especies, que se devem sempre preferir no cazo que seja bom.
Os generos, como ja adverti, huns saõ superiores outros infimos; no capitulo precedente dei as noçoẽs geraes relativas aos superiores, restame illuminar estas noçoẽs por meyo de huma mais extensa theoria, ou pelas leys didacticas dos generos infimos, que devem fazer o objecto do prezente capitulo.
Hum genero infimo (genus), segundo alguns Botanicos he hum aggregado de especies conformes no mesmo caracter natural fundado na fructificaçaõ; mas como ha muitos generos infimos que constaõ de huma so especie, outros pensaõ que hum genero infimo naõ he outra coiza mais do que huma divisaõ systematica que comprehende debaxo de huma palavra e caracter, muitas especies de plantas conformes na fructificaçaõ, ou huma so de fructificaçaõ desconforme das especies vizinhas. Esta ultima definiçaõ naõ agrada contudo geralmente, querendo alguns que a conformidade ou desconformidade deve consistir naõ so na fructificaçaõ, mas nas mais partes relativas ao habito externo, e outros accrescentaõ que he improprio dizer que os generos infimos saõ huma divisaõ systematica, quando todos saõ huma obra da natureza, assim como as especies.
Todas estas ideas tem por objecto as duas mais famosas questoẽs debatidas em Botanica: 1º se os caracteres genericos devem somente ser tirados das [Página 296] partes da fructificaçaõ, excluidas todas as mais do habito externo? 2º. Se todos os generos saõ arbitrarios, ou se ha alguns que sejaõ obra da natureza, como são todas as especies?
[Página 296]Gesnero, Cesalpino, Columna e outros foraõ de opiniaõ que os generos somente
deviaõ ser estabele cidos sobre as partes da fructificaçaõ; Linneo seguio
este parecer, e a sua grave authoridade o fez seguir por hum grande numero
de modernos, mas nem todos adoptaraõ este sentimento, elles opposeraõ a esta
theoria o exemplo dos zoologistas, que no reyno animal omittem
ordinariamente os caracteres que a natureza poz nos genitaes, e julgaõ
sufficientes os que se deduzem dos outros organos. Opposeraõ demais disso
que os organos sexuaes e outras partes da fructificaçaõ dos vegetaes, a
que se dava a prerogativa, naõ lhes eraõ mais essensiaes do que aquellas
em que residia a sua vida, como a casca e medulla; que haviaõ muitas
plantas, principalmente cryptogamicas, em que as partes da fructificaçaõ
eraõ muito pouco apparentes, incommodas, e insufficientes para nellas se
estabelecer bons destinctivos genericos, os quaes pelo contrario se
achavaõ nas outras partes e que por conseguinte se devia recorrer a
ellas; que os caracteres habituaes bastavaõ muitas vezes sem a inspecçaõ
da flor para determinar a familia (a que pertencia hum individuo) e
algumas vezes taõbem o seu genero; que era muito util em hum methodo
natural, e em medecina reconhecer, as plantas sem flor, porque esta era
muito menos duravel do que as mais partes, e que por conseguinte os
caracteres fundados nestas partes valiaõ mais neste respeito [Página 297] do que os da fructificaçaõ; que naõ se devia desprezar parte alguma
dos vegetaes, porque todas contribuiaõ a fazelos reconhecer com mais
certeza; que a theoria da fructificaçaõ desprezadora do habito externo Nota
O habito externo neste sentido indica todas as partes de hum
vegetal que naõ pertencem à flor e fructo; de modo que as
bractéas e pedunculos fazem já parte do habito externo.
Quanto à segunda questaõ, Linneo e outros modernos saõ de parecer que todos
os generos saõ naturaes, que naõ saõ obra da arte, mas sim do Autor da
natureza, que os formou nos primitivos dias do globo terrestre, e que por
conseguinte senaõ devem deslacerar, ampliar, contrahir como cada hum quizer
ou conforme a theoria de qualquer Botanico; daõ por ex. os generos
ranunculus, acónitum, nigella, claytonia, passiflora, hybiscus, e outros
semelhantes, que bem examinados parecem indicar que os vegetaes foraõ
formados no principio huns segundo a forma dos outros. Esta opiniaõ tem
contra si a autoridade de muitos celebres Naturalistas e Botanicos Nota
O
Conde de Buffon, o Dr. Daubenton, Oeder, La Mark, &c.Nota
A natureza, diz o Conde
de Buffon, caminha a occultos passos; naõ se sobmette a nossas divisoẽs,
antes parece zombar dellas; passa de especie em especie, e às vezes de
genero a genero por modos imperceptiveis, e porisso se achaõ muitas
vezes especies, que saõ como hum genero intermedio, ou passagem das do
anteoedente ao subsequente: esta he a principal razaõ porque he
impossivel de formar hum perfeito methodo ou systema geral de toda a
Histotia Natural, e ainda mesmo das suas partes.Nota
Vej. as primeiras ediçoẽs do seu Genera plantarum, aonde
consulta os Botanicos a respeito da reuniaõ das especies destes e outros
generos.Nota
Ha especies (diz Mr. de la Mark,
Flor. Franc. vol. 1.) que sendo como gradaçoẽs naõ pertencem nem a hum
nem a outro genero vizinho, sem embargo de serem inclusas em hum delles.
Talvez virá tempo, em que, deseobertas todas as plantas que ha no nosso
Globo, cada genero fique so com huma espeoe, e cada especie com tantas
variedades, quantos forem os individuos. Entre os generos, que Linneo
formou, ha mais de quatro centos que tem so huma especie, elle se vio
obrigado algumas vezes por novas observaçoẽs a mudar muitas especies dos
generos em que dantes as tinha posto, e se hoje fosse vivo, e quizesse
attender ainda às que naõ tem o caracter do seu genero, e às que naõ
seguem as leys da classe e ordem em que estaõ postas, talvez naõ
deixaria de fazer bastantes mudanças.
Taes saõ as principaes reflexoẽs que se costumaõ de ordinario oppor ao parecer de Linneo, e dos que seguem que todos os generos saõ naturaes, mas ainda que dellas resuste que todos os generos tem limites arbitrarios, e que neste sentido naõ merecem rigorosamente o nome de naturaes, contudo como algumas vezes penetramos felismente as verdadeiras affinidades de hum certo numero de especies [Página 305] vegetaes, e formamos generos e familias de antes assaz analogos na sua estructura natural quando isto tem lugar parece me que semelhantes generos e familias podem conservar a denominaçaõ de naturaes em huma accepçaõ menos rigorosa, pela razaõ das suas especies terem entre si huma intima semelhança natural, reconhecida por todos os Botanicos.
[Página 305]Sendo os generos infimos huma divisaõ systematica, que comprehende, debaxo de hum caracter e palavra, huma ou mais especies, do modo que acima expuz, he precizo explicar o que os Botanicos entendem por caracteres genericos e as suas leys didacticas, sem desprezar as que respeitaõ às denominaçoẽs de cada genero.
O caracter de hum genero (character) he a sua definiçaõ, ou qualquer idea
geral deduzida de huma ou de muitas notas, capaz de bem o destinguir de
qualquer outro. Segundo Linneo ha quatro sortes de caracteres genericos, a
saber, o habitual, facticio, essensial e natural. O caracter habitual he
tirado das notas do habito externo, e exprime huma conformidade geral
nas partes vegetaes, que naõ dizem respeito à fructificaçaõ; os antigos
costumavaõ servir se desta sorte de caracter Nota
Elles comprehendiaõ neste caraeter todas as partes das plantas,
ainda mesmo as fiores e fructos, e reconheciaõ às vezes as
affinidades das congeneres melhor do que alguns systematicos; os
hervolarios ainda hoje, somente por meyo do habito externo,
sabem destinguir hum grande numero de plantas. Nota
Alguns Botanicos modernos, como ja disse, saõ de opiniaõ que
aindaque senaõ deva preferir o caracter habitual a todo o que he
tirado da fructificaçaõ, se podem contudo ajuntar a este algumas
notas tiradas, do habito externo para mais o facilitar e tornar
seguro. Nota
Todos os caracteres genericos abbreviados que se achaõ no Systema
Vegetabilium de Linneo ou saõ essensiaes ou facticios. Nota
Linneo foy o primeiro que ideou caracteres naturaes, e os
publicos no seu Genera plantarum, saõ o fundamento dos generos,
no seu parecer, mas rigorocamente o fundamento dos generos he o
caracter natural de cada especie considerado separadamente.
AÇUCENA Nota
Lilium. A traducçaõ, que dou aqui ao publico do caracter generico
natural da Açucena, podia ser menos concisa; mas os que conhecem
o quanto a lingua Portuguesa se chega à matema latina, tanto no
didactico como em qualquer outro estylo, certamente naõ me
notaraõ aqui de ousado: aproveitei-me do favor que o seu proprio
genio me offereceo.
Calyz. Nullo.
Corolla. De seis petalas, campanulada, e estreitada na parte inferior. Pecalas levantadas, encostadas humas as outras, com huma quilha obtusa no dorso, mais largas e mais patentes na parte superior as suas pontas saõ obtusas, grossas, e recurvadas para fora.
O Nectario: he hum rego longitudinal, que se acha gravado em cáda huma das petalas, do meyo para baxo.
[Página 308]Estames. Seis filetes, assovelados, levantados, e mais curtos do que a corolla. Antheras oblongas, e vacillantes.
Antheras oblongas, e vacillantes.AntherasPistillo. O germe oblongo, hum tanto cylindrico o com seis estrias. O estylete cylindrico, e do comprimento da corolla. O estigma hum tanto mais grosso do que o estylete, e triangular.
Pericarpo. Huma capsula oblonga, e com seis regos; obtusa, concava, e trigòna, no cume; composta de tres cellulas, e tres valvulas, reunidas com pelos tecidos em grade.
Sementes. Saõ numerosas, encostadas em duas ordens, chatas, e semi circulares pelo lado externo.
N. B. As petalas em algumas especies tem as pontas nimiamente recurvadas de modo que ficam encaracolladas: O nectario em algumas especies he acompanhado de felpa, e em outras glabro.
[Página 309]Todos os caracteres genericos devem, segundo Linneo, ser tirados do numero,
figura, proporção e situaçaõ de todas as partes da fructificaçaõ. Quanto as
mais partes, que constituem o habito externo da planta, o seu parecer foy,
que postoque se deviaõ passar em silencio, mereciaõ sempre de ser bem
observadas e attendidas por naõ multiplicarmos os generos por leves causas,
e nos arriscarmos a fazer generos erroneos. Na formaçaõ dos caracteres
devemSe examinar em todas as especies anasogas todas as partes da
fructificaçaõ, ainda as mais miudas, e as que escapaõ á vista, ou precizaõ
de lente para serem observadas; devem se considerar as notas em que ellas
convem e desconvem, combinar a primeira especie com todas as mais, e todas
com a primeira, porque naõ ha caracter infallivel sem primeiramente ser
conferido e verificado em todas as especies. Na formaçaõ do caracter
natural devem-se somente mencionar as notas em que convem todas as
especies, e excluir como superfluas aquellas em que as dictas especies
desconvem; estas notas devem ser desertptas com termos technicos Nota
Demais disso devem ser escritas em difterentes paragraphos,
segundo as differentes partes da fructificaçaõ, e ter por titulo
em cima o nome do genero, como se vè no exemplo dado do caracter
generico da Açucena. Nota
Os termos tirados de semelhanças sempre presuppoem ideas claras
do primeiro simile, que nem todos podem ter, e porisso se devem
evitar o mais que for possivel; devem-se contudo exceptuar os
que se achaõ bem defindos, e adoptados pela arte, ou tirados
decentemente das partes externas do corpo humano, como dedo,
maõ, orelha, etc. Quanto aos obscenos deduzidos de vulva, penis, scrotum,
praeputium, testiculi, &c. devemos evitalos, ou para melhor
dizer abolilos inteiramente em Botanica, porque temos outros que
podem explicar sufficientemente as mesmas ideas sem ferir a
modestia. A Botanica he hoje cultivada por muitas pessoas modestas de hum e
outros sexo, que naõ podem tolerar semelhante abuso; elle teve
origem no pessimo gosto de alguns medicos dos seculos passados e
principio deste, os quaes por toda a parte naõ viaõ senaõ
objectos e termos anatomicos ainda os mais obscenos e sordidos;
a Botanica que elles sós professavaõ naõ podia escapar a esta
corrupçaõ, e com aquella mesma frivolidade, com que os
applicavaõ a mais nobre entranha do homem (testes enim et nates
cerebro tribuerunt) os applicaraõ taõbem ás mais bellas partes
dos vegetaes. Linneo adoptou este mesmo gosto de termos, e com razaõ o Dr.
Boehmer e outros modernos o censuraõ de os ter muitas vezes
prodigalizado; porquanto podramos muito bem passar na descripcaõ
das escamas cordiformes, e convergentes das sementes do
melampodium sem os termos de formam vulvae, sem o de calyx
peniformis no caracter especifico da datura metel, sem o do
receptaculo elongato in praeputium no fructo do teixo, sem o de
capsula scrotiformis no fructo da mercurial, &c. &c. Nota
Linneo (Phil. Bot. p. 123 diz que todas as vezes que em huma
planta as flores diversificaõ no numero das suas partes, so se deve
attender ao da primeira flor, isto he, ao das flores terminaes, e
porisso classou a ruta, chrysosptenium, monotropa, tetragonia, evonymus,
philadelphus, e adoxa em classes ou ordens contrarias ás que indica o
namero dos organos sexuaes das flores dos lados; mais isto naõ tem sido
adoptado por todos os modernos, e com justo motivo; supponhamos por ex.
que huma planta da quiuze flores, a terminal com cinco estames e todas
as mais que se seguem lateralmente ou desabotoaõ depois, tem todas
quatro estames, se a classamos antes na Pentandria do que na Terrandria,
a flor terminal sendo huma so e dosflorecendo primeiro que todas as
outras porá certamente hum grande obstaculo aos que quizerem achar a
classe da planta pelas fiores fateraes que observaõ, pois lhes he
necessario estar sempre presentes no periodo em que desabotoa &
dicta primeira flor, para poder reconhecer a sua classe; pelo contrario
se a classamos na Tetrandria, ninguem duvida que em todo o tempo em que
ella der flores, todos poderaõ descobrir facilmente a sua classe. He
verdade que a natureza mostra de ordinario nas primeiras fiores todo o
Seu vigor e perfeiçaõ, mas às vezes este vigor passa a ser viço, e por
conseguinte o mais seguro sera sempre guiarmos pela maior parte das
flores, quando quizermos determinar o numero das suas
partes.
A figura da flor he hum guia mais seguro, e mais digno de attender-se em
geral na formaçaõ dos generos do que a do fructo. Sem embargo de que os
antigos parecem ter feito maior cazo da estructura do fructo, contudo
todas as vezes que as flores convem, e os fructos differem (concorrendo
aliás todas as mais condiçoẽs requisitas) em hum certo numero de
especies, todas estas devem ser reunidas Nota
Este parecer he de Linneo, e como o mais methodico e proprio para
evitar multiplicidade de generos fundados em leves motivos,
parece me que devera ser seguido por todos os Botanicos; contudo
o Dr. Jussieu se desviou delle, adoptando a opiniaõ dos antigos,
e desunindo por conseguinte em differentes generos as especies
ou falsos generos, que Linneo tinha reunido em hum so no
rhamnus, pyrus, e prunus, deste modo segundo elle, a pereira,
maceira, e marmeleiro çaõ tres generos, e naõ especies de hum
so. Nota
O Dr. Jussieu e alguns outros modernos querem (contra Linneo) que
as especies de geranium, principalmente em razaõ da regularidade
e irregulidade da corolla, devem ser divididas em dois generos;
mas a anologia das mais partes da fructificaçaõ provaõ a favor
do parecer di Linneo.
As flores viçadas, monstruosas, e mutiladas naõ devem jamais ser fundamento de caracteres genericos, que sò devem ser tirados das flores naturaes. A prole, no cazo de prolificaçaõ, nos fara reconhecer o estado de viço; o calyz, e ultima ordem de petalas podem contribuir para dar-nos idea do estado de huma flor viçada, mas para melhor o reconhecer-mos sera precizo semear ou transplantar a planta viçada no seu terreno natural ou em hum chaõ magro. O calyz he menos sujeito a viço do que os estames e corolla, e os estames menos sujeitos a elle do que as petalas. O nectario, aindaque em algumas flores he sujeito a viçar, naõ deixa contudo de ser hum bom fundamento de caracteres genericos.
Pode haver huma nota singular commua a muitas especies, mas nem porisso se segue que devaõ sempre pertencer a hum so genero; pelo contrario, pode haver na maior parte das espocies de hum genero huma nota singular, que falte nas outras taõbem proprias do dicto genero, e naõ se segue porisso que se devaõ desmembrar, e com ellas constituir dois generos. [Página 313] Nestas circunstancias he precizo attender muito a analogia de todas as partes da fructificaçaõ, sem desprezar contudo o habito externo, e ter sempre presentes estas leys fundamentaes "que naõ se devem reunir plantas que convem so em poucas notas, sendo aliás muito dessemelhantes em todas as mais; nem taõbem que huma planta se deve separar das suas analogas em razaõ de huma nota, quando aliàs convem com ellas em todas as mais ou na maior parte."
[Página 313]No catalogo dos generos de huma ordem ou divisaõ systematica, deve haver cuidado de dispor proximos huns aos outros os que tem mais affinidade entre si, porque esta disposiçaõ naõ so facilita a achar os nomes das especies, mas presenta taõbem commodamente ao leytor as ideas de anologia, e encadeamento dos generos huns com outros, as quaes lhe saõ muitas vezes necessarias.
Tenho exposto em geral o que pertence às leys didacticas de huma disposiçaõ generica, restame tractar das que dizem respeito à denominaçaõ. Depois que hum Botanico descobrio ou formou hum genero, ou depois que observou que hum certo numero de especies convinhaõ no mesmo caracter natural, e por conseguinte pertenciaõ a hum so genero, segue-se imporlhe o nome. Este nome he chamado generico por ser geral e commum a muitas especies, ou idoneo a se lo no cazo que o genero tenha huma so especie; poem-se como titulo sobre huma descripçaõ generica ou caracter natural do genero, e se costuma taõbem pôr antes de qualquer nome trivial ou phrase especifica. Portanto todas as [Página 314] especies que convem no mesmo caracter generico, ou que formaõ hum so e mesmo genero, devem ter hum so e mesmo nome generico, e por conseguinte as que differem em genero devem ter hum nome generico differente.
[Página 314]Como o idioma universal, de que se servem os Botanicos, he o latino, o leytor entendera facilmente que eu somente me occuparei aqui em mencionar as regras relativas aos nomes genericos escriptos em latim, as quaes ce podem reduzir às seguintes.
Todo o nome generico genuino deve convir com igual propriedade a qualquer das
especies; a sua significaçam ou idea etymologica nam deve ser adequada a
humas especies e inadequada as outras congéneres: porisso os melhores nomes
genericos sam aquelles, cuja etymologia he desconhecida, ou cuja
significaçam nam allude á estructura, propriedades, usos vegetaes, &c.
mas so serve de conservar a memoria de alguma personagem benemerita
principalmente dos grandes Botanicos, e dos que se assinalaram em
protegelos, ou em promover a Botanica. Segundo Linneo os nomes genericos,
cuja significaçaõ envolve hum caracter essensial, ou hum destinctivo
habitual, podem ser considerados no numero dos melhores, taes como v. v.
o de adenanthera, e glycyrrhiza, o primeiro indicando o caracter
essensial de hum genero, cujas especies tem todas huma glandula nas antheras , e
o segundo indicando o destinctivo habitual de outro, cujas especies tem
todas a raiz doce: mas na supposiçaõ Nota
Esta hypòthese
he assaz possivel e conforme à doutrina de Linneo, que confessa que
hum caracter essensial pode deixar de o ser, descobertas novas
especies, e que huma nota singular pode convir ora a muitos generos,
ora somente á maior parte das especies de hum so genero. Vej. Phil.
Bot. de Charact.Nota
Chrysanthemum v. g. significa
etymologicamente flor cor d'oiro mas como a especie leucathemum he
hranca, se confiamos na etymologia, diremos: flor cor d'oiro branca,
o que he absurdo.
Donde se segue que senaõ devem usar nomes genericos fundados em
semelhanças das partes Nota
Principalmente as obscenas, e porisso senaõ devem imitar os
termos phallus, clitoria, orchis, &c.
O nome generico deve ser inteiro e naõ constituido por duas palavras separadas como v. g. dens leonis, porque esta separaçaõ he contraria á facilidade e simplicidade methodica. Linneo he de parecer que os nomes genericos substantivos saõ melhores do que os adjectivos, e que os diminutivos ainda que toleraveis naõ saõ os melhores, mas todos elles me parecem igualmente bons quando convem adequadamente a todas as suas especies, e guardaõ as mais leys necessarias.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto. Os nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies. He pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos. Naõ se devem taõbem formar dos nomes technicos [Página 319] ajuntandolhes huma ou duas syllabas como v. g. terminalia.
Os nomes de arvore , herva, planta, vegetal, arbusto, e surbarbusto (arbor, herba, planta, vegetabile, frutex, suffrutex), como nimiamente geraes aos entes do reyno vegetal saõ improprios dos generos infimos, e se reunimos qualquer delles a outro termo como por ex. arvore da vida, herva de S. Ioaõ, arvore das açucenas, &c. (arbor vitae, herba S. Joannis, liriodendron, &c.) naõ ficaõ sendo menos improprios, como se collige do que fica acima dicto.arvorearvorearvoreOs nomes de siliqua, nóz, folha , espiga, tuberosa, bolbosa, e em summa qualquer termo technico naõ deve servir de nome generico, porque todos saõ destinados pela arte comente á descripçaõ das partes do genero e das suas especies.folhaHe pois huma regra geral que a significaçaõ de hum nome generico quer seja grego quer latino daõ deve ser equivoca, ou identica com as dos termos technicos, nem ainda com as que se empregaõ para indicar a habitaçaõ das plantas, e porisso os nomes v. g. phyllon, polyanthes, alpina, que querem dizer, folha , multifloro, indigena das serras geladas, saõ improprios de ser usados como genericos.folha[Página 319]Os nomes genericos naõ devem ser escritos com lettras gregas, mas latinas;
naõ devem ser longos, difficeis de pronunciar-se ou malsoantes, como v.
g. callophyllodendron, acrochordodendros, caráxeron, mas curtos Nota
Naõ devem ter mais de doze lettras, segundo Linneo; no meu
parecer, nenhum nome generico ou especifico deve ter mais de cinco
syllabas.
Segundo Linneo os nomes genericos que se achaõ adoptados naõ se devem mudar
por outros mais competentes ou melhores, porque todos os dias achariamos
ainda outros mais adequados e jamais cessariamos de innovalos, se tivessemos
autoridade para isso. Esta idea parece-me ser acertada quanto aos bons
nomes genericos, que hoje se achaõ adoptados, e que [Página 320] competem com igual propriedade a todas as suas respectivas especies;
mas quanto aos que saõ maos ou vierem a selo, naõ vejo razaõ forte que
empeça de mudalos, em hum bom systema de nomenclatura, que fixe os nomes
de todos os vegetaes Nota
Este meu sentimento talves parecera estranho
a alguns Botanicos, mas eu espero de publicar em outro tractado o
modo com que elle se podera pôr em execuçaõ sem os inconvenientes
que se costumaõ commumente objectar.
Cada novo genero deve ter hum novo nome; mas se for preciso partir hum genero antigo em dois ou mais, o nome do antigo ficará, ás especies mais conhecidas, medicinaes, ou ás que melhor competir a sua significaçaõ etymologica, e as de mais especies do dicto antigo genero seraõ destribuidas debaxo de outro nome generico ou formado enteiramente de novo, ou tirado da synonymia das dictas especies, que se devem sempre preferir no cazo que seja bom.
[Página 321]As especies saõ a subdivisaõ do genero, assim como esta subdivide a ordem.
Toda a especie (species) he huma forma vegetal creada nos primitivos dias da
terra pelo Deos da natureza, e conservada em successivas reproducçoẽs de
plantas hermaphroditas, monoicas, dioicas, ou polygamas sempre
essensialmente semelhante. Esta semelhança naõ deve ser tomada em hum
sentido exactissimo, e em todos os accidentes, mas somente na estructura
essensial, porquanto he sujeita a variedades ou a certas differenças
accidentaes e de pouca duraçaõ. Donde se deduz que tantas saõ as formas
essensialmente diversas que hoje vemos, quantas saõ as especies. Estas
formas foraõ dadas no principio aos primeiros individuos de cada especie
juntamente com certas leys generativas; em razaõ destas leys tem sido
conservadas athe agora e seraõ perpetuadas em quanto existir a prole dos
dictos individuos; ellas jazem, pelo assim dizer, potencialmente retractadas
na estructura intima do corculo das suas sementes; este corculo ou conserva
a sua estructura propria e força germinativa, ou naõ; se naõ conserva estas
condiçoẽs perecerá infallivelmente, e se as conserva dara o producto que se
achava retractado na sua intima estructura, isto he, hum individuo que tenha
a mesma forma da planta materna que o gerou. O terreno e algumas outras
causas [Página 322] externas poderaõ fazelo desviar hum pouco da forma costumada, mas elle
seguira sempre as leys da sua estructura essensial ou conservará sempre
sufficientes notas caracteristicas da sua especie original. Se huma
planta por ex. varia nos fructos ou divisaõ das folhas , a forma do tronco, flores, sementes,
&c. apontaraõ a especie a que elle pertence. Donde resulta que podem haver muitas novas variedades, mas naõ especies
novas, nem Nota
As transformaçoẽs das sementes saõ assaz desmentidas pelas razoẽs
mencionadas; alem disso naõ consta que nos jardins Botanicos
aonde ha muitas mil plantas jamais se tenhaõ observado; as
disseminaçoẽs clandestinas e a germinaçaõ das sementes que
estiveraõ alguns annos occultas illesamente debaxo da terra saõ
certamente a causa occasional de semelhantes enganos.
As especies tem seus caracteres, assim como os generos; estes caracteres saõ
chamados especificos: os dos generos devem, segundo Limneo, ser tirados so
das partes da fructificaçaõ, mas os das especies podem ser deduzidos de
todas as partes da planta. Os caracteres especificos saõ de tres sortes ou
essensiaes, ou synopticos, ou naturaes; os dois primeiros presentaõ em huma
phrase (posta depois do nome generico) as principaes notas constantes, pelas
quaes huma planta differe de todas as outras conhecidas no mesmo genero; o
ultimo contem em muitas phrases o de talhe exacto de todas as partes de huma
planta quer seja solitaria no seu genero, quer acompanhada de outras
congeneres conhecidas. O caracter essensial he fundado em huma nota
singular differencial, propria de huma so especie, e enunciada em duas
ou tres [Página 323] palavras, como v.g. tanchagem de hastea uniflora, betula de folhas redondas, e crenuladas;
quando se pode descobrir este caracter, deve-se extinguir o synoptico,
como mais extenso, e se nos o podessemos obter em todas as especies, a
sua brevidade, facilidade e certeza poriaõ certamente a Botanica no seu
summo grao de perfeiçaõ. O caracter synoptico he fundado em huma aggregaçaõ de notas
destributivas, das quaes humas convem ás especies proximas, outras
differem dellas, mas achando-se reunidas em huma somente a fazem
destinguir de todas as mais congeneres conhecidas, como v.g. quando
dizemos: salgueiro de folhas serreadas, glabras, ovadas, agudas, e quasi rentes. Vêse claramente
que este caracter he sempre mais extenso do que o essencial, mas quanto
menos extenso for, tanto melhor sera, contanto que a sua brevidade o naõ
faça ficar insufficiente, defeito que alguns Botanicos notaõ nalguns das
especies do systema de Linneo. Ordinariamente costuma ser annunciado por
doze athe quatorze vocabulos quando muito, e com effeito parece que este
numero he sufficiente aos caracteres synopticos ainda considerados na
sua maior extensaõ; porquanto supponhamos por ex. que hum genero he
vastissimo e consta de cem especies (o que he rarissimo); todas estas
especies por hum methodo synoptico seraõ quando muito divididas 1º em
duas vezes 50 Nota
Se ellas saõ susceptiveis de se dividir 1º. v. g. em tres partes
como 26, 34, 40, he claro que as subdivisoẽs daraõ ainda menos
vocabulos. Nota
Ponho 13 em lugar de 13 mais 12 por evitar prolixidade nas
subdivisoẽs posteriores, entendendo-se facilmente que 13 deve
ser dividido em 7 e 6, e 12 em duas vezes 6 e assim dos
mais. Nota
(N...) lugar do nome generico.Nota
A razaõ que elles costumaõ dar ordinariamente he, que as longas
descripçoẽs saõ fastidiosas e naõ se lêm; mas deveraõ reflectir
que as descripçoẽs breves ou phrases synopticas e essensiaes saõ
sujeitas a mudanças e a serem insufficientes em novos systemas
ou descobertas novas plantas; e que pelo contrario hum caracter
natural especifico bem delineado he immudavel, e como tal se
recorrera sempre a elle, e sera sempre lido por todos os
verdadeiros Botanicos, ainda que o naõ seja pelos que so querem
ter huma noticia superficial de Botanica. Vale mais gastar
muitos annos, e fazer obras solidas do que edificar sobre a area
apressadamente só por granjear em pouco tempo o nome de
architecto. Nota
Como v. g. Mathiola de folhas asperas, hum tanto redondas, e de fructo
denigrido: assim especificada pelo Padre Plumier, celebre
botanico d'Elrey de França no serviço da America. Nota
Como saõ o Species plantarum, e o Systema vegetabilium de
Linneo. Nota
Este caracter como involvendo em si todas as
notas da fructificaçaõ e mais partes do habito externo, satisfaz
completamente a ambas as relaçoẽs de genero e especie, debaxo das
quaes se podem considerar semelhantes plantas solitarias. Eu
tractarei mais particularmente deste sujeito na minha Specinomia
vegetabilium.
As notas differenciaes, em que se costumaõ fundar os caracteres essensial e
synoptico, saõ tiradas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ das partes
constantes ou menos sujeitas a variar. As raizes podem subministrar
excellentes notas destinctivas, mas como ordinariamente senaõ podem metter
nos hervarios, e que para as poder observar he precizo sempre arrancar a
planta, o que senaõ deve fazer nos jardins, naõ devemos recorrer a ellas
senaõ no cazo urgente de naõ ter outros meyos de bem destinguir as especies,
como succede por ex. nas orchideas. Podemos, em lugar dellas, servirnos
dos troncos, ramos, pedunculos, peciolos, e principalmente das folhas , as quaes fornecem
ordinariamente as mais bellas, e naturaes differenças. Os gomos,
bolbilhos sobreradicaes, as armas, bracteas, estipulas, glandulas, e a [Página 328] inflorescencia ou disposiçaõ das flores podem taõbem dar-nos muitas vezes
excellentes sinaes destinctivos. O cotanilho, felpa e pêlos saõ
ordinariamente empregados nos caracteres synopticos como notas
concomitantes; ellas saõ contudo as menos seguras, porque costumaõ
falhar ás vezes em razaõ da cultura, terrenos e idade das plantas Nota
Todas as vezes que os individuos naõ tiverem outra differença
mais do que os pêlos, naõ se devem reputar por differentes especies,
assim o Thymus serpillum e glabrum saõ sò variedades da mesma
especie; a Herniaria glabra e hisurta, de que Linneo fez duas
especies, parecem taõbem ser somente variedades, e talvez ainda
muitas outras.Nota
A viola mirabilis ainda que dá
na primavera flores radicaes petaleadas, como no estio todas as suas
flores caulinas saõ despetaleadas e dellas resulta o fructo, a falta
de corolla foy julgada ser huma excellente nota para a caracterizar
especificamente.Nota
Os sexos separados saõ postos no numero das variedades
naturaes pelos Botanicos modernos. Os antigos antes de Camerario naõ
tendo hum exacto conhecimento dos sexos, davaõ ás vezes o nome de
macho á planta, que pensavaõ ter mais virtude medicinal ou ser mais
vigorosa do que outra intimamente analoga, e esta porisso mesmo que
tinha menos virtude, vigor, ou extensaõ era segundo elles denominada
femea; daqui procederaõ os erros de darem os dictos nomes ás
hermaphroditas, e ás cryptogamicas de sexo obscuro, como v. g.
paeonia mas, paeonia faemina, filix mas, filix faemina, &c, e de
chamarem masculas as que eraõ femininas e vice versâ, como se vê no
canamo e mercurial.
A cor varia muito na mesma especie; a raiz da cenoira ora he
amarella ora vermelha ou branca; as do rabaõ radisio huma vezes he
branca outras denigrida; as folhas da mesma especie de aquifolio, buxo, persicaria,
amarantho papagayo, &c. ora saõ inteiramente verdes ora variegadas;
na faya, na alface e armoles hortense saõ ou verdes ou vermelhas, e nas
couves naõ deixaõ taõbem de haver exemplos de [Página 330] mudança de cor nas folhas . Mas nenhuma parte be mais sujeita a variar de cor na mesma especie do que
a corolla passando ora a cores mixtas ora a cores simplez, de que temos
exemplos nos jacinthos, tulipas, rainunculos Nota
Tournefort contou em huma sò especie de jacintho 36 variedades,
93 em huma especie de tulipa, e mais de 200 em huma de
rainunculo. Nota
Esta regra geral he sujeita a algumas excepçoẽs no parecer de
alguns Botanicos; algumas especies de Lichen e Agaricus segundo
elles, naõ se podem bem destinguir sem empregar os caracteres
fundados nas cores, e as divisoẽs synopticas das especies de
gnaphalium e achillea, fundadas na cor branca e amarella das
flores, saõ bem acertadas, e seguras; elles pensaõ que ha flores
de cores fixas, e muitas que rarissimamente mudaõ de cor; que
por conseguinte naõ ha razaõ sufficiente para naõ as empregarmos
nos caracteres synopticos; segundo elles, Linneo estabeleceo a
este respeito huma regra nimiamente severa, e devera attender
que muitas das notas tiradas da determinaçaõ das folhas , e direcçaõ do
tronco, que elle admittio geralmente como excellentes, saõ
algumas vezes menos seguras do que as cores de algumas flores.
Os cheiros como variaõ segundo os olfactos de differentes individuos, e naõ saõ susceptiveis de se poderem bem definir, naõ podem subministrar destinctivos claros das especies, nem ainda mesmo os que saõ denominados cheiros comparativos ou allusivos aos das plantas mais conhecidas; como v. g. ao do limaõ, herva doce, herva cidreira, cravo, canella, &c. Os sabores variaõ taõbem naõ so segundo os diversos organos gustativos, e idades de cada individuo, mas ainda segundo os terrenos e climas, e emfim podem ser adoçados e abrandados pela cultura: donde se collige que devem ser excluidos dos caracteres synopticos e essensiaes; demais disso as observaçoẽs gustativas saõ arriscadas, havendo algumas plantas, de que basta que hum modico succo toque a lingua para envenenar.
Os defeitos procedidos de enfermidade, mutilaçaõ, de viço ou monstruosidade em qualquer parte que se achem nas plantas saõ incapazes de poder servir de notas em caracter algum especifico; as flores dobradas, semidobradas, proliferas e mutiladas devem somente ser consideradas como notas naõ naturaes, que so podem caracterizar huma variedade de especie: alem disso as plantas, a que ellas pertencem, sendo originarias das especies naturaes, conservaõ sempre os sufficientes destinctivos da sua propria [Página 332] especie, e da mesma sorte que hum monstro naõ constitue especie entre os animaes, assim taõbem entre os vegetaes.
As virtudes e tisos diéteticos, medicinaes, e economicos, como naõ constituem partes das plantas, nao devem ser fundamento de caracteres especificos, ainida que possaõ entrar nas descripçoẽs historicas das es pecies; donde se segue que saõ erroneos todos os termos empregados nas phrases especificas destinados a indicar as virtudes e ussos, como v. g. purgativo, antiscorbutico, officinal, usual, venenoso, mortal, sadio, saudavel, dormideira, furioso, alimentar comestivel, bom para bassoiras, penteador, usado dos tintureiros, bom para tintas, &c., &c.
Os diversos climas, paizes e quaesquer lugares relativos á habitaçaõ das
plantas, como sendo-lhes accidentaes, naõ podem subministrar boas notas
especificas. Alem disso as plantas que se daõ em huma parte do nosso globo
podem-se dar em outra; temos exemplos de muitas especies naturaes da
Lapponia e Siberia, as quaes se achaõ igualmente no Canadá, outras que naõ
saõ mais particulares á Europea do que á Africa, e outras emfim que sendo
indigenas da Asia nascem naturalmente taõbem na America; as mesmas especies,
que se daõ nas lagoas, achaõ-se ás vezes nas altas montanhas; ha algumas que
se daõ tanto nos charcos como nos bosques, e outras que saõ raras em hum
paiz e abundantes em outro. Os que vem huma grande collecçaõ de plantas de
todas as partes da terra em hum jardim Botanico, ou em hum copioso hervario
de plantas seccas ou estampadas, e dezejaõ descobrir o nome de huma planta [Página 333] ou estudala por hum systema, so se podem servir dos termos relativos à sua
estructura, ficando-lhes indifferentes ou superfluos todos os que dizem
respeito, á sua habitaçaõ. Donde resulta que os termos geographicos, e todos
os que saõ relativos á habitaçaõ das plantas, naõ devem entrar em caracter
algum especifico, e que por conseguinte saõ erroneos os de Africana,
Europêa, Asiatica, Americana, occidental, oriental, austral, Portugueza,
Hespanhola Nota
Este defeito ficou nos nomes triviaes.
Os tempos de crescer, e florecer, como sujeitos a mudar e accidentaes ás plantas, naõ podem ser fundamento de notas especificas, e por conseguinte se empregariaõ erradamente nos caracteres especificos os termos de serodeo, temporaõ, da primavera, outono, estio, inverno, de Março, Mayo, de todos os mezes, de huma hora, que florece de noyte, &c.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura. Pelo contrario, a grandeza relativa, por meyo da qual as partes da mesma planta saõ comparadas humas com as outras, subministra notas assaz seguras, e se pode adequadamente empregar nos caracteres essensiaes e [Página 334] synopticos, pode-se por ex. caracterizar muito bem huma especie de lobelia, dizendo que ella tem pedunculos curtissimos e o tubo da corolla compridissimo. A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c. Donde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c. Da mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c. Nem sera menos vicioso usar de diminutivos e das termimçoẽs em oide ou forme, como v. g. genciana gencianella, isto he, pequena genciana que se assemelha á grande, couve asparagoide ou asparagiforme, isto he, couve que se asselha na forma ao espargo.
Todos os termos empregados nas phrases especificas, ou destinados a
exprimir as notas caracteristicas, devem ser claros, breves, e proprios
naõ se de vem por conseguinte usar os figurados, como v. g. dizer urtiga
morta ou fatua, em lugar de inerme, gentil por muito cheiroso, de flor
ou de folha por flores ou folhas , &c. Saõ igualmente improprios todos os que
saõ deduzidos de huma ordem numeral, como v. g. rainunculo primeiro,
segundo, terceiro, &c. e os que exprimem o nome de alguma personagem
como v. g. trevo de Gaston, narcizo de Tradescancio, &c., porque
semelhantes nomes naõ daõ ideas de nota alguma que se acha na planta. Da
mesma sorte os que saõ fundados em hypotheses, como v. g. dictamno
verdadeiro, falso, ou bastardo, e os que daõ ideas vagas e muito
arbitrarias, como v. g.. flores lindas, feas, &c. Nenhum adiectivo deve
ser usado sem ter antes hum substantivo technico Nota
A technelogia viria
por este modo a ser inconstante e muito vaga, o que seria defeito;
porquanto deve ser fixa, em razaõ de se oppor á corrupçaõ da sciencia,
conservando a certeza e clareza da sua linguagem.Nota
Este e outros muitos defeitos ficaraõ nos triviaes, de que usa
Linneo no seu Species plantarum, nomen clatura, que
ordinariamente se oppoem a que as leys da boa critica
estabelecidas pelo mesmo Botanico naõ sejaõ uniformes.
Ha contudo alguns nomes compostos das particulas privativas latinas e,
in, ou do a priativo grego Nota
Como v. g. enervis, enodis, eglandulosus, inermis, indivisus,
impunctatus, inarticulatus, acaulis, &c; alguns destes
termos podem traduzir-se pelas palavras Portuguesas compostas da
particula des. Nota
Como v. g. muticus, nudus.
Todos os termos assimilativos, isto he, destinados a exprimir
semelhanças, naõ devem ser usados nas phrases especificas, porque he
rarissimo que o asse melhado represente o seu simile perfeitamente, e
demais disso este fica muitas vezes sendo obscuro como v.g. se
dicessemos: folhas semelhantes
ás segures Romanas. Devem-se contudo exceptuar os que se achaõ definidos ou geralmente
adoptados, e os que saõ decentemente Nota
Vej. a Nota relativa aos termos assimilativos destinados á
descripçaõ dos caracteres genericos.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro. Naõ devem constar de termos superfluos, como seriaõ por ex. os que indicassem todas as variedades, ou se opposessem a ellas; nem ser taõ succinctas, que lhes faltem [Página 339] os termos sufficientes para bem caracterizar a especie. Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces. A conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas. Quando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa. O parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem. Como o caracter natural de qualquer especie exige ser descripto em muitas phrases, segundo as differentes partes de que consta; cada phrase deve ser posta separadamente para maior clareza, como exporei mais particularmente, quando tractar da descripçaõ das plantas.
Antes de Linneo as especies eraõ somente nomeadas com o seu caracter
synoptico ou essensial, posto immediatamente depois do nome generico; e em
razaõ disto todos os termos que nelles entravaõ, e ainda os mesmos
caracteres eraõ chamados nomes especificos (nomina specifica). Elle
conservou a mesma accepçaõ, e uso; mas vendo que naõ era possivel de
retelos de còr, e que eraõ sujeitos a mudança, descobertas novas
especies, imaginou de pôr entre elles e o nome [Página 340] generico hum termo Nota
As vezes saõ mais, como v. g. Impatiens noli me tangere: Panicum
crus galli, &c; mas isto he raro. Nota
Eu publicarei na minha Specinomia vegetabilium as regras, a que
os triviaes se podem sujeitar, e proporei hum systema de
nomenelatura invariavel em todas as destribuiçoẽs methodicas ou
systemicas, que se possaõ imaginar em Botanica.
Quanto á disposiçaõ das especies, facilmente se entende pelo que tenho dicto neste capitulo, que as que tiverem mais affinidade entre si devem estar mais conchegadas.
As especies saõ a subdivisaõ do genero, assim como esta subdivide a ordem.
Toda a especie (species) he huma forma vegetal creada nos primitivos dias da
terra pelo Deos da natureza, e conservada em successivas reproducçoẽs de
plantas hermaphroditas, monoicas, dioicas, ou polygamas sempre
essensialmente semelhante. Esta semelhança naõ deve ser tomada em hum
sentido exactissimo, e em todos os accidentes, mas somente na estructura
essensial, porquanto he sujeita a variedades ou a certas differenças
accidentaes e de pouca duraçaõ. Donde se deduz que tantas saõ as formas
essensialmente diversas que hoje vemos, quantas saõ as especies. Estas
formas foraõ dadas no principio aos primeiros individuos de cada especie
juntamente com certas leys generativas; em razaõ destas leys tem sido
conservadas athe agora e seraõ perpetuadas em quanto existir a prole dos
dictos individuos; ellas jazem, pelo assim dizer, potencialmente retractadas
na estructura intima do corculo das suas sementes; este corculo ou conserva
a sua estructura propria e força germinativa, ou naõ; se naõ conserva estas
condiçoẽs perecerá infallivelmente, e se as conserva dara o producto que se
achava retractado na sua intima estructura, isto he, hum individuo que tenha
a mesma forma da planta materna que o gerou. O terreno e algumas outras
causas [Página 322] externas poderaõ fazelo desviar hum pouco da forma costumada, mas elle
seguira sempre as leys da sua estructura essensial ou conservará sempre
sufficientes notas caracteristicas da sua especie original. Se huma
planta por ex. varia nos fructos ou divisaõ das folhas , a forma do tronco, flores, sementes,
&c. apontaraõ a especie a que elle pertence. Donde resulta que podem haver muitas novas variedades, mas naõ especies
novas, nem Nota
As transformaçoẽs das sementes saõ assaz desmentidas pelas razoẽs
mencionadas; alem disso naõ consta que nos jardins Botanicos
aonde ha muitas mil plantas jamais se tenhaõ observado; as
disseminaçoẽs clandestinas e a germinaçaõ das sementes que
estiveraõ alguns annos occultas illesamente debaxo da terra saõ
certamente a causa occasional de semelhantes enganos.
As especies tem seus caracteres, assim como os generos; estes caracteres saõ
chamados especificos: os dos generos devem, segundo Limneo, ser tirados so
das partes da fructificaçaõ, mas os das especies podem ser deduzidos de
todas as partes da planta. Os caracteres especificos saõ de tres sortes ou
essensiaes, ou synopticos, ou naturaes; os dois primeiros presentaõ em huma
phrase (posta depois do nome generico) as principaes notas constantes, pelas
quaes huma planta differe de todas as outras conhecidas no mesmo genero; o
ultimo contem em muitas phrases o de talhe exacto de todas as partes de huma
planta quer seja solitaria no seu genero, quer acompanhada de outras
congeneres conhecidas. O caracter essensial he fundado em huma nota
singular differencial, propria de huma so especie, e enunciada em duas
ou tres [Página 323] palavras, como v.g. tanchagem de hastea uniflora, betula de folhas redondas, e crenuladas;
quando se pode descobrir este caracter, deve-se extinguir o synoptico,
como mais extenso, e se nos o podessemos obter em todas as especies, a
sua brevidade, facilidade e certeza poriaõ certamente a Botanica no seu
summo grao de perfeiçaõ. O caracter synoptico he fundado em huma aggregaçaõ de notas
destributivas, das quaes humas convem ás especies proximas, outras
differem dellas, mas achando-se reunidas em huma somente a fazem
destinguir de todas as mais congeneres conhecidas, como v.g. quando
dizemos: salgueiro de folhas serreadas, glabras, ovadas, agudas, e quasi rentes. Vêse claramente
que este caracter he sempre mais extenso do que o essencial, mas quanto
menos extenso for, tanto melhor sera, contanto que a sua brevidade o naõ
faça ficar insufficiente, defeito que alguns Botanicos notaõ nalguns das
especies do systema de Linneo. Ordinariamente costuma ser annunciado por
doze athe quatorze vocabulos quando muito, e com effeito parece que este
numero he sufficiente aos caracteres synopticos ainda considerados na
sua maior extensaõ; porquanto supponhamos por ex. que hum genero he
vastissimo e consta de cem especies (o que he rarissimo); todas estas
especies por hum methodo synoptico seraõ quando muito divididas 1º em
duas vezes 50 Nota
Se ellas saõ susceptiveis de se dividir 1º. v. g. em tres partes
como 26, 34, 40, he claro que as subdivisoẽs daraõ ainda menos
vocabulos. Nota
Ponho 13 em lugar de 13 mais 12 por evitar prolixidade nas
subdivisoẽs posteriores, entendendo-se facilmente que 13 deve
ser dividido em 7 e 6, e 12 em duas vezes 6 e assim dos
mais. Nota
(N...) lugar do nome generico.Nota
A razaõ que elles costumaõ dar ordinariamente he, que as longas
descripçoẽs saõ fastidiosas e naõ se lêm; mas deveraõ reflectir
que as descripçoẽs breves ou phrases synopticas e essensiaes saõ
sujeitas a mudanças e a serem insufficientes em novos systemas
ou descobertas novas plantas; e que pelo contrario hum caracter
natural especifico bem delineado he immudavel, e como tal se
recorrera sempre a elle, e sera sempre lido por todos os
verdadeiros Botanicos, ainda que o naõ seja pelos que so querem
ter huma noticia superficial de Botanica. Vale mais gastar
muitos annos, e fazer obras solidas do que edificar sobre a area
apressadamente só por granjear em pouco tempo o nome de
architecto. Nota
Como v. g. Mathiola de folhas asperas, hum tanto redondas, e de fructo
denigrido: assim especificada pelo Padre Plumier, celebre
botanico d'Elrey de França no serviço da America. Nota
Como saõ o Species plantarum, e o Systema vegetabilium de
Linneo. Nota
Este caracter como involvendo em si todas as
notas da fructificaçaõ e mais partes do habito externo, satisfaz
completamente a ambas as relaçoẽs de genero e especie, debaxo das
quaes se podem considerar semelhantes plantas solitarias. Eu
tractarei mais particularmente deste sujeito na minha Specinomia
vegetabilium.
As notas differenciaes, em que se costumaõ fundar os caracteres essensial e
synoptico, saõ tiradas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ das partes
constantes ou menos sujeitas a variar. As raizes podem subministrar
excellentes notas destinctivas, mas como ordinariamente senaõ podem metter
nos hervarios, e que para as poder observar he precizo sempre arrancar a
planta, o que senaõ deve fazer nos jardins, naõ devemos recorrer a ellas
senaõ no cazo urgente de naõ ter outros meyos de bem destinguir as especies,
como succede por ex. nas orchideas. Podemos, em lugar dellas, servirnos
dos troncos, ramos, pedunculos, peciolos, e principalmente das folhas , as quaes fornecem
ordinariamente as mais bellas, e naturaes differenças. Os gomos,
bolbilhos sobreradicaes, as armas, bracteas, estipulas, glandulas, e a [Página 328] inflorescencia ou disposiçaõ das flores podem taõbem dar-nos muitas vezes
excellentes sinaes destinctivos. O cotanilho, felpa e pêlos saõ
ordinariamente empregados nos caracteres synopticos como notas
concomitantes; ellas saõ contudo as menos seguras, porque costumaõ
falhar ás vezes em razaõ da cultura, terrenos e idade das plantas Nota
Todas as vezes que os individuos naõ tiverem outra differença
mais do que os pêlos, naõ se devem reputar por differentes especies,
assim o Thymus serpillum e glabrum saõ sò variedades da mesma
especie; a Herniaria glabra e hisurta, de que Linneo fez duas
especies, parecem taõbem ser somente variedades, e talvez ainda
muitas outras.Nota
A viola mirabilis ainda que dá
na primavera flores radicaes petaleadas, como no estio todas as suas
flores caulinas saõ despetaleadas e dellas resulta o fructo, a falta
de corolla foy julgada ser huma excellente nota para a caracterizar
especificamente.Nota
Os sexos separados saõ postos no numero das variedades
naturaes pelos Botanicos modernos. Os antigos antes de Camerario naõ
tendo hum exacto conhecimento dos sexos, davaõ ás vezes o nome de
macho á planta, que pensavaõ ter mais virtude medicinal ou ser mais
vigorosa do que outra intimamente analoga, e esta porisso mesmo que
tinha menos virtude, vigor, ou extensaõ era segundo elles denominada
femea; daqui procederaõ os erros de darem os dictos nomes ás
hermaphroditas, e ás cryptogamicas de sexo obscuro, como v. g.
paeonia mas, paeonia faemina, filix mas, filix faemina, &c, e de
chamarem masculas as que eraõ femininas e vice versâ, como se vê no
canamo e mercurial.
A cor varia muito na mesma especie; a raiz da cenoira ora he
amarella ora vermelha ou branca; as do rabaõ radisio huma vezes he
branca outras denigrida; as folhas da mesma especie de aquifolio, buxo, persicaria,
amarantho papagayo, &c. ora saõ inteiramente verdes ora variegadas;
na faya, na alface e armoles hortense saõ ou verdes ou vermelhas, e nas
couves naõ deixaõ taõbem de haver exemplos de [Página 330] mudança de cor nas folhas . Mas nenhuma parte be mais sujeita a variar de cor na mesma especie do que
a corolla passando ora a cores mixtas ora a cores simplez, de que temos
exemplos nos jacinthos, tulipas, rainunculos Nota
Tournefort contou em huma sò especie de jacintho 36 variedades,
93 em huma especie de tulipa, e mais de 200 em huma de
rainunculo. Nota
Esta regra geral he sujeita a algumas excepçoẽs no parecer de
alguns Botanicos; algumas especies de Lichen e Agaricus segundo
elles, naõ se podem bem destinguir sem empregar os caracteres
fundados nas cores, e as divisoẽs synopticas das especies de
gnaphalium e achillea, fundadas na cor branca e amarella das
flores, saõ bem acertadas, e seguras; elles pensaõ que ha flores
de cores fixas, e muitas que rarissimamente mudaõ de cor; que
por conseguinte naõ ha razaõ sufficiente para naõ as empregarmos
nos caracteres synopticos; segundo elles, Linneo estabeleceo a
este respeito huma regra nimiamente severa, e devera attender
que muitas das notas tiradas da determinaçaõ das folhas , e direcçaõ do
tronco, que elle admittio geralmente como excellentes, saõ
algumas vezes menos seguras do que as cores de algumas flores.
Os cheiros como variaõ segundo os olfactos de differentes individuos, e naõ saõ susceptiveis de se poderem bem definir, naõ podem subministrar destinctivos claros das especies, nem ainda mesmo os que saõ denominados cheiros comparativos ou allusivos aos das plantas mais conhecidas; como v. g. ao do limaõ, herva doce, herva cidreira, cravo, canella, &c. Os sabores variaõ taõbem naõ so segundo os diversos organos gustativos, e idades de cada individuo, mas ainda segundo os terrenos e climas, e emfim podem ser adoçados e abrandados pela cultura: donde se collige que devem ser excluidos dos caracteres synopticos e essensiaes; demais disso as observaçoẽs gustativas saõ arriscadas, havendo algumas plantas, de que basta que hum modico succo toque a lingua para envenenar.
Os defeitos procedidos de enfermidade, mutilaçaõ, de viço ou monstruosidade em qualquer parte que se achem nas plantas saõ incapazes de poder servir de notas em caracter algum especifico; as flores dobradas, semidobradas, proliferas e mutiladas devem somente ser consideradas como notas naõ naturaes, que so podem caracterizar huma variedade de especie: alem disso as plantas, a que ellas pertencem, sendo originarias das especies naturaes, conservaõ sempre os sufficientes destinctivos da sua propria [Página 332] especie, e da mesma sorte que hum monstro naõ constitue especie entre os animaes, assim taõbem entre os vegetaes.
[Página 332]As virtudes e tisos diéteticos, medicinaes, e economicos, como naõ constituem partes das plantas, nao devem ser fundamento de caracteres especificos, ainida que possaõ entrar nas descripçoẽs historicas das es pecies; donde se segue que saõ erroneos todos os termos empregados nas phrases especificas destinados a indicar as virtudes e ussos, como v. g. purgativo, antiscorbutico, officinal, usual, venenoso, mortal, sadio, saudavel, dormideira, furioso, alimentar comestivel, bom para bassoiras, penteador, usado dos tintureiros, bom para tintas, &c., &c.
Os diversos climas, paizes e quaesquer lugares relativos á habitaçaõ das
plantas, como sendo-lhes accidentaes, naõ podem subministrar boas notas
especificas. Alem disso as plantas que se daõ em huma parte do nosso globo
podem-se dar em outra; temos exemplos de muitas especies naturaes da
Lapponia e Siberia, as quaes se achaõ igualmente no Canadá, outras que naõ
saõ mais particulares á Europea do que á Africa, e outras emfim que sendo
indigenas da Asia nascem naturalmente taõbem na America; as mesmas especies,
que se daõ nas lagoas, achaõ-se ás vezes nas altas montanhas; ha algumas que
se daõ tanto nos charcos como nos bosques, e outras que saõ raras em hum
paiz e abundantes em outro. Os que vem huma grande collecçaõ de plantas de
todas as partes da terra em hum jardim Botanico, ou em hum copioso hervario
de plantas seccas ou estampadas, e dezejaõ descobrir o nome de huma planta [Página 333] ou estudala por hum systema, so se podem servir dos termos relativos à sua
estructura, ficando-lhes indifferentes ou superfluos todos os que dizem
respeito, á sua habitaçaõ. Donde resulta que os termos geographicos, e todos
os que saõ relativos á habitaçaõ das plantas, naõ devem entrar em caracter
algum especifico, e que por conseguinte saõ erroneos os de Africana,
Europêa, Asiatica, Americana, occidental, oriental, austral, Portugueza,
Hespanhola Nota
Este defeito ficou nos nomes triviaes.
Os tempos de crescer, e florecer, como sujeitos a mudar e accidentaes ás plantas, naõ podem ser fundamento de notas especificas, e por conseguinte se empregariaõ erradamente nos caracteres especificos os termos de serodeo, temporaõ, da primavera, outono, estio, inverno, de Março, Mayo, de todos os mezes, de huma hora, que florece de noyte, &c.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura. Pelo contrario, a grandeza relativa, por meyo da qual as partes da mesma planta saõ comparadas humas com as outras, subministra notas assaz seguras, e se pode adequadamente empregar nos caracteres essensiaes e [Página 334] synopticos, pode-se por ex. caracterizar muito bem huma especie de lobelia, dizendo que ella tem pedunculos curtissimos e o tubo da corolla compridissimo. A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c. Donde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c. Da mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c. Nem sera menos vicioso usar de diminutivos e das termimçoẽs em oide ou forme, como v. g. genciana gencianella, isto he, pequena genciana que se assemelha á grande, couve asparagoide ou asparagiforme, isto he, couve que se asselha na forma ao espargo.
A grandeza absoluta, ou commensurativa das plantas he sujeita a variar muito segundo o terreno, clima, abundancia de succos, &c e porisso fornece notas pouco seguras; o gyrasol v. g. em hum terreno magro darà folhas da largura de maõ travessa, e em hum chaõ pingue dalas-ha de dobrada largura.folhas[Página 334]A grandeza allusiva, por meyo da qual huma planta he vagamente comparada com outra, naõ deve jamais ser empregada em caracter algum especifico; porque quando eu vejo huma especie he rarissimo que tenha huma perfeita idea da grandeza daquella a que se faz allusaõ, e que naõ vejo; demais disso pode succeder que eu naõ tenha conhecimento algum da planta, a que se faz allusaõ; peloque todos os termos fundados em semelhante grandeza saõ erroneos, como v. g. maximo, minimo; anaõ, gigantesco, altissimo; grande, pequeno; maior, menor, mediano; alto, baxo, de folhas largas, de folhas estreitas; de grandes flores, de pequenas flores; e emfim todos aquelles que saõ acompanhados dos adverbios mais, menos, muito ou pouco, como v. g. de folhas mais largas, de folhas mais estreitas, de caule menos grosso, de caule muito alto, de caule pouco alto, &c.folhasfolhasfolhasfolhasDonde se collige taõbem que todos os graos de comparaçaõ de huma especie com outra em qualquer relaçaõ, que for da sua estructura naõ devem ser usados nos caracteres especificos, como v. g. se dissessemos folhas menos peludas, mais redondas, mais agudas, &c.folhasDa mesma sorte todas as notas comparativas de huma especie com outra naõ devem jamais ser admittidas em caracter algum; ellas saõ obscuras, formaõ hum circulo vicioso de ideas, e suppoem ou que a planta a que se faz allusaõ he ja bem conhecida, o que ordinariamente naõ succede aos principiantes, ou que nasce junto da planta comparada, o que raras vezes [Página 335] tem lugar; peloque sempre sera vicioso dizer v. g. tasneira com folhas de serralha, clinopodio com face de ouregaõ, cirsio com raiz de helleboro, Adonis com flor de pampilhos, &c.[Página 335]folhasraizTodos os termos empregados nas phrases especificas, ou destinados a
exprimir as notas caracteristicas, devem ser claros, breves, e proprios
naõ se de vem por conseguinte usar os figurados, como v. g. dizer urtiga
morta ou fatua, em lugar de inerme, gentil por muito cheiroso, de flor
ou de folha por flores ou folhas , &c. Saõ igualmente improprios todos os que
saõ deduzidos de huma ordem numeral, como v. g. rainunculo primeiro,
segundo, terceiro, &c. e os que exprimem o nome de alguma personagem
como v. g. trevo de Gaston, narcizo de Tradescancio, &c., porque
semelhantes nomes naõ daõ ideas de nota alguma que se acha na planta. Da
mesma sorte os que saõ fundados em hypotheses, como v. g. dictamno
verdadeiro, falso, ou bastardo, e os que daõ ideas vagas e muito
arbitrarias, como v. g.. flores lindas, feas, &c. Nenhum adiectivo deve
ser usado sem ter antes hum substantivo technico Nota
A technelogia viria
por este modo a ser inconstante e muito vaga, o que seria defeito;
porquanto deve ser fixa, em razaõ de se oppor á corrupçaõ da sciencia,
conservando a certeza e clareza da sua linguagem.Nota
Este e outros muitos defeitos ficaraõ nos triviaes, de que usa
Linneo no seu Species plantarum, nomen clatura, que
ordinariamente se oppoem a que as leys da boa critica
estabelecidas pelo mesmo Botanico naõ sejaõ uniformes.
Ha contudo alguns nomes compostos das particulas privativas latinas e,
in, ou do a priativo grego Nota
Como v. g. enervis, enodis, eglandulosus, inermis, indivisus,
impunctatus, inarticulatus, acaulis, &c; alguns destes
termos podem traduzir-se pelas palavras Portuguesas compostas da
particula des. Nota
Como v. g. muticus, nudus.
Todos os termos assimilativos, isto he, destinados a exprimir
semelhanças, naõ devem ser usados nas phrases especificas, porque he
rarissimo que o asse melhado represente o seu simile perfeitamente, e
demais disso este fica muitas vezes sendo obscuro como v.g. se
dicessemos: folhas semelhantes
ás segures Romanas. Devem-se contudo exceptuar os que se achaõ definidos ou geralmente
adoptados, e os que saõ decentemente Nota
Vej. a Nota relativa aos termos assimilativos destinados á
descripçaõ dos caracteres genericos.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro. Naõ devem constar de termos superfluos, como seriaõ por ex. os que indicassem todas as variedades, ou se opposessem a ellas; nem ser taõ succinctas, que lhes faltem [Página 339] os termos sufficientes para bem caracterizar a especie. Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces. A conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas. Quando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa. O parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem. Como o caracter natural de qualquer especie exige ser descripto em muitas phrases, segundo as differentes partes de que consta; cada phrase deve ser posta separadamente para maior clareza, como exporei mais particularmente, quando tractar da descripçaõ das plantas.
As phrases expressivas dos caracteres especificos devem ser postas depois dos nomes generico e trivial, como v. g. Açucena branca, de folhas dispersas; corollas campanuladas, e glabras por dentro.folhas[Página 339]Ordinariamente naõ se costumaõ pôr virgulas, nem conjunçaõ alguma entre os termos adjectivos referidos ao mesmo substantivo em huma phrase synoptica ou essensial, mas sera mais acertado virgular, e por no fim a conjunçaõ copulativa, quando houverem muitos dos dictos adjectivos, como v. g. Salgueiro branco, de folhas lanceoladas , pontudas, serreadas, e empubescidas por ambas as faces.folhaslanceoladasA conjunçaõ dis junctiva pode ter lugar no cazo que se devaõ indicar ideas oppostas, como v. g (N.) de espigas rentes, ou pedunculadas: (N.), de folhas inteiras ou fendidas.folhasQuando se fizer mençaõ de partes differentes sera sempre acertado usar de ponto e virgula, como v. g. Piteira Americana de folhas denteadas-espinhosas; com hastea ramosa.folhasO parenthese naõ he admittido entre os termos das hrases especificas, porque indica excepcaõ ou falta de ordem.hrasesAntes de Linneo as especies eraõ somente nomeadas com o seu caracter
synoptico ou essensial, posto immediatamente depois do nome generico; e em
razaõ disto todos os termos que nelles entravaõ, e ainda os mesmos
caracteres eraõ chamados nomes especificos (nomina specifica). Elle
conservou a mesma accepçaõ, e uso; mas vendo que naõ era possivel de
retelos de còr, e que eraõ sujeitos a mudança, descobertas novas
especies, imaginou de pôr entre elles e o nome [Página 340] generico hum termo Nota
As vezes saõ mais, como v. g. Impatiens noli me tangere: Panicum
crus galli, &c; mas isto he raro. Nota
Eu publicarei na minha Specinomia vegetabilium as regras, a que
os triviaes se podem sujeitar, e proporei hum systema de
nomenelatura invariavel em todas as destribuiçoẽs methodicas ou
systemicas, que se possaõ imaginar em Botanica.
Quanto á disposiçaõ das especies, facilmente se entende pelo que tenho dicto neste capitulo, que as que tiverem mais affinidade entre si devem estar mais conchegadas.
[Página 342]Huma variedade em Botanica (varietas), he huma forma vegetal desviada accidentalmente, por alguma causa occasional, da forma primitiva creada de que he originaria; ou para o dizer mais breve, he a especie accidentalmente mudada depois da creaçaõ. Eu não incluo nestas definiçoẽs as variedades naturaes creadas, que consistem nos sexos, mas fallo taõ somente das variedades casuaes que tem havido, ha, e podem ter lugar nas reproducçoẽs das especies primitivas. As variedades naturaes creadas saõ huma estructura vegetal creada em tudo identica a outra, mas differente no sexo ou n'alguns accidentes. Suppondo pois, como he provavel, que o Autor da natureza creasse no principio n'algumas especies vegetaes os dois sexos individualmente separados, assim como nas especies dos animaes; as variedades naturaes creadas saõ por conseguinte taõ antigas como a sua especie; porquanto consistindo a especie nas partes da estructura em tudo identicas e commuas aos dois sexos, e sendo as variedades naturaes creadas fundadas nestas mesmas partes acompanhadas da differença sexual, estas so por abtracçaõ methaphysica e naõ por ordem de tempo se podem perceber separadas da sua especie. Mas na hypothese de que todas as especies, que saõ hoje dioicas, foraõ creadas hermaphroditas, e [Página 343] que huma causa occasional, alguns seculos depois da creaçaõ, as tornou dioicas, neste cazo a unisexualidade somente deve constituir huma variedade casual, e naõ na tural creada.
As variedades saõ taõ proprias do reyno vegetal, como do animal; porque assim
como vemos na mesma especie canina, caẽs d'agoa, de fila, perdigueiros,
galgos, sabujos, &c., &c. assim taõbem opservamos na mesma especie
de pereira, as que daõ peras bojardas, carvalhaes, flamengas, do conde,
gervasias, pardas, &c.; e notamos na mesma especie de murriaõ plantas de
flores escarlatas e outras de flores azues. Todas estas variedades saõ
reputadas em hum e outro reyno por casuaes Nota
Se admittissemos a
hypòthese (que se tem por improvavel) de que algumas das variedades
de caens, pereiras, e as duas dos murrioẽs acima mencionadas
existiraõ em diversos lugares da terra no mesmo tempo primitivo da
creaçaõ da sua especie, ou de que saõ taõ antigas como ella, neste
cazo ficariaõ sendo variedades naturaes creadas pela razaõ de terem
sahido das maõs do Autor da natureza taes como as vemos hoje, ou
terem nascido immediatamente taes dos germes que elle creara, e naõ
serem occasionadas pelos terrenos, climas, &c. nas consecutivas
reproducçoẽs.Nota
Os ventos, chamados pelos sexualistas, conductores dos prazeres
ou dos amores das plantas, podem taõbem ser contados entre as
causas das variedades, e ainda mesmo as abelhas (segundo Hales)
pela razaõ de levarem comsigo de flor em flor o po fecundante de differentes especies de antheras . Nota
Na sua idade vigorosa tem as folhas lobadas , e
algumas ovadas, mas na velhice todas saõ ovadas, e o tronco he
arboreo.
Os Botanicos ordinariamente naõ costumaõ fazer mençaõ nos seus catalogos systematicos das variedades de cada especie, e apenas indicaõ algumas: elles pensaõ que jamais poderiaõ terminar os dictos catalogos, se emprehendessem de mencionar todas as variedades do reyno vegetal, e que ainda no cazo que fosse possivel terminalos, o estudo de Botanica ficaria summamente longo e fastidioso. Naõ negaõ contudo 1º, que se devaõ bem conhecer e conservar as que saõ uteis e agradaveis; 2º que se deva saber, destinguir o que he variedade do que he especie. Quanto ao primeiro artigo, deixaõ esse trabalho aos Autores que tractaõ da Botanica applicada às artes de pharmacia, de materia medica, horticultura, jar dinagem, e qualquer outra parte de agricultura, quanto ao segundo artigo confessaõ que sem a dicta distinçaõ se multiplicaria erroneamente o numero das especies, o que se opporia á clareza e brevidade methodica, que exige o estudo dos vegetaes; elles deraõ por conseguinte algumas regras tendentes a destinguir as variedades das especies, as quaes da mesma sorte que as que foraõ referidas no capitulo precedente, aindaque estaõ talvez bem desviadas da perfeiçaõ, a que hum mais profundo estudo da natureza as poderá conduzir, devem contudo ser presentadas aos que se daõ à Botanica, por naõ terem por especies entes, que dellas so differem levemente.
Todo o viço ou monstruosidade, que tem lugar no [Página 345] numero, figura, proporçaõ ou situaçaõ das partes de qualquer vegetal,
constitue huma variedade; e assim como no reyno animal hum monstro ou hum
eunucho somente saõ individuos imperfeitos da sua especie, assim taõbem o
saõ as plantas monstruosas e eunuchas, como as que daõ flores dobradas,
semidobradas, proliferas, e mutiladas. Todas as plantas enfermas,
mestiças, ou mulinas, Nota
Vej. o que disse a respeito destas plantas nos seus Cap.
respectivos.
Reduzir as differentes variedades á mesma especie he hum trabalho algumas
vezes muito mais difficil do que ajuntar as especies debaxo do mesmo genero.
Muitas vezes basta o caracter da especie para fazer reconhecer a variedade;
mas ha algumas variedades que exigem muitas reflexoẽs e experiencia,
requerem hum attento exame de todas as suas partes, ainda as mais miudas, e
huma combinaçaõ destas com as das suas congeneres e às vezes com as das
especies do genero vizinho, para se poderem reduzir á especie de que emanaõ. Ha algumas especies e ainda mesmo familias inteiras, em que os
individuos so costumaõ variar na raiz ; ha outras, em que
elles variaõ nas folhas ,
grandeza do tronco e ramos, na cor e pelos; e ha outras emfim, cujos
individuos somente soffrem mudanças nas flores ou fructos. Naõ se
devem jamais perder de vista as causas occasionaes; muitas plantas [Página 346] indigenas das montanhas, e que nessas costumaõ ter o tronco postrado, se
encontraõ muitas vezes em outros lugares differentes com o tronco levantado;
algumas amphibias saõ curvadas dentro d'agoa e levantadas fora della; o
rainunculo bolboso tem o tronco levantado, quando habita nas encostas dos
oiteiros expostas ao sol, e he pelo contrario reptante nos lugares humidos e
sombrios. Os sitios montanhosos fazem que as folhas inferiores sejaõ mais inteiras e as
superiores mais divididas; os lugares humidos fazem de ordinario fender
as folhas inferiores, e os
seccos as superiores. Ha alguns terrenos que fazem as folhas rugosas, bolhosas, e franzidas; outros que lhes fazem
perder os pelos. De todas as causas occasionaes a cultura he a que me parece contribuir
mais para à producçaõ das variedades; ella muda as folhas em crespas, ondeadas, e repolhudas, falas
maiores, abranda o seu amargor, e igualmente o acido e acerbo dos
fructos, torna-os succulentos de quasi exsuccos, e faz
perder os pelos aos troncos e ramos, a sua escabrosidade, e ainda mesmo
os seus espinhos. He precizo pois remontar a estas e outras causas
occasionaes para podermos, em cazo de duvida, decifrar huma variedade; se
conjecturamos v. g. ser a cultura e terreno a causa da mudança accidental da
especie, semeemos ou transplantemos a planta degenerada no seu terreno
natural, e veremos que abandonada ao estado inculto tornarà mais cedo ou
mais tarde à sua estructura e condiçaõ especifica. Esta experiencia he
necessaria algumas vezes relativamente áquellas variedades, que saõ
constantes em muitas geraçoẽs, e se continuaõ por sementes, de maneira
que parecem [Página 347] especies, como saõ v. g. as que daõ em nossos jardins e hortas flores
semidobradas, folhas repolhudas,
crespas, Nota
Ha plantas contudo, cujas folhas no terreno natural saõ crespas, e Linneo se
servio dellas no caracter synoptico da malva crispa, mentha
crispa, &c.; mas ha outras que elle julgou variaveis, e por
conseguinte so proprias para constituir variedades, como as da
chicoria crespa, tanacetum crispum, a matricaria crespa,
&c. Nota
As pereiras, maceiras, amexieiras, &c. sendo plantadas nos
matos, e deixadas á ley da natureza costumaõ dar fructos menos bons
do que as cultivadas; e aindaque naõ temos hum sufficiente numero de
experiencias que nos demostre o seu estado retrògrado sendo semeadas
repetidas vezes nos matos, ha contudo grande probabilidade que
depois de varias geraçoẽs tornariaõ á sua especie primitiva
sylvestre, de que tinhaõ emanado.
Os Botanicos quando querem indicar as partes ou notas variaveis que
constituem as variedades de huma especie, costumaõ algumas vezes
mencionalas depois do caracter especifico vistoque as differenças
especificas Nota
As especies e variedades, que a natureza lança do seu
seyo fecundo, tem caracteres, que se devem considerar como geraes
nas primeiras, e particulares nas segundas; porque se posessemos hum
caracter variavel por especifico, seguirse-hia que apparecendo-nos
hum individuo, que naõ tivesse o dicto caracter variavel, aindaque
fosse da mesma especie original, naõ o poderiamos reconhecer antes o
teriamos por huma nova especie, donde resultaria multiplicarmos
entes sem necessidade, e formarmos muitas especies falsas. Pelo que
todas as vezes que hum Botanico tiver a menor duvida, se huma planta
he especie ou variedade, deverá sempre indicar a sua duvida, quando
fizer mençaõ della, por ver se a experiencia de outros o
illumina.
M. dos alqueives. Com folhas indivisas; caule estirado. Varia nas flores, sendo as suas corollas ora escarlatas, ora azues, e algumas vezes tambem variegadas de branco e purpureo.
Em lugar de dizer:
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.
Donde se vê que às notas variaveis devem ser pospostas ás especificas, no cazo que dellas se haja de fazer mençaõ. Os nomes que exprimem estas notas nas phrases especificas saõ por alguns Botanicos chamados variantes (variantia); mas para fallar com propriedade, o nome variante so me parece devera ser chamado aquelle, que se posesse depois do trivial, [Página 349] como v. g. seriaõ os termos verde, repolhuda, e murciana na nomenclatura seguinte:
Couve hortense verde.
Couve hortense repolhuda.
Couve hortense murciana.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.
Huma variedade em Botanica (varietas), he huma forma vegetal desviada accidentalmente, por alguma causa occasional, da forma primitiva creada de que he originaria; ou para o dizer mais breve, he a especie accidentalmente mudada depois da creaçaõ. Eu não incluo nestas definiçoẽs as variedades naturaes creadas, que consistem nos sexos, mas fallo taõ somente das variedades casuaes que tem havido, ha, e podem ter lugar nas reproducçoẽs das especies primitivas. As variedades naturaes creadas saõ huma estructura vegetal creada em tudo identica a outra, mas differente no sexo ou n'alguns accidentes. Suppondo pois, como he provavel, que o Autor da natureza creasse no principio n'algumas especies vegetaes os dois sexos individualmente separados, assim como nas especies dos animaes; as variedades naturaes creadas saõ por conseguinte taõ antigas como a sua especie; porquanto consistindo a especie nas partes da estructura em tudo identicas e commuas aos dois sexos, e sendo as variedades naturaes creadas fundadas nestas mesmas partes acompanhadas da differença sexual, estas so por abtracçaõ methaphysica e naõ por ordem de tempo se podem perceber separadas da sua especie. Mas na hypothese de que todas as especies, que saõ hoje dioicas, foraõ creadas hermaphroditas, e [Página 343] que huma causa occasional, alguns seculos depois da creaçaõ, as tornou dioicas, neste cazo a unisexualidade somente deve constituir huma variedade casual, e naõ na tural creada.
[Página 343]As variedades saõ taõ proprias do reyno vegetal, como do animal; porque assim
como vemos na mesma especie canina, caẽs d'agoa, de fila, perdigueiros,
galgos, sabujos, &c., &c. assim taõbem opservamos na mesma especie
de pereira, as que daõ peras bojardas, carvalhaes, flamengas, do conde,
gervasias, pardas, &c.; e notamos na mesma especie de murriaõ plantas de
flores escarlatas e outras de flores azues. Todas estas variedades saõ
reputadas em hum e outro reyno por casuaes Nota
Se admittissemos a
hypòthese (que se tem por improvavel) de que algumas das variedades
de caens, pereiras, e as duas dos murrioẽs acima mencionadas
existiraõ em diversos lugares da terra no mesmo tempo primitivo da
creaçaõ da sua especie, ou de que saõ taõ antigas como ella, neste
cazo ficariaõ sendo variedades naturaes creadas pela razaõ de terem
sahido das maõs do Autor da natureza taes como as vemos hoje, ou
terem nascido immediatamente taes dos germes que elle creara, e naõ
serem occasionadas pelos terrenos, climas, &c. nas consecutivas
reproducçoẽs.Nota
Os ventos, chamados pelos sexualistas, conductores dos prazeres
ou dos amores das plantas, podem taõbem ser contados entre as
causas das variedades, e ainda mesmo as abelhas (segundo Hales)
pela razaõ de levarem comsigo de flor em flor o po fecundante de differentes especies de antheras . Nota
Na sua idade vigorosa tem as folhas lobadas , e
algumas ovadas, mas na velhice todas saõ ovadas, e o tronco he
arboreo.
Os Botanicos ordinariamente naõ costumaõ fazer mençaõ nos seus catalogos systematicos das variedades de cada especie, e apenas indicaõ algumas: elles pensaõ que jamais poderiaõ terminar os dictos catalogos, se emprehendessem de mencionar todas as variedades do reyno vegetal, e que ainda no cazo que fosse possivel terminalos, o estudo de Botanica ficaria summamente longo e fastidioso. Naõ negaõ contudo 1º, que se devaõ bem conhecer e conservar as que saõ uteis e agradaveis; 2º que se deva saber, destinguir o que he variedade do que he especie. Quanto ao primeiro artigo, deixaõ esse trabalho aos Autores que tractaõ da Botanica applicada às artes de pharmacia, de materia medica, horticultura, jar dinagem, e qualquer outra parte de agricultura, quanto ao segundo artigo confessaõ que sem a dicta distinçaõ se multiplicaria erroneamente o numero das especies, o que se opporia á clareza e brevidade methodica, que exige o estudo dos vegetaes; elles deraõ por conseguinte algumas regras tendentes a destinguir as variedades das especies, as quaes da mesma sorte que as que foraõ referidas no capitulo precedente, aindaque estaõ talvez bem desviadas da perfeiçaõ, a que hum mais profundo estudo da natureza as poderá conduzir, devem contudo ser presentadas aos que se daõ à Botanica, por naõ terem por especies entes, que dellas so differem levemente.
Todo o viço ou monstruosidade, que tem lugar no [Página 345] numero, figura, proporçaõ ou situaçaõ das partes de qualquer vegetal,
constitue huma variedade; e assim como no reyno animal hum monstro ou hum
eunucho somente saõ individuos imperfeitos da sua especie, assim taõbem o
saõ as plantas monstruosas e eunuchas, como as que daõ flores dobradas,
semidobradas, proliferas, e mutiladas. Todas as plantas enfermas,
mestiças, ou mulinas, Nota
Vej. o que disse a respeito destas plantas nos seus Cap.
respectivos.
Reduzir as differentes variedades á mesma especie he hum trabalho algumas
vezes muito mais difficil do que ajuntar as especies debaxo do mesmo genero.
Muitas vezes basta o caracter da especie para fazer reconhecer a variedade;
mas ha algumas variedades que exigem muitas reflexoẽs e experiencia,
requerem hum attento exame de todas as suas partes, ainda as mais miudas, e
huma combinaçaõ destas com as das suas congeneres e às vezes com as das
especies do genero vizinho, para se poderem reduzir á especie de que emanaõ. Ha algumas especies e ainda mesmo familias inteiras, em que os
individuos so costumaõ variar na raiz ; ha outras, em que
elles variaõ nas folhas ,
grandeza do tronco e ramos, na cor e pelos; e ha outras emfim, cujos
individuos somente soffrem mudanças nas flores ou fructos. Naõ se
devem jamais perder de vista as causas occasionaes; muitas plantas [Página 346] indigenas das montanhas, e que nessas costumaõ ter o tronco postrado, se
encontraõ muitas vezes em outros lugares differentes com o tronco levantado;
algumas amphibias saõ curvadas dentro d'agoa e levantadas fora della; o
rainunculo bolboso tem o tronco levantado, quando habita nas encostas dos
oiteiros expostas ao sol, e he pelo contrario reptante nos lugares humidos e
sombrios. Os sitios montanhosos fazem que as folhas inferiores sejaõ mais inteiras e as
superiores mais divididas; os lugares humidos fazem de ordinario fender
as folhas inferiores, e os
seccos as superiores. Ha alguns terrenos que fazem as folhas rugosas, bolhosas, e franzidas; outros que lhes fazem
perder os pelos. De todas as causas occasionaes a cultura he a que me parece contribuir
mais para à producçaõ das variedades; ella muda as folhas em crespas, ondeadas, e repolhudas, falas
maiores, abranda o seu amargor, e igualmente o acido e acerbo dos
fructos, torna-os succulentos de quasi exsuccos, e faz
perder os pelos aos troncos e ramos, a sua escabrosidade, e ainda mesmo
os seus espinhos. He precizo pois remontar a estas e outras causas
occasionaes para podermos, em cazo de duvida, decifrar huma variedade; se
conjecturamos v. g. ser a cultura e terreno a causa da mudança accidental da
especie, semeemos ou transplantemos a planta degenerada no seu terreno
natural, e veremos que abandonada ao estado inculto tornarà mais cedo ou
mais tarde à sua estructura e condiçaõ especifica. Esta experiencia he
necessaria algumas vezes relativamente áquellas variedades, que saõ
constantes em muitas geraçoẽs, e se continuaõ por sementes, de maneira
que parecem [Página 347] especies, como saõ v. g. as que daõ em nossos jardins e hortas flores
semidobradas, folhas repolhudas,
crespas, Nota
Ha plantas contudo, cujas folhas no terreno natural saõ crespas, e Linneo se
servio dellas no caracter synoptico da malva crispa, mentha
crispa, &c.; mas ha outras que elle julgou variaveis, e por
conseguinte so proprias para constituir variedades, como as da
chicoria crespa, tanacetum crispum, a matricaria crespa,
&c. Nota
As pereiras, maceiras, amexieiras, &c. sendo plantadas nos
matos, e deixadas á ley da natureza costumaõ dar fructos menos bons
do que as cultivadas; e aindaque naõ temos hum sufficiente numero de
experiencias que nos demostre o seu estado retrògrado sendo semeadas
repetidas vezes nos matos, ha contudo grande probabilidade que
depois de varias geraçoẽs tornariaõ á sua especie primitiva
sylvestre, de que tinhaõ emanado.
Os Botanicos quando querem indicar as partes ou notas variaveis que
constituem as variedades de huma especie, costumaõ algumas vezes
mencionalas depois do caracter especifico vistoque as differenças
especificas Nota
As especies e variedades, que a natureza lança do seu
seyo fecundo, tem caracteres, que se devem considerar como geraes
nas primeiras, e particulares nas segundas; porque se posessemos hum
caracter variavel por especifico, seguirse-hia que apparecendo-nos
hum individuo, que naõ tivesse o dicto caracter variavel, aindaque
fosse da mesma especie original, naõ o poderiamos reconhecer antes o
teriamos por huma nova especie, donde resultaria multiplicarmos
entes sem necessidade, e formarmos muitas especies falsas. Pelo que
todas as vezes que hum Botanico tiver a menor duvida, se huma planta
he especie ou variedade, deverá sempre indicar a sua duvida, quando
fizer mençaõ della, por ver se a experiencia de outros o
illumina.
M. dos alqueives. Com folhas indivisas; caule estirado. Varia nas flores, sendo as suas corollas ora escarlatas, ora azues, e algumas vezes tambem variegadas de branco e purpureo.
folhasEm lugar de dizer:
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores azues.folhasM. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores escarlatas.folhasM. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.
M. dos alqueives, com folhas indivisas; caule estirado; flores variegadas de branco e purpureo.folhasDonde se vê que às notas variaveis devem ser pospostas ás especificas, no cazo que dellas se haja de fazer mençaõ. Os nomes que exprimem estas notas nas phrases especificas saõ por alguns Botanicos chamados variantes (variantia); mas para fallar com propriedade, o nome variante so me parece devera ser chamado aquelle, que se posesse depois do trivial, [Página 349] como v. g. seriaõ os termos verde, repolhuda, e murciana na nomenclatura seguinte:
[Página 349]Couve hortense verde.
Couve hortense repolhuda.
Couve hortense murciana.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.
He raro encontrar nos catalogos dos Botanicos systematicos esta sorte de nomes; elles so cuidaõ da nomenclatura dos generos e especies, e desprezaõ a das variedades, deixando a ao cuidado dos lavradores, horteloẽs e floristas, que segundo as suas differentes phantasias sabem dar nomes a todas as plantas que variaõ na grandeza dos troncos, nas folhas , e nas flores e fructos.folhasA descripçaõ das pantas ou he analytica ou historica. Descrever huma planta analyticamente he dar ideas expressivas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ de todas as partes, de que consta o seu caracter natural; descrevela historicamente he dar a descripçaõ analytica e alem disso tudo o que diz respeito à mesma planta, sem embargo de naõ ser parte constitutiva do seu caracter natural Botanico.
A descripçaõ analytica deve ser feita no lugar, em que a planta nasce e
habita naturalmente, e naõ nos jardins, aonde a cultura a pode fazer variar
ella abrange todo o estado progressivo da planta [Página 350] desde a sua germinaçaõ athe à madureza e quéda das sementes, sem
desprezar a menor parte do habito externo nem as minimas da fructificaçaõ,
que precizaõ de huma lente para bem se divisarem (o que succede poucas
vezes). Cada huma das dictas partes deve ser exposta com termos technicos, e
em paragraphos separados por evitar confusaõ. Quando observarmos alguma
variedade, notala-hemos no paragrapho da parte, a que ella for relativa. Devem-se omittir as circumstancias que dizem respeito á physiologia,
e historia da planta, por serem consideradas como superfluidades nas
phrases de huma descripçaõ puramente analytica Nota
Estas circumstancias devem reservar-se para a descripçaõ
historica; ha contudo algumas, que sem embargo de pertencerem
rigorosamente á descripcaõ historica naõ deixaõ de ser por
alguns Botanicos mencionadas de passagem na analytica, como saõ
por ex. a irritabilidade da Dionaea muscipula e Sensitiva, as
cores dos succos, e a consistencia destes mesmos succos, ou
resinas e gomas, quando saõ vertidas da casca sem aberturas
artificiaes. Nota
O
Philos. Botan. Num. 326-330.
Descripçam Analytica da Tilha da Europa Nota
Tilia Europaea, Lin. Nos damos taõbem a esta arvore o nome de til e de telha.
Germinaçam********* Nota
Linneo naõ fez mençaõ da disposiçaõ das cotyledones, da figura
das folhas seminaes, e
de tudo o que pertence ao estado da germinacaõ das sementes;
isto he hum defeito, porque toda a descripçaõ analytica deve
começar por este estado da planta, e quando naõ houver occasiaõ
de o observar, deve-se indicar do modo acima expresso, para que
outros que tiverem esta occasiaõ nolo descrevaõ.
Radicaçam. Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.
Tronqueadura. Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.
Gomoscencia. Gomos alternos, covados, estipularesfolheares, formados de quatro ou cinco escamas ovadas, obtusas, levemente enroladas para dentro, e hum tanto carnudas na base; as duas externas saõ menores e desiguaes.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.
[Página 352]FOLHEATURA. Nota
Eu tomo aqui este termo em huma accepçaõ mais extensa do que Linneo
lhe costumava dar, entendendo por ella naõ so a disposiçaõ, que tem
as folhas tenras dentro dos
gomos e no seu brotamento, mas ainda todo o estado das folhas adultas e seus
peciolos.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.
Peciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .
Inflorecencia Nota
As bracteas e pedunculos, como partes as mais chegadas ás flores, e
fundamento da sua diversa disposiçaõ, saõ com propriedade postos
aqui debaxo da divisaõ da Inflorecencia.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.
Pedunculos solitarios, laterifolios, mais compridos do que o pecioso,
filiformes, recompostos; os communs ou primarios tripartidos, os
secundarios lateraes taõbem ordinariamente tripartidos, e o medio [Página 353] indiviso, de modo que todos vem a soster sette flores Nota
Estas divisoẽs do pedunculo commum, e o numero das flores variaõ
muito.
Flores racimosas, e elevadas quasi á mesma altura.
Fructificaçaõ.
Calys. Perianthio partido em cinco lacinias concavas, de cor aloirada, quasi da grandeza das petalas, e decadentes.
Corolla. De cinco petalas oblongas, obtusas, pallidas, e crenadas no cume.
Estames. Filetes numerosos, de trinta athe quarenta, assovelados, do comprimento da corolla, e apegados ao receptaculo. Antheras hum tanto globosas.
Pistillo. Germe hum tanto globoso e cotanilhoso. Estylete filiforme, e da altura dos estames. Estigma obtuso e pentágono.
Pericarpo. Huma capsula cotanilhosa, globosa pentagona, de cinco cellulas, e cinco valvulas coriaceas, as quaes costumaõ arbrtrse pela base.
Sementes. Solitarias e hum tanto globosas: saõ dycotylẽdones, e contem no centro o corculo guarnecido de hum asterisco de cinco lacinias quasi iguaes.
N. B. Ordinariamente quatro sementes abortam, de modo que a capsula fica sendo de huma so cellula e contem sò em si a unica semente, que costuma medrar.
[Página 354] A descripçaõ historica de huma planta, ou segundo outros a historia
natural de huma planta comprehende alem da sua descripçaõ analytica, a
synonymia, etymologia do seu nome usual, habitaçaõ cultura, o tempo
vegetativo, o tempo de sono e vigilias das suas folhas e flores, a sua estructura interna ou
natureza considerada physiologica e chymicamente, os seus usos
mediornaes e economicos, e emfim a sua figura bem estampada. He verdade que ordinariamente huma descripçaõ historica naõ contem todas
estas circumstancias, e se limita so em conter a descripçaõ analytica,
synonymia, habitaçaõ Nota
A synonymia e habitaçaõ, como circumstancias as mais necessarias,
costumaõ taõbem por se nos catalogos das especies depois dos
caracteres synopticos ou essensiaes.
A synonymia he hum aggregado de citaçoẽs dispostas em paragraphos
separados e successivos, nos quaes se indicaõ naõ so os diversos nomes,
caracteres synopticos, essensiaes, ou Nota
A synonymia he ordinariamente muito limitida e imperfeita nos
catalogos systematicos a respeito das variedades, o que
certamente he hum defeito, porquanto a noticia das variedades
serve de conservar o verdadeiro caraeter da especie sem
obecuridade nem consusaõ, e contribue para fazer evitar enganos
de ter por especie o que so he variedade. Nota
O infatigavel Gaspar Bauhino vendo que muitos nomes davaõ ideas
de muitas differentes plantas, e que por conseguinte causavaõ
huma grande confusaõ no estudo dos vegetaes, emprehendeo de se
oppor a este inconvemente, e nos deo no seu Pinax hum bom
tractado de synonymos, o qual foy depois continuado por
Sherardo, Dillenio, e Sibthorpio; mas este tractado esta ainda
bem distante da sua perfeiçaõ.
A noticia da habitaçaõ das plantas he taõbem de grande utilidade; ella serve de indicarnos o lugar aonde as podemos ir buscar para os nossos herva rios, afim de conservarmos o claro conhecimento dellas em successivos tempos, mostra nos aonde as podemos ir colher para os differentes usos medicinaes e economicos, instrue nos sobre a qualidade do terreno que lhes he proprio (estabelecendo nisto o principal fundamento da agricultura), e emfim conven cenos que naõ ha na terra lugar algum inteiramente esteril, ou que taõ somente ha lugares estereis relativamente a esta ou aquella planta, mas naõ a todas. Donde resulta que na deseripeaõ historica de qualquer planta a noticia da sua habitaçaõ he absolutamente necessaria.
O tempo vegetativo inclue 1º o espaço de tempo em que a semente de huma
planta jaz debaxo da terra, desde o dia em que foy semeada athe áquelles
em que a plantula seminal, rebentados os tegumentos, brota fora delles,
e a sua plumula começa a apontar á flor da terra; este espaço he chamado
por alguns Botanicos tempo da germinaçaõ ou incubaçaõ das sementes Nota
Germinatio, seu incubatus seminum. Alguns Botanicos assignaõ
tres sortes de vida ao germe ou corculo das sementes: huma
comaterna, que elle recebeo e conservou na planta que o produzio,
vegetando com ella athe ao estado de plena madureza; outra inactiva
por meyo da qual conserva illesa a sua estructura, a vis productiva
e vegetativa, sem contudo vegetar pela razaõ de que o movimento dos
seus fluidos he nimiamente lento, e as suas funçoẽs vitaes estaõ
muito entropecidas e adormentadas em certo modo como as das cobras,
lagartos, formigas, &c. durante o inverno, no qual parecem
mortos; esta sorte de vida, segundo elles, he a que tem o germe
desde a quéda das sementes athe á germinaçaõ exclusivamente; outra
emfim germinativa, que começa na germinaçaõ. Zullingero admitte
nestes tres differentes estados das sementes huma especie de
fermentaçaõ continuada, querendo que ella comece na fecundaçaõ, e
que no segundo estado sirva de aperfeiçoalas e dispolas para receber
os succos da terra, que contribuem para à germinaçaõ, accrescentando
que se este entrevallo for longo ou a fermentaçaõ nimiamente
prolongada destruirá a vis vegetativa dilatando-lhes os vazos athe
rompelos e fazendo evaporar as particulas oleosas. Mas este segundo
estado vital, e de fermentaçaõ parecem ser demasiadamente
hypotheticos; a dureza e seccura, que observamos entaõ nas sementes,
naõ nos indicaõ que nellas haja movimento de succos nem funçoẽs
vitaes, e por conseguinte so se lhes pode admittir vida, tomando a
idea desta palavra em hum sentido nimiamente amplo. Pelos mesmos
motivos naõ parece que haja antes da germinaçaõ movimento algum
intestino, e se o houvesse concorreria tanto para a fermentaçaõ como
para a putrefacçaõ. Portanto todo o movimento fermentativo que tem
lugar na germinaçaõ he inteiramente novo. Quando as sementes se
achaõ debaxo da terra, e que a humidade penetrando pelos poros dos
seus tegumentos, ou pela sua cicatriz umbilical, faz amollecer o
corculo e as cotylédones, ajudada do calor conveniente, a sua
substancia farinosa tornase pouco a pouco em lactea, e se percebe
nelles hum sabor mais doce e hum cheiro particular; todos estes
phenomenos indicaõ huma mistura interna das suas partes
constitutivas occasionada por hum movimento intestino, e como elles
senaõ observaõ de modo algum antes que a humidade e phlogisto
competentes tivessem entrado no germe e cotylédones, o movimento,
que he hum effeito destas causas, he inteiramente novo assim como
ellas o saõ nas sementes.Nota
Na preflorescencia se deverá taõbem fazer mençaõ, se a planta
florece duas ou mais vezes no anno, e em que dias e mezes. Nota
Notar-se-ha taõbem na frutescencia, se a planta da duas ou mais
vezes fructos no anno, e em que mezes. Nota
A circumstancia de huma planta conservar as suas folhas todo o anno, ou de
naõ perder humas sem que comecem a nascerlhe outras, pode ser
referida tanto no tractado da desfolha como da
enfolhescencia.
A noticia dos differentes oleos, leves, pezados, liquidos, concretos,
tirados por destillaçaõ ou expressaõ, a dos diversos saes alcalinos, do
sal commum, nitro, assucar, tartaro, acidos, differentes gazes, &c. Nota
Das substancias que entraõ na composiçaõ dos vegetaes humas
saõ commûas a todos, como v. g os oleos, os alcalis fixos, os gazes,
a agoa, e terra; outras saõ menos geraes e somente proprias a hum
certo numero, como v. g. o alcali volatil que se acha nos cogumelos,
mostarda, trigo, &c. o alcali mineral que se dá nas especies de
salsola, de salicornìa, e outras plantas maritimas, o sal commum que
se acha na salsola soda, o nitro na alfavaca de cobra, gyrasol,
&c, o sal de Glauber na tamargueira, o tartaro nas uvas, o sal
ammoniaco na cigude, o enxofre na inula helenium, e rumex patientia,
o alcanfor no alcanforeiro, hortelaan apimentada, labiaes e algumas
compostas (segundo Gaubio e Neuman), os oleos essensiaes, como o que
se dá nas cellulas vesiculares da casca da laranga, flores
fragrantes e partes cheirosas das plantas, os oleos corados, como o
oleo azul que se tira da camomilla, os oleos pezados ou que vaõ ao
fundo d'agoa como o do cravo da India, os acidos particulares a
certos fructos, raizes e sobreraizes; a materia saccharina que se dà
em hum grande numero de flores, fructos, e em todas as gramas (e
talvez em todos os vegetaes) &c, &c.
Os usos economicos e médicinaes naõ devem ser omittidos em qualquer descripçaõ historica por mais incompleta que seja a respeito de outras circumstancias; a Botanica deve a elles a gua origem, e desde os primitivos dias da especie humana athe hoje o estudo dos vegetaes foy sempre dirigido à sua utilidade. Eu darei algumas breves noçoẽs sobre estes usos no Capitulo XL.
Como a Botanica naõ pode demonstrar a fé dos caracteres por hum rigor
mathematico Nota
A certeza que adquirimos do nome de huma planta por meyo dos
caracteres, que lemos nos livros dos Botanicos, naõ pode jamais
chegar ao grao de evidencia mathematica, ou vir a ter força de
demonstraçaõ, por muitas razoẽs, principalmente porque nas
descripçoẽs que se costumaõ dar de qualquer planta sempre falta
alguma circumstancia, e como pode haver no globo terreste huma
especie em tudo semelhante nos caracteres dados a outra, e
dessemelhante nos omittidos, podemos por conseguinte facilmente
enganar-nos dandolhe o nome de estoutra. Nota
Vej. Estampa XXIX
e XXX deste Compendio, vol. 2.Nota
Vej. a Estampa XXX
deste Compendio.Nota
Vej. a Estampa XXIX
deste Compendio.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.
A descripçaõ das pantas ou he analytica ou historica. Descrever huma planta analyticamente he dar ideas expressivas do numero, figura, proporçaõ e situaçaõ de todas as partes, de que consta o seu caracter natural; descrevela historicamente he dar a descripçaõ analytica e alem disso tudo o que diz respeito à mesma planta, sem embargo de naõ ser parte constitutiva do seu caracter natural Botanico.
A descripçaõ analytica deve ser feita no lugar, em que a planta nasce e
habita naturalmente, e naõ nos jardins, aonde a cultura a pode fazer variar
ella abrange todo o estado progressivo da planta [Página 350] desde a sua germinaçaõ athe à madureza e quéda das sementes, sem
desprezar a menor parte do habito externo nem as minimas da fructificaçaõ,
que precizaõ de huma lente para bem se divisarem (o que succede poucas
vezes). Cada huma das dictas partes deve ser exposta com termos technicos, e
em paragraphos separados por evitar confusaõ. Quando observarmos alguma
variedade, notala-hemos no paragrapho da parte, a que ella for relativa. Devem-se omittir as circumstancias que dizem respeito á physiologia,
e historia da planta, por serem consideradas como superfluidades nas
phrases de huma descripçaõ puramente analytica Nota
Estas circumstancias devem reservar-se para a descripçaõ
historica; ha contudo algumas, que sem embargo de pertencerem
rigorosamente á descripcaõ historica naõ deixaõ de ser por
alguns Botanicos mencionadas de passagem na analytica, como saõ
por ex. a irritabilidade da Dionaea muscipula e Sensitiva, as
cores dos succos, e a consistencia destes mesmos succos, ou
resinas e gomas, quando saõ vertidas da casca sem aberturas
artificiaes. Nota
O
Philos. Botan. Num. 326-330.
Descripçam Analytica da Tilha da Europa Nota
Tilia Europaea, Lin. Nos damos taõbem a esta arvore o nome de til e de telha.
Germinaçam********* Nota
Linneo naõ fez mençaõ da disposiçaõ das cotyledones, da figura
das folhas seminaes, e
de tudo o que pertence ao estado da germinacaõ das sementes;
isto he hum defeito, porque toda a descripçaõ analytica deve
começar por este estado da planta, e quando naõ houver occasiaõ
de o observar, deve-se indicar do modo acima expresso, para que
outros que tiverem esta occasiaõ nolo descrevaõ.
Radicaçam. Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.
Raiz lenhosa, ramosissima, tortuosa, e de epiderme decadente; ramos cylindricos, terminados em radiculas capillares, tortuosas, e com algumas ramificaçoẽs.RaizTronqueadura. Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.
Caule arboreo, cylindrico, ramosissimo, de casca grossa, porossa, coberta de huma epiderme estriada e gretada no troço annoso, mas glabra e liza no troço tenro; ramos patentes cylindricos, tortuosos de huma folha para à outra junto das extremidades, e salpicados de alguns pontos espalhados sem ordem.folhaGomoscencia. Gomos alternos, covados, estipularesfolheares, formados de quatro ou cinco escamas ovadas, obtusas, levemente enroladas para dentro, e hum tanto carnudas na base; as duas externas saõ menores e desiguaes.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.
Estipulatura. Estipullas em quanto reclusas nos gomos saõ oppostas, ovadas, glabras, integerrimas, concavas, e involvem as folhas ; depois do brotamento saõ extrafolheaceas, & caducas.folhas[Página 352]FOLHEATURA. Nota
Eu tomo aqui este termo em huma accepçaõ mais extensa do que Linneo
lhe costumava dar, entendendo por ella naõ so a disposiçaõ, que tem
as folhas tenras dentro dos
gomos e no seu brotamento, mas ainda todo o estado das folhas adultas e seus
peciolos.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.
Folhas em quanto reclusas nos gomos ou no seu brotamento dobradas ao meyo, rugosas, unilateraes selpudas em ambas as faces; folhas adultas cordiformes, alternas, agudas, venosas, serreadas com serraturas desiguaes, glabras na face superior ou salpicadas de pêlos curtissimos e muito pouco apparentes, e felpudas nos veios maiores da face inferior e nas suas anastomòses.FolhasfolhasPeciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .
Peciolos hum tanto cylindricos, lizos, mais curtos do que a folha , e dispostos nos ramos quasi disticadamente; o espaço que medea de huns a outros ou entre os seus pontos de apego, he mais curto do que a folha .folhafolhaInflorecencia Nota
As bracteas e pedunculos, como partes as mais chegadas ás flores, e
fundamento da sua diversa disposiçaõ, saõ com propriedade postos
aqui debaxo da divisaõ da Inflorecencia.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.
Bracteas lanceoladas , hum tanto obtusas, esbranquiçadas, integerrimas, cada huma adunada ao pedunculo commum desde o meyo athe a base, e igual no seu comprimento ao dicto pedunculo.lanceoladas Pedunculos solitarios, laterifolios, mais compridos do que o pecioso,
filiformes, recompostos; os communs ou primarios tripartidos, os
secundarios lateraes taõbem ordinariamente tripartidos, e o medio [Página 353] indiviso, de modo que todos vem a soster sette flores Nota
Estas divisoẽs do pedunculo commum, e o numero das flores variaõ
muito.
Flores racimosas, e elevadas quasi á mesma altura.
Fructificaçaõ.
Calys. Perianthio partido em cinco lacinias concavas, de cor aloirada, quasi da grandeza das petalas, e decadentes.
Corolla. De cinco petalas oblongas, obtusas, pallidas, e crenadas no cume.
Estames. Filetes numerosos, de trinta athe quarenta, assovelados, do comprimento da corolla, e apegados ao receptaculo. Antheras hum tanto globosas.
Antheras hum tanto globosas.AntherasPistillo. Germe hum tanto globoso e cotanilhoso. Estylete filiforme, e da altura dos estames. Estigma obtuso e pentágono.
Pericarpo. Huma capsula cotanilhosa, globosa pentagona, de cinco cellulas, e cinco valvulas coriaceas, as quaes costumaõ arbrtrse pela base.
Sementes. Solitarias e hum tanto globosas: saõ dycotylẽdones, e contem no centro o corculo guarnecido de hum asterisco de cinco lacinias quasi iguaes.
N. B. Ordinariamente quatro sementes abortam, de modo que a capsula fica sendo de huma so cellula e contem sò em si a unica semente, que costuma medrar.
[Página 354] A descripçaõ historica de huma planta, ou segundo outros a historia
natural de huma planta comprehende alem da sua descripçaõ analytica, a
synonymia, etymologia do seu nome usual, habitaçaõ cultura, o tempo
vegetativo, o tempo de sono e vigilias das suas folhas e flores, a sua estructura interna ou
natureza considerada physiologica e chymicamente, os seus usos
mediornaes e economicos, e emfim a sua figura bem estampada. He verdade que ordinariamente huma descripçaõ historica naõ contem todas
estas circumstancias, e se limita so em conter a descripçaõ analytica,
synonymia, habitaçaõ Nota
A synonymia e habitaçaõ, como circumstancias as mais necessarias,
costumaõ taõbem por se nos catalogos das especies depois dos
caracteres synopticos ou essensiaes.
A synonymia he hum aggregado de citaçoẽs dispostas em paragraphos
separados e successivos, nos quaes se indicaõ naõ so os diversos nomes,
caracteres synopticos, essensiaes, ou Nota
A synonymia he ordinariamente muito limitida e imperfeita nos
catalogos systematicos a respeito das variedades, o que
certamente he hum defeito, porquanto a noticia das variedades
serve de conservar o verdadeiro caraeter da especie sem
obecuridade nem consusaõ, e contribue para fazer evitar enganos
de ter por especie o que so he variedade. Nota
O infatigavel Gaspar Bauhino vendo que muitos nomes davaõ ideas
de muitas differentes plantas, e que por conseguinte causavaõ
huma grande confusaõ no estudo dos vegetaes, emprehendeo de se
oppor a este inconvemente, e nos deo no seu Pinax hum bom
tractado de synonymos, o qual foy depois continuado por
Sherardo, Dillenio, e Sibthorpio; mas este tractado esta ainda
bem distante da sua perfeiçaõ.
A noticia da habitaçaõ das plantas he taõbem de grande utilidade; ella serve de indicarnos o lugar aonde as podemos ir buscar para os nossos herva rios, afim de conservarmos o claro conhecimento dellas em successivos tempos, mostra nos aonde as podemos ir colher para os differentes usos medicinaes e economicos, instrue nos sobre a qualidade do terreno que lhes he proprio (estabelecendo nisto o principal fundamento da agricultura), e emfim conven cenos que naõ ha na terra lugar algum inteiramente esteril, ou que taõ somente ha lugares estereis relativamente a esta ou aquella planta, mas naõ a todas. Donde resulta que na deseripeaõ historica de qualquer planta a noticia da sua habitaçaõ he absolutamente necessaria.
O tempo vegetativo inclue 1º o espaço de tempo em que a semente de huma
planta jaz debaxo da terra, desde o dia em que foy semeada athe áquelles
em que a plantula seminal, rebentados os tegumentos, brota fora delles,
e a sua plumula começa a apontar á flor da terra; este espaço he chamado
por alguns Botanicos tempo da germinaçaõ ou incubaçaõ das sementes Nota
Germinatio, seu incubatus seminum. Alguns Botanicos assignaõ
tres sortes de vida ao germe ou corculo das sementes: huma
comaterna, que elle recebeo e conservou na planta que o produzio,
vegetando com ella athe ao estado de plena madureza; outra inactiva
por meyo da qual conserva illesa a sua estructura, a vis productiva
e vegetativa, sem contudo vegetar pela razaõ de que o movimento dos
seus fluidos he nimiamente lento, e as suas funçoẽs vitaes estaõ
muito entropecidas e adormentadas em certo modo como as das cobras,
lagartos, formigas, &c. durante o inverno, no qual parecem
mortos; esta sorte de vida, segundo elles, he a que tem o germe
desde a quéda das sementes athe á germinaçaõ exclusivamente; outra
emfim germinativa, que começa na germinaçaõ. Zullingero admitte
nestes tres differentes estados das sementes huma especie de
fermentaçaõ continuada, querendo que ella comece na fecundaçaõ, e
que no segundo estado sirva de aperfeiçoalas e dispolas para receber
os succos da terra, que contribuem para à germinaçaõ, accrescentando
que se este entrevallo for longo ou a fermentaçaõ nimiamente
prolongada destruirá a vis vegetativa dilatando-lhes os vazos athe
rompelos e fazendo evaporar as particulas oleosas. Mas este segundo
estado vital, e de fermentaçaõ parecem ser demasiadamente
hypotheticos; a dureza e seccura, que observamos entaõ nas sementes,
naõ nos indicaõ que nellas haja movimento de succos nem funçoẽs
vitaes, e por conseguinte so se lhes pode admittir vida, tomando a
idea desta palavra em hum sentido nimiamente amplo. Pelos mesmos
motivos naõ parece que haja antes da germinaçaõ movimento algum
intestino, e se o houvesse concorreria tanto para a fermentaçaõ como
para a putrefacçaõ. Portanto todo o movimento fermentativo que tem
lugar na germinaçaõ he inteiramente novo. Quando as sementes se
achaõ debaxo da terra, e que a humidade penetrando pelos poros dos
seus tegumentos, ou pela sua cicatriz umbilical, faz amollecer o
corculo e as cotylédones, ajudada do calor conveniente, a sua
substancia farinosa tornase pouco a pouco em lactea, e se percebe
nelles hum sabor mais doce e hum cheiro particular; todos estes
phenomenos indicaõ huma mistura interna das suas partes
constitutivas occasionada por hum movimento intestino, e como elles
senaõ observaõ de modo algum antes que a humidade e phlogisto
competentes tivessem entrado no germe e cotylédones, o movimento,
que he hum effeito destas causas, he inteiramente novo assim como
ellas o saõ nas sementes.Nota
Na preflorescencia se deverá taõbem fazer mençaõ, se a planta
florece duas ou mais vezes no anno, e em que dias e mezes. Nota
Notar-se-ha taõbem na frutescencia, se a planta da duas ou mais
vezes fructos no anno, e em que mezes. Nota
A circumstancia de huma planta conservar as suas folhas todo o anno, ou de
naõ perder humas sem que comecem a nascerlhe outras, pode ser
referida tanto no tractado da desfolha como da
enfolhescencia.
A noticia dos differentes oleos, leves, pezados, liquidos, concretos,
tirados por destillaçaõ ou expressaõ, a dos diversos saes alcalinos, do
sal commum, nitro, assucar, tartaro, acidos, differentes gazes, &c. Nota
Das substancias que entraõ na composiçaõ dos vegetaes humas
saõ commûas a todos, como v. g os oleos, os alcalis fixos, os gazes,
a agoa, e terra; outras saõ menos geraes e somente proprias a hum
certo numero, como v. g. o alcali volatil que se acha nos cogumelos,
mostarda, trigo, &c. o alcali mineral que se dá nas especies de
salsola, de salicornìa, e outras plantas maritimas, o sal commum que
se acha na salsola soda, o nitro na alfavaca de cobra, gyrasol,
&c, o sal de Glauber na tamargueira, o tartaro nas uvas, o sal
ammoniaco na cigude, o enxofre na inula helenium, e rumex patientia,
o alcanfor no alcanforeiro, hortelaan apimentada, labiaes e algumas
compostas (segundo Gaubio e Neuman), os oleos essensiaes, como o que
se dá nas cellulas vesiculares da casca da laranga, flores
fragrantes e partes cheirosas das plantas, os oleos corados, como o
oleo azul que se tira da camomilla, os oleos pezados ou que vaõ ao
fundo d'agoa como o do cravo da India, os acidos particulares a
certos fructos, raizes e sobreraizes; a materia saccharina que se dà
em hum grande numero de flores, fructos, e em todas as gramas (e
talvez em todos os vegetaes) &c, &c.
Os usos economicos e médicinaes naõ devem ser omittidos em qualquer descripçaõ historica por mais incompleta que seja a respeito de outras circumstancias; a Botanica deve a elles a gua origem, e desde os primitivos dias da especie humana athe hoje o estudo dos vegetaes foy sempre dirigido à sua utilidade. Eu darei algumas breves noçoẽs sobre estes usos no Capitulo XL.
Como a Botanica naõ pode demonstrar a fé dos caracteres por hum rigor
mathematico Nota
A certeza que adquirimos do nome de huma planta por meyo dos
caracteres, que lemos nos livros dos Botanicos, naõ pode jamais
chegar ao grao de evidencia mathematica, ou vir a ter força de
demonstraçaõ, por muitas razoẽs, principalmente porque nas
descripçoẽs que se costumaõ dar de qualquer planta sempre falta
alguma circumstancia, e como pode haver no globo terreste huma
especie em tudo semelhante nos caracteres dados a outra, e
dessemelhante nos omittidos, podemos por conseguinte facilmente
enganar-nos dandolhe o nome de estoutra. Nota
Vej. Estampa XXIX
e XXX deste Compendio, vol. 2.Nota
Vej. a Estampa XXX
deste Compendio.Nota
Vej. a Estampa XXIX
deste Compendio.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.
Tendo exposto as circumstancias que saõ proprias de huma descripçaõ historica, resta-me actualmente dar hum exemplo della: servir-me-hei para este fim da descripçaõ que deo o Dr. Lettsom da arvore do Chá, a qual contem as principaes circumstancias de que fiz mençaõ, e me parece sufficiente para dar ao leitor clara idea do que he huma semelhante descripçaõ.arvore[Página 362] GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
O chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
III. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
[Página 407]Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
As infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
[Página 424]Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
GERMINAÇAÕ .... ... ... . Nota
O Autor naõ fez mençaõ da germinaçaõ,
radicaçaõ, e gomoscencia nem das cotylédones, porisso as deixo
em claro.
RADICAÇAÕ . . . . . . .
TRONQUEADURA Nota
Os Autores differem muito a respeito da grandeza desta arvore : M. Le Compte diz que ella
varia na grandeza desde dois pás athe duzentos de alto, e
que as vezes he taõ grossa que dois homens mal a podem
abarcar; porem notou depois que as arvores do Chá, que
vio na Provincia de Fokien naõ tinhaõ mais de cinco ou seis
pés de alto. Vej. a sua Viag. da China. Lond. p. 228. Mr. du Halde cita hum autor Chinez que tractou das arvores do Chá, o qual diz que variavaõ de
altura desde hum athe trinta pés. Descript, de a Chine,
e History of China. Lond, vol. VI. p. 22 Vej. taõbem o Spectacle
de la Nature, tom. I, pag. 486. edit. 1732, à Paris: e Concorde
de la géographie. Kempfer, autor fidedigno, diz que ella cresce
athe á altura da estatura humana. Amoen. Exot. Lemgov, p. 605. He provavel que este he o justo meyo da sua altura,
porquanto Osbek assegura ter visto em vazos algumas arvores do Chá, que naõ tinhaõ de alto mais do
que huma vara ou ana Ingleza. Voyage to China, vol. 1
pag. 247. Vej. taõbem Ekberg's account of the Chinese husbandry,
vol. II p. 303.
GOMOSCENCIA. . .
ESTIPULATURA. Estipulas solitarias, assoveladas, e levantadas.
FOLHEATURA.
Folhas alternas, ellipticas,
obtusamente serreadas, com a margem recurvada entre as serraturas,
chanfradas no topo Nota
Esta circumstancia postoque assaz visivel naõ foy athe agora
notada por autor algum, nem ainda mesmo por Kempfer, que
disse que as folhas terminavaõ em huma ponta aguda. Amaen. Exot. p.
611.
Peciolos curtissimos, roliços na parte inferior, gibbosos, e chatos-canaliculados na parte superior.
INFLORESCENCIA.
Pedunculos axillares, alternos, solitarios, curvados, unifloros, engrossados, e estipulosos.
FRUCTIFICAÇAÕ.
CALYZ. Perianthio monophyllo, muito pequeno, plano, partido em cinco lacinias obtusas, redondeadas, e persistentes.
[Página 364] COROLLA de seis petalas Nota
Entre varios centos de flores seccas,
que o autor teve occasiaõ de examinar, diz que apenas em cada
vintena achara huma que naõ tivesse variado; humas tinhaõ
somente tres pétalas, outras nove, e outras hum numero
differente entre tres e nove. As flores que lhe pareceraõ ter o
seu verdadeiro numero natural constavaõ de seis pétalas largas,
das quaes as tres externas eraõ menores, mas da mesma figura. As
flores que observou na planta do jardim do duque de
Northumberland, na qual fundou a presente descripçaõ, quasi
todas tinhaõ seis petalas. Entre ellas contudo vio huma que lhe
pareceo ter oito petalas, e naõ pôde deixar de confessar que
ordinariamente em semelhantes flores o numero das partes varia
muito: talvez esta foy a causa do engano, em que cahio o
infatigavel Dr. Hill, e o professor Linneo, que fundado na sua
autoridade deo ao Chá duas especies, verde e bohy, assignando
nove pétalas ao primeiro e seis ao bohy. Vej. Amaen. Acad. vol.
VII p. 248. Hill. Exot. t. XXII. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 607.
Breyn. Exot. pl cent. I. p. III.
Estames. Filetes numerosos (quasi duzentos) Nota
O Dr. Lettsom diz
que em huma flor que recebera do exacto Naturalista Joaõ Ellis
contara mais de 280 estames.Nota
Kempfer descreve as antheras como simples.
PISTILLO. Germe globoso-trigono. Tres estyletes Nota
Linneo classou o
Chá na Polyandria Monogynia, isto foy engano, parque a planta
pertence á ordem Trigynia, pela razaõ das suas flores terem tres
estyletes, desadunados athe ao topo do germe, aonde somente
começaõ a adunarse, como o Dr. Lettsom assegura ter observado
nas da planta, que floreceo no mez de Outubro do anno de 1771,
no jardim do Duque de Northumberland em Sion.Nota
Este foy o motivo do engano de Linneo, que lhe fez classar
esta planta na ordem Monogynia. O engano he facil quando só se
examinaõ flores seccas.
PERICARPO. Capsula tricócca, tricellular, e aberta na sua madureza pelo cume em tres direcçoẽs.
SEMENTES solitarias, globosas, e angulosas no lado interno: cotylédones.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Os nomes triviaes que se costumaõ dar a esta planta saõ os de Nota
He provavel que o nome de Chá seja derivado da palavra
Japoneza Tsjáa, e o de Thea da Chineza Théh: alguns
pertendem contudo que este ultimo termo he antes derivado da
Japoneza; seja o que for, basta saber que o dicto termo, com
muito pouca differença de lettras, e pronunciaçaõ, he o mais
usado para significar a planta de que se tracta aqui. Nota
Linneo applicou os termos bohea et viridis a duas especies;
mas na realidade naõ ha senaõ huma especie desta planta, e a
differença de Chá verde e bohy depende somente da natureza
do terreno, da custura e modo de seccar as folhas ; porquanto
tem-se observado que a arvore do
chá verde plantada no sitio, em que se dá o chá bohy produz
o chá bohy, e vice versâ. Alem disso o Dr. Lettsom assegura ter examinado varios centos
de flores tanto da arvore do chá
bohy como do verde, e diz que achara sempre nos seus
caracteres botanicos a mesma uniformidade. Vej. As direcçoens para transportar as sementes e plantas de
paizes remotos, publicadas em Inglez pelo sabio Joam
Ellis.
Os autores que publicaraõ tractados, ou fizeraõ mençaõ desta planta
saõ numerosos, e entre elles ha alguns que a naõ viraõ jamais Nota
Vej. Jac. Breynii Exot. cent. I. p. 114, 115.Nota
Vol. II. p. 589. edit.
novissima, curante J. Jac. Reichard. O Dr. Lettsom cita huma
ediçaõ precedente a esta, na qual ha huma synonymia mais
breve.
Thea floribus hexapetalis. Hort. cliff. 204. Mat. med. 136. Amaen. acad. 7. p. 239 t. 4 Hill. exot. t. 22. Blackw. t. 352.
Thée. Kaempf. Jap. 603 t. 606.
Thée frutex. Bart. act. 4. p. 1. t. 1. Bont. Jav. 87. t. 88 Barr. rar. 128. t. 904.
Thé Sinensium. Breyn. Cent. 111. t. II2. Ic. 17 t. 3. Bocc. mus. 114. t. 94.
Cháa. Bauh. pin. 147.
Evonymo affinis arbor orientalis nucifera, flore roseo, Pluk. alm. 139. t. 88. f. 6.
Der braune Thee, oder Theebou. Linn. Pflanzensyst 4. p. 19.
Thea floribus enneapetalis. Hill. exot. t. 22.
Thea Sinensis. Blackm. t. 351. R.
Der grune Thée. Linn. Pflangzensyst. 4. p. 22.
Alem dos autores sobredictos ha ainda outros muitos, que tractaraõ
desta planta exotica, dos quaes Nota
Vej. Jac. Breynii Gedanensis
Exoticorum, aliarumque minus cognitarum plantarum, cent. I.
1678. p. 114.
Johann. Petr. Maffeus rerum indicarum, libro VI, p. 108. et lib. Xll. p. 242. Ludov. Almeyd. in eod. opere lib. IV select. epist.
[Página 367]Petr. Jarric. tom. II. lib. II. cap. XVII.
Matth. Ric. de Christian. exped. apud Sinas, lib. I cap. VII.
Alois Frois, in relat. Japonicâ.
Nicol. Trigaut. de Regno Chinae, cap. III. p. 34.
Linscot. de Insulâ Japonicâ, cap. XXVI p.35.
Bernhard. Varen. in descriptione Regni Japoniae, cap. XXIII, p. 161.
Joh. Bauhin. Histor, univers, plantar. 1597, tom. III lib. XXVII. cap. I. p. 5. 6.
Alex. Rhod. Sommaire des divers Voyages et Missions apostoliques du R. P. Alexandre de Rhodes, de la Compagnie de Jésus, à la Chine et autres royaumes de l'Orient, avec son retour de la Chine à Rome; depuis l'année 1618 juoqu'à l'an 1653, p. 25.
Les Lettres curieuses et édifiantes des Jésuites.
Nicol. Tulpii. Observ. med. lib. IV cap. LX. p. 380. Leidae 1641, in-8.
Adam. Olearii. Persianische Reise-Beschreibung, lib. V cap. XVII. p. 599. in-fol. 1656. Hamburg, 1696, Amstel. 1666, in-4º.
Joan. Albert. Von Mandelslo, Morgenlandische ReiseBeschreibung, lib. I, cap. XI, p. 39. edit. 1656. Olai Wormii, Mus. lib. II. cap. XlV, p. 165.
Dionysii Joncquet, stirpium aliquot paulo obscurius officinis, Arabibus, aliisque denominatarum, per Casp. Bauhin. explicat. pág. 25. ed. 1612.
Simon Pauli. Comment. de Abusu Tabaci e herbae Thée. Strasburg, 1665. Lond. 1746.
Simon Pauli. Quadripartitum Botanicum, classe secundâ, pag. 44. Ibid, classe tertia, p. 493.
[Página 368]Wilhelm. Leyl. epistol, apud Simon Pauli in Comment. de Abusu Tabaci, &c. p. 15. 6.
Joann. Nieuzofs. Gezantschap an den Keizer van China, p. I22. a.
Erasmi Franciss. Ost-und West-Indischer wie auch Sines ischer Lust-una Stats-Garten, p. 291.
Oliv. Dappers. Beschryvinge des Keizerryts van Taising of Sina. Amstel. 1680, in-fol. p.226.
Athanas. Kircher, Chin. illustrata, edit. 1658.
Pechlin Theophilus bibaculus. Franckfort, 1684.
Le Compte's journey throug the empire of China. Lond. 1697, in-8. p. 228.
Joh. Ludov. Apinus, Obs. 70. Decur. 3. Miscell, curios. 1697. Andr. Cleyerus, Dec. 2. An. 4ti. p. 7. Dan. Crugérus, Dec. 2. Ann. 4ti. p. 141. Riedlinus, Lin. Med. Ann. 4ti. Dom. Ambros. Stegmamn, de Decoct. Theae vol. V p. 36.
Chamberlain's treatise of Coffee, Thea, and Chocolate. Lond. 1683. p. 46.
Sir Thomas Pope Blount's Natural History. Lond. 1693, in-8.
Philosophical Transactions, vol. III. Num. 14. Lond. I712.
Kaempfer. Amaenit Exot. Lemgov. I712. in-4. p. 618.
--------- Hystory of Japan by Scheuehzer. Lond. 2 vol. in-fol. Append. p. I e seg.
Labat. Nouveau voyage aux Iles de l'Amérique. Paris, 1721.
Short's Dissertation upon the nature and proprieties of Thea, &c. Lond. 1730, in-4.
Mason on the proprieties of thea.
[Página 389]Ancient accounts of India and China, by two Mahommedan Travellers. Lond., s. Harding, 1732.
L'Abbé Pluche. Le Spectacle de la Nature. Paris, 1732.
Du Halde Description générale historique, chronologique, politique et physique de la Chine, Paris, 4 vol. in-fol. History of Japan. Lond. 1735, 4 vol. in-8.
Casp. Neumann. Vom Thée, Coffee, Bier, und Wein. Leips, 1735.
Chambers' Encyclopaedia, tom. 2.
Astley's Collection of voyages. Lond. 1746, 4 vol. in-4.
Concorde de la Géographie. Paris, ouvrage posthume, 1754.
The good and bad effets of Tea considered, Anonymous. Lond. 1758, in-8.
Linnaei Amaenit. Acad. vol. VII. p. 241.
Neumann chemistry, by Lewis, 1759, in-4. p. 373.
Hanway's Journal of eight days journey. Lond. v. II. pag. 21.
Hart's Essays on Husbandry, p. 166.
Percival's Experim. and Medical Essays, in-8. p. 119.
Osbeck's Voyage into China, by Forster. Lond. 2 vol. in-8.
Young's Farmer's Letters. vol I. p. 299 et 202.
Tissot on diseases incidental to Litterary and Sedentary persons, by Kirkpatrick. Lond. 1769, in-12. p. 145.
Bomare Dictionnaire d'Histoire Naturelle. Paris, 1769.
Milne's Botanical Dictionary. Lond. 1770, in-8.
[Página 390]A primeira estampa desta arvore publicada
nas Memorias da Academia de Copenhague (Acta Haffniensias) sò nos dà
huma imperfeita idea della, por ter sido copiada de huma planta
secca. Boncio publicou depois outra, a qual aindaque gravada
sobre hum debuxo feito na India, aonde elle podia ter visto a planta, he
pouco melhor do que a precedente. A de Plukenet he mais natural, e a
de Breynio publicada depois della he ainda muito melhor; mas de
todas a mais exacta he a que publicou Kempfer Nota
Amoenit. Exot.
p. 618 e seg. Vej. taõbem a sua historia do Japaõ publicada por
Scheuchzer. Lond. 2 vol. fol. App. P. 3. Geoffr. Mat. Med. vol.
II. pag. 276.Nota
Osbeck na sua viagem da China,
fallando da Camellia conta o facto seguinte: "Num mercado
comprei a hum cego hum pe desta planta com lindas flores brancas
e vermelhas. Mas tendo-a depois observado em minha caza, achei
que as flores tinhaõ sido tiradas de outra planta; os calyces
das flores falsas tinhaõ sido taõ astutamente embutidos nos da
Camellia, que me teria sido difficil de descobrir o engano, se
as flores naõ tivessem começado a murchar-se. Este exemplo me
ensinou a ser mais circumspecto no tracto com os chinas; mas
aigumas vezes sem embargo de toda a circumspecçaõ naõ se podem
evitar os seus astutos enganos." Vol. VII. p.
17.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
Naõ consta que a arvore do chá seja
cultivada [Página 391] senaõ na China e Japaõ Nota
Alguns autores ajuntaõ taõbem o reyno de Siam. Nota
Le Compte journey through the empire of
China, p. 112.Nota
Kalm's; travels into North America, vol. II. p. 314.
O traductor Inglez ajuntou a nota seguinte: "Nas minhas viagens
pelas de ertas planicies, alem do rio Volga, tive varias vezes
occasiaõ de observar os mesmos effeitos do Chá, e creyo que
qualquer viajante nas mesmas circumstarcias as achara assaz
exactas."
Este genero começou a introduzir-se na Europa, quasi no principio do
seculo passado, pela Companhia Hollandeza. Perto do anno de 1666 Nota
Hannay's Journal of eight days journey vol. II. pag. 21. O mesmo autor abserva que o arratel de cha nesse tempo
valia mais de onze mil reis.
He bem certo contudo que antes do dicto anno ja se costumava tomar
chá nas lojas de bebidas de Londres; porquanto consta que no anno de
1660 se tinha posto hum tributo Nota
Oito dinheiros por cada gallon
da dicta bebida. Shors's Introductory preface to the natural
history of Tea. p. 13.
Quasi no anno de 1679 Cornelio Bontekoe, medicou Hollandez publicou hum
tractado sobre o chá, caffé, e chocolate em Hollandez, no qual defendeo
zelosamente o uso do chá, negando que elle podesse causar detrimento ao
estomago, ainda que delle se tomassem no dia cem ou duzentas taças. Eu
naõ assegurarei, se interesses politicos foraõ causa de huma [Página 393] semelhante assersaõ; mas como o Dr. Cornelio Bontelkoe era physico
mór do Eleytor de Brandeburgo, e provavelmente gozava de grande
reputaçaõ, não se pode negar que o seu parecer naõ promovesse summamente
o uso do chá: com effeito a introducçaõ e gastos do chá augmentaraõ de
tal modo em Inglaterra, que no fim do seculo passado o seu uso era
commum em todas as classes do povo. Elle he presentemente taõ
extenso, que se diz que monta ao menos a tres milhoẽs de arrateis
cada anno Nota
Alem da grande quantidade de chá que todos os annos se
introduz em Inglaterra por contrabando.
He provavel que o chá que os Hollandezes começaraõ a introduzir na Europa
foy comprado no Japaõ, visto que nesse tempo faziaõ hum grande commercio
no dicto paiz. Mas prezentemente o grande mercado do chá he a China,
e a provincia Fokien Nota
Nesta Provincia a arvore he
chamada Thée ou Té, nome que os Europeos conservaraõ mais
geralmente, por ser o termo com que se costumaõ explicar no
lugar em que o compraõ na dicta Provincia. Le Compte, p.
227. Du Halde, vol. IV p. 21.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
O chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
De todos os autores, que tem tractado sobre o cultivo do chà, Kempfer merece principalmente a nossa confiança por ter escrito a este respeito no [Página 394] Japaõ, aonde o vio practicar. Elle nos diz, que os Japonezes naõ cultivaõ esta planta em vergeis ou campos particulares, mas somente na borda das suas terras, e sem destinçaõ de terreno. Como as sementes do chá contem huma grande quantidade de oleo, e em razaõ disso saõ sujeitas a adquirirem ranço, e se alterarem facilmente, costumaõ semear muitas juntas, desde seis athe quinze; tiraõ-nas dos vasos em que as tinhaõ mettido, e sem mais preparaçaõ nem escolha introduzem-nas na terra em hum buraco de quatro ou cinco pollegadas de profundidade; mas ordinariamente sò a quinta parte dellas succede germinar. Ellas vegetaõ depois sem mais trabalho algum; mas os lavradores, que tem mais industria, costumaõ todos os annos mondar as hervas ruins que nascem ao pe dellas, e lhes estercaõ a terra. Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar. A sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes. Alguns lavradores contudo esperaõ que ella tenha dez annos para lhe cortarem o tronco.
[Página 394]Em quanto a planta naõ tem tres annos, as suas folhas naõ saõ proprias para se colherem, mas tanto que chegou a esta idade, as folhas saõ em grande abundancia, e as mais excellentes que se costumaõ apanhar.folhasfolhasA sua estatura na idade de sette annos he a altura ordinaria dos homens; mas como entaõ dá poucas folhas , e cresce mui lentamente, cortaõ-lhe o tronco por baxo, e esta operaçaõ faz rebentar hum grande numero de renovos, os quaes daõ no estio seguinte huma tal saffra de folhas , que os donos ficaõ assaz bem compensados de seus trabalhos e da esterilidade dos annos precedentes.folhasfolhasO chá he cultivado e preparado na China do mesmo modo que se practica no
Japaõ, segundo a [Página 395] noticia que temos de autores e viajantes fidedignos; mas como os
Chinas precizaõ de huma grande quantidade de chá, para poderem prover os
estrangeiros, e o interior do Imperio, naõ se limitaõ, como os
Japonezes, a guarnecer as bordas de suas terras com esta planta, mas
costumaõ cultivala por toda a parte, e formaõ com ella grandes vergeis. Os valles, as ingremes encostas dos oiteiros, as margens e
ribanceiras dos rios, os lugares abrigados do vento norte, ou huma
exposiçaõ meridional, como se explicaõ os Botanicos, saõ os sitios
em que melhor se dá esta planta; ella naõ deixa contudo de poder
supportar as grandes variaçoẽs de calor e frio, poisque florece taõ
bem no clima meridional de Cantam Nota
O melhor chá he produzido em
hum clima brando e temperado. Os paizes circumvezinhos de
Nanquim, que medeaõ entre os de Cantam e Pequim, daõ melhor chá
do que quaesquer destes. O clima de Inglaterra naõ he taõ
favoravel a esta arvore como
alguns pensaraõ, porquanto temos exemplos de ter nelle
perecido com o rigor do frio, aindaque seja notorio que huma
florecesse no jardim de Kew somente com o calor natural do
sol, duas no jardim de Mile-end que pertence ao infatigavel
J. Gordon, e que duas expostas ao ar livre durante o estio
crescessem muito bem no jardim do Dr. Fothergill em
Upton. Nota
Du Halde e outros autores
observaraõ que o frio em alguns lugares da China he muito
desabrido. Nos sertoẽs da America septentrional, e nos vastos
continentes, os graos de calor e frio saõ muito mais fortes do
que nas ilhas e lugares maritimos que se achaõ na mesma
latitude, porque o ar do mar he menos sujeito a variaçoẽs a este
respeito do que o que corre sobre os vastos continentes; o mar,
os grandes lagos, &c, tem nas diversas estaçoẽs do anno
quasi a mesma temperatura.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
III. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
A colheita do chá he feita no Japaõ em certas estaçoẽs do anno por homens
assalariados para este fim, e costumados a este modo de vida. Elles
naõ apanhaõ as folhas ás
manchêas, mas somente huma á huma, e postoque este trabalho seja
fastidioso, cada hum delles naõ deixa contudo de apanhar no dia
desde quatro athe dez ou quinze arrateis. Os differentes tempos, em que ordinariamente costumaõ colher as folhas no Japaõ, saõ tres
segundo Kempfer Nota
Amaenit. Exot. pag. 618 e seg. History os
Japan. Appendix ao vol. II. p. 6 e seg.
I. A primeira colheita começa no meado da primeira lua antes do equinoxio da primavera, na qual começa taõbem o primeiro mez do anno dos Japonezes, periodo, que corresponde quasi ao fim do nosso mez de Fevereiro ou principio de Março. As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.
As folhas que se apanhaõ nesta colheita saõ chamadas Tsjáa Fiqui, ou chá moido, pela razaõ de serem reduzidas em po com hum moinho de maõ, e neste estado tomadas em agoa quente (vej. O S. 8.): ellas saõ colhidas muito tenras e poucos dias depois de terem brotado; saõ destinadas para os princepes, e pessoas ricas, que so as podem comprar por serem caras em razaõ da sua raridade, e daqui procedeo o darem-lhes taõbem o nome de chá imperial ou superfino.folhas[Página 397]Esta sorte de chá tem ainda outros nomes entre os Japonezes, deduzidos
dos principaes lugares em que elle se costuma colher, como por ex. os de
Tsjáa Udsi, Tsjáa Taque Saqui. O apanho das folhas he feito nestes lugares com hum
cuidado e aceyo extremo; eu darei aqui huma breve noticia do que se
pratica em hum dos dictos lugares, isto he, na aprazivel montanha de
Udsi. Esta montanha está situada no destricto de huma villa
maritima do mesmo nome, pouco distante da cidade de Miaco, e hé
reconhecida como o melhor terreno, e de clima o mais favoravel á cultura
do chá; em razaõ disto foy serrada de seves e cercada de hum largo fosso
para maior segurança. As arvores do chá estaõ plantadas nesta
montanha em fileiras regulares formando entre si passeios
agradaveis, e ha hum certo numero de pessoas empregadas annualmente
na sua custura, e aceyo. Os homens que devem apanhar as folhas no espaço de algumas semanas, antes de começarem
a colheita, costumaõ absterse de toda a casta de alimentos
grosseiros, e de tudo o que pode contribuir a communicar algum mao
cheiro ou sabor; e quando as arrancaõ da arvore usaõ sempre de hum par de luvas finas Nota
Na colheita das outras castas de chá naõ se costumaõ usar
estas delicadezas. Nota
O chá que os Hollandezes vendem debaxo deste nome naõ pode
ser o verdadeiro chá imperial; porque os princepes do Japaõ
costumaõ mercalo por hum preço muito mais caro no seu paiz,
do que aquelle pelo qual o denominado chá imperial se compra
na Europa. Kaempfer. Amaen. Exot. p. 617. History os
Japan. App. p. 9. Neumann's chemistry by Lewis. p. 373.
II. A segunda colheita he feita no segundo mez dos Japonezes, periodo que corresponde quasi ao fim de Março ou principio de Abril. Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita. O chá desta segunda colheita he chamado pelos naturaes do paiz Tutsjáa, ou chá da China, por ser tomado de infusaõ á moda Chineza (§. 8.), e he vendido aos négociantes e tendeiros depois de ter sido dividido em quatro classes, ou sortimentos, cada hum com seu nome differente.
Neste tempo ainda que algumas folhas naõ tenhaõ chegado ao seu pleno grao de crescimento, naõ deixaõ contudo de serem apanhadas promiscuamente com as perfeitas; separaõ-nas depois em varios sortimentos segundo a sua idade, grandeza e bondade; as mais novas saõ escolhidas com hum particular cuidado, e as vendem muitas vezes por chá imperial ou da primeira colheita.folhasIII. A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento. Esta casta de chá he chamado pelos natuares do paiz Bantsjáa; he o mais grosseiro, e destinado ao uso da plebe. (§. 8.)
A terceira e ultima colheita he feita no terceiro mez dos Japonezes, que corresponde quasi ao nosso mez de Junho, tempo em que as folhas saõ numerosas e se achaõ no grao do seu completo crescimento.folhas Em alguns lugares os proprietarios costumaõ fazer somente duas
colheitas no anno, a primeira corresponde á segunda acima
mencionada, e a segunda á [Página 399] terceira; outros costumaõ fazer huma Nota
Neste cazo as folhas mais baxas do tronco, duras, e menos succulentas provavelmente se deixaõ ficar nas arvores . Vej. Eckeberg's Chinese husbandry in
Osbeck's voyage vol. II. p. 303.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente. Os chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá. Eu tenho visto este modo de apanhar o chá indicado em algumas pinturas chinezas, que reprezentaõ os methodos das colheitas e modos de curar o chá; alem disso hum homem fidedigno e curioso que ha muitos annos serve de capitaõ nas naos da Companhia da India e tem ido muitas vezes á China, me assegurou sinceramento que esta circumstancia era hum facto notorio naquelles paizes.
Eu notei ja (§. 4.) que as arvores do chá se davaõ ordinariamente nas ingremes encostas dos oiteiros, e nas ribanceiras, aonde se corre risco, e ás vezes mesmo he impracticavel ir apanhar as folhas , aindaque sejaõ hum chá excellente.arvoresfolhasOs chinas em alguns lugares vencem esta difficuldade com hum singular artificio; elles sabem de tal modo irritar huma raça de macacos grandes que costumaõ habitar nestes despenhadeiros, que os animaes enfurecidos quebraõ os ramos das arvores do chá, e lhes atiraõ, com elles de raiva ou como em despique; estes ramos saõ pouco a pouco amontoados, e ultimamente delles se tira huma grande quantidade, de chá.arvores As colheitas do chá entre os Chinas saõ taõbem feitas em certas
estaçoẽs do anno Nota
Du Halde's History of China, vol. VI.
p.21.Nota
Ibid vol. II. p. 300. Kempfer nota na sua historia do
Japaõ, que o commercio entre estas naçoẽs data de hum tempo
immemorial; antigamente os Chinas tinhaõ muito maior
commercio com os Japonezes do que tem presentemente; a
affinidade de religiaõ, costumes, livros, linguas sabias,
artes, e sciencias faz que elles achem no Japaõ huma livre
tolerancia. History os Japan. vol. I. p. 374.
Terminadas as colheitas do chá, naõ ha familia alguma que deixe de ir aos templos dar graças ao Creador por hum semelhante beneficio.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Ha no Japaõ edificios publicos destinados à preparaçaõ do chá, e
estabelecidos com taes regulamentos que qualquer pessoa que naõ tem
as com modidades sufficientes nem a pericia necessaria para huma
semelhante operaçaõ costuma remetter a elles as folhas das colheitas de suas terras. Estas cazas contem cinco athe dez ou vinte pequenas fornalhas de
quasi tres pés de alto, guarnecidas na bocca superior de huma larga
bacia de ferro Nota
Alguns escritores fazem mençaõ de que nestas fornalhas se
costuma taõbem usar de bacias de cobre, e suppoem que a
efflorecencia verde que se vê no cobre serve de augmentar a
verdura do chá verde; mas as experiencias feitas pelo Dr.
Lettsom mostraõ que esta hypothese he muito mal fundada. (Vej. S. 7.)
Esta operaçaõ he repetida duas, tres, ou mais vezes antes que o chá
seja guardado nos armazens, para que toda a humidade das folhas fique inteiramente
dissipada, e o seu enrolado senaõ desfaça de modo algum. Em todas as repetiçoẽs, a bacia he menos aquecida, e a operaçaõ
practicada mais [Página 402] lentamente, e com maior cautella Nota
Este cuidado he necessario na preparaçaõ do chá verde, porque
alias se lhe naõ conservaria a sua cor verde nem o seu
cheiro.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas. Algumas dellas, em razaõ de terem sido apanhadas muito pequenas e tenrinhas, saõ somente escaldadas em agoa quente, tiradas immediatamente, e postas a seccar, sem as enrollarem de modo algum athe de todo ficarem seccas.
Como as folhas do chá Fiqui (§ 5 e 8.) saõ ordinariamente reduzidas em pó antes de servirem nas bebidas; saõ taõbem por esse motivo as que entre todas precizaõ de ficar mais seccas.folhas A gente do campo costuma preparar as folhas das suas arvores do chá em caldeiras de barro Nota
Isto taõbem se practica na China. Vej. Eckeberg's Chinese
husbandry in Osbeck's. voyage. vol. II. p. 303.
Para completar a preparaçaõ do chá, costumaõ, passados alguns mezes, tiralo dos vasos em que o tinhaõ mettido, e polo a seccar a hum fogo muito brando para o privarem de alguma humidade, que lhe tivesse ficado, ou que podesse ter adquirido.
O chá commum he guardado em boyoẽs de barro de bocca estreita; mas a melhor casta de chá, de que usa o Imperador e Nobreza, he mettido em boyoẽs de porcellana, ou de loiça da China. O chá Bantsjáa ou mais grosseiro he guardado pela gente do campo em cestas feitas de palha e em forma de [Página 403] barris, as quaes costumaõ dependurar no tectos das cazas junto da fresta por onde sahe o fumo, persuadidos de que esta situaçaõ naõ causa perjuizo algum ao chá.
[Página 403]Tal he o methodo de que se servem os Japonezes, segundo Kempfer,
relativamente á preparaçaõ do seu chá. Quanto ao chá da China, os
autores tractaõ mui superficialmente tanto da sua cultura como da sua
preparaçaõ. Le Compte Nota
Journey through the empire of
China.Nota
Vej. o S. 6
e 7 a este respeito. Quanto ao que diz Le Compte a respeito
das folhas se
enrolarem por si mesmo, pareceme que este viajante se
enganou nesta parte, naõ sendo verosimil que o chá que nos
trazem da China possa ter adquirido hum taõ perfeito gráo de
enrolamento como lhe vemos, somente com o calor e sem mais
trabalho.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente. Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.
Segundo as pinturas chinezas, as quaes postoque toscas naõ deixaõ contudo de darnos ideas fieis, he certo que as arvores do chá habitaõ pela maior parte nos paizes montuosos entre altos rochedos, encostas ingremes, e em lugares às vezes inaccessiveis, e o trabalho que tem os chinas de fazerem varedas, de [Página 404] armarem palanques ou tranqueiras fixas, e de se servirem do furor dos macacos, indica que todos os dictos lugares daõ hum chá do mais excellente.arvores[Página 404]Parece taõbem segundo as suas pinturas que as arvores do chá saõ ordinariamente da altura de hum homem ou pouco mais; os homens que apanhaõ as folhas naõ saõ jamais nellas representados sobre as arvores , e as varas de ganchos que lhes vemos nas maõs parecem serem destinadas somente para com ellas curvarem para si os ramos das arvores , que se debruçaõ sobre os ribeiros, rios, rochas e lugares inaccessiveis, e naõ para dobrarem os cumes ou ramos superiores das arvores , que se daõ nas planicies.arvoresfolhasarvoresarvoresarvoresElles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes. Os operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas. Parece-me taõbem que as seccaõ muitas vezes, expondo-as ao sol estendidas em cêstas largas e de pouco fundo; depois de seccas separaõ com huma peneira as maiores das mais pequenas, e estas ultimamente do cisco e pò.
Elles escolhem e separaõ as folhas em differentes sortimentos depois de as terem apanhado, e as curaõ quasi do mesmo modo que practicaõ os Japonezes.folhasOs operarios contudo enrolaõ as folhas mesmo sobre as bacias das estufas ou fornalhas dispostas em fileira, e semelhantes ás dos laboratorios de chymica ou das grandes cozinhas.folhas O mais fino e excellente chá he posto pelos chinas em vasos conicos,
semelhantes a hum paõ de assucar refinado, feitos de estanho ou
chumbo, e cobertos com aceadas esteiras de folhas de bambû, ou taõbem em caxas de pão
quadradas, forradas de huma lamina fina de chumbo, e alem disso com folhas seccas e papel, e
neste modo he vendido aos estrangeiros. [Página 405] O chá commum he mettido em cestos, e despejado depois em caxas,
quando o vendem aos Europeos Nota
Os Chinas naõ parecem ser taõ
aceados como os Japonezes na preparaçaõ do chá; Osbeck diz que
os servos dos Chinas costumaõ calcar o chá nas caxas com os pes
descalços. Voyage to China. v. I, pag. 252.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Alem dos differentes sortimentos que se costumaõ fazer no tempo das
colheitas das folhas do chá,
como ja notei (§. 5.), as suas variedades saõ ainda summamente
augmentadas, segundo a bondade da sua preparaçaõ Nota
Du Halde's
history of China, vol. I. p. 21. Osbeck, voyage to China, vol.
I. p. 246 et seg.
I. Chá verde. 1º Chá imperial, ou superfino, o qual tem a folha grande e laxa, a cor hum tanto verde, e hum leve
cheiro agradavel. 2º Chá Hytian, ou Hiquion, chamado entre nos chá Hyson, do nome de
hum mercador da India que foy o primeiro que o trousse à Europa: as
suas folhas saõ pequenas e
enroladas apertadamente, a cor verde e azulada Nota
Os Chinas tem outra casta de chá hyson, a que chamaõ
hysonutchin, que he de folhas curtas e estreitas; ha taõbem outra sorte
de chá verde, a que elles chamaõ gobé, que tem as folhas estreitas e
compridas.
II. Chá bohy. 1º. Chá Suchuen, ou Sutchon, a que os Chinas chamaõ
Saatyan ou Sutyan, communica huma cor verde amarellada a agoa, em
que he lançado de infusaõ Nota
O chá Padre Sutchon tem hum gosto e cheiro melhor do que o
chá commum Sutchon; as folhas saõ largas e amarelladas, naõ enrolladas
mas abertas, e embrulhadas em massos de papel, que pezaõ
meyo arratel cada hum. He comprado e levado à Russia pelas cafilas de mercadores da
dicta naçaõ, preciza de muito cuidado para naõ ser alterado
no mar, e he raro em Inglaterra. Nota
Ha taõbem huma sorte de chá chamado Linquisam, que raras
vezes se acha sem ser misturado com outras variedades; elle
tem as folhas estreitas, e asperas, e os Chinas fazem com elle ás vezes
huma casta de chá pecco, ajuntando-o ao chá congo. Vej.
Osbeck, voyage to China, vol. I. p. 249.Nota
O melhor chá bohy he chamado pelos Chinas Taoquyon. Ha taõbem huma variedade inferior chamada Ancai, do nome do
lugar em que elle se dà. No destricto de Honam perto de Cantam ha hum chá mui
grosseiro, a que os Chinas chamaõ Thé Honam ou The Culi; as
suas folhas saõ
amarellas ou hum tanto pardas, e tem o gosto menos agradavel
do que todos os mais chás.
III. Chá em balas, differe dos precedentes pela sua [Página 407] forma, sendo feito em bolos, balas ou pilulas de diversa grandeza. 1º. Chá em balas grossas; o que tenho visto mais volumoso pezava duas onças, e lançado de infusaõ communicava a agoa hum gosto semelhante ao do bom chá bohy. 2º. Chá em balas miudas, he huma variedade de chá verde, chamado taõbem tiothé, e enrolado de modo que se assemelha na figura a huma ervilha. 3º Chá bombardeiro, he o mais miudo, e assim chamado por se assemelhar no volume quasi aos graõs da polvora bombardeira.
[Página 407]Os chinas preparaõ taõbem hum extracto de chá, e se servem delle como de hum excellente remedio nas fevres e outras muitas doenças, dando-o para excitar hum copioso suor, dissolvido em huma grande quantitade de agoa. Este extracto humas vezes he formado em pequenos bolos da largura de huma moeda de tres vintens em prata ou pouco mais, outras vezes em rolos volumosos.
Todas as variedades de chá procedem de huma so especie de arvore , como ja acima notei (§. I.) Kempfer, que he deste parecer, attribue as differenças dos chás ao
terreno, cultivo da planta, à idade em que as folhas saõ apanhadas, e à sua preparaçaõ Nota
Isto confirma o que notei no §. I.
Na Europa, como he bem notorio, o terreno, cultivo, e exposiçaõ tem huma
grande influencia sobre todos os generos de plantas; vemos muitas vezes
na mesma provincia, e ainda na mesma comarca ou destricto a mesma
especie ter huma differença evidente; esta differença deve ser ainda
muito maior no Japaõ e principalmente nas terras do continente da China,
aonde o ar he em algumas partes demasiadamente frio, em outras
temperado, e em outras nimiamente calmoso. Eu naõ deixo contudo de
pensàr que o methodo de preparar as folhas tenha alem disso taõbem bastante infiuencia sobre
as differenças dos chás. Eu sequei as folhas de
algumas plantas da Europa segundo o modo acima descripto (§. 5.), e
posso assegurar que ellas se assemelhavaõ tanto às do chá exotico,
que as pessoas a quem dei a sua infusaõ a beberaõ sem a menor
suspeita. Algumas das dictas folhas conservaraõ bem o seu enrolado, e ficaraõ com huma taõ bella cor
verde como as do melhor chá verde estrangeiro; outras contudo que
preparei ao mesmo tempo assemelhavaõ-se mais às do chà bohy Nota
Hum certo grao de calor moderado faz conservar melhor a cor
verde e o cheiro, do que huma desiccaçaõ apressada; no
primeiro cazo he precizo seccar as folhas muitas vezes ao fogo.
O resultado destas experiencias podera servir de [Página 409] base de maiores indagaçoẽs a este respeito, que talvez algum dia viraõ a ser de grande importancia á naçaõ Ingleza.
[Página 409]Seria util cuidarmos em descobrir, se os Chinas antes de nos vender o
seu chá costumaõ usar de algum ingrediente ou preparaçaõ propria
para dar a cor Nota
As infusoẽs das differentes castas do bom cha bohy naõ
differem muito na cor das do verde. Nota
Algumas pessoas intelligentes que habitaraõ algum tempo em
Cantam me asseguraraõ que as folhas do cha dos arrebaldes desta
cidade tem muito pouco cheiro em quanto estaõ na arvore , e o mesmo se observa nas
das arvores que existem em Inglaterra, e taõbem nas
dós ramos seccos que tem vindo da China; donde parece
seguir-se que o cheiro particular dos differentes chas he
devido em parte a alguma especial substancia, com que os
preparaõ, e em parte ao methodo da desiccaçaõ. A simplez desiocaçaõ basta às vezes somente para tornar as
plantas mais cheirosas, fazendo coucentrar as suas moleculas
odorantes; e nos temos exemplos disto em muitas raizes, como
v. g. nas da Inula campana.
Alguns autores attribuem a cor do chà verde a huma efflorecencia das
laminas de cobre (S. 6.) em que suspeitaõ que as folhas foraõ curadas; mas esta supposiçaõ he
destituida de fundamento, porque o alcali volatil lançado em huma
infusaõ do dicto chá jamais pôde descobrir a menor porçaõ de cobre,
tornando-a azul Nota
A centesima parte de hum graõ de cobre,
dissolvida em hum quartilho dos liquidos competentes, basta para
azular o licor, se nelle lançamos hum alcali volatil. (Neumann's
chemistry, by Lewis, p. 62.) Segundo as experiencias feitas com
o dicto alcali, o melhor chá imperial naõ tem dado o menor
indicio da presença deste metal.Nota
Vej. Schort on Tea, p. 16. Boerhaave attribuia
taõbem a cor do chá verde a esta substancia.Nota
Lembra-me a este respeito o galante logro que succedeo a hum
rancho de pessoas, que tinhaõ ajustado de ir huma tarde
passear ao campo, e completar o divertimento com a sua
mimosa merenda de chá. A agoa de que usavaõ no lugar, e que se tinha mandado ferver
para o chá, era tirada de huma fonte de agoas ferreas; pelo
que immediatamente que foy lançada no bule que continha as folhas , a
infusaõ ficou como tinta de escrever e incapaz de servir a
attonita companhia de uso algum, a naõ ser o de communicar
por papel a sua triste, e inesperada abstinencia.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Nem os Chinas nem os Japonezes se servem do chà logo depois da sua
preparaçaõ; guardaõ-no ao menos hum anno, porquanto dizem que tomado
fresco ou antes de hum anno he narcotico, e sujeito a perturbar os
sentidos Nota
Kaempfer Am. ex. p. 625. Hist. of Jap. 2 vol. App. p.
10. 16.Nota
Osbeck's, voyage to China, vol. I. p.
299.Nota
Este chá he
chamado coitsjaa, isto he, chá denso, para o ditinguir do chá
feito e bebido de infusaõ á Chineza, como elles practicaõ com
outros chás inferiores. (S. 5).Nota
Segundo Du Halde este methodo de tomar o chá he
taõbem usado em algumas provincias da China. History of China,
vol. IV. p. 22.
O povo usa de hum chá inferior (S. 5.) fervido, e logo que amanhece o
poem ao lume numa caldeira cheia d'agoa, dentro de hum sacco, ou condeça
proporcionada, e bem apertada no fundo do vaso para naõ causar incommodo
ao vazar da agoa. O chá que costumaõ ferver deste modo he o bantsjáa (S.
5.) por ser composto de partes mais fixas, e que senaõ podem extrahir
plenamente por infusaõ. Esta he a sua bebida ordinaria, e na China do
mesmo modo, como indicaõ bem claramente as suas pinturas; porquanto
todas as pessoas que trabalhaõ ou dentro de caza ou no campo saõ
ordinariamente representadas com hum bule e chicaras ao pé de si Nota
No Japaõ ha lojas, de chá nas estradas, campos, bosques
frequentados, e em todos os lugares aonde ha grande concurso
de povo, e he raro que os viajantes uzem de outra bebida nas
suas viagens. Kaempfer's hist. of Jap. by Scheuehzer,
vol. II. p. 428.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
Depois da grande acceitaçaõ que entrou a ter o chá na Europa, os
botanicos naõ podiaõ deixar, tanto [Página 413] por curiosidade como por interesses do commercio, de fazer
investigaçoes por descobrir a planta que dava estas preciosas folhas , ou lhes substituir as
de outro vegetal, que com ellas mais se parecessem. Simaõ Pauli, medico Dinamarquez, foy o primeiro botanico que
pertendeo ter descoberto na Europa a verdadeira planta do chà: tendo
aberto algumas folhas do chà
exotico, e observado que ellas se assemelhavaõ summamente às da
Myrica gale Nota
De Linneo; em Londres he chamada murta de
Hollanda, e gale no norte de Inglaterra; da-se em grande
abundancia em todo o paiz de Brabante, e nos lugares
septentrionaes da Europa.Nota
Elle mandou taõbem ao Dr.
Mentzel de Berlim alguns ramos, cujas figuras foraõ depois
publicadas nas Memorias da Academia de Copenhague, e nas
Ephemerides de Allemanha.
O Padre Labat depois delle julgou taõbem ter descoberto na ilha da
Martinica Nota
Vej. Nouveau voyage aux îles de l'Amérique.Nota
He hum arbusto assaz commum nas Antilhas.
Muitos outros ainda julgaraõ ter descoberto a [Página 414] verdadeira planta do chá do oriente, mas todos estes descobrimentos
se acharaõ errados. A planta que mais se assemelha he a que Kempfer
chama Tsubaqui Nota
Ha prezentemente no jardim botanico de Upsal dois pés desta
planta; elles foraõ trazidos da China, no anno de 1755, por
M. Lagerstom, director da Companhia Sueca da India, na
supposiçaõ de serem plantas do chá, mas depois que
floreceraõ, se conheceo que eraõ dois individuos da especie
Tsubaqui, a que Linneo chama Camellia. Este celebre Professor diz "que as folhas da Camellia saõ taõ
semelhantes ás do verdadeiro chá, que poderaõ facilmente
enganar o mais habil botanico, por differirem somente em ser
hum tanto mais largas. (Amaen. Acad v. VII p. 251. Vej.
taõbem Ellis directions, &c. p. 28) As folhas da camellia,
que foraõ ha pouco remettidas da China a Londres, eraõ
obtusamente chanfradas como as do chá, o que as faz ainda
ser mais equivocas; Kempfer diz que se costumavaõ misturar
com o chá as folhas de huma especie de Tsubáqui para lhe dar bom cheiro. Amaen. Exot. p. 858.
A semelhança da forma das folhas , do gosto e cheiro fez que em alguns paizes lhe
substituiraõ as folhas de
differentes plantas da Europa, entre as quaes se contaõ as da salva,
murta, betonica, agrimonia, e muitas outras Nota
Vej. Simon Pauli
de abusu theae et tabacci; e taõbem Neumann's chemistry, by
Levis, pag. 375.Nota
Veronica officinalis, et Veronica
chamaedris de Linneo, Vej. Pechlin Theophilus bibaculus.
Franckfort. 1684. Francus de Veronica vel Theezantem. Vej.
taõbem a dissertaçaõ de Mr. Buchoz Sur les plantes qu'on peut
substituer au Thé. Paris, I786. in-fol.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo. Todas as vezes que ao sahir dos portos da China senaõ cuidar em obter sementes frescas, sans, maduras, brancas bem gradas, e humidas por dentro, todas as cautellas que depois se tomarem para as conservar seraõ superfluas.
As tentativas, que se tem feito para transplantar na Europa a arvore do chà, tem sido muitas vezes inefficazes ou pela razão de se terem mercado màs sementes, ou por falta de naõ se lhes saber conservar o seu principio vegetativo.arvore Essas poucas de arvores do chà, que hoje temos na Europa, saõ devidas
principalmente a dois industriosos methodos de conservar as suas
sementes; hum consiste em as envolver em cera bella depois de bem
seccas ao sol, e outro em as metter mesmo envolvidas nas suas
capsulas dentro de bottes de estanho bem tapados Nota
Vej. Directions for bringing over seeds and plants, from the
East-Indies, by J. Ellis, em cuja obra se daõ as instrucçoẽs
necessarias tanto para escolher as boas sementes como para
as conservar no tempo das viagens do mar. Vej. taõbem The naturalist's and traveller's companion, onde
se tracta do modo de descobrir e conservar os objectos de
historia natural. (sect. III) Eu advirtirei aqui que
o melhor methodo de conservar as partes da flor inteiras he
de as metter em frascos de espirito de vinho, de boa
agoardente de canna, ou agoardente de cabeça. As flores do illicium floridanum foraõ remettidas deste modo
ao sabio naturalista J. Ellie, e chegaraõ bem conservadas,
como se publicou no ultimo vol. das Transacçoẽs
Philosophicas. (LX.)
Contudo a pezar de todas estas cautellas, e das [Página 416] sementes serem boas, algumas vezes as suas partes não deixaõ de se
alterar na passagem do mar, e perder inteiramente a sua vis germinativa.
Peloque o melhor methodo consiste em as semear, depois de sahir de
Cantam, em huma boa terra balofa, e em cobrir as caxas com huma rede de
arame para que os ratos e outros animaes naõ as estraguem: as dictas
caxas naõ devem ser expostas a hum ar demasiado, nem postas em lugar, em
que sejaõ borrifadas da agoa do mar (sendo possivel.) Naõ se deve deixar
seccar nem endurecer a terra, mas de quando em quando se regará com agoa
doce ou da chuva; e depois que as sementes tiverem germinado, as
plantulas seraõ entretidas sempre humidas, e guardadas do sol ardente. A maior parte das plantas do chà, que hoje temos em Inglaterra,
foraõ obtidas por este methodo; e aindaque algumas das novas plantas
pereçaõ no mar, contudo algumas escapaõ, e he provavel que por este
modo poderemos vir a ter as mais curiosas e uteis producçoẽs
vegetaes, em que a China tanto abunda Nota
Ha taõbem ainda outro methodo practicado com as sementes do
norte da America, que consiste em as inetter em caxas entre
camadas de musgo de modo que possaõ nelle livremente
germinar; na passagem do mar as caxas saõ penduradas no
tecto da camara do navio, e tendo chegado a Londres, se lhes
mudaõ as sementes para vasos de terra juntamente com o musgo
em que estavaõ, ajuntandolhe ainda outro novo. Este methodo tem muitas vezes sido mais feliz do que todos os
outros, e se poderá taõbem practicar com as sementes do chá
e outras do oriente; quanto ás do chá, seja qual for o
methodo que se quizer practicar, he precizo semealas quando
o navio chegar a ilha de St. Helena, ou taõbem quando tiver
passado o Tropico de Cancer, estando quasi em trinta gráos
de latitude do Norte.
As tenras plantas do chà medraõ muito bem nos [Página 417] jardins dos suburbios de Londres, reclusas nos abrigadoiros ou
estufas brandas; algumas contudo supportaõ bem o ar livre no estio. Os seus renovos saõ succulentos ; as suas folhas tem huma bella cor de
verde escuro, e saõ do comprimento de huma athe trez pollegadas. Provavelmente dentro de poucos annos poderemos por meyo dos seus renovos
multiplicar consideravelmente o numero destas plantas. Ha muitos
vegetaes exoticos, os quaes, assim como as constituiçoẽs humanas,
requerem hum certo periodo de tempo primeiro que se habituem ao novo
clima, ou sejaõ naturalizados; ha muitas plantas que no primeiro tempo,
em que foraõ introduzidas neste paiz, naõ podiaõ supportar os nossos
invernos e precizavaõ de abrigo, as quaes contudo supportaõ
prezentemente os mais rigorosos frios; as magnolias e muitas outras saõ
huma clara prova desta observaçaõ. Como os graos de frio em Pequim
excedem às vezes os deste paiz, como ja disse, pode ser que as arvores do chà
dentro de poucos annos venhaõ a supportar o nosso clima de modo que
emfim fiquem naturalizadas, e sejaõ hum artigo de commercio Nota
A careza dos viveres e dos jornaes em Inglaterra seria
contudo muito menos favoravel para estabelecer o commercio
da cultura do chá do que na China, aonde os dictos viveres
saõ muito baratos, e igualmente os jornaes. Osbeck diz, que os jornaleiros occupados no apanho do chá
raramente ganhaõ mais cada hum delles do que quinze reis por
dia, e que contudo esta quantia he sufficiente para lhes dar
com que vivaõ. Voyage to China, vol I. p. 298.Nota
Gerard diz (no seu Hervario publicado no anno de I597, p.
780.) que as batatas da terra se davaõ nas Indias, na
Barbaria, Hespanha e outros paizes quentes; que elle tendo
comprado na Praça de Londres algumas raizes as plantara no
seu jardim, e que nelle floreceraõ e duraraõ athe ao
inverno, mas que nesta estaçaõ pereceraõ e apodreceraõ. Elle accrescenta, que nesse tempo se costumavaõ assar estas
raizes no borralho, e que depois huns as comiaõ ensopadas em
vinho e outros com azeite, vinagre e sal; que alguns contudo
costumavaõ cozelas com ameixas, e preparalas ainda de outros
modos cada hum segundo o seu gosto.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Depois que o uso da infusaõ do chá foy geralmente adoptado na Europa, os
seus effeitos relativamente á saude deversificando segundo as
constituiçoẽs das pessoas, que a tomavaõ, deraõ occasiaõ a diffetes
opinioẽs. Huns por terem algumas vezes observado alguns maos effeitos no
seu uso se preoccuparaõ de tal sorte contra elle, que o desapprovaraõ
como geralmente pernicioso; outros pelo contrario tendo [Página 419] nelle reconhecido alguns bons effeitos o consideraraõ como geralmente
saudavel, e lhe attribuiraõ demasiadas virtudes. Esta contrariedade
de opinioẽs tem sido defendida por alguns Medicos Nota
Vej. Joh.
Ludov. Hannemane de potu calido in Miscell, curios. Simon Pauli
de abusu Theae et Tabacci. Tissot sobre as doenças de pessoas
estudiosas e de vida sedentaria. Waldsmick. Disput. var. argum.
&c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Ha contudo alguns medicos que evitando os dois extremos sobredictos admittem o seu uso, naõ deixando porem de reconhecer que elle algumas vezes he nocivo. Com effeito ha bastantes pessoas de differentes idades e temperamentos, que durante muitos annos, e quasi toda sua vida tomaraõ chà em abundancia sem sentir a menor indisposiçaõ; ao mesmo tempo que outras soffreraõ muitas incommodidades pelo terem tomado em grande quantidade.
Para fixar pois os limites dos bons e maos effeitos desta bebida, he precizo huma grande perspicacia e imparcialidade. He difficil de tirar conclusoẽs certas meramente das experiencias analyticas; as partes do chà que parecem produzir os effeitos oppostos mencionados saõ principalmente as mais grosseiras. Eu mencionarei aqui algumas experencias que fiz com todo o cuidado, mas naõ posso deixar de confessar ao mesmo tempo que ellas naõ nos indicaõ sufficientemente em que consista aquella propriedade relaxante [Página 420] e sedativa, ordinariamente taõ refrigerante e agradavel aos que usaõ da bebida da chà, nem de que proceda pelo contrario que algumas pessoas experimentaõ della taõ desagradaveis effeitos; a observaçaõ poderà melhor instruir-nos nesta difficultosa investigaçaõ.
[Página 420]Experiencia 1º. Tomei igual quantidade de huma forte infusaõ de chà verde
superfino, e de chà bohy commum, taõbem forte; tomei demais disso huma
semelhante quantidade do licor que me restou da destillaçaõ mencionada
na experiencia 3º*, e outra igual, de agoa simplez; metti cada huma
destas quantidades em seus vasos separados e nelles lancei duas oitavas
de carne de boy, que havia quasi dois dias que tinha sido morto. As
oitavas de carne, que tinha lançado n'agoa simplez, apodreceraõ
dentro de quarenta e oito horas, e as que tinha posto nas duas
infusoẽs de chà, e no licor que restou depois da destillaçaõ citada
naõ mostraraõ sinaes alguns de podridaõ senaõ quasi depois de
settenta horas Nota
Vej. Percival's Experimental Essays, p. 119 e
seg. aonde se referem muitas engenhosas experencias e
observaçoẽs a este respeito.
Experiencia 2º. Lancei nas infusoẽs fortes de todas as castas de chà
verde e bohy, que pude haver, iguaes quantidades de sal de ferro
(sal martis) Nota
Nesta experiencia as infusoẽs eraõ de quatro onças, em cada
huma haviaõ duas oitavas de chá, e hum graõ de sal de
ferro. Vej. Neumann's chemistry, by Lewis, p. 377. Short
on lhe nature and properties of Tea, p. 29.
Experiencia 3º Sem embargo disto, como muitas vezes tinha observado que a bebida do chá, principalmente o verde de boa qualidade e bastantemente cheiroso, era notavelmente relaxante nas pessoas de huma constituiçaõ debil e delicada, tractei de proseguir as minhas investigaçoẽs, e para este fim:
--*-- Destillei em agoa simplez meyo arratel do melhor e mais cheiroso chà verde que pude haver, e obtive huma onça de agoa assaz cheirosa, transparente, e sem oleo algum, a qual sendo tractada com o sal de ferro, como expuz na Experiencia 2º naõ deo o menor indicio de astringencia.
--*-- A porçaõ do liquor aquoso, que tinha res tado da destillaçaõ sendo depois evaporada athe á consistencia de extracto, ficou com hum leve cheiro, e sabor muito amargoso, e astringente. A quantidade do extracto, que obtive nesta operaçaõ, pesou quasi cinco onças, e meya.
Experiencia 4ª. --*-- Injectei na cavidade do abdomen e membrana cellular
de huma raan quasi tres drachmas da agoa cheirosa destillada, de que
acima fiz mençaõ (Exp, 3ª --*--). Passados vinte minutos, huma das duas
pernas da raan começou a sentir consideravelmente os effeitos da
injecçaõ, e ficou inteiramente sem movimento nem sensibilidade
alguma Nota
Vej. a este respeito Smith, Tentamen inangurale de
actione musculari. Edimb, p. 46.
--* *-- Injectei taõbem do mesmo modo em outra raan huma porçaõ do licor, que tinha restado depois da destillaçaõ do chà verde acima mencionada (Exper. 3ª); mas a injecçaõ naõ produzio effeito algum sensivel.
Experiencia 5ª --*-- Appliquei huma porçaõ da agoa cheirosa destillada (de que fiz mençaõ na Exper. 3ª --*--) aos nervos ischiaticos descarnados, e á cavidade do abdomen de huma raan. Dentro de meya hora as duas extremidades posteriores ficaraõ inteiramente paralyticas e insensiveis, e quasi huma hora depois o animal expirou.
--*-- Appliquei do mesmo modo a outra raan o licor que tinha ficado depois da destillaçaõ (mencionada na Exper. 3ª.); mas naõ observei effeito algum sedativo ou paralytico.
--***-- Appliquei taõbem às mesmas partes e nas mesmas circumstancias o extracto (mencionado na Exper. 3ª --**--) dissolvido em agoa; mas naõ lhe vi produzir effeito algum sensivel.
Segundo estas experiencias parece que os effeitos sedativos e
relaxantes do chà procedem principalmente do seu principio
fragrante, que se acha em grande abundancia especialmente em algumas
varredades de cha verde Nota
Huma pessoa delicada tendo tomado duas
drachmas da agoa cheirosa acima mencionada sentio immediatamente
huma grande nausea e hum prostamento geral de forças, que lhe
durou algumas horas, e confessou depois que costumava
ordinariamente experimentar estes mesmos effeitos todas as vèzes
que tomava a infusaõ do chá verde superfino. Ha taõbem algumas
pessoas delicadas que basta fazerlhes cheirar o dicto chá verde
para sentirem os referidos effeitos.Nota
O Dr. Lettsom cita a este respeito os
seguintes versos de Lucrecio: Arboribus
primum certis gravis umbra tributa est Usque adeo, capitis
faciant ut saepe dolores, Si quis eas subter jacuit
prostratus in herbis, Est etiam in magnis Heliconis montibus
arbos Floris odore hominem tetro consueta hecare. (Lucr.
B.6.) O Poeta diz nestes versos que a sombra de certas arvores causa dores de cabeça, e que nas
montanhas Heliconias haviaõ algumas, cujas flores matavaõ
com o seu activo cheiro. Neste segundo cazo os affluvios odorantes nocivos saõ
adequadamente allegados a favor do que diz o Dr. Lettsom;
mas naõ he o mesmo a respeito da sombra nociva das arvores ; as dores de cabeça que as vezes se
apanhaõ á sombra das arvores naõ procedem dos effluvios
odorantes, mas da má qualidade dos gazes que exhalaõ as
tracheas das folhas ,
&c. Vej. Experiences sur les Vegetaux, par Mr.
Ingen-Housz na edic. de 1780, p. 61-64, e na segunda edic., p.
607-611; &c.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
Como as experiencias de que acima fiz mençaõ me naõ parecem por si sòs sufficientes para fixar com exactidaõ os saudaveis ou nocivos effeitos do chá sobre o corpo humano, serà precizo recorrer à observaçaõ, e nella procurar factos, que nos possaõ illuminar e conduzir a inferencias mais seguras respectivamente aos dictos effeitos.
[Página 404]O uso de tomar chá todas os dias, como huma agradavel bebida, faz esquecernos ordinariamente de indagar as suas propriedades medicinaes; eu cuidarei contudo de o considerar aqui em ambos estes respeitos. Das pessoas, que gozaõ de boa saude e saõ sadias, rarissimamente succede encontrar-se alguma que se queixe do uso do chà; ellas o consideraõ como huma excellente bebida, que as anima para o trabalho e as alenta depois delle. Tem-se visto algumas em hum e outro sexo que desde a sua infancia athé à velhice continuaraõ o uso do chà, sem delle receberem algum mao effeito, ou queixa que merecesse de ser-lhe attribuida. As pessoas contudo a quem isto succede saõ de ordinario sadias, fortes, de vida sobria, activa e laboriosa. Entre as que saõ menos fortes e menos robuctas ha algumas que se queixaõ do uso do chà, e lhes attribuem certas indisposiçoẽs; humas asseguraõ que depois de terem tomado chà ao almoço sentem huma certa perturbaçaõ de espiritos, e menos firmeza nas mãos para escrever e para outras occupaçoẽs, que nellas requerem huma exacta firmeza (este effeito contudo provavelmente so as incommoda pouco tempo); outras pelo contrario supportaõ bem o chà pela manhaan, mas quando o tomaõ de tarde confessaõ que elle lhes causa huma certa agitaçaõ, e as incommoda com hum tremor involuntario.
Ha muitas pessoas que apenas tomaõ huma so taça de chá, sentem immediatamente hum embrulhamento de estomago; ha outras, que depois de terem tomado esta bebida, sentem na regiaõ epigastrica, e bocca do estomago huma dor aguda, [Página 405] acompanhada de tremores geraes. Mas as constituiçoẽs tenras e delicadas saõ ordinariamente as que mais softrem do abundante uso do chà, sendo frequentemente attacadas de dores de estomago e intestinos, de affecçoẽs espamodicas, de huma grande agitaçaõ de espiritos, e pertubadas com o menor som ou estrondo; as suas ourinas saõ pallidas, claras, e em grande abundancia.
[Página 405]Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
Os effeitos do chà seriaõ na verdade determinados com maior certeza, se as pessoas, que estaõ habituadas a tomalo em grande abundancia, naõ mostrassem tanta repugnancia em communicar-nos com exactidaõ as incommodas sensasoẽs que experimentaõ pelo seu demasiado uso, receando de serem notadas de imprudencia por continuarem a tomar huma bebida, que a experiencia lhes tem mostrado ser-lhes nociva.
Naõ deixamos contudo de saber com certeza que elle causa insomnolencia a algumas pessoas, que o tomaõ à noyte em grande quantidade. Para attribuirmos este effeito a agoa quente, era precizo sabermos se ella o produz nas mesmas pessoas ou em outras de semelhante constituiçaõ, e em semelhantes circumstancias; o que naõ esta ainda bem verificado; e de mais disso ainda mesmo nesse cazo o chà naõ deixaria de contribuir para o dicto effeito em grande parte. Naõ se lhe pode taõbem negar a propriedade de alegrar, alentar, e avivar os espiritos. Todas estas circumstancias parecem indicar que o chá contem [Página 406] hum principio activo, penetrante, e capaz de excitar promptamente a acçaõ dos nervos; nas constituiçoẽs summamente irritaveis esta acçaõ chega a tal grao, que causa sensasoẽs assaz incommodas e affecçoẽs espasmodicas; e nas menos irritaveis causa immediatamente hum certo prazer e satisfacçaõ, naõ deixando contudo de occasionar ao mesmo tempo huma certa tendencia para os tremores, e huma agitaçaõ, a que pouco falta para ser dolorosa.
[Página 406]As variedades de chà mais fino saõ mais sujeitas a causar estes effeitos; e he talvez principalmente por esse motivo que as mais baxas classes do povo, que usaõ do mais ordinario, saõ em geral as que soffrem menos incommodos desta bebida; digo, em geral, porque nellas naõ deixaõ de haver algumas pessoas, que hoje soffrem bastantes indisposiçoẽs occasionadas pelo dicto chá ordinario, que tomaõ copiosamente, e de ordinario assaz quente para melhor recrearem o seu gosto e olfacto, vindo por este modo a quantidade, e graos de calor a produzir nellas effeitos equivalentes aos que os chás finos causaõ nas pessoas ricas.
Naõ devo contudo deixar de expor aqui, que as infusoẽs de algumas plantas da Europa, como por. ex. as da salva, hortelaan, herva cidreira, e ainda mesmo as do alecrim e valeriana tem em bastantes pes, soas produzido algumas vezes effeitos semelhantes aos do chà, occasionando agitaçaõ de espiritos, flatulencia, dores espasmodicas, e outros symptomas que se observaõ nas pessoas summamente habituadas ao chá.
[Página 407]Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Todos os que tem observado attentamente o que as differentes variedades de chá verde fino obraõ em si e em outras pessoas, que costumaõ fazer dellas grande uso, creyo que naõ deixaraõ de admittir que nos dictos chas ha principios, que produzem effeitos assaz particulares. As diversas variedades de chá bohy sino naõ deixaõ contudo de influir taõbem sobre os nervos, de produzirem tremores, e de porem o corpo em tal estado durante algum tempo, que a mais leve coiza lhe causa perturbaçaõ.
Ha pessoas em hum e outro sexo, em que tenho observado que todas as vezes que tomaõ huma so taça de chá, costumaõ ser sempre incommodadas de grande anxiedade e oppressaõ, e que quando se achaõ em companhia de pessoas de sua amizade tomaõ por cendescendencia algumas taças de agoa quente com leite e assucar sem sentirem depois o menor incommodo.
Hum medico dos meus amigos, que juntamente com outros assistio no collegio de Edimburgo às experiencias acima mencionadas, me assegurou que todas as vezes que tomava pela manhaan huma pequena quantidade de chà fino, se sentia depois incommodado durante algumas horas, e se achava ao jantar sem vontade alguma de comer; qua pelo contrario todas as vezes que tomava chocolate ao almoço, passava bem, e se achava com boa vontade de comer ao jantar; que quando tomava de tarde huma so taça de chà, era incommodado do mesmo modo, e alem disso na noyte seguinte perdia tres ou quatro horas [Página 408] do somno costumado, que porem se acazo se achava em sociedade de amigos, e tomava huma taça de agoa quente com leite e assucar, naõ sentia depois a menor incommodidade.
[Página 408]Disse-me taõbem que o opio lhe causava quasi os mesmos effeitos que o chà, mas em maior grào; porquanto tendo-lhe huma vez succedido tomar huma dose de dissoluçaõ de opio naõ sentio a menor disposiçaõ para dormir, mas taõ somente huma certa anxiedade de estomago quasi semelhante a nausea.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum dos grandes Medicos practicos desta cidade me assegurou taõbem ter observado algumas pessoas lançar escarros de sangue pela razaõ de terem respido hum ar carregado do po de chà, no trabalho da mistura das suas differentes variedades, a qual os ricos mercadores de chà mandaõ fazer no fundo de suas lojas para contentarem os diversos gostos dos seus freguezes. Com effeito os que saõ ffrequen temente empregados nesta sorte de trahalho, vem ordinariamente a soffrer grandes enfermidades, huns lançando sangue subitamente dos bofes ou pelos narizes, outros sendo attacados de tosses violentas, que terminaõ em consumpçoẽs.
Estas circumstancias parecem indicar que no chà alem da sua propriedade sedativa e relaxante existe huma substancia activa e penetrante, que naõ pode deixar de produzir effeitos singulares em certas compleiçoes.
[Página 409]Hum famoso corrector de chà desta cidade, depois de ter hum dia examinado mais de cem caxas desta mercadoria, sendo obrigado a tomar o cheiro, que cada huma das variedades continha, para poder julgar das suas qualidades, foy no dia seguinte attacado de huma vertigem violenta, dores de cabeça, espasmos por todo o corpo, e perda de falla e memoria. Com os soccorros da Arte pôde recobrar a falla e memoria athe hum certo grao, mas jamais as suas forças, que foraõ diminuindo pouco a pouco, athe ser attacado de huma paralysia parcial, e depois de outra geral, vindo em fim a ficar inteiramente enfraquecido e insensivel, em cujo estado morreo. Eu naõ me atrevo a decidir se estes effeitos devem ser attribuidos ao chá; he huma conjectura, que talvez outros accidentes identicos poderaõ vir hum dia a verificar.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
Hum ajudante de certo corrector de chà desta cidade, depois de ter
examinado e misturado diversas castas desta mercadoria, foy durante
algumas semanas attacado varias vezes de dores de cabeça e de vertigens,
as quaes às vezes eraõ taõ fortes, que o faziaõ cahir, e em razaõ disso
era precizo que alguem o acompanhasse quando sahia. Fez-se-lhe em fim
huma copiosa sangria do braço, com que ficou aliviado, mas os alivios
naõ foraõ permanentes, porquanto immediatamente que tornou á sua
ordinaria occupaçaõ foy attacado da mesma molestia. A conselharaõ-lhe
emfim que recorresse à electricidade, o que fez com effeito, sendo lhe
os chòques electricos [Página 410] dirigidos á cabeça. No dia seguinte sentio bastantes alivios, mas no
outro dia depois começou a perder pouco a pouco o uso de seus membros
athe ficar insensivel, e a cahir subitamente em apoplexia, em cujo
estado acabou a vida. Eu o vi algumas horas antes da sua morte em hum
estado de insensibilidade, e naõ me atrevo a decidir se estes fataes
effeitos dovem antes ser attribuidos aos effluvios do chà do que à
electricidade; seja qual for a causa, hum semelhante facto merece
toda attençaõ da parte dos que practicaõ a Medicina Nota
Os
perniciosos effeitos do po e cheiro do chá observados em Londres
talvez faraõ pensar a alguns, que elles incommodaõ do mesmo modo
na China aos que se occupaõ em examinar e misturar as
differentes castas de chá; mas devem advertir que na China o
trabalho de misturar os chas he feito em telheiros abertos e bem
arejados, de sorte que o cheiro e pó dos chás he dissipado pela
livre passagem do ar nelles estabelecida, o que naõ succede em
Londres, aonde o dicto trabalho he de ordinario practicado na
caza, que fica no fundo das lojas, assaz
abafada.
Hum moço de constituiçaõ delicada tinha em vaõ famado hum grande numero de remedios differentes pela razaõ do grande abatimento de espiritos em que o tinha posto a sua melancholia; nesta perigosa situaçaõ fuy chamado, e tendo reconhecido que elle era costumado a tomar chá copiosamente lhe acon selhei de se abster desta bebida. Tendo condecendido recobrou depois de pouco tempo a sua saude. Passadas algumas semanas, mandaraõ-lhe hum bello prezente de chá verde fino, que o tentou de tal modo, que nesse dia e no seguinte tomou delle huma grande quantidade. Com este regalo naõ so tornou a cahir na sua antiga melancholia e abatimento de espiritos, [Página 411] mas sentio alem disso perda de memoria, tremores, huma disposiçaõ a ser inquietado com as mais leves coizas, e hum grande numero de indisposiçoes nervosas. Tornei a ir visitalo, e reconheci immediatamente que todo o seu mal procedia do chà; elle goza prezentemente de huma perfeita saude, tendo-lhe cuidadosamente feyto o sacrificio de evitar o uso do chá, como lhe aconselhei.
[Página 411]Tenho observado em pessoas delicadas ainda outros exemplos de abatimento e indisposiçoes nervosas, que lhes duraraõ muitos annos, por naõ quererem seguir o conselho de habeis medicos, e que sem embargo do uso de muitos remedios naõ foraõ curadas senaõ quando os doentes se abstiveraõ de tomar a infusaõ do chá.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
O meu fim naõ he criticar nem fazer o elogio do chá; o meu intuito he somente tractar desta substancia com toda a imparcialidade. Eu naõ tenho menos magoa em gaber que se achaõ neste exotico qualidades perniciosas, do que prazer em reflectir que elle serve á mesma hora de mimoso regalo a muitos milhoẽs dos meus compatriotas: as occasioẽs que elle dà a conversaçoẽs agradaveis, as innocentes associaçoes para que elle convida, e entretem sem precizaõ de bebidas espirituosas suggerem na verdade a hum coraçaõ social os mais gratos sentimentos. Mas he precizo ser justo; elle tem contra si naõ so a opiniaõ publica fundada em parte na experiencia, mas ainda muitos habeis escritores que o consideraõ ser a causa de muitas enfermidades graves; as [Página 412] indisposiçoẽs nervosas aindaque nem todas se julguem ser occasionadas pelo seu uso, diz-se contudo que todas saõ muito aggravadas por elle. Estas imputaçoẽs podem ser em parte verdadeiras, e merecem de ser examinadas com toda a candura.
[Página 412]Segundo a experiencia, as bebidas aquosas toma das quentes e em grande quantitade entraõ promptamente na corrente da circulaçaõ, e passaõ dentro de pouco tempo pelas ourinas ou pela transpiraçaõ ou augmentaõ alguma das secreçoẽs. Os seus effeitos sobre os solidos saõ de relaxar, e por conseguinte de enfraquecer; elles saõ proporcionados à quantidade que se toma da bebida quente, e se esta se substitue aos alimentos, os seus effeitos devem por conseguinte ser maiores.
Todas as infusoẽs de hervas obraõ ordinariamente do modo sobredicto; a do chà contudo tem estas duas particularidades, ella possue naõ so huma qualidade sedativa (Exp. 3º. 4º 5º), mas taõbem huma notavel astringencia (Exp. 2º), que serve de corrigir de algum modo a propriedade relaxante que se attribue a agoa quente, e talvez em razaõ da dicta qualidade astringente relaxa menos do que algumas infusoes de hervas, que tem hum leve cheiro aromatico com muito pouca ou nenhuma astringencia.
Portanto o chà que naõ he muito fino, nem to mãdo muito quente, ou em demasiada quantidade merece talvez de ser preferido a todas as infusoẽs vegetaes que conhecemos; e se bem se attender à sua energia em avivar os espiritos, ver-se-há que a nossa inclinaçaõ ao chà naõ procede meramente de luxo ou moda, mas sim de lhe acharmos huma [Página 413] superioridade à maior parte dos outros vegetaes no gosto e effeitos.
[Página 413]Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Passemos actualmente aos effeitos que causa este exotico nos paizes, de que he indigena, e aonde ha muitos seculos he geralmente usado. Quanto aos Japonezes naõ posso dizer nada, porque prezentemente temos muito poucas noticias desta naçaõ; quanto aos Chinas, sabemos que as infusoẽs dos chas finos e ordinarios saõ tomados por toda a sorte de pessoas e em grande quantidade; saõ a bebida ordinaria do baxo povo, assim como o arroz he o seu principal alimento; os grandes, e pessoas ricas usaõ igualmente desta bebida, mas comem carne, e boas iguarias.
Quanto às suas molestias conhecemos muito pouco, nem sabemos que
influencia tenha o chà relativamente a ellas. O Dr. Arnot, honra da sua
patria e profissaõ, medico summamente estimado dos Chinas, me escreveó
de Cantam que fora o primeiro que chegara a persuadir os dictos povos a
deixar-se sangrar nas suas infermidades Nota
Du Halde historia da China,
vol. IlI, p. 362, nota contudo que a sangria naõ deixa inteiramente
de ser practicada entre os Chinas.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Antes do uso do chá, os almoços neste paiz eraõ ordinariamente mais substanciaes, como por ex. os lacticinios, os assados, &c acompanhados de cervejas, ou de vinhos das Canarias e fortes (entre pessoas ricas). Naõ se pode duvidar que semelhantes alimentos, e o exercicio que se costumava entaõ fazer deviaõ causar no sangue, e outros fiuidos animaes hum estado bem differente daquelle que produz o chà com hum pouco de leite ou nata, e paõ com manteiga.
O uso de tomar chà ao almoço, e ainda mesmo de tarde ordinariamente em grande quantidade, naõ podia deixar de contribuir para alterar a economia animal. Antes da introducçaõ deste exotico, os regalos que se faziaõ nas visitas de tarde eraõ bem differentes; nestas occasioẽs o que de ordinario se costumava presentar eraõ jeléas, pasteis de fruta, doces, [Página 415] assados, vinhos fortes, os de maçaans, a cerveja forte (denominada ale) e ainda mesmo os licores espirituoaos, que as vezes eraõ tomados em demasia, e com bastante danno.
[Página 415]Esta sorte de refeiçoẽs devia certamente entreter aquella natural diathése inflammatoria, e plenitude de sangue que resulta do grande vigor, como taõbem dispor para aquellas enfermidades que procedem de se melhantes causas. Peloque naõ he inadequado suppor que visto serem mais fortes os alimentos dos nossos antepassados e os seus exercicios mais athleticos, as suas molestias procediaõ taõbem mais ordinariamente do que hoje de plethora, e por conseguinte naõ me parece que haja causa mais geral e mais provavel, a que mereçaõ de ser attribuidos os effeitos da debilidade que temos referido, do que o chá.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
Estas conjecturas sendo admittidas poderaõ guiarnos a determinar quando,
e a que pessoas o uso do chà he saudavel ou nocivo. Elle parece ser
proveitoso aquellas pessoas por ex, que saõ de natureza sanguie nea, em
que ha huma diathése inflammatoria, ou que em razaõ do seu exercicio,
afimentos, clima, ou em razaõ de todas estas circumstancias reunidas
tendem a esta situaçaõ, servindo-lhes de relaxar a demasiada rigidez dos
solidos, e de diluir a Iympha coagulavel do sangue (como lhe chama hum
judiciozo autor) Nota
Vej. Transacçoẽs Philosophicas, vol. LX, 1770,
p.368 e seg.
Ha contudo idiosyncrasias, ou temperamentos particulares entre os sobredictos que merecem de ser exceptuados desta regra geral. Ha homens por ex. de temperamento forte, vigoroso, e que em tudo indicaõ huma excellente saude, aos quaes contudo poucas taças de chà bastaõ para causar agitaçaõ do mesmo modo que às mulheres hystericas; mas isto he pouco commum, elles ordinariamente supportaõ bem esta bebida, e com ella se alentaõ para o trabalho da mesma sorte que com as comidas mais substanciaes; nada os reforça mais depois de hum exercicio forte e continuado, de maneira, que para elles o chà he hum refresco igual e talvez o mais proveitoso de todos os que hoje estaõ em uso.
Se attendermos porem aos effeitos que pode causar o chà nas pessoas que se achaõ em hum estado de saude e vigor opposto, isto he, que saõ de huma constituiçaõ tenra, delicada, e enfraquecida, cujos solidos se achaõ debilitados, o sangue attenuado e aquoso, a vontade de comer perdida ou viciada, sem fazer exercicio ou se o fazem he impropriamente, em summa que saõ de huma disposiçaõ opposta à in flammatoria, veremos que o demasiado uso do chá naõ pode demar de contribuir para abater-lhes o resto das forças vitaes athe polas em hum estado perigoso.
Entre estes dois extremos ha muitas gradaçoẽs; sendo todas as coizas aliàs iguaes, o chà sera em geral mais ou menos proveitozo, mais ou menos nocivo à proporçaõ que os temperamentos se approximarem mais aos dictos dois extremos oppostos. Eu confesso naõ ter assaz experiencia nem talentos para poder ponderar todas estas gradaçoẽs; direi somente [Página 417] que huma grande quantidade de chá raramente pode ser proveitosa, a naõ ser tomada como medicamento, e depois de huma grande fadiga; que o chá naõ deve ser tomado muito quente, e que os chás mais finos principalmente o verde, como ja disse, saõ suspeitos de ser de peior qualidade do que os ordinarios ou medianos.
[Página 417]Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
As infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Segundo as experiencias e observaçoẽs que tenho referido he evidente, que o chá possue hum principio odorante volatil, o qual tende em geral a relaxar e enfraquecer o systema nervoso das pessoas delicadas, principalmente quando ellas o tomaõ quente e em grande quantidade. Eu tenho conhecido muitas pessoas de constituiçaõ delicada, que se abstiveraõ desta bebida com grande proveito (§. 17.), e outras que tendo-se abstido della reconheceraõ depois que isso lhes era prejudicial à sua saude, e tornaraõ a continuar o seu uso por naõ ter outra que lhe podessem substituir principalmente nos seus almoços.
Portanto as pessoas que naõ podem abandonar inteiramente esta bebida, e a consideraõ como o seu mimoso regalo, deveraõ ao menos tomala de hum modo mais seguro, deixando ferver o chá durante alguns minutos a fim de dissipar o seu principio odorante (Exp. 3º e S. 13.), que he o mais nocivo, e extrahir a parte amargoza, astringente e mais estomachica (Vej. as Exp. do §. 12) em vez de o preparar do modo ordinario por infusaõ.
Hum dos habeis medicos desta capital tendo observado muitas vezes os
effeitos prejudiciaes do chá [Página 418] tomado por infusaõ, e tendo lido huma dissertaçaõ publicada em
Leyde Nota
Sistens Observationes ad vìres Thee pertinentes. Lug.
Batav. 1769.
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada. Este extracto costuma vir da China na forma de bolos redondos, chatos, e de cor parda, e pezaõ quando muito duas oitavas cada hum; dez graõs dissolvidos em agoa quente saõ sufficientes para o almoço de huma pessoa. Elle pode ser feito mesmo na Europa sem grande despeza nem trabalho (Exp. 3º --**--)
O extracto do chá (Exp. 3ª --**--) pode ser com a mesma utilidade substituido às folhas . Eu tenho muitas vezes usado delle em lugar da infusaõ, dissolvendo-o em agoa quente, e me pareceo sempre ser hum excellente amargo estomàchico; por este modo se evitaõ em grande parte os effeitos relaxantes do chá, que costumaõ incommodar o systema nervoso, visto que a sua fragrancia se acha dissipada.folhasAs infusoẽs das flores de macella, ou de outro amargo estomachico tomadas depois do chá, saõ assaz [Página 419] uteis algumas vezes para impedir os seus maos effeitos relaxantes. Estas infusoẽs amargozas algumas vezes saõ muito mais proveitozas, quando se tomaõ frias.
[Página 419]Em todas as formas que os Chinas costumaõ usar do chà como medicamento estomachico, segundo refere Du Halde, he fervido durante algum tempo ou preparado de tal modo que o seu principio odorante volatil seja dissipado; he muito provavel que este costume, que me parece bem conforme ás experiencias que expuz (§. 12.), seja fundado em muitas observaçoẽs.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Os que conhecem bem a natureza humana costumaõ attribuir as inclinaçoẽs, que tem os homens aos vicios e virtudes, naõ so à educaçaõ e clima em que habitaõ, mas ainda aos seus alimentos e modo de vida; pelo que como a infusaõ do chà he usada ha muitos seculos entre os Chinas, naõ me parece desacertado dar aqui huma concisa idea dos costumes e caracter destes povos, como fiz a respeito das suas molestias.
Os Chinas saõ geralmente descriptos como homens incapazes de
supportar trabalhos duros, de forças mediocres, ou fracos,
comparados com os habitantes da Europa, e outros paizes; habeis em
algumas artes athe certo grao, mas sem terem dado athe agora provas
algumas de hum genio elevado em architectura civil ou militar;
pusillanimes, afeminados, [Página 420] summamente libidinosos, e deshonestos Nota
Vej. Du Halde's history os China: vol. II. p. 70. 130. e
seg. Nota
Vej. Anson's voyage round the world, p. 366. e muitos outros
autores que tractaõ da China.
Naõ seria certamente razoavel attribuir todas estas qualidades somente aos seus alimentos e modo de vida, ha muitas outras causas que concorrem para ellas; mas naõ deixa de ser provavel que todo o genero de vida, que tende a debilitar, contribue para augmentar as màs qualidades. Aonde naõ ha forças de corpo, os enganos e ardis occupaõ de ordinario o seu lugar, e este vicioso caracter fara tanto mais extensamente conhecer os seus effeitos, quanto menos for sopeado por bons principios; elle he commumente predominante tanto em hum estado de debilidade natural como adquirida pelo modo de vida. Eu sei muito bem que em algumas pessoas do sexo femineo ha huma probidade, fortaleza, e grandeza de alma nada inferiores às que se achaõ nos homens, mas duvido muito que isso seja commum.
Eu naõ me atrevo a decidir se o seculo actual nos presenta tantos
exemplos de excellentes qualidades como os antigos, mas ao menos a
opiniaõ geral he que nelle ha vicios que naõ deslustraraõ os da
antiguidade. Se o uso geral do chá tende ou naõ a augmentar a disposiçaõ
para alguns delles, pode na verdade ser hum problema em Medicina. Tudo o
que tende a debilitar parece ordinariamente augmentar a sensibilidade do
corpo; o mesmo homem por ex. que em estado de boa saude naõ estremece
com o [Página 421] estoiro de huma peça de artilharia, sera summamente perturbado
sentindo abrir derepente huma porta no, cazo que alguma molestia o tenha
enfraquecido, ou posto em hum estado de debilidade afeminada; observamos
taõbem que os dezejos naõ saõ sempre proporcionados ás forças do corpo,
e que os mais fortes succedem ás vezes ter lugar, quando as forças do
corpo se achaõ no maior abatimento Nota
Segundo as observaçoẽs de muitos
celebres medicos, o abuso das bebidas quentes faz que o estomago
cessa de ter os dezejos costumados, as forças do corpo ficaõ
estragadas, e os tremores sobrevem ordinariamente.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
Segundo o que tenho exposto, naõ me parece acertado que os meninos, e geralmente todas as pessoas de tenra idade hajaõ de fazer uso desta bebida, Ella costuma enfraquecer-lhes o estomago, arruinarlhes as forças digestivas, e contribuir para causarlhes muitas molestias. He raro de encontrar exemplos de principios de molestias scrophulosas mais frequen temente do que na debil e pouco cadia prole dos habitantes das nossas grandes villas, aonde he notorio que os almoços e ceas constaõ ordinariamente so de chá e dos seus adjunctos usuaes. As melhores familias contudo começaõ prezentemente a fazer melhor es colha de alimentos, e entre algumas o chà he bastantemente desestimado em razaõ dos nocivos effeitos que nelle tem reconhecido. Elle naõ devera ser taõ [Página 422] usado, como he, nas mezas dos Mestres que tem estudantes porcionistas em sua caza, e os dictos Mestres deveraõ advirtir que se bem que o chà pode ter lugar em alguns convites, o seu continuado uso arruina ordinariamente a saude, às forças, e a constifuiçaõ da mocidade.
[Página 422]Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
Tendo athe agora tractado do uso dietetico do chà, restame fallar dos seus usos medicinaes. O chá tem presentemente entre nos muito pouca consideraçaõ como medicamento, e ainda mesmo como hum brando diaphoretico he raras vezes mencionado nos nossos autores. Contudo a sua infusaõ naõ deixa de ser ao menos taõ proveitosa, como as de muitas outras plantas nos cazos em que he precizo diluir e relaxar para promover as mais finas secreçoes. Demais disso, he provavel segundo as experiencias mencionadas (S. 12), e observaçoẽs dos seus effeitos, que na composiçaõ do chá entra hum certo principio sedativo, naõ muito differente do que se acha nos nossos opiados; elle mitiga como os dictos opiados algumas oppressoẽs anxiosas que nos incommodaõ (e nestas circumstancias parece ser mais proveitoso do que as demais infusoẽs meramente aquosas), e, da mesma sorte que as mais pequenas doses de opio, impede às vezes o sono, pondo durante algumas horas os espiritos em hum desordenado movimento.
Todas as vezes pois que for precizo tomar infusoẽs em grande dose para excitar e entreter hum grande suor principalmente nalgumas indisposiçoẽs [Página 423] inflammatorias, se poderà usar bem adequadamente de huma decocçaõ, ou de huma forte infusaõ de chà; porquanto a virtude sedativa desta planta, ajudada da propriedade dilutiva da agoa quente, excitará o suor sem contudo estimular. Os Chinas, que costumaõ usar do chà como remedio em muitas doenças, daõ no ordinariamente em decocçaõ; mas a infusaõ feita com huma grande quantidade de chá fino vasada quasi immediatamente depois que o chá se lançou no bule para poder obter as suas partes mais subtis, e tomada quente parece dever ser preferida nos cazos em que se houver de tomar como hum a ttenuante ou relaxante.
[Página 423]Eu tenho dado varias vezes em hum vehiculo diluente o chá verde fino em substancia, e nelle observei quasi os mesmos effeitos, que na sua infusaõ. Trinta graõs desta sorte de chá reduzido em po, e tomados tres ou quatro vezes, mediando entre cada huma dellas o espaço de huma hora, ordinariamente relaxaõ os solidos, diminuem o calor e grande an xiedade, e produzem huma branda transpiraçaõ. Quando esta dose causa huma leve nausea, como succede de ordinario, excita melhor a transpiraçaõ, e naõ deixa de abrandar os symptomas que acompanhaõ as molestias inflammatorias. Quando a dose he dobrada, a nausea augmenta, e se costuma sentir huma dor e pezo desagradavel, durante algum tempo, na regiaõ do estomago, que passaõ ordinariamente com huma dejecçaõ laxativa.
[Página 424]Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Diz-se que a dor de pedra he huma doença assaz frequente na China e
Japaõ, e que os naturaes destes paizes suppoem que o chá tem huma
particular qualidade para obviar esta enfermidade. Elle pode na
verdade ser util para corrigir e amaciar a agoa Nota
A agoa, á força de ferver bastante tempo, pode ser
desembaraçada de huma certa porçaõ das suas partes terreas e
salinas, e por conseguinte ficar mais macia para o uso
commum; mas a agoa em que o chá he lançado de infusaõ naõ he
de modo algum alterada a este respeito. Vej. Percival's
experiments and observations on water, p. 27 e 33.
O chá, como ja mencionei (Exp. 1ª e 2ª) contem huma qualidade
astringente antiseptica; elle possue taõbem hum amargor assaz
sensivel, e assim como temos exemplos Nota
Elles saõ principalmente allegados pelo celebre Dr. Storck,
medico de Vienna.
Eu tenho muitas vezes observado algumas pessoas depois de exercicios
violentos e jornadas acharem-se bastantemente fatigadas, agoniadas,
sequiosas, e encalmadas, e experimentarem hum immediato alento depois de
tomarem humas poucas de taças de chá quente. Esta bebida he taõbem
hum diluente e sedativo agradavel nos cazos de abundantes ou
demasiadas comidas, em que o estomago se acha empachado, ha dores de
cabeça, e se sente o pulso elevado Nota
Le Comte's Memoirs and
observations, p. 227. Home's Principia Medicinae, p. 5.
Percival's Experimental essays, p. 130. Vej. taõbem Tissot
doenças das pessoas estudiosas e de vida
sedentaria.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
Terminarei este tractado com algumas breves reflexoẽs sobre o uso economico deste exotico.
O luxo, ou superfluidades estrangeiras, que se tem introduzido
consideravelmente neste paiz, tem contribuido para muitas das
enfermidades nervosas, que actualmente saõ nelle taõ frequentes. O
excessivo uso dos licores espirituosos he huma das principaes
causas; mas este mesmo excessivo uso tem muitas vezes a sua origem
no do chá Nota
Vej. Pereival's Experimental essays, pag.
126.
Nem saõ estes somente os inconvenientes que resultaõ do uso geral do chá. O homem pobre, que mal ganha quotidianamente com que possa haver as necessarias commodidades da vida e bons alimentos, dezejando competir com os que tem maiores possibilidades, e imitar o seu luxo, desperdiça ordinariamente neste exotico os seus fracos ganhos, e com esta imprudencia vem a ficar privado dos meyos de poder comprar o sustento convemente para si e sua familia.
Eu conheço muitas familias pobres habituadas a este defeito, e sei que os seus filhos padecem varias indisposiçoẽs procedidas de indigestaõ, debilidade, e relaxaçaõ; alguns delles tem chegado emfim a hum tal gráo de debilidade, que se lhes entortaraõ os membros, tornaraõ, se pallidos, e acabaraõ a vida em hum estado de marasmo.
Estes effeitos naõ merecem tanto de ser attribuidos ás propriedades particulares do chá, como á falta de alimentos convenientes, dos quaes a gente pobre costuma privar-se antes do que passar sem o dicto exotico. Eu conheço huma pobre familia composta de may e varios filhos, aonde ha tal paxaõ pelo chá e taõ modicos ganhos, que as tres comidas diarias (almoço, jantar, e cea), constaõ regularmente so da infusaõ de chà, assucar, e hum bocado de paõ; este uso os tem quotidianamente enfraquecido, saõ magros, macilentos, e de huma debil constituiçaõ; alguns delles contudo, que por humanidade foraõ arrancados a esta perniciosa criaçaõ, gozaõ prezentemente de huma saude menos má.
[Página 427] Hum dos nossos judiciosos autores Nota
Vej. Essays on husbandry, p.
166.Nota
Vej. The autor of the farmers lettres, vol. I. pag. 202 e
299.
Segundo os calculos moderados, a quantidade de cha, que se gasta annualmente em Inglaterra, monta a tres milhoẽs de arrateis; e a experiencia domestica nos ensina, que com cada arratel de chá se consomem ao menos dez de manteiga. Donde resulta que a quantidade de manteiga que se gasta annualmente com este nocivo alimento (se he que se lhe pode dar o nome de alimento), monta a trinta milhoẽs de arrateis. Tem-se taõbem observado que para obter hum arratel de manteiga saõ precizas ao menos cinco canadas de leite. Admittido isto, e suppondo que huma canada de leite com paõ he sufficiente para o almoço e cea de tres jornaleiros, e que estas duas comidas constituem a metade do seu sustento, segue-se, que em razaõ do uso do chá este reyno naõ pode sustentar tanta gente como alias podera, se os seus habitantes vivessem de hum modo mais simplez.
[Página 428]Em todos os tempos o homem procurou sempre nos vegetaes meyos de restabelecer
a sua saude, de se alimentar, de se reparar dos frios ou calmas, e de muitas
outras precizoẽs; a necessidade e o acazo lhe fizeraõ reconhecer pouco a
pouco as propriedades de alguns destes entes enteressantes; estas
propriedades conservadas ou por tradiçaõ ou escritas chegaraõ emfim a servir
de fundamento de tractados mais ou menos perfeitos segundo as differentes
graos de progresso do espirito humano; sobre ellas fundaraõ os antigos
Gregos e Romanos tractados de materia medica e de agricultura, e ainda hoje
as propriedades dos vegetaes saõ as notas caracteristicas em que os autores
de materia medica fundaõ as suas destribuiçoẽs methodicas Nota
Nos Methodos
de materia medica as classes, ordens e outras divisoẽs saõ fundadas
sobre as propriedades medicinaes das plantas,e nos methodos botanicos as
classes, ordens, &c: saõ fundadas nas notas da fructificaçaõ e
habito externo, independentemente das suas virtudes, e usos.
Os methodos botanicos, o lugar de habitaçaõ, os succos, nectarios, as qualidades de cheiro, sabor, e cores dos vegetaes e as suas analjses chymicas tem sido os meyos investigativos, de que os sabios se tem servido nestes ultimos tempos para indicar nelles a uniformidade e dessemelhança de virtudes, e estabelecer regras geraes a respeito dellas.
Os methodos, ou systemas botanicos saõ ou artificiaes, ou naturaes, como jà
mencionei nos capitulos precedentes. Os systemas artificiaes, como sujeitos
a leys nimiamente arbitrarias, e a reunir plantas ordinariamente differentes
no habito externo, naõ podem, senaõ por acaso, offerecer divisoẽs genericas
de plantas de uniformes virtudes; os methodos na turaes saõ por conseguinte
os unicos que podem subministrar divisoẽs menos sujeitas a engano
relativamente à dicta uniformidade. Linneo assignou pois a este respeito a
regra seguinte: todas as plantas que sam do mesmo genero natural, sam tambem
da mesma virtude; e as que sam da mesma familia ou divisoens naturaes,
participam mais ou menos da mesma virtude Nota
Plantae, quae genere
convenìunt, virtute ettam conventunt; quae in ordine naturali
continentur etiam virtute proprius accedunt, quaeque classe naturali
congruunt etiam viribus quodam modo congruunt. Lin. Philos Botan. p.
278.Nota
Este parecer he seguido por muitos sabios Naturalistas e famosos
Medieos, como Daubenton, Cullen, &c. Vej. Lectures on the Materia Medica, by Villiam Cullen, p. 158,
169. Lond. in-4. donde copiei huma grande parte das reflexoẽs,
que opponho aqui aos sentimentos de Linneo. Nota
Como por ex. comparar os fructos de huma especie com os de
outras, as folhas com folhas , raizes com
raizes, flores com flores, a casca do tronco de huma especie com
a casca do tronco de outras congeneres naturaes, &c. Nota
A figueira por ex. he huma arvore venenosa, e os seus fructos saõ saudaveis. Nota
A idade, e constituiçaõ do sujeito, e igualmente a
dose das substaucias vegetaes fazem taõbem
algumas vezes variar a acçaõ das suas virtudes; o que he somente hum
purgativo ao homem robucto, he venenoso ao homem debil e de vida
sedentaria, como se tem visto algumas, vezes na Euphorbia.
Muitos Botanicos modernos, principalmente, os que saõ apaxonados pelos
methodos naturaes, pensaõ que naõ so senaõ devem desprezar as affinidades
dos caracteres botanicos na investigaçaõ das qualidades e virtudes
medicinaes das plantas, mas taõbem que ellas nos dirigem com segurança a
substituir huma planta a outra em hum grande numero de familias naturaes.
Linneo parece ter sido deste parecer, e nos deixou a este respeito na sua
Philosophia Botaniça Nota
Vej. Phil. Bot. p. 279-282.
As Gramineas (Graminea, Ordo Naturalis IV.) Nota
Quanto as ordens,
naturaes estabelecidas por Linneo, e igualmente quanto aos generos
aqui citados Vej. Lin. Genera plantarum, edit, novissima, cur. J. J.
Reichard.
As Estrelladas (Stellatae, ord. nat. XLVII.) saõ diureticas, como a ruiva dos tintureiros, amor de hortelaõ, asperula, galium, &c.
As Borragineas ou Asperifolias (Asperifoliæ, ord nat. XLl) podem servir de hortaliças, e saõ mais ou menos mucilaginosas e glutinosas, como a buglossa, borragem, e consolda maior.
As Luridas (Lurida, ord. nat. XXVIII.) saõ suspeitas de venenosas e narcoticas, como a belladona, stramonio, meimendro, mandragora, nicotiana, as solaneas, bringelas, e ainda mesmo os tomates. O pimentaõ he summamente acre.
As Umbrelladas (Umbellatae, ord. nat. XLV) quando vegetaõ nos lugares seccos saõ aromaticas, calefactivas, proprias para excitar o suor, ourinas, menstruos, leite, e dissipar as flatulencias, como saõ por. ex. o levisticum, assa faetida, angelica, imperatoria pimpinella, peucedanum, opopanax, galbanum, carvi, [Página 435] cuminum, daucus, meum, faniculum, &c; as que nascem em lugares aquosos saõ venenosas, como a cicuta, aenanthe, sison, phellandrium, e apium palustre; as suas virtudes residem nas raizes e sementes.
As raizes das plantas da classe Hexandria, que saõ inodoras, costumaõ usar-se em algums paizes como alimento, v. g. as da tulipa, tilium martagon, e ornithogalum; mas as que tem hum cheiro viroso saõ venenosas, como as da cebola alvarraan, jacintho narcizo, coroa imperial, leucojum, goriosa, e anthericum.
As Bigornes (Bicornes, ord. nat. XVIII.) saõ astringentes, como a urze, pyrola, vaccinium, e principalmente o arbutus urva ursi; em alguns paizes costumaõ comer-se as suas bagas acidas, como as do medronheiro, as do arbutus uva ursi, vaccinium uityr tillus e exycoccus, diospyros virginiana, e melastoma.
Os fructos polposos da classe Icosandria saõ usados como alimentos, taes saõ v. g. as maçaans, peras, marmelos, romaans, fructos do pirliteiro, as nesperas, sorvas, groselhas, pessegos, damascos, ameixas, ginjas e cerejas na familia das Pomaceas (Pomaceae, ord. nat. XXXVI.); os morangos, amoras de sylva, e bagas da roseira de caõ nas Senticosas (Senticosae, ord. nal. XXXV.); emfim os fructos da eugenia e psidium nas Hesperideas (Hesperideae, ord nat. XIX.)
As plantas da classe Polyandria ordinariamente saõ venenosas; como saõ o
aconitum, Nota
Linneo conta taõbem entre as plantas venenosas o aconitum
anthora; outros autores contudo duvidaõ das suas qualidades nocivas, e
lhe chamaõ pelo contrario o aconito saudavel, dizendo que elle he hum
contraveneno do ranunculus thora.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.
As Cruciferas ou Siliquosas (Siliquosae, ord. natXXXIX) saõ acres, incisivas, detersivas e diureticas; como saõ os agrioẽs, a cochlearia, a armoracia, &c.; ellas perdem muito da sua virtude no estado de seccas, e porisso devem ser usadas em quanto verdes.
As Malvaceas (Columniferae, ord. nat. XXXVII.) saõ mucilaginosas, lubrificantes, embotaõ a acrimonìa dos humores, e saõ suppurativas em razaõ da sua virtude emolliente; taes saõ por ex. a malva, a althea, &c.
As Leguminosas (Papilionaceae, ord. nat. XXXII.) saõ excellentes para pastos ou alimento dos quadrupedes, como v. g. o trevo, medicago, trigonella, hedysarum, vicia, loeus, e lathyrus: as suas sementes saõ farinhosas e flatulentas, e servem de alimento aos homens e varios animaes, taes saõ principalmente as favas, ervilhas, feijoẽs, graõs, lentilhas, e chixaros.
[Página 437]As Compostas (Compositae, ord. nat XLIV.) saõ muito usadas em medicina, e commumente saõ amargosas, como sao v. g. o cardo sancto, a chicoria, o almeiraõ, o cardo mariano, a pilosella, o dente de leaõ, a losna, a matricaria, a chamomilla, as macellas, a tanasia, a balsamitta, eupatorium, achil lea ageratum, santolina, abrotanum, carlina, acmella, artemisia, &c.
As Orchideas (Orchideae, ord. nat. VII.) saõ aphrodisiacas, taes saõ principalmente a orchis bifolia, orchis morio, e o epidendron vanilla.
As Estrobilosas (Coniferae, ord. nat. LI.) saõ resinosas, e diureticas, como, saõ v. g. os pinheiros, o abeto, acipreste, sabina, zimbro, e juniperus lycia.
A Classe Cryptogamia contem muitos vegetaes suspeitos; os fetos tem hum cheiro desagradavel: os musgos do mesmo modo; das algas saõ rarissimas as que se comem, e muitas saõ purgativas; e os fungos saõ segundo Plinio huma perigosa comida.
Taes saõ em geral os sentimentos de Linneo sobre as familias naturaes; mas todas estas, generalidades saõ sujeitas a mais ou menos excepçoẽs, que seria prolixo expor aqui. Direi somente que os grãos das qualidades dos vegetaes variaõ infinitamente, e talvez à proporçaõ do numero dos individuos: nas Gramineas, por ex, as sementes cerealinas servem de alimento ao homem, mas que differença naõ ha entre o paõ de trigo e o de milho, e cevada? Quanto naõ differe o alimento do arroz do que fornece o paõ de trigo? Quanto naõ differem entre si os fructos polposos, que se usaõ como alimento? Que desigualdades naõ há algumas vezes entre as plantas [Página 438] aromaticas, amargosas, acidas, acres, e astringentes do meSmo genero? As vezes o principio nutritivo está separado de todo o veneno, como nas sementes cerealinas, outras vezes misto com hum principio amargozo ou combinado com huma substancia mais ou menos venenosa, como nalgumas solaneas e na mandioca; quanto naõ variaõ as quantidades dos principios saborosos, odorantes, e outras partes constitutivas de cada hum dos individuos vegetaes, e que variedade no modo, e circumstancias com que se achaõ combinados? Eu confesso ingenuamente a fraqueza das minhas luzes a este respeito; peloque deixo aos que se occupaõ de Materia Medica, e practica de Medicina o decidir athe onde seja justo o sentimento "de que se pode em algumas familias naturaes substituir humas plantas a outras."
O lugar de habitaçaõ dos vegetaes tem parecido taõbem a alguns botanicos hum
meyo de poder descobrir as suas incognitas virtudes. Linneo assignou a
este respeito a regra seguinte Nota
Locus siccus sapidiores,
succulentus insipidas magis, aquosas (sapius) corrosivas reddit.
Liu. Phil. Bot. p. 283.Nota
Vej. pag.
430.Nota
Debaxo do
nome de exposicaõ (expositio) devem entender-se os lugares expostos ao
sol, os sombrios, encostas, lugares altos e lavados dos ventos, os
valles, fugares que ficaõ ao norte, sul, nascente ou poente,
&c.Nota
A alface em razaõ da cultura he incomparavelmente menos
narcotica, o almeiraõ muito menos amargoso, e a escorcioneira
summamente adoçada e amaciada.
Os succos lacteos das plantas saõ de ordinario hum indicio de màs
qualidades, e he por esse motivo que Linneo estabeleceo a este respeito
a regra seguinte Nota
Lactescentes plantae communiter veneuatae sunt,
minus autem semiflosculosae et campanulacea. Lin. Phil. Bot. p. 282,
283.Nota
Linneo conta entre as
plantas de succos lacteos, que saõ venenosas, as seguintes; a
rauwolfia, thevetia, cerbera, plumieria, tabernamon-tana, periploca,
apocynum, cynanchum, ceropegia, e asclepias na familia das Contortas
ou de corolla retorcida (Contortae); a bocconia, sanguinaira,
papaver, argemoue, chelidouìum, nas Papaveraceas (Rhaeades); a
cambogia, dalechampia, euphorbia, e jatropha, nas Tricóxcas
(Tricoccae); e alem nisso varias outras, como a melia, ficus, thus,
acer, e agaricus.Nota
Nas especies de alface ha algumas que saõ reputadas venenosas,
como a Lactuca virosa, mas segundo as observaçoẽs de alguns
practicos modernos o extracto, desta planta pode ser dado mesmo
em grande dose como hum excellente aperitivo, e sedativo, e o
Dr. Joze Collin a recommenda nas hydropisias; ainda mesmo as
cultivadas nos paizes quentes saõ hum tanto venenosas, segundo
Galeno (Vej. Cullen Mater. Med. p. 306. ed. de Lond. in-4.) O Dr. Macquer pensava que ainda mesmo nas alfaces das nossas
hortas ha huma qualidade narcotica, como lhe ouvi muitas vezes
dizer nas suas liçoẽs.
Linneo pertendeo ter achado nos nectarios hum meyo para poder taõbem
reconhecer as màs qualidades de algumas plantas, e estabeleceo a este
respeito o aphorismo seguinte; as plantas, que dam flores com hum
nectario destincto das petalas, commumente sam venenosas Nota
Plantae floribus nectario a petalis distincto
cnmmuniter venenatae sunt Lin. Phil. Bot. p. 282. Os
exemplos que aponta saõ os seguintes: aconitum, helleborus,
aquilegia nigella, parnassia, epimedium, clutia, keggellaria,
hyacinthus, stapelia, ascleplas, mirabilis, nerium, narcissus,
zygophyllum, dictamnus, e melianthus.
O cheiro, sabor, e cores saõ os principaes meyos de que os medicos se servem
para conhecer as virtudes medicinaes de qualquer substancia vegetal. O
primeiro aphorismo a este respeito he, que todas as substancias vegetaes
insipidas, e inodoras tem muito pouca ou nenhuma virtuade em medicina Nota
Insipida et inodora vim medicam vix
exercent. Lin. Philos. Bot. p. 283.Nota
Entre estas algumas foraõ conservadas como alimentos, e naõ como
medicamentos. Nota
Sapidissima et odoratissima semper maximam vim possident.
LinPhil. Bot. p. 283Nota
Cullen, Mat. Med p. 161, 162, ed de Lond.
in-4.Nota
Sapidae et
suaveolentes bonae sunt; nauseosae et graveolentes venenatæ sunt.
Lin. Phil. Bot. p. 284Nota
Cullen Mat. Med. p. 162.Nota
O Dr. Cullen parece entender, aqui a fragrancia das flores; eu
conjecturo contudo que Linneo quiz dar a entender a fragrancia,
que existe em todo o corpo das plantas, comprehendendo as folhas , ramos, tronco e raiz ; e neste sentido o seu aphorismo parece
ter muito poucas excepçoẽs. O Dr. Cullen naõ admitte taõbem
a assersaõ de Linneo. Sapida non agunt in nervos, nec olida in
fibras musculares; pensando que o que obra sobre os nervos obra
taõbem sobre as fibras musculares e vice versá, em razaõ das dictas
fibras serem em parte huma continuaçaõ dos fios nervosos, ou ao
menos intimamente adunadas a elles e sujeitas á sua acçaõ. Diz alem
disso que o aphorismo do mesmo Botanico: Ambrosiaca analeptica,
Fragrantia orgastica, Aromatica excitantia, Tetra stupefacientia,
Nanseosa corrosiva: he ambiguo, obscuro, e pouco fundado na
natureza. Ibid. p. 163.Nota
Color pallidus insipidum, viridis crudum, luteus
amarum, ruber acidum, albus delce, niger ingratum indicat. Lin. Phil.
Bot. p. 286.Nota
Os exemplos, que Linneo aponta nesta ultima regra,
saõ: baccae atropae, actaeae, coriariæ, solani, tini, enpetri et
padi. As bagas negras de algumas urzes e do ribes nigrum aindaque
desagradaveis naõ contem contudo veneno algum.
As operaçoẽs chymicas tem parecido a muitos sabios hum dos melhores meyos de
investigar as virtudes dos vegetaes; foraõ por conseguinte tractados por
expressoẽs, trituraçoẽs em agoa, infusoẽs em espirito de vinho ou agoa,
distillaçoẽs a fogo brando ou forte, e por todos os meyos que conduzem a
analysar os seus principios; a sua analyse tem dado a conhecer as suas
partes extractivas, gomosas, mucilaginosas, saccharinas, amilaceas,
resinosas oleosas, stipticas, aromaticas, e os differentes saes e terras,
que entraõ na sua composiçaõ. Naõ se pode negar que todos estes
conhecimentos reunidos com alguns dos que acima mencionei saõ
bastantemente uteis para nos fazer discorrer sobre a natureza dos
vegetaes com maior segurança do que os antigos discorriaõ; com estas
luzes podemos taõbem melhor do que elles julgar das suas virtudes; mas
quem attender bem ao muito que variaõ os acidos e alcalis mos
differentes vegetaes quanto à quantidade e qualidade, o muito que os
seus outros principios variaõ taõbem nas proporçoẽs, e saõ alterados
pelo fogo, a grande difficuldade, ou impossibilidade que ha algumas
vezes de obter os seus principios subtis e volateis, nos quaes contudo
consistem as suas principaes virtudes, naõ estranhara certamente a
asserçaõ de alguns grandes [Página 448] medicos Nota
From chemical investigation much has been expected; but
it is now known littte can be obtained. Cullen Mat. Med. pag. 167
ed. de Lond. in-4.
Depois do descobrimento do Dr. Ingen-Rouz Nota
Vej. Experiences sur les
Vegetaux, par M. Ingen. Houz. Paris, 1780, in-8, ou a ultima ediçaõ,
aonde esta materia he tractada com todos os detalhes, que o leytor
pode dezejar.Nota
Ha a
este respeito huma experiencia bem simples; ponha-se hum ramilhete
de flores em hum copo dagoa, cubra se com huma campanula de vidro de
modo que o ar ambiente naõ entre pela base da dicta campanula; as
flores corromperaõ o ar interno de tal modo que se no dia seguinte
mettermos hum pardal dentro da campanula (immediatamente que a
levantarmas) o animal morrera dentro de poucos minutos, e se
mettermos taõbem hum coto de vela accesa no sendo da dicta campanula
se apagara em continente. Veja-se Experiences sur les Vegetaux, que
acima citei. Huma planta ordinariamente vicia huma quantidade de ar
dez vezes maior do que ella.
A idade, e o tempo em que as plantas e suas differentes partes devem ser
colhidas, e o modo de as [Página 449] seccar, e conservar para os usos medicinaes são circumstancias que
naõ devo passar aqui em silencio, viso que podem influir muito sobre as
suas virtudes Nota
Vej. Iacobi Silvii Opera Medica. Colon. Allobrog.
1630. in-fol.; et Georg. Rud. Boehmeri De collectione simplicium
Disput, &c.Nota
As cruciferas e labiadas parecem exceptuar-se desta
regra em razaõ de melhorarem nas suas quasidades por meyo da
cultura.Nota
He
por este motivo que o viscum e polypodium, que se daõ nos carvalhos,
saõ melhores para os usos medicinaes, em razaõ de terem mais
astringencia.
As raizes bolbosas e tuberosas devem ser colhidas na outono; quanto às
outras, muitos pertendem que devem ser arrancadas na primavera, logo que
começaõ a brotar folhas ,
porquanto a seiva que conservaraõ e adquiriraõ no inverno he entaõ
elaborada e lhes dà hum grande vigor, sendo neste periodo succulentas , tenras, carnudas, e bem nutridas; quando pelo
contrario, no outono saõ duras, quasi exsuccas e nimiamente
enfraquecidas de terem nutrido o troço [Página 450] ascendente e suas partes. He difficil de assignar regras geraes a este repeito, sendo certo que
quasi em todas as estaçoes do anno se podem colher boas raizes Nota
As raizes carnudas das plantas annuaes, como as dos rabaõs,
nabos, cenoiras, &c. que se usaõ como hortaliças, podem ser
colhidas em todas as estaçoẽs, contanto que sejaõ tenras e antes
da florecencia, porque neste periodo ficaõ occas ou
esponjosas. As malvaceas, em razaõ de serem usadas como emollientes, devem
taõbem ser colhidas tenras.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas. A casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.
Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar. Os ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ. As folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c. As avenças, polypodios e outras plantas da familia dos fetos devem ser colhidas durante o tempo da florecencia.
O melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica. As antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.
Os fructos ou pericarpos devem apanhar;se no estado de madureza, que naõ seja demasiada, como he a do [Página 452] periodo em que delles cahem as sementes; ha alguns fructos contudo que se apanhaõ verdes, e saõ assim usados em Medicina, mas saõ em pequemo numero ou huma pequena excepçaõ da regra geral.
As sementes devem ser colhidas gradas, e em plena madureza Nota
As excepçoẽs
a esta regra saõ muito poucas em medicina: ha algumas sementes que
servem de alimento, e se apanhaõ indifferentemente verdes ou maduras,
como saõ por ex. as ervilhas e favas; mas estas nutrem menos quando
verdes, aindaque nesse estado saõ menos flatulentas e melhor digeridas.
As sementes que se colherem para semear devem naõ so ser maduras, mas a
sua plantula seminal naõ ter, dano algum sensivel; as melhores saõ as
mais pezadas ou que lançadas em hum copo d'agoa vaõ ao fundo, porquanto
as que ficaõ ao lume d'agoa raras vezes saõ boas; naõ devem ter começado
a grelar, nem ter as cotylédones quebradas, porque aindaque estas duas
condiçoẽs naõ ponhaõ obstaculo á germinaçaõ futura, fazem contudo que o
vegetal que dellas nasce seja pouco vigoroso.
Naõ basta so saber o tempo proprio da colheita dos simples, he precizo taõbem
attender ao modo de os seccar e conservar. Ná desiccaçaõ ou modo de seccar
as plantas o principal objecto he privalas da humidade redundante, a fim de
as podermos guardar hum certo tempo para os usos de medicina. Alguns
recommendaõ de as seccar á sombra, principalmente as que saõ aromaticas,
para que menos percaõ do seu cheiro; mas a experiencia tem mostrado que
quando as seccamos rapidamente ao sol, ou nas estufas, ellas conservaõ assaz
bem o seu cheiro, propriedades, e muito melhor a suas cores; as que tem na
sua [Página 453] composiçaõ muito pouco do principio resinoso, como v. g. as borragineas,
veronica, e herva cidreira, perdem muito da sua virtude sendo seccas á
sombra lentamente, e ficaõ denigridas, por causa da fermentaçaõ que nellas
se estabelece, o que naõ succede quando saõ seccas promptamente ao sol ou
numa estufa Nota
As estufas, ou cubiculos, que se aquecem athe certo grao
por meyo de fornalhas tubuladas, saõ de grande utilidade nos paizes do
norte da Europa para seccar as plantas rapidamente em tempos humidos ou
chuvosos; as melhores, que tenho visto nas cazas dos Boticarios de
Paris, saõ hum cubiculo com tecto e paredes de tabique bem rebocado e de
seis pés quadrados; tem huma porta e janella de vidraças de grandeza
proporcionada; á esquerda da porta está situada a fornalha de ferro ou
barro (a que chamaõ poële) guarnecida de hum tubo de lata de cinco dedos
de diametro, que serve juntamente com a fornalha para estufar o ar do
cubiculo; este tubo he suspendido com arames no tecto do cubiculo, e a
sua extremidade superior sahe por hum buraco aberta na janella para
botar fora o fumo; na porta esta pendurado hum thermometro de mercurio
dividido em 80 graos desde o de congelaçaõ athe o grao de agoa fervendo.
Este instrumento serve para regular o calor da estufa que de ordinario
monta athe 55 ou 60 graos; ha nas paredes, em distancias iguaes de 8 ou
10 pollegadas, varias travessas de pao pregadas, que servem de soster
dois varoẽs de ferro, sobre os quaes se poem as plantas a seccar dentro
de cestas de vime compridas, medeando contudo entre as plantas e as
cestas algumas folhas de papel.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas. Nas estufas ou sobre hum forno de padeira, em que [Página 454] successivamente se coze paõ, a dessiccaçaõ he mais rapida e melhor, por naõ ser interrompida; neste cazo as serapilheiras devem ficar penduradas, para que o ar possa circular livremente, o que naõ sera desacertado practicar taõbem, quando a dessiccaçaõ for feita ao sol.
As raizes, troncos lenhosos, e cascas requerem huma dessicaçaõ mais appressada, em razaõ de conterem mais humidade; quanto às raizes, he precizo antes de as por a seccar alimparlhes a terra com huma serapilheira ou lavando-as rapidamente, cortar-lhes as raigotas filamentosas, partilas longitudinalmente ou transversalmente sendo grossas, e depois polas enfiadas a seccar; as que saõ delgadas naõ precizaõ de se cortar. Ha algumas que costumaõ guardar-se mettidas em area ou terra, como as da althea, escorcioneira, e armoracia, a fim de as conservar frescas; mas deve se advertir que guardadas muito tempo neste estado saõ sujeitas a vegetar e endurecer, e nesta circumstancia devem rejeitar-se como muito pouco efficazes. As raizes bolbosas compostas de cascos, como v. g. a cebola alvaraan, saõ difficeis de bem se seccar ao sol; o melhor sera se parar os seus cascos e mettelos a seccar no banho maria, a querelos ter perfeitamente privados de humidade.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas. As plantas aromaticas saõ susceptiveis de huma rapida dessiccaçaõ; mas he precizo saber regular os graos de calor e proporcionalos á volatilidade dos seus principios odorantes, e à quantidade da humidade. Ellas perdem na verdade [Página 455] durante a dessiccaçaõ, huma pequena porçaõ do seu aroma, e immediatamente depois parecem ter pouco cheiro, mas passados alguns dias amollecem hum tanto e ficaõ bastantemente cheirosas; as que saõ seccas à sombra saõ hum pouco mais aromaticas; porem ficaõ mais humidas, e a sua humidade costuma destruirlhes a cor, e he pouco favoravel à sua conservaçaõ.
As flores costumaõ perder ordinariamente as suas cores na dessiccaçaõ, e para melhor lhas conservar he precizo, embrulhalas em papel e polas assim a seccar; deve-se-lhes conservar o calys, e arrancalo somente depois de passada a dessiccaçaõ, quando assim for necessario como nas violettas; os cravos, e rosas vermelhas parecem ser huma excepçaõ desta regra, porquanto so se costumaõ seccar as suas petalas, e ainda estas mesmas saõ antes privadas das unhas. Os fructos ordinariamente costumaõ por-se a seccar naõ muito maduros.
As sementes consideradas relativamente aos principios, e consistencia das
suas cotylédones podem ser divididas em oleosas, farinhosas e resinosas; as
oleosas propriamente saõ aquellas de que se pode tirar oleo por expressaõ,
como v. g. as do melaõ, melancia, abobara, pepino, nogueira, amendoeiras,
nabos, &c.; as farinhosas saõ as que naõ daõ oleo por expressaõ, e se
reduzem facilmente em po ou farinha, como o trigo, cevada, milho, favas,
ervilhas, tramoços, e outras da familia das gramineas, e das leguminosas; as
resinosas saõ aquellas em que o principio resinoso he predominante. As
sementes contem em geral menos humidade do que as demais partes das plantas,
e porisso basta polas a seccar em lugar secco e hum [Página 456] pouco quente; as farinhosas Nota
Em alguns paizes do norte da Europa
costumaõ seccar o trigo em estufas afim de o poderem bem conservar para
o uso domestico, e ainda mesmo para semear.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor. Ha muitos simples, que podem conservar-se muitos annos sem corrupçaõ, principalmente quando foraõ colhidos em annos favoraveis, mas os melhores em geral seraõ sempre aquelles que se renovarem todos os annos.
As sementes em geral conservaõ-se bem nos lugares seccos c frescos; as
oleosas costumaõ nos lugares humidos germinar dentro de pouco tempo, e
apanhar [Página 457] môfo, e nos lugares quentes adquirem ranço; porisso he necessario
conservalas em lugares seccos e temperados; as farinhosas saõ sujeitas às
mesmas alteraçoẽs nos lugares humidos, e nos quentes seccaõ-se
demasiadamente porisso sera acertado de as conservar quasi do mesmo modo; as
resinosas aindaque resistaõ mais tempo à humidade e se alterem menos com o
calor, contudo o melhor sera conservalas em lugares temperados. Guardaõ-se
embrulhadas em papel, em cabaços, saccos, frascos bem tapados,
&c. Nota
As sementes, que se guardaõ muito tempo em frascos tapados
sem serem barradas de cebo ou cera, saõ ordinariamente inuteis para a
vegetaçaõ; a humidade e gaz, que ellas exhalaõ dentro do frasco, e a
falta de renovaçaõ do ar interno saõ, segundo Pullein, a principal causa
da sua corrupçaõ.
Para se poderem conservar para a vegetaçaõ e remetter a paizes remotos, sem
que sejaõ alteradas nas longas viagens de mar, Linneo aconselha de as metter
em hum frasquinho cylindrico de vidro tapado com huma rolha de cortiça
envolta em hum boccado de pelle, e que depois disso se ponha este frasquinho
dentro de outro hum tanto mais largo, havendo o cuidado de encher o espaço,
que medea entre hum e outro, com hum misto feito de partes iguaes de sal
commum, e sal ammoniaco com o quadobro de [Página 458] nitro, assegurando que desta maneira o calor naõ pode de modo algum chegar
a penetralas. Alguns costumaõ cobrilas de assucar quando ellas tem hum
pericarpo polposo; outros cobrem-nas de cera, e barraõ-nas depois com
argilla amassada em huma dissoluçaõ forte de goma Arabia, embrulhaõ-nas
emfim em hum encerado, e as remettem dentro de huma caxa ou barril. Alguns
aconselhaõ taõbem de as cobrir de cebo ou de hum misto de partes iguaes de
cera e cebo, quando saõ grossas, e sendo miudas, de as involver primeiro em
argilla e depois em cebo, cera, &c.; a operaçaõ consiste em tomalas com
huma pequena tenaz e mettelas em cera ou cebo que nade derretido na
superficie de agoa quente, tirando-as immediatamente e lançando-as em agoa
fria. A cera ou qualquer tegumento artificial, com que as sementes forem
cobertas, naõ devem ser despegados, senaõ quando estas se quizerem semear;
neste periodo raspar-se-haõ às mais grossas os dictos tegumentos com toda a
cautella, e lavar-se-haõ as mais miudas em sabaõ e area fina, athe que a
casca fique livremente exposta ao contacto do ar e capaz de embeber a
humidade, e semear-se-haõ sem mais demora Os que dezejarem ter mais
extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados
seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the
East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on
the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis
pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel.
- Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della
perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens
traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio
frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi.
Viennae. 1765. As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente
preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em
agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em
as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da
electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado,
principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia
de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo
individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a
este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum
semine.Nota
Eu devera passar actualmente a tractar dos usos [Página 459] economicos dos vegetaes, mas como a extensaõ desta materia ainda mesmo
tractada em geral me faria exceder os curtos limites de hum Compendio,
deixala-hei aos que se occupaõ dos differentes ramos da Botanica applicada
ás artes. Ninguem ignora que os vegetaes, alem dos usos que tem em Medicina,
saõ empregados nos da Architectura civil, militar, e naval, subministraõ ao
homem huma grande diversidade de alimentos e bebidas, nutrem muitos animaes
que lhe saõ uteis, saõ a materia de que elle forma innumeraveis trastes
domesticos, instrumentos, vasilhas, &c servem nas tinturarias, e
manufacturas, em huma palavra saõ, como ninguem duvida, o fundamento da
Agricultura, a mais preciosa de todas as artes Nota
He huma maxima hoje
assaz bem reconhecida, que a Agricultura sendo animada he o verdadeiro
fundamento da provoacaõ e força dos Imperios; o solido esteio em que se
sostem as manufacturas, artes, e commercio, a fonte de que emana a sua
firme prosperidade; o thesoiro e verdadeiras minas de qualquer estado; o
unico meyo de enriquecer de contino tanto o vassalo como o soberano; e
emfim o melhor regresso para poder pagar as dividas publicas, e naõ
contrahir outras. Quesnay, Bandini, Boisgillebert, &c.
Em todos os tempos o homem procurou sempre nos vegetaes meyos de restabelecer
a sua saude, de se alimentar, de se reparar dos frios ou calmas, e de muitas
outras precizoẽs; a necessidade e o acazo lhe fizeraõ reconhecer pouco a
pouco as propriedades de alguns destes entes enteressantes; estas
propriedades conservadas ou por tradiçaõ ou escritas chegaraõ emfim a servir
de fundamento de tractados mais ou menos perfeitos segundo as differentes
graos de progresso do espirito humano; sobre ellas fundaraõ os antigos
Gregos e Romanos tractados de materia medica e de agricultura, e ainda hoje
as propriedades dos vegetaes saõ as notas caracteristicas em que os autores
de materia medica fundaõ as suas destribuiçoẽs methodicas Nota
Nos Methodos
de materia medica as classes, ordens e outras divisoẽs saõ fundadas
sobre as propriedades medicinaes das plantas,e nos methodos botanicos as
classes, ordens, &c: saõ fundadas nas notas da fructificaçaõ e
habito externo, independentemente das suas virtudes, e usos.
Os methodos botanicos, o lugar de habitaçaõ, os succos, nectarios, as qualidades de cheiro, sabor, e cores dos vegetaes e as suas analjses chymicas tem sido os meyos investigativos, de que os sabios se tem servido nestes ultimos tempos para indicar nelles a uniformidade e dessemelhança de virtudes, e estabelecer regras geraes a respeito dellas.
Os methodos, ou systemas botanicos saõ ou artificiaes, ou naturaes, como jà
mencionei nos capitulos precedentes. Os systemas artificiaes, como sujeitos
a leys nimiamente arbitrarias, e a reunir plantas ordinariamente differentes
no habito externo, naõ podem, senaõ por acaso, offerecer divisoẽs genericas
de plantas de uniformes virtudes; os methodos na turaes saõ por conseguinte
os unicos que podem subministrar divisoẽs menos sujeitas a engano
relativamente à dicta uniformidade. Linneo assignou pois a este respeito a
regra seguinte: todas as plantas que sam do mesmo genero natural, sam tambem
da mesma virtude; e as que sam da mesma familia ou divisoens naturaes,
participam mais ou menos da mesma virtude Nota
Plantae, quae genere
convenìunt, virtute ettam conventunt; quae in ordine naturali
continentur etiam virtute proprius accedunt, quaeque classe naturali
congruunt etiam viribus quodam modo congruunt. Lin. Philos Botan. p.
278.Nota
Este parecer he seguido por muitos sabios Naturalistas e famosos
Medieos, como Daubenton, Cullen, &c. Vej. Lectures on the Materia Medica, by Villiam Cullen, p. 158,
169. Lond. in-4. donde copiei huma grande parte das reflexoẽs,
que opponho aqui aos sentimentos de Linneo. Nota
Como por ex. comparar os fructos de huma especie com os de
outras, as folhas com folhas , raizes com
raizes, flores com flores, a casca do tronco de huma especie com
a casca do tronco de outras congeneres naturaes, &c. Nota
A figueira por ex. he huma arvore venenosa, e os seus fructos saõ saudaveis. Nota
A idade, e constituiçaõ do sujeito, e igualmente a
dose das substaucias vegetaes fazem taõbem
algumas vezes variar a acçaõ das suas virtudes; o que he somente hum
purgativo ao homem robucto, he venenoso ao homem debil e de vida
sedentaria, como se tem visto algumas, vezes na Euphorbia.
Muitos Botanicos modernos, principalmente, os que saõ apaxonados pelos
methodos naturaes, pensaõ que naõ so senaõ devem desprezar as affinidades
dos caracteres botanicos na investigaçaõ das qualidades e virtudes
medicinaes das plantas, mas taõbem que ellas nos dirigem com segurança a
substituir huma planta a outra em hum grande numero de familias naturaes.
Linneo parece ter sido deste parecer, e nos deixou a este respeito na sua
Philosophia Botaniça Nota
Vej. Phil. Bot. p. 279-282.
As Gramineas (Graminea, Ordo Naturalis IV.) Nota
Quanto as ordens,
naturaes estabelecidas por Linneo, e igualmente quanto aos generos
aqui citados Vej. Lin. Genera plantarum, edit, novissima, cur. J. J.
Reichard.
As Estrelladas (Stellatae, ord. nat. XLVII.) saõ diureticas, como a ruiva dos tintureiros, amor de hortelaõ, asperula, galium, &c.
As Borragineas ou Asperifolias (Asperifoliæ, ord nat. XLl) podem servir de hortaliças, e saõ mais ou menos mucilaginosas e glutinosas, como a buglossa, borragem, e consolda maior.
As Luridas (Lurida, ord. nat. XXVIII.) saõ suspeitas de venenosas e narcoticas, como a belladona, stramonio, meimendro, mandragora, nicotiana, as solaneas, bringelas, e ainda mesmo os tomates. O pimentaõ he summamente acre.
As Umbrelladas (Umbellatae, ord. nat. XLV) quando vegetaõ nos lugares seccos saõ aromaticas, calefactivas, proprias para excitar o suor, ourinas, menstruos, leite, e dissipar as flatulencias, como saõ por. ex. o levisticum, assa faetida, angelica, imperatoria pimpinella, peucedanum, opopanax, galbanum, carvi, [Página 435] cuminum, daucus, meum, faniculum, &c; as que nascem em lugares aquosos saõ venenosas, como a cicuta, aenanthe, sison, phellandrium, e apium palustre; as suas virtudes residem nas raizes e sementes.
[Página 435]As raizes das plantas da classe Hexandria, que saõ inodoras, costumaõ usar-se em algums paizes como alimento, v. g. as da tulipa, tilium martagon, e ornithogalum; mas as que tem hum cheiro viroso saõ venenosas, como as da cebola alvarraan, jacintho narcizo, coroa imperial, leucojum, goriosa, e anthericum.
As Bigornes (Bicornes, ord. nat. XVIII.) saõ astringentes, como a urze, pyrola, vaccinium, e principalmente o arbutus urva ursi; em alguns paizes costumaõ comer-se as suas bagas acidas, como as do medronheiro, as do arbutus uva ursi, vaccinium uityr tillus e exycoccus, diospyros virginiana, e melastoma.
Os fructos polposos da classe Icosandria saõ usados como alimentos, taes saõ v. g. as maçaans, peras, marmelos, romaans, fructos do pirliteiro, as nesperas, sorvas, groselhas, pessegos, damascos, ameixas, ginjas e cerejas na familia das Pomaceas (Pomaceae, ord. nat. XXXVI.); os morangos, amoras de sylva, e bagas da roseira de caõ nas Senticosas (Senticosae, ord. nal. XXXV.); emfim os fructos da eugenia e psidium nas Hesperideas (Hesperideae, ord nat. XIX.)
As plantas da classe Polyandria ordinariamente saõ venenosas; como saõ o
aconitum, Nota
Linneo conta taõbem entre as plantas venenosas o aconitum
anthora; outros autores contudo duvidaõ das suas qualidades nocivas, e
lhe chamaõ pelo contrario o aconito saudavel, dizendo que elle he hum
contraveneno do ranunculus thora.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.
As Labiadas, ou Verticilladas (Verticillatae, ord. nat. XLII.) saõ aromaticas, nervinas, resolutivas, emmenagogas e dissipaõ os flatos, as suas virtudes residem nas folhas ; taes saõ por ex. a segurelha, hortelaan, poejo, tomilho, ouregaõ, salva, alecrim, alfazema, rosmaninho, manjerona, manjericaõ, herva cidreira, &c.folhasAs Cruciferas ou Siliquosas (Siliquosae, ord. natXXXIX) saõ acres, incisivas, detersivas e diureticas; como saõ os agrioẽs, a cochlearia, a armoracia, &c.; ellas perdem muito da sua virtude no estado de seccas, e porisso devem ser usadas em quanto verdes.
As Malvaceas (Columniferae, ord. nat. XXXVII.) saõ mucilaginosas, lubrificantes, embotaõ a acrimonìa dos humores, e saõ suppurativas em razaõ da sua virtude emolliente; taes saõ por ex. a malva, a althea, &c.
As Leguminosas (Papilionaceae, ord. nat. XXXII.) saõ excellentes para pastos ou alimento dos quadrupedes, como v. g. o trevo, medicago, trigonella, hedysarum, vicia, loeus, e lathyrus: as suas sementes saõ farinhosas e flatulentas, e servem de alimento aos homens e varios animaes, taes saõ principalmente as favas, ervilhas, feijoẽs, graõs, lentilhas, e chixaros.
[Página 437]As Compostas (Compositae, ord. nat XLIV.) saõ muito usadas em medicina, e commumente saõ amargosas, como sao v. g. o cardo sancto, a chicoria, o almeiraõ, o cardo mariano, a pilosella, o dente de leaõ, a losna, a matricaria, a chamomilla, as macellas, a tanasia, a balsamitta, eupatorium, achil lea ageratum, santolina, abrotanum, carlina, acmella, artemisia, &c.
As Orchideas (Orchideae, ord. nat. VII.) saõ aphrodisiacas, taes saõ principalmente a orchis bifolia, orchis morio, e o epidendron vanilla.
As Estrobilosas (Coniferae, ord. nat. LI.) saõ resinosas, e diureticas, como, saõ v. g. os pinheiros, o abeto, acipreste, sabina, zimbro, e juniperus lycia.
A Classe Cryptogamia contem muitos vegetaes suspeitos; os fetos tem hum cheiro desagradavel: os musgos do mesmo modo; das algas saõ rarissimas as que se comem, e muitas saõ purgativas; e os fungos saõ segundo Plinio huma perigosa comida.
Taes saõ em geral os sentimentos de Linneo sobre as familias naturaes; mas todas estas, generalidades saõ sujeitas a mais ou menos excepçoẽs, que seria prolixo expor aqui. Direi somente que os grãos das qualidades dos vegetaes variaõ infinitamente, e talvez à proporçaõ do numero dos individuos: nas Gramineas, por ex, as sementes cerealinas servem de alimento ao homem, mas que differença naõ ha entre o paõ de trigo e o de milho, e cevada? Quanto naõ differe o alimento do arroz do que fornece o paõ de trigo? Quanto naõ differem entre si os fructos polposos, que se usaõ como alimento? Que desigualdades naõ há algumas vezes entre as plantas [Página 438] aromaticas, amargosas, acidas, acres, e astringentes do meSmo genero? As vezes o principio nutritivo está separado de todo o veneno, como nas sementes cerealinas, outras vezes misto com hum principio amargozo ou combinado com huma substancia mais ou menos venenosa, como nalgumas solaneas e na mandioca; quanto naõ variaõ as quantidades dos principios saborosos, odorantes, e outras partes constitutivas de cada hum dos individuos vegetaes, e que variedade no modo, e circumstancias com que se achaõ combinados? Eu confesso ingenuamente a fraqueza das minhas luzes a este respeito; peloque deixo aos que se occupaõ de Materia Medica, e practica de Medicina o decidir athe onde seja justo o sentimento "de que se pode em algumas familias naturaes substituir humas plantas a outras."
[Página 438]O lugar de habitaçaõ dos vegetaes tem parecido taõbem a alguns botanicos hum
meyo de poder descobrir as suas incognitas virtudes. Linneo assignou a
este respeito a regra seguinte Nota
Locus siccus sapidiores,
succulentus insipidas magis, aquosas (sapius) corrosivas reddit.
Liu. Phil. Bot. p. 283.Nota
Vej. pag.
430.Nota
Debaxo do
nome de exposicaõ (expositio) devem entender-se os lugares expostos ao
sol, os sombrios, encostas, lugares altos e lavados dos ventos, os
valles, fugares que ficaõ ao norte, sul, nascente ou poente,
&c.Nota
A alface em razaõ da cultura he incomparavelmente menos
narcotica, o almeiraõ muito menos amargoso, e a escorcioneira
summamente adoçada e amaciada.
Os succos lacteos das plantas saõ de ordinario hum indicio de màs
qualidades, e he por esse motivo que Linneo estabeleceo a este respeito
a regra seguinte Nota
Lactescentes plantae communiter veneuatae sunt,
minus autem semiflosculosae et campanulacea. Lin. Phil. Bot. p. 282,
283.Nota
Linneo conta entre as
plantas de succos lacteos, que saõ venenosas, as seguintes; a
rauwolfia, thevetia, cerbera, plumieria, tabernamon-tana, periploca,
apocynum, cynanchum, ceropegia, e asclepias na familia das Contortas
ou de corolla retorcida (Contortae); a bocconia, sanguinaira,
papaver, argemoue, chelidouìum, nas Papaveraceas (Rhaeades); a
cambogia, dalechampia, euphorbia, e jatropha, nas Tricóxcas
(Tricoccae); e alem nisso varias outras, como a melia, ficus, thus,
acer, e agaricus.Nota
Nas especies de alface ha algumas que saõ reputadas venenosas,
como a Lactuca virosa, mas segundo as observaçoẽs de alguns
practicos modernos o extracto, desta planta pode ser dado mesmo
em grande dose como hum excellente aperitivo, e sedativo, e o
Dr. Joze Collin a recommenda nas hydropisias; ainda mesmo as
cultivadas nos paizes quentes saõ hum tanto venenosas, segundo
Galeno (Vej. Cullen Mater. Med. p. 306. ed. de Lond. in-4.) O Dr. Macquer pensava que ainda mesmo nas alfaces das nossas
hortas ha huma qualidade narcotica, como lhe ouvi muitas vezes
dizer nas suas liçoẽs.
Linneo pertendeo ter achado nos nectarios hum meyo para poder taõbem
reconhecer as màs qualidades de algumas plantas, e estabeleceo a este
respeito o aphorismo seguinte; as plantas, que dam flores com hum
nectario destincto das petalas, commumente sam venenosas Nota
Plantae floribus nectario a petalis distincto
cnmmuniter venenatae sunt Lin. Phil. Bot. p. 282. Os
exemplos que aponta saõ os seguintes: aconitum, helleborus,
aquilegia nigella, parnassia, epimedium, clutia, keggellaria,
hyacinthus, stapelia, ascleplas, mirabilis, nerium, narcissus,
zygophyllum, dictamnus, e melianthus.
O cheiro, sabor, e cores saõ os principaes meyos de que os medicos se servem
para conhecer as virtudes medicinaes de qualquer substancia vegetal. O
primeiro aphorismo a este respeito he, que todas as substancias vegetaes
insipidas, e inodoras tem muito pouca ou nenhuma virtuade em medicina Nota
Insipida et inodora vim medicam vix
exercent. Lin. Philos. Bot. p. 283.Nota
Entre estas algumas foraõ conservadas como alimentos, e naõ como
medicamentos. Nota
Sapidissima et odoratissima semper maximam vim possident.
LinPhil. Bot. p. 283Nota
Cullen, Mat. Med p. 161, 162, ed de Lond.
in-4.Nota
Sapidae et
suaveolentes bonae sunt; nauseosae et graveolentes venenatæ sunt.
Lin. Phil. Bot. p. 284Nota
Cullen Mat. Med. p. 162.Nota
O Dr. Cullen parece entender, aqui a fragrancia das flores; eu
conjecturo contudo que Linneo quiz dar a entender a fragrancia,
que existe em todo o corpo das plantas, comprehendendo as folhas , ramos, tronco e raiz ; e neste sentido o seu aphorismo parece
ter muito poucas excepçoẽs. O Dr. Cullen naõ admitte taõbem
a assersaõ de Linneo. Sapida non agunt in nervos, nec olida in
fibras musculares; pensando que o que obra sobre os nervos obra
taõbem sobre as fibras musculares e vice versá, em razaõ das dictas
fibras serem em parte huma continuaçaõ dos fios nervosos, ou ao
menos intimamente adunadas a elles e sujeitas á sua acçaõ. Diz alem
disso que o aphorismo do mesmo Botanico: Ambrosiaca analeptica,
Fragrantia orgastica, Aromatica excitantia, Tetra stupefacientia,
Nanseosa corrosiva: he ambiguo, obscuro, e pouco fundado na
natureza. Ibid. p. 163.Nota
Color pallidus insipidum, viridis crudum, luteus
amarum, ruber acidum, albus delce, niger ingratum indicat. Lin. Phil.
Bot. p. 286.Nota
Os exemplos, que Linneo aponta nesta ultima regra,
saõ: baccae atropae, actaeae, coriariæ, solani, tini, enpetri et
padi. As bagas negras de algumas urzes e do ribes nigrum aindaque
desagradaveis naõ contem contudo veneno algum.
As operaçoẽs chymicas tem parecido a muitos sabios hum dos melhores meyos de
investigar as virtudes dos vegetaes; foraõ por conseguinte tractados por
expressoẽs, trituraçoẽs em agoa, infusoẽs em espirito de vinho ou agoa,
distillaçoẽs a fogo brando ou forte, e por todos os meyos que conduzem a
analysar os seus principios; a sua analyse tem dado a conhecer as suas
partes extractivas, gomosas, mucilaginosas, saccharinas, amilaceas,
resinosas oleosas, stipticas, aromaticas, e os differentes saes e terras,
que entraõ na sua composiçaõ. Naõ se pode negar que todos estes
conhecimentos reunidos com alguns dos que acima mencionei saõ
bastantemente uteis para nos fazer discorrer sobre a natureza dos
vegetaes com maior segurança do que os antigos discorriaõ; com estas
luzes podemos taõbem melhor do que elles julgar das suas virtudes; mas
quem attender bem ao muito que variaõ os acidos e alcalis mos
differentes vegetaes quanto à quantidade e qualidade, o muito que os
seus outros principios variaõ taõbem nas proporçoẽs, e saõ alterados
pelo fogo, a grande difficuldade, ou impossibilidade que ha algumas
vezes de obter os seus principios subtis e volateis, nos quaes contudo
consistem as suas principaes virtudes, naõ estranhara certamente a
asserçaõ de alguns grandes [Página 448] medicos Nota
From chemical investigation much has been expected; but
it is now known littte can be obtained. Cullen Mat. Med. pag. 167
ed. de Lond. in-4.
Depois do descobrimento do Dr. Ingen-Rouz Nota
Vej. Experiences sur les
Vegetaux, par M. Ingen. Houz. Paris, 1780, in-8, ou a ultima ediçaõ,
aonde esta materia he tractada com todos os detalhes, que o leytor
pode dezejar.Nota
Ha a
este respeito huma experiencia bem simples; ponha-se hum ramilhete
de flores em hum copo dagoa, cubra se com huma campanula de vidro de
modo que o ar ambiente naõ entre pela base da dicta campanula; as
flores corromperaõ o ar interno de tal modo que se no dia seguinte
mettermos hum pardal dentro da campanula (immediatamente que a
levantarmas) o animal morrera dentro de poucos minutos, e se
mettermos taõbem hum coto de vela accesa no sendo da dicta campanula
se apagara em continente. Veja-se Experiences sur les Vegetaux, que
acima citei. Huma planta ordinariamente vicia huma quantidade de ar
dez vezes maior do que ella.
A idade, e o tempo em que as plantas e suas differentes partes devem ser
colhidas, e o modo de as [Página 449] seccar, e conservar para os usos medicinaes são circumstancias que
naõ devo passar aqui em silencio, viso que podem influir muito sobre as
suas virtudes Nota
Vej. Iacobi Silvii Opera Medica. Colon. Allobrog.
1630. in-fol.; et Georg. Rud. Boehmeri De collectione simplicium
Disput, &c.Nota
As cruciferas e labiadas parecem exceptuar-se desta
regra em razaõ de melhorarem nas suas quasidades por meyo da
cultura.Nota
He
por este motivo que o viscum e polypodium, que se daõ nos carvalhos,
saõ melhores para os usos medicinaes, em razaõ de terem mais
astringencia.
As raizes bolbosas e tuberosas devem ser colhidas na outono; quanto às
outras, muitos pertendem que devem ser arrancadas na primavera, logo que
começaõ a brotar folhas ,
porquanto a seiva que conservaraõ e adquiriraõ no inverno he entaõ
elaborada e lhes dà hum grande vigor, sendo neste periodo succulentas , tenras, carnudas, e bem nutridas; quando pelo
contrario, no outono saõ duras, quasi exsuccas e nimiamente
enfraquecidas de terem nutrido o troço [Página 450] ascendente e suas partes. He difficil de assignar regras geraes a este repeito, sendo certo que
quasi em todas as estaçoes do anno se podem colher boas raizes Nota
As raizes carnudas das plantas annuaes, como as dos rabaõs,
nabos, cenoiras, &c. que se usaõ como hortaliças, podem ser
colhidas em todas as estaçoẽs, contanto que sejaõ tenras e antes
da florecencia, porque neste periodo ficaõ occas ou
esponjosas. As malvaceas, em razaõ de serem usadas como emollientes, devem
taõbem ser colhidas tenras.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas. A casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.
Os troncos e ramos das plantas herbaceas devem ser colhidos junto do estado da florecencia ou quando elle começa; os troncos lenhosos devem ser cortados no inverno, ou fim do outono, de arvores que naõ sejaõ velhas, nem muito novas.arvoresA casca das arvores [Página 451] novas he melhor do que a das velhas ou de meya idade; as cascas que naõ saõ resinosas devem ser arrancadas no outono ou inverno, e as que saõ resinosas, na primavera, quando a seiva esta para se pôr em movimento, e que se podem facilmente arrancar do lenho.arvores[Página 451]Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar. Os ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ. As folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c. As avenças, polypodios e outras plantas da familia dos fetos devem ser colhidas durante o tempo da florecencia.
Os gomos devem ser colhihos no tempo, em que estaõ para rebentar, ou logo que começaraõ a brotar, e que a seiva começa a mover se de modo que os faz inchar.colhihosOs ramos ou extremidades das arvores e arbustos devem ser colhidos tenros na primavera, fogo que os seus gomos rebentaraõ.arvoresAs folhas em geral devem ser apanhadas quando as flores da planta começaõ a desabotoar, ou quando muito, logo depois da florecencia, e jamais depois da madureza das sementes; exceptuaõ-se contudo as das malvaceas, que devem ser colhidas bastantemente tenras, e taõbem aquellas que no principio da florecencia se tornaõ muito duras, como as da tanchagem, labaças, almeiraõ, limoeiro, &c.folhasO melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica. As antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.
O melhor tempo de colher as flores he quando começaõ a desabotoar, e antes da vibraçaõ do po das antheras : ha algumas em que se deve separar a corolla do calvz, visto que a sua principas virtude reside na corolla, como são por ex. as rosas, cravos, violettas, &c. mas nas labiadas deve sempre conservar-se o calyz junto com a corolla, porque nelle reside principalmente a virtude aromatica.antherasAs antheras devem ser colhidas antes da vibraçaõ do seu pò.antherasOs fructos ou pericarpos devem apanhar;se no estado de madureza, que naõ seja demasiada, como he a do [Página 452] periodo em que delles cahem as sementes; ha alguns fructos contudo que se apanhaõ verdes, e saõ assim usados em Medicina, mas saõ em pequemo numero ou huma pequena excepçaõ da regra geral.
[Página 452]As sementes devem ser colhidas gradas, e em plena madureza Nota
As excepçoẽs
a esta regra saõ muito poucas em medicina: ha algumas sementes que
servem de alimento, e se apanhaõ indifferentemente verdes ou maduras,
como saõ por ex. as ervilhas e favas; mas estas nutrem menos quando
verdes, aindaque nesse estado saõ menos flatulentas e melhor digeridas.
As sementes que se colherem para semear devem naõ so ser maduras, mas a
sua plantula seminal naõ ter, dano algum sensivel; as melhores saõ as
mais pezadas ou que lançadas em hum copo d'agoa vaõ ao fundo, porquanto
as que ficaõ ao lume d'agoa raras vezes saõ boas; naõ devem ter começado
a grelar, nem ter as cotylédones quebradas, porque aindaque estas duas
condiçoẽs naõ ponhaõ obstaculo á germinaçaõ futura, fazem contudo que o
vegetal que dellas nasce seja pouco vigoroso.
Naõ basta so saber o tempo proprio da colheita dos simples, he precizo taõbem
attender ao modo de os seccar e conservar. Ná desiccaçaõ ou modo de seccar
as plantas o principal objecto he privalas da humidade redundante, a fim de
as podermos guardar hum certo tempo para os usos de medicina. Alguns
recommendaõ de as seccar á sombra, principalmente as que saõ aromaticas,
para que menos percaõ do seu cheiro; mas a experiencia tem mostrado que
quando as seccamos rapidamente ao sol, ou nas estufas, ellas conservaõ assaz
bem o seu cheiro, propriedades, e muito melhor a suas cores; as que tem na
sua [Página 453] composiçaõ muito pouco do principio resinoso, como v. g. as borragineas,
veronica, e herva cidreira, perdem muito da sua virtude sendo seccas á
sombra lentamente, e ficaõ denigridas, por causa da fermentaçaõ que nellas
se estabelece, o que naõ succede quando saõ seccas promptamente ao sol ou
numa estufa Nota
As estufas, ou cubiculos, que se aquecem athe certo grao
por meyo de fornalhas tubuladas, saõ de grande utilidade nos paizes do
norte da Europa para seccar as plantas rapidamente em tempos humidos ou
chuvosos; as melhores, que tenho visto nas cazas dos Boticarios de
Paris, saõ hum cubiculo com tecto e paredes de tabique bem rebocado e de
seis pés quadrados; tem huma porta e janella de vidraças de grandeza
proporcionada; á esquerda da porta está situada a fornalha de ferro ou
barro (a que chamaõ poële) guarnecida de hum tubo de lata de cinco dedos
de diametro, que serve juntamente com a fornalha para estufar o ar do
cubiculo; este tubo he suspendido com arames no tecto do cubiculo, e a
sua extremidade superior sahe por hum buraco aberta na janella para
botar fora o fumo; na porta esta pendurado hum thermometro de mercurio
dividido em 80 graos desde o de congelaçaõ athe o grao de agoa fervendo.
Este instrumento serve para regular o calor da estufa que de ordinario
monta athe 55 ou 60 graos; ha nas paredes, em distancias iguaes de 8 ou
10 pollegadas, varias travessas de pao pregadas, que servem de soster
dois varoẽs de ferro, sobre os quaes se poem as plantas a seccar dentro
de cestas de vime compridas, medeando contudo entre as plantas e as
cestas algumas folhas de papel.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas. Nas estufas ou sobre hum forno de padeira, em que [Página 454] successivamente se coze paõ, a dessiccaçaõ he mais rapida e melhor, por naõ ser interrompida; neste cazo as serapilheiras devem ficar penduradas, para que o ar possa circular livremente, o que naõ sera desacertado practicar taõbem, quando a dessiccaçaõ for feita ao sol.
Quando estivermos para seccar quaesquer partes vegetaes sera precizo antes mondalas das hervas inuteis, e separar as folhas velhas e fanadas; depois estender-se-haõ em cestas ou serapilheiras, de modo contudo que naõ fiquem amontoadas, e se exporaõ ao sol todo o dia, tendo cuidado de lhes mudar as superficies algumas vezes no dia, e de as retirar ao sol posto por causa da humidade da noyte; no dia seguinte tornar-se-haõ a por ao sol athe ficarem de todo seccas.folhas[Página 454]As raizes, troncos lenhosos, e cascas requerem huma dessicaçaõ mais appressada, em razaõ de conterem mais humidade; quanto às raizes, he precizo antes de as por a seccar alimparlhes a terra com huma serapilheira ou lavando-as rapidamente, cortar-lhes as raigotas filamentosas, partilas longitudinalmente ou transversalmente sendo grossas, e depois polas enfiadas a seccar; as que saõ delgadas naõ precizaõ de se cortar. Ha algumas que costumaõ guardar-se mettidas em area ou terra, como as da althea, escorcioneira, e armoracia, a fim de as conservar frescas; mas deve se advertir que guardadas muito tempo neste estado saõ sujeitas a vegetar e endurecer, e nesta circumstancia devem rejeitar-se como muito pouco efficazes. As raizes bolbosas compostas de cascos, como v. g. a cebola alvaraan, saõ difficeis de bem se seccar ao sol; o melhor sera se parar os seus cascos e mettelos a seccar no banho maria, a querelos ter perfeitamente privados de humidade.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas. As plantas aromaticas saõ susceptiveis de huma rapida dessiccaçaõ; mas he precizo saber regular os graos de calor e proporcionalos á volatilidade dos seus principios odorantes, e à quantidade da humidade. Ellas perdem na verdade [Página 455] durante a dessiccaçaõ, huma pequena porçaõ do seu aroma, e immediatamente depois parecem ter pouco cheiro, mas passados alguns dias amollecem hum tanto e ficaõ bastantemente cheirosas; as que saõ seccas à sombra saõ hum pouco mais aromaticas; porem ficaõ mais humidas, e a sua humidade costuma destruirlhes a cor, e he pouco favoravel à sua conservaçaõ.
Os troncos, ramos herbaceos, e as folhas requerem huma dessiccaçaõ mais ou menos prompta, segundo saõ mais ou menos succosas.folhas[Página 455]As flores costumaõ perder ordinariamente as suas cores na dessiccaçaõ, e para melhor lhas conservar he precizo, embrulhalas em papel e polas assim a seccar; deve-se-lhes conservar o calys, e arrancalo somente depois de passada a dessiccaçaõ, quando assim for necessario como nas violettas; os cravos, e rosas vermelhas parecem ser huma excepçaõ desta regra, porquanto so se costumaõ seccar as suas petalas, e ainda estas mesmas saõ antes privadas das unhas. Os fructos ordinariamente costumaõ por-se a seccar naõ muito maduros.
As sementes consideradas relativamente aos principios, e consistencia das
suas cotylédones podem ser divididas em oleosas, farinhosas e resinosas; as
oleosas propriamente saõ aquellas de que se pode tirar oleo por expressaõ,
como v. g. as do melaõ, melancia, abobara, pepino, nogueira, amendoeiras,
nabos, &c.; as farinhosas saõ as que naõ daõ oleo por expressaõ, e se
reduzem facilmente em po ou farinha, como o trigo, cevada, milho, favas,
ervilhas, tramoços, e outras da familia das gramineas, e das leguminosas; as
resinosas saõ aquellas em que o principio resinoso he predominante. As
sementes contem em geral menos humidade do que as demais partes das plantas,
e porisso basta polas a seccar em lugar secco e hum [Página 456] pouco quente; as farinhosas Nota
Em alguns paizes do norte da Europa
costumaõ seccar o trigo em estufas afim de o poderem bem conservar para
o uso domestico, e ainda mesmo para semear.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor. Ha muitos simples, que podem conservar-se muitos annos sem corrupçaõ, principalmente quando foraõ colhidos em annos favoraveis, mas os melhores em geral seraõ sempre aquelles que se renovarem todos os annos.
Quanto à conservaçaõ das plantas e suas partes, devem em geral ser preservadas de humidade e guardadas em lugares seccos; serà muito melhor metelas em frascos de bocca larga, ou vasos de argilla tapados com rolhas de cortiça, do que em bocetas forradas de papel; antes de se metterem nos dictos vazos devem ser sacudidas do pó, areas, e ovos dos insectos; os troncos, e ramos herbaceos, carregados de folhas , devem ter-se pendurados em cazas, aonde naõ haja humidade, nem demasiado calor.folhasAs sementes em geral conservaõ-se bem nos lugares seccos c frescos; as
oleosas costumaõ nos lugares humidos germinar dentro de pouco tempo, e
apanhar [Página 457] môfo, e nos lugares quentes adquirem ranço; porisso he necessario
conservalas em lugares seccos e temperados; as farinhosas saõ sujeitas às
mesmas alteraçoẽs nos lugares humidos, e nos quentes seccaõ-se
demasiadamente porisso sera acertado de as conservar quasi do mesmo modo; as
resinosas aindaque resistaõ mais tempo à humidade e se alterem menos com o
calor, contudo o melhor sera conservalas em lugares temperados. Guardaõ-se
embrulhadas em papel, em cabaços, saccos, frascos bem tapados,
&c. Nota
As sementes, que se guardaõ muito tempo em frascos tapados
sem serem barradas de cebo ou cera, saõ ordinariamente inuteis para a
vegetaçaõ; a humidade e gaz, que ellas exhalaõ dentro do frasco, e a
falta de renovaçaõ do ar interno saõ, segundo Pullein, a principal causa
da sua corrupçaõ.
Para se poderem conservar para a vegetaçaõ e remetter a paizes remotos, sem
que sejaõ alteradas nas longas viagens de mar, Linneo aconselha de as metter
em hum frasquinho cylindrico de vidro tapado com huma rolha de cortiça
envolta em hum boccado de pelle, e que depois disso se ponha este frasquinho
dentro de outro hum tanto mais largo, havendo o cuidado de encher o espaço,
que medea entre hum e outro, com hum misto feito de partes iguaes de sal
commum, e sal ammoniaco com o quadobro de [Página 458] nitro, assegurando que desta maneira o calor naõ pode de modo algum chegar
a penetralas. Alguns costumaõ cobrilas de assucar quando ellas tem hum
pericarpo polposo; outros cobrem-nas de cera, e barraõ-nas depois com
argilla amassada em huma dissoluçaõ forte de goma Arabia, embrulhaõ-nas
emfim em hum encerado, e as remettem dentro de huma caxa ou barril. Alguns
aconselhaõ taõbem de as cobrir de cebo ou de hum misto de partes iguaes de
cera e cebo, quando saõ grossas, e sendo miudas, de as involver primeiro em
argilla e depois em cebo, cera, &c.; a operaçaõ consiste em tomalas com
huma pequena tenaz e mettelas em cera ou cebo que nade derretido na
superficie de agoa quente, tirando-as immediatamente e lançando-as em agoa
fria. A cera ou qualquer tegumento artificial, com que as sementes forem
cobertas, naõ devem ser despegados, senaõ quando estas se quizerem semear;
neste periodo raspar-se-haõ às mais grossas os dictos tegumentos com toda a
cautella, e lavar-se-haõ as mais miudas em sabaõ e area fina, athe que a
casca fique livremente exposta ao contacto do ar e capaz de embeber a
humidade, e semear-se-haõ sem mais demora Os que dezejarem ter mais
extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados
seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the
East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on
the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis
pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel.
- Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della
perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens
traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio
frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi.
Viennae. 1765. As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente
preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em
agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em
as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da
electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado,
principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia
de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo
individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a
este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum
semine.Nota
Os que dezejarem ter mais extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel. - Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi. Viennae. 1765.
As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado, principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum semine.
Os que dezejarem ter mais extensas noçoẽs nesta materia podem consultar os Tractados seguintes.- Directions for bringing over seeds and plants from the East-Indies, by Ellis. Lond 1770. In-4. - Additional observations on the method of preserving seeds, by Ellis. Lond. 1774. in-4 - Avis pour le transport par mer des arbres, et des semences, par Du Hamel. - Traité de la conservation des grains, par le même. - Intieri della perfetta conservatione del grano. Deslandes, Recueil de differens traités de physique, pag. 91. - Plencitz Dissert. nova ratio frumenta aliaque legumina quamplurimis annis integra conservandi. Viennae. 1765.
As sementes destinadas à vegetaçaõ podem ser differentemente preparadas; estas preparacoẽs consistem em as macerar e amollecer em agoa, alcalis, saponaceos, substancias pingues, ou espirituosas; em as fertilizar por meyo de nitro de sal commum, ou por meyo da electricidade; em as curar das doenças, que as possaõ ter attacado, principalmente da fogagem, ou carie negra, por meyo de huma lexivia de cal viva e cinzas; e em as melhorar de algum modo para que o novo individuo que dellas nascer seja de melhor qualidade, &c. Vej. a este respeito Boehmeri Commentatio de plantarum semine.
Eu devera passar actualmente a tractar dos usos [Página 459] economicos dos vegetaes, mas como a extensaõ desta materia ainda mesmo
tractada em geral me faria exceder os curtos limites de hum Compendio,
deixala-hei aos que se occupaõ dos differentes ramos da Botanica applicada
ás artes. Ninguem ignora que os vegetaes, alem dos usos que tem em Medicina,
saõ empregados nos da Architectura civil, militar, e naval, subministraõ ao
homem huma grande diversidade de alimentos e bebidas, nutrem muitos animaes
que lhe saõ uteis, saõ a materia de que elle forma innumeraveis trastes
domesticos, instrumentos, vasilhas, &c servem nas tinturarias, e
manufacturas, em huma palavra saõ, como ninguem duvida, o fundamento da
Agricultura, a mais preciosa de todas as artes Nota
He huma maxima hoje
assaz bem reconhecida, que a Agricultura sendo animada he o verdadeiro
fundamento da provoacaõ e força dos Imperios; o solido esteio em que se
sostem as manufacturas, artes, e commercio, a fonte de que emana a sua
firme prosperidade; o thesoiro e verdadeiras minas de qualquer estado; o
unico meyo de enriquecer de contino tanto o vassalo como o soberano; e
emfim o melhor regresso para poder pagar as dividas publicas, e naõ
contrahir outras. Quesnay, Bandini, Boisgillebert, &c.
HUM hervario (herbarium) he huma collecçaõ de plantas seccas estendidas sobre
papel, ou nelle estampadas bem ao natural, e dispostas methodicamente. O
primeiro pode ser chamado hervario naturas e o segundo artificial, como he o
das plantas de França que M. Bulliard publicou e vay continuando. Hum e
outro saõ summamente uteis e necessarios a todos os que cultivaõ o estudo
dos vegetaes. Elles servem de nos fazer conservar por hum meyo commodo as
ideas das plantas, que ja temos observado, e nos conduzem com os systemas a
reconhecer sem hesitaçaõ os nomes das plantas, que jamais se tinhaõ
presentado vivas a nossos olhos. Alguns Botanicos preferem os herbarios
naturaes aos artificiaes; huns e outros tem suas vantagens e seus
inconvenientes; a maior parte das raizes, os fructos, e sementes, hum
grande numero de especies da familia do fungos, e plantas succulentas Nota
Ha algumas plantas succulentas , que se podem
conservar nos hervarios naturaes, mas ficaõ summamente
desfiguradas. Nota
Aindaque as flores e suas partes podem ser conservadas em
espirito de vinho, este modo naõ me parece contudo merecer de
ser perferido ao das estampas fieis, porquanto estas saõ mais
duraveis e mais livres de engano.
Todos os que se propoem de estudar Botanica devem começar por fazer huma
collecçaõ de plantas seccas: depois de terem ajuntado hum certo numero
nas herborizaçoẽs Nota
As herborizaçoẽs (herbationes, s. herborizationes) saõ passeios
ou caminhadas, que se fazem para apanhar ou observar plantas;
dizemse publicas, quando saõ feitas (hum dia na semana) na
companhia de hum professor de Botanica; e particulares, quando
naõ saõ presididas pelo dicto professor, como quando alguem
herboriza so, ou com hum hervolario, jardineiro, dois ou tres
amigos instruidos em Botanica, &c. Este era o principal divertimento do celebre philosopho Rousseau,
e de muitos outros; com effeito as plantas e flores dos campos
seraõ sempre o mais aprazivel objecto de meditaçoẽs do homem
sabio, que nellas encontra de contino evidentes provas da
immensa sabedoria do Deos da natureza. Nota
Nomenclar huma planta he dar-lhe o seu nome generico e especifico
(ou trivial) segundo hum systema adoptado; os principiantes
deveraõ para este fim consultar o seu professor, ou algum dos
seus condiscipulos bastantemente instruidos no conhecimento das
plantas do paiz, e naõ confiar na nomenclatura dos jardins
botanicos, que muitas vezes he errada por incuria ou ignorancia
dos jardineiros.
Ninguem deve esperar de poder conservar huma planta com toda a sua natural
belleza, seja qual for o modo de dessiccaçaõ que se haja de practicar;
porquanto ainda às mais bem dessiccadas perdem muito da sua fresca
apparencia. As dessiccaçoẽs, de que se servem os botanicos para conservar as
plantas no mais perfeito estado, que lhes he possivel, saõ feitas ou em area
ou por compressaõ. A dessiccaçaõ em area, attribuida a Joaõ Rodolpho
Camerario, consiste na operaçaõ seguinte. Lave-se huma sufficiente
quantidade de area fina afim de a privar de materias heterogeneas,
seque-se depois, e peneire-se para separar as partes grosseiras, de que
a lavagem a naõ pôde privar; feito isto, escolha-se para cada [Página 463] planta hum vaso de barro de forma e grandeza competente; escolha-se
taõbem a mais bella especie das plantas que se tiver ápanhado com flor,
em tempo secco e com hum tronco sufficiente: lance-se no fundo do vaso
huma pouca de area secca e quente e metta-se nelle a base do tronco da
planta destinada á dessiccaçaõ, sostentando-a com a area de modo que
nenhuma das partes da planta toque nas paredes lateraes do vazo,
continue-se a lançar area pouco a pouco athe cobrir a planta de maneira
que fique por cima della quasi a grossura de dois dedos de area; á
proporçaõ que esta se for lançando, ter-sehá o cuidado de estender os
ramos, folhas , e flores, sem
contudo as constranger, e de modo que fiquem na sua configuraçaõ, e
postura natural. Concluido este trabalho, ponha-se o vaso em huma estufa de cincoenta
graos de calor ou pouco menos Nota
Alguns em lugar de metter os vazos
em estufas costumaõ expolos ao ardor do sol, mas o calor das estufas
merece de ser preferido em razaõ de fazer a dessiccaçaõ mais
rapidamente. Nesta sorte de operaçaõ huma grande parte da materia
colorante das flores he ordinariamente bem conservada: as petalas
algumas vezes costumaõ despegar-se, principalmente quando o germe he
grosso como na tulipa, e porisso muitos costumaõ cortalo antes de
enterrar a flor na area, assegurando que por este meyo ellas
conservaõ bem a sua adherencia.
Aindaque as plantas assim dessiccadas conservem bem a sua forma de maneira
que porisso alguns lhes chamaõ mumias vegetaes, contudo tem o defeito de
ficarem mais volumosas e quebradiças, do que as [Página 464] dessiccadas por compressaõ, e porisso este segundo meyo he
ordinariamente hoje preferido, principal mente por ser mais simples, e
capaz de conservar as cores Nota
Ha algumas flores, de que he difficil
poder conservar a substancia colorante; as violettas saõ deste
numero, e o melhor modo, de que alguns se servem para lhes conservar
a cor, he escaldando-as em agoa fervendo, retirando-as
immediatamente, espremendo-as e seccando-as depois
rapidamente.Nota
O modo de seccar as plantas que proponho he exactamente
o mesmo que practicava o celebre Joaõ Jacques Rousseau, cujos
hervarios foraõ summamente admirados em Paris pela bella dessiccaçaõ
de suas plantas. Ha ainda outros modos mais simples, mas naõ me
parecem satisfazer ao intento taõ perfeitamente como o que exponho
aqui.Nota
Este papel he destinado para
estender as plantas depois de seccas e servir no hervario; e porisso
deve ser preparado do modo sobredicto a fim de contribuir para
preservar as plantas de serem roidas pelos insectos. Alguns molhaõ
este papel em huma preparaçaõ de aloe, alcanfor, plantas amargosas,
aromaricas, &c. e preferem esta preparaçaõ á da pedra hume, que
segundo elles altera a cor das flores mas eu naõ pude ainda observar
esta mudança, quando as flores tem sido antes bem
dessicadas.Nota
Alguns costumaõ em lugar das duas taboas servir-se do prelo em
que os livreiros costumaõ levemente apertar os livros somente
cozidos, a que chamaõ em França brochures; e na verdade este
instrumento he assaz commodo para regular a compressaõ. Nota
Assim como ha plantas que basta mudalas duas vezes de papel para
ficarem seccas, ha taõbem outras que precizaõ de ser mudadas ao
menos seis vezes para perderem a sua humidade; as que saõ succulentas precizaõ de ser mudadas de papel mais a
miudo, e requerem huma dessiccaçaõ tanto mais accelerada, quanto
maior he a abundancia dos seus succos.
Depois que as partes da planta tiverem perdido a sua flexibilidade por meyo
das operaçoẽs feitas no papel pardo e papelloẽs, e que nos parecerem estar
seccas, passar-se-ha a dicta planta a huma folha de papel branco (n. 3º), e
se deixará ficar nelle ainda alguns dias a fim de perder completamente a
humidade, que nos pode ter escapado de perceber. Terminada assim a
dessiccaçaõ por-se há a planta em huma folha de papel branco competente
(n. 4º), e nelle se firmará o seu tronco, ramos, e ainda mesmo as folhas maiores, com fittinhas, ou
pequenas tiras estreitas de papel pegadas com colla de peixe Nota
Alguns naõ usaõ das tiras de papel, ou pedacinhos de fitta, e
collaõ na folha todo o corpo da planta com colla de peixe; mas
este modo naõ deixa o papel taõ aceado como o sobredicto. Os organos da fructificaçaõ, que convem de ajuntar (sendo
possivel) a cada planta, devem ser dessiccados á parte, e se
collaraõ depois, ao lado da planta a que pertencem.Nota
A descripçaõ
historica trabalhada em toda a extensaõ, de que he susceptivel, deve
ser feita em cadernos separados, por naõ fazer os hervarios
demasiadamente volumosos.
Tanto que se houver dessiccado do modo sobredicto hum certo numero de
plantas sufficiente para começar a fazer hum hervario, distribuir-se-haõ
me thodicamente, isto he, por-se-haõ todas as congeneres seguidas
successivamente Nota
No cazo que se hajaõ dessiccado algumas
variedades, terse-ha o cuidado de as por immediatamente depois da
sua especie respectiva.Nota
Os generos de cada
ordem, que tiverem mais affinidade, devem ficar approximados.Nota
As brochuras (do Franc. brochure) saõ, como
ja indiquei, livros somente cozidos, e levemente apertados; as suas
folhas naõ foraõ batidas nem aparadas, e se usaõ assim em Franca
cobertos com huma capa de duas folhas de papel colladas.Nota
Elle podera conter dobrado numero de plantas, se lhe derem
dobrada largura da que proponho aqui, como se entende
facilmente.
O vaõ, ou espaço interno do armario deve ter de altura cinco pés e dez pollegadas (medida de Paris), quasi dois pés de largo, e pouco mais de hum pé de fundo. Repartir-se-ha este vaõ em duas metades iguaes ao alto por meyo de duas taboas aprumadas, formar-se-haõ nas dictas duas metades vinte e quatro parteleiras por meyo de travessas ou taboinhas horizontaes da grossura de meya pollegada. No lado direito haveraõ onze parteleiras e dez travessas. Cada huma destas parteleiras he destinada a receber as bocetas de plantas relativas a cada huma das vinte e quatro classes do systema mencionado, e devem ter mais ou menos pollegadas de altura, segundo o menor ou maior numero de vegetaes que costumaõ ter as dictas classes. A sua destribuiçaõ e altura adequada deve ser da maneira seguinte.
[Página 469]A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6Este armario sera fechado com duas portas correspondentes aos dois lados sobredictos, e em cada huma dellas se poraõ tantos lettreiros quantas forem as parteleiras do seu lado. Cada lettreiro deve conter o nome de huma das vinte e quatro classes do systema de Linneo, ser escrito com lettras bem legiveis, e collado exactamente defronte da parteleira, que deve conter a boceta notada com outro lettreiro semelhante.
Reclusas as pantas seccas nas bocetas, e estas nas parteleiras respectivas do
Armario construido do modo que fica exposto, naõ havera difficuldade alguma
em achar dentro de poucos minutos huma planta que dezejamos mostrar. Supponhamos por ex. que quero mostrar a hum Botanico a Cleonia
lusitanica; se me esqueço da classe, consulto o Genera plantarum de
Linneo, e pelo index venho em continente a conhecer que esta planta
pertence á Didynamia; lanço por conseguinte a vista sobre os lettreiros
collados nas portas do armario Nota
Pode-se abbreviar ainda esta
pesquiza procurando directamente a Didynamia gymnospermia nos
lettreiros postos na face anterior das bocetas, no cazo que sejaõ
escritos com lettras taõ grandes, como as dos lettreiros das portas
do armario; demais disso hum pouco de uso bastará para fazer
derepente lançar maõ da boceta relatira à classe e ordem que
buscamos.
HUM hervario (herbarium) he huma collecçaõ de plantas seccas estendidas sobre
papel, ou nelle estampadas bem ao natural, e dispostas methodicamente. O
primeiro pode ser chamado hervario naturas e o segundo artificial, como he o
das plantas de França que M. Bulliard publicou e vay continuando. Hum e
outro saõ summamente uteis e necessarios a todos os que cultivaõ o estudo
dos vegetaes. Elles servem de nos fazer conservar por hum meyo commodo as
ideas das plantas, que ja temos observado, e nos conduzem com os systemas a
reconhecer sem hesitaçaõ os nomes das plantas, que jamais se tinhaõ
presentado vivas a nossos olhos. Alguns Botanicos preferem os herbarios
naturaes aos artificiaes; huns e outros tem suas vantagens e seus
inconvenientes; a maior parte das raizes, os fructos, e sementes, hum
grande numero de especies da familia do fungos, e plantas succulentas Nota
Ha algumas plantas succulentas , que se podem
conservar nos hervarios naturaes, mas ficaõ summamente
desfiguradas. Nota
Aindaque as flores e suas partes podem ser conservadas em
espirito de vinho, este modo naõ me parece contudo merecer de
ser perferido ao das estampas fieis, porquanto estas saõ mais
duraveis e mais livres de engano.
Todos os que se propoem de estudar Botanica devem começar por fazer huma
collecçaõ de plantas seccas: depois de terem ajuntado hum certo numero
nas herborizaçoẽs Nota
As herborizaçoẽs (herbationes, s. herborizationes) saõ passeios
ou caminhadas, que se fazem para apanhar ou observar plantas;
dizemse publicas, quando saõ feitas (hum dia na semana) na
companhia de hum professor de Botanica; e particulares, quando
naõ saõ presididas pelo dicto professor, como quando alguem
herboriza so, ou com hum hervolario, jardineiro, dois ou tres
amigos instruidos em Botanica, &c. Este era o principal divertimento do celebre philosopho Rousseau,
e de muitos outros; com effeito as plantas e flores dos campos
seraõ sempre o mais aprazivel objecto de meditaçoẽs do homem
sabio, que nellas encontra de contino evidentes provas da
immensa sabedoria do Deos da natureza. Nota
Nomenclar huma planta he dar-lhe o seu nome generico e especifico
(ou trivial) segundo hum systema adoptado; os principiantes
deveraõ para este fim consultar o seu professor, ou algum dos
seus condiscipulos bastantemente instruidos no conhecimento das
plantas do paiz, e naõ confiar na nomenclatura dos jardins
botanicos, que muitas vezes he errada por incuria ou ignorancia
dos jardineiros.
Ninguem deve esperar de poder conservar huma planta com toda a sua natural
belleza, seja qual for o modo de dessiccaçaõ que se haja de practicar;
porquanto ainda às mais bem dessiccadas perdem muito da sua fresca
apparencia. As dessiccaçoẽs, de que se servem os botanicos para conservar as
plantas no mais perfeito estado, que lhes he possivel, saõ feitas ou em area
ou por compressaõ. A dessiccaçaõ em area, attribuida a Joaõ Rodolpho
Camerario, consiste na operaçaõ seguinte. Lave-se huma sufficiente
quantidade de area fina afim de a privar de materias heterogeneas,
seque-se depois, e peneire-se para separar as partes grosseiras, de que
a lavagem a naõ pôde privar; feito isto, escolha-se para cada [Página 463] planta hum vaso de barro de forma e grandeza competente; escolha-se
taõbem a mais bella especie das plantas que se tiver ápanhado com flor,
em tempo secco e com hum tronco sufficiente: lance-se no fundo do vaso
huma pouca de area secca e quente e metta-se nelle a base do tronco da
planta destinada á dessiccaçaõ, sostentando-a com a area de modo que
nenhuma das partes da planta toque nas paredes lateraes do vazo,
continue-se a lançar area pouco a pouco athe cobrir a planta de maneira
que fique por cima della quasi a grossura de dois dedos de area; á
proporçaõ que esta se for lançando, ter-sehá o cuidado de estender os
ramos, folhas , e flores, sem
contudo as constranger, e de modo que fiquem na sua configuraçaõ, e
postura natural. Concluido este trabalho, ponha-se o vaso em huma estufa de cincoenta
graos de calor ou pouco menos Nota
Alguns em lugar de metter os vazos
em estufas costumaõ expolos ao ardor do sol, mas o calor das estufas
merece de ser preferido em razaõ de fazer a dessiccaçaõ mais
rapidamente. Nesta sorte de operaçaõ huma grande parte da materia
colorante das flores he ordinariamente bem conservada: as petalas
algumas vezes costumaõ despegar-se, principalmente quando o germe he
grosso como na tulipa, e porisso muitos costumaõ cortalo antes de
enterrar a flor na area, assegurando que por este meyo ellas
conservaõ bem a sua adherencia.
Aindaque as plantas assim dessiccadas conservem bem a sua forma de maneira
que porisso alguns lhes chamaõ mumias vegetaes, contudo tem o defeito de
ficarem mais volumosas e quebradiças, do que as [Página 464] dessiccadas por compressaõ, e porisso este segundo meyo he
ordinariamente hoje preferido, principal mente por ser mais simples, e
capaz de conservar as cores Nota
Ha algumas flores, de que he difficil
poder conservar a substancia colorante; as violettas saõ deste
numero, e o melhor modo, de que alguns se servem para lhes conservar
a cor, he escaldando-as em agoa fervendo, retirando-as
immediatamente, espremendo-as e seccando-as depois
rapidamente.Nota
O modo de seccar as plantas que proponho he exactamente
o mesmo que practicava o celebre Joaõ Jacques Rousseau, cujos
hervarios foraõ summamente admirados em Paris pela bella dessiccaçaõ
de suas plantas. Ha ainda outros modos mais simples, mas naõ me
parecem satisfazer ao intento taõ perfeitamente como o que exponho
aqui.Nota
Este papel he destinado para
estender as plantas depois de seccas e servir no hervario; e porisso
deve ser preparado do modo sobredicto a fim de contribuir para
preservar as plantas de serem roidas pelos insectos. Alguns molhaõ
este papel em huma preparaçaõ de aloe, alcanfor, plantas amargosas,
aromaricas, &c. e preferem esta preparaçaõ á da pedra hume, que
segundo elles altera a cor das flores mas eu naõ pude ainda observar
esta mudança, quando as flores tem sido antes bem
dessicadas.Nota
Alguns costumaõ em lugar das duas taboas servir-se do prelo em
que os livreiros costumaõ levemente apertar os livros somente
cozidos, a que chamaõ em França brochures; e na verdade este
instrumento he assaz commodo para regular a compressaõ. Nota
Assim como ha plantas que basta mudalas duas vezes de papel para
ficarem seccas, ha taõbem outras que precizaõ de ser mudadas ao
menos seis vezes para perderem a sua humidade; as que saõ succulentas precizaõ de ser mudadas de papel mais a
miudo, e requerem huma dessiccaçaõ tanto mais accelerada, quanto
maior he a abundancia dos seus succos.
Depois que as partes da planta tiverem perdido a sua flexibilidade por meyo
das operaçoẽs feitas no papel pardo e papelloẽs, e que nos parecerem estar
seccas, passar-se-ha a dicta planta a huma folha de papel branco (n. 3º), e
se deixará ficar nelle ainda alguns dias a fim de perder completamente a
humidade, que nos pode ter escapado de perceber. Terminada assim a
dessiccaçaõ por-se há a planta em huma folha de papel branco competente
(n. 4º), e nelle se firmará o seu tronco, ramos, e ainda mesmo as folhas maiores, com fittinhas, ou
pequenas tiras estreitas de papel pegadas com colla de peixe Nota
Alguns naõ usaõ das tiras de papel, ou pedacinhos de fitta, e
collaõ na folha todo o corpo da planta com colla de peixe; mas
este modo naõ deixa o papel taõ aceado como o sobredicto. Os organos da fructificaçaõ, que convem de ajuntar (sendo
possivel) a cada planta, devem ser dessiccados á parte, e se
collaraõ depois, ao lado da planta a que pertencem.Nota
A descripçaõ
historica trabalhada em toda a extensaõ, de que he susceptivel, deve
ser feita em cadernos separados, por naõ fazer os hervarios
demasiadamente volumosos.
Tanto que se houver dessiccado do modo sobredicto hum certo numero de
plantas sufficiente para começar a fazer hum hervario, distribuir-se-haõ
me thodicamente, isto he, por-se-haõ todas as congeneres seguidas
successivamente Nota
No cazo que se hajaõ dessiccado algumas
variedades, terse-ha o cuidado de as por immediatamente depois da
sua especie respectiva.Nota
Os generos de cada
ordem, que tiverem mais affinidade, devem ficar approximados.Nota
As brochuras (do Franc. brochure) saõ, como
ja indiquei, livros somente cozidos, e levemente apertados; as suas
folhas naõ foraõ batidas nem aparadas, e se usaõ assim em Franca
cobertos com huma capa de duas folhas de papel colladas.Nota
Elle podera conter dobrado numero de plantas, se lhe derem
dobrada largura da que proponho aqui, como se entende
facilmente.
O vaõ, ou espaço interno do armario deve ter de altura cinco pés e dez pollegadas (medida de Paris), quasi dois pés de largo, e pouco mais de hum pé de fundo. Repartir-se-ha este vaõ em duas metades iguaes ao alto por meyo de duas taboas aprumadas, formar-se-haõ nas dictas duas metades vinte e quatro parteleiras por meyo de travessas ou taboinhas horizontaes da grossura de meya pollegada. No lado direito haveraõ onze parteleiras e dez travessas. Cada huma destas parteleiras he destinada a receber as bocetas de plantas relativas a cada huma das vinte e quatro classes do systema mencionado, e devem ter mais ou menos pollegadas de altura, segundo o menor ou maior numero de vegetaes que costumaõ ter as dictas classes. A sua destribuiçaõ e altura adequada deve ser da maneira seguinte.
[Página 469]A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe I. tera 2 pollegadas.
II......3
III....6
IV .......5
V ........ 14
VI .......... 6
VII............2
VIII..........3
IX........2
X.......7
XI.........3
XII.........5
XIII......6
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
A da classe XIV. terá 10 polegadas.
XV...5
XVI..... 4
XVII.....8
XVIII ..... 3
XIX....12
XX.....3
XXI.......5
XXII.......5
XXIII.......3
XXIV.........7
64 + 6Este armario sera fechado com duas portas correspondentes aos dois lados sobredictos, e em cada huma dellas se poraõ tantos lettreiros quantas forem as parteleiras do seu lado. Cada lettreiro deve conter o nome de huma das vinte e quatro classes do systema de Linneo, ser escrito com lettras bem legiveis, e collado exactamente defronte da parteleira, que deve conter a boceta notada com outro lettreiro semelhante.
Reclusas as pantas seccas nas bocetas, e estas nas parteleiras respectivas do
Armario construido do modo que fica exposto, naõ havera difficuldade alguma
em achar dentro de poucos minutos huma planta que dezejamos mostrar. Supponhamos por ex. que quero mostrar a hum Botanico a Cleonia
lusitanica; se me esqueço da classe, consulto o Genera plantarum de
Linneo, e pelo index venho em continente a conhecer que esta planta
pertence á Didynamia; lanço por conseguinte a vista sobre os lettreiros
collados nas portas do armario Nota
Pode-se abbreviar ainda esta
pesquiza procurando directamente a Didynamia gymnospermia nos
lettreiros postos na face anterior das bocetas, no cazo que sejaõ
escritos com lettras taõ grandes, como as dos lettreiros das portas
do armario; demais disso hum pouco de uso bastará para fazer
derepente lançar maõ da boceta relatira à classe e ordem que
buscamos.
Fim do Tomo primeiro.
Fim do Tomo primeiro.